Isso não é...

34 Isso não é uma conversa.


Notas iniciais
Olá, olá. A música é Girls Talk Boys da minha banda favorita, 5SOS (e se alguém souber em qual parte do filme ela aparece, eu agradeceria - assisti o filme todinho, até os créditos, e não a ouvi, mas sou surda...) - https://youtu.be/0MXldocLfu4

When you're talking to your girls

Do you talk about me?

(Quando você está conversando com suas amigas

Você fala de mim?)

34-Isso não é uma conversa. (Quem conversa hoje em dia?)

Quinta-feira, 12 de Maio de 2016

Deitada na cama, olhando fixamente para o teto, Julie encarava as opções a sua frente. De um lado estava desistir, do outro, lutar. Era difícil escolher o que fazer. Desistir do primeiro garoto que você está apaixonada ou lutar por ele? A balança pensava perigosamente apenas para um lado, era até uma escolha injusta porque, dentre as varias coisas que Julie não gostava de fazer, no topo delas estava desistir.

Desistir queria dizer que você não acredita em si – e Julie acreditava bastante em si, mais do que seria saudável. Desistir significava não lutar pelo que você queria... E Julie lutaria por Ashton. Ele era um idiota por acreditar no contrário. Pensando bem, ela também era uma idiota, pois fazia o mesmo.

E para piorar a situação, Julie era uma idiota doente. Sua gripe não tinha passado. Se algo tinha acontecido foi que ela tornou-se pior, pois Julie estava mal. Muito mal. Mal do tipo mal mal; que não quer nem sair de casa de tão mal que está. Tudo o que Julie queria era se deitar na sua cama e ser sugada por ela – para ela – levada para outro lugar que não precisasse se olhar no espelho e pudesse comprovar quão mal estava. Não que Julie fosse olhar para o espelho de qualquer jeito. Ela não olhava nos seus dias bons, imagine nos ruins.

—Hum, Julie?

Piscando de volta a realidade – e tentando focar em algo depois de tanto tempo encarando o teto sem piscar – Julie olhou para a porta e piscou novamente. Aquela era a Demi? Com toda certeza aquela garota indecisa quanto a entrar ou não no seu quarto era Demi.

Vê-la indecisa não era uma novidade para Julie, assim como era normal vê-la querendo desistir; toda essa situação era algo mais cotidiano do que Julie iria querer admitir – embora não tivesse problemas em admitir isso, o problema estava em Julie aceitar isso. Como ela podia ser amiga de uma pessoa que desistia tão fácil? Mas é claro que Julie não iria desistir de Demi só porque ela mesma desistiu dela mesma, caso contrario não seria tão diferente de Demi. E Julie não desistia!

—Quem é vivo sempre aparece – murmurou Julie finalmente, depois de um momento de encará-la encarando os próprios pés.

E quando Demi recuou, Julie tentou não fazer o mesmo. Julie também sabia o que mais aconteceria: Demi pararia de falar. E não seria fácil ajudar Demi se ela parasse de falar, como normalmente acontecia se ela ficava nervosa.

Ficar perto de muitas pessoas desconhecidas também tinha esse feito sobre Demi, assim como ficar perto de poucas pessoas desconhecidas e pessoas não desconhecidas que ela não gostava. Embora Demi nunca tenha parecido ter esse problema com Julie.

Não que Demi tivesse falado pelos cotovelos desde que Julie se aproximou dela, mesmo agora, depois de tanto tempo de amizade, ela não falava pelos cotovelos. E ter ouvido-a falar – tudo bem que era mais para xingá-la – pelos cotovelos deixou Julie feliz. Ter demorado quatro dias para aparecer na sua frente? Não. E Julie tinha o sentimento que Demi só estava na sua frente porque ela não tinha ido para a escola a semana inteira, mas Julie estava disposta a deixar isso de lado, pois...

As únicas pessoas que Demi falava pelos cotovelos era sua família e Michael. Demi não se controlava realmente quando estava perto de Mike – era uma cena impressionante – e, apesar de toda relação conturbada entre eles, Julie gostava daquilo – Demi e Michael eram bastante semelhantes e combinavam perfeitamente, era o que seu lado romântico e prático falava – e ela queria ter algo assim com Demi.

Julie queria que a amizade com Demi fosse com xingamentos, brigas e desculpas, como era com seus outros amigos que não era apenas seus amigos, que era uma parte da sua família. Ela gostava de amizades como a que tinha com Luke – irmãos é que são conhecidos por brigarem e fazerem as pazes, principalmente os gêmeos – e com Calum – irmãos adotivos estão no mesmo balaio – e, surpreendentemente, Ashton era a próxima pessoa e não Michael ou Demi – Demi entrou agora – o que não era tão surpreendente dado ao fato de Julie estar gostando dele. Ela não conseguiria se apaixonar por uma pessoa se não estivesse com ela numa boa e sólida base de amizade... Julie esperava que não.

E isso trouxe uma nova questão: se Michael fosse o próximo da fila – Luke e Calum não contavam porque eram seus irmãos – Julie teria se apaixonado por ele? Não, decidiu-se Julie sem pensar. Eu nunca jogaria pimenta no olho de ninguém, quer ela merecesse ou não... Bem, se uma pessoa realmente merecesse, Julie jogaria.

—O que você está fazendo aqui?

Isso Julie, mais educada impossível, parabenizou-se Julie. Entretanto ela estava irritada com a Demi. Por que ela não podia apenas dizer o que queria ao invés de ficar guardando tudo para si? Além do mais, ajudar Demi não significava deixar as coisas mais fáceis para ela.

E os lucros foram instantâneos, pois Demi entrou no quarto. E, sinceramente, Julie não sabia se ela iria ou não entrar. Embora tenha sentido que andou um passo para frente e deu três para trás quando Demi começou a sinalizar.

“Me desculpe pelo que eu te disse sábado” sinalizou Demi.

Há quanto tempo Demi não usava a linguagem dos sinais para se comunicar com Julie? Julie poderia dizer desde que ela mesma aprendeu sobre linguagens dos sinais.

Sua estadia no hospital não foi completamente inútil, Julie supunha, pois ela teve bastante tempo consigo mesma – o que não foi uma coisa boa realmente; aprendeu linguagem dos sinais com Demi; Calum lhe apresentou a cultura oriental – nem sempre Julie tinha companhia e precisava fazer algo além de olhar para o teto branco, as paredes brancas, o piso branco e o cheiro branco (alvejante; Julie odiava alvejante); ela ficou mais próxima de Luke – embora Julie não soubesse como isso era possível, a ligação entre eles era realmente algo “carne e unha, alma gêmea”; Michael... Julie não sabia o que ele tinha feito para ela. Ter estado ao lado dela sem dizer nada? Ter fingido que tudo estava como antes? Michael era tão bom quanto Demi em desistir – se bem que ele nem tinha tentando para começo de conversa aceitar a realidade. (Julie justificava ter compactuado com isso pelo simples motivo de não ter desistido de como as coisas tinha sido, embora, pensando bem, ter feito isso também significava não ter aceitado os fatos.); e, é claro, Julie se reencontrou com Ashton.

Contudo os prós não superavam os contras: o motivo de Julie está ali – o acidente que levou seu pai; o motivo de Julie continuar ali – que tinha relação direta com as cicatrizes nas suas pernas; o motivo da relação dela e sua mãe não estar tão bem quanto antes. Não que ela fosse uma maravilha antes – Julie sempre foi mais próxima do seu pai, eles se entendiam com um olhar, assim como acontecia com Julie&Luke – ou estivesse horrorosa agora, só que...

De vez em quando, Julie sentia como se sua mãe estivesse olhando-a como se ela fosse a culpada. Como se o acidente de carro fosse sua culpa. Como se o motorista do outro carro estivesse bêbado por causa dela; que o carro tinha capotado porque ela gritou assustada ao acordar e ver um carro vindo rapidamente em sua direção e seu pai tinha virado o volante com tudo... Julie sabia que não era sua culpa – nem seu terapeuta pareceu acreditar quando tentou (inutilmente) fazer Julie aceitar que não era sua culpa (embora ela soubesse que não fosse) – mas sua mãe olhava-a de vez em quando como se fosse...

Julie devia estar realmente mal – mal três vezes: mal mal mal – para estar se relembrando de tantas coisas negativas. E para que Demi superasse seus problemas e falasse com ela – falasse realmente, com voz e tudo mais. Se bem que Demi só disse uma palavra. Apenas o nome dela. E a pergunta que ela mais odiava.

—Julie? Você está bem?

—Oh, sim. Maravilhosamente bem. Não tão bem quanto te ver me acusando de estar me agarrando com Michael, mas bem – disse Julie, revirando os olhos. E acrescentou depois quando Demi olhou-a em duvida: – Eu não estava me agarrando com Michael, Demi!

—Certo – murmurou ela, sentando-se cautelosa no canto da cama. – Só estava me certificando...

—Isso não é algo para se certificar, é só acreditar – exigiu Julie. Era tão difícil assim?— Se eu digo que não, como amiga, você deve acreditar em mim...

“Você...” Demi começou a sinalizar, mas parou ao ver os olhos afiados de Julie sobre ela. E recomeçou, usando a voz em vez das mãos, lenta e indecisa, como se a voz não lhe pertencesse, como se não a reconhecesse:

—Você... Você me... Me chamou de amiga – disse Demi, embora tenha saído mais como uma pergunta.

Julie revirou os olhos. Conversar com Demi era um constante revirar de olhos e afirmações óbvias. Ela devia estar acostumada à altura do campeonato, mas isso ainda dava-a uma vontade de revirar os olhos. E foi o que ela fez.

—Não. Eu não te chamei de amiga.

—Você chamou – repetiu Demi. Sorrindo. Sorrindo por ter sido chamada de amiga por Julie (Ela tinha admitido que as duas eram amigas!) e por Julie não estar com raiva dela como imaginara inicialmente.

—Assim como você me chamou de vadia? – perguntou Julie. Ela não estava indo confirmar essa historia de “amiga” ou deixar as coisas mais fáceis para Demi.

—Desculpe – disse Demi, rapidamente, e ficou de pé. E se antes ela não falava pelos cotovelos, agora parecia que era tudo que sabia fazer: – Eu disse tudo aquilo porque estava com raiva de você. Eu não sei o que deu em mim! Mas você queria o que também?! Achei que você soubesse o que é que... eu sinto, mas se você não sabe? Se eu estou supondo as coisas como sempre e estou errada? Enfim, eu subo as escadas e encontro você e Michael deitados numa cama, ai ele te diz “só tenho olhos para você, amor”.

Demi ate fez uma voz grave, mas não deu tempo para Julie elogiá-la. Ela não estava nem respirando ao falar tudo aquilo ou parou de andar algum momento. E Julie percebeu que era mais fácil ela morrer por falta de ar ou criar um buraco no piso do que parar de falar e decidiu deixá-la dizer tudo que quisesse, embora soubesse que seria difícil manter-se calada. Aquele era O momento decisivo para Demi e Julie ficaria calada – embora fosse difícil – e a ouviria – mais uma coisa difícil. Não era sua culpa que sua mente teimava em vagar!

—Você quer que eu pense o que? Você é... – disse Demi, frustrada por quem Julie era. – Você. E todos os garotos querem alguém como você. Um, você é linda. – Julie não iria discordar. – Dois, você é tudo que qualquer garoto iria querer! – Julie tentou não dizer que ela já tinha dito isso antes com outras palavras. – Você sabe tudo sobre esporte, seja qual for. Futebol, basquete, natação, vôlei... Joga videogame, é engraçada, não é tímida, sabe flertar...

—Você está me deixando envergonhada – interrompeu Julie. Revirando os olhos, é claro. – E irritada. Você não sabe nada sobre garotos, Demi. – Mais um revirar de olhos. – O que você sabe sobre garotos?

—Michael gosta de você – soltou Demi. E ficou vermelha.

—Você não sabe nada sobre garotos – afirmou Julie, revirando os olhos. E não ficou feliz tanto quanto achou que ficaria se Demi não dissesse algo óbvio. Julie preferia o óbvio do que fatos errôneos. – Ouça-me Demi, só vou dizer uma vez: garotos não gostam do que dizem gostar. Eles dizem “eu amaria ter uma garota que não se arruma tanto, que saiba fazer isso e aquilo”, mas tudo isso é pura mentira. Cristo, você acredita nisso?! Eles dizem que querem uma garota sem toda essa frescura, mas... Arg, não. – Julie nem precisou fingir o arrepio de repulsa por alguém gostar de uma garota com frescuras, mas cada um com seu gosto. – Garotos gostam de reclamar. De encontrar defeito.Não caia nessa – avisou Julie, antes de voltar ao assunto: – E para quê é que eles vão querer alguém igual a si? Eles gostam de toda essas frescuras, embora dizem não gostar, porque são um bando de hipócritas machistas que querem se sentir valorizados. Pensando, acredito eu, que elas, as garotas, estão se vestindo para eles. Eles! Os babacas, inúteis, acéfa...

—Você gosta dele? – perguntou Demi, cansada de toda aquela enrolação. Quando Julie começava a enrolar, nada de bom acontecia...

—Você estava me ouvindo? – perguntou Julie em retorno, mas Demi continuou não a ouvindo. Por fim, Julie suspirou e revirou o olhos para enfim responder: – Não. Eu não gosto dele, Demi. Não se preocupe. Descobri que tenho um gosto por idiotas.

—Michael é um idiota – afirmou Demi, sem entender.

E Julie riu, tossindo exageradamente para disfarçar. Aquela confusão sincera dela era adorável e Julie não poderia fazer nada além de tossir para se ajudar.

—Mas um idiota com boas notas – explicou Julie, frustrada por ter que explicar algo que era simples. Que deveria ser simples. – O meu grau é mais profundamente inferior, então para conciliar comigo teria que ser uma pessoa emocional. E idiota.

—Você não gosta do Michael?

Demi não entendia a lógica de Julie, mas tentava acompanhá-la. Primeiro, Julie não gostava de Michael? Demi poderia apostar que sim. Segundo, quem se encaixa nas categorias dela? Quem se encaixava nos padrões altos de Julie? – Demi suponha que fossem altos, tudo com Julie era sobre padrões altos.

—Esqueça eu e o Michael. A questão é – continuou Julie, seguindo os passos da amiga e ignorando-a – você gosta do Michael, Michael gosta de você...

—Michael gosta de mim? – repetiu Demi. E mais uma vez: – Michael gosta de mim?

—Então qual é o problema? Eu simplesmente não aguento essa enrolação entre vocês dois!

—Michael gosta de mim? Tem certeza?

—Você está cega? – questionou Julie. – É óbvio que ele gosta! Michael ainda está no primário, onde garotos gostam de perturbar a menina que gosta, colocando chiclete no cabelo e o pé na frente para te fazer cair. Você é cega?

—Ela sempre foi assim desde que parou de falar comigo – retrucou Demi, não reconhecendo o óbvio. Julie definitivamente gostava mais dela quando ela o fazia.

—Pois é – concordou Julie, enfática, e apontou o dedo. – Essa é a questão! Ele mal tirava os olhos de você na primeira semana sem falar contigo. E no outro dia do baile apareceu aqui perguntando como você estava...

—Ele perguntou realmente? Michael disse “como Demi está?” – perguntou Demi, fazendo aspas e não a voz. Julie também preferia a voz; Demi sabia fazer uma imitação maravilhosa! – Se ele ligasse realmente para mim, ele teria falado comigo no outro dia e pedido desculpa!

—Bem, não – murmurou Julie. – Ele não disse. Mas eu não sou uma idiota!

—Você parece uma idi... Arg, ate quando estou falando dele eu pareço outra pessoa. E eu não gosto disso...

—Eu gosto – interrompeu Julie. – Você fica nervosa perto do Michael?

—Sim, mas...

—Mas mesmo assim consegue falar normalmente quando está com ele, não é?

—Sim, mas...

—Você gosta dele, não é?

—Sim, mas... – Percebendo o que confessou, Demi arregalou os olhos e começou a negar: – Espere, não. Não, não, não, não...

—E eu gosto do Ashton – continuou Julie, esperando que isso passasse despercebido.

Ela não queria contar isso a Demi – ela não queria contar isso a ninguém para falar a verdade, por que não podia deixar isso para si mesma – e só disse ao Michael porque não tinha outra opção... Pensando bem, Julie não sabia por que Michael foi o primeiro a saber, ela podia muito bem não ter dito nada a ele, negado ate a morte qualquer afirmação dele, então porque? Porque Julie não fazia sentido e decidiu contar do mais fácil para o mais difícil – e para a única pessoa que não iria julgá-la por ter material para chantagem. O que Michael iria dizer quando estava ele próprio apaixonado por uma garota e se recusa a dizer algo a ela?

—Eu sei... – murmurou Demi ate perceber que Julie não falava mais dela. – Espere, e-eu não sabia. Você gosta do Ashton? Ashton, seu amigo? Ashton Irwin, aquele...

—Você está tentando a mesma reação do Michael – comentou Julie, voltando a olhar para o teto.

—Mas é que...

—Eu sei. Ele é um idiota, eu disse. Mas é a vida. Carpe diem. Hakuna Matata.

—Você parece você mesma – disse Demi depois de um tempo – quando está, ou fala, do Ashton.

—Eu sei.

—Estou com inveja.

Notas finais
Se qualquer coisa ficou confusa, digam para eu esclarecer - e/ou refazer o capitulo. (Acho que ficou um pouco confusa) Aceito criticas! Conversar é muito importante, muito, muito mesmo. Quem quer conversar comigo?