Isso não é...

61 Isso não é metamorfose.


Notas iniciais
Metamorfose... Eu gosto dessa palavra. Metamorfose. Hum, o gosto é tão bom. Imagine escrever um capitulo completo, pesquisar um monte de coisa para ter uma base verídica, quando sem explicação o arquivo some? Estou tentando não pensar sobre isso. Me concentrei no fato de dois bebês (livros) terem finalmente chegado ao lar, doce lar deles. Stone Walls (eu amo a música e vídeo) - https://youtu.be/ZNoMqr6wPhE

I can feel the faith is gone

Even though it's all you've wanted

(Eu posso sentir a fé está indo embora

Mesmo que isso seja tudo o que você sempre quis)

61-Isso não é metamorfose. (Essa é quem você quer ser?)

Sábado, 28 de maio.

A semana mais difícil da vida de Ashton foi a semana do seu aniversário, refletiu ele. Nem quando tinha seis anos e perguntava-se o que iria ganhar de presente – andando sobre as pontas dos pés e vasculhando a casa toda a procura dele – ele ficou tão excitado assim, não porque queria saber o que iria ganhar, mas porque seu aniversário parecia que seria o único momento que teria sozinho com a Julie. A própria Julie tinha lhe dito isso e ela levava sua palavra a sério. Ashton estava levando a palavra dela a sério para manter a sanidade naquele lugar.

Enquanto muitas pessoas estavam excitadas para o baile do final do ano, Ashton para estar a sós com Julie, a própria Julie estava para o seu tão aguardado RPG Live Action, em que ela era a Rainha Fada. Ela era a Rainha Fada antes mesmo de Ashton saber o que era uma Rainha Fada; até hoje, enquanto perguntava-se por que diabos ele também estava naquele parque, Ash não sabia dizer o que era uma Rainha Fada.

—Ashton! – sorriu Julie, pulando em seus braços e beijando-o.

—Rainha! – exclamaram Luke e Calum atrás dela, chocados.

—Desculpe, desculpe – murmurou ela, afastando-se e recuperando a compostura. – Ops, eu esqueci novamente. – Respirando fundo, Julie lançou um breve sorriso para Ash antes de se virar para seus irmãos e zombar: – Será que vocês se acham dignos de repreender sua Rainha? Será que devo fazer a vocês o que fiz com Malcom?

Ashton ainda estava chocado pelo beijo rápido que Julie lhe deu para se surpreender com a mudança repentina no comportamento. Os lábios deles apenas havia se tocado; foi apenas isso, mas apenas isso enviou um sentimento agradável por ele. Quente e confortável. Um namoro era assim? Beijos ocasionais e sem porquês? Porque Ash podia se acostumar.

—Ju...

—Oh, e você não fale sem a minha permissão – ditou Julie, assumindo sua posição ao sentar-se em seu trono, cruzando as pernas.

—Permissão para falar, minha rainha?

—Eu gosto de como isso soa – disse Julie, ignorando o sarcasmo. – Minha rainha. Ma reine. Moya koroleva. My queen. Watashi no joõ. Mi rei...

—Minha rainha – interrompeu Ashton. – O que você é?

—Uma fada – disse Julie lentamente. – Você não percebe?

—Não.

Julie vestia uma estranha roupa que era apenas estranha. Mesmo entre tantas pessoas igualmente estranhas, a estranhice de Julie se destacava. A fantasia dela – ou caracterização, como ela chamava – não era a melhor, existiam diversas mais bem produzidas, mas Julie brilhava como ninguém; ela não estava no personagem, ela era o personagem e isso fazia a diferença. Essa era a diferença de ser uma fada qualquer e uma Rainha Fada – a altivez, o egocentrismo, o poder.

—Olhe as asas – apontou Julie. – Asas – silabou ela. – O que mais tem asas?

—Borboletas – respondeu Calum atrás dela, na sua posição de guarda real. Porque se Julie era uma Rainha, era claro que ela precisava de alguém para protegê-la.

—Se fosse outra pessoa eu te daria uma resposta, Calum, mas como é você eu devo relembrá-lo que sou sua pequena borboleta, então me respeite. E eu sou sua Rainha! Isso é jeito de tratar sua Rainha? Vou te colocar no calabouço a base de pão e água! – Luke, que servia como o outro guarda, inclinou-se sobre ela e sussurrou algo que fez Julie desanimar, porque completou esfregando os olhos, como se estivesse cansada: – Esqueça o pão e a água, estamos passando por um momento de racionamento e alimentar prisioneiros só faria com que meus súditos se aliassem aos rebeldes.

—Você se lembra que isso é um... jogo, certo? – perguntou Ashton, hesitante.

—Você se lembra que isso é um jogo, certo? – retrucou Julie. – Então entre no personagem! Qual é a sua classe?

—Classe?

—É, eu sou uma fada. Michael é... O que cruz você é, Michael? – perguntou Julie, vendo-o passar em sua frente. Era impressionante como você encontrava conhecidos por acaso.

Michael olhou-a por um momento e depois continuo — e não foi como se não a conhecesse, foi como se ela nem existisse. Com um gesto de Julie, os guardas saíram atrás dela e se posicionaram em frente a Mike, impedindo a passagem dele.

—Vossa Alteza – saudou ele, com uma reverência exagerada.

—Agora é “Vossa Alteza”, não é? – zombou Julie, gélida. – Eu poderia ordenar que lhe cortasse a cabeça.

—É claro, princesa – concordou Mike, com os olhos baixos.

—Rainha – corrigiu Julie, olhando para baixo com desprezo. – Que classe é a sua?

—Eu sou um simples nefilins, Majestade.

—Rainha – corrigiu Julie novamente.

Quantas vezes ela precisava dizer que era uma Rainha Fada para as pessoas entenderem que não era apenas um titulo? Sim, fora ela que decidiu dar o titulo de Rainha Fada a rainha das fadas, mas a palavra dela era lei! E não era como se Julie tivesse herdado a coroa; ela lutou, batalhou, roubou o poder do antigo rei tirano das fadas e foi uma ótima Rainha até...

Até ser enganada por Malcom, seu guarda pessoal, e sequestrada e torturada pelo reino vizinho, mas Julie tinha fugido e mais uma vez teve que se mostrar capaz de governar seu povo, contado com poucos súditos leais (tecnicamente seus súditos leais eram os rebeldes) e menos ainda que soubessem manejar alguma arma. Como ela conseguiria recuperar seu reino assim? Mas ela era a Rainha Fada! Julie Hemmings não era apenas uma fada que foi rainha, ela era a Rainha. Ela fazia a diferença, ela era a diferença.

—Se você é um nefilins, isso quer dizer que você é um dos meus súditos, então me trate com respeito.

—Um dos seus...? Como assim? Eu não faço parte das fadas!

—É claro que você faz. Fadas são conhecidas como demônios, demônios são anjos caídos, nefilins são filhos de anjos caídos, então você é meu.

—Com todo o respeito, Ma... Rainha! Mas eu não sou digno de tanto.

—Alguém aqui está se achando de mais – murmurou Julie para si, com o queixo sobre a mão. – Ninguém é digno de tanto.

—E esse... Esse humano? Rainha? – questionou Michael, pronto para rosnar e atacar se sua recém rainha assim ordenasse.

—Oh, esse? – apontou Julie, entediada. – Um simples humano. Ignore-o.

—E simples humanos são dignos de tais seres tão iluminados quanto sua... – Michael parou. Ele iria dizer "sua majestade" novamente e não tinha dúvidas que Sua Majestade o torturaria se o fizesse. – Nossa rainha? Para estar aos beijos...

—Será que um simples nefilins questiona minha autoridade? – interrompeu Julie, colocando a mão sobre o punho de sua espada que descansava ao lado do seu trono. – Será que um simples nefilins ousa me chantagear? Será que eu deveria tortu...

—Não, Rainha – interrompeu Mike. E completou, fosse por interromper ou por ainda estar continuando suas desculpas: – Me desculpe, foi um simples descuido...

—Simples – repetiu Julie. – Simples. – Levantando-se num rompante e puxando sua espada de plástico, Julie apontou-a para o céu e desceu até que Michael estivesse na reta, e gritou: – Corte-lhe a cabeça!

Dois guardas sugiram de nada, prendendo as mãos de Michael nas costas enquanto o mesmo gritava por perdão.

—Ela sempre foi uma rainha tirana? – murmurou Ashton para os guardas reais, mas suas palavras saíram abafadas pelo som de corneta. – O que é isso?

—Estamos sendo atacados! – comemorou Julie. – Meu elmo – pediu ela, mal contendo-se de emoção. – E meu escudo.

Revirando os olhos, Calum passou-lhe um elmo de alumínio e Luke um escudo de madeira, e ambos ajudaram a posicioná-los. Finalmente prontos, os três se encararam e palavras silenciosas de conforto e esperança foram compartilhadas mentalmente.

Julie podia ser uma rainha tirana na maioria das vezes, deixando o poder lhe subir a cabeça, mas na maioria das vezes ela era uma líder justa e honesta. E uma boa pessoa. Talvez muitos não soubessem desse fato, esse fato não deveria ser uma das características de reis e rainhas, principalmente numa guerra, mas Calum e Luke haviam crescido com ela e sabiam que Julie era a melhor rainha que poderiam pedir.

—Será que vocês poderiam me deixar a sós por um minuto? – pediu Julie. E completou antes que a respondessem: – Não que eu esteja pedindo. E fechem a cortina.

Assentindo, ambos saíram – não antes de Calum lançar um olhar desconfiado a Ashton e Luke mandar um de aviso. Luke ameaçou Ash mais uma vez pelo olhar ao puxar a cortina da tenda, deixando-a parcialmente no escuro se não fosse pela luminária que parecia uma tocha.

Quando estavam finalmente a sós, foi como se um peso tivesse saído dos ombros de Julie; foi como se ela realmente fosse uma rainha tirânica a beira de uma guerra, mas que também tivesse um lado bom, um lado que temia a destruição que aquela luta traria.

—Desculpe, querido – sorriu Julie, passando o dedo embaixo dos olhos de Ash após tirar todo aquele traje de batalha, limpando e provando as lágrimas inexistentes. – Eu não queria te deixar sozinho, mas eu ainda sou a Rainha Fada, eu devo proteger e lutar pelo meu povo.

—Majestade! – gritou Calum do lado de fora.

—É Rainha! – retrucou ela.

—Seu minuto acabou!

—O exército inimigo está estendendo a bandeira e ordena sua presença imediatamente! – disse Luke, ofegante.

—Eu sou a Rainha, eu não sou ordenada a nada!

—E o Conselho de Guerra anunciou que o melhor a se fazer seria se render! Estamos cercado e ferido... E muitos estão assustados.

—O que é isso? – murmurou Julie, caminhando até a entrada da tenda e abrindo-a. – Eu saio por um minuto e o mundo vira de cabeça para baixo?! Eu sou a Rainha Fada, eu não me rendo! Diga a eles que venceremos se não eu não me chamo Julie Agnes Hemmings, a Primeira e Única Rainha Fada!

—Nunca pensei que fosse te ouvir gritar isso voluntariamente algum dia – murmurou Ashton quando Julie voltou até ele, prendendo-a em seus braços e entrando no personagem. Por que não? Aquilo era divertido.

—Guerras iminentes e desertores certos pedem nomes drásticos – sussurrou Julie, passando os braços ao redor do pescoço dele e o beijando.

Aquilo era divertido, pensou Ashton novamente. Ele não tinha a oportunidade beijar uma Rainha, Sua Rainha, sempre. Ainda mais quando era um simples humano e ela uma fada. Ash conseguia perceber o fascínio de diversas pessoas por romances proibidos entre espécies diferentes, embora aquelas asas falsas estivessem incomodando-o, não havia nem espaço para Ashton tocar Julie – pór isso, apenas por isso (o aviso velado de Luke ainda estava fresco em suau memória), Ash deslizou as mãos pela cintura, pelo quadril... Até chegar a algo livre de tais empecilhos.

—Mãos para cima, camponês – murmurou Julie, entrelaçando as mãos dele com as suas para que elas não vagassem soltas.

Ashton sorriu e pensou no que seu personagem camponês faria. Se ele era o moço indefeso da relação, se ele era o plebeu e ela não apenas uma pessoa da realeza, mas a Rainha, Ashton sabia o que diria:

—Não morra, minha Rainha – desejou Ash, beijando-a na testa.

—Eu sou a Rainha Fada, eu não sou morta por fracassados.

E então Ash foi esfaqueado pelas costas e Julie gritou "não!" e o cabo da espada dela estava miraculosamente em suas mãos e a ponta afiada (de plástico) tocando todos os pontos vitais dos seus inimigos.

E então eles jaziam mortos no chão e Julie chorava (falsamente) pela vida que se esvaecia do seu amado camponês indigno do seu amor, que morria com a cabeça no seu colo e com os cabelos alisados.

—Eu não era bom para você – sussurrou ele, fracamente, entre espasmos e tosses.

—Não, não era – concordou Julie. – Mas mesmo assim e-eu...

Julie sentiu as falsas lagrimas deslizarem pelo seu rosto... Ah, não, era os dedos de Ashton que estavam incrivelmente leves. Deixando a compostura de lado, Julie fechou os olhos e repousou a cabeça contra aqueles dedos, que limparam suas lagrimas inexistentes como ela tinha feito com as dele.

—Eu também te amo – disse seu camponês, muito baixo para ser ouvido, mas as palavras reverberaram até chegar a Sua Rainha. – Minha rainha.

—Ahn? – Julie abriu os olhos, levantando a cabeça. – Espere. Isso é um jogo, você sabe? Você disse isso por que era um jogo ou...

—Majesta... – Entrando na tenda, Luke parou, olhando ao redor e assobiou, impressionado com o estrago que a Rainha tinha feito. – Sinto muito pela sua perda, Rainha, mas...

—Um mo... – começou Julie, mas a expressão de Luke dizia que eles não tinham tempo. – Certo – ela murmurou, levantando-se. – Deveres reais primeiro, sofrimento pelos mortos depois.

—Julie – murmurou Ashton, segurando a mão dela antes que Julie saísse. – O que acontece depois que você morre?

—Eu nunca morri. – Julie deu de ombros, soltando-se para colocar suas armas novamente, recusando-se a olhá-lo. – Ou você acha que apenas minha beleza me fez a Rainha Fada? Nunca ter morrido é o primeiro requisito.

—E o que eu faço então? – sussurrou ele.

—É óbvio – sussurrou ela de volta. – Finja-se de morto e depois volte para me assombrar... É, isso daria uma ótima história. Faça isso, mas me surpreenda! E fique de olhos fechados até o fim, na hora da contagem dos mortos. E... – Lançando um ultimo beijo com a ponta dos dedos, Julie despediu-se: – Depois conversamos.

—Você! – gritou Julie, correndo até a menina, que começou a correr dela, desviando-se dos transeuntes mortos. Elfo, fada, fada, elfo, elfo, contabilizou Julie sem parar de correr, feliz por ter mais elfos caídos a vista. E ninguém que conhecia. – Ei, espere! Eu vim em paz! A corneta já soou! Eu só queria dizer o quanto suas orelhas são lindas!

O absurdo da declaração era tão louco, que a garota de cabelos brancos parou e virou-se para Julie, encarando-a com desconfiança e curiosidade. Quem era aquela garota?

—Quem é você? – questionou a Dama Branca.

—Eu sou uma fada! – respondeu Julie, sorrindo abertamente para ela

—U-uma fada?

—Você é um elfo? Como você fez essas orelhas pontuadas? Elas são incrivelmente realistas! E seus olhos são azuis ou violetas? Oh meu Deus, você é linda! E esse cabelo branco é tãooo — disse Julie, deslizando a mão por eles – charmoso. Desculpe – disse ela, dando um passo para trás quando a garota tremeu ao ser tocada sem permissão – sou a Rainha Fada. E você é?

—Eu não sou “ela” – disse a Dama, devagar, não dizendo seu nome.

—Hum. – Julie a encarou. Não era da sua conta que a garota na sua frente fosse uma garota e dissesse que não era “ela”, mas podia ser para ela, porque era claro que ela era “ela”. – Você quer que eu me refira a você com “ele” ou tem outro pronome que te deixe mais confortável? – A garota pareceu não entender, então Julie emendou: – Porque ele é para garotos e você é uma menina, então...

—Como você sabe que eu sou uma menina?

—Sua áurea – respondeu Julie. – Ela é... feminina.

—Você é uma fada mesmo? – questionou a Dama Branca, observando-a atentamente.

Julie sorriu, feliz por alguém ter compreendido. E visto suas asas incrivelmente não realistas por uma nova ótica. Não era sua culpa que encontrar asas criveis fosse tão difícil! Todas costumavam ser feitas de tela e aro, aquelas foram as mais reais que Julie conseguiu.

—Eu posso ler sua mão?! – ofereceu Julie, quando a observação não parou e começou a deixá-la desconfortável. E isso era algo que Julie não podia deixar, porque se perdesse o controle da situação já era. Ela era a Rainha! Ela deveria ter todos dançando na palma da sua mão!

—Claro – disse a Dama, estendendo a mão esquerda.

—A outra – disse Julie, pegando-a. – Tem que ser a mão dominante... Oh, sua vida está dividida em duas – apontou ela.

—Minha vida? – ofegou a Dama, levando a mão ao coração como se Julie tivesse falado que ela teria um ataque cardíaco a qualquer momento.

—A linha da vida – especificou Julie, aprovando a reação daquela garota. Ela nunca tinha visto aquela garota antes naquela convenção, mas esperava vê-la novamente. Julie tinha gostado dela.

—Minha linha da vida... – disse a Dama devagar, abaixando a mão do coração. – Está dividida em duas.

Julie assentiu, traçando-a. Era uma pequena divisão que quase tinha passado despercebida, mas estava lá. Não era uma linha apenas, eram duas tão perto que parecia ser apenas uma. Algo tinha acontecido que dividiu a vida dela em duas – e esse algo normalmente era algo muito ruim. Julie tinha sua própria linha da vida dividida em duas para comprovar.

A linha da cabeça e do coração, Julie concentrou sua atenção nela. Eram duas linhas interessantes. E contraditórias. A linha da cabeça era curta e queria dizer que ela era uma pessoa prática; enquanto a linha do coração era longa e queria dizer que ela era emotiva. Como uma pessoa podia ser prática e emotiva? Não fazia sentindo! A não ser que tivesse relação com o fato de sua vida estar dividida em duas... Hum, isso faria sentido.

Abrindo a mão da Dama, Julie esticou os dedos, avaliando o tamanho deles, um em relação ao outro: o indicador era maior do que o anelar, o que queria dizer que ela tinha uma boa autoestima e capacidade de liderar; o dedo do meio era curvado para o anelar, significava que era uma pessoa introspectiva, que preferia a solidão; o anelar curvava-se para o do meio e significava lealdade; e o menor dos dedos era do mesmo nível da dobra do dedo anelar, a Dama era alguém comunicativa. E Julie não entendia nada disso.

—Resumindo – disse Julie, como se tivesse falado tudo que pensou – você é uma pessoa líder nata e leal, que prefere estar sozinha, embora seja alguém comunicativa. Ah, e você vai se casar uma vez – disse ela, apontando para o único traço que existia na lateral da mão da garota, logo abaixo do dedo mindinho. – Você terá apenas uma alma gêmea.

—Alma gêmea! – guinchou a Dama. Percebendo o que fez, ela coçou a garganta e perguntou, oferecendo a outra mão: – E o meu futuro?

—Eu não olho – disse Julie, recusando-se a pegá-la. – Estou proibida de olhar o futuro de alguém levianamente. Mesmo que eu não esteja ganhando dinheiro, desculpe. Só posso olhar em casos sérios e graves e decisivos, mas...

—Mais alguma coisa?

Julie sentiu-se ofendida e desafiada. A Dama olhava-a como se esperasse algo mais, nem um pouco impressionada pelas palavras delas, e Julie tinha... Um desejo irracional de se provar a ela, de mostrar que era boa, de dizer uma frase marcante para encerrar aquele momento de previsão, mas a pressão era tanta que Julie não conseguia pensar direito.

Vamos, Julie, vamos, pense. Você consegue pensar, não é tão difícil assim. Não para você.

A Dama pareceu impaciente enquanto Julie passava em sua mente todos suas frases marcantes, mas ela não conseguia se lembrar de nem uma boa o suficiente, nem uma a não ser...

—Eu posso te dizer que muitas coisas aconteceram no passado, mas não se pode temer o futuro, porque o caminho para felicidade é longo, mas vale a pena. – Ela estava parafraseando uma frase que escutou? Oh, sim. Ela estava parafraseando uma frase marcante para ela por motivos egoístas? Com toda certeza. Ela podia parar? Não. – Pode ser que existam muitas dificuldades a vista e pode ser que no fim você não alcança o que espera, ninguém nunca consegue, mas isso não é ruim. E, no final do arco-íris, sempre tem um pote de ouro.

—Ahn... Co... Nossa!

A Dama Branca respirou fundo, como se tentasse engolir as lágrimas – ou quem sabe as perguntas e dúvidas. E assentiu.

—Obrigada – agradeceu ela, com a voz hesitante.

Observando-a realmente curiosa, Julie percebeu que a Dama Branca era uma atriz formidável. E que mesmo assim “obrigada” não era uma palavra que ela usava muito no seu dia a dia, porque existia uma cautela que não tinha como passar despercebida não importava o quanto tentasse. E que, talvez, de modo inconsciente, a Dama estivesse aceitando quem era, porque tinha usado o feminino na hora de falar. (Observação de pronomes era importante, Julie sabia o quanto era.)

—Por nada – sorriu Julie, feliz por estar sendo uma ótima Rainha mesmo para aqueles que não eram da mesma espécie que a sua, porque ótimas rainhas visavam à paz, não o avanço da própria raça. Bem, uma ótima Rainha visava tudo; o céu não era o limite.

—Julie Agnes Hemmings! – Mesmo sabendo que a voz vinha do alto falante e que ninguém poderia vê-la, Julie levantou a cabeça para ele. – Julie Agnes Hemmings! Sua Majestade Real, Julie Agnes Hemmings, a Primeira e Única Rainha Fada, por favor, se apresente para o Conselho Real, para a discussão do tratado...

—Eu não vou assinar...

—Sim, nós sabemos – disse a voz, sabendo o que a Rainha Fada falava mesmo sem vê-la ou ouvi-la. – Mas é a lei.

—Descul... – Julie parou. E dessa vez não foi porque uma rainha não se desculpava, mas porque a Dama Branca tinha desaparecido e ela estava sozinha, cercada de mortos. E apesar dela não estar lá, Julie Agnes Hemmings disse: – Seja quem você quer ser.

Notas finais
Sinceramente, eu não gostava muito do Michael, mas acho que era apenas porque eu não o compreendia, porque agora estou o amando. Eu amo escrever essas coisas assim, que são, mas são outras, amo historias de fantasia, é como se eu pudesse ser louca sem sofrer por isso.