Isso não é...

59 Isso não é egoísmo.


Notas iniciais
Aqui está um capitulo a la madrugada. Boa noite. Afire love - https://youtu.be/JznXx1Ns374

(...) if you fell to your death today

I hope that heaven is your resting place

((...) se você morrer hoje

Espero que o céu seja o lugar em que descanse)

59-Isso não é egoísmo. (O pensamento que torna as coisas assim.)

Diversos fatores era a causa de Julie não ter amigos – muitos amigos.

A principal razão era por ela ser como era; por ser antissocial e não gostar, não saber, como se expressar; por não gostar de se vestir de um jeito feminino, preferir jogos e desenhos de lutas a romances e maquiagem; e por sempre escolher garotos ao invés de garotas para ficar ao seu lado.

Desde pequenininha ela era assim. E desde pequena as garotas a evitavam por medo que ela fosse homossexual – como se sua opção sexual fosse uma doença transmissível. Julie conseguia imaginar o horror dessas pessoas caso elas soubessem que Julie Hemmings classificava-se como assexual.

Os garotos não eram criaturas tão repugnantes, eles implicavam com ela e sempre a desafiava – talvez por isso Julie fosse viciada em apostas hoje em dia (por isso e por Malia) – até que a implicância tornou-se machismo e o "você não consegue" virou "garotas não podem fazer isso". Que Julie prontamente ignorou.

Garotos que achavam "errado" uma garota ter os mesmos gostos que eles eram facilmente ignorados por Julie. E ela não precisava deles. Não quando tinha dois melhores amigos, dois irmãos – um era realmente o seu irmão. E eles sempre estavam lá, ao lado dela, apoiando-a quando Julie mostrava que ela era sim uma garota e que podia fazer isso, que ninguém podia lhe dizer o contrário; que ela podia escalar uma árvore ou jogar futebol, que ela podia fazer e ser o que quisesse. E que ninguém poderia lhe dizer o contrário.

E mesmo esses meninos que diziam "garotas não podem fazer isso" viam-se ao lado dela. Julie sempre os encontrava ao lado dela e... Eles eram amigos. Eles viravam amigos.

Agora as garotas eram uma coisinha irritante, com horror e inveja estampado no rosto. E desprezo. Julie odiava o desprezo que era dirigido a ela, como se ela fosse pior do que alguém – e o pior era saber que essas garotas se achavam melhor.

—----

A primeira garota que se aproximou de Julie e que não a fez desejar bater a cabeça dela na parede foi a Malia, talvez porque ela nem deu oportunidade e já estava firmemente enraizada na sua vida. Malia era uma força da natureza calmante, que olhou para ela num belo dia de sol, durante uma horripilante aula de arte em que o tema de desenho era livre, e disse:

—Eu adolei sua boboleta.

Foi amor a primeira vista, Julie tinha certeza. Essa era a lembrança mais antiga dela, ela devia ter quatro, cinco anos, mas Julie lembrava do sentimento, do calor confortável que se espalhou por ela e do sorriso aberto que Malia ofereceu, e Julie não pode não sorrir, porque Malia era a primeira pessoa que viu o que ela fazia – nem seu irmão tinha percebido que aquilo era uma borboleta, talvez porque a tinta era invisível.... Mas era indiscutível que aquilo era uma borboleta e que Malia a enxergava!

—A minha também é uma boboleta – disse Malia, levantando sua folha de papel. – Bor-bo-le-ta – tentou ela de novo, falando devagar.

—Ela é estanha – disse Julie, observando-a. Ela não saberia que aquilo era uma borboleta se Malia não houvesse falado, porque aquilo não tinha forma de borboleta, aquilo não tinha nem forma para ser considerado um objeto.

—A sua também é, mas... – Malia sorriu. – Eu gosto.

—A sua é estanha – repetiu Julie, negando-se a dizer que gostava. Seu pai sempre dizia para não mentir, mentir era feio e errado e fazia mal.

—Está tudo bem, Julie – disse Malia, agora com nove anos, mas Julie não acreditou.

Durante três anos, elas foram amigas, elas riram, se divertiram e nunca mentiram uma para outra, mas agora Malia mentia. Malia dizia que tudo estava bem quando todos sabiam que era mentira, quando ela mesma sabia que era mentira. Nada estava bem, Malia estava morrendo.

Julie respirou fundo, sentindo os olhos cheios de lágrimas ardendo e não querendo desperdiçar os últimos momentos que tinha com sua melhor amiga com lágrimas e tristeza. Mas... As lágrimas continuavam vindo.

—Está tudo bem, Julie – repetiu Malia, pegando sua mão e apertando-a. – Você pode chorar e rir, você pode dizer que está triste e feliz. Eu estou triste e feliz.

Julie fungou. O que seriam deles? Como ela, Luke e Calum sobreviveriam? Malia era... Malia era a melhor parte deles, do quarteto que viraria um trio. Malia era sua melhor amiga. Malia era uma das pessoas que Julie mais amava, mas agora... Agora Malia estava morrendo e Julie não podia fazer nada.

Mas isso era egoísmo, Julie sabia. Ela entendia o que Malia queria dizer com "eu estou triste e feliz", porque sentia o mesmo. Julie estava triste por sua amiga estar morrendo, Julie estava feliz por sua amiga estar morrendo. Era egoísmo, era estranho, era errado.

Malia sofreu durante um ano com câncer e Julie estava feliz que isso finalmente iria acabar. O sofrimento de sua amiga teria um fim. E Julie estava triste, sendo egoísta e estranha e errada, porque estava feliz e Malia morria. Julie estava tão triste.

—Você sabe o que eu digo, Julie – disse Malia, sorrindo para ela, cansada, mas ainda sim era um sorriso tão radiante quanto da primeira vez que viu, era um sorriso que Julie retribuiu. E que nunca mais iria. – Somos todos...

—Pequenas borboletas – completou Julie, quando sua amiga não pode, fraca demais para continuar.

Malia sempre foi uma garota pálida de cabelos negros, mas agora ela estava ainda mais pálida, mais pálida do que Julie, e... E sem cabelos. Julie tinha tanto cabelo e Malia tinha tão pouco. Isso parecia tão egoísta, triste e errado. Contudo Malia ainda sorria. E Julie retornou o sorriso, porque se essa era a única coisa que podia fazer apesar de parecer – ser – egoísta, triste e errado, era a única coisa que ela podia fazer.

—Exato! Agora passe essas folhas, tenho cartas a escrever.

—Alguma para mim?

—Quem sabe? Você terá que esperar para ver!

—Ler – corrigiu Julie.

—Ver, ler, você vai continuar esperando.

—Eu vou sentir sua falta – disse Julie.

—Não tem para que. Você sabe o que eu digo...

—Somos todos pequenas borboletas – disse Julie novamente.

—Não. Isso também, mas não é isso agora. Rei leão é vida. Então, assim como Mufasa está em Simba, eu estarei em você.

—Owwntt, que fofa! Mas eu juro que não vou assistir mais Rei Leão de tanto que você fala dele.

—Você sabe que isso é uma mentira – cantarolou Malia, escrevendo devagar para não errar.

Suas mãos estavam fracas, não respondiam tão rápido quanto seu cérebro mandava, seu cérebro não mandava tão rápido também. Julie engoliu as lagrimas e desviou os olhos, porque aquele não era o seu momento, aquele era o da Malia e ela tinha que ser forte para sua melhor amiga.

—Eu não minto – disse Julie. E se sua voz saiu tão embargada quanto imaginava, Malia ignorou; ela já devia estar acostumada.

—Eu aposto que a primeira coisa que você vai fazer depois do meu enterro é assistir Rei leão – continuou Malia.

—Cretina – murmurou Julie, observando a audácia dela de querer fazê-la chorar. E desafiou: – Eu não vou.

—Hum, certo. E, acrescentou eu, que você vai assistir Rei Leão sempre que estiver triste.

—Não vou.

—Hum, certo – repetiu Malia, entregando uma folha dobrada. – Agora me preste sua saliva para lacrar essas cartas, tenho que economizar todos os fluidos do meu corpo.

Julie suspirou, esticando a mão para usar a língua, sabendo que Malia estava certa. E errada.

Ela assistiria a Rei leão assim que chegasse em casa. Ela assistiria Rei leão até que dormisse naquela noite, encolhida no sofá com Luke ao seu lado, tão perto que ficaria sem fôlego, porque queria a certeza que algo ainda a aquecia. Ela assistiria Rei Leão sempre que estivesse triste. Ela assistiria Rei leão sempre que quisesse lembrar-se de Malia.

Julie assistiria a Rei leão assim que chegasse em casa.

—----

A segunda amizade de Julie podia muito bem ser descrita como sua stalker particular. Julie não queria uma amiga, Julie não queria dar a ninguém força de machucá-la novamente, mas... Agatha não se importava. Agatha não queria saber disso.

E talvez fosse errado fazer amizades com alguém pensando em outra, como se tentasse substituí-la, mas Agatha a lembrava de Malia e Julie sentia falta de Malia. Julie sentia falta de uma garota como amiga, alguém que pudesse falar de.... Julie não sabia.

Talvez ela não sentisse falta de uma garota como amiga, ela apenas sentia falta de Malia, mas Julie não percebeu isso até que virou amiga de Agatha.

Agatha era uma garota que parecia uma índia, com cabelos preto liso, um tom de pele moreno claro e um desejo irracional de assobiar. E de tentar ser amiga de seus irmãos.

Esse deveria ser o primeiro sinal que algo não batia bem nela – se bem que o ato de persegui-la já fosse bastante assustador: Agatha parecia querer infiltrar-se na sua vida, saber tudo que já aconteceu e iria acontecer.

Antes mesmo delas serem amigas, Agatha já sabia do seu vício por doces, sua alergia a pelo, seu ressentimento por garotas e... Agatha sempre dizia algo a ela e algo completamente diferente aos seus irmãos, contando coisas aos seus irmãos que não contava a ela, coisas que Julie sabia que não podia ser verdade, que sua intuição dizia não ser verdade, assim como a lógica, porque elas não batiam.

Mas Julie escolheu ignorar seu instinto, sua mãe dizendo que não gostava de Agatha, do seu pai dizendo que Julie precisava fazer suas próprias escolhas, embora também estivesse olhando-a de um jeito contraditório, do jeito como Luke e Calum ficavam reclusos na presença de Agatha. Julie escolheu ignorar tudo isso porque, pela primeira vez na vida, ela não sentia falta de Malia o tempo todo.

Entretanto existia um limite para mentiras, para o quanto você pode mentir sem ser pego. Mentiras ficavam complicadas; elas virava uma teia que te prendia cada vez mais quando você tentasse se livrar dela. Foi o que aconteceu a Agatha.

Existia um limite para o quanto você pode fazer um jogo duplo sem ser pego. Existia um limite para o quanto você pode fingir não enxergar algo. Ou ouvir.

Enquanto ouvia Agatha falar, Julie pode finalmente perceber o quão desesperada ela estava por uma amiga. Ela estava tao desesperada que se recusou a enxergar o que estava na sua frente, arrumando desculpas para o comportamento de sua “amiga” – Agatha era uma vadia.

—Julie não é a minha amiga – disse ela, cética, risonha e malvada. – Só estou com ela porque...

—Por quê? – instigou Julie, anunciando sua presença, realmente curiosa.

—Julie – disse Agatha, surpresa. – Isso não é... Eu não... Você aqui?

—É, eu aqui. Mas você já sabia, então eu que deveria perguntar isso, não? Agatha, você aqui?

—Você está certa – disse ela. – Eu não aguentava mais você sempre tentando ser a melhor...

—Agatha, querida, eu não tento ser a melhor. Eu sou. Principalmente em comparação você, especialmente comparada você. O que posso dizer? – Julie deu de ombros. – Está ao lado de alguém tão medíocre tem seus lados positivos.

—M-medíocre? Você era medíocre quando te conheci! Sozinha pelos cantos, toda depressiva, sempre com um livro ou fones de ouvidos...

—É impressionante como os fatos mudam com o tempo. Aquela que era socialmente excluída e sem amigos até euzinha tentar ser uma boa pessoa foi eu mesma?

—Boa pessoa? O que você fez que a torna uma pessoa boa?

Julie a encarou, surpreendida e curiosa pela pergunta. E resposta. O que a tornava uma boa pessoa?

—Você está certa – disse ela finalmente. – Eu estava desesperada por uma amiga e isso me fez esquecer conceitos básicos sobre a amizade. Tipo, ter pena de alguém não a transforma em um alvo em potencial.

—Alvo?

—Mas você não está incomodada está? – continuou Julie, ignorando-a. – Eu odiaria pensar que te magoei, por toda aquela história de pessoa boa e tal, contudo eu te usei, você me usou, foi algo prático para nós duas. Embora você não tenha chegado a alcançar as minhas expectativas.

—Eu te usei?

—Vai tentar sair como a boa da história e me transformar na vilã? Certo, falha minha pensar que eu a influenciei a ser alguém. Obrigada, o papo foi produtivo, mas não posso desperdiçar meu tempo com alguém tão inútil, tenho que estudar, não sou como você que se aproveita dos outros por não ter conhecimento

—Para onde você vai? Volte aqui! Volte aqui! – ordenou Agatha, batendo o pé como uma criança mimada. Como Julie não percebeu isso antes? Céus, ela era tão desatentas as vezes.

—Ahh, esqueci de avisar. – Julie voltou-se para ela. – Não se aproxime dos meus amigos novamente, Agatha

—Seus amigos? Eu acho que eles podem escolher de quem querem ser amigos.

—Você obviamente não os conhece se acha que eles iriam te preferir a mim. Você é alguém que eles toleravam por está comigo, não acredite que meus amigos são seus amigos. Da próxima vez que tentar afundar suas garras neles, terei alegria em mostrar as minhas no seu rosto maquiado ridiculamente.

O quarto do zelador era escuro – escuro e silencioso como Julie queria. Ouvir a porta rangendo ao ser aberta não era o que Julie esperava, mas ela não abriu os olhos, principalmente por que seu irmão deslizou ao seu lado, abraçando-a.

—Como você me encontrou?

—Você não é tão imprevisível quanto acha que é.

—Hum – murmurou Julie, inconformada.

—O que aconteceu? Agatha apareceu chorando no refeitório e algumas garotas começaram a falar mal de você. Então, quanto do que elas disseram é verdade?

—Provavelmente tudo. Continuei tentando ser amiga de uma idiota por mais tempo do que ela merecia – explicou Julie quando Luke não disse nada.

—Ok – assentiu seu irmão, lentamente, assimilando o que acontecia.

—Você vai ficar ao meu lado?

—Quando foi que eu não fiquei ao seu lado? – questionou Luke, horrorizado e ofendido.

Julie balançou a cabeça e sorriu, era verdade. Ela podia estar errada, mas seu irmão nunca ficou contra ela; ele sempre a defendia, lutava com unhas e dentes para protegê-la. Luke era o melhor irmão que poderia pedir.

—Vamos? Tirei no zerinho ou um com Calum para ver quem iria entrar aqui, esse lugar é tao apertado, Calum já deve ter roído todas as unhas.

—Daqui a pouco – disse Julie. – Quero ficar um pouco, eu gostei do ar de alvejante. Sozinha.

Finalmente sozinha, Julie respirou fundo, piscando os olhos rapidamente para impedir as lagrimas. Ela não chorarva por Agatha, ela choraria por Malia – Malia por quem valia a pena, Malia que não estava com ela naquele momento, Malia que teria dado um tapa na cara de Agatha. Julie já começa a se arrepender de sua política de não agressão.

—Acho que está na hora de você ler sua carta, Julie – murmurou Julie para si mesma, pegando um envelope amassado do bolso da sua bolsa.

Durante dois anos, Julie recusou-se a ler sua carta, querendo prolongar a última coisa que tinha de sua melhor amiga, sempre levando-a consigo, mas nunca abrindo. Malia tinha dito para abri-la quando ela achasse que era necessário, e Julie sempre dizia a si mesma que não era o momento certo, que ele ainda não chegou, que isso não era ruim o suficiente ou aquilo, mas... Julie queria tanto ter Malia ao seu lado nesse instante. Nada disso aconteceria se ela estivesse ao seu lado.

"Querida, querida, Julie...

Você é um pé no da conta às vezes. Sim, eu sei que você não tem um, mas isso ainda não muda minha opinião sobre você.

Você não sabe o quanto eu te amo, o quanto eu te acho incrível, o quanto você é importante para mim.

Você não sabe o quanto me ajudou nesse ano, ficando ao meu lado quando todos desapareceram, como se eu não existisse. Eu sei que será difícil continuar quando eu não estiver aqui, mas eu também sei que você não vai desistir. Você nunca desisti e eu acho isso incrível. Você é incrível. Só por ter ficado ao seu lado, te ter ao meu lado, eu já me sinto igualmente incrível.

Obrigada por nunca ter mentido para mim.

Obrigada pelos pais maravilhosos que você compartilhou comigo.

Obrigada pelo seu irmão, que foi irritantemente meu melhor amigo.

Obrigada por ter sorrido para mim quando queria chorar, ter me abraçado mesmo que não goste muito disso, ter dito que me amava quando nós duas sabíamos que não era preciso. Eu sei que você me ama. Eu sei que você me ama como ama Luke e Calum.

Obrigada por me amar como ama eles.

Obrigada por ter sido minha melhor amiga.

E, por ter sido sua melhor amiga eu sei que você vai se fechar, que você terá medo de se relacionar com outros, que impedirá as pessoas de conhecerem essa garota incrível que foi minha melhor amiga incrível, mas seja você, Julie.

Seja você todo maldito e maravilhoso dia. Seja você quando quiser chorar e rir. Seja você quando não soube o que fazer. Seja você quando souber. Seja você e nunca deixe ninguém te impedir disso. Se quiser bater em alguém, bata. Se quiser chorar, chorar. Se quiser rir, ria. Se quiser algo, lute. Só seja você.
Nesse maldito mundo de pequenas borboletas perdidas, seja você.

Seja você e seja a luz de alguém.

Seja você e seja a luz de todos.

P.S. Eu sei, muito depressivo, melancólico, sentimental, então... Quantos anos você tem agora? Quantos anos você esperou para abrir essa carta? Estou decepcionada pela demora e orgulhosa de sua paciência. Eu não sei por que você abriu essa carta agora, mas saiba que eu ainda estou com você. E que você é uma idiota por ter aberto essa carta agora, idiota.

P.P.S. Me desculpe, você não vai poder se gabar aos outros e dizer que me conheceu mais tempo do que não me conheceu.

P.P.P S. Eu te amo.

De sua amada, amada, amada (três vezes amada e muito mais do que isso) MH

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A terceira amizade feminina de Julie Hemmings foi... Foi Julie quem procurou. Nenhuma garota aproximou-se dela e disse "adolei sua boboleta", nenhuma garota a perseguiu, Julie é quem foi atrás dela. Julie fez algo que orgulharia seus pais e principalmente Malia: ela foi a luz de alguém.
Julie foi literalmente a luz de alguém ao ligar seu telefone, apontá-lo para um vestido manchado de suco de uva, e dizer:

—Oh-oh, isso está ruim.

—Obrigada – murmurou a garota, sarcasticamente. – Eu nem percebi. O que você quer? – perguntou ela, irritada. – Venho jogar mais suco em cima de mim, porque acho que meu cabelo ficou de fora, olhe só como ele está seco e ressecado.

—Seco e ressecado é a mesma coisa – disse Julie.

—O. Que. Você. Quer – perguntou ela, pausadamente.

—Vim ver se você está chorando. Ver garotas chorando são meu ponto fraco. Eu nem posso pensar no quanto elas são horripilantes quando estão chorando. A menos que a maquiagem esteja borrada, porque aí elas são realmente horripilantes...

—Você venho aqui para rir de mim?

—Eu posso rir de você em qualquer lugar, não preciso estar aqui para fazer isso – anunciou Julie. – Não que eu fosse fazer isso em qualquer lugar, não é como se fosse engraçado. Embora a parte de você batendo em Michael foi engraçada. E eu gosto de rir de coisas engraçadas.

—Como eu?

—Como você batendo em Michael – corrigiu Julie devagar, duvidando das habilidades sonoras de Demetria. Ela já duvidava das habilidades de nomeação dos pais dela. Que raios de nome era aquele?

—Então por que você está aqui? – questionou Demi.

—Porque você me lembra alguém que eu gosto ao não ser parecida com ela

—Ahn, eu... Não... sou... parecido com alguém que você gosta e você gosta disso?

—Exato – sorriu Julie. – Então eu queria propor uma parceria.

—Parceria? – ecoou Demi.

—Eu não tenho amigas femininas e mamãe diz que eu preciso de ao menos uma, por causa das diferenças psicológicas entre machos e fêmeas. Mas não espere que eu chore por seu animal de estimação morto, fofoque sobre garotos, te apresente aos meus irmãos e viva vinte quatro horas na sua casa, embora você pareça ser do tipo que gosta de solidão.

—Por que eu?

Demi não entendeu nada do que Julie disse, nada além do fato que ela não estava ali para zombar ou com pena – Demi duvidava que Julie sentisse pena de alguém. Então por que, seja qual fosse a razão, Julie tinha seguido-a, depois da maior humilhação da sua vida?

—Porque depois disso, é quase certo que nem uma garota vai querer ser sua amiga – respondeu Julie, honesta e direta, ignorando o recuo de Demi. – Você é uma dalit, eu sou uma dalit. Uma dalit que não aceita ser a poeira debaixo dos pés, então podemos ser dalit juntas enquanto eu te ensino a não aceitar ser a poeira dos pés de ninguém.

—Você quer ser minha amiga? – resumiu Demi.

—Não seremos amigas – disse Julie, recuando. – Vamos apenas ser aliadas contra a opressão social causada por mentiras, boatos e maus entendidos.

—Michael, meu amigo de infância, acabou de dizer que sou a pior coisa que aconteceu na vida dele, que eu... Isso não é um mal entendido.

—E eu não humilhei e ou traumatizei Agatha... Oh, espere, eu fiz isso! – exclamou Julie, parecendo horrorizada por ter feito algo desse tipo. Até que sorriu e ofereceu a mão. – Aliadas?

—Não – disse Demi. – Eu não quero ser sua amiga.

—Por causa dos boatos?

—Porque gosto de manter minha sanidade – respondeu ela. – E, como você disse, eu gosto de solidão.

—Isso é um desafio? – questionou Julie. – Porque isso parece um desafio e eu não fujo de desafios. Nós vamos ser aliadas quer você queira ou não!

—Eu não quero! – gritou Demi em retorno.

Durante todos os dias antes das férias de inverno – e até durante elas – Julie perseguiu Demi, entendendo a alegria de Agatha em fazer isso. Elas foram parceiras em trabalhos, sentaram um ao lado da outra, comeram juntas... Mas Demi realmente gostava de estar sozinha, porque não se abalou ou amoleceu.

Virar amiga de Michael – o amigo idiota de Demi, o ex-amigo idiota de Demi – foi muito mais fácil. Ser amiga de idiotas assumidos era tão mais fácil. Ainda mais quando ele era amigo de Luke. Como Luke fez amizade com um idiota daquele era um mistério para Julie, mas se seu irmão via algo nele, Julie faria um esforço para enxergar também. E Michael era vizinho de Demi! O que era melhor do que ter uma casa vizinha como base de espionagem?

Mas Demi realmente gostava de estar sozinha, embora às vezes parecesse feliz pela companhia, com uma insinuação de sorriso ou uma risadinha disfarçada. Às vezes apenas ouvindo Julie falar, às vezes comentando sobre algo que Julie falava.

Antes que percebesse, Julie era amiga de Demi, embora nunca fosse concordar – elas podiam não serem aliadas, mas também não eram amigas, era mais como... colegas. Até que não pode mais ignorar isso, porque colegas conversavam na escola, entretanto amigas te visitavam no hospital, não saindo mesmo depois de atacada, e te ajudavam.

Foi o que Demi fez para Julie, foi o que Julie fez para Malia.

Notas finais
Quem gosta da Malia? Eu! Quem quer mais dela? Eu! Quem morreu? Ela! (Nada engraçado) Escrevi isso da Agatha há um tempo - é o que vocês, jovens de hoje em dia, chamam de tirar isso do meu sistema... Quem já teve uma Agatha em suas vidas? Desculpe o drama, eu não sei fazer drama colegial.