Notas iniciais
Como vão, My Cupcakes? *-* Espero que muito bem u.u
Sim eu sei, demorei éons pra postar, já tinha prometido capítulo no domingo e ontem à noite.
Mããããããs, fiquei o fim de semana inteiro sem internet, ok?
Choremos.
Mas, segunda tive um papo reto com Hermes e a bagaça voltou ao normal.
E ontem eu não postei porque eu estava babando no teclado de tanto sono e ainda tinha que estudar pra prova difícil de biologia, cuja professora é uma Fúria. Tenho um bom palpite de que seja a Mejera, mas ok.
Em compensação, esse capítulo fico enoooooooorme. O maior que eu já fiz.
5000 Palavras.
Eu sei.
Aproveitem.
Leiam as notas finais, ok?
Boa Leitura!

Meus joelhos cederam assim que eu vi o rosto de Luke, deformado pelo pavor visível, seus olhos azuis preenchidos pelo estranho e inadequado sentimento da compreensão. A boca contorcida num esgar de desespero, o pescoço povoado por grandes hematomas azuis e arroxeados, insinuando um grotesco buquê de hortênsias. O peito músculo, antes perfeito, estava marcado, o sangue grosso distribuído entre feridas toscas, imitando garras medonhas, em três linhas profundas, exalando pus amarelado e mal cheiroso junto ao sangue. Os braços cruzados nas costas coladas ao piso gelado e imundo. O membro flácido, manchado por mais sangue. As pernas dispostas em um ângulo inumano, os pés dilacerados.

Mas isso nem era parte assustadora. Todo o sangue camuflava símbolos dispostos sobre o corpo arroxeado e frio de Luke. Símbolos cuja minha visão, turva pelas lágrimas, não conseguia entender. Padrões de arabescos sem sentido diante dos meus olhos dançavam em minha mente, provocando calafrios inesperados, me causando pavor e repugnância.

Desviei o olhar, recolocando-o sobre Thalia, que andava frenética até os portões. Forcei minhas pernas a se levantarem, mas foi inútil, elas não me obedeciam. Entretanto, eu não queria encara novamente aquele show de horrores que havíamos encontrado. Então concentrei-me em Pipper, que já havia se recuperado do choque inicial, e analisava o cenário com uma compostura régia, o olhar profissional.

─ Os símbolos parecem ter algum padrão, eles se ligam de alguma forma. ─ Eu só entendia borrões daquilo tudo. ─ Agente Kanes, contate o CHB. Mande todos os peritos que estiverem disponíveis pra cá, O.K.? ─ Ela virou-se, falando diretamente com os agentes que rodeavam o lugar, abismados. ─ Montem um perímetro, quero todo o quarteirão isolado e pronto para receberem minha equipe.

No mesmo instante, dezenas de homens de macacões pretos moveram-se, dando ordens em rádios cheios de estática, correndo em direção às vans pretas para pegar o material necessário no processo de isolamento de perímetro ou montando uma base de operações no canto do galpão, contatando a polícia nova iorquina. Pipper varreu o local com seus olhos enigmáticos, que pareciam conter todas as cores do arco — ires, a concentração visível em seus músculos retesados e na boca franzida. Provavelmente procurando Thalia, percebi.

Tirando forças de sabe-se lá onde, levantei-me, com um peso desconfortável às minhas costas, onde o corpo de Luke jazia, retorcido e violado. Obriguei-me a pensar em Thalia. Ela era mais importante nesse momento.

─ Ela não está aqui. ─ Pipper disse, convicta, pra mim. ─ Você tem ideia de onde ela pode ter ido?

Imediatamente, o pânico corroeu minhas entranhas. Senti um impulso gelado vindo de meu estômago, percorrendo meu corpo até as pontas dos meus dedos roxos e amortecidos, por ficar tanto tempo em uma posição só. “Thalia sumiu? Meus deuses, onde ela pode ter ido? Luke está morto Annabeth. Qual seria a reação de Thalia? Ok, ele a estuprou. E à sua melhor amiga. Mentiu pra ela. A traiu, o que, perto de todos esses problemas, quase parece piada. Mas foi seu primeiro amor. Disso eu tenho certeza. Ela nunca amou ninguém depois de Luke. Nem antes. Sou a melhor amiga dela, ela sempre me conta tudo. E ela me falaria se amasse alguém antes de Luke.”

─ Acho que eu sei onde ela está. É, talvez eu esteja certa, mas estamos falando da Thalia, claro que... ─ As palavras saiam tropeçando de minha boca, o nervosismo produzia um bloqueio intransponível em minha mente, todos os pensamentos se embaralhando, como se eu estivesse bêbada. Espera, é isso!─ É, agora eu tenho certeza. Já volto.

Assim que falei isso, saí correndo do galpão, ignorando chamados de agentes e olhares curiosos ou com pena. Eu iria degolar quem espalhou a história do Maníaco de New York pelo CHB quando tudo isso acabasse. Ultrapassei as fitas amarelas recém colocadas no quarteirão com meus pulmões ardendo e a respiração pesada. Meus músculos queimavam ante o esforço da corrida pesada usando salto alto. As minhas mãos estavam suando frio quando cheguei a meu destino, depois de dar várias voltas pelas redondezas.

Limpei-as rapidamente na saia de meu uniforme de brim preto, já habitual, e parei em frente ao prédio velho e mal cheiroso, depois de várias voltas para encontrá-lo, com letreiros de neon vermelho e fumaça saindo por todos os lugares abertos existentes aí. Fumaça de cigarro. Eca. Levei alguns minutos pra minha respiração voltar ao normal e minhas pernas ficarem firmes novamente. Assim que me recompus, amaldiçoei o clima traiçoeiro de New York. Os raios escaldantes do sol da manhã, acompanhados pelo vento gelado e cortante me fizeram tremer, as bochechas ardentes e vermelhas, enquanto cruzava a rua sem movimento algum, das periferias da grande cidade.

Quando abri a porta rangente do bar, quase desmaiei com a onda de ar putrefata que invadiu meus pulmões. O cheiro forte de bebida barata, combinado com o odor denso da fumaça acinzentada dos cigarros, me fizeram pensar duas vezes antes de entrar no lugar imundo e incomodo, onde tocava uma música country antiga num radinho à pilha em cima do balcão de madeira escura que exibia uma fileira de copos imundos, juntando moscas barulhentas. Ignorei tudo o que eu via, forçando meus olhos a esquadrinharem o lugar em busca de Thalia. Não foi muito difícil encontra-la. Só haviam três pessoas no bar. Um homem de meia idade, barba por fazer, moreno, de olhos castanhos e pequenininhos, gordo e baixinho, com um cigarro na boca e um copo de cerveja na mão esquerda, estava entretido com uma das banquetas junto ao balcão, falando com ela, como se fosse respondê-lo. Dizia algo sobre alienígenas serem gays e que quando o presidente da Eslováquia assumisse ter um caso com a Rainha da Inglaterra, os Soviéticos ganhariam a Terceira Guerra Mundial.

Eu sei.

Em uma mesa mais afastada, próximo a janela, estava sentado um homem não muito mais velho do que eu, cabelos desgrenhados e cheios, negros como carvão, olhos profundamente verdes que encaravam os padrões intrincados que a fumaça azul do cigarro Hillander que ele tinha entre os dedos da mão direita, levando-os periodicamente à boca, formavam contra a luz turva que vinha das janelas ao lado. Em cima da mesa, pilhas de garrafas de cerveja vazias brigavam por espaço, o copo pela metade em sua mão esquerda. Estava metido num pesado sobretudo preto, balançando os pés no ritmo da música que preenchia o ambiente.

Sentada na outra extremidade do salão, estava Thalia,de costas para a porta, com uma garrafa na mão, já pela metade. Respirei fundo e, a passos lentos, caminhei até ela, colocando a mão sobre seus ombros quando me aproximei. Ela grunhiu, mas não moveu-se um milímetro. Suspirei, derrotada, e dei a volta na mesa, me sentando à sua frente. Ela me encarou e pude ver os olhos azuis emoldurados pela pele vermelha e inchada, o nariz corado e o queixo tremendo, interrompido por um longo gole de uísque ruim, seguido de uma fungada. Permanecemos assim durante um bom tempo, até que ela disse:

─ O que foi? Me deixe em paz Annabeth! ─ Ela praticamente gritou. O rapaz de olhos verdes lampejou o olhar em nossa direção, apenas por um momento, para depois voltar aos padrões da fumaça de seu cigarro outra vez, e vindo de trás do balcão, de uma porta nos fundos, saiu um homem gordo e careca, com a barba bem feita e uma camisa branca manchada de bebidas. Ele nos olhou por um momento, sorriu pra mim e pude ver uma fileira de dentes tortos e amarelados, sendo que o primeiro dente frontal esquerdo foi substituído por um pedaço de ouro. Sorri de volta e fixei minha atenção em Thalia.

─ Por quê?

Ela ficou em silêncio, provavelmente tentando processar o sentido da minha pergunta, os olhos confusos já derramavam lágrimas. Ela soltou a garrafa no canto oposto da mesa e olhou pra mim.

─ Eu não sei. Eu só precisava disso, me entende? É o meu jeito de encontrar a paz. As respostas. De repente, tudo virou de ponta cabeça, o cara que eu amei violentou a mim e minha melhor amiga. Quatro anos depois ele volta, faz três novas vítimas e depois é encontrado morto. Aquilo tudo que um dia eu senti, quatro anos atrás, veio à tona. ─ Ela fez uma pequena pausa, encarando o homem bêbado que continuava discutindo com a banqueta.

─ Cara, eu sei do que eu estou falando! Beyoncé está casada com o Batman! E ele trabalha para o governo dos Estados Unidos e o nosso presidente é um dos Alienígenas gays, entendeu? Não discuta comigo. ─ O homem falava com a língua enrolada, claramente havia bebido mais do que suportava. O homem atrás do balcão deu uma gargalhada alta e voltou a atravessar a porta dos fundos.

─ Thalia. ─ Chamei-a. ─ Para com isso. Chega de se torturar. Você sabe muito bem que você não bebe. Sua mãe fazia isso. E agora ela está morta. Você prometeu que nunca mais poria bebida na boca depois daquele acidente. Eu confiei em você. Todos nós confiamos em você. E agora você vai botar tudo a perder? Por causa do Luke? Ele não merece, Thalia. ─ Ela tentou me interromper, mas eu fui mais rápida. ─ Eu sei. Ele foi e sempre será o seu primeiro e único amor. Mas agora ele está morto! E beber não vai mudar essa realidade.

Me doía muito ver minha amiga assim. Há sete anos, a mãe dela morreu em um acidente de carro após ter bebido. Thalia também bebia na sua adolescência, mas depois da morte da mãe, ela deu um basta, parou, prometeu pra si mesma que nunca mais beberia, por mais difícil que fosse a situação. Ela cumpriu a sua promessa. Até hoje. Mas Luke não iria estragar o que sobrou da sua vida. Não se depender de mim. Minhas palavras foram duras, porém necessárias.

Ela ficou lá, sentada, encarando a garrafa de uísque. Até que, depois de longos minutos, ela voltou a si. Levantou-se e se encaminhou para o balcão. Bateu na madeira velha, fazendo os copos sujos tilintarem. Dois minutos depois,ela já tinha pago a conta e estávamos saindo daquele lugar horrível.

─ Cara, é óbvio que não! Isso nunca aconteceria, Harry Potter deteria os astronautas antes e chegarem ao centro da Terra e zangassem o Hulk. Nunca. Você bebeu, não é mesmo? Só pode.

O homem gorducho gritou mais alto e dessa vez eu tive que rir. Percebi outro riso se juntando ao meu. Era o homem elegante e de olhos verdes no canto do bar. Ele me encarou e sorriu educadamente enquanto eu saia com Thalia, porta afora. Eu tenho certeza de que alguma coisa nele me é familiar.

–-X--

Quando entramos novamente no galpão, Leo torceu o nariz quando Thalia aproximou-se. O cheiro de bebida barata impregnava o ar ao seu redor. Disso eu não podia discordar. Provavelmente eu deveria estar cheirando à cigarro também. Fiz uma nota mental pra me livrar dessas roupas assim que chegasse em casa.

Olhei para o corpo de Luke e me surpreendi ao ver que ele fora virado: estava de costas, deixando seus quadris e mãos atadas visíveis.

Mas, que mãos, na verdade? Somente os pulsos pendiam das correntes finas que os envolviam. Arquejei em surpresa e Leo assentiu em minha direção. Não pude evitar e recuei dois passos enquanto Bianca falava:

─ Sim, eu sei. Assustador não é mesmo? FIzemso uma rápida avaliação e detectamos um símbolo muito específico desenhado no peito dele, entre centenas dos mesmo símbolos repetidos no resto do corpo. Risco biológico. ─ Nico virou o corpo de barriga pra cima outra vez e dessa vez a minha visão funcionou corretamente. No meio de seu peitoral forte e dilacerado, um símbolo se erguia em negro. Um símbolo desagradável que me fez recuar imediatamente.

─ Esse símbolo foi o mais fácil de estudar. Na verdade, há somente mais dois arabescos cobrindo o corpo, repetidamente. ─ Ela apontou para uma das pernas e eu vi um grande “α” toscamente reproduzido ali. ─ Achamos que o assassino quis mandar uma espécie de aviso aqui. “α” na crença grega significa início.

Assenti, consternada com a possibilidade.Tipo uma mensagem subliminar, então? “Esse é só o começo, haverá mais mortes”. Eu me sentia em um dos romances de Dan Brown.

─ E aqui, no abdômen, no símbolo maior, o peixe. Na simbologia cristã, o peixe significa vida nova, renascer. ─ Quem falou dessa vez foi Pipper. Ela deve ter lido a confusão no meu rosto quando afirmou: ─ Sim, isso não faz sentido nenhum.

─ Risco biológico, esse é o começo, vida nova? ─ Ponderou Clarisse.

─ Sempre se repetindo. ─ Deixei escapar.

─ Menos o de risco biológico. Este é único. ─ Completou Leo.

Nos entreolhamos, confusos e abismados, sem saber o que fazer ante a essa situação.

─Bom, eu não vou ficar aqui o dia inteiro tentando entender as charadas desse maníaco. ─ Nico exclamou depois se virou para Pipper e a irmã. ─ Annabeth e Thalia já viram tudo o que tinham pra ver aqui. Acho melhor levar o corpo pra autópsia. No CHB vamos poder trabalhar melhor com as possibilidades. Talvez o jeito como ele foi morto possa nos dizer, esclarecer, algumas coisas. ─ Nico tinha razão. Era melhor levá-lo logo, antes que a imprensa chegasse e o corpo começasse a feder.

Embrulhamos o corpo na capa preta, sendo que Thalia e eu nos mantivemos à distância durante esse processo. Não adiantou muita coisa sair o quanto antes dali, já que a imprensa estava em polvorosa nos portões do galpão quando saímos. Felizmente eles não sabiam a nome da vítima. Por enquanto. Quando chegamos ao CHB, eu e Nico fomos falar diretamente com Quíron pra saber o que iríamos fazer quanto a essa situação.Nico ligou a TV da sala de Quíron pra se distrair enquanto o esperávamos, e, imediatamente, uma repórter loira com o cabelo curto, olhos azuis e lábios vermelhos começou a falar:

─ Fontes exclusivas revelam que o corpo encontrado hoje de manhã nos galpões abandonados das empresas Chou’t , é mesmo de Luke Castellan, o Maníaco de New York. Sim, ele está morto! Parece que nem a polícia, nem o CHB sabem direito o que aconteceu. Mas as notícias que chegaram até nós, é de que o cadáver estava recoberto de símbolos, dos quais ainda não temos conhecimento. Por enquanto essas são as últimas informações, voltaremos a qualquer momento com novas atualizações.

A imagem sumiu num flash preto e branco quando Quíron desligou a televisão, entrando na sala, a passo largos e irritados. Sua expressão também não era nada feliz.

─ A situação está fugindo do controle. A imprensa já sabe que Luke está morto e o Governo está nos pressionando por respostas. Estamos sob pressão por todos os lados. Esse caso precisa ser encerrado o quanto antes. Eu quero o melhor de vocês, entenderam? A população precisa estar segura novamente, mas com essa reviravolta, até os diretores da Seita nos contataram. Não temos saída, precisamos chegar ao fim desse mistério que, a cada dia que passa, se complica cada vez mais. ─ Ele suspirou enquanto sentava na cadeira de espaldar alto de sua sala amadeirada e modesta. ─ Vão. E lembrem-se. Respostas o mais rápido possível.

Nos viramos em direção à saída, ansiosos para nos livráramos do diretos de investigação o quanto antes. Eu nunca tinha visto Quíron tão nervoso. Mas ele tinha razão, se até a Seita se manifestou, a situação tinha fugido de controle. É melhor que as coisas comecem a dar certo daqui pra frente.

─ Menos você, Annabeth. ─ Congelei no vão da porta enquanto Nico me olhava apreensivo, seguindo seu caminho. ─ Preciso falar com você. ─ Quíron disse, suspirando.

Dei a volta e entrei novamente na aconchegante sala clara. Ele levantou da cadeira e plantou os pés de frente para a lareira, que queimava calma. Quíron sempre gostou muito dessa lareira. Pediu que Zeus deixasse ele reformar a sala, só para poder ter uma. Uma vez, Leo perguntou o porquê de ter uma lareira dentro da sala. Ele disse que o calor do fogo o lembrava das pessoas queridas e que o simples fato da lareira estar ali, o mantinha perto de suas raízes, da sua família.

Finalmente, ele me olhou nos olhos, dizendo:

─ Annabteh, você e Thalia não dormem direito à quatro dias. Não tente negar, todos aqui já perceberam o cansaço em suas expressões. A tensão do momento e de tudo o que está acontecendo está confundindo Thalia, você é a melhor amiga dela, sabe do que eu estou falando. ─ Eu assenti quando ele ficou em silêncio. ─ Preciso de vocês duas inteiras, o nervosismo e a agitação estão mexendo com a cabeça de todo aqui, mas tudo isso está acabando com vocês. Me prometam uma coisa. ─ Ele fez outra pause enquanto eu assentia novamente. ─ Vão pra casa, vocês duas, e descansem. Não sei, se recuperem, não importa quanto tempo isso possa levar. Eu só quero ver vocês duas bem. É a única exigência que eu faço se vocês quiserem seguir no caso.

Eu queria discutir, dizer pra ele que ele estava errado, que Thalia e eu estávamos bem, que não precisávamos descansar, só queríamos acabar com isso o mais rápido possível. Que precisávamos de respostas mais do que qualquer um lá. Mas ao invés disso,o que saiu de minha boca surpreendeu até a mim.

─ Tudo bem. Eu vou falar com Thalia. ─ Quando ouvi a minha voz sair, monótona e cinza, pude perceber que Quíron tinha razão.

Meus nervos estavam em frangalhos, Thalia deveria estar cem vezes pior. Deuses, ela tinha bebido! Acho que um descanso não nos mataria. Muito pelo contrário. Um tempo só meus, sem trabalho ou Luke, era tudo de que eu precisava no momento.Antes que eu acabasse no hospício, sedada e gritando que ETs são gays como aquele velho bêbado no bar. Além disso, com o corpo de Luke na autópsia e na identificação, eu não tinha muito o que fazer aqui a não ser bater minha cabeça contra as paredes brancas, rebobinando as imagens de Luke morto no galpão em minha mente, acarretando na enxurrada de lembranças que atolariam em meu inconsciente. E eu acabaria me juntando ao velho bêbado, provavelmente.

Deixei a sala, decidida a reencontrar o meu próprio equilíbrio e a ajudar Thalia. Comecei a andar pelos solitários corredores prateados do CHB, entrando em cada sala à procura da detetive punk que eu tanto amava. Finalmente a encontrei, meia hora depois, no terraço. A princípio, pensei que ela estivesse chorando, mas quando cheguei mais perto, vi que tinha mais alguém com ela ali. “Nico?”, pensei.

Mas não era Nico. Era Clarisse. Elas estavam conversando, concentradas, sobre algo que eu não pude ouvir. Era estranho ver Clarisse demonstrando solidariedade à alguém. Mas é bom que Thalia escute novas vozes, quem sabe Clarisse consiga trazer um pouco de luz em sua mente confusa, já que eu estava falhando nisso. Elas ficaram lá, conversando e encarando o céu, como se a resposta para todos os problemas fosse aparecer ali, escrita com nuvens, aproximadamente por uns quinze minutos.

Até que elas riram. Sim Thalia e Clarisse rindo.

Juntas!

Acho que essa é uma amizade que pode dar certo, afinal. Clarisse se despediu de Thalia e se encaminhou para as portas. Imediatamente, comecei a andar , como se estivesse procurando algo, em frente às portas de vidro fumê.

Clarisse saiu, ou melhor, entrou por elas e eu fingi espanto, perguntando ingenuamente:

─ Ah, Clarisse! Eu estava procurando Thalia, você não a viu por aqui, talvez?

Ela franziu o cenho por um momento e depois me respondeu com uma voz comedida.

─ Está ali no terraço. Acabei de falar com ela. ─ Ela sorriu e caminhou pelo corredor, em direção aos laboratórios, antes que eu pudesse agradecer

Fui encontrar a minha amiga no terraço, passando rapidamente para o lado de fora, sentindo o vento e o sol ainda brigando pelo controle climático. Ela continuava encarando o céu.

─ Quíron me pediu pra falar com você. ─ Disse, parando a seu lado na cerca de proteção. Ela permaneceu calada, então continuei. ─ Ele quer que você e eu tiremos alguns dias pra descansar enquanto a poeira abaixa. Disse pra nos recuperarmos dessa confusão toda, com alguns dias de folga, para podermos continuar no caso e acabar com esse mistério de uma vez por todas.

Ela virou o rosto em minha direção, eu notei um certo brilho em seu olhar azul, antes elétrico, agora tristes. No começo, achei que fossem lágrimas. Mas depois percebi que seu semblante estava mais calmo, os músculos da face já não exibiam aquela careta de dor. Como se cada célula de seu corpo estivesse mergulhada no alívio, a compreensão desse sentimento chegando lentamente. Definitivamente não era um brilho de lágrimas. Era um brilho de esperança.

─ Tudo bem pra você? ─ Perguntei, hesitante, mas ao mesmo tempo feliz por ela ter falado com Clarisse. Seja lá a macumba que ela deve ter feito, precisa repetir a dose. Thalia estava quase... Humana outra vez. Tinha perdido a postura fria e desolada que adotara nos últimos dias. Sua alegria estava ali, só faltava Thalia agarrá-la novamente para si.

─ Claro que sim. Acho que nós duas precisamos disso, não é mesmo? Fiquei sabendo que a Seita ligou pro meu pai. Todo o CHB está em polvorosa, a imprensa não para de ligar. Estão tentando descobrir quem é esse tal de informante que entregou o jogo pra mídia. Acho que até a Casa Branca foi obrigada a se manifestar. Nico disse que Quíron está uma pilha de nervos, todos querem uma resposta imediatamente. ─ Sua voz saiu um pouco mais clara, e o tom de dor, habitual nesses últimos quatro dias, sumiram quase que por completo de sua voz penetrante.

─ Sim. Todos querem respostas, mas nem mesmo as perguntas ninguém sabe ao certo quais são.

Me virei e encarei o céu com ela, pensando: “Bem que as respostas poderiam mesmo aparecer escritas nas nuvens”

–-X--

Quando cheguei em meu apartamento, passava um pouco do meio dia. Rapidamente, entrei e joguei meu paletó de brim no sofá, deixando os sapatos em extremos opostos no corredor enquanto caminhava para o meu quarto. Abri as cortinas para que o sol quente entrasse, mas deixei a janela fechada para evitar o vento frio que ainda teimava em castigar New York.

Me joguei na enorme cama com colchas cor de pérola, sentindo minha cabeça pulsar de dor. Perdi os minutos, jogada ali na minha cama, esperando a dor acalmar. É claro que não adiantou. Então me levantei com um suspiro, antes que pensamentos idiotas ocupassem o vazio silencioso que parecia exalar de mim, preenchendo todo o apartamento. Fui até o guarda roupas e puxei uma camisa velha, cinza, puída, de um ombro só, suficientemente grande para cobrir o meio de minhas coxas, e uma calcinha. Fui até o pequeno banheiro que ficava dentro de meu quarto e me livrei das roupas, colocando-as em um saco plástico, não esquecendo a promessa de me livrar delas assim que entrei no velho bar.

Deixei a água quente cair sobre minha pela enquanto a tensão nos meus músculos era aliviada. Depois de vinte minutos, deixei o banheiro, totalmente relaxada, sem me dar ao trabalho de secar os cachos loiros, que úmidos, chegavam até a base de minhas costas. Eu me sentia melhor. Melhor mas com fome. Fiz uma careta ao ouvir meu estômago roncar, sentindo a bili queimar a parede estomacal causando um terrível desconforto.

Andando pelo piso gelado, fui até a cozinha, revirando os armários em busca de algo que pudesse satisfazer meu estômago. A maioria das coisas que eu tinha nos armários estavam estragadas. Então aproveitei para fazer uma faxina na cozinha, enquanto organizava uma lista de coisas que eu precisaria do supermercado. À noite eu compraria tudo pra fazer um jantar decente. Estava quase terminando quando um barulho alto e cortante percorreu o apartamento.

Imediatamente, meu corpo todo se retesou. Um arrepio cortou minha espinha e meu cérebro entrou em “modo policial”. Corri para o meu quarto, pegando a arma com silenciador, calibre quarenta e dois, escondida numa lajota falsa, ao pé da cama. Parei na soleira, esperando, a respiração ofegante, coração disparado. Durante vários minutos, só o silêncio dominava o ambiente. Andei lentamente até a porta da frente, mexendo no trinco e conferindo a fechadura, atenta para não ser pega de surpresa. Trancada. Olhei em volta, as janelas estavam todas fechadas, e além disso, estávamos no vigésimo primeiro andar.

Meu corpo começou a relaxar enquanto eu percorria o apartamento buscando a possível fonte do barulho. Quando me convenci de que era paranoia da minha cabeça, voltei para a cozinha, terminei de arrumar tudo, enfiei minha cabeça na geladeira na esperança de encontrar algo que humanos possam comer. O barulho estridente percorreu o apartamento novamente, me fazendo bater a cabeça no congelador, imediatamente a dor em minha cabeça duplicou

Xinguei baixinho a minha idiotice e saquei a arma, esperando. O barulho continuou fervendo meus tímpanos. “Espere. Mas ele não vem de dentro do apartamento. E sim de fora! Está atravessando a parede dos armários!” . Percebi, estupefata, que o barulho estridente era, na verdade, uma furadeira. “Devem estar fazendo uma reforma no apartamento vizinho.”

Voltei a me concentrar na geladeira assim que a furadeira desligou. Achei pizza fria, ainda na caixa, e imediatamente comecei a comer. Se tem alguma coisa que eu amo comer, é pizza fria! Geralmente, guardo as fatias que sobraram na geladeira pra comer no dia seguinte, faço isso desde que tinha quinze anos. Mas no caso, a pizza já estava aí dentro desde o fim de semana. Não tem problema, estou com fome e isso aqui é pizza fria. Eu engulo numa boa.

Me sentei na mesa, já devorando as fatias cremosas, quando ouço alguma coisa caindo, ou melhor, várias coisas, e, sem seguida, uma série dos piores palavrões que já foram ditos por alguém, inclusive novas criações que eu ouvi em primeira mão. Engasgo com a pizza enquanto escuto mais coisas sendo derrubadas e uma nova onda de xingamentos sendo proferidos por uma voz grossa, de homem.

“Deuses, ninguém nunca ensinou bons modos pra essa criatura, não?”

Desisto de tentar comer com aquele fundo musical desagradável, pra não dizer outra coisa, e saio do meu apartamento, me dirigindo, a passos raivosos e pesados, à porta ao lado. Tenho que confessar. Nunca percebi que tinha vizinhos. Sim, eu moro aqui à quatro anos e nunca vi nenhum vizinho. Me processem. Mas, direto ao ponto, esmurrei a porta branca com o número 60 garfado em dourado, gritando pra alguém vir me atender.

Finalmente a porta é aberta, entre resmungos e reclamações, e um familiar homem alto, com cabelos negros, cheios e desgrenhados, de profundos olhos verdes, marcados de irritação, sem camisa, exibindo seu peitoral largo, bronzeado e definido, de calças jeans escuras e manchadas de tinta azul céu, aparece, delicadamente me perguntando:

─ Quer o que aqui? Não tem apartamento, não? O abrigo para sem tetos fica no próximo quarteirão. ─ Sua voz rouca e grossa chega até meus ouvidos, me fazendo pular de susto, tamanha é a brutalidade que emanava dela.

Com um choque, percebo de onde vem a familiaridade para a figura bruta na minha frente. “É o homem que estava no bar, hoje mais cedo! Nossa mas cadê a educação que ele demonstrou algumas horas antes? Deve ter deixado lá, com o velho bêbado...”

Ele tenta fechar a porta, mas eu não deixo, me espremendo pela fissura até entrar em seu apartamento bagunçado e sujo. ─ Ei! ─ Ele protesta, mas é inútil.

Encaro seus profundos olhos verde mar, me perdendo nas linhas graciosas de seu rosto, o maxilar largo, o nariz fino, as maçãs do rosto altas, a pele bronzeada. “Foco, Annabeth!”.

─ O que? Escuta aqui, Senhor-Eu-Mando-Aqui! Eu moro no apartamento ao lado, acabei de chegar do trabalho, minha cabeça vai explodir de tanta dor e eu não consigo comer com você derrubando coisas e falando mil e um diferentes palavrões por minuto, O.K.? Existem mais pessoas nesse prédio, e você pode ser preso por perturbação da paz pública. Portanto, controle-se. ─ Ele olha pra mim, descrente com o que ouve. Estreita os olhos e me responde numa voz baixa e intimidadora.

─ E quem é você por acaso? A Polícia Federal? ─ Sua voz sai carregada com sarcasmo e ódio. Sorrio vitoriosa.

─ Quase. Sou a Agente Chase, CHB, Representando da Polícia Federal, Departamento de New York.

Ele arregala os olhos e dá um passo pra trás, ficando pálido. É, acho que agora ele sabe com quem está se metendo.

─ Me desculpe. ─ Ele suspira, se rendendo após alguns minutos de reflexão. ─ Estou em um mau dia, as coisas não estão dando muito certo. ─ Ele estende a mão e um sorriso caloroso escapa de seus lábios. ─ Meu nome é Perseu Jackson. Mas pode me chamar de Percy, Agente Chase.

Observo seus olhos, curiosa com a súbita mudança de humor. Deles só despendem sinceridade e arrependimento. Decido dar uma chance a ele.

─ Por favor, sem formalidades. ─ Digo, enlaçando nossas mãos em um aperto suave, porém confiante. ─ Pode me chamar de Annabeth. ─ Não tenho como não retribuir seu sorriso. ─ E todos nós temos um dia ruim. Esse é o ciclo da vida, não é mesmo? Acho que eu também devo desculpas por meu comportamento infantil e mimado. Mas eu também não estou em um bom dia.

─ Que pena. ─ Ele diz, me olhando de cima a baixo. ─ Bom, eu não sei você, mas quando coincidências como conhecer a nova vizinha gostosa quando nós dois estamos praticamente seminus, melhora o meu dia na hora! ─ Ele diz rindo. Eu sei que deveria ficar irritada com seu comentário, mas seu riso é tão natural, tão contagiante que acabo rindo também.

─ É, parece que temos mais em comum do que imaginávamos, não é mesmo? Acho que isso é o inicio de uma nova amizade. ─ Falo.

Ele sorri e aperta ainda mais a minha mão, assentindo.

“Deuses, Annabeth. Aonde você foi se meter?”

Ora, no apartamento do meu novo vizinho gostosão!

Notas finais
E então, quem quer ir para o apartamento do vizinho gostosão da Annabeth???
Viu, eu disse que valia a pena...
Muitas coisas, não é?
Avisem se tiver erros, eu revisei, mas nunca se sabe...
Nesse capítulo vocês terão que comentar u.u
Mais uma vez, obrigado às leitoras divam que comentam, vocês são minhas musas, tá?
Fantasminhas, sigam o exemplo delas e quem sabe eu poste os capítulos mais rápido?
Fim de semana vou fazer uma maratona, próximo capítulo eu explico porquê.
Beijim *-*