Is Prohibited
7 A Dança
Notas iniciais
As gotas finas da chuva gélida que despencava fustigava minha pele quente, fazendo meu queixo tremer enquanto eu corria pelas ruas caóticas de New York, com Percy a meu lado, cheias de engarrafamentos e pessoas que compartilhavam de nossa marcha frenética em busca de abrigo. Um coro de buzinas irritadas se juntava a gritos por táxis, choros de crianças assustadas, o barulho ensurdecedor coroado pelo pulular da chuva pesada e o cortar dos trovões, nos acompanhavam, lado a lado, enquanto Percy ria. Sim, ele estava rindo.
─ Você é louco? ─ Eu gritei pra ele enquanto costurávamos entre o engarrafamento uma quadra de distância de nosso prédio. Como alguém pode rir no meio disso?
─ Não! Mas você tem que admitir que as expressões das pessoas são engraçadas. Olha aquela mulher! ─ Ele gritou de volta e apontou com o queixo para uma mulher gordinha e baixa, com fartos cabelos castanhos encaracolados, que imitavam uma moldura ao redor de seu rosto gorducho que carregava uma expressão entre desespero e preocupação, formando uma careta disforme enquanto a maquiagem preta dos olhos franzinos escorria impotente, se juntando aos restos do batom vermelho em seus lábios pequenos. Ela estava muito irritada porque não conseguia um táxi, e gritava, histérica, algo sobre seu cabelo estar perdido.
Tive que concordar com ele.
Continuamos a rir feito loucos das reações exageradas das pessoas, e, quando dei por mim, já estávamos na porta do prédio, finalmente nos abrigando da chuva no saguão de entrada quente e iluminado. Respiramos aliviados enquanto nossas roupas coladas ao corpo formavam enormes poças a nossos pés.
─ Vamos sair daqui antes que Harry veja isto. ─ Percy se aproximou, sussurrando em meu ouvido, enquanto agarrava minha mão, me conduzindo até ao elevador antes que Harry, o porteiro certinho e mal humorado, visse o que fizemos com seu “precioso Hotel”.
Quando as portas do elevador se fecharam, uma daquelas músicas chatas e repetitivas de elevador preencheu o ambiente espelhado. Uma rápida olhada no espelho me fez ver que a mancha marrom de sorvete em meu vestido florido rinha sido lavada pela chuva.
As lembranças daquela tarde inundaram minha mente.
Era a primeira vez que Liesel ia à um circo. Ela ficara encantada quando Percy a convidou, fugiu para seu quarto rapidamente, colocando um delicado vestido rosa com sapatilhas cor de pérola, prendendo seus cabelos ruivo-alaranjados, parecidos com o da mãe, com um laço branco, destacando seus profundos olhos verde-mar, como do pai e do tio.
Assim que chegou naquele mundo fantástico, repleto de cores, sabores, formas, alegria e magia, começou a rir, encantada com tudo aquilo, me fazendo lembrar de minha própria infância. Pegamos o espetáculo das 15h00min, Liesel observava aos números absorta, não desviando sua atenção nem para comer o algodão doce azul que carregava. Percy havia comprado mais um palito do doce para dividirmos. Liesel estava tão feliz.
Quando o espetáculo terminou, nós a levamos para passear no Central Park, e como nem Percy nem eu tínhamos carro, fomos de táxi. O pôr do sol banhava-nos enquanto a pequena garotinha corria e brincava à nossa frente. No meio do caminho, Percy me surpreendeu, pegando minha mão e abrindo aquele sorriso deslumbrante que sempre me deixa vulnerável perto dele.
No parque, Liesel tinha pedido sorvete de chocolate à Percy, mas ela acabou derrubando em cima de mim enquanto corria atrás de uma borboleta, deixando uma mancha delicada no tecido fino. Nada que uma boa lavanderia não resolva. Infelizmente, Percy não pensava assim, entendendo que o passeio já havia se estendido demais, ele levou a garotinha novamente pra casa do irmão. Quando se despediu de nós, Liesel nos surpreendeu:
─ Tio Percy? Me desculpe por ter sujado o vestido de sua namorada. Não fique zangado comigo, eu não fiz por mal. ─ Depois ela voltou os grandes olhos verdes pra mim, e disse numa voz delicada: ─ Você é muito linda, Annabeth. Fico feliz que tio Percy namore você!
Então ela entrou correndo no apartamento.
─ Annabeth, você está tremendo de frio. ─ A voz melodiosa de Percy próxima a meu ouvido, me trouxe de volta ao presente. Sorri pra ele em reposta, percebendo que meus pés e mãos estavam gelados e meu corpo se contorcia involuntariamente por causa do frio, os pelos de meu pescoço e braços eriçados. ─ Vem aqui.
Ele passou os braços à minha volta, se livrando de nossos casacos encharcados a um canto do elevador, friccionando a pele arroxeada de meus braços com as mãos estranhamente quentes, aninhando minha cabeça na curva de seu pescoço, sua respiração lenta batendo no topo de meus cabelos encharcados.
Imediatamente, o calor de seu corpo me dominou. Eu ainda tremia de frio, mas os tremores estavam diminuindo gradativamente. A proximidade dele me fazia tão bem, seu cheiro de maresia se misturando ao cheiro de chuva e lã molhada era tão aconchegante que eu queria poder parar o tempo ali mesmo, só aproveitando o calor do seu abraço forte e confortável. Suspirei com a consciência de que seu toque despertava sentimento que eu deveria nunca sentir. Mas ele era irresistível, eu havia me acostumado com sua presença, sua voz, seus olhos, seu sorriso em apenas dois dias! Percy se tornara meu vício.
O elevador se abriu com um “plim” indesejado, me fazendo amaldiçoá-lo por ter chegado tão rápido, me obrigando a me separar de Percy e seu abraço quente. Meu coração deu uma cambalhota quando ele não me soltou , apenas afrouxou o abraço suficientemente para que pudéssemos caminhar pelo corredor, parando para pegar nossos casacos encharcados.
Quando chegamos na porta de nossos apartamentos, encontramos um grupo do que pareciam ser encanadores ali, parados em frente à porta do apartamento de Percy.
─ Senhor Jackson? ─ Disse o homem mais alto, usando um macacão azul, dentre os outros três. Percy assentiu, ao que o homem prosseguiu ─ Peço desculpas em nome da empresa, mas calculamos erroneamente a posição do encanamento e acabamos furando a tubulação, inundando o espaço. Infelizmente, o local está inapto para morar por enquanto.
─ Mas como assim, inundado e inapto para morar? ─A voz melodiosa de Percy saiu duas oitavas mais alta, enquanto ele retirava seus braços de mim, abrindo a porta do apartamento.
De onde eu estava, consegui ver que o local estava inundado. Praticamente submerso. Os móveis foram levantados às pressas, colocados sob suportes de plástico amarelos, as paredes e o teto apresentavam rachaduras devido à umidade, e os canos expostos gotejavam. Percy rugiu, furioso, e chutou a água à sua frente, conseguindo apenas se molhar ainda mais.
─ Podemos garantir que a nossa empresa arcara com os prejuízos, providenciando a reforma do apartamento e a troca de todo o material de encanamento. Todo o processo será de forma gratuita e o mais rápido possível, como forma de desculpas por nossa terrível falha. ─ O mesmo homem alto tornou a falar.
─ E aonde eu vou ficar enquanto isso? Debaixo da ponte? O apartamento de meu irmão só tem um quarto e é provisório enquanto sua casa fica pronta. Eu não tenho mais ninguém na cidade. ─Percy abaixou os olhos enquanto falava, preocupado.
─ Podemos oferecer uma de nossas casas campestres até que...
─ Campestres? Eu preciso ficar aqui, na cidade e não embrenhado no interior! ─ Percy interrompeu o homem, dessa vez sua voz subindo quatro oitavas, furioso.
─ Calma Percy! ─ Eu pedi, colocando minha mão em seu braço. ─ Você pode ficar lá em casa, eu tenho um quarto sobrando e não vejo problemas em você ficar lá, já que eu moro sozinha, o apartamento é grande e eu adoraria companhia, principalmente porque estou de folga. ─ Antes que eu pudesse evitar, as palavras saíram tropeçando,sem minha permissão.
─ Não Annabeth, eu não quero incomo...
─ Nem pensar, não seria incomodo nenhum, eu adoraria que você ficasse lá! Além do mais, você estaria próximo o bastante para supervisionar a reforma do apartamento. ─ Interrompi-o. Já que eu comecei, iria terminar.
–-X--
─ Você pode ficar nesse quarto, não é tão grande quanto o meu e a vista não é muito agradável, mas acho que você ficará confortável aqui. ─ Sorri para Percy enquanto o conduzia pra dentro do quarto branco e iluminado que pertencia ao meu irmão enquanto ele estava de férias.
─ Annabeth, o quarto é incrível, não poderia ser mais confortável. E a vista do beco aos fundos do prédio é ótima! Muito obrigada. ─ Ri de suas palavras enquanto ele colocava a bolsa com as roupas no canto do quarto e ele me acompanhou.
─ Você pode usar o banheiro no fim do corredor, meu quarto fica na porta ao lado, qualquer coisa é só me chamar, O.K.? Vou deixar você se habituar ao quarto, tem toalhas limpas e roupa de cama na última gaveta da cômoda, eu vou tomar banho. ─ Sorri enquanto me dirigia pra porta.
─ Muito obrigada, Annabeth, você não sabe o quanto está me ajudando. ─ Ele agradeceu pela milésima vez e eu saí do quarto, entrando no banheiro.
Deixei a água quente percorrer meu corpo, tentando me livrar do frio que ainda dominava meus membros. Quando finalmente saí, vesti um conjunto de plush confortável e quentinho, enquanto me dirigia à cozinha, vasculhando os armários, tentando decidir o que eu faria para o jantar.
Encontrei talharim e os ingredientes para fazer um yaksoba e foi isso que eu fiz: misturei tudo numa vasilha e botei no micro-ondas, não muito certa de que isso daria certo.
─ Annabeth, você poderia me ajudar aqui por favor? Acho que acabei de desmontar seu banheiro. ─ A voz de Percy chegou até mim num tom preocupado e frenético. Ri enquanto ia até seu quarto ver o que ele tinha aprontado.
Quando cheguei, ele estava segurando a porta do banheiro, no final do corredor, que estava segura somente pela dobradiça superior. Mas não foi isso o que me fez paralisar. E sim o fato de Percy estar só com uma toalha em volta da cintura, o cabelo ainda pingando, olhos suplicantes numa mistura de culpa e confusão.
–- X--
─ Só mais um pouquinho Percy, vai com mais força pra encaixar no lugar certo.
─ Estou tentando Annabeth, mas está difícil, não consigo enxergar direito, sua perna está na minha frente. ─ Sua voz carregada pela exaustão chegou até mim. Movi minha perna pra que ele pudesse enxergar direito.
─ Ótimo, se você forçar mais um pouquinho, acho que consigo terminar de encaixar com a mão. ─ Falei.
─ Não, é só eu mexer aqui que vai entrar fácil, você não vai precisar usar as mãos, só segure firme pra não desandar. ─ Ele retrucou.
Com um gemido de esforço, Percy conseguiu encaixar a porta na dobradiça, alinhando-a com a parte superior. Ele repirou fundo e se sentou ao meu lado enquanto eu colocava os parafusos no lugar, acabando com essa tarefa desagradável de ma vez por todas.
─ Com fome? ─Perguntei a ele. ─ Fiz Yaksoba.
─ Claro! ─ Ele respondeu se levantando, oferecendo a mão, que eu aceitei. ─ Só vou me trocar.
Assim que disse isso, ele deslizou numa das poças d’água que seu cabelo havia formado, caindo pra frente, por cima de mim, me pressionando contra o chão.
─ Desculpa, Annabeth, eu deslizei e...
─ Não, está tudo bem, eu nem me machuquei. ─ Interrompi-o enquanto ele se virava de barriga pra cima, me colocando sobre ele.
De repente, nossas bocas estavam muito próximas, as respirações aceleradas, seus olhos em minha boca, seu coração batendo contra o meu. Então, eu nem tive tempo de pensar direito e analisar a situação, senti Percy pressionar os lábios contra os meus, sua língua quente pedindo passagem que eu cedi imediatamente. O beijo calmo e doce fez minha cabeça rodar enquanto eu senti o gosto vicioso de sua boca quente contra minha, nossas línguas disputando por espaço numa dança sincronizada. Suas mão acariciavam meus cabelos ainda úmidos enquanto as minhas passeavam por seu peito definido.
Aquele beijo era tão bom, tão necessário que eu senti meu mundo girar de ponta cabeça “Como é que eu vivi tanto tempo sem sentir esse beijo?”. Meu corpo reagia de modo frenético a seu toque macio, delicado e quente.
–-X--
Nós comíamos em silêncio, evitando encontrar os olhares. O jantar até que estava bom, temperado e no ponto. Eu senti a sua presença mas não tinha coragem de encará-lo depois do beijo.
─ A comida está ótima. ─ Ele disse, num tom comedido, obviamente tentando desanuviar a tensão claramente existente entre nós.
─ Obrigada. ─ Respondi num tom tímido.
O seu gosto, seu cheiro, seu toque me atormentavam de uma maneira inimaginável, me trazendo as lembranças e o dèja vu.
O jantar terminou assim, frio e distante. Mas quando os pratos já estavam limpos, Percy me surpreendeu, mais uma vez.
─ Já chega, eu vou enlouquecer. ─Então sua boca encontrou a minha outra vez e embarcamos na dança frenética da conquista novamente, suas mãos explorando as curvas de meu corpo cobertas, as minhas puxando seu cabelo, o trazendo pra mais perto.
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