Irreversível
9 Capítulo 9: Quase desaparecida, mas ainda aqui
Notas iniciais
Irreversível
Escrito por Amanur e Noel Blue
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Capítulo 9: Quase desaparecida, mas ainda aqui
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A noite triste continuava. O céu chorava, as ruas lamentavam, o vento uivava.
Era uma coisa rara de acontecer, mas às vezes ela precisava se fechar em seu mundo, e desaparecer. E quando isso acontecia, ninguém sabia para onde ia, o que estava fazendo, ou com quem estava. Ela não atendia ligações, não respondia emails, não mandava mensagens. Era um mistério que guardava somente para si.
Só que, desta vez, ela foi pega de surpresa.
Eram 5 e quarenta da manhã, e ela estava na rua, tomando café preto com pães de queijo no barzinho vinte e quatro horas, administrado por três irmãos. Havia apenas mais quatro fregueses, que bebiam álcool e jogavam cartas numa mesa. Um dos donos estava de costas para ela, fumando um cigarro enquanto limpava copos.
Não se sabe se foi apenas uma coincidência, ou mais um daqueles acasos da natureza. Mas Sasuke estava sem sono. Ao invés de voltar para casa, ele ficou vagando pelas ruas, pensando. Caminhava sem rumo, sem propósito, sem vontade de nada, porque já tinha prometido a si mesmo que jamais deixaria aquele pequeno grande mostro dentro de si escapulir daquela forma, tão agressiva, tão feia. E o pior de tudo não era isso! Era o fato de ter gostado de cada segundo, de ter apreciado cada soco dado, cada pontapé deferido. Pior ainda, foi sentir prazer naquela violência contra si mesmo.
E, então, em meio a suas caminhadas pelo bairro, encontrou aquele barzinho aberto. Pensou em entrar, lavar o rosto no banheiro, encher a cara de álcool para poder voltar para casa e enfrentar outra fera. Uma fera, talvez, ainda mais mais feroz do que ele próprio, chamada Ino.
Mas na porta, ele entrava e ela saía.
Ela nem levantou o olhar para ele. Passou por ele como se nunca tivesse o visto. No entanto, ele a viu. E viu sua mochila nas costas.
— Para onde está indo? — peguntou, agarrando seu pulso.
— Não se preocupe. — sorriu — Voltarei em alguns dias…
E então, ela saiu embaixo da chuva. Assim, sem dizer mais nada.
Dizem que o tempo cura feridas, mas ele apenas disfarçava. Por que feridas na alma jamais cicatrizam. Ficam apenas ali, encobertas por uma camada de curta amnésia. Mas estão sempre ali, para toda vez que lembrarem, arderem tanto, ou até mais do que a primeira vez.
Ela levou mais tempo do que o de costume para voltar. Mas numa manhã de primavera, ela surgiu ali, naquela cafeteria, mais radiante do que nunca. Parecia outra pessoa, completamente renovada, iluminada.
Sasuke tomava café com sua amiga quando o sininho tocou. Foi uma coisa engraçada, parecia que todos sabiam que era ela chegando, porque todo mundo se virou para olhá-la.
— Bom diiiiiaaaaa! — disse a todos, com aquele sorriso exuberante que ia de ponta a ponta.
O dono da cafeteria já a conhecia, e lhe cumprimentou. Ficaram mais alguns minutos conversando sobre trivialidades, enquanto Sasuke trocava olhares com Hinata.
— O que diabos é isso? — ele perguntou.
— Não faço ideia. Não conheço ela há tento tempo, mas Naruto me disse que é costume dela fazer isso. Ele disse que nas primeiras vezes que fez isso, até chamaram a policia! Ela ficou duas semanas desaparecida. Deixou todo mundo preocupado, e não disse nada a ninguém quando voltou… Mas ela faz isso quando está triste.
Quem olhava para ela, dizia que estava voltando de uma viajem maravilhosa, apenas. Num longo vestido amarelo floral, com um longo chapéu Floppy na cabeça. Seus colares coloridos estavam no pescoço, junto com suas pulseiras e anéis. Ela era apenas cores e sorrisos. Não havia o menor resquício de tristeza em seu rosto.
O que era ainda mais triste, ele pensou.
Ela sorria para todos quando passava, caminhando na direção deles, quase como se soubesse que eles estavam ali, e quando olhou naquela direção, os viu a olhando. Se ela se surpreendeu, não deixou ninguém notar. Seus passos ficaram mais lentos, até ela parar ao lado da mesa.
— Bom dia, queridos! Vocês estão lindos aí, sentados, com esse sol maravilhoso batendo no rosto de vocês! Posso me unir a vocês?
— Claro! — disse a Hinata — Estávamos especulando por onde andastes.
— Ahh… — ela suspirou — Por lá e por cá. Por aqui, por aí, por todos os lugares e lugar nenhum! Fui onde o vento me levava! — dizia ela, meio enigmática, mas tentando desconversar.
— Não vai mesmo nos dar nenhuma dica? — a morena insistiu.
Mas ela apenas sorriu, dando de ombros, chamando a garçonete para pedir uma xícara de chá de hortelã com alguns cookies.
— Bom, de qualquer forma, preciso correr. — conformada em não obter resposta, Hinata foi se levantando — Preciso atender uma reunião no meu escritório. Mais tarde conversamos?
— Uhum.
Sakura deslizou para o lugar onde sua amiga ocupava, assim que se despediram. E então, ficou olhando para ele, com aquela expressão alegre inabalável.
— E então? Já descobriu qual é a quinta coisa irreversível? — questionou.
— Nem pensei mais nisso… — murmurou.
— Ah. Uma hora a resposta vem.. Se não veio ainda, é porque ainda não está no momento certo.
— Você acredita mesmo nessas bobagens, ou apenas se força a acreditar, porque tem medo de descobrir a verdade sobre o mundo?
Agora ela o olhou espantada. Não esperava por aquela resposta seca, meio amarga, embora já suspeitasse de que ele não acreditava em muitas coisas.
— Não tenho medo de nada, Sasuke. Só não gosto de sentir medo…
— É por isso que você foge?
— Como está a sua torta? — disse ela, desviando o assunto.
Passou o dedo sobre a cobertura de chocolate e o lambeu, olhando para o lado. Mas isso não foi o bastante para convencê-lo.
— Não acha estranho que uma pessoa que trabalha para tratar dos problemas dos outros, não saiba encarar os próprios problemas? Por que você faz isso?
— Me deixe perguntar uma coisa! Você gosta de se encontrar comigo aqui? Ainda quer continuar com isso?
— Não tenho nada melhor para fazer…
— Ótimo, então vamos manter isso assim, como está. Entre encontro esporádicos, com conversas fiadas sobre o tempo, e fingir que não estamos falando sobre outra coisa.
— Por quê? Por que tanto medo de falar sobre si mesma?
— Falar sobre mim mesma? E você, que até agora não mencionou nadica sequer sobre aqueles ataques malucos que você teve? Que tal me explicar um pouco sobre aquilo também?!
— Não é da sua conta. — emburrado, ele se levanta, querendo se afastar.
— HÁ! E lá vai você, outra vez, me deixando aqui sozinha, e depois vem querer me cobrar explicações? Está falando sério mesmo? Volte aqui!
A garçonete não tinha nem deixado seu chá sobre a mesa ainda, mas assim mesmo ela foi atrás dele que já ia marchando porta afora. Ele atravessou a rua, para entrar no seu carro, estacionado do outro lado da calçada. Até bateu a porta com força, irritado. Mas ela não se abalou, correu atrás dele e se meteu para dentro do automóvel pela porta de trás.
— Viu só, como é fácil, como é até mesmo muito bom fugir?! — o provocou.
— Para fugir de fato, a pessoa precisa se sair bem sucedida nisso. O que não é o caso, não é mesmo?
— Ah, me desculpe por ser uma pedra no seu sapato.
Ele suspirou, deixando a cabeça cair sobre o voltante.
— O que é você quer? — perguntou — Também preciso trabalhar. E você?
— Estou de férias. Já que estamos aqui, limpando os panos, porque não fazemos um troca-troca? Você me pergunta o que quiser, e eu te respondo. Depois, é minha vez de fazer as perguntas e você responde.
Ele ponderou. Estava hesitante. Tinha coisas que não gostava sequer de pensar. Tinha coisas que ainda não conseguia nem entender sobre si mesmo. Havia buracos dentro de si ainda inexplorados, feridas não remendadas, hematomas ainda dolorosos. Não tinha certeza de que estava pronto para expor tudo aquilo para ela. Ou para qualquer outra pessoa, na verdade. Nem para si mesmo...
— Realmente preciso ir trabalhar…— ele disse.
— Pode ir dirigindo.
— Você não pode ir comigo!
— Vou embora assim que chegarmos lá. Pego um ônibus, um taxi, vou de trem, ou do que for… Mas não perderei esse momento por nada neste mundo!
Ele revirou os olhos. Mas acabou ligando o motor.
— Eu começo com as perguntas! — ele exigiu — Quero saber quem é a verdadeira Sakura. Mas não essa que se veste toda colorida e sorri para todo mundo, como se o mundo em que vive fosse perfeito. Quero saber daquela que se esconde quando está triste ou zangada com alguma coisa.
— Uau. Não sabia que homens conseguiam ser tão perceptivos assim. Achei que vocês não reparassem nem na sobrancelha das mulheres…
— Às vezes, reparamos, sim. A não ser quando ela for muito bonita, que isso não importe.
— Ah, bom… Sempre soube que não era uma top model mesmo…
Ele a olhou de canto, através do espelho retrovisor. Ela parecia meio encabulada, passando a mão no cabelo.
— Não foi o que eu disse. E não tente me enrolar!
— Bom, o que há pra saber? Eu sou feita de carne e osso, ora essa! Também fico triste, também me magoo com coisas banais que me dizem. Também choro à noite por pequenas coisas. Só não gosto que me vejam para baixo. O mundo já está feio demais com coisas tristes a nossa volta. As pessoas não precisam ver mais uma pessoa triste no mundo…
Ele não sabia se concordava ou não com isso. Se por um lado ele concordava, porque sabia o que era se sobrecarregar com os problemas dos outros, por outro, ele discordava. Por que ele também sabia, por experiência própria, que não se deve sofrer sozinho, que não se deve guardar rancores. A pessoa sempre acaba se afogando dentro de si mesmo. E essa água entra no pulmão contaminando todo os outros órgãos com aqueles sentimentos impuros. Mas ele não disse nada. Apenas continuou olhando para frente enquanto dirigia.
— Agora é minha vez. — ela diz — Preparado para me dar uma explicação agora?
— Tenho outra opção?
— Você sempre tem a opção de não fazer aquilo o que realmente não quer, lembra?
Ele freou o carro, parando num semáforo. Batucou os dedos contra o volante, enquanto suspirava. Viu uma senhora atravessar a rua. E olhou para ela através do retrovisor.
Aqueles olhos grandes e verdes e curiosos o olhava sem piscar, aguardando por uma boa resposta. Ou, pelo menos, por uma resposta honesta.
— Não sei exatamente o que são aquilo. De vez em quando tenho aqueles ataques. — foi o que tinha a oferecer.
Ele tornou a olhá-la pelo espelho. Ela ainda o observava, como se procurasse alguma mentira em seu olhar. Mas como não encontrou, só lhe restou aceitar a verdade.
— Desde quando? — por fim, perguntou.
— Não sei.. Desde sempre, talvez.
— O que você sente quando os tem?
— Pânico.
— Mas porquê? Não consegue relacioná-los a alguma coisa? O que aciona esses ataques?
— Eu já respondi muitas perguntas… Que tal você me dizer para onde vai quando desaparece?
— Hummmm. Promete não contar a ninguém?
— Uhum.
— Estou falando sério, Sasuke, ninguém mais sabe disso!
— Prometo. Juro não contar a ninguém!
— Nem mesmo minha mãe sabe disso… Mas costumo juntar algumas roupas numa mochila e ir para a casa da minha avó paterna. Ela mora no interior, numa fazenda ao sul do estado. Uma fazenda bem grande, com uma pequena cachoeira, cheia de cavalos e cachorros. Aquela fazenda é um lugar mágico para mim… Ela sempre me faz esquecer do resto do mundo.
— Como é que pode nem sua mãe saber disso?
— Minha mãe não se dava muito bem com a sogra… hehe. Mas eu e a véia sempre nos demos bem. Ela me adora, me mima com todo tipo de comidinha gostosa.
— Humm.
Aí, ele precisou parar o carro outra vez, porque havia chegado ao seu local de trabalho. Ela saltou do carro, curiosa, olhando para os prédios e as pessoas que passavam por ali, porque estavam do outro lado da cidade, numa zona onde ela não costumava passar muito. E, aí, ela olhou para ele.
— Não doeu muito, doeu? — ela indagou, enquanto ele trancava o carro.
— Você sabe que posso te perguntar o mesmo, né?
Ela sorriu.
Ele sorriu.
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