Irreversível
10 Capítulo 10: Pegos na chuva
Notas iniciais
Irreversível
Escrito por Amanur e Noel Blue
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Capítulo 10: Pegos na chuva
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As folhas verdes e alaranjadas já caiam com o menor sopro de vento da primavera. E o vento forte as carregava como numa dança ensaiada de valsa, trazendo do céu uma chuva cores. Alguns galhos de árvores batiam nas janelas, e o cheiro de terra fresca se alastrava em cada cômodo da casa. Aquele aroma o tranquilizava tanto quanto o vento o agitava.
Eram nove e meia de uma manhã de domingo e ela queria brincar. Jogar aquele pequeno joguinho, em que ela monta em cima dele.
— Brinque comigo! — sussurrou ao pé do ouvido dele.
E sem nem mesmo esperar por uma resposta, ela foi se enroscando sobre ele, abrindo caminho entre os lençóis aquecidos da cama, abrindo espaço para ela entre beijos e mordiscadas, deixando rastros de sua unha por onde passava. E num piscar de olhos, como um feitiço mágico, o corpo dela já se mexia em cima dele. Como uma deusa. Parecia uma escultura de ouro sob a luz do sol que invadia o quarto pela janela. Seu cabelo longo e loiro acompanhava seus movimentos ritmados que, mesmo depois de tanto tampo, ele ainda não sabia a coreografia. Ela tinha a cabeça para trás, os olhos fechados e os lábios entreabertos, arfando e gemendo. Mas ele tinha os olhos fixos nela, quase sem piscar, enquanto suas mãos percorriam aquele corpo. Ela rebolava sobre ele, dominado-o por completo, ao mesmo tempo em que as mãos dela encravavam unhas no peito ofegante dele, deixando marcas na pele.
Cansada da mesmice, ela o puxou pelos cabelos forçando-o a sentar-se. Forçando-o a fazer tudo o que quisesse.
— Você é meu brinquedinho, e somente meu! — ela murmurou no pé do ouvido dele. Havia prazer em dizer aquilo, mais do que em ouvir. E, no entanto, ele concorda.
— Sim! — respondeu.
Os corpos se misturavam em meio ao suor e calor. As bocas se colavam enquanto mais marcas eram deixadas na pele. Marcas de unhas, marcas de mordidas, marcas de beliscões, marcas de sentimentos engessados no peito, que não conseguiam extravasar porque ficam presos na garganta toda vez que pensava naquilo.
Eles só pararam quando ela se deu por satisfeita. Como sempre. Ela jogou o corpo para o lado, exausta, sentindo-se plena.
Ele, no entanto, já não se sentia da mesma forma. Tentou se acomodar melhor sobre o colchão que ainda guardava o cheiro de seus corpos. De repente, ele sentiu uma forte necessidade de manter-se no abrigo dos braços dela.
Mas tudo o que ela fez foi sorrir, meio sem jeito, e ainda se virou de costas para ele. Não satisfeito, tentou outra vez, abraçando-a de costas mesmo. Pena que ela não conseguia ler o que estava escrito nos olhos dele. Alheia ao que ele pensava, ela o afastou.
— Vou tomar um banho. Meu pai quer que eu vá buscar minha mãe no aeroporto hoje. — ela disse, se levantando da cama.
Nesse instante, o celular dele vibrou sobre o criado mudo. Na tela, aparecia o nome da amiga dele.
— De novo? E depois você não quer que eu suspeite!
Sem dar muita bola para o que ela dizia, Sasuke atendeu a ligação.
— Tem planos para hoje? — ela perguntou assim que ele atendeu.
— Estou livre.
— A Sakura nos chamou para fazer uma trilha num morro aqui perto, agora de manhã. A ideia é montar um picnic lá no topo. Topa?
Ele olhou para sua namorada, de braços cruzados e batendo o pé. Cobriu o fone do seu aparelho.
— Estão nos chamando para dar uma volta. — informa.
— Acabei de dizer que não posso. Diz que não pode também!
— Mas eu queria ir…
— Bom, então você escolhe, Sasuke. Ou eles, ou eu. Eu não suporto essa sua amiga, e mesmo assim você insiste em dar mais atenção a ela do que a mim!
— Eu te dou toda a atenção do mundo, Ino!
Ela ergueu a sobrancelha, deixando bem claro sua posição naquela discussão.
— Ou eles, ou eu. — ela ainda insistiu.
Então, voltou a falar com a Hinata.
— Desculpa, não vai dar. — disse.
— Achei que tinha dito que estava livre.
— Esqueci que tinha marcado uma saída com a Ino.
— Aham. Sei… Bom, você quem sabe, Sasuke. A Sakura estava bem empolgada…
— Tchau.
E encerraram a ligação.
E ele olhou para sua namorada, que amenizava sua expressão, mais uma vez satisfeita.
— Obrigada. — ela disse. E ainda se aproximou dele para beijá-lo, como uma criança que fica feliz por ter conseguido o brinquedo que queria.
Em seguida, ela virou as costas e se dirigiu até o banheiro, sem se incomodar em fechar a porta. Já ele, deitou de costas na cama, suspirando e encarando o teto pálido. Se questionava sobre suas atitudes, suas vontades, suas decisões. Havia tanto o que dizer a sua namorada, aquela que deveria, na verdade, ser sua melhor amiga, sua companheira e cúmplice e, no entanto, as palavras não saiam da sua língua. Elas travavam toda vez que pensava em dizer qualquer coisa que tinha vontade de dizer. Mas era sempre como se seus pensamentos fossem inúteis, insignificantes, fúteis e irrelevantes. Como se nada daquilo realmente importasse.
O som do chuveiro ligado tomou sua atenção, e ele virou de lado, em posição fetal, enquanto olhava para o banheiro. E então, a imagem da moça maluca, aquela que fazia tudo o que tinha vontade, veio em sua cabeça. E pensou no quanto gostaria de ser um pouco, o mínimo que fosse, tão livre quanto ela.
Mas ele não podia.
Duas horas depois, sua namorada saiu. E ele se sentiu mais sozinho do que nunca naquela manhã. De repente, o dia tão bonito lá fora era apenas mais um dia como qualquer outro e tudo que ele queria era uma boa bebida e cigarros.
Se levantou da cama, e foi arrastando os pés até a dispensa da cozinha. Sabia que encontraria uma garrafa de vodca ali. Pôs um cigarro na boca enquanto abria a garrafa. E, então, alguém bateu na porta.
— O que foi que ela esqueceu? — murmurou para si.
Mas ao abrir a porta, ao invés de encarar a namorada, deu de cara com uma maluca de cabelos cor de rosa revoltos, numa calça folgada de algodão verde, blusa amarela e uma enorme mochila nas costas. E os colares, é claro, estavam todos ali pendurados no pescoço, como sempre.
— Sasuke, você sabe que dia é hoje? — perguntou, tirando seu óculos de sol do rosto.
— Dia de apodrecer na cama, fumando cigarro e bebendo álcool. — responde.
— Errado! — diz ela, o empurrando para o lado, invadindo o seu apartamento — Muito errado! Hoje é dia para sair ao sol e fazer trilhas. Dia para apreciar a bela paisagem que a natureza nos oferece. E, principalmente, dia para comer coisas gostosas ao ar livre, enquanto ouvimos música! É inadmissível que uma pessoa em pleno juízo prefira ficar em casa, se entupindo de veneno, Sasuke.
Enquanto falava, como quem não quer nada, ela ia caminhando pelos cômodos e fazendo anotações mentais sobre o que via pela frente:
Poeira.
Móveis entulhados.
Caixas desorganizadas.
Roupas espalhadas.
Nenhuma planta.
Nenhum animal.
Nenhum porta-retrato.
Louça suja na pia.
Pratos sobre a mesa.
Roupas empilhadas no chão do banheiro.
Saco de lixo transbordando.
Ou seja, casa completamente desarrumada. Tudo bagunçado, mal cuidado, mal limpo.
Exatamente como ele.
Estava tudo errado ali dentro!
Olhou para ele, deixando os ombros cair, de repente, se sentindo muito cansada.
— Mas nem à pau que vou te deixar passar o dia inteiro aqui dentro… — resmungou — Olha só para você, Sasuke! De barba mal feita, cabelo desgranhado, remela nos olhos, todo ensebado e cueca samba-canção. Achei que não usassem mais isso.
— Tem certeza de que quer falar sobre moda?
Sem dizer mais nada, ela foi empurrando ele até o banheiro.
— Tome um banho bem relaxado! Não se preocupe com o tempo. Eu te espero numa boa, já sei até com o que me entreter aqui. Vá, ande!
Ele sabia que ela ia aprontar alguma coisa. Tinha certeza disso! Mas mesmo assim, ele resolveu fechar os olhos, fingir que não suspeitava de nada, e fez como ela pedia, porque
era isso o que fazia mesmo: obedecer as mulheres, sempre.
Enquanto isso, rapidamente, Sakura ia dando uma ajeitada no ambiente. Jogou fora o que era dispensável, como latas vazias de cerveja, tocos de cigarro em cinzeiros e pacotes vazios de comida sobre a mesa de centro. Colocou todas as roupas sujas que encontrava dentro do cesto de roupas a lavar, na lavanderia. Na sala, ela ainda rearranjou os móveis em outras posições: o sofá, de frente para a porta, convidando as pessoas a entrar e sentar. O armário da tv ao lado da porta, e a poltrona na frente da janela. E abriu todas as cortinas das janelas que encontrava fechadas. No quarto, ela também mudou a posição da cama, e também trocou toda a roupa da cama. Teve que vasculhar pelas gavetas dos armários para descobrir onde ele as guardava, mas não se incomodou com isso. Colocou roupas em cabides, e sapatos no armário. As bijuterias da Ino ela guardou todas numa caixinha, e enfiou na gaveta das roupas dela.
Só faltava lavar a roupa e tirar o pó, quando ele saiu do banho, com os cabelos pingando água pelo chão. E ela já tinha a roupa que ele deveria usar estendida sobre o colchão: uma camisa vermelha, que encontrou no fundo do armário, e uma calça jeans (só porque ele não tinha bermudas, nem outra coisa mais colorida).
— Mas o que foi que você fez no meu apartamento?
— Não fiz nem a metade do que eu queria, e você já está reclamando? Vá se vestir.
— Na verdade, estou pouco me importando… O problema vai ser ter que encarar a Ino quando ver isso.
— Meu querido, se ela reclamar da casa arrumada, das duas, uma: ou ela é louca, ou ela é uma porca. Basta dizer que estava entediado e resolveu dar uma ajeitada nas coisas. Só isso. Não há nada demais nisso.
Ele suspirou.
Mais uma vez, fez o que ela mandava fazer. E, cinco minutos depois, ele surgiu na sala novo em folha, de cabelo penteado e barba feita.
— Agora, sim, você parece um ser humano de novo. — ela conclui, pegando sua mochila do sofá — Vamos?
Então, eles foram caminhando sob o sol em direção ao tal morro. Não era uma caminhada longa. Iam conversando sobre o tempo bom, sobre planos para um futuro não distante.
O morro não era muito alto, mas um tanto cansativo de subir. Precisaram fazer algumas pausas, porque lhes faltavam fôlego, pela falta de exercícios regulares.
Mas dava uma bela vista do bairro em que moravam. Depois de alguns minutos descansando da subida, absorvendo tudo o que podia daquela vista, ela abriu sua mochila e estendeu um lençol sobre a grama. Descarregou a mochila cheia de salgadinhos e tortinhas integrais, entre docinhos e uma jarra de suco de laranja, porque vitamina C é vital. Em seguida, tirou de um dos bolsos o seu MP3 player, junto com caixinhas de som em formato de bichinho, e pôs para tocar uma música.
— Agora me diga se é ou não um plano muito melhor estar aqui, do que mofando dentro daquele apartamento?
Ele se deitou sobre o lençol, e se pôs a olhar para o céu. Havia tanto tempo que não fazia isso. Há tanto tempo não se deitava na grama para olhar as nuvens. Há tanto tempo não fazia muitas coisas.
O sol não estava mais forte. Na verdade, o tempo parecia ter virado do avesso. Agora, as nuvens meio carregadas ajudavam com a sombra. Mas era mesmo o dia perfeito para aquilo.
Enquanto olhava a paisagem, ela beliscava alguns dos petiscos que ela mesma havia preparado no dia anterior para aquele propósito.
— Cadê o restante? — Sasuke pergunta de repente, se lembrando que faltava gente ali.
— Como você não ia vir, acharam que seria um passeio sem graça.
— Ah…E aí, você resolveu por conta própria que seria mais adequado invadir o meu apartamento e me arrastar para cá?
— Pra você ver como você é importante… — ela comentou, desviando o assunto, mas cheia de insinuações.
Só que ele não entendeu, e a olhou de canto, interrogativo.
— Bom, — ela explicou — por que você disse, naquele dia, que ninguém se importaria com você, se morresse?
— Ahhh! Foi só um palpite.
— Sei...Você já tinha vindo aqui?
— Não...
— Hum...Achei que tivesse algum compromisso com sua namorada. — ela resolveu arriscar.
— Eu menti. — confessou. E se surpreendeu por como aquela resposta saiu fácil demais.
— Percebi.
— Não vai perguntar por quê?
— Não é da minha conta. Mas ouvirei, se quiser me dizer.
— Falando nisso... O que nós somos? Amigos? Terapeuta e paciente? Conhecidos…?
— Ou amantes, de acordo com o meu ex… Hehe — ela olhou para ele de canto, e deu de ombros — Não sei. Não gosto de sair marcando as pessoas com rótulos. Você é isso; ele é aquilo; Fulana, aquilo outro… Nós somos o que somos. O que o tempo quiser que sejamos!
— Acho que o tempo, agora, quer que sejamos molhados. — ele resmunga, sentindo pingos de água cair do céu.
— Pô, São Pedrinho! Acabamos de chegar! — ela resmunga, guardando as coisas de volta na mochila.
Mas antes de virarem as costas para voltar a descer o morro, a água desabou, lavando os cabelos, a grama e levando embora todo o espírito aventureiro que eles poderiam ter.
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