Irreversível

6 Capítulo 6: A memória é deveras um pandemônio


Notas iniciais
Mais um! Boa leitura!

Irreversível

Escrito por Amanur e Noel Blue

Capítulo 6: A memória é deveras um pandemônio

— Me mostre a sua casa! — ela disse, sorrindo de ponta a ponta, como se tivesse tido a ideia mais brilhante do mundo.

E ele ficou ali, parado, olhando para ela meio abobalhado.

— Oi? Desculpa, acho que não entendi… — afinal, eles ainda eram estranhos.

— Aliás, vamos fazer uma troca! Venha comigo para a minha casa. Eu quero te mostrar onde eu moro, e depois você me mostra onde você mora! Que tal?

— Isso tem alguma coisa a ver com os seus estudos? Você leva todos os seus pacientes a sua casa e depois pede para ir à casa deles? — aquilo era muito estranho.

— Ah, não, querido, você não é meu paciente. Se fosse, não estaríamos conversando num café! Hehe. — ela se levantou, antes que ele dissesse alguma outra bobagem — Vem, vamos lá, vamos lá!

Ela deixou o dinheiro sobre a mesa, e foi puxando-o pelo pulso para fora daquela cafeteria. Mas bem como ela esperava que fosse acontecer, ele freou no meio do caminho.

— Pensando bem, acho que melhor não. Eu tenho um compromisso agora com… — teve dificuldade para inventar uma desculpa esfarrapada, e por isso ela percebeu.

— Não você não tem nada para fazer! Pare de inventar mentiras para se colocar para baixo! Não negue um convite para fazer algo diferente, Sasuke! Você não sabe o que pode acontecer de bom lá!

— Eu sempre tenho a opção de negar as coisas que não quero fazer. Não foi você quem me disse isso?

Ela foi pega de surpresa desta vez. E soltou o pulso dele, derrotada pelas próprias palavras.

Mas ela também sabia que ainda lhe restavam duas opções a seguir: dar as costas e desistir dele; ou insistir como uma criança louca por um doce no supermercado.

Pena para ele que ela era insistente. Pois sorriu, e voltou a pegar, desta vez, na mão dele.

— Então porque você deixou que eu o arrastasse até aqui? — perguntou. Ele ia dizer alguma coisa em resposta, mas ela o interrompeu para tornar a falar — Olha, já estamos praticamente pertinho de casa! Eu não moro muito longe! Não se preocupe que não vou abusá-lo, ou qualquer coisa parecida. Só vamos comer alguma coisa e conversar. Só isso!

Ele engoliu a seco e desviou o olhar. Esse modo de agir, sem dizer o que pensava, a deixava aflita, mas já imaginava que havia um bom motivo para isso.

Então, sem que ele se desse conta, estavam caminhando de mãos dadas pelas ruas, entre rajadas de vento frio que bagunçavam seus cabelos, e folhas secas das árvores pelas quais passavam.

— Sabe, adoro ver onde as pessoas moram, como elas organizam seus objetos, seus móveis. Essas coisas têm muito a dizer sobre as pessoas, né?

— Não sei. Você está falando sobre aquele negócio de Fig Shi?

— Feng Shui! Não e sim… Feng Shui é sobre energização de ambientes. Mas tem a ver, sim. As pessoas organizam suas vidas de acordo com suas energias.

— Ou simplesmente pela falta de tempo, dinheiro e bom gosto…? — ele resmunga, cético.

— Hehe, veremos.

Ela realmente não morava muito longe da cafeteria. Morava numa rua pequena, sem saída, cheia de casinhas coloridas com jardins floridos. “Até nisso ela conseguia ser irritante!”, ele pensou.

A casa dela ficava atrás de uma lojinha de artesanatos, como ela ia explicando.

— A lojinha é da minha mãe. Ela é artista plástica. Como esse terreno era comprido, nós demos um jeito de ocupar esse espacinho para ela produzir e vender suas obras. Não vende muito, realmente, mas ela faz o que ama, e isso é o que importa, né? Venha, vou apresentá-la.

A mulher, com vários fios de cabelo branco preso num coque baixo, estava trás de um balcão sentada numa cadeira enquanto mexia num pedaço de madeira. Sakura se aproximou dela pelo lado esquerdo, tocando o seu ombro.

— Mãe, quero lhe apresentar um conhecido. Ele veio para conhecer a minha casa.

— Ah, olá! Tudo bem? — disse para ele, entre sorrisos.

Ela não parecia tão maluca quanto a filha, ele notou. Pelo menos, não se vestia como ela.

— A senhora tem muito bom gosto! — comentou, olhando as coisas que ela produzia expostas em volta. Esculturas em madeira e papel machê, quadros, porta-objetos, e tudo o que pudesse ser manufaturado.

— O que disse? Desculpe, filho, sou surda do ouvido direito, pode vir mais para cá?!

Ele olhou meio sem jeito para Sakura, que sorriu para ele.

— Vamos lá para casa! — ela disse — Minha mãe não mora comigo. Ela mora na casa bem em frente ao atelier, do outro lado da rua. E eu moro aqui, nos fundos, numa casinha.

Eles tiveram que atravessar um pequeno corredor estreito, coberto por folhagens de plantas que ela cultivava. Um pé de uva, outro de maracujá, uma mudinha de morangos, outra de acerolas, e uma roseira.

— Bem-vindo ao meu humilde lar doce lar. — disse, animada.

A casa dela era bem pequena mesmo. Se entrava por uma porta corrediça de madeira e vidro que dava para a cozinha ampla, mesclada com a sala. É claro que o ambiente todo tinha que ser colorido, cheio de quadros, plantas e tapetes e incensos e objetos místicos. Tinha até uma cortina de miçangas que ela mesma tinha feito. Era pequeno, colorido, mas, de alguma forma, bastante confortável e aconchegante. Era convidativo. Bem organizado, limpo e iluminado. Sem querer, ele deixou um sorriso escapar pensando no quanto aquilo tudo tinha mesmo a cara dela.

É claro que ele não tinha nada a ver com aquilo tudo, sentia que ali não era o seu lugar, mas, ao mesmo tempo, havia algo inexplicável ali...

E enquanto ele olhava para os quadros, meio curioso, ela preparava uns sanduíches naturais com pães integrais, geleias caseiras e uma jarra de suco de laranja. Até os pratos e talheres dela eram coloridos.

E então, ela chama a atenção dele.

— Algo me diz que você não comeu nada além de uma garrafa inteira de vinho…— ela comenta, com a cara enfiada na geladeira.

Ele olhou para ela, meio espantado. Ela não soou como se tivesse dando um sermão, ou fazendo uma critica, mas assim mesmo ele se incomodou pela observação dela. Achou que tinha disfarçado bem o cheiro com o antisséptico bucal. Mas vai ver tivesse impregnado na roupa também.

“Devia ter passado o perfume!”, disse a si mesmo.

Ele sentou na pequena mesa redonda de madeira, com cadeiras diferentes uma das outras. Aí, ele viu o relógio de parede, bem em cima do pequeno fogão dela. Já marcava quase meio dia. E ali estavam eles, tomando café da manhã. Ele nunca tinha feito isso, por mais banal que fosse. Talvez, justamente por isso. Ele sempre buscou manter seus compromissos no horário certo. Café da manhã, no horário do café da manhã; almoços, no horário de almoços; janta no horário de jantas...Se tivesse que pular um deles, ele pulava, mas não mexia nos horários nunca.

De repente, ele não sentia mais aquele vazio que sentiu quando havia acordado naquela manhã. Talvez fosse o sabor fresco da geleia, ou do pão caseiro. Talvez fosse o suave aroma do incenso que ela havia deixado queimando. Ou então, diabos, as malditas cores faziam mesmo alguma diferença no seu humor, sempre tão negro.

E, então seu celular toca no bolso da calça. Ele o tira do bolso e dá uma espiada na tela. Era sua namorada. Ele pede licença, se levanta, e vai até a área entre a casa e a loja.

Já falei com meu pai. Ele disse que consegue um caminhão de mudanças para o próximo final de semana! Já comecei a separar algumas coisas que vou levar! Estou tão empolgada por isso, Sasuke! Mal posso esperar. Aliás, acho que já poderia levar algumas coisas para o seu apartamento. Você poderia vir aqui buscar de carro algumas coisas pequenas, né?

Ele suspirou. Ela não tinha ouvido nada do que ele disse. Não leu as entrelinhas. Não observou seus gestos. Não se importou com nada além de si mesma. Na verdade, quanto mais ouvia a voz dela, mais a achava irritante, insuportável.

Mas, no fim, ele sempre iria fingir que nada tinha acontecido.

— Sim… Posso.

Meu pai disse que eu poderia ficar com o aparelho de som dele também! Aquele que você disse que tinha gostado, lembra?

— Aham… Você quer dar uma volta mais tarde?

Ah, não… pior que estou cansada, com preguiça, na verdade. Você está em casa? Posso passar aí para ir dando uma ajeitada nas coisas…

— Não, não estou em casa…

— E onde você está?

Ele pensou.

— Na casa do meu irmão.

— Ah… Achei que você odiasse ele.

— Eu nunca disse isso!

— Tem certeza?

— De noite passo aí, para pegar suas coisas, Ino...

Ok. Te amo! — ela disse.

E ele encerrou a ligação.

Quando se virou para voltar para dentro da casa, deu de cara com a Sakura, escorada no muro, enfiando um dedo dentro do pote de geleia para lamber.

— Tsc, tsc. Nunca é bom mentir sobre onde está, mocinho. Se você morresse agora, ninguém nunca saberia onde esteve.

— Se eu morresse agora, ninguém se importaria…

— Ah… Que coisa mais triste para se dizer…

— É a vida… — ele resmunga, entrando na casa.

Ela ainda ficou mais um tempo ali, parada, pensando. Para ela, aquilo não era a vida, coisa nenhuma! Mas talvez isso fosse apenas uma questão de ponto de vista.

— Eu gostaria de tentar uma coisa você. — disse, assim que voltou — Uma seção de Reike.

— De o quê?

— Reiki. É um método de relaxamento e energização corporal. Se você aceitar, posso aplicá-lo.

Ele hesitou.

— Você tem algo a perder? — ela insistiu.

— Não…— ponderou hesitante.

— Perfeito!

Então, ela desapareceu no corredor no cômodo ao lado, e voltou instantes depois com uma toalha na mão. Cuidadosamente, ela a estendeu sobre o chão da sala. Depois, foi até uma escrivaninha, num canto da cozinha, onde estava o seu notebook com alguns retratos presos a um quadro metálico em meio a post-its e bilhetinhos coloridos. Ela colocou para tocar uma música estranha, lenta, mas relaxante. Enquanto tocava, tirou seu casaco, prendeu seu cabelo num coque e passou um creme em suas mãos. Em seguida, acendeu um incenso com um cheiro bem forte.

— O perfume te incomoda? — questionou.

— Não…

— Ótimo. Agora preciso que você tire os sapatos, e desprenda tudo o que estiver prendendo o seu corpo.

— Como assim?

— Cintos, relógio, pulseiras, correntes… qualquer coisa que estiver prendendo a circulação do seu sangue.

Com outro suspiro, ele se desfez do cinto, e dos sapatos.

— Agora deite-se sobre a toalha de barriga para baixo, na posição mais confortável que conseguir encontrar.

Ele achou aquilo um saco, mas, meio sem graça, fez o que ela solicitou.

— Feche os olhos, respire fundo algumas vezes enchendo o diafragma com oxigênio e soltando-o pela boca. — ela dizia, num tom de voz calmo e suave — Tente manter a concentração na música. Sinta as notas vibrar e fluir por seu corpo. Vou contar de dez a zero e, quanto eu zerar, você vai se imaginar num local tranquilo, calmo e verde. Pois verde é a cor na natureza, a cor da saúde, do bem estar...

Ele fez tudo como ela dizia. E, assim que ela zerou a contagem, tentou se imaginar num local cercado pela natureza, embaixo de uma cachoeira, por que, para ele, não havia local mais tranquilo do que aquele em que ele uma vez visitara quando criança.

Nesse instante, ele sentiu as mãos dela quentes sobre seus pés, fazendo massagem e pressão sobre certos pontos como a palma dos pés. Aos poucos, ela foi subindo pela canela dele, sempre pressionando com certa força em pontos estratégicos até chegar em suas costas. Ali, ela com ambas as mãos, estralou toda sua coluna. Ele ouviu seus ossos estralarem como nunca tinha imaginado ser possível. Sentiu alguma dor em alguns pontos, mas em seguida a sensação de relaxamento e alívio tomou conta do seu corpo.

Ela massageou ainda os braços e as mãos dele, a nuca, passando para as orelhas. Mas ali, no entanto, ela ficou apenas com as mãos espalmadas ao lado delas, sem tocá-la. E uma coisa estranha ele percebeu: as mãos dela estavam incrivelmente quentes. Quase em chamas. Ele pensou em abrir os olhos, mas aquele calor não era algo exatamente desagradável. Era um calor aconchegante, acolhedor...

Depois de alguns segundos ali, parada, ela passou para o topo da cabeça dele, onde também não tocou, mas estalou os dedos algumas vezes.

— Agora, — disse naquele mesmo doce tom de voz — quando estiver preparado, lentamente, vire-se de barriga para cima.

Era estranho, mas ele sentia-se adormecido, aconchegado, relaxado. Era quase como se seu corpo não estivesse vivo o suficiente para responder aos seus comandos. Ele dizia para si mesmo, “vire-se, mova-se, mecha-se”, mas não adiantava. Nem suas pálpebras queriam abrir. E o mais engraçado é que seu corpo estava pesado e ao mesmo tempo leve. Só que ele preferia atribuir aquela sensação ao relaxamento que a massagem dela causava. Talvez até aquele cheiro forte do incenso influenciasse seus neurônios. Ele não sabia ao certo. Só sabia que precisava de alguns longos segundos para recobrar todos os sentidos e poder se virar.

E quando se pôs na posição indicada, ela repetiu todo o procedimento, dos pés à cabeça. Mas desta vez foi diferente, foi mais intenso. Talvez por estar mais exposto a ela, ele achou. Talvez por ela tocar sua barria, seu peito, seu pescoço e rosto. E mesmo que o toque dela estivesse suave, ele percebeu que suas mãos continuavam bem quentes.

No entanto, na medida em que os dedos dela exploravam a pele dele, deslizando do pescoço para a nuca, imagens estranhas foram aparecendo na mente dele. Aquele verde alegre que o cercava, o som de água corrente que o acalmava, aos poucos foram desaparecendo dando lugar para cacos de vidro espalhados por todos os lado, sons de gritos de dor e medo, junto com a sensação de sufoco e falta de ar. De repente, ele se sentiu empurrado para longe do seu lugar tranquilo para o lugar mais apavorante. E aí, quando se deu conta, o verde não mais o cercava, mas o vermelho escarlate sim.

Sem se dar conta, ele começou a ter espasmos musculares, franzia o cenho numa expressão perturbada e começou a resmungar coisas.

Sakura percebeu que alguma coisa estava acontecendo com ele, e tentou acalmá-lo pedindo para que respirasse mais fundo e lentamente, para que relaxasse. Os músculos dele voltaram a ficar tensos. Mas era como se ele não estivesse mais ali, ouvindo-a. Era como se ele tivesse sido transposto para outro lugar bem longe de onde estava.

— Sasuke, você está bem? Pode abrir os olhos e falar comigo! — ela pediu.

Mas ele não respondeu. Preocupada, ela o sacudiu, balançou, chacoalhou, e nada. Chamava o nome dele, e nada. Nada funcionada. Na verdade, parecia que quanto mais o tocava, mais agitado ele ficava, com a respiração ofegante. Até começava a transpirar.

Até que, de repente, em meio a toda aquela agitação dele, Sasuke disparou um soco no rosto dela, a fazendo cair para trás.

Ela ficou meio desnorteada, mas viu que ele continuava agitado e inconsciente. Então, correu até a sua pia da cozinha, encheu um copo com água e voltou para jogá-lo sobre o rosto dele.

Só então ele recobrou os sentidos, sentando-se no chão, de repente, como se tivesse acordado de um terrível pesadelo.

Ela suspirou aliviada, deixando-se cair sentada também.

— Aleluia! — ela disse — O que aconteceu? Entrou em regressão?

Ele continuava ofegante, olhando a sua volta como se tentasse recobrar da memória onde estava. E quando a viu com a boca sangrando, ficou surpreso.

Sem dizer nada, ele se levantou, murmurou algum pedido de desculpa, pegou suas coisas e foi caminhando para fora da casa, sem nem calçar de volta seus sapatos.

...

Notas finais
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