Irreversível
7 Capítulo 7: Nós não somos o que dizemos ser
Notas iniciais
Irreversível
Escrito por Amanur e Noel Blue
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Capítulo 7: Nós não somos o que dizemos ser
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Ela não era uma mulher comum, e todo mundo sabia disso. Parentes, vizinhos, amigos, conhecidos e até desconhecidos! Bastava olhar para ela. Dificilmente, Sakura deixava-se abalar pelas dificuldades e obstáculos que aparecia em sua frente. Quando algo não dava certo, virava a página, virava o disco, seguia em frente. As coisas não precisavam ser tão complicadas nem tão sofridas, por mais difíceis que parecessem.
Dois dias depois, numa noite nublada, mesmo com tudo para dar errado, ela saiu de casa. Colocou suas botas impermeáveis, seu casaco de lã, enfiou um gorro na cabeça e saiu para dançar na noite, só por que estava com vontade.
Caminhava entre passos soltos, dançantes, enquanto cantarolava para si, sem se importar com o que pensassem dela. Sem se importar se estava mesmo ficando maluca. Fazia as coisas porque tinha vontade e pronto!
O universo decidiu que aquela seria uma noite de chuva, mas a água gelada apenas lhe dava mais empolgação, como se fosse um combustível. Quem a via, dizia que parecia uma menina sob uma chuva de verão.
Mais tarde, ainda tinha pique para jantar no seu restaurante favorito da cidade. Não precisava de companhia para se divertir, pensava. Não precisava depender de ninguém, era dona do próprio nariz.
Olharam torto para ela, por que estava completamente ensopada, é claro, mas ela era apenas sorrisos. Para não perturbar mais as pessoas com sua presença, sentou-se perto da janela, lá nos fundos. Era para ter o privilégio de observar o movimento, dizia a si mesma. Para observar até mesmo a chuva, que lavava o vidro em cascatas e gotas cristalinas. E ela pediu seu prato favorito ao garçom, sem se preocupar com valores. Naquela noite, gastaria o que fosse para ter uma boa e agradável noite para si mesma.
Mas assim que o rapaz lhe deus as costas, aquele mundo mágico e colorido, desapareceu, deixando uma mancha negra a sua volta. Um mancha que a isolava de tudo e de todos. E ficou ali, sentada no canto, solitária, observando casais entrar e sair. Era uma cena comum, cliché, e se sentia patética por isso, mas não conseguia deixar de acariciar o dedo que antes exibia uma aliança dourada porque a saudade bateu com tudo.
Não tinha chorado, não tinha lamentado, não tinha sequer pensado naquilo até então. Tinha feito de tudo para isolar aquele sentimento ruim, que apertava o peito, que estreitava a garganta e enchia os olhos de lágrimas.
Alguns segundos depois, um trovão estourou no céu, e a chuva foi ficando cada vez mais assustadora. Não conseguia mais sentir aquele doce cheiro de terra molhada. Não conseguia sentir o frio acolhedor que convidava a uma xícara de chocolate quente.
Não sentia nem as pontas dos dedos molhados.
Aí, o garçom se aproximou com seu pedido.
— Bom apetite! — ele ainda disse ao deixar a conta sobre a mesa.
Por algum motivo, aquele prato, o mesmo de sempre, não tinha o mesmo sabor. Não tinha o mesmo aroma, o mesmo tempero, não tinha sequer as mesmas cores.
Ela estava prestes a se desmanchar, a se desfazer, a se desconstruir. Estava prestes a deixar de ser ela mesma quando sentiu uma mão quente sobre o seu ombro trazendo-a de volta.
— O que aconteceu com você? Por que está toda molhada? — era o seu amigo de infância, junto com sua namorada.
Imediatamente, ela abriu o sorriso quase rasgando a pele.
— Ah, sabe como é?! Estava tomando um banho de chuva e dançando por aí! — respondeu, cheia de orgulho, se levantando para cumprimentá-los.
— Não vai pegar uma gripe assim?
— Estou bem nutrida de vitamina C! — respondeu, orgulhosa.
— Algum dia, ainda vão te prender por ser louca! — disse ele, sentando-se na cadeira a sua frente, seguido pela Hinata — Que coincidência te encontrar aqui! Combinamos de jantar aqui com o Sasuke e a namorada dele.
— Ahh, que ótimo! — ela ainda bateu umas palminhas — Estava mesmo louca para por meus olhos da dita cuja… Algo me diz que eles não têm um bom relacionamento…
— Não é difícil perceber isso. Aquela garota é a encarnação do mal! — Hinata disse, chamando o garçom — Faz dele gato e sapato. Nunca gostei dela.
— Ah, não tem problema, porque o sentimento é mútuo, querida. — eles não tinham se dado conta de que o Sasuke e sua namorada estavam vindo em direção a eles, e Ino havia escutado a ultima parte.
Pálida, Hinata forçou um sorriso sem graça.
— Estávamos falando sobre uma outra amiga nossa. — Sakura improvisou, se levantando para cumprimentá-los, bem como Naruto.
— Ah, é? Tive impressão de que fosse de mim.
Hinata, discretamente, sem emitir sons, disse “e o chapéu serviu mesmo assim”, e Sakura apenas piscou e sorriu.
Assim, eles puxaram cadeiras de outras mesas, e uniram-se ao pequeno grupo. Ficaram em silêncio por um bom tempo, um olhando para a cara do outro sem saber o que dizer. Até que a própria Ino resolveu quebrar o gelo que se formava ali.
— Não sabia que você tinha sido convidada.. — a loira resmungou, colocando um cigarro na boca — Seu prato vai esfriar. — comentou para Sakura.
— Ah, obrigada, querida, mas a salada é um prato frio mesmo. — e sorriu — É proibido fumar aqui dentro.
Ino revirou os olhos, e guardou seu cigarro.
— Cadê o garçom? Essa espelunca não tem garçons não? — a loira resmungou, desviando o assunto.
Sakura sentiu um nervo estourar na testa, mas o Naruto, que a conhecia bem, lhe deu um chute por baixo da mesa, pedindo silenciosamente para não fazer nada.
Então, o mesmo rapaz que havia a atendido antes voltou com dois pares de cardápios.
Naruto pegou um, a Hinata pegou outro. Cada um fez o seu pedido, com base no que via e desejava.
Já a Ino pegou um cardápio.
— Nós vamos querer… — dizia a loira — A paleta de cordeiro, com uma porção de fritas e uma garrafa de cerveja bem gelada, por favor!
O rapaz anotou o pedido de todos, e deu as costas prometendo voltar, no máximo, dez minutos depois.
— Não é um máximo poder estar tão conectado assim, um no outro, que um não precisa nem dizer o que quer, pois o outro já sabe?! — Sakura comentou.
Claro que havia uma boa dose de sarcasmo. E para revidar, determinada a incomodar, Ino, mais uma vez, olhou para Sakura.
— Então… Sakura, né? Você fica apenas saindo com o namorado dos outros, ou tem alguma outra ocupação?
Desta vez, foi Sasuke quem deu um pontapé em sua namorada, que ainda fingiu não ter sentido nada.
— Ah, eu tenho muitas ocupações! Sou dançarina, sou cantora, sou estudante, sou artista, sou cozinheira, sou terapeuta, sou amiga, sou vizinha, sou colega de trabalho, sou dona de casa, sou feliz! Sou tudo o que você puder imaginar! — disse, com o maior sorriso no rosto.
Naruto e Hinata não esconderam o riso, e até o Sasuke precisou se conter enquanto a loira forçava um sorriso sem graça. Aí, para desconversar, fingindo que de repente se lembrou de alguma notícia incrível, ela se vira para Hinata e Naruto.
— Ah, falando nisso, temos um anuncio a fazer! A partir deste fim de semana, o Sasuke e eu moraremos juntos, né, amor?! Já estamos com quase tudo pronto. Só faltam alguns móveis meus.
Isso fez com que Sakura escorregasse mais para baixo da cadeira, desapontada. Não poderia mais ver o lugar em que ele morava, pelo menos, não como pretendia.
Naruto e Hinata se entreolharam sem reação, e depois olharam para seu amigo, que desviou o olhar e deu de ombros, sem jeito. Como se não tivesse escolha. Se sentia envergonhado, na verdade.
— Vocês estão falando sério?! — Hinata perguntou, os olhos fixos em Sasuke.
— Claro, não é uma noticia ótima? Já estava mais do que na hora. — Ino respondeu, entusiasmada.
— Não acham que esta muito cedo? Volta e meia vocês brigam. Já foram quantas vezes só neste ano? — insistiu a morena.
— Na verdade, nossa união servirá justamente para isso! Para nos fortalecer! — garantiu a loira.
Aí, Sakura teve que se meter na conversa.
— E você já morou antes com alguém, além de sua família?
— Não…
— Ah, então, está ótimo! — concluiu, com o maior sorriso, bebericando sua taça de água mineral com gás.
Estava saboreando o novo paladar que aquela conversa estava lhe dando. Afinal, sabia muito bem das dificuldades e complicações que dividir um teto com outras pessoas poderia trazer. E tinha certeza absoluto que a tal união da qual a loira tanto se gabava iria, na verdade, resultar no contrário.
— O que aconteceu com o seu rosto? — de repente, a loira pergunta — Uma de suas aventuras?
Pela primeira vez, Sasuke levantou o olhar, fixando em Sakura. Ela também o encarava, exibindo o lábio com um pequeno corte, levemente inchado. Ele sentiu a culpa remoer, mas ela desviou o olhar para sua namorada e, com um sorriso, respondeu:
— Na verdade, vocês vão adorar essa história, há dois dias fui sair com um amigo para fazer uma trilha aqui perto, no morro atrás de casa. Na subida, ele acabou resvalando numa poça de barro úmido. Ele escorregou, tentou se agarrar no galho de um arbusto, mas a mão dele também escorregou, e ele acabou me dando um soco sem querer. — disse, sem tirar os olhos de Sasuke que, como sempre, não conseguia sustentar aqueles olhos verdes.
— Interessante. — a loira resmungou, sem o menor interesse.
Então, os pedidos chegaram. Naruto e Hinata olhavam de Sakura para Sasuke, com olhares desconfiados, enquanto o garçom organizava os pratos e talheres sobre a mesa. Assim que ele deu as costas, começaram a refeição. Não disseram mais nada, cada um concentrado em seu prato.
O resto da noite estava fadado a conversas desagradáveis, embora, no fundo, Sakura estivesse se divertindo com aquele show de horrores. Entretanto, a reunião foi interrompida antes de acabar por uma ligação.
Era o pai da Ino, numa ligação de emergência. Ele solicitava que sua filha voltasse para casa, para devolver o carro que tinha pegado emprestado — porque Sasuke teve que deixar o seu num mecânico para uma das revisões do seu automóvel. E Ino detestava pegar ônibus ou taxi.
E Ino nem reclamou, louca para ir embora.
— Bom, gente, obrigada pela noite suuuuuuper agradável! — dizia, enquanto se levantava — A noite estava ótima, mas precisamos ir! Meu pai exige que eu leve de volta o carro agora… E sabe como pais são, né?!
— E quantos volantes tem no carro? — Sakura indagou, atraindo o pior olhar possível da loira.
— A mesma quantidade que todos os automóveis têm no mundo, querida. — respondeu entre os dentes.
— Então, Sasuke pode ficar! — concluiu, contente.
— É, fique conosco, Sasuke! — Hinata o encorajou — Vocês agora têm a eternidade para ficarem juntos, já que vão morar juntos, não é mesmo?
— Ao menos, fique conosco esta noite! — Naruto apoiou.
Meio sem jeito, olhou para sua namorada. Ela estava prestes a ter um ataque de raiva, mas sabia que estaria extrapolando os limites do decoro. Então, ela se forçou a sorrir.
— É você quem decide, querido… — disse, por fim.
Ele olhou de volta para todos na mesa. Estava visivelmente hesitante. Até que Sakura, discretamente, deu um pisão em seu pé, que determinou sua resposta.
— Ok, acho que posso ficar.
Derrotada, Ino foi obrigada a dar as costas e partir sozinha. Mas não tinha dado nem dez minutos depois, que Naruto e Hinata se levantaram para ir, dizendo que tinham um compromisso cedo pela manhã. Sasuke ficou indignado, mas não disse nada.
E, então, restaram apenas eles dois. Já se passava das vinte e três horas. Havia mesmo poucos fregueses no restaurante. Ela olhou pela janela, percebendo que a chuva já tinha cessado. Viu o casal de amigos passar do lado de fora, de mãos dadas.
Suspirou. Ela estava exausta. Tanto fisicamente quanto emocionalmente. Sem querer, passou a mão sobre o aquele dedo. Por isso, acabou resolvendo encerrar a noite também.
— Me desculpe, meio que te forcei a ficar, mas vou ter que te abandonar também…
— Obrigado por não dizer nada sobre o soco… — ele murmurou.
— Te desculpo se me acompanhar até em casa. Sabe como é… As ruas não são muito seguras para mulheres…
— Uhum.
Pagaram pela conta, e saíram caminhando pelas ruas. No meio do caminho, ela ousou ainda mais, passando a mão por baixo do braço dele, enquanto iam conversando sobre trilhas.
—… Esse morro do qual falei não é muito ingrime, é tranquilo de subir nele. Mas o ideal seria num dia de verão. Há muito barro que, com a chuva, pode tornar o passeio meio perigoso mesmo.
— Hum.
— Nós deveríamos ir lá, qualquer dia desses. Quando fizer um tempo bom.
— Uhum…
Na verdade, Sasuke estava com a mente divagando em outras coisas. Como, por exemplo, a aliança inexistente no dedo dela. Ele tinha visto o gesto que ela fez, e se lembrou daquela noite naquele bar. Estava quase se coçando, em curiosidade. E tava quase, até mesmo, se achando no direito de fazer perguntas a respeito, já que ela tinha se metido em sua vida daquele jeito, sem pedir licença. Mas ainda tinha medo. Medo do desconhecido. Medo do que aquilo poderia significar para ambos. Tinha medo de que aquilo fosse dar uma passo adiante nesse relacionamento estranho que eles tinham, de palavras implícitas. De coisas compreendidas com gestos, com olhares.
—… E se o tempo cooperar, poderíamos até mesmo fazer um picnic, lá no topo do morro! A vista da cidade de lá é ótima! — ela tagarelava.
E, então, ela soltou um espirro.
— Acho que, no final das contas, ainda posso pegar uma gripe. — comentou mais para si do que para ele.
Mas sem dizer nada, ele tirou o próprio casaco para colocá-lo sobre os ombros dela.
Ela sorriu, agradecida, mas logo foram interrompidos por um pigarro.
Não tinham se dado conta de que havia chegado na frente de sua casa. E ali, escorado sobre a mureta da lojinha de sua mãe, seu ex noivo a aguardava de braços cruzados.
— Que noite agradável, não é mesmo? — o outro disse, transbordando sarcasmo.
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