Irreversível

4 Capítulo 4: Envia-me um sinal


Notas iniciais
Mais um, boa leitura!

Irreversível

Escrito por Amanur e Noel Blue

Capítulo 4: Envia-me um sinal



E ele odiava mesmo ficar sozinho. Mesmo naqueles dias em que necessitava muito se isolar do mundo para refletir sobre as coisas. Odiava se sentir solitário no meio da multidão e, ao mesmo tempo, recusava convites para sair com amigos. Ele era assim, contraditório, meio perdido, meio confuso.

Sufocado pelos próprios pensamentos, resolveu sair de casa. A noite havia chegado sem ele ao menos perceber. E o inverno também, já estava lá. Havia chegado de mansinho, sem fazer anúncio. Quando se deu conta, o tempo já estava congelante. Ele podia ver a fumaça de sua respiração enquanto caminhava. Detestava o inverno, mas não se importou em colocar o casaco que estava segurando.

Passou horas dando voltas pelas ruas, vagando sem rumo. Tentava colocar seus pensamentos em ordem, mas sua emoção estava desequilibrada; não conseguia raciocinar com clareza.

Na volta para casa, resolveu pegar uma nova rota e acabou dando de cara com um barzinho. Era uma local jeitosinho, com uma boa fachada. Parecia aconchegante e bem organizado. Pela janela, ele ainda via luzes foscas amarelas e vermelhas vindo de dentro. Sem pensar duas vezes, adentrou o lugar.

Era pitoresco, meio retrô e com o nome Hayley’s Bar, escrito em vermelho neon atrás do balcão de madeira polida. Os bancos em frente ao balcão também eram de madeira, e havia mesas espalhadas em todo o local. As mesas nas paredes eram acompanhadas de bancos estofados, também vermelhos.

Respirou fundo e sentou-se em frente ao balcão. Uma garota logo veio atendê-lo. Parecia sorrir mais do que o necessário para ele, mas não deu tanta atenção quanto ela esperava.

— Três doses de tequila. — nem se incomodou em pedir por favor. Estava muito cansado para ser educado.

As três doses eram o suficiente, não queria ficar bêbado, perder seus passos por aí vagando como um louco. Ele apenas queria aquecer o corpo e tirar o foco da mente. Por isso, naquele momento, agradeceu por ter boa resistência ao álcool.

Puxou sua carteira de cigarros junto com o seu isqueiro. Estava preste a acendê-lo quando, de repente, um casal entrou no bar.

Aquilo poderia ter sido um cena comum, como outra qualquer. Não é raro ver casais entrando em bares para se divertir, para esquecerem um pouco do estresse do seu cotidiano. Mas o que chamava atenção para eles é que não se tratava de um casal qualquer.

Era a amiga de sua amiga, a Sakura, com um homem que aparentava ser bem mais velho do que ela. O cara tinha um semblante rígido, uma cicatriz num dos olhos, parecia um soldado. E ele ainda tinha a mão fechada em torno do pulso dela, de modo que parecia estar arrastando-a porta a dentro. Além disso, ele não pôde deixar de notar como eles não pareciam combinar. Ela, toda colorida, cheia de vida, cheia de estampas e penduricalhos espalhados pelo corpo, e ele sóbrio numa calça jeans comum, com um blusão comum e uma jaqueta comum. Eles formam a imagem perfeita dos opostos.

Para disfarçar, Sasuke sentou-se de costas para eles. E tentou observá-los pelo vidro espelhado que havia também atrás do balcão. Ali, ele conseguiria ver o bar inteiro.

Não que se importasse, é claro. Mas Sasuke Ansiedade é também Curioso no nome.

Agora, todo olhos e curiosidade, esqueceu completamente o que tinha em mente há poucos instantes. Ele só enxergava o casal. Eles passaram os primeiros trinta minutos ali, conversando ou discutindo. A coisa parecia feia para o lado dela. Ele não os ouvia, pois a música do ambiente era um pouco alta, e as conversas paralelas dos outros clientes atrapalhava. Mas Sasuke conseguia entender que não estavam muito bem, tanto pelo olhar preocupado da moça, sempre de cenho franzido, e as expressões corporais do cara que sempre se engrandecia. O cara parecia estar sempre pronto para se impor contra ela.

Então, cansado de observar, ele suspirou. Engoliu sua última dose de Tequila, apagou o cigarro no cinzeiro que a mesa oferecia e se levantou.

Entretanto, naquele exato instante, o cara deu um soco sobre a mesa, atraindo a atenção de todos.

— … VOCÊ É UMA PSIQUIATRA! COMO DIABOS VOU SABER QUE ESTÁ MENTINDO OU NÃO? — de repente, ele berra visivelmente alterado — MENTIR PARA OS OUTROS QUE ESTÁ TUDO BEM É A SUA FUNÇÃO!

Constrangida, ela falou baixo para chamar menos atenção, de modo que ele não conseguiu ouvir o que disse. Mas o homem não parecia nem um pouco disposto a manter a discrição.

— SERIA MUITO MAIS FÁCIL SE VOCÊ ASSUMISSE QUE É UMA FILHA DA PUTA, DO QUE TENTAR ME ENROLAR COM ESSA DESCULPA ESFARRAPADA DE QUE ESTOU ENTENDENDO ERRADO! VOCÊ É UMA PUTA, COMO A SUA MÃE, E PONTO FINAL!

Inexplicavelmente, seu coração começou a acelerar em batimentos ritmados, fortes e retumbantes, que bombeavam sangue quente por todo o corpo.

Irritado e inquieto, e ao mesmo tempo constrangido por ela, Sasuke resolveu que não ouviria mais nada daquilo. Afinal, aquilo não tinha nada a ver consigo. Era problema dela. Ela que o resolvesse. Eles não tinham nada em comum também. Ele não devia nada a ela.

Mas o outro foi mais rápido na ação. Para encerrar a discussão, o cara simplesmente jogou na cara dela uma aliança que tirou do dedo.

— Espero que você seja muito infeliz! — ele ainda disse, para em seguida dar as costas a ela e sair do bar.

E ela, desamparada, constrangida e realmente infeliz, ficou ali, sentada, olhando para a mesa vazia, antes ocupada pelo homem que poderia ter sido a sua alma gêmea, a sua cara metade. Aquele que poderia ter sido tudo aquilo que um dia já sonhou em ter.

De repente, ela parecia um trapinho. Um flor murcha, sem vida, sem cores. Parecia uma coisinha diminuta, insignificante jogada num canto.

Sem dizer nada, Sasuke passou ao lado dela. Não sabia bem ao certo o motivo, mas ele a encarava. Esperava por algo, talvez um sinal, um gesto, alguma coisa que pudesse indicar a ele o que fazer. Ou mesmo, indicar a ele se ela o deixaria fazer alguma coisa. Mas ela, tão absorta em seus próprios pensamentos, sequer o notou. Porque a aliança estava lá, bem no meio da mesa como se fosse colocada ali para lembrá-la de que não pertencia a ninguém. De que a sua própria aliança estaria fadada a estar para sempre solitária.

Antes de sair, Sasuke ainda notou seus olhos vermelhos e molhados, antes de ela tomar toda sua bebida em um gole só, como se para afogar a si mesma. Mas ele não fez questão de voltar, ou olhar para trás. Foi caminhando em linha reta, olhando para frente, como fora ensinado a fazer desde pequeno. Nunca olhar para trás, nunca se deixar levar por sentimentos inúteis como compaixão, pena ou solidariedade.

Mas ele não foi ensinado sobre a culpa, ou o que fazer com esse sentimento. E era isso que estava sentindo naquele momento, aquela sensação estranha que entalava na garganta e o aperto na boca do estômago que fazia querer vomitar.

Ele caminhou por várias quadras, com os pensamentos indo e voltando para aquele mesmo lugar, como se um imã invisível o atraísse para aquela cena. Ele já podia ver o prédio em que morava de longe, mas antes de chegar até ele, parou, encostou as costas na parede da rua e respirou fundo, uma... duas... três vezes.

Por um impulso incontrolável, como um se uma força oculta o guiasse, então, saiu correndo, mais do que suas pernas permitiam, de volta para aquele bendito bar, se amaldiçoando por estar pensando em fazer o que estava prestes a fazer. O vento frio cortava o rosto, como se dissesse para ele: “Não faça isso! Volte!” Mas a adrenalina corria mais forte pelas veias, como um combustível poderoso para o seu corpo. E ela lhe dizia: “Ande! Corra! De pressa, mais rápido!” Por que ele não era um homem mau. Ele sabia que não era. Tinha certeza de que não era. E deixá-la ali, naquele estado, sim, era maldade.

Mas a mesa já estava vazia quando chegou. Era tarde demais. Ali, apenas duas alianças e alguns trocados repousavam sob as luzes amarela e vermelha do bar.

Mais uma vez ele deu meia volta e saiu para a noite fria.

O frio, pelo menos, não o incomodava mais.

...

Notas finais
Comentários são sempre bem vindos, nos deixe saber o que estão achando da fic.