Irreversível

5 Capítulo 5: Eu quase consigo te ver


Notas iniciais
Boa leitura!

Irreversível

Escrito por Amanur e Noel Blue

Capítulo 5: Eu quase consigo te ver

Uma vez, em uma propaganda de televisão, ele ouviu uma atriz dizer que “o objetivo da vida é ser feliz”. Ele não sabe o nome da atriz, nem lembra sobre o que era o comercial, mas aquela frase ficou tatuada em sua memória. Não como um bilhete a ser memorizado, nunca esquecido, ou como um daqueles mantras que as pessoas ficam repetindo o tempo inteiro achando que as coisas iam acontecer só pela força do pensamento. Para ele, isso era uma bobagem sem tamanho. Mas tatuou lá como um incomodo. Porque aquela frase o incomodava.

E naquela manhã, ela apareceu novamente, incomodando.

Era um final de semana. Estava largado em sua cama com um cigarro na boca e uma garrafa de vinho na mão. Eram sete horas e vinte e cinco minutos da manhã, mas ele precisava se embriagar. Sua namorada estava saindo do banho, enrolada em sua toalha, escovando os dentes com a sua escova de dentes. Ambos estavam com olheiras embaixo dos olhos.

Haviam passado a noite anterior brigando e discutindo.

Imprestável.

Inútil.

Incompetente.

Infeliz.

Foram muitos pingos em is proferidos contra ele. E, ele, apenas concordava. Porque, no fim, ele sabia que ela ia ceder, ele sabia que ela ia chorar mais alguns litros de lágrimas e pedir desculpas. Como sempre fez. E no dia seguinte, ambos iam agir como se nada tivesse acontecido. Como sempre fizeram.

— Sabe… eu estava pensando.. — ela diz — Às vezes, eu tenho a impressão de que aquela sua amiga gosta de você.

— Quem?

— Não se faça de sonso. Você sabe de quem estou falando.

Ele suspirou.

— Já disse um milhão de vezes que a Hinata é só uma amiga de infância. E ela tem namorado.

— Eu sei que ela tem, mas, sei lá. Ela liga demais para você. Ela sabe que você tem uma namorada também, então ela que vá se preocupar com os dela.

Lentamente, ele se forçou a se levantar da cama.

— Quer café? — perguntou, mas muito mais para desviar do assunto do que por qualquer outro motivo.

— Não… Combinei de tomar café com meu pai. Mas, sabe, não gosto de como ela me olha também… Ela se acha muito.

— Já são quase oito horas. Não vai se atrasar?

— Quer que eu vá embora?

— Não. Você sabe que não. Pode ficar o quanto quiser.

— A gente devia começar a morar juntos. — divagava ela, enquanto vestia suas roupas na frente dele. — Acho que isso iria nos fortalecer mais.

— Claro.

— Podemos tirar este quadro da parede e colocar aquelas prateleiras que eu tenho no meu quarto. Ficaria muito mais bonito.

— Sim.

— Podemos pintar umas duas paredes da sala, e trocar aquele seu sofá velho pelo meu.

— Poderíamos.

— Podemos jogar fora as suas penelas velhas e trocar pelo conjunto novo que a minha mãe me deu também.

— Poderíamos.

— Acho que é uma boa ideia… Morarmos juntos.

— É…Outro dia falamos sobre isso de novo...

Pouco tempo depois, ela foi embora levando consigo a tempestade que sempre a seguia. Deixou o vazio do silêncio em seu apartamento para lembrá-lo de que estava sozinho.

Mas aquela frase, aquela frase cretina, estava incomodando demais como uma dor de cabeça latejante na nuca, que incomoda até desaparecer por completo.

Então, pegou o casaco e mergulhou no frio daquela manhã. O sol batia no rosto como uma caricia acolhedora, aconchegante, mas o vento ainda cortava afiado. E quando de seu conta, ele estava lá; parado na frente daquela cafeteria. Foi tomado pelo doce cheiro de café quente e pães quentinhos, recém saídos do forno. Era um convite para entrar.

Abriu a porta, e o sininho tocou.

Havia uma meia dúzia de fregueses ali. Dentre eles, estava ela. A moça esquisita, tomando uma xícara de cappuccino como se experimentasse a coisa mais deliciosa do mundo pela primeira vez. Como se tivesse todos os motivos do mundo para estar assim, feliz com as pequenas coisas da vida.

Enquanto ele, bem, ele estava ali. De pé, se sentindo vazio como um enorme buraco. Não tinha opinião sobre nada, naquele dia. Era como se movesse apenas por comandos de choques elétricos que seu cérebro enviava para o seu corpo. Aquele era um daqueles dias, que sentia que nada fazia sentido. Um daqueles dias que deveria ficar o dia inteiro trancando dentro de casa, apodrecendo em sua cama, enraizando seus pensamentos negativos. Por que nada importava. E tudo parecia querer enviá-lo de volta para trás.

No entanto, ele estava ali, de pé. E ele se lembrou de algo que o motivou a arrastar os pés em direção a ela.

— Eu ainda não sei qual é a quinta coisa irreversível. — disse, assim que parou ao lado dela.

Ela sorriu, diferentemente do que ele esperava. Por algum motivo, imaginava encontrá-la se desmanchando aos prantos, com enormes olheiras em volta daqueles olhos verdes radiantes. Esperava encontrá-la de cabelo desalinhado, emaranhado, ao invés daquele belo rabo de cavalo que lhe caía muito bem. Esperava encontrá-la com roupas amassadas e velhas, ao invés do vestido cor de pêssego e o jaqueta branca, alinhada ao seu corpo. Esperava encontrá-la aos prantos, lamentando a perda do seu homem. E ele não entendeu. Não conseguia compreender como ela poderia estar daquela forma, tão perfeita, tão feliz, como se nada tivesse acontecido.

Muito embora, é claro, ele fosse quase mestre naquilo. Ou ele pensava que era, pelo menos.

Devagar, quase hesitante, ele sentou-se na cadeira acolchoada, em frente a mesa dela, como se esperasse que ela tocasse no assunto daquela noite com o seu noivo. Sabia que ela o tinha visto, não era possível que não tivesse o visto. Esperava que, pelo menos, então, perguntasse a ele o que diabos tinha acontecido com ele no outro dia em que surtou.

Mas ao invés disso, ao invés de tudo isso, ela apenas sorriu e disse:

— Não se preocupe. Você tem até o final dos nossos dias para descobrir isso. Já tomou café? Olha, não há café melhor no mundo do que este, feito pela manhã cedinho. Eu adoro! — e passou sua xícara sob o nariz para aspirar o doce aroma com enorme satisfação.

— Você não tem mais nada para dizer? — perguntou, de repente se sentindo muito indignado pela falta de tato dela.

— Ah, desculpe. Acho que não te dei bom dia... — disse, sem jeito.

— Não estou falando disso!

— Então do que você está falando, Sasuke?

Ele suspirou, tentando acalmar seus nervos. Tinha uma tendência muito fácil de perder a paciência pela ansiedade.

— Nada… Quando é que você vai começar a fazer as perguntas que realmente importam? As perguntas certas? Achei que você fosse psicóloga profissional.

— Psicologa profissional? Foi isso o que a Hinata te disse?

— E não é?

— Hahahaha! Não! Sou apenas uma estudante de terapia ocupacional!

Ele deu um tapa em sua própria cara, com a decepção. Mas ela não se abalou e ainda riu.

— Hahah. Acho que a Hinata nunca entendeu bem o que faço mesmo. Vivo mudando de ideia, fazendo cursos diferentes.

— O que um terapeuta ocupacional faz? Acende incensos e ouve música?

— Na verdade, você não chegou nem perto! O terapeuta ocupacional é encarregado de desenvolver atividades de trabalho e lazer no tratamento de distúrbios físicos, mentais e de desajustes emocionais e sociais. Ele deve promover a autonomia desses indivíduos com dificuldade de integrar-se à vida social por causa desses problemas.

Ela sorriu.

— Mas é bem verdade que misturo um pouco dos meus conhecimentos em psicoterapia também, porque acho importante…

— Hummm… — ele resmungou, mexendo na manga do seu casaco, de repente sem saber o que dizer.

Para ela, aquela manhã estava ficando melhor do imaginava que seria.

E tomou mais um gole do seu café, olhando para ele com curiosidade. O cabelo dele estava meio bagunçado pelo vento frio, o casaco estava mal passado, assim como a calça jeans e o blusão que vestia. Ele parecia um emaranhado de coisas mal passadas, mal vistas, mal quistas.

Então, ela teve uma ideia meio maluca.

Notas finais
Algum comentário? *As informações sobre terapia ocupacional foram tiradas daqui: http://guiadoestudante.abril.com.br/profissoes/saude/terapia-ocupacional-687902.shtml