Irreversível

12 Capítulo 12: O fantasma que você deixará para trás


Notas iniciais
Boa leituraaa! E obrigada pelos comentários no capítulo anterior! ♥

Irreversível

Escrito por Amanur e Noel Blue

Capítulo 12: O fantasma que você deixará para trás



Às seis horas da manhã ele dobra os lençóis sobre o sofá e vai embora. O sol estava mostrando seus primeiros raios de sol, enquanto ele caminhava pelas ruas suavemente frias do final de primavera. Havia poucas almas pelas calçadas, e ele enfiou as mãos nos bolso. Caminhava sempre olhando para o chão, pensativo.

Por mais contraditório que fosse, para ele, a noite havia passado devagar e rápido ao mesmo tempo, como uma contradição impiedosa do que aconteceu e do que ainda estava por vir. Ele ainda conseguia sentir os doces e suaves lábios dela sobre os seus, mesmo que aquilo não tivesse significado nada. E se perguntava porque não conseguia deixar aquilo para lá, como qualquer outra pessoa faria.

Mas ele se fixou naquele momento, revendo cada segundo em sua cabeça como se não quisesse tê-lo deixado passar. Como se agora devesse se remoer com o que passou, por incompetência sua.

Chegou ao condomínio em que morava. Nem se deu ao trabalho de subir, apenas foi direto ao estacionamento. As chaves do carro já estavam com ele, em seu chaveiro. Foi só entrar e partir.

Deu voltas e mais voltas pela cidade vendo seu combustível queimar. Já era quase meio dia quando parou na rodoviária apinhada de gente por todos os lado com malas e mochilas.

Seu pai já estava lá, o esperando.

Foi um encontro estranho. Aquele homem não parecia mais aquele que conheceu quando criança; aquele homem que parecia um titã. Agora, seu pai parecia apenas um senhor de idade como outro qualquer, encurvado, cheio de rugas e manchas na pele. Manchas que marcavam passagens de sua vida que Sasuke agora desconhecia.

— Há quanto tempo não nos vemos? Você se lembra? — foi a primeira coisa que o velho lhe disse.

— Quinze anos. — ele se lembrava perfeitamente bem.

— Ah, sim. Você se tornou um homem e tanto, hein! Tem se alimentado bem?

— Uhum...

Seu pai sorriu e tentou abracá-lo, mas Sasuke se esquivou, pegando a mala do chão para levá-la até o porta-malas do carro. Sentiu as mãos fraquejarem, mas manteve-se firme.

Quando entrou no carro, seu pai já estava sentado no banco do passageiro, bem acomodado. Mal se olharam outra vez. Suas mãos tremiam sobre o volante, mas, por sorte, seu pai não percebeu. Dirigiu direto para o restaurante em que ele havia marcado com seu irmão.

Itachi já esperava numa mesa para quatro. Eles se cumprimentaram friamente como de costume, e puxaram cadeiras. Sasuke não conseguia se lembrar quando tinha sido a última vez que o tinha visto. E bem como previra, logo o clima ficou pesado e desconfortável porque ninguém sabia por onde começar uma conversa. Olhavam para os lados como se fossem estranhos, como se não pertencessem a mesma família.

Optaram, então, por fazer os pedidos primeiro. E quando a refeição chegou, os três comeram em silêncio. Foi só quando seus pratos esvaziaram que o silêncio foi interrompido.

— Como está a mãe de vocês? — perguntou o senhor Fugaku.

— A minha continua neurótica como o senhor havia deixado. — Sasuke resmunga — Mas obrigado por perguntar. E a sua, Itachi? Melhor do que a minha?

— Você vai mesmo começar com isso agora, Sasuke? — Itachi retrucou — Ele tem setenta e três anos agora! Teve dois ataques cardíacos no ano passado, e você, onde esteve?

— No meu pequeno inferno, como sempre. Obrigado por perguntar, você também, Itachi. Por que, sinceramente, ainda estou me perguntando o que ele veio fazer aqui.

— Talvez, eu tenha vindo me despedir dos meus filho, Sasuke. Por que não sei mais quando poderei vê-los outra vez. — respondeu o velho.

Mais uma vez, silêncio.

Itachi olhava para os lados. Parecia cansado.

Seu pai olhava para as próprias mãos calejas, ainda mais cansado.

Sasuke mordiscava o palito de dente, nervoso. Sentia a tensão esmagar seus pulmões. Mas concentrava toda a sua força nos dentes, naquelas mordidas.

Queria não pensar no passado, mas era difícil com seu pai ali do seu lado, lembrando-o até mesmo do perfume que ele usava, trazendo à tona todas aquelas lembranças das quais tanto se esforçava em esquecer. Agora elas pareciam tão mais perto dele, tão mais vívidas, era quase como se conseguisse tocá-las. E em meio a tantas lembranças, continuava se perguntar sobre o sentido da palavra família. Para ele, aquilo nunca fez sentido.

A única coisa que fazia sentido era aquele gosto amargo da ânsia e revolta subia pela garganta. Ele estava louco para ir embora dali.

No entanto, o primeiro a partir foi seu irmão.

Itachi se levantou, dando uma desculpa qualquer, como compromissos marcados de última hora. Mais uma vez, lhe dando as costas quando precisava. Era lógico que ele não iria ficar ali com seu pai.

Então, Sasuke se levantou, para partir também porque não seria o estúpido a prolongar aquela tortura sozinho.

O resto do dia transcorreu bem, da maneira mais simples e prática que poderia bolar, pois ele simplesmente levou seu pai para o seu apartamento, sem trocarem mais palavras. O problema foi que, chegando em casa, ele encontrou um bilhete da namorada dizendo que ia passar uns dias com o próprio pai, para que ele pudesse “aproveitar” bem a estadia do seu pai. Era a desculpa mais esfarrapada que o cérebro cheio de vento dela poderia bolar. É claro que ele ficou fulo. Sasuke jurou amaldiçoá-la pelo resto de sua vida, mas, no fim das contas, aquilo não afetou em nada o seu plano. Pois aquele “aproveitar”, basicamente, consistiu em abandonar o velho em seu apartamento e passar o resto do dia fora de casa e, se tudo desse certo, a noite também. Ele só lamentava não poder compartilhar aquele momento tão difícil e complicado com sua namorada, aquela que deveria ser sua companheira e cúmplice.

Tentou não pensar nela, e se concentrar no fato de que queria evitá-lo a todo custo.

Então, deu uma desculpa qualquer, de que precisava sair para comprar mantimentos, mas não voltou. Passou o resto do dia dando voltas pela cidade, parecia um cachorro velho vagando pelas ruas, cabisbaixo, melancólico, mas conhecedor de todos os becos e vielas.

Quando a noite caiu sobre sua cabeça, só conseguia pensar na sensação do álcool rasgando sua garganta, e o tabaco queimando em seus pulmões. Ele reconhecia que era estupidez se embriagar para fugir dos seus problemas. Sabia que o álcool não fazia mágica, mas dava-se a desculpa de precisar de um escape, de um anestésico. E dava-se a desculpa de ter a melhor desculpa do mundo para isso...

Mal o sol se pôs e ele já estava no seu bar favorito, há umas quinze quadras de sua casa. O dono do bar já o conhecia de longas datas, de longos porres. Gostava dele, porque o homem nunca fazia perguntas. Era um sujeito calmo, de poucas palavras. Ao vê-lo sentar-se sobre o banco do balcão, sem dizer nada, serviu-lhe da mesma bebida de sempre, e apenas disse:

— É por conta da casa.

— Eu posso ficar por mais tempo, hoje. — resmungou, tirando um cigarro de sua carteira.

— Sabe, o álcool não é o melhor remédio pra solidão…

— Não é de solidão que eu sofro…

— Não é um bom remédio para nada…

— Achei que você ganhasse a vida vendendo isso...

O homem sorriu e deu as costas para atender outro freguês que havia chegado, mas fez questão de deixar a garrafa bem na sua frente, a disposição. E assim, sua noite foi passando, entre os tic-tac do seu relógio. Ele contava cada segundo para a partida do seu pai, ansioso por poder voltar à tranquilidade da sua rotina, em meio a devaneios que o fazia se transportar para o momento em que os lábios dela o tocara. Aquele momento ainda estava impregnado na sua memória. Mas, ali, com aquela dose de álcool injetada no corpo, aquilo todo parecia apenas um borrão de uma lembrança que inventara. Uma doce, levemente ácida, lembrança. E na medida em que os ponteiros do relógio avançava, a garrafa igualmente esvaziava.

Já era quase meia noite, e ele continuava lá dentro do bar. Já tinha ido ao banheiro umas três vezes para vomitar a bebida, vomitar a angústia e, principalmente, para vomitar o passado que insistia em lhe causar azia no estômago. Chegou precisar ocupar uma mesa mais próxima do toalete, porque não conseguia mais se manter de pé. O dono do bar, apesar de tudo, já estava ficando de saco cheio com ele ali, naquele estado meio mórbido, meio doentio. Disse-lhe várias vezes para parar com a bebida e ir embora para casa, mas Sasuke insistia em beber mais. Chegou até a jogar uma nota sobre a mesa, três vezes o valor de uma garrafa, exigindo ser atendido. Mas agora o dono queria fechar o estabelecimento, e se viu obrigado a escorraçá-lo para fora, deixando-o jogado na sarjeta.

E ele ficou deitado ali, fedido e sujo como um mendigo. Mal conseguia abrir os olhos e resmungava coisas ininteligíveis. Às vezes ria, às vezes chorava como uma criança. Quem passava por ele achava que estava louco, perdido no juízo. Estava na pior aparência física e estado mental que um homem poderia se encontrar. Mas se encontrar era tudo o que ele não conseguia naquele momento porque estava perdido, completamente perdido de si.

Tão distraído em sua própria amargura, não reparava, e menos ainda se importava com carros e pessoas que passavam por ele. Estava tão longe de si, que mal reconheceu os rostos que se aproximaram oferecendo abrigo e conforto.

— Não posso acreditar no seu estado, Sasuke! — disse uma das vozes.

— Vamos te levar para casa, ok, amigão!

— Nãaaao! Não! Casa, não! — balbuciou. Só a menção daquela palava o agitava, o apavorava. Começou a se debater nos braços de quem quer que estivesse o carregando pela rua.

E então, estava dentro de um carro. O balanço do automóvel o enjoava, o sufocava. Vomitou outra vez, abrindo, de repente, a porta no meio do movimento.

Naruto teve que fazer mais algumas paradas no meio do caminho para amparar os enjoos do amigo. Como Sasuke se recusava a todo custo voltar para sua casa, e ele precisava desesperadamente de um local seguro para ficar, resolveram estacionar o carro na frente da casa da Sakura, por ser a pessoa que morava mais próximo.

Entraram às pressas, carregando-o como um saco de batatas nos ombros, porque ele não tinha forças para se manter de pé. E assim, Naruto o atirou no sofá da sala dela, enquanto a Hinata explicava a situação.

— Desculpe te incomodar a essa hora da noite. , mas ele diz que prefere morrer a voltar para a própria casa. Levaríamos para a nossa casa, mas a sua estava mais perto. E, bem, veja só o estado do coitado! É um trapo!

— Não se preocupem, eu tomo conta dele… Não será a primeira vez mesmo… — ela disse.

Essa declaração pegou os dois de surpresa.

— Como assim? — a morena questionou — Ele já dormiu aqui antes?

— Há poucos dias… Estava deprimido. — deu de ombros.

Estranhamente, a Hinata abriu o maior sorriso. Só faltou bater palmas, enquanto seu namorado concordava. Mas Sakura revirou os olhos, contrariada. Não tinha a menor intenção de se juntar com ele, por mais que seus amigos tentassem, porque, bem, não tinham nada em comum. Já estava farta de se meter em relacionamentos com homens complicados e, pior ainda, homens que não tinham a mesma visão de mundo que ela. E tentou explicar isso aos dois, mas eles não pareciam convencidos.

— Quantas vezes você já nos disse isso antes, hein? — Naruto disse — E você sempre acaba caindo nas mãos do mesmo tipo de homem.

— Mas Sasuke não é exatamente o mesmo tipo de homem que o Kakashi, por exemplo. — Hinata lembrou.

— Não, claro que não. — o loiro retrucou. E aí, em tom de alerta, olhou para sua amiga — Sasuke é melhor do que o Kakashi!

Ela suspirou.

— Estou mais interessada em saber o que fazer com o dito cujo aqui. Não sei bem como lidar com bêbados. Não tenho muita experiência nisso.

— Apenas deixe-o dormir. — aconselhou Naruto — Amanhã, ele que sofra as consequências dos seus atos.

Assim, eles partiram, deixando-os a sós, naquela noite estranha.

Ela ainda estava preocupada com ele. Sasuke ainda parecia enjoado, estava pálido e suava bastante. Para aliviar seu mal estar, ela o ajudou a se acomodar melhor sobre o sofá, tirando os sapatos e o cinto que apertava sua barriga. Depois, trouxe uma tolha molhada para passar sobre o rosto dele, e ainda preparou um dos seus chás medicinais, bom para náuseas.

Para fazê-lo beber, precisou fazer com que erguesse a cabeça sobre o seu colo, com a ajuda de uma almofada. Ele estava com o corpo completamente relaxado, solto. Ele resistiu, resmungando mais coisas incompreensíveis, mas conseguiu fazer com que ele bebesse, pelo menos, alguns goles da bebida.

— Vai lhe fazer bem. Logo-logo seu enjoo vai passar. Garanto que você não comeu nada, não foi mesmo? — ela disse. Mas não esperava que ele fosse responder.

E, no entanto, ele respondeu.

— Mamãe não pode saber. — ele balbuciou. Ainda parecia meio inconsciente, meio grogue. Por isso ela não o levou a sério.

— Que você está de porre? — brincou — Prometo não contar nada!

Mas ele estava sério.

— Que ele vem à noite. Não deixe ele vir! — resmungou. E ainda se forçou a se virar para abraçá-la pela cintura, como uma criança que precisa de abrigo, de proteção.

Sem jeito, ela passou a mão pelos fios dele, acariciando, acolhendo aquela criança. E percebeu que ele tremia até os ossos, aterrorizado pela imagem que via em sua mente. Ele parecia mais doente do que imaginava, e sua testa suada estava muito quente.

— Quem? — questionou.

Ele se contorceu sobre o colo dela. Tinha no rosto uma expressão de dor profunda, como se estivesse revivendo todo aquele momento tão ruim. Até se encolheu em posição fetal, escondendo o rosto entre os tecidos da roupa dela, como se, de repente, estivesse envergonhado. Profundamente constrangido por alguma coisa.

— Ele é mau. Ele machuca! — sua voz já estava até embargada nas lágrimas contidas.

— Quem é mau? Quem machuca quem? Ele machuca você, Sasuke?

— Todo mundo. Ele estraga tudo a sua volta com aquela mão podre.

— Você vai me dizer quem ele é?

— Não posso contar.

— Você pode me dizer o que ele fazia?

— Ele é o pior pesadelo que já tive. Ainda consigo ouvir os gritos dela ecoando pela casa.

— Ele batia em sua mãe? — suspeitou.

— E ele gostava disso.

Aos poucos, o quebra-cabeças ia se formando. Pecinha por pecinha, ela ia montando aquela figura que se escondia nos olhares encabulados, no medo de enfrentar situações, na carência contida, no medo de enfrentar a namorada, na submissão conformada.

Ela até teve medo de pronunciar aquelas palavras.

— Sasuke… Quando criança...Você foi abusado?

...

Notas finais
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