Irreversível

13 Capítulo 13: Tudo começou com o Fogo


Notas iniciais
Boa leitura! ♥

Irreversível

Escrito por Amanur e Noel Blue

Capítulo 13: Tudo começou com o Fogo

Ela sabia que o destino era feito uma teia de aranha, cujo caminho dependia de cada linha que decidisse seguir. Agora, ela se perguntava como tinha ido parar, dentre todas, naquela linhazinha cretina que a levava justamente a ele.

O dia amanheceu mais quieto do que o normal, ou, talvez, fosse apenas a sua alma que havia se calado de repente. Seus olhos até ardiam, mas ela não conseguiu dormir. Passou a noite inteira sentada ao lado dele com os pensamentos se debatendo dentro de sua cachola. Eles se contorcia e retorciam para todos os lados, pensando em todas as possibilidades que aquele mundo gigante lhe dava. Pensou em tudo, pensou sobre ele, sobre suas reações, seus olhares, seus gestos. Visualizou tudo aquilo, desde o primeiro momento em que o conheceu. E, pior de tudo, é que quanto mais pensava, mais as coisas faziam sentido para ela. Tim-tim-por-tim-tim.

Deus, ela queria muito estar errada. Queria que tudo aquilo fosse apenas um grande engano, um mau entendido, um erro de interpretação. Queria, até mesmo, não ter escutado nada. Mas não importa o que pensasse, as palavras dele já estavam tatuadas bem no centro de sua memória para não deixá-la esquecer nunca mais.

O relógio já batia sete da manhã quando ela decidiu levantar daquela poltrona e ir fazer um café. Ela também queria um banho, mas tinha medo de que quando terminasse, ele teria fugido dela — dado sua tendência a escapulidas quando a coisa ficava apertada para ele, né?!.

Infelizmente, o café saiu mais amargo do que ela esperava, mas o sabor até que casava bem com os últimos acontecimentos. E foi aquele mesmo cheiro que o despertou de uma sono conturbado, sem sonhos, mas cheio de mal estares.

Ele se levantou entre gemidas mau humoradas, consequentes da ressaca. Era óbvio que sua cabeça estaria prestes a explodir. E para completar o quadro deplorável, tinha aquela náusea extremamente desagradável que o fazia se sentir doentio.

— Você sabe o que é melhor pra ressacas? — ela perguntou.

— Dizem que beber mais álcool ajuda.

— Você acha mesmo que isso vai resolver tudo?

— Ou então apelo para as maravilhas da química…

— Não tenho nada aqui. Posso ir buscar algo na farmácia, se quiser.

— Nah! Água ou café já bastam.

Então, ela colocou sobre a mesa de centro uma jarra de água com um copo, e uma garrafa térmica com o café que havia acabado de preparar com uma pequena xícara, para ele escolher.

— Façamos o seguinte: se escolher a água, você me conta tudo. Se escolher o café, fingiremos de que nada aconteceu, e você seguirá o seu caminho nas sombras do passado, sendo eternamente assombrado pelo o que te aconteceu.

— Como se te contar qualquer coisa fosse fazer o meu passado desaparecer? Está mesmo falando sério?

— Nunca disse que eu faria alguma coisa desaparecer.

— Então, o que tens a oferecer?

— Um ombro amigo. Conselhos. Incentivos. Apoio. Posso também oferecer suporte para enfrentar seja lá quem for que precise ser enfrentado, Sasuke.

Sem nem pensar duas vezes, ele pegou a garrafa térmica de café, e a colocou na xícara. E assim, sem dizer mais nada, tomou o primeiro gole. Sentiu seu estômago se revirar ainda mais com aquele sabor extremamente amargo, como se o castigasse por tê-lo escolhido. Como se fosse um lembrete do sabor que ele deveria sentir pelo resto da vida por escolher o retrocesso.

E ela ficou ali, parada, encarando-o nos olhos, cansada de tudo aquilo. A vontade que ela tinha era enchê-lo de bofetadas. Talvez, assim, quem sabe, ele acordasse para o mundo a sua volta. Mas ao invés disso, ela ficou ali penalizando-o com aquele olhar de desprezo e frustração.

Ao perceber tudo aquilo, ele se levantou.

— Não me olhe desse jeito, como se soubesse de tudo, quando você não tem ideia sobre nada!

— Eu só não entendo por que você vem até a mim, se não está disposto a se abrir comigo! O que é que diabos você quer comigo, então, Sasuke? Por que, olha, sinceramente, estou começando a me sentir incomodada com isso, sim.

— Não seja por isso! — então, sem mais, ele pegou suas coisas e foi dando as costas para ela.

— Quer saber de uma coisa? Você precisa parar com essa mania também de fugir de tudo. Não é assim que se resolve as coisas, Sasuke!

— Me deixe em paz! Eu faço o que eu quiser.

E, então, ele se foi cambaleando pelas ruas como um maltrapilho, descabelado e com as roupas amassadas sobre o corpo. Se sentia um lixo. O mais podre de todos. Se sentia como um completo asno, estúpido, inútil, imprestável, incapaz de resolver os próprios problemas. E talvez essa fosse mesmo a verdade.

E enquanto arrastava os pés pelo asfalto, se perguntava aonde tinha ido parar aquele menino que pensava apenas em brincar e sonhar. E se perguntava também como pôde se deixar transformar naquele homem tão… covarde.

Chegando em casa, se deparou com sua porta. Ficou ali parado, encarando a maçaneta como se fosse uma inimiga mortal. Não queria tocá-la, e menos ainda queria girar aquela porcaria de aço, mas sabia que não podia evitar o inevitável. Começou a dizer a si mesmo, como um mantra, “eu consigo, eu consigo” como se esperasse que aquelas palavras evocasse alguma força para dentro do espírito.

Mas a única força que apareceu foi o toque do seu aparelho fixo de telefone. A porcaria tocava sem parar, até que ele começou a estranhar que ninguém o atendia. Então, abriu a porta e entrou. O aparelho estava bem do lado. Tirou o fone do gancho para atender.

— Sim?

O que houve, Sasuke? Liguei para a Sakura para saber de você, mas ela me disse que você saiu às pressas. Está tudo bem? — era a voz da sua amiga de infância.

— Uhum.

Tentei ligar para o seu celular, mas você não atendeu. Por isso, estou ligando para cá. — aí, nesse instante, ele colocou a mão sobre os bolsos da calça, e percebeu que não estava com o seu aparelho.

— Acho que o perdi.

Está com a Sakura.

— Merda…

Vocês brigaram?

— Não foi nada…

Se você diz…

Mais alguma coisa? — ele pergunta, num tom meio azedo, olhando em volta do apartamento.

Fora o mistério que ronda sobre o motivo pelo qual o encontramos largado na rua?

— Uhum.

Você realmente não vai me dizer o que aconteceu desta vez?

— Tchau, Hina.

E encerrou a ligação. O paradeiro do seu parecia mais importante naquele instante. Estava aliviado por não encontrá-lo, mas se perguntava sobre o que poderia ter acontecido quando, de repente, a porta se abre, e ele mesmo aparece. O senhor Fugaku o olhou espantado, tanto pelo estado físico em que seu filho se encontrava, como pelo fato de tê-lo procurado a noite inteira pelas ruas porque não conseguia contatá-lo. O velho, por fim, suspirou, fechando a porta atrás de si. Não disseram nada um para o outro. E Sasuke apenas foi tomar um banho para lavar o corpo e a alma de toda aquela amargura impregnada sobre si. Sentia-se fraco, estava exausto como nunca estivera antes.

Mas a água descia por sua pele como se o arranhasse a cada centímetro que percorria. Como se não quisesse deixá-lo respirar livre de seus pensamentos, porque não poderia mesmo se livrar de nada que fizesse parte dele. Simplesmente porque ele era incapaz.

No entanto, na medida em que a água ia escorrendo pelo ralo, ele ia lembrando das palavras dela, da expressão dela. Lembrou-se também da raiva que sentia, de toda a angústia pela qual foi forçado a passar pelos fantasmas do seu passado, sem um segunda escolha. E quanto mais pensava sobre estes sentimentos, mais a raiva ia fermentando em suas veias como um poderoso veneno.

Quando saiu do banho, ele sentia como se uma pesada nuvem negra o cercasse. Como se aquele veneno tivesse tomado conta de todo o seu corpo, e agora era o que o movia. Marchou até a sala, onde seu pai, distraído, lia um jornal velho jogado numa poltrona.

— Não posso mais aceitar essa circunstância patética!

— Do que está falando? — perguntou o homem, sem nem levantar os olhos do papel.

— Eu ainda não sei o que você está fazendo aqui e, sinceramente, pouco me importa. Pegue as suas coisas, e vá embora!

Calmamente, o senhor Fugaku colocou o jornal de lado. Tinha estampado no rosto aquela mesma tranquilidade impassiva da qual se lembrava perfeitamente bem. E lembrava muito bem também da explosão de fúria da qual ela era seguida.

No entanto, as coisas pareciam mesmo ter mudado. Afinal, ele não era mais o mesmo homem de quarenta e tantos anos, não tinha mais a mesma saúde, não tinha mais a mesma força física, embora seu temperamento sonso continuasse lá. Então, ele apenas se levantou, encarando o filho.

— Sabe aquela ladainha que todo pai diz ao filho mal criado? Coisas do tipo “ah, mas fui eu quem te deu comida na boca! Fui eu quem pus alimento na sua mesa. Fui eu quem te deu um teto para ficar nos dias de tempestade, e nos dias mais quentes também! Fui eu quem te deu a oportunidade de ir para uma escola e estudar. Fui eu quem lhe disse o que era certo e o que era errado...”

— Essa última parte, acho que não convém. — Sasuke o interrompeu.

— Não, claro que não. Nada disso convém. A única coisa que convém aqui, Sasuke… é que mesmo assim, mesmo depois de todas essas coisas, eu ainda posso ter a satisfação de saber que você irá repetir tudo de novo quando formar a sua família.

— Como é que é?

— Esse é o legado que essas coisas nos deixam. São as marcas que ficam, e as marcas que são passadas adiante como se estivessem transcritas no DNA.

— Eu não vou fazer isso.

— Tenho certeza de que já faz, só não percebeu ainda. Ou por que é muito mesquinho, ou muito idiota mesmo.

Sasuke ficou olhando para ele com todo o desprezo que conseguia carregar no olhar. Estava cada vez mais cheio de ódio por aquele sujeito. A cada segundo que passava diante dos seus olhos, mais aquela fúria ia carregando seus pulmões, contaminando o seu coração, preenchendo os vazios que habitava sua mente. E, assim, como se de repente alguém tivesse acionado o gatilho, ele avançou para cima do seu pai, como deveria ter feito quando mais novo. Como deveria ter feito quando as coisas erradas aconteciam.

E ele não teve o menor pingo de ressentimento ou arrependimento. Bateu no velho, espancou-o como há muito tinha vontade de fazer. Entre socos, tapas e pontapés, como já havia, em muitas ocasiões, delirado em fazer. E ele estava gostando daquilo, se sentia cada vez mais preenchido a cada soco dado, a cada pontapé deferido. Sentia-se vingado, sentia-se justiçado, por mais que julgasse aquilo não ser nem a metade do que ele próprio já sentiu. Tudo o que conseguia pensar era que deveria colocar para fora toda aquela coisa negativa que, por tantos anos, o contaminara.

Ele só parou quando se sentiu exausto e viu o velho encolhido no canto do chão, meio inconsciente, cheio de hematomas, inchaços e ensanguentado. Mas Sasuke não conseguia sentir a menor empatia. O velho apenas parecia uma sujeira que atrapalhava o seu caminho. Um pequeno estovo a ser jogado fora.

Ele precisou sentar-se, para colocar sua mente e emoções em ordem. Enquanto respirava fundo, tentava calcula seus próximos passos. Tinha consciência dos seus atos, e tinha consciência do que deveria fazer. Então, um pouco mais calmo, pegou seu aparelho de telefone e ligou para o irmão.

— Se ainda quiser o seu pai, venha buscá-lo. Eu vou me entregar à polícia.

...

Notas finais
Algum comentário?