Ironside daughter - vikings
15 ❂ QUINZE ❂
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— Este capítulo é dedicado a minha falecida mãe, a maior das guerreiras.
—I. R. R. BORBA
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❂ Hedeby, anos antes. ❂
A lua erguia-se no céu obscuro em sua total forma. O quarto encontrava-se imerso em uma frágil escuridão, deixando sua iluminação no encargo de velas com suas chamas bruxuleante que já muitas estavam quase em seu fim. Distante em poucos passos da cama, Lagertha esperava pacientemente a velha curandeira da vila terminar sua avaliação em Siggy. A mulher possuía longos cabelos grisalhos que escorria até o meio de suas costas. Seu capa esfarrapada azul cobria até a ponta de seus pés, arrastando-se levemente. Tal figura nunca fora mais comum na visão de Lagertha desde a chegada de Siggy em seus cuidados. A menina simplesmente sempre adoecia de uma hora para outra, cada vez pior que a anterior. Porém desta vez, Lagertha vira que havia algo errado quando desembarcou do porto da vila e não avistou os olhos curiosos de Siggy. Não havia seu sorriso esperando por Lagertha, não havia a sua voz de entusiasmo ao reconhecê-la vindo em sua direção. A única coisa que tinha em sua espera era a escrava com seu rosto abatido e suas mãos entrelaçadas.
—- Me desculpe, fiz tudo que pude, mas creio que nesta noite a menina fará sua passagem para Helheim.
Ao ouvir as palavras da curandeira, Lagertha encontrava-se alarmada, mesmo com toda a devastação que possuía em suas costas. Seria mais uma perda dentre muitas que já sofrera em sua vida. Após a morte de sua filha Gyda por conta de uma doença que assolou o vilarejo anos atrás e saber que jamais poderia gerar filhos outra vez em seu ventre, teve em pensamento de que mais nada neste mundo poderia lhe abalar. Ainda que inesperadamente, algo em seu coração permanecia, semelhante a uma enfraquecida chama de esperança como as das velas no quarto. Lagertha aproximou-se da menina em sua cama observando-a. Seus longos cabelos dourados estavam espalhados em seu travesseiro. Os lábios esbranquiçados assim como seu rosto em total palidez. Apesar disto, a menina possuía uma pura beleza, mas o que lhe era uma pena. Com o constante adoecer de Siggy, Lagertha tratou de preparar-se para o pior, mas ao chegar de sua expedição e encontrá-la no leito foi um tanto espantoso para si. Mesmo doente, Siggy se mantinha de pé, fazia extremos esforços em seus treinamentos, mantinha suas caçadas a javali, permanecia ao seu lado constantemente, lhe considerando como sua única mãe. Houve uma relutância ao trazer Siggy para sua vila e criá-la, pois ainda havia uma tristeza profunda em seu coração por acabara de recuperava-se de outra perda em seu ventre e de ferimentos da última tentativa de tomada a Paris. No entanto, ao saber de onde a menina fora tirada, percebeu que acima de tudo ela era de seu sangue, sua neta, sendo assim, não pôde deixá-la em total miséria.
—- Mamãe...- sussurrou Siggy. Não havia forças para elevar mais sua voz. Sua mão direita buscava a de Lagertha entre as peles que lhe aqueciam. Quando finalmente a encontrou, tudo que conseguiu fora um fraco aperto levando mais entristecimento a Lagertha.
—- Estou aqui.- respondeu ela com seu coração apertando-se. Siggy mantinha seus olhos fechados, pois abri-los lhe era exaustivo. -- Eu...- Lagertha sentia sua garganta apertar-se, mas sabia que não poderia deixar que a menina percebesse que estava quase a chorar. -- Eu estou aqui.
O som da respiração de Siggy era quase inaudível, seu peito subia e descia tão lentamente que Lagertha desconfiou em momentos se a menina realmente estava a respirar. Siggy parecia se agarrar a vida, não se dando por vencida, pois após tantos dias deitada em sua cama ainda estava viva. Mesmo considerando-a como filha, Lagertha via seu filho através da menina, pensara que futuramente ele a tirasse dela reivindicando seu direito de pai. Tal coisa não lhe parecia possível, pois Bjorn jamais perguntara por Siggy, Lagertha sentia a dor em seu filho de lembrar-se dela, então nunca gostava de dizer o seu nome a ele. O que mais doía era perceber pequenos fragmentos do pai na menina. Tal como sua divertida curiosidade, sua vontade de aprender a lutar, seus comentários inconvenientes em total inocência. Sem falar da cor de seus cabelos, um loiro esbranquiçado, mas em dias tinham uma dourada aparência. A pele pálida feito neve, que no frio mais rigoroso deixava um vermelho intenso em suas bochechas. No entanto, alem de todas essas coisas ela possuía o mesmo espirito da persistência, prendendo-se ao desafio de não deixar a vida sair de seu corpo. Jamais aceitando que seu fim poderia ser em um leito de cama ao invés de uma dura batalha onde seu espirito seria recolhido por Odin. Esse pensamento consolava Lagertha por momentos, mas quando voltava sua visão para a menina em sua cama, instantaneamente desaparecia.
—- Os barcos...- Começou ela, porém houve uma angustiante pausa. Siggy tenta reunir fôlego para continuar. -- Como foi com os barcos?- pergunta finalmente em fraca voz.
Um pequeno e triste sorriso formou-se nos lábios de Lagertha. Cansaço lhe afligia por todo corpo. Acabara de chegar de uma longa excursão por terras jaz muito conhecidas, e havia mandado construir mais barcos para transportar mais guerreiros. Lagertha sentia que precisava preparar-se para o futuro, ainda que não tivesse certeza. Prometera a Siggy que veria os novos barcos navegando em grande esplendor, tinha em seu coração uma grande ansiedade para presenciar a reação no rosto da menina.
—- Logo você os verá, não direi nada ainda. Veja como uma surpresa.- Lagertha estende o sorriso para a menina, que ao ouvi-la mostra um vislumbre de surpresa em meio a sua fraqueza. Siggy abre finalmente seus olhos, primeiramente em reta orientação, então lentamente seguem em direção de Lagertha ao seu lado. -- Então trate de melhorar, meu amor.
Siggy concorda lentamente com sua cabeça. Seu debilitado sorriso permanece para Lagertha fazendo o coração de sua avó apertar-se mais. Porém os olhos da menina se fecham, permanecendo por segundos assim. Lagertha rapidamente aproxima-se mais de Siggy com temor transbordando em si. Ela espera, mas nada da menina reabrir os olhos, então Lagertha leva um de seus dedos até abaixo do pequeno nariz de Siggy. Felizmente ela pôde sentir muito fracamente a respiração da menina. Seu coração se acalma, apenas um pouco, pois o receio de Siggy deixá-la ainda pairava.
Lagertha com sua mão trazendo a de Siggy até seus lábios e a beija com ternura. A pele quente da menina aquece-os, ao mesmo tempo Lagertha tenta buscar consolo e um resgate de esperança. Sua mente estava em conformidade após tantas infelicidades que carregava, mas ainda sustentava grande desespero.
Uma serva surge na porta do quarto, espera até que Lagertha perceba sua presença, mas nada acontece. Seus olhos permanecem em Siggy, observando cada centímetro de seu rosto, para lembrar-se de cada detalhe. A mulher na porta então pigarreia e finalmente consegue a atenção de Lagertha. Ela se vira para a serva tendo finas linhas avermelhadas abaixo de seus olhos. A mulher sente receio em falar, mas era algo inevitável.
—- Senhora, precisamos de sua orientação com as cargas.- disse a serva em baixa voz.
—- Já irei.- respondeu Lagertha após um breve momento. E voltou-se a Siggy que permanecia da mesma maneira. Ela aproximou-se da menina e deixou um beijo em sua testa. -- Eu voltarei logo.
Lagertha levantou-se da cama, e caminhou até a porta, antes de partir observou por uma última vez sua neta. Finalmente ela caminhou para fora do quarto e fechou a porta de madeira atrás de si. O ambiente caiu em total silencio. Minutos se passaram, Siggy permanecia com sua fraca presença. O tempo arrastou-se mais um pouco, até que a última vela apagou-se por completo. A escuridão dominara o redor da menina, então em um estalar de tempo, seu coração acelerou muito rapidamente em companhia com sua respiração. Seu peito apertava-se, sua boca estava seca e sentia o familiar gosto de sangue entre seus dentes. O frio ultrapassara as fissuras de sua janela, trazendo-lhe calafrios, um após o outro. A menina abre seus olhos em súbito, finalmente percebendo a escuridão envolvendo-a. Seu peito lhe incomodava, lhe faltando ar, tentava puxar o máximo em total desespero, recordando-se que jamais sentira abundante agonia. Até que um pensamento surgiu em sua mente. Siggy percebeu que estava morrendo. A ideia de morrer nunca vagou em si, mas em sua pouca idade já vira pessoas morrendo e agora sentia que estava acontecendo consigo.
—- Não...- sussurrou com suspiro final de exaustão. As lágrimas começaram a deslizar por seu rosto muito lentamente, mas em abundância. -- Não posso...Não quero.- engoliu o seco em sua garganta que descera como um pedaço de carne repleto de nervos impossível de mastigar. Seu peito doía mais e mais, sentia que o seu tempo estava se esgotando. Tentara gritar por ajuda, mas nenhum som muito audível conseguia sair de sua garganta, apenas mais sussurros. A imagem de Lagertha lhe apareceu acima de si, como um fantasma. Quis desesperadamente chamá-la, sentia a tristeza lhe sufocar. O rosto com olhar gentil de Lagertha em meio a escuridão se desfez como poeira. Siggy quis gritar, se debater, lamentar a imagem de sua mãe desaparecendo. No entanto, o rosto borrado de uma mulher tomou o lugar, dizendo palavras confusas que Siggy não conseguia entender, como se fosse um sonho. Ela tentou prestar mais atenção em seus lábios, mas a mulher desapareceu assim como Lagertha. Após piscar diversas vezes, por fim um homem lhe foi revelado. Ele tinha um largo sorriso, parecia enxergar Siggy como um tesouro, foi então que ela ouvira sua risada acalorada. Aquilo lhe trouxe conforto seguida de tristeza. -- Pai.- sua voz saíra deformada. -- Não quero morrer, pai.- Seu corpo parecia imerso em água, sentia o afundar. Seus olhos começam a pesar e ela é vencida a fechá-los mais uma vez, porém seus pensamentos continuavam a vagar enquanto a morte aproximava-se cada vez mais como uma tempestade em alto mar. -- Eu não irei morrer.- disse com determinação, finalmente conseguindo ouvir sua própria voz. -- Qualquer um que estiver me ouvindo, fique sabendo que não irei!- avisou em soluços agonizantes. Subitamente, sua garganta se fecha.
O tempo se passou com virada de muitas luas, mas passou-se apenas segundos.
Seus olhos se abrem bruscamente atordoada, então ela enxerga as velas acesas como recém colocadas. Ela tenta se levantar sem muita esperança de conseguir por conta do cansaço, mas para sua surpresa teve muita facilidade do feito. Siggy sentou-se buscando respirar fundo, foi então que lembrou-se de que antes não era capaz.
A menina encarava seus joelhos pequenos cobertos pelas peles. Mesmo com sua mente confusa ela livrou-se delas e correu até a porta de seu quarto quase tropeçando. Tudo que queria no momento era encontrar sua mãe, Lagertha, abraçá-la e lhe contar o que havia ocorrido.
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A escuridão nunca foi tão barulhenta, da primeira vez sua presença fora tão silenciosa que lhe receberam como uma velha amiga. Havia tantos lamentos, súplicas juntamente com madeira se partindo, assim como a água estava tão agitada que parecia querer ser ouvida também. Tudo envolvido em um redemoinho dentro de seus ouvidos. Parecia uma eternidade até que o silêncio predominou a escuridão. Siggy conhecia a escuridão, ela trazia a sensação de seu corpo submerso sendo levado em tantas direções. Por um tempo quase tinha se esquecido da escuridão. Quase. O frio era constante a ponto de não conseguir se lembrar que um dia sentiu calor. Havia tanta dor e ressentimento, mas principalmente solidão. Sempre sozinha e sempre rejeitada. Nada disso parecia ser justo e não era. Em toda sua vida sentiu que entrava em batalha e a todo momento encontrava-se em desvantagem. Doente demais, jovem demais, subestimada demais. No entanto, uma coisa lhe era certo; a luta precisava ser vencida e ela queria o triunfo.
Um arrepio dominou seu corpo frio expelido pelo mar, dando-lhe pequenos espasmos nos dedos das mãos. Tudo que podia sentir era a areia envolto de si, a brisa fraca e o sol reluzindo em seu rosto. Seus olhos doloridos abriram lentamente e logo foram confrontados pelos grãos de areia. Não demorou muito até estar completamente despertada em um sobressalto. Uma grande dor lhe dominou, não sabia exatamente onde estava, mas seguia por todo seu corpo. Nas costelas era onde mais se fazia presente. Foi lá que Siggy checou seu ferimento. Ela estava sangrando, não tendo conhecimento se havia perdido sangue o suficiente para lhe matar em poucos dias ou horas. Ao que parecia, algo tinha se prendido, como um pedaço de madeira ou ferro. Não tinha certeza. Suas roupas pesavam úmidas e lhe faziam tremer de frio. Seus cabelos molhados grudava-se em seu rosto arranhado. A espada que Lagertha deu-lhe tinha desaparecido, assim como seus machados que vinham amarrados em seu cinto. Ao olhar em volta, um pavor assolou seu coração. Tudo que conseguia ver era a praia em extensão e nada mais. Sem sinal de barcos ou homens, apenas areia, água e o sol. O sol, como era estranho para ela. Brilhava tão intensamente, conseguia senti-lo aquecer seu rosto, assim como a areia debaixo de si. Ao virar-se devagar, conseguiu perceber pouca vegetação após uma elevada de pedras. Havia pequenas flores brotando entre a areia e as rochas, certamente nunca havia visto aquilo. Em seu país, só se via flores nas florestas e bosques frios, em campos abertos, mas nunca em praias. Apesar do encantamento, Siggy tinha noção do perigo que corria por estar ali. Seu instinto lhe dizia para levantar-se e tentar encontrar Ragnar e os outros. Foi então que se lembrou de que não sabia se eles estavam vivos, na verdade não tinha qualquer noção se alguém havia sobrevivido aquela terrível tempestade. Tudo que conseguia lembrar-se era o rosto de Ivar e a escuridão apossando-se de si.
Ao levantar-se, logo fora derrubada por seu reflexo e mais dor lhe afrontou. Engolindo o seco, avistou dois homens em cavalos atrás das pedras. Em uma estreita estrada de terra pisada, poderia ser uma patrulha, deduziu a garota. Mais homens surgiram, possuíam roupas pesadas de couro e com muitas peças de metal brilhantes. Então a primeira vez em que Siggy ouviu o idioma nativo do oeste. Ela conseguiu entendê-los, mas tinha de prestar muita atenção, pois as vozes estavam um tanto distantes e abafadas pelo som das pisadas dos cavalos. Redobrou sua concentração também para lembrar dos significados de algumas palavras. As primeira que estalou em sua mente fora "naufrágio". Como Siggy notara a diferença o som das palavras ditas por Sinric para a fala de um nativo. No entanto, não era importante, mas sim sua sobrevivência. Se Siggy não se apressasse poderiam encontrá-la antes e não quis pensar no que faziam com um viking perdido, como ela estava agora nessas terras.
Siggy se esgueirou pelas pedras e observou onde os homens a cavalo seguiam apressados. Eles nem mesmo olharam para onde a garota estava. Ela queria saber para onde os homens estavam indo. Pelo que podia perceber, o mar a havia carregado por um terreno de difícil acesso. As ondas chegavam muito perto da areia, quase deixando nenhum espaço para se andar sem que enfiasse os pés na água. A garota resolveu seguir o lado oposto onde os homens iam, mas Siggy tinha a mente de um viking, então claramente ciente que se seguisse o caminho mais óbvio poderia ser pega. Ela elevou-se até não ter mais ninguém em vista e andou agachada até o topo do monte de pedras com muito cuidado para não ser vista de longe de algum lugar. Em diante a praia havia uma floresta densa, acima das árvores Siggy pôde ver pássaros voando assustados. Aquilo claramente havia lhe chamado a atenção. Poderia ser perigo ou algum companheiro de viagem. Sendo realista, concluiu que a tripulação foi reduzida drasticamente e que não haveria homens o suficiente para uma vingança. Pensou que provavelmente teria problemas em se locomoverem, assim se houvesse feridos entre eles. Ou talvez apenas Ivar e Ragnar estariam vivos. Seu coração apertou-se ao pensar em Ivar e no seu pavor. Ela desejou que ele estivesse bem, junto a seu pai. Ele era teimoso o suficiente para lutar por sua vida assim como ela. Isso
Siggy sentia que possuía em comum com Ivar.
Só que não havia tempo para esses pensamentos, Siggy precisava saber. Claro que o terror de estar sozinha em uma terra que jamais tinha visto antes estava lhe apertando a mente, mas não era hora para deixar o medo e incertezas lhe atrapalharem. Ao mesmo tempo que queria manter sua mente focada em sobreviver, estava em pânico por causa de seus ferimentos. Ela deixava pequenos respingos por onde passava, aquilo estava lhe deixando paranoica. Não podia ser capturada.
A primeira coisa que Siggy fez foi checar seus ferimentos mais atentamente. Suas roupas estavam rasgadas na sua parte esquerda. Em seu rosto tinha um rastro de sangue seco vindo do topo de sua cabeça, mas nada se comparava as tonturas que sentia quando a erguia. Ela levantou-se conduzindo-se de pedra em pedra, tendo mais dificuldade que pensara. Alcançou a estrada onde os homens haviam passado, atravessando-a Siggy seguiu o caminho para a floresta, evitando o caminhar reto pela estrada. A cada passo seu coração parecia saltar pela boca, tudo dependia de suas habilidades furtivas. Não ajudava muito seus ferimentos e sua cabeça latente. A situação não ficaria favorável, isto era certo. Imaginou o que Lagertha diria se a visse agora, com firmeza ela diria poucas e boas por não a ter ouvido. Evidentemente o arrependimento de ter entrado no barco de Ragnar estava assombrando-a, todavia ela ainda queria se agarrar na fama de seu avô e imaginar que ao encontrá-lo tudo se resolveria. Não sabendo se iria para casa e ver a carranca de Lagertha outra vez.
Seu corpo estava fraco, ela podia sentir a cada passo, que agora mantinha-se em demorado ritmo. A garganta estava seca, sentia náuseas que faziam querer parar e deitar-se, nem que fosse abaixo de uma pequena árvore. Mas Siggy sabia que não podia, sua vida estava em perigo, mais uma vez. Parecia que seu sofrimento não havia fim, como não bastasse permanecer sem saber como havia sobrevivido a um naufrágio como aquele. Quis agarrar -se com a esperança de que os deuses realmente tinham um propósito para ela, lembrando-se dos dizeres do vidente. Porém, era como se ela ganhasse algo, mas nunca pudesse aproveitar. Como se os deuses tivessem lhe testando constantemente, ou simplesmente estavam se divertindo com seu sofrimento.
Caminhando até que o sol estivesse acima de sua cabeça, Siggy esgueirava-se por árvores grossas, pois a floresta vinha com brunidos e estalos repentinamente. Ela queria ver antes de ser vista, então se ocultava a cada desconfiança. Ao longe uma velha cabana surgiu, tinha o telhado com palha seca e pedras em cima. Não avistou algum animal, tal como uma cabra ou galinhas. Pelo chão conseguia ver pregadas pesadas na lama que cercava a cabana, mas parecia de dias atrás. Desejou poder aguardar entre as árvores para ter certeza de que não chegaria alguém, mas ela não tinha tempo. Se aproximou da cabana em passos furtivos, chegou a janela que era praticamente um buraco pequeno na parede. Mal conseguia ver o que tinha lá dentro, estava escuro e ainda era dia. Resolveu entrar, precisava se aquecer e pensar o que iria fazer a partir dali. Levou suas mãos a porta de madeira puída e tentou forçá-la, pois estava trancada ou alguma coisa bloqueava o caminho. Não deu tempo de descobrir, pois uma voz surgiu em suas costa.
— Garota!- era um nativo. O estômago de Siggy gelou. — Está perdida?- ela podia ouvir sua própria respiração. Engoliu o seco, que desceu como areia em sua garganta e virou-se para um homem velho com um olho esbranquiçado e barba suja. Suas roupas estavam velhas e em seu cinto havia esquilos mortos presos pelos pescoço por uma grossa linha de palha. Em suas mãos havia um simples arco de caça. Quando ele viu Siggy sabia o que ela era. No mesmo instante deixou os esquilos caírem e embainhou seu arco puxando um flecha de sua aljava nas costas.
—É um viking, pagão!— disse o homem com um reflexão conturbada em seu rosto. — Onde estão os outros?-perguntou nervosamente olhando todos os lados . — Vocês não vão tirar minhas terras, seus demônios! Demônios!
Ele puxou a flecha para perto do queixo apontando para Siggy. A garota em outras circunstancias enfrentaria o homem sem pensar duas vezes, mas nas condições que se encontrava agora, ela sabia que tinha de ser cautelosa. Ela ergueu suas mãos, o homem acompanhou seu movimento lento atentamente.
— Eu estou sozinha.-disse Siggy ao homem. Ao ouvi-la o velho surpreendeu-se. — Eu já estou indo embora.
— Vo-você fala minha língua?-pergunta ele maravilhado. Siggy sabia que o homem não estava feliz por seu conhecimento. Ele a olhava como se estivesse diante de um animal que conseguia falar.
Ela lentamente afastou-se da porta da cabana com intuito de seguir para as árvores, o homem tinha abaixado o arco sem acreditar que ela conseguia se comunicar com ele. Aproveitando a brecha, Siggy correu em direção as árvores, mas o homem foi mais rápido que ela. Qualquer um seria, a garota parecia um pássaro ferido e fraco. O velho homem lhe alcançou, mas caiu por cima de Siggy derrubando-a no chão. Ela podia sentir o cheiro podre vindo do homem. Ele soltou uma risada ao erguer-se acima dela, pressionando-a de costas. Ele a virou de frente, seus olhos estavam frenéticos nela.
— Eu nunca estive com uma pagã antes.- a voz do homem parecia delirante.- Ele apalpava Siggy tremulante. Tudo que ela sentia era dor, o homem estava esmagando sua ferida. No entanto, ao perceber o que o realmente estava acontecendo o coração de Siggy se desesperou. Seu estômago revirava-se a cada toque indesejado. Ela tentou livrar-se dele, mas com o peso pressionando seu corpo parecia inútil. Lágrimas solitárias brotaram em seus olhos, não sabia se era por medo ou incapacidade. O rosto de Lagertha surgiu em sua mente. Como sentia sua falta, como queria que ela estivesse ali para ajudá-la. O que ela havia lhe ensinado, as histórias que lhe tinha contado e como queria que ela fosse uma grande guerreira um dia vieram a sua mente. Tudo isso parecia distante agora, pois ela estava por sua conta. Uma canção ecôo, uma antiga. Siggy tentou se concentrar na melodia que fazia seu coração se acalmar. Aos poucos ela pode sentir a familiar voz de sua mãe, Lagertha. Era suave e gentil, o sorriso dela lembrava o sol que aquecia seu rosto na praia.
~Em busca da sua riqueza, um guerreiro navegou em seu drakkar, e não sabia se voltaria~
~Três grandes desafios surgiram no meio do caminho~
~O mar lhe engoliu, mas o guerreiro emergiu sozinho, sozinho, sozinho~
~Caminhou sozinho, uma floresta avistou e criaturas horríveis o assolou.
Seus inimigos com as mãos ele estrangulou, com os pés esmagou
sozinho, sozinho, sozinho~
~Um reino lindo avistou, riquezas lhe deslumbrou mas não havia ninguém
Estava sozinho, sozinho, sozinho~
~Uma sombra o cobriu, um dragão dali surgiu
Fogo em toda parte brotava
com medo ele ficou, pois estava sozinho, sozinho, sozinho~
A escuridão lhe tinha encontrado mais uma vez, Siggy a sentiu como se fosse um alimento para a alma. Tomou direito por seu próprio corpo, seus olhos foram atraídos pela ponta brilhante de uma flecha que o homem havia derrubado quando a tinha agarrado. Ela a alcançou impulsionada com toda a força que lhe surgira, girou seu braço assim como seu corpo, golpeando o homem na cabeça. Ele cambaleou para o lado, seu sangue esguichou do local atingido. Siggy avançou no homem e lhe inseriu socos tão pesados que o rosto do velho esmagava-se. Quando finalmente parou, ainda podia ver que ele respirava e isso ele não tinha direito. Siggy se apossou de uma pedra e esmagou sua cabeça, totalmente dominada em puro frenesi. Ela só parou quando conseguiu enxergar uma rosa massa de carne espatifada. Ela caiu ao lado do homem, exausta com seus olhos erguidos ao céu que estava cercado pelas árvores e sentia um sorriso formando-se em seu rosto. Sua respiração acalmou-se e conseguiu deslumbrar a escuridão das árvores cobrir o sol.
~No entanto se recordou do objetivo que se apossou
A cabeça do dragão arrancou e rico ele ficou
Sozinho, sozinho, sozinho~
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