Ironside daughter - vikings
14 ❂ QUATORZE ❂
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A escuridão se dissipou, a vestimenta de couro, agora molhada, bloqueava para sua pele os feixes de sol. Ele juntamente banhava os grãos de areia fazendo-os brilhar por toda sua extensão. Destroços das embarcações profanavam seu dourado esbranquiçado e o soar de ondas na praia lhe despertaram. Lentamente abriu-se os olhos e o céu em azul imaculado lhe foi apresentado. Ele estava logo em vista, vívido de tal forma como jamais vira. Os pequenos grãos de areia pousavam-se em seu rosto muito dispersos. Um gruído oco saiu de sua garganta ácida ao erguer sua cabeça dolorida. Ao extremo da praia, o canto das gaivotas penetraram os ouvidos de Ivar. Não era a calmaria fria que estava acostumado, pois o sol acima governava todas as dimensões onde os olhos incomodados com sua luz, conseguiam alcançar.
O observar do rapaz fluiu por sua volta, até que encontrou Ragnar deitado de bruços ao seu lado, um pouco mais acima de sua cabeça. Ele não se movia e o jovem não tinha certeza se estava respirando realmente, por conta do ângulo e da luminosidade estorvando sua visão. Ivar suspirou deixando sua cabeça repousar de volta a areia quente, tentando acalmar-se pelo temor do pior. O esbraseado em seu rosto lhe trazia uma diferente sensação, pois nunca havia sentido o sol tão possante de calor. Com isto, Ivar já em vista que se encontrava em seu destino final, próximo as terras que fizeram seu pai famoso. Lugar agora que o tinha em desconhecida sorte.
A lembrança da tempestade que havia lhe dado o assombro de iminente morte, vagou em sua mente, mas seu corpo ficou tenso ao lembrar-se de Siggy. Ivar espremeu lhe os olhos para salientar a imagem da garota, não na aflição da tempestade, mas sim no primeiro momento que avistou seu rosto. Distraída encarando o lago enquanto saciava a sede de seu cavalo, que com toda certeza possuía braveza. Os olhos dela azuis gélidos lhe despertavam um sentimento entorpecido de coragem, dúvidas e magoa. Siggy lhe oferecia um olhar indiferente, não do estado de menosprezo, mas sim de não o ver como um pobre rapaz aleijado. Por alguma razão, a garota lhe proporcionava uma motivação, beirando a um desafio. Seu rosto era difícil de esquecer e sua voz do mesmo modo. Era calma, mesmo quando nitidamente demonstrava a imensa vontade de esfola-lo. Com certeza o que se mantinha puro em sua mente, era seu toque quente. As garotas da vila tinham medo, pena e talvez nojo de Ivar, ele podia sentir isso. Nenhuma delas se atrevia a olhá-lo nos olhos ou da-lhe uma saudação. Siggy era diferente, apenas assim que o jovem conseguia descrevê-la. O seu reflexo estava em mente muito vívida para aceitar que a garota havia partido, não desta vez.
A lembrança borrada de sua infância o levou mais especificamente, no dia em que seu irmão Sigurd chegou a tenda onde encontrava-se jogando Hnefatafl¹ com sua mãe. Os olhos de Sigurd estavam fundos e com certa perturbação em seu semblante. -- Eu vi Siggy, ela... Ela está no córrego morta. — Slaug e o menino Ivar não demonstraram comoção, pois em pura sinceridade isto estava ausente em ambos. O que há muitos anos o rapaz não tinha se recordado, ou claramente não lhe interessava lembrar, foi do dia em que Siggy havia morrido pela primeira vez. A cena estava presente em sua mente como se pudesse estar anos atrás, ali em frente a sua mãe e seu irmão. Com um sorriso desdenhoso e seus olhos ainda no jogo simplesmente soltou poucas palavras que agora lhe trouxeram desconforto.
—- Quem se importa?
Aslaug e Ivar tinham a convicção da morte da menina que eles ignoravam. No entanto, o rapaz se recordava nitidamente da filha de seu irmão, a mesma que corria para lá e para cá atrás de Sigurd. Visto que podia brincar com as crianças enquanto ele mantinha-se próximo a sua mãe apenas observando. Sua sobrevivência era um mistério, mas então pensou que fora encargo dos deuses. Se eles a deixaram viva naquele dia, poderão fazê-lo uma outra vez. Assim como agora, os deuses haviam frustrado sua morte e isso tinha de significar algo. Ele começou a agarrar-se na pequena esperança que lhe tinha brotado no interior.
Ivar ergueu sua cabeça com pequenos gruídos, tentou enxergar mais em sua volta, mas a luz do sol irritou lhe os olhos cansados. Virou-se outra vez para olhar seu pai, que parecia sem vida. Ele bateu em suas pernas para certificar-se, mas não houve resposta. Isso não o impediu de tentar uma outra vez, ou cinco até ouvir a voz de Ragnar em um seco e irritadiço "O que foi?!". Aquilo trouxe um alivio esmagador a Ivar. Ele repousou mais uma vez sua cabeça tentando acostumar-se a atual realidade. Sua respiração pesava, não conseguia esvaziar os pensamentos nem mesmo por um breve momento.
Com esforço, Ragnar conseguiu erguer sua cabeça e espiar em sua frente a praia. Seus olhos avermelhados carregavam a exaustão e claramente o fracasso. Ele elevou um de seus braços para endireitar-se, deixando sua palma para a areia, assim fez com o outro braço e com ambos começou a levantar-se. Seu corpo pesado pressionava seus braços enfraquecidos, um arfar saiu de sua boca seca e salgada.
De pé, Ragnar olhou para o oceano que estava diante de si fragmentos de suas embarcações. Madeiras destroçadas, cordas arrebentadas e um tecido rasgado de um corvo bordado. A longa barba de Ragnar balançava com os ventos que o mar trazia para a praia. O sol tomava seu corpo iluminando seu semblante e oprimindo sua visão.
—- O que está vendo? — Pergunta Ivar, ainda deitado.
Ragnar ergue uma de suas mãos para livrar-se do importuno do sol. Ele vagou além, com a pequena expectativa de ver o corpo de Siggy na praia. Ela não estava lá.
—- Não vejo nenhum de nossos barcos. — Respondeu o velho guerreiro. Ivar torceu o semblante e olhou para seu pai, de pé ao seu lado agora.
—- Minha mãe estava certa.
—- Quase. — Retrucou Ragnar, virando-se para seu filho. Encostando-lhe uma manga de sua blusa coberta de areia. Ivar fechou seus olhos com um sorriso seco, logo cuspiu os grãos de areia que invadiram sua boca.
Ragnar virou-se e logo viu um grupo de pessoas vagando pela praia, sem perder tempo, se abaixou com cautela para esconder-se. Ivar segue seu olhar e seus músculos se intensificam com potência ameaça. Ambos observam o grupo caminhar, aproximando-se, até que Ragnar reconhece sua tripulação, pelo menos o que sobrou dela. Seu rosto tranquilizou-se apenas um pouco, assim como o de Ivar.
Os guerreiros bambaleavam carregando uns aos outros, além deles, podia-se ver corpos dos demais que o mar trazia aos poucos.
Sentando-se ao lado do rapaz, Ragnar ergueu o braço acenando sem muito animo para seus homens.
1 — Hnefatafl : Antigo jogo Nórdico, Hnefatafl (ou hneftafl) [Nhev-eh-HTA-full] significa "rei do conselho". Antes da introdução do Xadrez nos séculos XI e XII, os Escandinavos estimulavam seus raciocínios estratégicos com os Defensores do Rei para protegê-lo ou com os Mercenários para imobilizar o Rei.
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Ivar encostava-se na rochosa parede da estreita caverna que Ragnar havia encontrado metros de distância da beira do mar. Suas roupas estavam úmidas e pesadas, salpicadas com a areia e o cheiro da maresia irradiava de si. A luz do sol conseguia atravessar as pequenas fissuras na entrada da caverna, tomando as pernas de Ivar, que se mantinha sentado apenas com dúvidas em sua mente. Uma fraca fogueira foi preparada precariamente próximo a si e levantava afinados fios de fumaça que dançavam no ar até chegar a cobertura da caverna. Os homens de seu pai estavam reunidos na abertura do abrigo natural, desacreditados do que lhes tinha acontecido.
O rapaz buscou a presença de Ragnar, que logo lhe entregou um machado, certamente não era o de Ivar, mas ele o pegou em mãos com o semblante irritadiço. Acobertou a arma entre o couro e sua blusa secretamente. Seu pai assim se recostou na parede juntando-se a ele.
—- Que armas temos? — Perguntou Ragnar aos homens. Antes mesmo de alguns deles responder, Ivar juntou suas mãos entrelaçando-as acima de suas cochas. O jovem sentia-se aborrecido com a ideia de se abrigar em uma caverna no meio de uma praia após o naufrágio de seus barcos. Estavam no Oeste, tudo que tinham era o plano de vingança de Ragnar que agora havia se frustrado por completo aos seus olhos. Siggy estava desaparecida, assim como mais da metade da tripulação. A qualquer momento seriam descobertos e logo a situação pioraria.
—- Então meu pai, o que faremos agora? — Perguntou Ivar, tentando não demonstrar sua impaciência e desagrado na voz.
Os homens olharam para Ivar, seguido para Ragnar. Seus rostos demonstravam a mesma preocupação da questão lançada.
—- O garoto fez uma boa pergunta. — Disse um homem alto com cabelos longos e sujos. -- Estamos em uma grande enrascada. E o que você vai fazer agora?
A atenção de todos estava voltada a Ragnar, que por sua vez, sorriu melancolicamente e levando seu olhar ao homem que lhe tinha questionado.
—- Ainda não sei. — Disse Ragnar simplesmente.
Todos ao seu redor o olharam incrédulos, Ivar mantinha seu descontentamento em tacto. O arrependimento lhe prensava os pensamentos. Tinha deixado sua mãe e tudo que conhecia para seguir seu pai e seu tolo plano de vingança.
—- Mas é bom se decidir logo, foi tudo culpa sua. Nos trouxe para cá e a té onde sei, esse pequeno grupo aqui foi tudo que sobrou. — Expressou-se um outro homem que seguia atrás do primeiro. Este era mais baixo e tinha cabelos longos e escuros.
—- Cadê seu exército da vingança, Ragnar Lothbrok? Vou lhe dizer, no fundo do mar alimentando os peixes.- provocou o primeiro homem.
—- Eu sugiro que venham se aquecer. — disse Ragnar aproximando-se da fogueira fraca.
Ivar manteve seu observar vazio, seguido de um longo e pesado suspiro.
—- Nós ainda não encontramos Siggy. — Avisou Ivar
—- Nós não podemos esperar que a garota esteja viva. Ela morreu, cair no mar daquela forma, não vimos nem mesmo o corpo dela. — Retrucou um homem velho com cicatrizes no rosto. Ivar o olhou como se um espirito mal o tivesse possuído. Aquilo fez o velho recuar um passo e desviar seus olhos dos dele. Ivar virou-se para Ragnar que ainda lhe dava as costas na fogueira.
—- Isso não quer dizer que ela esteja morta. — Começou entre os dentes. -- Eu achava que se encontrava antes, mas de repente ela apareceu com um cavalo barulhento e uma ameaça de cortar minha barriga. Se formos embora agora, Siggy pode ficar aqui sozinha e ser encontrada pelos saxônicos. Ela é sua neta, não pode deixá-la. — Ivar agora possuía uma leve suplica em sua voz. A ideia de deixar Siggy estava corroendo-o, simplesmente mantinha-se fora de questão que isso acontecesse. É claro que o rapaz sabia que não dependia dele a decisão. Estava rodeado de homens mais velhos que o viam como um anormal e a última palavra pairava em Ragnar.
Por sua vez, seu pai nada disse. Mantinha-se quieto perto da fogueira, girando milhares de pensamentos com seu semblante ilegível. Quanto mais o seu silencio durava, mais o desespero em Ivar crescia. Se Siggy estivesse em algum lugar da praia e ferida, rapidamente a encontrariam e nas piores das hipóteses, a matariam. No entanto, mesmo jovem Ivar tinha conhecimento do ódio que o povo do Oeste sentia pelos nórdicos. Caso uma jovem nórdica fosse avistada vagando por suas terras, não seriam menos que abomináveis com ela.
O mesmo pensamento vagava em Ragnar, mas não havia tempo para procurá-la, pois logo suas embarcações naufragadas seriam notadas e soldados viriam a ser enviados em sua caçada.
—- Temos que sair da praia, garoto. Ou então morreremos esperando a menina. — Diz o primeiro homem a se pronunciar.
Ivar inquietante arrastou-se para perto de seu pai, agarrando-se em sua perna fez com que o velho guerreiro o olhasse.
—- Pai me escuta...- começou, mas interrompeu-se ao ver os olhos de Ragnar. Ele tinha tomado sua decisão.
—- Ajude-o a se levantar, vamos sair desta praia.
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