Ironias do Destino
8 Desespero
Notas iniciais
Eu não fazia ideia do que tinha dado em mim para eu ter marcado aquele encontro. Eu só poderia estar fora do meu normal. Mas agora, ao olhar para todas aquelas roupas sobre a minha cama, eu tinha uma enorme sensação de que tudo iria dar em merda.
Quer dizer... A merda já estava feita, agora ela só seria lançada no ventilador e eu tinha certeza que a maior parte iria cair na minha cara.
Eu merecia.
Olhei novamente para a desorganização e um suspiro me escapou. Onde estava Char? Que droga ela foi fazer na rua? Desde quando os namorados dela são mais importantes do que o encontro da sua melhor amiga que havia passado anos sem sair com ninguém? E não é qualquer encontro, mas com um dos homens mais desejados da atualidade. Merda!
Ai, essa palavra anda muito pela minha mente, eu só espero que não fale na frente dele.
Merda!
Peguei meu telefone antes que tivesse um ataque e coloquei para chamar o nome da maluca. Eu sei que deveria deixar de lado para que ela pudesse ter o seu encontro triplo, mas eu não conseguia... A situação pedia o olhar de alguém de fora.
― Hmm... Diz... ― Droga, o que era aquilo? Ela... Ela... Ela me atendeu...? Não! Ignorei seja lá o quê que ela estivesse fazendo e fui direto ao assunto.
― Char, eu preciso de você aqui. Por favor... ― implorei em um sussurro.
― Err... Liz... Sim... Oh! Aí... Espera... ― Porra!
― Merda, Char! Me liga quando terminar o que vocês estão fazendo! ― falei o mais rápido que pude e desliguei. Eu não acredito que ela me atendeu enquanto estava... Droga!
Bem, não é como se eu fosse uma puritana, mas ninguém gostaria de escutar o seu amigo fodendo enquanto falava com você. Isso é nojento.
Continuei no meu quarto olhando para a pilha de roupas, enquanto esperava que uma fada madrinha aparecesse do nada e me presenteasse com a roupa perfeita para a ocasião. Mas, claro, infelizmente, esta era a vida real e esse tipo de coisa não existe, além de tudo ser mais complicado quando você mais deseja que seja simples.
Fiquei mais um bom tempo tentando encontrar uma alternativa quando o meu celular vibrou. Para a minha sorte era a Char. Ótimo!
― Lizzie, desculpa não falar direito naquela hora. Mas, bem, você vai me entender... Eu não poderia simplesmente parar um quase orgasmo, nem por você, amiga. ― disse minha amiga idiota assim que eu atendi. Revirei os olhos para o seu comentário totalmente inapropriado e fui direto ao ponto.
― Que seja... Só, simplesmente, me poupe desse trauma no futuro. ― chiei. ― Mas agora que já passou, a minha melhor amiga pode voltar e tentar me ajudar a escolher uma maldita roupa? Estou quase indo à loucura! ―
Eu podia ouvir a gargalhada do outro lado, mas achei melhor ignorar porque eu já não andava muito bem.
― Bem, eles vão ficar magoados, mas estou indo, amiga. Só irei demorar um pouco porque estou no meu apartamento. ― ela falou, o que fez eu me sentir mal no mesmo instante, pois estava dando uma de empata-foda e ao mesmo tempo iria fazer a minha amiga sair do outro lado da cidade para apenas me ajudar a escolher uma roupa. De qualquer forma, era para algo bem mais importante. E ela poderia ter relações sexuais outra hora.
― Certo, estarei esperando. ― repliquei me despedindo e desliguei.
Char chegou algumas horas depois. Não faço ideia como, mas consegui permanecer com a casa inteira. Ufa!
― E aí, está separando peças para doação? ― zombou assim que entrou no meu quarto. Revirei os olhos, não havia muito o que fazer.
― Estou quase fazendo isso, não sabia que não tinha nada que preste nesse guarda-roupa! ―
― Ei, não é para tanto. Acredito que a gente possa salvar algo dentre todos esses trapos que você chama de roupa. ― brincou olhando para a pilha de lixo que eu tinha sobre a cama.
― Também não é para tanto você! ― Ela revirou os olhos para a minha resposta e começou a procurar entre as peças por algo apresentável. Não é que eu não tenha roupas legais, até tenho, mas não sou acostumada a sair, então elas meio que são profissionais demais. Eu queria algo mais casual e sexy ao mesmo tempo.
― O que você deseja? ―
― Como? ― perguntei distraída.
― Para onde vocês vão? Como você quer que ele a olhe? ― tentou novamente, ainda olhando peça por peça.
― Não sei... Iremos almoçar, mas antes estarei trabalhando para ele... Droga! Tinha esquecido disso. Eu não posso ir trabalhar amanhã! ― me desesperei.
― Qual o problema? ― Char perguntou aparentando estar indiferente.
― Estou nervosa demais, não irei conseguir trabalhar! ― Eu sabia que se aumentasse mais o tom poderia ser ouvida até do próximo quarteirão, mas não estava com cabeça para me importar.
― Amiga, ele não faz ideia que é você, certo? Então, peloamordedeus, relaxa. ―
― Não tem como relaxar! ― lamentei me jogando de bruços sobre as roupas empilhadas.
― Certo, então liga para ele e avisa que não vai poder ir, inventa um motivo qualquer. ―
― Eu também não posso, a Mari seria prejudicada! ― Não acredito que aquilo estava acontecendo comigo...
― Você sempre complica tudo! ―
Merda!
Passamos o resto da noite decidindo qual seria o melhor look para eu conhecer meu “amigo” no dia seguinte. Bem... A Char escolheu, já que eu não estava muito bem a ponto de conseguir sequer pensar. Estava tão envolvida naquilo tudo que não consegui escutar o meu celular tocando, e qual foi a surpresa quando, assim que tudo estava pronto, notei que havia recebido uma nova mensagem? Enquanto um lado meu implorava para que fosse Darcy cancelando o encontro, o outro estava quase tendo um ataque de medo que fosse realmente isso. É, era realmente algo relacionado a ele, mas o conteúdo totalmente inesperado.
“Srta. Bennet, o Sr. Tate mandou avisar que estará ocupado com assuntos pessoais amanhã, então não irá precisar dos seus serviços. Poderá ter a sua manhã livre, mas esteja na empresa pela tarde. Você recebe para isso. Collins.”
Estúpido!
Soltei um grito de alívio e logo Char estava ao meu lado.
― Que merda é essa? ― ela gritou assustada assim que chegou à porta do meu quarto.
― Estou livre amanhã! ― repliquei aliviada.
― Como assim? Não vai mais ter encontro? O que aquele... ― Antes que ela pudesse terminar, eu fui logo interrompendo.
― Não, terá, mas eu não irei trabalhar. Fui liberada. Tratará de “assuntos pessoais” e não precisará de mim. ― respondi sorrindo.
Char ficou parada me olhando e eu garanto que pude ouvir as engrenagens rodando.
― Sei não... isso me parece muito estranho. ― murmurou ainda me olhando.
― Estranho por quê? Ele falou desde o começo que não queria uma assistente no pé o tempo todo. E como vai tratar de assuntos pessoais, óbvio que não irá precisar de mim. ― Tentei explicar, mas alguma coisa no olhar de Charlotte me dizia que não era por aí que a mente dela andava.
― Não, amiga. O estranho é esse seu sorriso. Tem certeza de que não está apaixonada? ―
Eu gelei, o sangue deixando toda a minha face e eu teria caído se fosse tão fraca assim.
― Você está louca, óbvio que não estou apaixonada. Amanhã irei conhecer um amigo que me fez muito bem nos últimos dias, que infelizmente é um homem que tem algum dinheiro. Você sabe como odeio ricos e esnobes! Bem, ele é um rico esnobe, mas eu tenho que ao menos lhe dar uma chance. ― Se eu continuasse enrolando poderia ser levada a sério? Não, sei que não.
― Certo, você quem sabe. Vou dormir, estou de plantão amanhã. Boa noite. ―
― Boa noite. ―
Como já era muito tarde, assim que me vi sozinha afastei toda a pilha de roupa e tentei dormir. Sem sucesso. Minha mente estava cheia demais, é claro que ela não iria ajudar. Alcancei meu mac e abri o facebook. Precisava encontrar alguma forma para me distrair.
Talvez por causa da hora não encontrei muitos amigos online, então só me preocupei com as atualizações, marcações e mensagens. Não havia muita coisa. Na verdade, além de algumas marcações que Char e Jane haviam feito, só tinha uma mensagem de Jane com a data do noivado. E ainda mais essa... Não acredito que teria que voltar para Londres!
Passei mais algum tempo navegando na internet até que finalmente o sono chegou. Era ótimo poder descansar depois daquele dia, então desliguei o mac e me deixei levar pela escuridão. O dia de amanhã seria muito pior!
~~
Acordei com passos correndo de um lado para o outro. Embora a acústica do meu apartamento fosse até legal, era impossível abafar o toc toc dos saltos da Char. Pelo jeito ela se atrasou novamente...
Como sabia que era muito cedo, levei o meu tempo para levantar da cama, todo o nervosismo que eu sentia no dia anterior sem qualquer sinal de que iria voltar. Quem eu estava querendo enganar? A verdade é que eu estava era com preguiça demais até para ficar nervosa. Mas depois de alguns minutos, de um banho, escovação dos dentes e de um café da manhã simples, porém revigorante, eu já podia sentir os primeiros sinais do que sentiria pelas próximas horas.
Aproveitei que teria toda a manhã para mim e marquei uma hora no salão. Mesmo que não estivesse com segundas intenções, eu queria estar perfeita para esse encontro. Você sabe... Às vezes a vaidade é mais importante do que qualquer coisa! Ocupei as próximas horas com unhas, cabelo, depilação e logo estava de volta ao meu apartamento, tão nervosa quanto estive quando não sabia o que vestir. Céus, ainda bem que eu tinha a Char ao meu lado!
E por falar em Char, ela havia me mandado uma sms enquanto eu estava no salão desejando que o meu encontro fosse perfeito. Claro, ela não perdeu tempo e vi algumas referências sobre aproveitar o momento porque coisas boas costumam ir tão rápido quanto chegam.
Como se eu não soubesse disso.
Fiquei pronta em poucos minutos e ainda faltava cerca de meia hora para a hora marcada. Eu não queria parecer desesperada ao chegar lá cedo demais, então considerei que um atraso não seria tão ruim assim. Sendo assim, liguei meu macbook, respondi a pilha de e-mail que estava na minha caixa de entrada e atualizei o meu status no facebook. Eu não era lá muito viciada nessas redes sociais, mas elas bem que serviam quando você quer passar um tempo enrolando e esquecer o quanto está nervosa!
Quando finalmente já havia passado tempo suficiente e eu não iria mais parecer uma desesperada, desliguei meu mac, peguei a minha bolsa e deixei o apartamento.
A viagem até o Blackbird, o local onde eu havia marcado (porque recusei as suas escolhas mirabolantes, claro) foi rápida, já que, graças ao meu maravilhoso emprego, eu morava perto de quase tudo o que realmente era importante. No entanto, eu não pude responder por mim. Embora estivesse vestida impecavelmente, algum tipo de medo estranho tomou conta de mim.
Será que eu deveria seguir em frente?
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