Ironias do Destino
11 Correndo atrás
Notas iniciais
Acordei com um barulho repetitivo e irritante. No começo pensei que fosse algum rato no apartamento, afinal não era algo impossível, mas depois de tentar me concentrar mais no barulho percebi que era... panelas?
Por que diabos Lizzie estaria mexendo em panelas àquela hora?
Eu sabia muito bem que não devia ser muito tarde, afinal havíamos almoçado juntos e ido direto para o apartamento dela. Embora desse para ver o céu escuro pela janela do quarto, ainda assim parecia ser coisa do outro mundo ela deixar a cama para cozinhar. E eu nem estou considerando que o cara em questão naquela cama era eu.
Ainda curioso sobre o que estava acontecendo, levantei-me e, depois de muito procurar e finalmente encontrar a minha cueca, a vesti e saí do quarto, andando cautelosamente até a cozinha.
Assim que cheguei ao mini cômodo foi impossível evitar a cara de choque. Eu sabia que o vão era pequeno, principalmente se comparado a minha cozinha, mas ele parecia ainda menor do jeito que estava, com travessas cheias de comidas, fogão repleto de panelas e uma Lizzie parcialmente despida, apenas com uma camisa que mais parecia um vestido e, talvez, alguma calcinha, mexendo em algo dentro de outra travessa de vidro. Eu fiquei petrificado no lugar, olhando para aquela cena e tentando compreender qual o sentido dela. Lizzie, de costas, não me viu e levou o seu tempo no trabalho que parecia mais interessante para ela do que era para mim. Confuso como só eu poderia estar naquela situação, pois, por mais que conhecesse as mulheres, eu nunca consegui entender, conseguir dar alguns passos e me aproximar do fogão, tirando a tampa de uma panela para olhar o que havia dentro. O conteúdo me pareceu macarrão, mas eu ainda não conseguia compreender o motivo dela estar fazendo aquela quantidade de comida... antes de tudo eu não entendia o motivo dela estar cozinhando. Se eu quisesse comer, acredito que poderia pedir sem problema.
Assim que coloquei a tampa no lugar ela, o barulho que se seguiu fez com que ela virasse e me olhasse assustada.
Não me diga que agora eu sou um monstro?
— Oh! Você acordou. — ela disse assim que a ficha de que eu estava ali na frente dela caiu.
— Sim, o que era provável... — repliquei gesticulando para o redor da gente, afinal só um surdo poderia não ter ouvido todo aquele barulho. Ela teve a sensibilidade de parecer envergonhada e abaixou o rosto, olhando para, talvez, nossos pés.
— Sinto muito... eu... eu não pensei... só precisava...
Minha nossa, agora eu tinha uma mulher envergonhada na minha frente? E justamente a mesma mulher que se entregou sem pudores para mim algumas horas atrás? Será que um dia eu iria conhecer aquela mulher? Eu suspeitava que não.
— Ei... — comecei, me aproximando e tirando a colher de pau (?) dela para envolve-la em um abraço. — Qual o problema?
Ela, respondendo ao meu movimento, se aconchegou a mim também me envolvendo com seus braços.
— Eu só... nunca fui de fazer algo assim, compreende? Então não sabia o que fazer... — sua voz não passava de um sussurro e eu reprimi uma vontade de rir da cena e suspirei afastando ela um pouco do meu aperto para olhar em seus olhos, que brilhavam com lágrimas não derramadas. Algo dentro de mim apertou e eu me senti mal no mesmo instante, não queria ser o motivo da tristeza dela. No entanto, outra parte de mim me dizia para ir embora e deixa-la com os problemas dela, afinal eu não havia a obrigado a nada. Dilemas, dilemas... Tentei mandar ambos, tanto a sensação quanto o pensamento, para longe e busquei me concentrar no momento... era isso que aquilo era: apenas um momento.
— Então resolveu cozinhar para todo o prédio? Não me diga que acabou com a comida de todo o mês? — Com a minha pequena brincadeira ela riu, o que diminuiu a tensão entre nós dois.
— Desculpe, você deve estar cansado e eu lhe acordei. Acha que pode voltar a dormir? Prometo não lhe perturbar e tentarei limpar tudo em silêncio. — ela disse, envergonhada, e se afastou de mim, voltando para o que quer que ela estivesse mexendo antes. Eu me aproximei e fiquei ao seu lado, olhando-a concentrada.
— Não há como dormir novamente, mas estou curioso sobre tudo o que você está fazendo. Pode me dar uma luz?
— Er... Hm... Bem... — ela começou, sua pele ficando vermelha. — Eu pensei em preparar cupcakes para o café da manhã, então senti vontade de comer brigadeiro, depois me pareceu certo fazer panquecas, então vi que um bolo de chocolate não ficaria mal, só que daí eu achei que era preciso um bolo de cenoura para completar e...
— E o macarrão? — E o que eu achava pouco provável aconteceu, ela ficou ainda mais vermelha.
— Não acredito que eu estava pensando muito nessa hora, devo apenas ter colocado a água no fogo e depois adicionado a massa.
— Compreendo... Vem, vamos sair daqui. — chamei, segurando em sua mão e tentando levá-la novamente ao quarto. Ela resistiu.
― Qual o problema, Lizzie? ― perguntei preocupado. Ela parou, suspirou e depois soltou a minha mão. Vi isso como um mau presságio.
― Não dá, Will. Não posso fazer isso. ― ela falou sem me olhar.
― Isso o quê? ― perguntei fingindo não entender, mas eu sabia muito bem ao que ela se referia.
― Nós dois. ― disse gesticulando entre nós dois. ― Eu não sou assim e não posso mais fazer isso... O que aconteceu hoje foi algo que não costumo fazer. Não sou esse tipo de mulher.
― Você não é o tipo de mulher que se entrega a algo que lhe trará prazer? ― falei já começando a ficar irritado. Não sou homem se aceitar ser rejeitado assim... Droga, eu nunca fui rejeitado!
Ela pareceu não gostar do que falei, ou talvez foi o meu tom, porque se afastou mais ainda de mim enquanto falava: ― Melhor você pegar as suas coisas e ir embora.
E a última coisa que eu vi foi suas costas, porque ela entrou por uma porta qualquer e me deixou sozinho no meio da cozinha. Eu me senti como um tolo. Como era possível uma mulher me rejeitar? Ela tinha algum problema psicológico? Essa era a única explicação!
Completamente irritado, levei algum tempo até me mover do lugar onde havia ficado. Quando finalmente o fiz, fui até o quarto onde recolhi os meus pertences e deixei o apartamento assim que possível. A viagem até o meu atual apartamento foi rápida, uma vez que acelerei o carro o máximo que pude. Quando finalmente estava na paz do meu apartamento foi que finalmente consegui refletir sobre tudo o que havia acontecido e não consegui ver aquilo como algo realmente grande, na minha mente eu conseguiria esquecer o acontecido em um ou dois dias.
Mas não foi assim tão fácil. Por mais que dissesse que não era nada, eu não podia dizer que era realmente isso sempre que tinha um vislumbre da imagem dela pelos corredores da empresa, e foi por esse motivo que voltei para Londres e tentei seguir com a minha vida, deixando os negócios envolvendo a empresa sob a responsabilidade do meu braço direito. Não que eu tivesse o costume de fazer isso, mas não podia deixar uma mulher me fazer de idiota daquela forma.
Quando voltei para casa, tentei ao máximo esquecer os momentos que vivi em Chicago me afundando em trabalho. O que funcionou, embora não tenha sido nada fácil. Mas sempre que eu deixava de lado minhas obrigações a imagem dela voltava, e eu me senti como um dependente de Elizabeth Bennet. Bennet... esse nome não me era estranho. Peguei o telefone e liguei para Denny.
― Fala, stalker! ― o meu ouvinte gritou do outro lado.
― Não é assim que você atende seu chefe, Denny. ― o repreendi irritado.
― Por quê? Por acaso vai me demitir? ― ele gargalhou.
― Você está merecendo... mas não estou com cabeça para isso, preciso que faça algo para mim urgente. ― falei sério.
― Não me diga que quer saber mais sobre a tal Elizberth. ― ele resmungou.
― É Elizabeth, Denny. E quero saber o nome de todos os Bennet associados a mim.
― É para já! ― disse com o seu costumeiro bom humor.
― Não, Denny, é para ontem. Quero tudo em vinte minutos. ― falei finalizando e desliguei o celular. Como já tinha finalizado minhas atividades para aquele dia, embora estivesse mais cedo do que eu costumava sair, achei que seria ótimo chegar em casa mais cedo e aproveitar a companhia de Georgie, fazia algum tempo que a gente não conversava. Quando estava no carro, já chegando em casa, recebi a ligação de Denny. Rejeitei a chamada para esperar chegar em casa, ele sabia que eu só rejeitava chamadas quando não podia atender. Quando finalmente cheguei em casa retornei a ligação e Denny prontamente me passou tudo o que conseguiu.
― Bem, chefe, não há nada aqui sobre qualquer Bennet associado a Darcy. ― ele começou, mas o interrompi.
― Como é possível? Lembro-me claramente de ouvir esse nome muitas vezes antes! ― falei irritado.
― Claro, amigo, nós ouvimos muitas vezes. É o sobrenome da noiva do Charles, Jane Bennet. Sabe, essa foi a pesquisa mais rápida que já fiz, você precisa me arrumar mais desafios! ― ele falou, mas eu ignorei completamente tentando associar a noite de Charles à Lizzie. No entanto, parecia que Denny estava lendo minha mente, pois continuou: ― A noiva do Charles é irmã da sua Elizberth. Não foi preciso muito para saber que você estava stalkeando a vida da mulher novamente. O que foi, Will, anda apaixonado é? Richard vai gostar de saber disso.
― Não seja tolo, Denny. Estou desligando. ― e desliguei, pois a minha mente só processava uma parte da informação que me foi fornecida: A noiva de Charles era irmã da minha Lizzie! Minha Lizzie! Droga! Ela não era minha e eu não precisava de um relacionamento sério no momento.
Mas eu também não estava pronto para desistir dela ainda, então liguei para Charles imediatamente.
― Diz, amigo! ― disse Charles assim que atendeu a chamada, seu sorriso podendo ser imaginado diante do tom bem humorado da sua voz.
― Fala, Charles! Pela sua voz percebo que está muito bem. ― apontei o óbvio.
― Claro, Darcy, é impossível não estar; Jane está aqui comigo.
Não poderia ficar melhor.
― Isso é ótimo, meu amigo! Então, quando será o jantar que você falou?
― Que jantar, meu amigo? ― indagou Charles. Pelo jeito o cara havia esquecido, típico dele.
― O que você me convidou para finalmente conhecer a sua noiva.
― Sim, agora lembro perfeitamente! ― Ele parecia realmente entusiasmado com isso. ― Quando você achar melhor, deixo nas suas mãos, amigos.
― Então, se não for problema, pode ser amanhã?
― Perfeito, Darcy. Te vejo amanhã no Belle! ― disse Charles se referindo a um dos restaurantes dele, o único que a gente costumava frequentar.
― Certo, Bingley. ― e desliguei.
Eu ainda não sabia o que fazer com o que tinha em mãos, nem o que realmente queria de Lizzie, mas algo me lançava naquela direção e eu não me via recusando seguir em frente. Eu precisava saber mais. E ali estava a minha chance de descobrir sem me comprometer.
O jantar no Belle seguiu como planejado. A noiva de Bingley, Jane, parecia uma mulher agradável e muito bonita, embora não me atraísse em nada; eu achava a sua irmã muito mais surpreendente. E quando tentei falar na família dela, ela pareceu desconfortável e falou muito menos do que eu esperava, só disse que eu iria ser par da irmã dela que estava em Chicago e que havia sido convidada para ser madrinha.
Então eu seria o par de Lizzie, huh? Isso seria muito agradável.
Mas também seria um problema... Se ela descobrisse quem eu era, teria chance de tudo sair errado. Eu teria que dar um jeito e encontrar uma forma de resolver aquilo. E sabia exatamente o que fazer!
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