Ironias do Destino

12 Use Your Loaf!¹


Notas iniciais
Hello, it's me!!! Então, quem é vivo sempre aparece. No caso: eu. hehe Estou pausando o hiatus desta fic durante essas férias e espero terminá-la até o fim do próximo mês, que é quando volto às aulas. Falta bem pouco para finalizar. Até lá embaixo.

Esse dia estava sendo infernal, assim como nas últimas semanas. Desde que eu havia comunicado ao Sr. Collins que estaria entrando com um pedido de férias nas próximas semanas, ele havia despejado tudo quanto era trabalho sobre mim. Mas eu não estava indo até ele reclamar, afinal não queria que as coisas fossem além do que elas já haviam ido. Principalmente agora que a empresa foi vendida. Mas o que eu realmente não queria era que o meu caso chegasse ao novo dono da empresa. Collins ainda estava citando, sempre que possível, minha falta na tarde do fatídico dia. Mais uma e ele iria levar isso como uma ofensa grave.

Já fazia um pouco mais de um mês que eu havia me encontrado com Will e feito uma das maiores burrices da minha vida. Depois tudo só piorou, pois a última notícia que eu tive dele foi que ele havia comprado Rosings e agora era meu novo chefe. Eu não podia acreditar no que tinha acontecido! Como as coisas ficaram assim? Até pensei em deixar o meu emprego e procurar outro melhor, mas eu sabia que não seria fácil encontrar e, se encontrasse, precisaria começar tudo novamente. Eu não estava com cabeça para começar tudo de novo assim de uma hora para outra, então preferi continuar trabalhando enquanto procurava outra coisa para mim, mas algo que pudesse ser comparado ao meu atual emprego. Eu provavelmente teria que me mudar do meu apartamento, claro, mas não seria tão ruim assim uma vez que eu poderia tirá-lo completamente da minha vida. Não era bem o que eu queria, mas era a coisa certa a se fazer. Eu não podia me envolver com alguém que vivia de sexo casual. Eu não seria esse alguém que fica esperando a boa vontade do outro de estar comigo, queria ele para mim e foi por isso que havia surtado na noite que ficamos juntos. Porque, enquanto eu me vi pronta para esquecer o meu passado e me entregar a ele, ele só estava ali para uma noite. Eu precisava viver a minha vida agora.

No entanto as coisas não estavam indo tão bem quanto eu esperava. Desde que eu havia planejado tudo, havia recebido novas notícias. Minha irmã Jane estaria se casando em breve. Ela e Charles haviam decidido que não valia a pena esperar e se casariam o mais rápido possível! E ela já havia deixado claro, só o faria se eu estivesse lá. Eu não poderia deixar de ver a minha irmã, principalmente porque isso poderia afetar o seu relacionamento com Charles, meu futuro irmão. Sendo assim, preferi entrar de férias e passar todo o mês com ela. Charlotte estaria indo depois, pois ela já tinha algumas cirurgias marcadas.

Logo que eu comuniquei ao Sr. Collins, meu chefe direto, ele me disse que uma vez que eu estaria saindo de férias teria que organizar todos os documentos dos projetos que haviam passado por mim e adiantar todos os outros que estariam em minhas mãos nas semanas seguintes. Eu achava isso demais até para ele, mas com o tempo eu vi que era apenas ele se vingando de mim. Uma vez que eu estaria de férias, ele teria que fazer o trabalho dele, algo que não fazia desde que eu havia sido contratada. As outras assistentes até ajudavam, mas a maior parte sempre vinha para mim. Idiota!

Mas o problema não era só esse. O trabalho estava tirando toda a minha energia. Quando antes eu trabalhava entre nove e dez horas, hoje eu estava passando das doze, ignorando completamente o meu almoço e vivendo à base de sanduíches naturais que eu levava de casa. Aquilo estava sendo horrível para a minha saúde, já que eu vivia com pequenas dores de cabeça, e acabando com toda gordurinha extra que eu tinha. Mas o pior de tudo era as tonturas, elas estavam acabando comigo. Quando falei para Char ela desconfiou logo que eu poderia estar grávida, mas ri na cara dela dizendo que seria meio estranho estar grávida e menstruar. Ela veio com o papo de que às vezes isso acontece e que pode ser sinal de que alguma coisa está errada, então eu fiz um teste caseiro e pude ter a certeza de que não estava. Suspirei aliviada como nunca, seria terrível ficar grávida de um cara com quem não mantinha mais contato. Eu não precisava dessa carga pelo resto da minha vida.

Mas finalmente tudo acabou e eu estaria indo para Londres no dia seguinte. Nessa história apenas uma coisa não me agradava: encontrar minha querida irmã e seu novo amor, que já havia sido meu. Eu sinceramente esperava que Lydia e George decidissem que uma viagem neste momento seria a melhor coisa para eles, mas, mesmo que ela não fosse tão próxima de Jane ou não quisesse celebrar nenhuma alegria, exceto a dela, eu também sabia que o maior prazer da vida dela seria ver como eu iria ficar quando visse os dois. E esse era o problema! Eu não queria encontrar os dois. Não porque eu ainda gostava de George, afinal isso já havia passado há muito tempo, nem porque eu estava insegura sobre como eu era atraente, capaz de segurar um homem ou qualquer coisa parecida, mas porque eu não estava com humor para tolerar todas as idiotices que ela iria fazer para me atingir. E ela faria muitas.

Eu não consegui dormir bem naquela noite, nervosa com tudo o que poderia acontecer quando eu chegasse à Inglaterra. E quando finalmente me levantei, meu corpo pedia para voltar para cama, repleto pelo cansaço que havia sido meus últimos dias e minha cabeça latejava com um desconforto que não me deixava de forma alguma. Eu estaria indo ao médico assim que chegasse a Londres, não iria aguentar mais um mês de dores que não me deixavam estar 100%. Char me levou até o aeroporto e eu aproveitei para dormir no avião o que não consegui durante a noite, mas isso só depois de me entupir de analgésico. Passei quase a viagem toda inconsciente e acordei com uma das comissárias de bordo me avisando que precisava me preparar porque logo estaríamos pousando... E nesse momento meu estômago roncou, porque eu não havia comido nada durante a viagem toda.

― Lizzie! ― a voz de Jane se arrastou pelo saguão do aeroporto e eu tentei caminhar mais rápido para encontrá-la, o que não foi de todo possível, pois meu corpo não cooperava. ― Irmã, que saudade! ― ela continuou quando finalmente me alcançou, seus braços envolvendo meu corpo e me apertando em um abraço. ― Pensei que nunca mais iria vê-la!

― Eu também senti sua falta, irmã. ― sorri para Jane, meus olhos enchendo de lágrimas de tanta saudade que eu sentia da minha irmã preferida. Não consegui segurar o choro e logo as lágrimas transbordaram pelo meu rosto. Não fazia ideia do que estava acontecendo comigo, mas eu andava chorando por tudo nos últimos dias.

― Oh, Lizzie! Diga que nunca mais irá fazer isso novamente e irá me visitar sempre que der. ― pediu Jane ainda abraçada a mim e mais uma lágrima rolou pelos meus olhos.

― Claro, Jane. Mas você também poderia ter ido me visitar! ― apontei quebrando o abraço.

― Você sabe que não é tão fácil, Lizzie. No começo tinha meu emprego, depois Lydia veio com uma conversa que queria te visitar, mas, como eu dizia que não sabia seu endereço, ela desistiu. Se eu fosse ela iria saber que eu estava mentindo e acabaria indo também. Se eu não desse o endereço, você sabe que mamãe iria armar alguma coisa para mim. Ela faz tudo pela Lydia. E, bem, ― sorriu culpada ― depois tinha o Charles. Eu me joguei de forma tão intensa nesse relacionamento que não consegui sair de perto dele. Me desculpe, irmã.

Eu não podia deixar de desculpa-la quando ela me pedia com aqueles olhos, então apenas sorri para minha doce irmã e lhe abracei novamente, matando mais um pouco da saudade que sentia dela. Do aeroporto fomos direto para o apartamento de Jane, algo que ela havia comprado há pouco tempo, pois não aguentava mais as artimanhas da nossa mãe sempre que Charles ia visita-la. Agora ele podia ficar mais a vontade uma vez que a causadora de todo transtorno estava bem longe. E também tinha Lydia... Charles era muito melhor que George, além de rico, e Lydia não era muito do tipo que gostava de viver com as contas certinhas. Jane tinha receio que ela pudesse atacar daquele lado também, então saiu de casa para proteger seu relacionamento. Não que Charles pudesse ter olhos para nossa irmã mais nova. Segundo Jane, ele havia pedido ela em casamento várias vezes antes dela aceitar e ela só o fez, pois teve receio que mais um não iria deixa-lo tão infeliz que ela não pudesse suportar. Agora, no entanto, ela tinha certeza que casar com ele era a melhor coisa que ela poderia fazer e que não conseguiria viver sem ele. Eu tinha inveja desse sentimento, nunca me imaginei não conseguindo viver sem alguém.

Passamos, então, a conversar sobre os acontecimentos dos últimos anos enquanto seguíamos para o apartamento dela. Não que já não nos falássemos sempre que podíamos, mas era bom poder estar frente a frente e falar sobre todos os nossos problemas. Ou quase todos. Eu não me sentia confortável em falar sobre Will, sabia que Jane iria defendê-lo, pois ela não via maldade nas pessoas. Mas eu sim. Ele era só mais um desses caras que quer uma mulher por noite, um tipo de cara que eu não preciso.

Diferente do que eu esperava, Jane nos levou para um restaurante. O achei aconchegante, mas não compreendi a sua mudança inesperada. Quando lhe perguntei o motivo, ela respondeu:

― Você está com uma cara péssima, Lizzie. Parece que não come e dorme há dias, não posso ficar perto de você sem tentar resolver pelo menos um desses problemas.

Eu revirei os olhos, ela estava vendo coisas. Eu sabia que não estava com uma cara muito boa, mas não era algo assim tão exagerado.

― Foi só o trabalho. Agora que estou aqui, de férias, voltarei a minha forma normal. Esses dias têm sido uma loucura!

― Você deveria simplesmente deixar esse emprego.

― Não posso, Jane. Rosings fez muito bem para o meu currículo. Já foi um milagre eu ter conseguido a vaga quando ainda estava na faculdade, mais difícil ainda foi ter conseguido continuar lá.

Jane riu.

Almoçamos bem, mas, como eu estava cansada da viagem, logo fomos para o seu apartamento. Eu poderia dizer que aquele foi o melhor momento nos meus últimos meses, afinal não era sempre que eu podia descansar sem ter que pensar nos meus problemas. Bem, embora eu ainda não conseguisse tirar Darcy totalmente da minha cabeça, não era lá algo realmente preocupante. E eu teria tempo, não era como se eu fosse encontra-lo em meu meio social.

Os três dias seguintes passaram normalmente. Jane havia saído do emprego semanas antes, então pudemos aproveitar aquele tempo para passarmos juntas. Eu tinha amado aquela ideia de ir sem que ninguém da minha família soubesse, porque assim eu poderia adiar ao máximo o encontro com eles. Eu não sentia falta de ninguém e achava isso tão lamentável quando agradável; era ótimo não estar tão apegada. A única pessoa que eu queria ao meu lado estava ali naquele momento e eu, como madrinha, faria de tudo para que o seu dia fosse absolutamente perfeito.

― Sabe, Lizzie ― começou Jane assim que sentamos para tomar o café da manhã ―, eu tenho pensado em me concentrar em abrir o meu restaurante voltado para o público infantil. Você sabe que eu fiz curso de administração e MBA, mas o que eu queria mesmo era ter meu próximo negócio, não trabalhar com os outros. Charles tem os dele, mas eu quero ter o meu, sem falar que os dele são voltados para o público VIP, o meu vai ser para os pimentinhas.

― Então foi por isso que você saiu do emprego?

Jane assentiu.

― Sim. Mas eu também queria me concentrar no meu casamento. ― ela riu. ― Você pode pensar que foi uma loucura, mas eu realmente amo Charles e queria que fosse mágico. Charles também me incentivou a sair, pois ele sabe do meu desejo de ter meu próprio restaurante, até se ofereceu para me ajudar como investidor. Ele não é absurdamente rico, mas tem o suficiente para me ajudar sem problema. Estou pensando em aceitar.

― Você tem certeza quanto a esse restaurante, Jane? ― Jane sorriu, assentindo novamente. Eu sorri também. ― Então acho que deveria tentar.

Ela pareceu feliz por eu ter achado uma boa ideia, mas eu sabia que Jane não era desses tipos de mulheres que desistiam no primeiro obstáculo. Ela falava sobre ter um restaurante desde muito jovem, mas nunca tentou porque nunca teve o incentivo certo. Agora, com Charles, eu vejo que minha irmã vai para frente.

― Então, quando vou conhecer o seu Charles? Não escuto sobre outra coisa durante os últimos meses, mas nada dele.

― Infelizmente a viagem o prendeu por mais um dia na Escócia, parece que deu algum problema no contrato que ele foi lá para assinar.

― Contrato?

― Sim. O amigo dele está bastante ocupado, mas precisa comprar uma casa nova para a irmã, então pediu para que Charles procurasse a melhor casa que pudesse encontrar e comprasse. Ele tem trabalhado nisso pelas últimas semanas, então finalmente encontrou a casa há três dias e foi lá para conhecer e assinar o contrato. Ele me mandou umas fotos, quer ver?

Eu assenti. Ela estava tão empolgada que eu não poderia dar outra resposta. Além do mais, eu gostava de ver casas novas. No entanto, quando olhei, meu queixo caiu. Eu não estava olhando para uma simples casa, mas para uma mansão. Eu ficava cada vez mais deslumbrada sempre que Jane passava as fotos. Uma casa com dois andares, um jardim com diversos tipos de rosas e flores, uma quadra de tênis, piscina, playground, ofurô e assim seguia a lista. Eu não podia imaginar que o amigo de Charles podia comprar algo assim. Se ele podia, então Charles...?

― Isso... Charles tem tanto dinheiro assim?

Jane gargalhou. Quando conseguiu se controlar, falou:

― Ele tem sim algum dinheiro, mas não tanto quanto esse seu amigo. Digamos que o cara poderia ser o dono de Londres se quisesse.

― Alguém com tanto dinheiro assim só pode ser arrogante e orgulhoso. ― afirmei me lembrando de Will.

― Não seja assim, Lizzie. Você nem conhece Dar- o amigo de Charles. ― disse a minha irmã, mas eu podia ver facilmente que ela estava me escondendo algo. Vai ver eu estava certa e o cara era a arrogância em pessoa. ― Mas você irá conhecer, afinal ele será o padrinho de Charles. Você, como madrinha, deverá ser muito agradável com ele durante o meu casamento já que ficará perto dele durante boa parte da noite.

Eu revirei os olhos. Era óbvio que ela iria falar bem do sócio do noivo. Tudo bem que eu não poderia ter falado mal do cara sem antes conhecer, mas as chances dele ser um arrogante pretencioso eram altas. Como Jane não pode ver defeitos em ninguém, eu estaria esperando para tirar minhas próprias conclusões quando chegasse a hora.

― Então, minha querida irmã, quando vou ter a felicidade de conhecer o ilustre amigo do seu querido noivo?

― Lizzie, você não tem jeito! ― ela falou rindo. ― Mas fique tranquila, o ilustre amigo do meu querido Charles irá jantar conosco assim que Charles voltar.

Eu forcei um sorriso para minha irmã, afinal ela não tinha culpa do meu recente problema com homens ricos. Eu só precisaria disfarçar quando o conhecesse, não queria criar um problema entre Jane e Charles.

Tivemos mais alguns dias juntas até que Charles ligou dizendo que estaria voltando no início da tarde e que estava ansioso para me conhecer. Como era muito em cima da hora, foi marcado um jantar apenas entre nós três. O amigo de Charles estava na Grécia a negócios. Eu estava agradecida por poder conhecer meu cunhado sem ninguém para desviar a atenção.

Mesmo que Charles tivesse avisado que não precisaria ir busca-lo no aeroporto, pois seu amigo iria mandar o motorista pega-lo, ainda assim Jane insistiu, pois disse que não aguentaria esperar um minuto sequer. Eu optei por ficar no apartamento, afinal não queria atrapalhar o momento de reencontro do casal. E quando Jane disse que queria que eu fosse, que não iria atrapalhar, eu decidi que mentir dizendo que estava muito cansada era a melhor escolha. Sendo assim, minha irmã partiu para encontrar seu noivo enquanto eu me joguei no sofá para ver um romance qualquer.

O que não foi uma boa ideia. Durante todo o filme a única coisa que eu pensava era em como todos à minha volta pareciam ter alguma sorte, enquanto eu nada. E isso não era algo que eu costumava fazer. Desde o incidente com George, eu havia me concentrado em meu trabalho e não tinha sentido tanta falta de ter alguém para mim. Mas agora, nas últimas semanas, tudo havia mudado. E o pior é que eu vivia sentindo essa vontade de chorar. Eu não era assim.

Mas finalmente a noite de conhecer meu cunhado chegou!

Charles havia ido nos buscar no apartamento de Jane. Já o conhecia por fotos, mas não era nada se comparado ao homem em carne e osso. Como Jane era linda, eu já esperava que o cara fosse lindo, mas não daquela forma. Ele tinha cabelo loiro liso um pouco abaixo dos ombros, pele clara, olhos azuis – de um azul que chegava a hipnotizar você – e nariz afinalado. Era magro, mas não esquelético. Sobre a roupa dava para ver que ele se exercitava, mas não do tipo que deixasse ficar em evidência. Usava uma calça Jeans em um tom voltado para o preto justa ao corpo, mas não daquela forma que você chega a ter dúvidas sobre a sexualidade do cara, e um paletó de veludo azul marinho aberto. Sobre o paletó, ele havia colocado um cachecol cinza, deixando-o folgado ao redor do pescoço. Sob o paletó dava para ver uma camisa cinza escuro de botões preto na frente. Para finalizar o look que me deixou de queixo caído por um homem solteiro estar usando, ele calçava um mocassim azul com detalhes laranja e cinza. O cara poderia facilmente passar por um modelo. Então, aquele era o meu cunhado? E, para me deixar ainda mais feliz, ele sorria abertamente para Jane enquanto a olhava com um olhar amoroso.

Percebendo a gafe, ele virou-se para mim, ainda sorrindo, e estendeu a mão direita para me cumprimentar.

― Então você é Elizabeth. Finalmente lhe conheci. Prazer, Charles.

Eu sorri em resposta, era impossível não retribuir.

― Lizzie, por favor.

Depois de alguns cumprimentos, seguimos para o restaurante. Eu havia acreditado que iríamos para algum dos restaurantes de Charles, mas ele disse que havia cancelado de última hora para que fôssemos a um chinês que ficava a poucas quadras. Era o preferido dele, embora não o pertencesse.

― Espero que você compreenda, Lizzie. Não é sempre que posso divulgar o estabelecimento de outras pessoas. Alguns chamariam isso de estupidez, mas acredito que por sermos quase da mesma família você irá me perdoar. ― ele falou parecendo sério e eu ri, levando a ele e Jane rir também. Era ótimo saber que terei um irmão que sabe rir.

Seguimos para o chinês que Charles havia falado e passamos momentos agradáveis ali. Ele perguntou sobre como era viver em Chicago e disse que gostaria muito de conhecer, mas que nunca teve a oportunidade. Eu perguntei por que não, e ele disse que nunca havia tido tempo, mas que acharia no futuro. Chicago era um desses lugares maravilhosos que todo mundo deveria visitar ao menos uma vez na vida. Depois ele falou um pouco sobre a sua família. Disse que ele era filho único, mas que tinha duas irmãs, uma casada chamada Louisa Hurst e outra solteira chamada Caroline. Segundo ele, Louisa havia se casado com o seu advogado. Ele também falou um pouco sobre a sua vida. Assim como eu e Jane, ele não era de origem rica, mas sim de classe média. Seus pais, apesar de precisarem fazer grande esforço, o haviam colocado nas melhores escolas, que foi onde conheceu seu melhor amigo que era de família muito rica. Quando havia chegado a hora de ir para faculdade, Charles não quis. Havia colocado na cabeça que iria abrir seu restaurante, algo que planejava há anos. Seu melhor amigo, que naquela altura já havia perdido mãe e pai e havia herdado uma verdadeira fortuna, ofereceu a ele o investimento e ele aceitou. Isso havia acontecido há mais de dez anos e desde então ele abria um restaurante atrás do outro, sempre rendendo muito lucro. Seus restaurantes eram conhecidos em toda Londres, mas ele também tinha um em Paris e outro na Escócia. Seu desejo era abrir mais alguns pelo mundo, mas sabia que era preciso mais algum tempo até concretizar seus planos. Eu ouvia a tudo encantada, então esse tal amigo não era de todo ruim... ele havia ajudado muito Charles.

Quando a noite terminou eu me senti bem por conhecer a pessoa que iria levar para sempre a minha irmã mais querida. Charles era perfeito para Jane, era a cópia perfeita que quase todas as mulheres desejam encontrar. A única diferença entre eles era que, enquanto Jane era tímida, Charles era extrovertido e quase não andava sem falar com algum conhecido. Levamos mais tempo do que o necessário para chegar onde queríamos, mas a sua forma alegre de viver a vida nos fazia esquecer qualquer inconveniente.

Quando chegamos a casa já era de madrugada, pois depois do chinês acabamos por prolongar a noite e uma boate que Charles e Jane adoravam. Lá aproveitei para fazer o que não fazia há anos: dancei. Nunca mais havia me sentido tão à vontade e feliz na minha vida, e passei a desejar que todos os meus dias fossem repletos daquela alegria. O que não aconteceu, pois no dia seguinte minha mãe ligou para Jane perguntando se era verdade que eu estava em Londres. Como Jane não poderia mentir, ela teve que confirmar, o que rendeu alguns gritos e outras broncas vindas da minha mãe. Ela se irritou por eu ter chegado e não ter ido direto falar com ela, que havia sido uma falta de respeito de minha parte e que era tido com uma grande ofensa por todos. Eu tive que revirar os olhos enquanto Jane me relatava cada pormenor. Eu não queria vê-los tão cedo, desejava fugir o máximo que eu pudesse. Mas não foi possível, Jane havia comunicado que iríamos no próximo fim de semana, pois ela estaria ocupada organizando algumas coisas para o casamento e não poderia desviar sua atenção. Então eu teria apenas pouco tempo até que precisaria enfrentar a minha família... e Wickham.

Passamos os próximos dias com alguma diversão e algumas compras, mas logo precisamos nos preparar psicologicamente para enfrentar a nossa mãe. Assim que chegamos à nossa antiga casa nos deparamos com um ambiente não muito amigável, mas que poderia estar pior. Para minha sorte, Lydia havia viajado para visitar os pais de George e só voltaria em alguns dias, mas, infelizmente, havia sido comunicada de que eu estava em Londres, então resolvera adiantar o retorno para o dia seguinte. Ela estava ansiosa para me encontrar. E eu fazia ideia do quanto.

Mamãe passou o dia sendo como sempre... espirituosa além do aceitável. Precisei respirar fundo algumas vezes para suportar, já não estava tão acostumada àqueles modos. Jane me ajudou bastante, mudando de assunto sempre que mamãe perguntava quando eu iria arrumar um homem para casar ou quando ela começava a falar sobre como é ruim ver uma filha se aproximando da velhice sem ter alguém para suportar seus excessos. Eu quase explodi algumas vezes, mas sabia que isso só iria piorar. No máximo ela iria dizer que isso só era o começo de um deles e que eu precisava arrumar um homem o mais rápido possível. Essa era a minha querida mãe.

Foi durante a visita que Jane recebeu uma ligação de Charles avisando que o seu amigo havia voltado de viagem e que esperava nos encontrar ainda naquela noite, mas Jane conseguiu convencer o noivo de que seria muito complicado sair mais cedo da casa da Sra. Bennet e ainda ter tempo para se arrumar para o tal jantar. No fim Charles aceitou adiar para o dia seguinte, mas o tal amigo tinha um jantar de negócios importante para o mesmo horário. Depois de muita conversa e várias tentativas de adiar, acabamos por ficar comprometidas para quatro noites contando a partir daquela, o tal amigo, que ninguém me dizia o nome, estava ocupado em todas elas. Pelo jeito ele era ocupado demais.

Quando a noite chegou pudemos respirar aliviadas por finalmente poder retornar para a casa de Jane, embora mamãe tenha insistido bastante para que continuássemos ali. Jane usou mais uma de suas desculpas e conseguiu convencer mamãe de que ela estava ocupada demais com todos os arranjos para o casamento que estava assustadoramente mais perto. A Sra. Bennet era uma mulher que não poderia abrir mão de ter uma filha casando naquela situação, então a melhor coisa que poderia fazer era deixa-la livre para organizar a festa da melhor forma possível.

Lydia chegou no dia seguinte e mamãe nos ligou pedindo uma nova visita, pois sua adorável filha não poderia esperar para nos encontrar. Não precisei fazer qualquer movimento, pois Jane recusou dizendo que estaria muito ocupada e eu agradeci. No entanto não por muito tempo, pois no dia seguinte acordamos assustadas com batidas na porta. Despertei assustada, pois estava cedo demais, mas, como visitante que era, permaneci no quarto deitada. De repente uma agitação foi iniciada e eu me sentei assustada com a voz alterada de Jane. O que estava acontecendo? Não tive tempo de me levantar para me inteirar do que estava acontecendo, pois um furacão na forma da minha irmã mais nova invadiu o meu quarto.

― Lizzie! Lizzie! Que saudade, irmã! ― exclamou Lydia, forçando-me a um abraço que eu preferia evitar. Eu permaneci parada, desejando que ela fosse embora o mais rápido possível. ― Você realmente nos deixou sem qualquer contato, algo que eu nunca compreendi.

― Realmente, você nunca compreendeu bem as coisas, Lydia. ― disse Jane. ― Agora saia, deixe Lizzie acordar direito.

Lydia riu ao olhar-me dos pés à cabeça e eu precisei apertar os dentes para não dizer algo que poderia me arrepender depois.

― Sim, é uma ótima ideia. Ela está um horror assim!

E, depois de achar que já havia dito o suficiente, pulou para fora da cama e saiu com as risadinhas irritantes dela. Jane olhou-me com pena e eu suspirei.

― O pior ainda estar por vir, ela... desculpe, Lizzie. Ela trouxe o George. ― lamentou a minha irmã e meus olhos se arregalaram. Ela havia levado Wickham com ela? Minha nossa, o que eu iria fazer? Por mais que eu tivesse ficado anos longe e me preparado para uma ocasião como essa, nunca pensei que precisaria lidar logo após acordar.

― O que Lydia espera com isso, me humilhar? ― perguntei retoricamente.

― Eu... me desculpe, irmã. ― Jane lamentou novamente e eu tive pena por ela. Irritada, mas com Lydia, levantei-me da cama e caminhei até Jane, segurando as duas mãos dela nas minhas.

― Não peça desculpa. O problema é Lydia, sempre foi.

Então, irritada, eu segui para o banheiro. Tomei um banho lento, fazendo questão de lavar cada lugar no mínimo duas vezes. Aproveitei também para estrear a banheira de Jane, que não havia usado ainda por falta de tempo. Agora eu o tinha. Quando saí do banheiro, muitos minutos depois, fui direto para o quarto, onde levei mais algum tempo para me vestir e ainda passei um hidratante no rosto. Pronto, era apenas isso que eu precisava. Não iria me arrumar impecavelmente para enfrentar Lydia e George – eles não mereciam.

Assim que cheguei ao corredor pude ouvir o burburinho das vozes da minha irmã e do meu ex namorado. Eles vinham da sala, suspeitei, e foi para lá que segui.

― Achei que tinha se afogado! ― disse o cara que ainda se achava no direito de falar comigo.

― Para sua infelicidade, não. ― repliquei sem dar muita atenção e me sentei na poltrona que ficava mais distante do casal. Lydia riu, seus olhos brilhando com alguma diversão que apenas ela e seu par achava existir.

― Então, Lizzie. Estava pensando se não poderíamos ir almoçar? Eu, você e George. Como nos velhos tempos. ― perguntou a minha irmã, seus olhos fingindo uma gentileza que eu sabia não existir. E, caso eu fosse uma pessoa estranha que estivesse presenciando aquela cena, realmente poderia acreditar que aquele era um convite puro de uma irmã que realmente se importa com outra.

― Sinto muito, Lydia. ― foi Jane quem respondeu por mim. ― Eu e Lizzie já temos planos para o almoço...

Antes que Jane concluísse, ela tornou:

― E amanhã?

― ... durante todo o tempo que ela ficar aqui. E, por favor, já lhe pedi para não me visitar sem avisar antes. Eu poderia estar com Charles e, como ele já não tem tanto tempo, não gosto de gastar o tempo que poderia ficar com ele para satisfazer seus caprichos.

Lydia não perdeu tempo ficando ofendida.

― Sem essa, Jane. Que mal tem em visitar uma irmã? Sem falar que Lizzie foi embora há tantos anos, realmente estava com saudade. ― tornou com seus olhos brilhando em minha direção. Eu já estava saturando daquilo.

― Bom, agora você já matou a saudade. Irei me arrumar. Tchau, irmãzinha. ― despedi-me, ignorando Wickham propositalmente, e retornei ao quarto. Demorou algum tempo até que Jane batesse na porta.

― Desculpe por isso. Às vezes me pergunto o que ela tem no cérebro.

― Suspeito que ela sequer tenha um. ― murmurei e ambas rimos. Porque, apesar de tudo, uma parte de mim estava começando a ver tudo aquilo como algo divertido. Lydia, George, mamãe... aquilo não era nada. Eu havia, olhando para tudo o que aconteceu a partir da visão que tenho atualmente, me livrado de um grande problema: George. Se eu tivesse ficado com ele, provavelmente não teria chegando tão longe. Provavelmente teria ficado para trás, me tornado uma dondoca como Lydia... ou quase.

― Você já escolheu o que usar amanhã? ― Jane perguntou depois de um tempo. Estranhei sua pergunta, afinal ela não havia perguntando que roupa eu iria vestir quando íamos sair apenas com Charles.

― Por que a pergunta?

― Por nada, só queria saber se você trouxe tudo o que precisava.

― Eu não sei... Vamos ao mesmo estilo de restaurante que Charles nos levou?

Jane riu, depois gargalhou, mas, após se controlar, falou com veemência:

― Não, definitivamente não. Absolutamente não!

― Isso é um “não” bem “não” mesmo, hein? ― falei sem compreender o comportamento dela.

― Ah, Lizzie... É só que o amigo de Charles não frequenta lugares que tenha menos do que quatro estrelas.

― Hein?

― Pois é. Acho isso muito estranho, mas fazer o que se o cara se acostumou?

― Ele realmente se tem em alto valor!

― Se tendo ou não, ele pode pagar. Vamos ao Belle, o restaurante do Charles.

― Charles tem um restaurante quatro estrelas? ― indaguei surpresa.

― Ter ele tem, mas o Belle é cinco estrelas. É o xodó do Charles. Foi o primeiro restaurante. Depois dele, Charles preferiu nomear a rede com outro nome. O Belle tinha que ser único.

― Bom, minha irmã ― comecei resignada ―, se vamos a um lugar tão único assim, creio que precisarei de um dos seus vestidos emprestado.

― Emprestado? ― riu Jane. ― De forma alguma. Iremos comprar um novo, e de preferência verde que é para acentuar a beleza dos seus olhos!

Eu sorri e passamos a nos arrumar, saindo para as compras logo em seguida.

A noite tão esperada finalmente chegou e eu estava em meu quarto finalizando a maquiagem. Jane havia insistido para que eu comprasse um vestido verde-mar que havíamos encontrado. Ele chegava um pouco abaixo do joelho, com armação na altura do quadril que favorecia ainda mais meu corpo. Por ser de renda e o tecido do forro ser bege, mais ou menos da minha cor, dava a impressão de que minha pele estava exposta. Apesar disso, ele era de tal bom gosto sem ser vulgar, de manga curta e sem mostrar qualquer sinal do decote. Isso me agradava, eu tinha esse lado que não gostava de mostrar demais.

― Meu Deus, sua bunda da maravilhosa daqui! ― gritou Jane da porta do quarto, tentando colocar um colar delicado, e eu fiquei vermelha. Aproximei-me para ajuda-la, mas ela fez sinal de que já havia conseguido colocar.

― Não está assim tão exposta, está?! ― perguntei receosa. A última coisa que eu queria era os homens cobiçando a minha bunda.

― Claro que não, só está linda nesse vestido. Você devia usar mais o modelo, se ajustou perfeitamente no seu corpo.

― Eu não saio muito para comprar...

― Pois deveria. Tenho o emprego que tem, e vivendo sozinha, deveria se dar uns presentes desses sempre.

Nesse momento a campainha tocou e Jane se afastou para ir atender. Só podia ser o Charles, afinal o tal amigo iria nos encontrar no restaurante.

― Oh! É você... ― ouvi a voz de Jane, o tom surpreso me fez perceber que não era Charles. Escutei também uma voz masculina, mas eu não conseguia identificar o que ele falava, o que me deixou preocupada. Quem poderia ser? ― Desculpe... Ela está lá dentro, já vem... Vamos, entre e sente-se! Charles vai nos encontrar lá? Ele não me ligou... Isso é tão dele que não consigo ficar calada... Aceita beber alguma coisa? Certo, então já volto para podermos ir.

Então Jane retornou agitada ao quarto.

― Lizzie, se apresse! O amigo de Charles veio nos buscar, Charles ficou preso no restaurante.

Arqueei a sobrancelha. Então o cara se dignou a ir nos buscar? Isso era novo.

Diferente do que a minha irmã desejava, não me apressei. Mas como só faltava colocar as joias e calçar minha sandália – que havia ganhado de presente de Jane no dia anterior, para combinar com o vestido -, não demorou muito e eu estava pronta me olhando no espelho. Estava impecável, meu cabelo preso em uma cascata lateral valorizando a altura do meu pesquiso, mas sem tirar a beleza ao deixa-lo preso. Eu estava me achando algo muito bom de se olhar. Sorrindo, deixei o quarto para enfrentar quem era esse tão misterioso amigo de Charles, mas não esperava me deparar com aqueles olhos que esperava nunca mais precisar olhar. Vivos, quentes e cheios de promessas fixados nos meus.

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¹"Use your loaf" é uma gíria inglesa que se refere a um pedido ou sugestão para se usar a cabeça e pensar antes de agir. Achei bem adequado, uma vez que estamos em Londres.

Notas finais
Então, o que acharam? Deixem seus comentários. Bjs, gente. Até a próxima!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.