Ironias do Destino
4 Boa Viagem
Notas iniciais
WPOV
Acordei sentindo-me muito melhor do que no dia anterior, finalmente uma nova manhã para me trazer novos problemas. Eu já estava cansado dos antigos. Sem demorar muito tempo sobre a cama, fui para o banheiro e tomei um banho quente para despertar completamente, depois me dirigi ao closet e selecionei um dos meus ternos de trabalho e o vesti.
Seja um costume dos médicos ou dos jovens, Georgie ainda estava dormindo e isso me salvou de mais um daqueles interrogatórios. Tomei o café da manhã que Phaedra, minha empregada, preparou para mim, e, após recolher todos os meus pertences e colocá-los na minha pasta de trabalho, fui para o escritório.
Eu tinha uma viagem a caminho para conhecer uma das empresas que planejo comprar. Bem, esse não era o costume nesse ramo, mas não iria perder a oportunidade. Desde que eu teria outras coisas a tratar pelo lugar, não havia motivo para não conhecer a empresa da minha ex-sogra; seria um gosto me tornar proprietário. Não que essa fosse a verdadeira vontade dela, mas a velha da minha tia já estava tão cansada que mal conseguia sair de casa... E morria de medo que um dos subordinados dela acabasse por aproveitar essa chance. Eu estava ajudando, claro. Como sempre, havia deixado tudo para a Sra. Reynolds resolver. Apartamento (como planejava comprar a empresa, mais justo que também comprasse um apartamento na cidade... simples), jatinho e quem iria me receber lá. Coisas como essa, que poderiam ser resolvidas por outra pessoa, acaba se tornando um fardo para mim. Eu tinha inúmeras outras coisas para cuidar.
Quando cheguei à empresa ainda não era 8h00, o que me possibilitou um momento de paz até que desse 8h30 e os empregados começassem a chegar. Adiantei alguns contratos pendentes, o que só me levou alguns minutos. O restante eu poderia deixar para depois, e uma hora após a minha chegada, fechei meus olhos e tentei descansar um pouco. Inútil, a única coisa que conseguia lembrar era dos acontecimentos do dia anterior e do e-mail que havia ficado sem resposta. Para ser bem sincero, não era bem do tipo que se importava com coisas do tipo, mas me senti com um peso nos ombros por ter tido tal atitude, o que era estranho. Subitamente, antes que qualquer segundo pensamento viesse, alcancei meu MacBook e abri minha caixa de entrada. Seria rápido, era isso que eu esperava. Mas ao ler o e-mail anterior eu reconsiderei... A pessoa em questão, que não fazia ideia de quem eu era, merecia mais. Estranhamente ela merecia bem mais consideração. Eu iria aproveitar isso.
Para: Conselheira Lizzie
De: WDarcy
10 de Fevereiro de 2014 08:23
Assunto: Um novo dia, novas tentativas.
Cara Sra. Injustiçada,
Desculpe-me pelo acontecido. Neste e-mail busco o seu perdão, se assim for possível. Embora e-mails sejam desviados o tempo todo, seja por falta de atenção do idiota que o enviou, ou até por qualquer outro problema (que não faço a mínima ideia de quais poderiam ser esses, só procuro uma forma de me justificar e parecer tão inteligente quanto geralmente sou), acredito ser uma falha que pede uma retratação.
Conselhos são ótimos e estou usando com louvor o seu último (graças ao meu erro, devo ressaltar, pois deixei a outra pessoa na mão e não me arrependo!).
Espero que sua manhã seja tão boa quanto a minha.
Will
Ri do apelido que lhe atribuí, foi o que lhe caiu melhor. E quanto ao “Will”... Hm, o que eu poderia fazer? Era um e-mail qualquer, não iria usar minha assinatura habitual – eu nunca usava para e-mails pessoais. Sem falar que, embora ela tivesse muitas dicas, o fuso-horário deixava claro que não era de Londres, dessa forma, provavelmente não saberia nada sobre mim. Eu iria aproveitar aquilo.
A manhã de trabalho seguiu normalmente, com o chefe mal-humorado (no caso esse seria eu) trabalhando enquanto os empregados tentavam mostrar que faziam bem aquilo para o qual estavam sendo pagos, e eu gostava de observá-los vez ou outra. Por esse motivo, meu escritório ficava um pouco mais acima dos cubículos e eu tinha uma bela visão através das “paredes” de vidro. Isso me deixava mais a vontade. Nada fora do comum... exceto pelo sinal do e-mail no meio da tarde. Nem sequer pensei sobre e já estava debruçado curioso sobre o MacBook.
Para: Paciente Will
De: Conselheira Lizzie
10 de Fevereiro de 2014 12:17
Assunto: Um pedido de perdão nunca deve ser ignorado...
Sr. Paciente,
Antes de tudo devo pedir que se livre desse “Sra.”, pois me senti alguns anos mais velha do que realmente sou, embora o termo nem sempre esteja entrelaçado com a idade. Mas convenhamos que um “Srta.” cairia muito melhor.
Quanto ao perdão... Eu o aceito, afinal hoje em dia são tão raros que precisamos guardar a sete chaves esses momentos. Concorda comigo, certo?! Por favor, não chame a si mesmo de idiota, não na frente de terceiros... Eles podem pensar que está falando sério. Se é inteligente ou não, não tenho autoridade para julgar, mas boa sorte.
Ps.: Meus conselhos são de graça... por hora.
Minha manhã foi ótima, obrigada, tenha um bom resto de dia. Até.
Lizzie
Relaxei os ombros e digitei algumas palavras, enviando logo em seguida:
Para: Conselheira Lizzie
De: Paciente Will
10 de Fevereiro de 2014 17:25
Assunto: Um e-mail cheio de pedidos, humilde e simpático. Ao menos ele.
SENHORITA,
Perdoe-me pelo inconveniente, mas fui educado a ser um cavalheiro e, embora tive alguns desvios ao longo da vida, acredito que depois de um tempo o cavalheirismo fica no sangue. Como sou modesto, não afirmarei que é o meu caso, mas a SENHORITA poderá descobrir sozinha.
Agradeço por ter aceitado meu humilde pedido de desculpas e deixo aqui outro pedido para que os seus conselhos não me sejam negados.
O meu dia está sendo ótimo. Boa tarde.
Will
Eu ri um pouco da minha ousadia, mas àquela altura não tinha mais nada que eu pudesse fazer. Tornei aos meus documentos e continuei a analisar os últimos contratos, não demorou muito e o sinal de e-mail tomou a sala novamente. Peguei-me curioso, o que de fato era estranho. Dando de ombros, respondi e voltei ao meu trabalho. E assim segui o resto do dia, analisando documentos e respondendo à misteriosa Lizzie, até que, depois da senhora Reynolds muito insistir, deixei a empresa (mas, claro, ainda naquele vício súbito de enviar e-mails).
As semanas seguintes foram basicamente dessa maneira: Trabalho, Georgie, algumas saídas com Charles – eu ainda precisava conhecer realmente a noiva dele, já que pouco nos encontramos – para aproveitar a vida e... Lizzie. Mantivemos contato todos os dias, até mesmo horas por dia, mas nossas conversas não denunciavam nada pessoal de nenhuma das partes. Era agradável, sem cobranças ou esperança. Lizzie me apresentou um novo programa chamado Whatsapp e nossa comunicação ficou mais rápida. Ela sabia cada passo que eu dava nos últimos dias, embora sem detalhes específicos. Era como se soubesse tudo sobre a minha vida na última semana, mas ao mesmo tempo não soubesse nada. O mesmo era eu sobre ela. Eu gostava disso, me dava espaço, mas uma parte de mim queria um pouco mais. Quanto, não fazia ideia. Eu estava a muito tempo longe para entender qualquer coisa ligada a “sentimento”.
Eu sabia que ela morava em Chicago, tinha apenas uma amiga e que trabalhava na área de Construção Civil. Era tudo o que ela também sabia sobre mim, sem nomes ou detalhes sobre a família. Isso nos deixava confortável com a nossa situação – que realmente não existia bem uma “situação”. Não existia até a nossa última conversa, ao menos.
D: Bom dia! Dormiu bem?
L: Bom. Nada, morrendo de sono aqui. Como vai o trabalho?
D: Não fui trabalhar, ócio aqui.
L: Vida boa essa... Mas é estranho, você trabalha até aos domingos. Lol
L: Por que está em casa?
D: Está rindo de mim?
L: Yep. Por quê?
D: Ninguém rir de mim.
L: Há sempre uma primeira vez.
D: Não comigo.
L: Ok. Pode ficar remoendo aí enquanto me diz por que não foi trabalhar?
D: Não quis.
L: Nossa, sério por causa de um “Lol”?
D: Não.
L: Quantos anos você tem?
D: Alguns.
L: Vai parar? Não gosto de gente monossilábica.
D: Sério?
L: Vai parar ou não? Vou ficar sem responder.
D: Ok.
D: Lizzie?
D: Oi? Estava brincando, desculpa.
L: E...?
D: Estou indo para Chicago no final do dia, a trabalho, tirei algumas horas para ficar com a minha irmã já que ficarei um bom tempo longe.
L: Chicago?
D: Sim. Não te disse para não ficar chato.
L: Por que ficaria?
D: Porque você mora aí, e eu estou indo. Será no mínimo estranho.
L: Você não precisa deixar de vir para Chicago só porque moro aqui. A cidade não me pertence. Lol
D: Você entendeu.
L: Olha... Se quiser me conhecer, basta dizer. Se não quiser também. Só ficará chato se você quiser.
D: Ok...
D: Eu quero te conhecer... se você quiser.
L: Por mim está tudo bem. Quando você acha melhor?
D: Chegarei amanhã, mas bem cedo. Depois terei algumas coisas para resolver, acho que só serei uma companhia agradável no sábado. No sábado está bom para você?
L: Está ótimo, te vejo no sábado então. Tenha uma boa viagem. ^^
L: Agora vou deixar você aproveitar um pouco a sua irmã, ela já deve sentir muita raiva de mim...
D: Que nada, a G. não se importa. Até sábado.
L: Até. x
Eu não fazia ideia da gravidade do que tinha feito até que voltei e li tudo de novo. Eu definitivamente tinha marcado um encontro com Lizzie Não-Sei-O-Sobrenome. Eu devo estar com algum problema sério na cabeça, nunca fui de agir por impulso! Mas agora já estava feito, eu não iria voltar atrás... Sem falar que ainda disse que tinha uma irmã! Droga, ficou pessoal demais!
Tentei com bastante esforço e finalmente consegui esquecer a burrada que tinha feito a tempo de aproveitar um pouco Georgie até a hora da viagem. Quando deu a hora, instruí meu motorista com as bagagens e em poucos minutos estava em meu jatinho com destino ao desconhecido. Que Deus tenha piedade do meu destino.
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