Iron Hill
8 Stop, be quiet now
Notas iniciais
Mal saí do banheiro e ouvi uma batida leve na porta do quarto.
Eu havia acabado de trocar de roupa – de acordo com as instruções do dupla personalidade- e peguei as roupas escolhidas para levar sem saber no que colocar, e pensando nisso, nem mesmo me importei em apenas pedir para entrar. E assim que me virei para encarar a pessoa, dei de cara com Jace.
Ele estava sério e parecia meio indeciso no que quer que fosse fazer. ‘Me entregou um saco meio estranho e deu passos para trás, já saindo do quarto.
— Coloque a roupa nisso, só o extremamente necessário.
Percebi que ele queria dizer mais alguma coisa, mas o pequeno estresse pouco antes o impediu. Eu que não iria tomar iniciativa.
Quando a porta se fechou, revirei o saco estranho até descobrir como usar. Coloquei em cima da cama e dobrei as roupas o mais apertado possível. Coloquei no saco e fechei. E aquilo era uma aberração da engenharia, pois assim que fechei, ele se apertou ainda mais. ‘Se transformou em um cilindro embalado a vácuo.
Ri sem humor. Parecia uma pilha do tamanho do meu braço.
Com aquilo debaixo do braço, saí do quarto – parei um segundo na porta para pensar e ter certeza de que não tinha me esquecido de nada – e desci para a sala. Todos estavam ali, em exceção de Izzy e Magnus; com certeza uma estava arrumando a outra.
Sentei ao lado de Sebastian e aí dei falta da Kadelie. Olhei para os lados e depois o encarei, ele ergueu uma sobrancelha, me levantei e olhei onde eu estivera sentada e mais uma vez o encarei.
— Ué, cadê? – Perguntei.
— O quê? – Respondeu.
— Seu bichinho de estimação.
Revirou os olhos e gargalhou.
— Dê um jeito nela, Herondale. Clarissa está muito atrevida para o meu gosto. – Virou-se para Jace que estava recostado na lareira.
Ele meneou a cabeça.
— Não me envolva. – Respondeu com um sorriso torto, mas emoção alguma chegou aos seus olhos.
Se eu os desenhasse naquele momento, seriam opacos. Quase mortos.
Meu sorriso fechou e suspirei.
— Gente! – Enfatizou o ‘e’. – Todo mundo já desceu? – Magnus perguntou ao vir de braços dados com Izzy.
— Só falta a mascote do Sebastian. – Respondi.
— Estou aqui, cenoura infernal. – Ouvi a sua voz no alto da escada.
— Ei! – Jace gritou. – Mais respeito na minha casa, com meus convidados, Kaelie.
‘Me assustei e todos os pares de olhos voaram para o loiro que tinha se desencostado da lareira.
Ela soltou um gritinho indignado e olhou para o Sebastian.
— Amor, vai deixar ele falar assim comigo?! – Seus olhos estavam falsamente marejados.
— A casa é dele... – Meu ex deu de ombros.
— ...e eu não te convidei. Ele o fez. – Jace continuou.
— Ah é?! – Ela se voltou para Jace. – Vai defender essa vadia em vez de mim? Quando foi que você preferiu trocar nossas trepadas nas salas vazias para defender a filhinha de papai?
Prendi a respiração. E a sala ficou abafada.
— Verlac, coloque uma focinheira na sua cadela antes que eu chame o controle de animais. – Dizendo isso, saiu da sala a passos largos.
Encarei Izzy e ela apenas deu de ombros.
— Vamos? – Maia chamou.
Num silêncio mortal, seguimos para fora da da casa. Propositalmente fiquei para trás e esperei Izzy fazer o mesmo.
— Por que essa cara? — Ela me perguntou. — Qualquer outra cairia de pernas abertas no meio da sala e diria ‘obrigada, Senhor’. — Riu.
Não pude evitar um sorriso.
— Não sou qualquer outra. — Respondi.
— Viu a cara da piranha?! — Exclamou. Então, não pude me conter e gargalhei. — Ela pensou que seria defendida... coitada.
— Ele só fez isso porque está com a consciência pesada. — Comentei.
— Consciência pesada? O que ele fez? — Parou de andar e me segurou pelo braço.
Seus olhos correram meu rosto e meu corpo, pele visível como se esperasse que ele tivesse me ferido.
— Ele só estava sendo menos pé no saco e de repente começou a fazer comentários idiotas. Nada incomum. — Dei de ombros e voltei a andar levando-a comigo.
Atravessamos uma boa parte da propriedade à pé. Os outros já conversavam animadamente e paravam para tirar fotos e acabei sendo puxada para algumas — do tipo: primeiro momento, estamos nos divertindo, mas nos arrependeremos amargamente.
E não era pessimismo meu, imagine só, aquele lugar isolado no meio do mato e pessoas dependentes de internet!
Mais adiante, eu avistei uma das construções que vi no momento em que atingimos o topo da colina na Ranger. Era no formato de um L e estávamos olhando para a parte traseira da construção, mas já podíamos ouvir o relinchar dos animais.
Assim que contornamos, a parte mais curta do formato em L nos ofereceu uma porta aberta em um tipo de celeiro, com piso coberto de feno e tudo o mais. O cheiro era forte, mas não enjoativo. Não para mim, eu estava acostumada ao cheiro de tinta e isso já é alguma coisa, mas as outras... eu já não poderia defender. Nem mesmo Magnus!
Magnus tirou um lenço multicolorido do bolso e colocou sobre o nariz.
— Ah, querido, eu disse que você deveria ter ido ao banheiro antes de sairmos. — Cantarolou com a voz abafada pelo tecido e eu assisti Alec ficar quase roxo.
Só não sei dizer se foi por raiva ou vergonha.
Kadelie nem mesmo se aproximou, ficou do lado de fora com sua cara de nojo enquanto Sebastian já tinha atravessado o portão para a parte maior do L e já encarava os cavalos.
— Hey, Clarissa, esse aqui parece com você! — Ele gritou lá de dentro ao apontar para dentro de uma baia.
E ainda fez questão de olhar para baixo para deixar claro que era um filhote.
Depois que todos já estavam satisfeitos de rir e analisar o potro, finalmente entrei naquela parte da construção.
Jace e Jordan já não estavam por perto e Maia mantinha os olhos sobre nós como se fossemos capazes de abrir todas as baias e sairmos correndo e rindo. Bufei. Claro que Sebastian seria capaz disso.
Andei pelo corredor olhando os cavalos. Eles não fediam, mas exalavam poder. Cada um deles, mesmo o potro vermelho que Sebastian dissera ser parecido comigo, seria um belo exemplar para desenhar ou pintar. Seus músculos, pelos curtos, crinas longas, cascos reluzentes e simétricos eram a combinação perfeita.
Lindos, imponentes e perigosos.
Continuei andando até as vozes começarem a ficar mais baixas. Olhei por cima do ombro e Maia já estava me fitando como se fosse me mandar voltar, mas aí, de repente, girou nos calcanhares e me deixou confusa. Voltei a olhar para a frente e vi duas baias vazias.
Pensei que tivesse passado do limite e nem cavalos mais haveria por ali, mas foi então que ouvi um relinchar baixo. Última baia. Fui até lá e analisei o lombo de um cavalo tão preto quanto carvão. Ele me notou imediatamente e girou para observar o intruso.
‘Me assustei assim que vi seus olhos. Ele girou a cabeça para a esquerda e então me viu. Suas orelhas curtas se lançaram na minha direção e sua cabeça ergueu ainda mais; me senti como uma presa.
Seu olho esquerdo era de um branco leitoso, enquanto o direto tinha uma pupila perfeitamente definida.
— Foi um... acidente. — Ouvi uma voz rouca e hesitante às minhas costas.
Não girei, eu sabia de quem era.
— Sua visão é muito limitada, mas em compensação, não há ruído que o escape. Conhece essas terras melhor do que qualquer um aqui.
— Qual o nome dele? — Perguntei, tentada a me aproximar.
— Hórus. O deus egípcio Hórus durante uma batalha contra seu tio Seth perdeu seu olho esquerdo, substituindo-o por um amuleto que hoje é conhecido por Olho de Hórus; o qual dizem, também, ser o representante da Lua.
Ele se adiantou e tocou a cabeça do animal.
— Seu olho esquerdo pode estar no escuro, mas isso só o fez ainda melhor nos outros sentidos. — Concluiu.
— Vejo que você é ligado a ele. — Comentei baixinho.
— Você não imagina quanto. — Respondeu no mesmo tom.
Apertei o embrulho de roupa nos braços e fiquei desconfortável, mas continuei ali, assistindo Jace selar o animal e tirá-lo da baia.
No primeiro instante em que a luz da claraboia tocou seu lado esquerdo, vi as marcas no pescoço, ocultas sob a crina. Aquilo não fora um mero acidente.
— Vamos. — Jace me trouxe de volta à realidade e nos guiou de volta ao grupo.
— Decidiram esperar o anoitecer? — Sebastian nos perguntou com aquele sorriso sujo de sempre.
Revirei os olhos.
Jace deixou seu cavalo solto ali perto e me levou até um cavalo branco. Não era tão alto, mas eu ainda temia precisar de uma escada para montar. Pegou o embrulho das minhas mãos e enfiou em um compartimento detrás da sela.
— Isso se chama alforje. No lado direito tem um cantil com água e desse lado tem alguma coisa ruim e não perecível para comer. Só no caso de ficarmos ilhados em algum lugar.
Ergui uma sobrancelha e ele não pôde evitar um sorriso.
— Não que isso ocorra com frequência. — Respondeu à minha pergunta silenciosa. — Vem, eu te ajudo.
Dizendo isso, trançou os dedos das mãos e me ofereceu. Eu teria brigado com ele se não tivesse visto seus olhos. Aquilo não fora por mal, até mesmo me permiti a rir. E com isso, notei o alívio no seu rosto por eu não ter atirado pedras.
Por um instante eu estava perdida na bolha ao nosso redor, nem meso prestei atenção à confusão que estava aquele lugar com todas as pessoas da cidade tentando montar um cavalo sem um professor particular como eu estava tendo no momento.
Somente quando ouvi um grito é parei para olhar ao redor. Mas não era o que qualquer um pensaria, era apenas Magnus Bane reluzindo sobre uma égua pampa que claramente não estava gostando daquela situação. Suas orelhas curtas estavam inclinadas do tipo que avisam sobre jogar alguém no chão.
Senti um frio na barriga.
— Esse cavalo em especial responde perfeitamente aos comandos, se você jogar a rédea levemente para os lados, ele irá virar, se puxar, ele irá parar, e se deixá-la curta irá em marcha, mas se soltar demais ele irá correr. Você consegue fazer isso.
Assenti, mas não estava muito confiante.
— Coloque o pé no estribo. — Indicou.
— Como se eu fosse alcançar. — Reclamei ao tentar erguer a perna.
— Calça jeans não te ajuda muito, sabia? — Perguntou num tom divertido.
Nossa tensão anterior estava desaparecendo.
— Se tivesse avisado... quem mora no mato e faz fogo com pedras é você.
‘Me assustei. Jace gargalhou.
Olhei para ele apenas para ver seus olhos surpreendidos e uma pequena coloração tomar conta das maças do seu rosto.
— Fique quieta. — Puxou-me pelo braço e me deixou de costas para ele.
Um arrepio subiu pelo meu corpo. Suas mãos pararam na minha cintura e eu senti a respiração em mim.
— Você alcança o estribo e eu te ajudo a subir. — Falou perto demais do meu ouvido.
Sem poder responder, assenti com a cabeça.
Coloquei a ponta do sapato no estribo e então senti a força dos seus braços me impulsionarem.
— Segure na cabeça da sela. — Agarrei aquela coisa feia em pé no meio da sela e me puxei para cima.
— Nada mal, não é? — Ele me perguntou com um sorriso.
Sorri de volta. Era muito confortável até, acolchoado, minha bunda não iria doer. Adorei aquilo!
Então, suas mãos roçaram minha perna enquanto ele diminuía a altura do estribo e eu pude apoiar meu pé mais confortavelmente. Do outro lado já estava em uma altura boa.
— Estarei bem ao seu lado com Hórus; segure desse modo para sair daqui, qualquer coisa eu aviso. — Dizendo isso, se afastou e começou a gritar para a bagunça.
Era estranho estar àquela altura do chão e sobre uma coisa viva e móvel. Quente. Cheia de pelo. Mas interessante.
— Não vá me jogar no chão, hein. — ‘Me peguei murmurando para o bicho.
‘Me atrevi a acariciar seu pescoço, mas sem fazer muito movimento ou eu escorregaria pelo outro lado. Quando me dei conta, Hórus já estava ao meu lado e Jace me guiou para fora do estábulo.
Num primeiro momento, me agarrei à cabeça da sela com medo de cair. O gingar do cavalo era alucinante, parecia que ia cair para ambos os lados quando ele andava, e Jace parecia se divertir com isso.
— Apenas aperte as pernas, isso te mantém firme. Não deixe o corpo muito rígido e nem muito solto. Relaxe, você não vai cair. — Ele falou. — Apenas sinta.
Todo aquele ouro em contraste com o cavalo pareceu-me um anjo caído, não um príncipe encantado. E eu já tinha motivos de sobra para acreditar nisso.
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