Iron Hill
9 Nightfall Parte I
Notas iniciais
Saímos dos estábulos lentamente, com Maia e Jordan à frente e Jace ao meu lado no final da “comitiva”.
O relevo daquele lugar era a única coisa que me preocupava de cima daquela sela. Sempre que uma elevação surgia, o corpo do cavalo dava uma guinada para baixo e para cima que a primeira impressão é de que você vai cair e foi por isso que eu gritei quando aconteceu a primeira vez. Jace apenas riu e isso me deixou levemente irritada.
Helen e Aline estavam se dando bem com os cavalos, apesar de que mal estavam prestando atenção no caminho, não paravam de conversar e tirar selfies. Se fosse eu estaria fotografando a paisagem, era uma coisa tão linda que minhas mãos estavam coçando para desenhar.
— Eu sei. — Ouvi Jace murmurar.
— Lê pensamentos agora? — Provoquei.
— Você estava pensando alto.
Senti meu rosto esquentar e fiquei em silêncio.
Bem ao longe eu avistei uma parte protegida por enormes árvores, e estávamos indo direto para lá. Aí o significado do comentário de Jace sobre ficar ilhado me atingiu como um raio; ele queria dizer que tinha a possibilidade de ficarmos perdidos na selva!
'O encarei mortalmente, mas ele apenas tinha um sorriso leve no rosto, mas também, nada muito ousado por conta do episódio anterior.
Passei a contar o gingar do cavalo. Um, dois. Um, dois. Um, dois. Direita, esquerda. Pro lado, pro outro. E isso foi por um bom tempo até que ouvi Jace gritar ao casal que guiava o grupo:
— Acho que eles já conseguem aumentar a velocidade sem escorregar da sela.
— Certeza, chefe? Não quero recolher pedaços dos seus amigos.
Jace riu.
— Certeza!
E assim, Jordan e Maia avançaram em um galope que foi acompanhado com esforço pelo resto do grupo, inclusive eu. Mas Jace estava emparelhado comigo disposto a ajudar.
Foi aí que minha conclusão precipitada sobre como minha bunda não iria doer na sela acolchoada se mostrou tão idiota. Um cavalo a galope, uma menina de perna curta e nada de experiência. Deveria ser fatal a combinação. E quase foi.
Um cavalo a galope te joga para cima e para baixo, fazendo quicar desconfortavelmente na sela; minhas entranhas pareciam frouxas no meu corpo, meus modestos peitos pareciam tentar fugir do meu corpo e meu cabelo...
— Você fica tão sexy cavalgando...
Ouvi, e se eu não estivesse tão empenhada em me agarrar na cabeça da sela, eu teria xingado Jace até perder a voz.
— Clary! — Ouvi de repente, me tirando do transe quicante, mas não tive a chance de perguntar o que ele queria.
O cavalo disparou a toda velocidade entre os outros e, desesperada, eu comecei a gritar o nome de Jace, pedindo por socorro.
Minhas pernas já não conseguiam se segurar nas laterais do cavalo e eu parecia aquele brinquedo que segura duas bolas extremamente pesadas para um brinquedo, e faz com que elas batam cada vez mais rápido até que elas façam o percurso de cento e oitenta graus até se chocarem acima das nossas mãos. Aí quando você erra, quase perde um braço pelo impacto das bolas malditas.
Sim, era assim que eu estava.
Quase caindo do cavalo.
E ele continuando a correr.
Cada vez mais rápido.
Mas então, o anjo caído se tornou o príncipe no cavalo preto e nos alcançou com Hórus. Sua mão direita manteve as rédeas firmes enquanto a mão esquerda se esticava para alcançar minhas próprias rédeas, agora já esquecidas sobre o pescoço do cavalo. Nem mesmo me lembrei que se puxasse, ele pararia.
Eu estava tomada pelo desespero.
Jace quase todo inclinado para fora da sua sela, se esticou ainda mais e agarrou as rédeas do meu cavalo, e em pouco tempo a velocidade reduziu a quase nada. E assim que ele parou completamente, eu escorreguei para o chão, mesmo que minhas pernas estivessem como pudim.
Não sei quanto tempo depois, mas tenho quase certeza que ele pulou no chão no mesmo instante em que eu, senti os braços de Jace me envolverem e me puxarem para seu peito.
Sua voz no meu ouvido me acalmando ao ponto de eu perceber que estava chorando. Ouvi outras vozes nos alcançando, mas demorei para conseguir entender o que diziam. Eram Jordan e Maia; Izzy apareceu do meu lado logo depois.
— Foi uma maldita cobra. — Ela tentou me tirar dos braços de Jace, mas eu não me movi, muito menos ele.
Sua sobrancelha se ergueu e depois um pequeno sorriso travesso chegou ao seu rosto, mas logo se desfez.
Senti o peito de Jace tremer quando ele falou com Jordan e aquilo me fez prestar mais atenção ao meu redor.
— Podem ir, alcançamos vocês. Ou não.
Demorou um tempo para eu me dar conta de que o barulho cessara.
— Está melhor? — Ele me perguntou.
Assenti com a cabeça e limpei meu rosto com as costas das mãos. Meu coração havia acalmado e voltado a bater normalmente, o susto poderia facilmente ter me matado de ataque cardíaco. Foi uma sensação desesperadora e que não queria experimentar jamais.
Mas aí me dei conta de que estávamos no meio do mato e o único meio de locomoção quase me matara instantes antes.
— Podemos voltar se você quiser. — A voz aveludada me deixou tentada a aceitar a oferta.
Mas isso implicaria em Izzy provocando mais tarde sobre como teriam sido minhas horas a sós com Jace na mansão da floresta.
— Não.
— Tudo bem, mas me desculpe por isso; cavalos não são fãs de cobras. — Fez uma careta ao falar.
Olhei para aquele animal demoníaco que quase me matou e me voltei para Jace. Eu não queria subir naquilo de novo.
— Quer vir comigo?
Acenei. E tive que ignorar o sorriso sacana que recebi em troca. Claro que ele ia fazer isso, era Jace Babaca Herondale.
Fui colocada sobre a sela de Hórus e depois como um gato, Jace saltou para a garupa. Uma corda na cabeça da sela guiava o meu cavalo assassino de amazonas.
Assim que entramos em movimento, me arrependi. Os braços de Jace ao meu redor friccionavam em mim causando arrepios. Seu peito duro contra minhas costas era terrivelmente perturbador e eu sabia que ele estava gostando daquilo.
Primeiro começamos em um ritmo lento, os outros já nem eram mais vistos, apenas borrões no horizonte.
— Está pronta? Precisamos ir mais rápido se quisermos chegar lá.
Acenei com a cabeça.
Senti os calcanhares dele colidindo suavemente contra o corpo do animal e Hórus galopou a diante.
Em algum momento um dos braços de Jace contornou minha cintura e me apertou contra si com força, enquanto o outro deixava a rédea mais livre para Hórus aumentar a velocidade.
Era uma coisa tão surreal que acabei rindo. Gargalhando.
— O que foi? — Sua voz rouca me assustou, no pé do ouvido.
— Nada. — Gritei para ele ouvir acima do tropel de cascos.
Os outros estavam mais a frente, já adentrando a floresta particular, e o eco do tilintar das ferraduras contra pedras era audível a distância.
Adentramos a escuridão das árvores e foi uma coisa ainda mais linda que a paisagem anterior. Pássaros, borboletas, até alguns animais selvagens, mas nada monstruoso.
Hórus cavalgou entre as árvores suavemente, mas acabamos saindo da trilha que os outros seguiam.
— Não vamos com eles? — Perguntei.
— Hórus e eu conhecemos um atalho.
Um atalho para fazer sacrifícios humanos para manter aquelas terras, isso sim!
Cavalgamos por mais meia hora em silêncio até a encosta de uma elevação rochosa. Subimos mais lentamente para evitar esforço desnecessário para o cavalo e uma hora depois estávamos no topo.
Hórus trotou até o extremo e lá embaixo eu pude ver uma cachoeira. A água cortava o gramado e eu não estava vendo nenhuma ponte para atravessar.
Começamos a descer e em metade do tempo chegamos à beira do lago formado pela cachoeira. Água cristalina e aparentemente muito gelada. Jace riu e deixou que Hórus fosse até o lago beber da água.
Agarrei-me à sela e quando o cavalo se inclinou para baixo, agarrei desesperadamente os braços de Jace, mas eu não caí. Foi apenas uma inclinação nada agradável de pelo menos trinta graus com a horizontal.
Quando Hórus ergueu o pescoço e voltou a andar, foi que percebi a mão espalmada de Jace na minha barriga. Fingi que não estava vendo. Não por estar gostando, mas por medo. Desse jeito ele poderia me segurar antes que eu parasse com a cara no chão.
— Seu idiota. — Xinguei assim que o cavalo entrou no lago para atravessar.
Afundamos de repente e ele atravessou aos saltos, vencendo a resistência da água e o nosso peso.
Chegando do outro lado, os respingos gelados de água começaram a me deixar com frio. Mas era só lembrar do infeliz às minhas costas que aí eu implorava pelo lago. Só um mergulho.
Quinze minutos depois, avistei algo adiante. Jace exigiu mais um pouco de Hórus e ele galopou ainda mais rápido, como se soubesse que quanto mais cedo chegasse, menos tempo ele teria com a gente no lombo.
Quando chegamos, nada daquilo me surpreendeu realmente.
Chalés. Dois deles. E um espaço interessante. Iríamos acampar no mato. Ótimo!
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