Iron Hill
2 Save me your speeches...
Notas iniciais
Eu estava pronta para sair de casa com minha mochila quase vazia e pedir para Isabelle uma carona, quando meu celular tocou. Número Restrito. Não muito feliz, atendi.
— Clary.
Engasguei com minha própria saliva.
— Não desliga! – Ele gritou do outro lado. – Eu só quero passar aí para pegar sua mala, Izzy te avisou que sairemos direto da escola, não avisou?
— Ah, claro. – Respondi seca.
— Dê-me o endereço.
— Agora?
— Clarissa, estaremos atrasados se você não colaborar.
Suguei uma respiração. Ele estava abusando da sorte de eu ter atendido.
Falei o endereço rapidamente.
— Estou chegando. – Falou antes de desligar.
Sentei no sofá e fiquei esperando. Minhas mãos estavam nervosas, minha respiração acelerada, eu estava começando a suar! O meu perseguidor sexual iria entrar na minha casa enquanto minha mãe estava fora.
Não tenho ideia de quando tempo passou, mas alguém estava chamando na porta. Levantei com as pernas bambas e abri. Aquela barra de ouro estava na minha porta. Sorrindo.
— Não vai me convidar para entrar? – Perguntou.
— Olha aqui, eu só aceitei por causa deles, isso não quer dizer que você pode falar o que quiser para mim, tentar me tocar, e fazer piadinhas. Eu não quero saber dessas coisas ou eu volto a pé para casa e abandono eles lá, e sabe o que vai acontecer? Isabelle vai ficar com raiva de você e aí...
Uma mão voou para minha boca, me impedindo de continuar.
— Ufa. Pensei que se fechasse sua boca, você iria explodir. Então: mostre-me sua mala.
Senti meu rosto ficar vermelho até se tornar roxo. Dei um passo para o lado e deixei ele passar. Foi até a mala perto do sofá, observando o apartamento, vale ressaltar, pegou-a e voltou para a porta.
— Vamos, eu te dou uma carona.
— O quê? Não.
Girou nos calcanhares para me encarar.
— Vai fazer uma ceninha? Anda, não vou deixar que se atrase por minha culpa.
Silêncio.
Silêncio.
Silêncio.
— Tudo bem. – Concordei.
Tranquei a porta e desci a escada com ele.
Passando pelo primeiro andar, vi a velha enxerida espionando da fresta da porta.
— Sim, minha mãe sabe, Dorothea. – Falei alto.
Jace olhou por cima dos ombros para ver com quem eu falava e se assustou com os olhos na fresta.
— Quem é? – Perguntou.
— Não importa. Anda antes que ela queira ler a sua mão e falar como você vai morrer jovem.
Ele riu. E foi um som interessante. Não tinha malícia, apenas... ele.
Afastei os pensamentos e saímos na manhã quente.
A Ford Ranger preta estava estacionada bem à frente do portão. Linda, tenho que admitir. Assisti enquanto ele ia para a caçamba e enfiava minha mala ali. Um peça a mais de roupa e ela não entraria de boa. Precisaríamos de um caminhão de mudança.
Voltando para o meu lado, Jonathan Herondale abriu a porta do carona para mim e ofereceu a mão para eu subir. Bufei. Pisei no apoio e icei meu corpo para dentro do veículo. Sorrindo e meneando a cabeça, ele bateu a porta e correu para o lado oposto.
Aquele banco de couro era incrivelmente confortável.
— Coloca o cinto. – Disse.
Senti um tremor e o motor potente saltou para a vida. Observei seus movimentos suaves para manejar os controles do carro e começar a dirigir. Depois disso, já a caminho da escola, foi desconfortável. Continuamos em silêncio até que a construção enorme do campus surgisse na paisagem monótona da cidade.
— Posso te fazer uma pergunta? – ‘Me assustei com a voz grave e baixa.
— Mais uma?
Silêncio.
— Você seria minha amiga se eu não tivesse feito o que fiz no primeiro dia?
Eu não sabia o que responder. Eu não me dava muito bem com aquele tipo de garoto. Do time e que sai com quantas aparecerem à sua frente só para fazer bonitinho; daqueles que só pensam em levar todas para sua cama num dia e mandá-las embora no fim da noite para nunca mais voltar.
Ele chegou falando besteira para uma pessoa que ele nem mesmo conhecia. Como queria que eu o tratasse?!
— Não sei. – Respondi com sinceridade.
— Eu estraguei minha imagem, não foi?
— Só pareceu um filho da puta.
—Eu sei, me desculpe. Tentarei usar esse tempo para fazê-la mudar de ideia. – Murmurou.
— Boa sorte. – Debochei.
Quando chegamos na escola e eu desci da 4x4, meio mundo me fuzilou. Minhas discussões com o Herondale eram conhecidas até pelos mortos. E eu sabia que várias apostas rolavam para ver até quando eu resistiria e acabaria numa cama com ele. Desagradável. Mas muitos diriam ter ganhado a aposta depois daquela cena.
— Epa! Corram, é o fim do mundo! – Isabelle gritou e depois gargalhou.
Muitos pararam para ver o que aconteceria depois, talvez esperassem que ele colocasse os braços nojentos em mim e eu deixasse. Isso definitivamente não aconteceria.
Saindo de perto da Ford, fui encontrar Izzy e Simon a meio do caminho.
— Posso saber o que foi isso?
Suspirei antes de respondê-la.
— Eu vou com vocês. – Declarei com minha pior voz de sofrimento.
Ambos pularam sobre mim e quase me sufocaram.
— Ei, vocês dois, vão matá-la. Não ajudem-na a criar desculpas para desistir de última hora. – Ouvi a voz do Herondale ao longe.
Assim que se afastaram, automaticamente procurei por ele, mas já estava longe demais e com os braços ao redor de Aline e Helen. Duas piranhas.
— Vamos entrar, estamos atrasados. – Chamei.
— Não estamos. – Izzy protestou.
— Estamos. – Simon e eu falamos ao mesmo tempo. ‘Nos encaramos e estreitei meus olhos.
Ele entendeu o recado.
— Temos muito tempo, Clary. Muito tempo. – Iz ficou meio confusa com essa mudança, mas eu sabia exatamente do que ele estava falando.
— Vocês e seus códigos. – Ela bufou.
Procuramos nossas respectivas salas e nos separamos.
Por ser final de período letivo, não tínhamos mais aulas exatamente, era só a coisa chata de sempre. Fomos assistir professores falando sem parar, dessa vez, sobre ser a última vez que sairíamos de férias.
Entrei na sala do senhor Garroway e me sentei na penúltima carteira. Ele era o professor de Literatura, um cara legal. Dono de uma livraria no centro, mas pegava no meu pé como se fosse meu pai. Sentiria falta dele.
Meu celular vibrou e tive que dar atenção. Por um momento, pensei que era Jace, mas não, era Izzy.
Você se acertou com o Jace? – Perguntava.
Não. Trégua pelos amigos.
Que pena. =/
Por quê?
Nada. Vocês até ficam bonitos juntos. Vai negar que não queria experimentar a pegada de Jace Herondale?
Não tive chance de responder. Alguém sentou atrás de mim e agarrou meus ombros.
— Qual a fofoca? – Sebastian perguntou.
Sebastian era meu ex-namorado e como entramos em um acordo de que não daria certo, continuamos amigos, quase irmãos. Estranho, mas estava funcionando. Depois que Jace apareceu, ele se juntou ao time e estava adorando a galinhagem depois dos jogos.
— Nenhuma. – Comentei ao enfiar o celular no bolso sem nem responder a mensagem.
— Não minta pra mim. Disseram que você chegou de carona na Ranger hoje.
— É, cheguei.
— Então vocês pararam de brincar de gato e rato? Preciso ter uma conversa séria com o Herondale?
— O quê?! Não. É só que eu decidi ir com vocês para a casa dele. Ele foi buscar minha mala e tive que vir de carona.
— Oh! Isso é um passo importante na relação de vocês...
Virei para ele com meu pior olhar.
— Tá bom, parei. – Mas continuou rindo.
— Clarissa, algum problema com o seu colega? – Eu falei que ele implicava comigo.
— Não, senhor.
— Peça para ele se comportar. – Sorriu. – Eu ainda sou o professor de vocês.
— Pode deixar, professor Garroway. – Sorri falsamente.
Ele terminou de entrar na sala e começou a fazer um discurso baseado em trechos de livros clássicos. Bem a cara dele. Não posso reclamar, porque se não fosse ele o professor, eu nem saberia de onde vinha aquelas referências. Talvez um dia eu fosse visitá-lo na livraria.
Venci aquela aula com Sebastian enchendo o meu saco o tempo todo. Ele também iria com a gente para a casa do Herondale e levaria uma companhia e queria saber se estava tudo bem pra mim. Eu não entendi muito bem a insistência no assunto até que a aula acabou e ele soprou o nome da infeliz que ele iria levar. Aí ele correu e me deixou indignada parada no corredor.
Cheguei para a próxima aula cuspindo fogo. Sentei na primeira bancada livre que encontrei e nem me toquei que um dos lugares já estava ocupado.
— Hum... é seguro eu falar com você?
Herondale.
— Não.
— Mas vou falar assim mesmo. – Revirei os olhos, era sempre assim. – O que fez o seu rosto ficar da cor do cabelo?
— Não é da sua conta.
Por mais um tempo ele ficou insistindo, e o professor de Química já nem se importava em nos mandar ficar quietos. Tanto que quando ele veio com o comentário de que não se importava com a cor da minha cabeça porque ele tinha uma cabeça da mesma cor, eu não aguentei.
Saí daquela sala o mais rápido possível e comecei a andar sem rumo pelos corredores vazios de Institute High School. Aquilo era enorme. Os vitrais faziam parecer uma igreja extremamente antiga – não que ele não fosse antigo, mas uma igreja... com as pessoas que frequentavam o lugar, nunca! E eu poderia jurar ser capaz de encontrar algum objeto da Inquisição detrás de uma das inúmeras portas proibidas aos alunos.
Subi algumas escadas, desci outras até finalmente estar na sala de treinamento. O time de basquete adorava aquele lugar. Era onde se concentravam antes dos jogos. Tinha cada coisa estranha, do tipo parede de escalada, mesas de sinuca, dardos extremamente antigos e até um boneco do diretor Hodge para arremessá-los! – Esse último fora feito pelos próprios alunos.
Fui até a parede de dardos e peguei alguns. Queria pelo menos fazer isso uma vez, duplamente, porque estaria espetando o diretor e imaginando Jace ali também. Seria um alívio e eu poderia, finalmente, entender o porquê dos caras do time fazerem aquilo antes dos jogos.
Tomei distância e joguei o primeiro. Bateu de lado e caiu no chão com um tilintar do metal. Bufei. Eu era péssima naquilo. Comecei a pensar que deveria ter aprendido antes, agora era tarde demais. Mas quis tentar mais uma vez.
Ergui o braço e me preparei para lançar. Quando fiz o movimento, meu braço foi parado. Levei um susto tão grande que deixei o dardo cair da mão. Aí você me fala que eu deveria virar e acertar a pessoa com ele, mas meu coração estava disparado demais para isso!
— Assim você nunca vai conseguir relaxar. Precisa cravar um desses bem no meio dele para sentir o efeito. – Uma voz rouca soou no pé do meu ouvido.
‘Me arrepiei.
Tentei me afastar, mas seu braço esquerdo estava preso firmemente ao meu redor enquanto a mão direita segurava meu pulso erguido. Aquela parede de músculo estava colada às minhas costas mais uma vez e meu corpo continuava me traindo.
Fiquei quieta.
Moveu meu braço, afastou minhas pernas com seus joelhos e fez minha pulsação subir ainda mais. Se tivesse uma parede na minha frente eu iria pensar que ele queria me estuprar. Como nos velhos tempos...
— Mantenha o dardo firme, se você não o fizer, quando lançá-lo, o fio não terá um curso perfeito e irá bater a parte chata da lâmina.
Um instante contado em nossas respirações.
— Jogue. – Indicou.
Joguei. E a lamina afiada do dardo cravou bem no meio da barriga do boneco. Jace riu.
— Muito bem, agora, solte as armas e não pratique em mim.
Afastou-se de mim e ficou me encarando com as mãos nos bolsos e um sorriso desafiador. Como eu queria jogar aquilo nele...
Suspirou e desviou o olhar.
— Olha, Clary... ‘me desculpe. Eu prometi melhorar, mas velhos hábitos são difíceis de largar.
Dei as costas a ele mais uma vez e fui guardar os projeteis. Não respondi.
Mal terminei de pendurar o último e fui puxada para trás para logo ser empurrada de frente em outra parede.
Suas mãos estavam na minha cintura e sua boca colada ao meu rosto.
— Clary, Clary... – Murmurou e mordeu meu lóbulo. – Eu disse que vou melhorar, mas não que vou desistir. – Ainda terei você para mim.
Eu queria falar, empurrar, reagir. Mas a única coisa que meu corpo me deixava fazer era respirar pesadamente e derreter com os olhos fechados, apreciando a sensação. Jace Herondale seria a minha ruína.
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