Irmãos!?
5 Um novo dia
Notas iniciais
Acordei-me cedo, mas não quis me levantar. Pra quê me levantar? Pra me deparar com uma mulherzinha se adonando da casa e do meu pai? Não mesmo!
Prefiro passar o dia todo na cama a passar por isso. E sim, eu penso seriamente na possibilidade de evitar ao máximo me encontrar com essa mulher.
Tomei café da manhã e almocei no quarto, graças ao bom Deus, sempre tive essa mordomia ou meu pai estranharia essa minha atitude.
Pela tarde me obriguei a sair para petiscar alguma coisa. Quando estava no fim da escada e vi um garoto na porta, me encarando. Ficamos parados nos olhando como se estivéssemos hipnotizados.
‘Quem é essa garota?’ Uma mulher que eu nem havia percebido perguntou ao meu pai. Meu pai gaguejou nervoso explicando para ela que eu era a filha dele. Papai não devia ter escondido dela a minha existência mas, ao que parece, ela também escondeu alguém dele.
Suspirei quando papai pediu-me que mostrasse um quarto ao garoto. Otimo! Agora não só terei que aguentar uma mulher estranha querendo ocupar o lugar da minha mãe como também terei que aguentar um ‘irmãozinho’ me atormentando.
Forcei-me a ser educada e gentil questionando-o se queria ajuda com as malas. Mas como nem todos respondem educação com educação (o que mais que uma falta de educação é uma tremenda falta de respeito), ele me respondeu de forma estúpida. Eu tive que respondê-lo a altura para em seguida dizer-lhe para me seguir.
‘Por favor não existe?’ Ele me perguntou. Ele é mal educado comigo e eu ainda tenho que pedir por favor? Façam-me o favor, né? É claro que não! Ele foi muito mal educado e mal agradecido, perdeu pontos comigo já na primeira frase que deixou sair de sua boca.
Mostrei-lhes os quartos. Porque eu tenho que fazer isso? O que virá a seguir? Meu pai me mandando ser a empregadinha que leva café da manhã para a madame e seu filhinho estúpido? Tornar-me uma cinderela? Uma gata borralheira? Não mesmo! Nem nos sonhos mais loucos de papai ou de qualquer um que seja!
Quando mencionei a sala proibida me veio um tipo de flashback de uma das poucas vezes que entrei lá.
Mamãe estava sentada em uma almofada no chão, lendo seu livro preferido ‘Sob o céu da Índia’eu pedi para que ela lesse para mim, mas ela apenas me respondeu que o livro era impróprio para crianças. Levantou-se e me direcionou à biblioteca onde lá ficamos e ela leu uma história para mim.
Sugeri-lhe que ficasse no quarto à frente do meu. Assim poderei ficar de olho nele. Não o quero na sala que era de mamãe.
‘Então... O que tem do lado do quarto de nossos pais?’ Nossos pais? Quando ele disse isso eu senti náuseas e fiz uma careta, mas logo a desfiz, decidi me focar na pergunta em si. Peguei-o pela mão, meio que no automático, quando notei que o tinha feito pensei em removê-la mas se o fizesse a consequência poderia ser pior.
Levei-o então à biblioteca. Meus olhos brilhavam toda vez que eu entrava ali, mesmo que eu não visse, eu sabia disso. Ele me chamou de nerd, mas me pareceu que ele dizia mais por curiosidade que por afronta, então não dei muita bola pra isso. Respondi-lhe educadamente que não era nerd e lhe expliquei que a biblioteca era importante pra mim.
Falei-lhe que minha mãe lia pra mim ali naquela biblioteca e mostrei-lhe o livro que ela mais gostava de ler para mim e comigo As doze princesas do halloween.
Ele achou que você um livro de terror. Achei engraçado. Eu expliquei para ele que não era, mas que também não era um livro do tipo conto de fadas meloso.
Quando falei que minha mãe costumava dizer que “Não importa o que aconteça, nunca devemos deixar a tristeza nos abalar e tente sempre sorrir, pois um dia o sorriso falso tornar-se-á verdadeiro” Eu podia sentir como se lágrimas rolassem pela minha face pelo fato dessa frase estar tão fresca na minha memória. Eu quase podia tocar minha mãe quando falei essa frase.
‘Devia ser uma mulher incrível!’ Ele exclamou e eu vi veracidade em seus olhos quando o fez.
Conversando sobre minha mãe acabei me lembrando de momentos com ela o que me deixou feliz até eu me lebrar de ela me dizer que quando ela não estivesse mais comigo o meu pai seria meu salvador, meu protetor.
Essa lembrança me entristeceu de tal forma que até o estranho na minha frente notou. Ele me perguntou qual meu problema e isso me irritou. Não por ele ser um estranho, mas porque... Como eu poderia dizer-lhe ou reclamar que o meu pai que deveria ser meu anjo protetor amava mais a mãe dele que a mim? Que meu pai nem se preocupou como eu me sentiria? Ou mesmo que ele nem pensaria duas vezes em me deixar morando embaixo de uma ponte para continuar com a mãe dele?
Eu não podia dizer nada dessas coisas a ele. Então me limitei a dizer-lhe que não queria falar sobre o assunto. ‘Vamos! Temos que pegar o resto da tua bagagem.’ Decidi mudar o foco da conversa. Ele foi gentil dizendo que eu não precisava e podia permanecer na biblioteca. Sorri e agradeci-lhe mentalmente. Era obvio que ele havia saído para me dar um tempo para pensar, refletir e me recompor.
Mamãe sempre fez de tudo para que eu e meu pai nos déssemos bem. Acredito eu que ela era o que mantinha nossa família unida, era o que mantinha nosso mundo nos eixos.
E agora... É como se eu estivesse vendo o maior, mais belo e mais trabalhoso castelo de areia que minha mãe fez sendo desfeito em um piscar de olhos por essa mulherzinha. É revoltante ver todo o trabalho de mamãe desmoronando e eu aqui, sem poder fazer nada além de observar, pois papai obviamente ficará ao lado dela e não do meu.
Pressionei o livro de mamãe contra meu peito, me direcionei a janela onde mamãe sentava para ler para mim e comecei a ler...
Era uma vez uma linda garotinha, com olhos perfeitos, cabelos perfeitos, lábios perfeitos, enfim uma garota perfeita com uma vida perfeita.
É assim que todos os contos implícita ou explicitamente começam. Mas qual é?
Perfeição existe desde quando?Desde quando existe alguém ou alguma coisa perfeita?
Exato!
Não existe, nunca existiu e nunca existirá. A perfeição, nada mais é, que uma ferramenta para que aqueles que se consideram inalcançáveis possam menosprezar ou diminuir os “Não perfeitos”.
Senhoras e senhores perfeitinhos deixe-me lhe dizer algo importante...
Sempre... Absolutamente sempre! ...vai haver alguém melhor que você!
Hoje você humilha. Amanhã será humilhado!
Hoje você está por cima. Amanhã está por baixo!
Hoje você é tudo para alguém, ou pro mundo. Amanhã você não é NADA!
O mundo dá voltas! Não humilhe, não seja convencido, seja feliz sendo você mesmo, mas sem precisar humilhar, ferir e maltratar aos outros.
Acabei adormecendo enquanto lia.
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