Sair em público sozinha sempre era uma questão para Reese, algo que ela não deixaria de fazer, mas que ainda assim fazia sua pele formigar um pouco em nervosismo sempre que era necessário. Mas desde que Azalea tinha voltado para sua vida, dizer que o medo tinha diminuído era eufemismo. Ela sentia um tipo de segurança estando nas ruas com a amiga, não sabia dizer bem o motivo, mas talvez fosse apenas a nostalgia de quando costumavam sair de casa juntas, escondidas, para escapar da asa super-protetora do pai de Reese.

— Eu estava muito precisando comprar umas blusinhas novas — Azalea comentou, parando na frente da vitrine de uma loja de roupas e olhando para uma variedade de blusas em tons pasteis e modelos cropped que eram a cara dela, mas que Reese jamais iria usar.

A garota riu. Tinha sentido falta até do quanto as duas eram diferentes.

— Tem dinheiro sobrando aí?

— Alguns dólares, fazer hambúrguer no McDonalds não paga muito. É sorte a igreja deixar a gente ficar no abrigo deles, pelo menos o aluguel e as contas saem de graça.

Azalea encarou a vitrine mais uma vez, mas acabou dando de ombros e dando as costas para a vitrine, seguindo o caminho pela rua com Reese ao seu lado.

— Seu pai me telefonou tipo umas vinte vezes nas últimas semanas — Azalea comentou, as mãos enfiadas casualmente nos bolsos da calça. — Não posso continuar fingindo que não vi por muito mais tempo.

— Não precisa, é só falar que não sabe onde eu estou.

Mas Azalea suspirou, olhando para Reese com uma sobrancelha erguida, e ela soube que a amiga não pretendia mentir. Nem mesmo por ela.

— Você sabe que eu sou sua amiga, né Rees.

Rees. Lá vinha o sermão. Reese soltou um resmungou, enfiando a mão no bolso, tirando uma nota de cinco dólares e pensando onde estaria a lanchonete mais fácil pra comprar um copo grande de refrigerante e não precisar dar tanta atenção para Azalea. Mas sabia que não ia ser tão fácil assim escapar dela, nunca tinha sido. Azalea a conhecia bem demais, e embora Reese fosse a empata das duas, não era a única com habilidade de convencer alguém.

— Eu daria qualquer coisa pra ter meu pai me procurando — Azalea comentou, abaixando o rosto e encarando os próprios pés enquanto andavam. — Pra tê-lo vivo. Ele e a minha mãe, eu… Reese, você tem sorte de ter o tio Will na sua vida. Eu não quero mentir pra ele por você, ele foi muito bom pra mim. Por favor…

— Se ele é tão bom assim, por que você não volta pra casa? — Reese perguntou, de uma vez, a voz subindo algumas oitavas e a testa se franzindo. — Eu sei por quê. Porque ninguém merece ficar trancafiado num apartamento a vida toda! Papai nunca ia deixar a gente ter uma vida, Az, principalmente eu! Olha só pra minha cara! Nem todo mundo ficou com o rosto bonitinho igual você!

Um bico se formou no rosto de Azalea, e Reese sentiu uma onda de tristeza vindo da amiga. Sentiu um aperto no peito, e um desconforto, uma lembrança de uma parte de seu relacionamento com ela que tinha esquecido. Nem tudo eram sempre flores, afinal.

— Desculpe — Reese murmurou.

Entre a cara feia dela, e os pais mortos de Az, preferia seu cabelo azul a qualquer instante. Poderia estar evitando o pai, mas isso não significava que o quisesse morto, afinal, e não conseguia imaginar a sensação de perder duas pessoas que se amava tanto de uma vez só como tinha acontecido com ela.

— Tudo bem — Azalea respondeu, com um sorriso relutante no rosto. — Eu só quero o melhor pra você, Rees…

— Eu sei — a garota respondeu, com um suspiro cansado. — Você lembra da Juna?

— Claro. Héctor me contou que ela sobreviveu, tava com os outros três que ele alertou antes de me encontrar.

Héctor. Reese engoliu em seco, apertando as mãos nos bolsos e decidindo ignorar a informação, antes que Azalea resolvesse insistir naquele tópico também. Só dava conta de lidar com um estresse por vez.

— Juna também fugiu de casa porque o pai ficava prendendo ela. É sempre assim com as pessoas como eu. Ou a gente é colocado debaixo de uma redoma de vidro porque o mundo vai ser cruel com a gente, ou acontece igual com o Nathaniel que leva tanta pedrada dentro de casa que de qualquer forma acaba tendo de fugir. Eu só quero ter uma vida normal, Az. Sem redoma de vidro e sem pedra caindo na minha cabeça.

— Foi por isso que você entrou pra esse grupo rebelde?

Reese assentiu, achando melhor não falar muito sobre o “grupo rebelde”. Sabia que Az não aprovava muito a decisão, mas não vinha se intrometendo demais, e julgava isso mais do que o suficiente.

— Não é muito diferente do que eu, Héctor e os outros queremos.

Ela não ia deixar quieto, ia? Reese encontrou um carrinho vendendo refrigerante e se desvencilhou de Azalea por alguns segundos, comprando seu copo e bebendo um pouco para tentar se acalmar.

— Héctor — Reese começou. — É admitidamente um Carrasco.

Era. E você melhor que qualquer pessoa deveria saber o quanto ele se arrepende disso.

— Você só está tentando fazer eu sair num encontro com ele.

— Você iria? Quer dizer, se ele não fosse um Carrasco?

Reese se virou para Azalea com toda a intenção de dizer que não, mas sentiu que devia à curiosidade da amiga — e à sua própria, por que não? — uma resposta honesta à pergunta. Carrasco à parte, Héctor era tão certinho que chegava a ser engraçado. Era uma companhia gentil e a fazia se sentir respeitada de um jeito diferente. Ele tinha se importado com a segurança dela, mas não tinha tentado impedi-la de fazer o que queria nem por um momento sequer. E, bem, ele era atraente. Alto, forte, provavelmente usava blusa social só pra ficar ajeitadinho e não fazia ideia do favor que o tecido e os botões faziam pros músculos dele. Sem falar nas calças.

— Ok. Talvez. Mas ele é.

— Ele salvou minha vida.

— Azalea…

— Me escuta. Uma vez, e eu nunca mais toco no assunto.

Era uma proposta tentadora. Reese parou de andar, se virando para a amiga e continuando com seu refrigerante, em silêncio, esperando ela falar.

— Éramos eu e mais uns dez, mais ou menos. Eu corri pro canto da plataforma quando ouvi o primeiro grito, e criei uma ilusão de uma parede em cima de mim e de quantas pessoas estavam por perto. Fiquei muito preocupada porque você não tava ali do meu lado, mas eu não consegui te achar a tempo…

Aquilo… não. Reese jamais culparia Azalea por ter se salvado como pode. As duas não estavam próximas quando o evento começou e tudo o que Reese tinha feito era correr. Tentou projetar seu medo, e deveria ter funcionado para congelar a atacante por um átimo de segundo pois a deu tempo para sair.

— Algumas facas dela nos acertaram ainda assim, minhas ilusões não são sólidas — Az comentou, levantando a barra da blusa e mostrando uma cicatriz grande na altura da barriga. — Depois que ela foi embora, foi Héctor quem apareceu oferecendo ajuda. Eu achei que ia morrer, então aceitei da primeira pessoa que vi. Ele ajudou a gente a escapar, e se não tivesse feito isso, eu acho que já estaria morta quando os X-Men chegassem. Ele contou pra gente como sabia que a gente ia tá lá, e o resto todo, e… É claro que eu tenho mágoa e ressentimento por ele ter sido um Carrasco, mas mesmo assim, quando eu olho pra ele tudo o que eu sei é que se não fosse por ele eu e vários outros mutantes não estaríamos aqui hoje. Isso não serve de alguma coisa?

Servir, servia. Tinha de servir. Mas Reese continuava sem saber o que pensar da coisa toda. Não queria pensar na coisa toda. Ela decidiu que era melhor mudar de assunto, e enfiou a mão nos bolsos do moletom, tirando a boneca que tinha encontrado com Miguel no que parecia uma vida atrás, mas eram apenas alguns meses.

— Eu tentei dar uma limpada nela — Reese comentou, vendo o rosto de Azalea se acender quando ela aceitou a boneca de volta, uma lembrança costurada à mão pela mãe da garota que ela tinha guardado por toda a vida como uma lembrança. — Sei como era importante pra você.

— Ainda é… Obrigada Rees!

Azalea a abraçou, um gesto impulsivo e comum para a garota, e Reese retribuiu com um sorriso pequeno no rosto. Podia até querer ralar a cara de Héctor no asfalto até ficar em carne viva, mas como poderia não ser grata pelo presente que era ter Azalea de volta em sua vida? Tudo bem, talvez falasse com ele depois, mas só para ter algum tipo de encerramento em toda a situação. Por nenhum motivo a mais.

[...]

Cassian passou dias na constante companhia daquele pendrive. Usualmente, esse tipo de trabalho seria repassado para Marlene, mas não era como se fosse prático usar um notebook nos esgotos. Além do mais, depois do grande fracasso na delegacia, ele bem preferia tomar as próprias decisões sozinho.

Fora as fichas dos seus colegas de time, que não importavam a Cassian em nada, a coletânea de informações trazia uma boa quantidade de coisas sobre William, e ele já tinha vasculhado as coisas o suficiente para encontrar o endereço do homem e descobrir que ele tinha morrido e deixado de fato a casa para Jason. Se aquilo não fosse um bom lugar para começar, não sabia o que seria.

O problema maior seria entrar na mansão na cara de pau só com Cat para ajudar, uma vez que achava que Reese ainda precisava descansar e não confiava nos outros três, mas era com o que teria de lidar. No que dependesse dele iria sozinho, mas deixar Cat para trás era pedir pra ela acabar se enfiando lá de qualquer forma e sem avisar a ele, portanto, sem backup, e isso deixaria tudo pior.

Planejar esse processo de invasão ia levar um bom tempo. Com a mãe pendurada em cima dele igual um urubu o tempo todo para vigiar o que vinha fazendo, Cassian vinha aproveitando mais do quartinho do porão do restaurante de Cat, e da paz e privacidade que aquilo o proporcionava. No que dependesse dele, já estariam saindo para resolver essa situação, mas Cat tinha mais ressalvas sobre o assunto, o que era provavelmente uma boa coisa e geraria um plano mais cauteloso, mas não fazia muito pela sua ansiedade.

Ele suspirou, jogando os pés pra cima da mesa e girando uma caneta nas mãos. Ao seu lado, Cassandra tinha se esparramado pelas cadeiras próximas e parecia estar dormindo, mas seria no mínimo difícil dizer isso de uma sombra então seria capaz de apostar que era puro tédio da parte dela. Não podia culpá-la. Esse jogo de espera vinha sendo um tanto tedioso para ele também.

Cat tinha prometido chegar ali às três, e quanto mais perto do horário o relógio chegava, mais devagar o tempo parecia passar. Ele encarou Cassandra, pensando em se jogar nas cadeiras também para matar tempo, mas não teve a chance de testar a ideia. Seu telefone tocou.

Cassian resmungou, já enfezado com o que provavelmente era a quinta ligação de sua mãe no dia para saber onde ele estava e se estava bem, e teria recusado a chamada direto pra responder com uma mensagem — que necessidade que as pessoas tinham de fazer chamadas pra coisas que podiam ser uma mensagem! — mas acabou por instinto olhando o número, e dessa vez, se surpreendeu. Era Niko.

Ele se sentou na cadeira, de uma vez, surpreso. Cassandra se sobressaltou, balançando um braço enérgico em um gesto muito similar a um utilizado para proferir ofensas, provavelmente por ter sido de fato acordada pelo movimento dele. Mas a sombra parou o gesto ao ver o número no telefone, levando as mãos à boca em um gesto dramático e se escondendo atrás de Cassian.

— Isso, esconde mesmo — ele resmungou, passando o dedo pelo botão de anteder a chamada. — Traidora.

Cassandra não deu sinais de que ia se mover, e isso deixou Cass sozinho na chamada. Ele respondeu com um “alô” que esperava que fosse neutro, ainda incerto sobre o tópico da ligação, embora a vontade de ser mesquinho estivesse gritando em sua cabeça.

— Cass! Olá!

E ela parecia muito feliz também. E isso era bom, não era que não ficasse feliz por ela, mas… Sim. Mesquinho.

— Olá. Lembrou do namorado, é?

Bem, ao menos ele podia dizer que tinha tentado.

Niko suspirou do outro lado da chamada.

— Desculpe. Muita coisa andou acontecendo.

— É. Aqui também.

Muita coisa com certeza, se ela tinha tido tempo de vir investigar igreja em Nova York e não tinha se dado ao trabalho de fazer uma chamada de telefone pra ele pra dizer que estava na cidade.

— Bem, eu recebi sua mensagem — Niko comentou. — Como vão as coisas?

Ah sim, a mensagem que ele teve de mandar, dias atrás, dizendo que queria conversar, pra ver se a garota lembrava que ele existia. Tudo bem, não era como se ele tivesse ligado para ela também… Mas não era ele quem estava escondendo envolvimento com as coisas dela.

Cassian teria respondido que estava tudo bem, mas não estava com bom humor o suficiente para fingir isso, ela ia perceber. Para que se dar o trabalho, então?

— Meu time tá se desmanchando, ainda não conseguimos recuperar as bombas e embora as explosões tenham parado a algum tempo nada garante que não vão voltar a qualquer instante, então eu continuo com receio de sair na rua e morrer. Ah, e minha mãe descobriu e tá me vigiando o tempo todo e eu mal consigo ficar em casa agora. Fora isso, tudo bem. E aí?

Niko demorou para responder. Cassian tinha certeza, ela estava medindo o que poderia falar, e embora compreendesse a situação, a paciência dele estava começando a acabar. Não era para haver mais mentiras e segredos entre eles, e a garota tinha virado uma agente secreta. Estava cansado. Tinha o direito de estar cansado? Não sabia, mas estava.

— Tem algumas coisas.

— Imaginei.

— Cassian, desculpe. Não é que eu não queira…

— Tudo bem.

— É só que…

Tudo bem.

Não era isso que tinha em mente quando tinha mandado a mensagem para Niko. Estava cansado, sozinho e preocupado, e esperava que conversar com a garota fosse fazê-lo se sentir um pouco menos sozinho. Mas tudo tinha mudado. Seu relacionamento com ela não era mais o mesmo. O mundo não era mais o mesmo. Eles não eram mais os mesmos.

— Eu acho que tenho que ir — Cassian comentou, embora não tivesse absolutamente nada para fazer. Só não se sentia tão confortável naquela ligação quanto gostaria.

— Ah, ok. Bom… nos falamos depois.

— É. Depois.

— Então… até mais.

— Até.

Ele desligou a chamada, largando o celular na mesa com um pouco mais de violência do que deveria. Não estava bravo com ela, especificamente, mas não conseguia entender por que o universo continuava brincando com os dois desse jeito, colocando uma situação mais impossível que a outra na vida deles para atrapalhar o relacionamento. Nem sabia em que parte do mundo ela estava agora, ou se poderia vê-la em breve ou só dali a muitos e muitos anos…

Não queria pensar nisso agora. Ele massageou as têmporas, pegando o celular de volta para conferir as mensagens. Reese ainda estava fora com a tal amiga, tanto melhor, ao menos alguém estava se divertindo. Não havia nenhuma novidade do resto da equipe. Ele checou o relógio. Eram três e cinco, e a porta do porão se abriu.

Cassandra saiu de trás de Cassian, acenando feliz para Cat.

— Olá! — Cat cumprimentou, e a sombra se esticou para abraçar a garota.

— Pare com isso Cassandra, mas que coisa — Cassian repreendeu, puxando a sombra de volta pelo tornozelo. Cassandra se virou e deu um tapa na mão dele. — Ai! Escuta aqui, eu ainda mando em você, viu?

A sombra deu de ombros, se afastando de Cat e indo se acomodar atrás de Cassian. A garota soltou uma risadinha.

— Ela ainda é parte de você, então vou entender isso como você estando feliz em me ver.

— Feliz eu tô, tava começando a me comer de tédio aqui sozinho — o garoto respondeu, abrindo o mapa da cidade no site e virando a tela pra ela. — Aqui, essa é a casa do William.

— Que rico. Vai ser um saco achar qualquer coisa lá dentro.

— Com tudo escuro e nossa visão noturna a gente dá um jeito — ele respondeu. — Talvez lá a gente consiga alguma outra coisa que aponta pra um esconderijo da família, ou sei lá. Não vou mentir, parte de mim está começando a achar isso um tiro de sorte muito distante. Jason já não mora lá faz tempo, acho que só a mãe dele deve ter ficado a essa altura.

— Realmente… Mas isso quer dizer que a casa vai estar mais segura, não? Podemos pedir Marlene pra vigiar a rotina dela com os pombos, achar um espaço de tempo em que a casa esteja vazia.

— É uma boa ideia. Eu vou passar o pedido pra ela.

Cassian puxou o telefone para enviar o endereço e a mensagem, e Cat puxou o computador pro lado por um instante, mexendo em alguma coisa.

— O que está fazendo?

— Uma casa desse tamanho deve ter um alarme. To tentando descobrir como desligar.

Com um gosto amargo na boca do estômago, Cassian se deu conta de que Pulso provavelmente poderia fazer isso, mas comeria cimento antes de pedir ajuda pra qualquer Novo Mutante. Em especial um que era amigo de Niko. Vai que ele contava alguma coisa pra ela.

— É. Vamos trabalhar em algumas ideias.

[...]

Poucos anos atrás

Jason respirou fundo, encarando a parede branca do quarto, fechando os olhos e se concentrando. A sensação estava ali. Aquele calor, aquela… dor, no meio dos olhos. Ele moveu o pescoço, o estralando devagar e respirando fundo. Era só afastar. Conseguia segurar, sabia que conseguia.

Ele continuou com as respirações, se focando na dor a cada puxada de ar e tentando conter aquela sensação dentro do corpo. A cada minuto, a situação foi ficando um pouco mais tolerável, até que enfim ele julgou que tinha conseguido controlar.

Jason sorriu, levantando o braço para conferir o relógio. Dois minutos. Era seu melhor tempo até agora, e sem nenhum acidente de percurso. Era isso o que estava procurando, tinha certeza. Agora poderia falar com Strucker sobre sair, voltar para sua casa, para sua família. Certamente seu pai estaria orgulhoso. Talvez sua mãe falasse com ele. Já fazia tanto tempo…

Ele pegou o vidro de remédio para dor de cabeça na mesa de cabeceira, o guardando satisfeito na gaveta. Se mantivesse o foco como vinha fazendo, não precisaria mais dele. Não precisaria mais de nada daquilo.

Jason anotou o progresso em um caderno ao lado da cama, e analisou a tabela, uma onda de orgulho e conforto passando por seu corpo. Pegou a caneta e virou a página, procurando um espaço em branco para fazer algumas notas livres. A dor vinha diminuindo, isso seria interessante de anotar. Nunca mais tinha visto a luz e, tinha certeza, esse era o maior fator. Sua maior vitória até agora. Certamente devia anotar isso também.

Bateram na porta alguns instantes depois. Jason fechou o caderno, deixando as anotações de lado, e abriu a porta.

Strucker estava do outro lado, acompanhado de dois guardas da I.M.A., como era comum para ele. Jason se sobressaltou um pouco, Strucker não o visitava a menos que algo sério tivesse acontecido, mas não se lembrava de ter falhado em nada recentemente. Por que o homem estava ali? A menos que… A menos que tivesse razão. A menos que finalmente tivesse controlado sua situação por completo, e Strucker estivesse ali para dizer que ele estava livre para ir.

Sentia falta do ar livre. Fazia tanto tempo… Às vezes o levavam para um banho de sol na quadra do prédio, mas isso não acontecia sempre, e não era a mesma coisa que estar livre na cidade. Já faziam décadas desde então, nem mesmo sabia mais como seria não estar morando na base. Sua casa tinha se tornado uma memória distante, e embora o pai o visitasse de vez em quando, tinha uma memória muito vaga do rosto da mãe.

Se perguntou se ela teria mudado sua posição em relação a ele, ou se seria tudo como antes. Certamente, seria uma caixinha de surpresas, mas fosse o que fosse… Estava pronto. Jason ajeitou a postura, apoiando uma mão no batente da porta casualmente e esperando Strucker falar.

— Precisamos conversar. Me acompanhe.

Jason franziu a testa, mas saiu do quarto, seguindo o pequeno cortejo pelos corredores já muito familiares da base. Não era novidade Strucker estar em silêncio, ou ir direto ao assunto com seus problemas, mas havia algo de muito diferente na postura dele. Jason não sabia apontar o que, mas ele caminhava mais rígido, e os dedos do homem se contorciam aos poucos. Podia não saber do que se tratava, mas não estava com um bom pressentimento.

Strucker acabou abrindo uma porta para uma pequena sala de reuniões. Um outro homem aguardava lá dentro, um cara branco, de cabelos grisalhos e óculos redondos. Ele tinha a expressão séria e o nariz um pouco torcido para o lado, como se cheirasse algo fedorento embaixo do nariz. Jason não gostou dele, mas não disse nada, fazendo como Strucker indicou e se sentando em uma cadeira da mesa.

A porta se fechou e Strucker tomou a cabeceira, pousando as mãos na mesa devagar e virando o rosto para Jason.

— Não vou enrolar com isso. Jason, seu pai está morto.

Jason sentiu como se tivesse tomado um soco na boca do estômago. Engasgou por um instante, uma lufada de ar se prendendo na garganta e uma ardência subindo aos olhos. Não conseguiu processar. Não podia ser… Tinha de ter ouvido errado.

— O que…

— O Wolverine enfim conseguiu encontrá-lo desprevenido e por ser uma besta descontrolada, encontrou a vingança que procurava.

Wolverine. A Arma X. A melhor criação de seu pai, e também a mais ingrata e perigosa. William tinha tornado Wolverine o que ele era, o homem deveria agradecer, e no entanto… Ele sequer sabia a sorte que tinha tido de ter sido estudado em vez de eliminado imediatamente? Seria muito mais fácil e sensato, e ainda assim…

— Eu… Eu quero ele morto — Jason resmungou, engolindo o aperto na garganta, suas mãos agarrando o tampo da mesa e começando a tremer.

— Todos nós — o outro homem da sala comentou, ainda com a mesma expressão no rosto. — Mas Wolverine não é fácil de matar. Vários outros mutantes não são. No entanto…

— Seu pai trabalhava comigo, Jason — Strucker cortou, erguendo uma mão e fazendo o homem se calar. — Eu, ele, e Hodge, tínhamos interesses diferentes, mas similares em alguns pontos, e eles acabaram se cruzando. Acabou se provando prático para nós que juntássemos forças com um certo propósito, mas sem seu pai, perdemos uma parte essencial do plano.

— Que seria…

— As igrejas do seu pai — o outro homem, Hodge, respondeu. — Eu tenho a milícia, Strucker tem as armas, mas nada disso funciona sem uma boa parte da opinião pública virada a nosso favor. William era responsável por isso, junto com outras abordagens minhas.

Jason respirou fundo, tentando voltar para o mesmo exercício de mais cedo. Sua cabeça doeu, e ele manteve as respirações. Dois minutos deveria ser o bastante para controlar a situação. Dois minutos…

Ele receou que fosse mais difícil fazer isso sob pressão, com os olhares de Hodge e Strucker sobre si, mas embora seus dois minutos tivessem se tornado cinco, conseguiu. Jason abriu os olhos devagar, tentando não pensar no pai e focar na conversa, ou acabaria perdendo o controle que tinha alcançado. Foco. Era maior que isso. Ele comandava suas emoções.

— O que eu vou ganhar com isso?

— Acredito que você e Hodge tenham interesses similares. Os meus são bem distintos — Strucker respondeu. — Mas você vai ganhar um meio de exterminar mutantes. É de bom tamanho para você?

O sorriso no rosto de Strucker era sarcástico e condescendente. Ele já sabia o que Jason ia responder, e o próprio Jason não teve dúvidas disso. Wolverine poderia até ser difícil de matar, mas… mutantes… eram uma praga. Não era preciso insistir muito para convencê-lo a participar.

— Podemos discutir os detalhes depois — Strucker comentou. — Imagino que você queria um tempo consigo mesmo agora.

Besteira. Strucker não ligava para essas coisas, só queria ficar sozinho na sala com Hodge. Mas Jason não se importou. Ele se despediu com um aceno de cabeça e deixou a sala de reunião, marchando direto de volta para seu quarto.

Lá dentro, ele se jogou na cama, se permitindo relaxar. Um surto de luz branca se espalhou de uma vez pelo quarto, a dor na sua cabeça se intensificando ao máximo e depois começando a diminuir, enchendo seu corpo de uma sensação de alívio.

Jason acreditou que tinha conquistado controle completo sobre sua condição, e ainda assim, ali estava. Seu pai… Não. Não desse jeito. Finalmente tinha conseguido. Finalmente poderia dizer que tinha o orgulhado, e então…

Ele se sentou, abrindo uma das gavetas da escrivaninha, procurando as pílulas para dor de cabeça. Elas controlavam sua situação, e não queria ter de fazer isso na força agora. Não queria pensar, ou se concentrar, ou qualquer coisa, não queria…

Tá na hora do pau!

Jason abaixou o rosto para a gaveta, sua mão se fechando sobre algo familiar, e ele puxou o boneco do Coisa do fundo do móvel. Estava bem sujo e velho, e era surpresa ainda ter bateria depois de tanto tempo, mas ali estava. Exatamente como era antes.

Ele se lembrou do dia em que o pai o deixara lá, com a promessa de levá-lo para casa depois. Dizendo que enfim seriam uma família normal. Nada disso tinha acontecido, não é? Não tinha conseguido nada, a não ser raiva… e um desejo de vingança. A missão podia ser do seu pai, mas o desejo era seu. Não importava que fosse o pedido de Strucker, ou que ele estivesse apenas o usando agora. Jason não era idiota, ele sabia do que aquilo se tratava. O achavam controlável. Depois de todos anos, Strucker acreditaria que Jason era puramente um produto de sua interferência.

Mas não. Jason era produto de sua própria vida. De si mesmo. De seu pai, de sua mãe, e de sua raiva. O trabalho de William agora era seu, e era sua vontade que assim o fosse. Iria fazer os mutantes se arrependerem do dia no qual tinham lhe tirado a única coisa que ainda tinha para chamar de família.