Apesar da situação esquisita na qual ele e Luke se encontravam, Nath seguiu o conselho do (ex?) namorado. Afinal, tinha ligado para ele com a intenção de receber alguma ideia sobre o que fazer, e seria no mínimo idiota de sua parte ignorar o conselho depois de tê-lo recebido. Assim, a primeira coisa que fez foi ligar para seu terapeuta e, depois de uma longa conversa um tanto maior que uma sessão comum, e uma série de dúvidas, questionamentos e medos, acabou seguindo com o prometido, e ligou para sua mãe.

Na primeira chamada, a mulher não atendeu. É claro, havia uma infinidade de coisas que poderiam justificar isso, desde coisas complexas como o número trocado ou uma reunião de trabalho, até algo mais simples como ela estar tomando banho na hora ou ter deixado o telefone silencioso depois de ir ao cinema. Ainda assim, ter tido sua primeira tentativa frustrada colocou sobre Nath uma estranha sensação de derrota, algo como uma voz no fundo da sua mente dizendo “é um sinal. Você não deveria fazer isso”.

Mas agora era tarde. Ele tinha decidido e sabia que era algo importante para si. Independente do que acontecesse, independente da reação da mulher, nem se ela o mandasse desaparecer de sua vida, precisava saber. Então ele tentou de novo, e na segunda vez, uma voz de mulher atendeu.

Não foi uma conversa muito longa, e conseguiu ser ainda mais estranha que o especulado pelas mistas expectativas do garoto. A noviça estava com ele mais uma vez, a chamada no viva-voz, e havia sido ela a informar que era uma mulher do outro lado, ajudando na comunicação entre ele e a voz no telefone. Ele perguntou se estava falando com Esther Taylor, ela disse que sim. Nath sentiu um embrulho estranho no estômago e olhou para a noviça, um pouco assustado, e ela o incentivou a continuar com um sorriso. Então, sem saber muito como prosseguir, ele simplesmente disse “meu nome é Nathaniel e eu acho que sou seu filho”.

Pela primeira vez em muito tempo, Nath ficou grato por ser surdo, porque de acordo com a noviça a mulher começou a chorar e se estivesse ouvindo isso ele não sabia como iria reagir. Depois de uma série de murmúrios e palavras ininteligíveis, ela acabou perguntando se poderia vê-lo, conversar com ele um dia, tomar um café. E como isso era tudo o que Nath de fato queria, ali estava ele, agora, sentado em um café com o celular em mãos e esperando a mulher aparecer.

Não fazia ideia do que esperar. Pelo que a noviça tinha o contado, ela ficou muito emocionada no telefone, e parecia bastante feliz. Mas Nath não conseguia afastar a sensação de que essa era apenas uma reação inicial, e que depois de uma conversa ela iria perceber que tudo tinha sido um engano terrível, e que preferia continuar sem filho a ser mãe dele, ou alguma coisa do tipo. Nath tinha chegado uns bons vinte minutos mais cedo, e ainda não estava no horário combinado, mas ele continuava conferindo o celular, quase esperando uma mensagem dela cancelando tudo e decidindo que tinha sido um engano terrível.

Para completar, ele conseguia ver perto do balcão do café um grupo de três garçons conversando no que parecia ser voz baixa pela postura deles, embora Nath não conseguisse saber com certeza, e olhando ansiosamente para ele. Só faltava pedirem para ele sair por estar “assustando os clientes” ou coisa parecida. Não era uma dor de cabeça que queria ou achava ser capaz de lidar naquele dia.

Nervoso, ele apertou a lateral da cadeira, e sentiu o metal amassar um pouco sob suas mãos. O garoto soltou o móvel, deixando as mãos sobre o colo e começando a balançar as pernas em um surto ansioso, até que seu receio se transformou em realidade em tempo real, e um garçom veio falar com ele, com os outros dois o seguindo de perto.

O homem disse alguma coisa. Nath pegou o telefone e digitou que era surdo e virou a tela para o homem, esperando que isso ajudasse a evitar maiores dores de cabeça. E, para sua surpresa, o garçom sorriu.

Ele tirou o próprio telefone, mexeu em algo por alguns instantes e então virou a tela para Nath, mostrando a conta no Instagram que Amália tinha criado para a equipe, especificamente uma foto do time todo jogando Uno no jardim da mansão. Nath sentiu o estômago revirar. Percebeu pela primeira vez, em muito tempo, como sentia falta da equipe. Não só de Luke, de todo mundo.

O garçom continuou fazendo um sinal com a mão, dobrando os dedos na frente do rosto, e Nath entendeu que o que o homem queria era tirar uma foto com ele.

— Foto? — Perguntou, só para ter certeza, e o garçom retribuiu, empolgado.

Ele posou para a fotografia com os três, fazendo o seu melhor para colocar um sorriso no rosto, e depois seu telefone apitou. O garçom tinha postado a foto e o marcado nela. O trio agradeceu mais uma vez, e Nath sorriu um pouco sem graça, voltando para sua cadeira.

Era acostumado a chamar atenção por todos os motivos errados. Mas isso… Isso era diferente. Bastante diferente. De alguma forma, sua mente ainda parecia estar em guerra com o fato de que ele poderia receber esse tipo de atenção, que as pessoas às vezes iam gostar dele, e pedir fotos e talvez autógrafos, que iam considerá-lo uma boa pessoa, um herói, em vez de ficar só tirando sarro de sua cara. E que não, não precisavam ser como ele para isso. Ele podia ter amigos, e admiradores. E podia ter alguém como Luke interessado nele.

Nath balançou a cabeça, violentamente, puxando o cardápio para si. Esther ainda estava dentro do horário combinado, só precisava ter um pouco de paciência, talvez começar a tomar alguma coisa… Nath chamou o garçom de volta que pareceu mais que feliz em trazer um café para o garoto, e nos minutos seguintes que demoraram para a xícara chegar, Nath a viu. Esther.

Sabia que era ela. Mesmo sem nunca ter visto uma foto, sabia, e não era só por ela estar olhando para o café à procura de alguém, mas sim porque ela se parecia demais com ele antes de sua mutação. O mesmo cabelo muito loiro, quase branco. Os mesmos olhos azuis, o formato do rosto parecido, e de certa forma, até a postura dela, um pouco ansiosa, quando olhava em volta, parecia com ele.

De repente, ele se sentiu idiota por não ter mandado uma foto. Receou que se ela o visse antes, desistiria de ir, mas agora percebia como isso seria um choque para a mulher. Encabulado, ele acenou, abaixando a cabeça, e se sentindo estranhamente grato pela presença dos garçons no restaurante. Saber que tinha três fãs ali dentro que poderiam interferir se algo desse muito errado acabou lhe dando um alento inesperado.

Esther olhou para ele, e pareceu confusa por um instante, mas logo, percebeu. E para o enorme alívio de Nath, a reação dela foi sorrir. Pequeno, tímido, mas sorriu. Se parecia muito com os sorrisos dele.

Ela se aproximou devagar, abraçando a alça da bolsa quase sem perceber, e puxou a cadeira para se sentar à frente de Nath. O garoto a encarou nos olhos, pela primeira vez, e não encontrou nada que temia ali. Nenhum brilho de medo, nenhum tremor de nervosismo, nada. Pelo contrário. Os olhos dela brilhavam sim, mas de forma parecida com os dele quando conversava com Luke. Era… admiração?

Ela sabia quem ele era?

Nath pegou o telefone, ansioso, mostrando para ela o mesmo texto que mostrara aos garçons. Ela ergueu as sobrancelhas surpresa, e Nath ativou o aplicativo de voz para texto, deixando o celular entre eles. Não funcionava tão bem com tanto barulho ambiente quanto naquele café, mas seria bom o bastante. Tinha certeza.

— Oi… — A mulher começou.

— Oi.

Ele não sabia o que dizer. Esther também parecia não saber. Ela desviou a atenção aos garçons, e enquanto fazia seu pedido, Nath voltou a atenção ao seu próprio café, bebendo um gole ocasional. O garçom anotou o pedido e deixou a mesa, e mais uma vez a atmosfera do local ficou um tanto desconfortável. Mas agora, Esther já parecia saber por onde começar.

— Então… Você leu minha carta.

Nath leu as palavras dela no telefone, e assentiu. Queria dizer a ela que entendia, que não tinha mágoa do que ela tinha feito, e que se descobrisse qual era o nome de seu pai biológico provavelmente ia comer ele na porrada por tê-la largado daquele jeito, mas as palavras todas morreram em sua garganta. Felizmente, Esther continuou.

— Eu queria… Bem — a mulher pigarreou. — Eu queria te dizer que… O que eu penso não mudou em nada. Eu fiquei os últimos dezoito anos pensando se esse dia ia chegar… Eu nunca teria imaginado… Eu devia ter percebido. Como eu não vi?

Nath franziu a testa. O que ela queria ter visto? Se perguntou se alguma palavra no aplicativo estaria escrita errado. O garçom voltou com o café com leite de Esther e um croissant e os deixou mais uma vez. Nath esperou, ansioso, a mulher dar um gole e reparou como a mão dela tremia. Estava tão nervosa quanto ele?

— Desculpe. Não estou fazendo sentido… É que… Minha filha, Clarissa, é fã de vocês. Ela fala o dia inteiro. Eu vi fotos suas. Eu deveria ter sabido… Como eu pude ver fotos suas e não saber?

Os olhos dela brilharam mais, e agora Nath reconheceu lágrimas. Ele não sabia o que fazer, sabia que “choro” poderia estar incluso no encontro de uma forma ou de outra, mas ainda assim se viu desprevenido. Ele pegou seu guardanapo de pano, limpo, e ofereceu para a mulher enxugar as lágrimas. Ela aceitou.

— Obrigada. Desculpe. Desculpe…

Mais um pigarro. Esther bebeu um café. De repente, Nath se deu conta que o quão nervoso estava para esse encontro não estava nem perto do quão nervosa ela parecia estar. Talvez por estar tão acostumado a se desapontar, não esperasse tanto, e por não esperar muita coisa não ficasse com tanto medo do resultado. Mas Esther… Estava uma bagunça. Dava pra ver.

— Isso não é importante — ela comentou, colocando o guardanapo de lado. — Eu vim porque quero te conhecer… É o que eu sempre quis. Como foi a sua vida?

Como tinha sido? Nath pensou em responder “bem”, de forma educada, mas não era isso que Esther queria saber, e não era isso que ele estava ali para falar. O garoto decidiu começar devagar, falando sobre a infância no orfanato, depois de mencionar por alto os eventos de sua adolescência, mas não foi isso que aconteceu. Quando começou a falar, foi como se algo se destrancasse. Nunca tinha colocado tudo em palavras de forma ordenada dessa forma, nunca tinha simplesmente falado tudo de uma vez, e a sensação foi inigualável. Nath falou, e falou, e falou, e Esther apenas ouvia, interrompendo muito raramente para pedir uma informação que complementasse a história. Quanto mais Nath falava, menos feliz Esther ficava, e o sorriso que ela tinha no rosto ao chegar foi sumindo conforme a narrativa avançava. Nath se perguntou se deveria ter escondido algumas coisas, mas precisava daquilo. Aquele momento era seu. Não podia perdê-lo.

Quando chegou no ponto atual, e parou de falar, sua garganta estava seca. Esther estava em silêncio, e tinha acabado seu café e seu croissant durante a conversa. Nath pediu mais um café para si, e Esther também pediu alguma coisa, que só quando o garçom voltou, Nath reconheceu como um café irlandês.

— Nath, eu… Eu nem sei o que dizer… Não era isso que eu tinha em mente pra você, eu… Eu só queria que você tivesse uma vida melhor. Eu sinto muito…

Não, isso Nath já tinha decidido, não ia deixar acontecer. Conhecera crianças demais com os Morlocks que tinham passado por situações complicadas com as famílias. Juna mesmo, por exemplo, presa em casa permanentemente até fugir porque os pais se importavam. Não era fácil tomar decisões para cuidar dos outros. Disso ele entendia bem.

— Não foi sua culpa. Você estava tentando ajudar.

Esther abriu um sorriso pequeno, uma nota de condescendência se espalhando no rosto dela.

— Eu devia ter pensado nisso. Eu devia ter te entregado direto pra uma família. Deveria ter me certificado…

Nath não sabia o que dizer. Ele decidiu dar a ela um momento, terminando o resto de seu café — agora frio — e esperando Esther se recuperar. A mulher foi enxugando as lágrimas, pouco a pouco, e quando ela parecia estável, Nath pensou que era um bom momento para trocar de assunto.

— E você? O que fez nos últimos dezoito anos?

— Ah. Não é importante…

— É sim. Eu quero te conhecer também.

Esther bebeu um gole de seu café e deu de ombros, pousando as mãos na mesa. Ao menos o assunto parecia deixá-la mais confortável que os anteriores. A vida dela deveria ter sido boa. Nath esperava que sim.

— Eu me formei na faculdade. Conheci um homem maravilhoso, me casei… temos uma filha.

Clarissa, ela tinha mencionado. A fã. Esther puxou o telefone e mexeu um pouco, depois virando a tela para Nath. Mostrava uma foto dela, ao lado de um homem grisalho de barba grande e sorriso bondoso, e uma garota loira com maquiagem preta e uma blusa do The Pretty Reckless. Não parecia ter mais de doze anos, o que a fazia pelo menos seis anos mais nova que ele.

Uma garota que Esther tinha tido condições de criar. Nath tentou não sentir inveja. Não era culpa da menina e nem de Esther, mas sim das circunstâncias. A mulher tinha o direito de tentar uma família sob as condições corretas e ele já esperava por isso. Ainda assim, foi difícil.

Nath decidiu que era hora de ir. Queria se encontrar com Esther novamente se fosse da vontade dela, mas não sabia o que a mulher estava pensando. Precisava de um instante para descomprimir tudo que tinha acabado de acontecer.

— Isso foi muito bom, mas eu acho que vou indo. Eu gostaria de te ver de novo.

— Ah, claro! Podemos sair pra almoçar um dia. Onde você está ficando?

O garoto gelou. Tinha omitido o fato de ter saído do Instituto quando viu o quanto a história tinha a afetado, mas não podia mentir pra ela e arriscar a mulher ir procurar por ele lá, não seria justo.

— No orfanato, por enquanto.

— St. Agnes? Mas… Pensei que tinha dezoito anos…

— Eu tenho.

Esther o encarou por um instante, e Nath abriu a carteira, nervoso. Não queria falar de sua situação atual, o deixava ansioso não saber o que fazer no dia de amanhã.

— Ei, não, eu vou pagar, pode deixar.

— Tá tudo bem…

— Nathaniel, olha pra mim.

O garoto obedeceu, abaixando a carteira. Esther estava séria, e tinha no rosto algo que Nath reconhecia como “olhar de mãe”, aquela cara que mães davam para filhos quando os pegavam fazendo algo inocente, mas errado ainda assim.

— Até quando o orfanato vai te deixar ficar lá?

Droga.

— Não sei.

— Eu tenho um quarto de hóspedes. Você pode passar um tempo se precisar.

— Não! Não, Esther, por favor, não! Você tem família, você —

— Você é minha família. E eu te abandonei uma vez. Não vou fazer isso duas vezes.

Ela estava séria. Não era brincadeira, estava falando sério. Ela realmente estava oferecendo…

Devia estar muito tomada de emoção. Calor do momento. Com certeza mudaria de ideia depois, bastava dar a ela o tempo necessário. Nath guardou a carteira, achando melhor não confrontá-la com dois assuntos diferentes de uma vez.

— Eu estou falando sério, Nathaniel — ela comentou, tirando uma nota de vinte dólares da carteira. — Não diga nada agora se quiser, mas prometa que vai me ligar antes de acabar na rua de novo, ok?

Nervoso, Nath assentiu. Esther acertou a conta e se levantou. Os dois se despediram com um abraço breve, e ela ofereceu uma carona, mas Nath recusou, guardando o telefone e seguindo seu caminho a pé. Bem precisava do exercício da caminhada por agora.

[...]

— Me perdoe, mas é que… Isso tudo parece muito…

— Alarmante?

Bobby diria desesperador, mas Roberto sempre tinha sido mais sutil do que ele para lidar com emergências. O homem concordou, e abriu a garrafa de vinho, servindo três taças, entregando uma para Simon, deixando Roberto se servir e pegando a sua.

O ex-Novo Mutante tinha estado lá por toda a tarde, conversando sobre os acontecimentos desde a invasão da Rykers. Não era mais segredo que havia acontecido uma fuga, mas a prisão estava se recusando a revelar o nome do prisioneiro fugitivo ao público. Os X-Men, porém, tinham tido essa vantagem de receber o relatório, e depois de encarar aquela — terrível — novidade, Bobby tinha decidido que uma garrafa de vinho era o melhor jeito de lidar.

A notícia tinha chegado no instituto alguns minutos antes de Balu, que correra até o escritório dele para contar tudo o que tinha acontecido. Bobby sequer tinha conseguido ficar afetado com o fato do garoto ter ido visitar alguém na cadeia sem falar nada antes, não no meio de toda a confusão atual. Felizmente Roberto tinha aceitado uma pequena reunião para discutirem o assunto e agora, ali estavam.

— Não basta as três crianças nos esgotos — Bobby comentou. — As coisas só vão desandando.

— Ao menos nos esgotos não vai chegar terrígeno — Simon comentou, bebendo seu vinho. — E depois, eles são Irmandade. Se a gente for lá oferecer ajuda, os três mandam a gente se ferrar e fogem de novo. E se a gente trouxer à força, tem que reportar o ataque, e eles vão acabar presos ou coisa pior. Deu um trabalho e tanto manter aqueles dois Carrascos aqui ano passado, ficar contornando a polícia…

— Eu sei — Bobby comentou. — É melhor deixar eles lá, ao menos estão seguros, por mais maluco que pareça. Mas Psylocke prometeu voltar e usar o Cérebro de novo vez ou outra pra conferir a situação, então acho que está tudo bem. Por agora.

— Se eles não querem ajuda, é melhor deixar quietos lá mesmo — Roberto comentou, pegando mais uma taça. — Além do mais, invadir delegacia foi escolha deles, o universo que se entenda com os três. A gente já tem problema demais do lado de cá.

— Sim — Bobby bebeu mais um gole. — Tipo Balu e a aventura dele na cadeia.

— Ele ligou para você — Simon comentou. — Interessante. Mesmo depois do que dissemos a eles sobre o suporte… As coisas foram bem na delegacia, nesse aspecto, ao menos. Não pensei que isso fosse acontecer.

— É uma questão de defesa — Roberto comentou. — Vocês vem de um cenário diferente. Simon não sabia que era mutante até a vida adulta, e você, Bobby, foi treinado pelo Xavier sob vigilância constante. Magneto tinha um método mais… autoritário. Xavier te fazia sentir que era uma má ideia sair sem permissão, porque ele sabia das coisas. Magneto estava disposto a trancar todo mundo na casa, ele fez isso uma vez. Tivemos de lutar contra ele e Cifra tinha acabado de morrer.

O brasileiro virou o resto de sua taça e serviu mais uma vez. Bobby e Simon se olharam um instante, antes de beber das suas. Já fazia muitos anos, e Cifra passava bem agora, mas as lembranças certamente não eram agradáveis.

— Eu jamais trancaria eles dentro da casa — Bobby comentou, jogando os pés pra cima da mesa.

— Não literalmente. Mas metaforicamente — Roberto continuou. — Se Balu o ligasse ali para dizer que estava na delegacia, você ia mandar ele dar pra trás, não ia? E voltar depois, com um plano sólido, e apoio aéreo e essas coisas todas, em vez de dar suporte pra ele na mesma hora.

— E eu estaria certo! — Bobby cortou, balançando a taça. Estavam ali a um bom tempo, talvez estivesse ficando um pouco tonto. — Teve uma invasão, Roberto. Pra soltar Hodge, de todas as pessoas! Estão planejando alguma coisa, bem na nossa cara, e Balu estava no olho do furacão.

— Ok, olha só, eu tive uma ideia. Chama o Balu, aí.

— Agora?

— É. Guarda o vinho embaixo da mesa e chama ele.

Bobby trocou um olhar breve com Simon, mas obedeceu. Tinham chamado Roberto ali por um motivo, tinha de existir um motivo para o garoto ter preferido a ajuda dele em vez de Bobby, e se não entendessem isso, o problema ia continuar se repetindo.

Balu não demorou a chegar. Bateu na porta, e Bobby mandou entrar. O garoto parecia um pouco atordoado quando chegou, mas abriu um sorriso ao ver Roberto, acenando para ele e depois para os outros dois.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não — Roberto se adiantou em responder. — Só estávamos repassando os detalhes da fuga do Hodge. Sei que você já fez isso uma vez, mas pode repetir pra gente o que você viu lá?

— Hm… Eu não vi muita coisa, desculpa. Eu tava na sala de visitas quando começou. Daí eu grudei no guarda mais próximo. A gente subiu pro heliporto, tentamos atirar neles mas acabaram fugindo. O helicóptero ficava invisível.

Bobby franziu a testa, olhando de Balu para Roberto. Ele parecia impassível, sequer piscava, enquanto Bobby sentia um surto de dizer a Balu como ele precisava ser mais cuidadoso, e como isso tinha sido irresponsável, e como precisavam ter pensado sobre antes e…

— E você comentou um problema com as armas?

Balu deu de ombros.

— Eu percebi que não tenho treino de tiro, mas já pedi Damon pra me ajudar com isso.

— Ah, muito bom! — Roberto respondeu. — Parabéns, era só isso mesmo. Obrigado, Balu!

— Por nada.

O garoto deu as costas e saiu. Roberto girou na cadeira, se virando para os outros com um sorriso largo no rosto e estendendo as mãos.

— Vinho?

Simon pegou as taças de volta, e um sorriso parecido com o de Roberto começou a aparecer em seu rosto.

— Eu não sabia que ele tinha pedido pra aprender tiro — Bobby comentou. — Ninguém me conta mais nada depois que o time acabou.

— Também não contavam antes, ou não teria acabado — Roberto respondeu. — Não importa, você está focando na coisa errada: Balu pediu a Damon para ensiná-lo a atirar. Sozinho. Eles aprendem com os erros e desafios que enfrentam. São muito mais inteligentes do que lhes damos crédito. Veja bem, não estou dizendo para mandá-los de frente para enfrentar Thanos da próxima vez que ele decidir passear por aqui, não é isso. Mas eles vão querer se envolver. E é perigoso. Podem morrer, sim. Mas para quem ficar, não haverá aprendizado maior. E a escolha deve ser deles.

Os três mergulharam em um silêncio breve, cada um passando um tempo com sua própria taça de vinho. Então, depois de um tempo, Bobby falou.

— Posso perguntar só mais uma coisa?

— Vá em frente.

— O que você aprendeu no dia em que Cifra morreu?

— Hm… Doug morreu tomando dois tiros para proteger Rahne. Acho que todos nós aprendemos naquele dia o que era a guerra, o que significava estar em batalha com seus amigos, e o que significava estar disposto a fazer tudo por eles. Os seus alunos já tiveram essa lição, não é?

Bobby assentiu.

— Então agora você ensina eles a não deixar isso acontecer de novo. Mas sem fazer como Magneto fez, que é que você tem tentado, prendendo eles em casa com cordas e algemas metafóricas. Não, deixe eles irem, porque aquele dia me ensinou mais uma coisa também. Foi quando nós aprendemos a não confiar em Erik. Ele foi nosso professor por muito tempo, mas mesmo ouvindo tudo sobre os terríveis feitos de Magneto, foi esse evento que nos mostrou quem ele era de verdade. Você ainda pode corrigir o curso das coisas do seu lado, Bobby. Ajude seus alunos a confiarem em você. E dê tempo ao tempo. Não vai tudo entrar nos lugares por causa de uma missão só na delegacia. Há de se esperar.

Bobby suspirou, encarando a taça.

— Quanto a isso, não sei dizer. Eles encerraram a equipe.

Mas Bobby e Roberto se olharam, e logo os dois começaram a rir. Bobby já tinha perdido as contas de quantas vezes os X-Men tinham acabado, e Roberto só não se chamava de Novo Mutante mais por se achar velho pra isso, mas sempre estava voltando para as origens.

— Perdi alguma coisa? — Simon perguntou, vendo os dois rindo.

Bobby sorriu.

— Um dia você vai entender.

[...]

“Falei. Agora é sua vez.”

Luke encarou a mensagem em seu celular pelo que deveria ser a milésima vez. Cinco palavras enviadas em texto por Nath, um lembrete breve do combinado que tinham feito: Nath falaria com Esther, mas Luke também tinha de voltar para casa para uma visita.

Então, ali estava ele, para jantar. Luke tocou a campainha, e não precisou esperar muito para alguém atender. Peter, um de seus irmãos, atendeu a porta, e tinha um sorriso enorme no rosto.

— Luke! — O garoto exclamou, apertando o irmão em um abraço apertado. — Ah, eu senti tanto sua falta! Nem acreditei quando mamãe disse que você vinha.

— É… Eu quase que também não.

Peter soltou o abraço e Luke abriu um sorriso um pouco tímido, aguardando o irmão fechar a porta e o acompanhando até a mesa de jantar. A primeira coisa que reparou era que só haviam quatro lugares postos. Seu pai estava na cabeceira e a mãe chegou na hora começando a trazer panelas do fogão.

— Luke! Ah meu filho, que saudade!

Foi um festival de abraços, saudades, beijos, apertos, e todas as coisas às quais, Luke jamais deixaria de admitir, sentia falta também. Não tinha percebido o quanto tinha saudade da mãe até aquele momento, ou o quanto o sorriso caloroso do pai tinha feito falta. Quase começou a chorar, mas a visão da quinta cadeira vazia na mesa o fez lembrar de porque não tinha voltado ali, e ele engoliu a reação.

— Onde está Thomas? — Perguntou, interessado em saber onde o gêmeo de Peter, seu outro irmão, estaria.

O ar se encheu de um silêncio constrangedor. Os outros três se olharam por um instante, e antes mesmo de sua mãe falar, Luke soube que a resposta não seria boa.

— Ele… Ele está passeando com os amigos — ela respondeu. — Boliche, não era Peter?

— Ah, sim.

— Hm. Hoje? Sei.

O irmão não estava ali por sua causa, sabia disso. Ele com certeza não queria sentar pra jantar com o “viadinho mutante” do irmão de criação dele. Luke flexionou os dedos, se lembrando da discussão antes de fugir, de como tinha disparado luz pela primeira vez e tinha o queimado no peito, de como tinha se escondido por dias antes de procurar o Instituto.

Tinha dito a Bobby que fugira por ter ferido alguém, e isso fizera o homem o considerar um bom líder. E provavelmente o seria, se essa fosse toda a verdade. Mas a verdade inteira era que não conseguia suportar a presença de Tom com seus comentários agressivos, a violência e a ingratidão dentro de casa. Só de pensar no que Tom diria sobre seu relacionamento com Nath, sentiu o estômago revirar.

— Bem, porque não comemos? — Jessie chamou, se sentando à mesa. — Vamos, vamos meu filho, senão vai esfriar! Eu fiz torta do pastor pra você, coma bem, viu, não é pra sobrar.

Enquanto ela servia o prato de Luke com um pedaço bem maior que ele teria colocado para si mesmo, Joshua, seu pai, começou a enchê-lo de perguntas sobre o Instituto e os X-Men, e parecia tão interessado quanto se estivesse ouvindo uma história muito fascinante sobre o começo do universo ou algo parecido. Comentou que eles tinham visto Luke “na internet”, e mostrou para o garoto um dos vídeos da Igreja circulando. Estavam orgulhosos. Luke mal conseguia processar.

Seria difícil para ele não se sentir em casa novamente, e depois de pedaços de torta, arroz, muita comida, muito suco, torta de maçã pra sobremesa, Luke se sentia tão pesado que nem sabia como ia conseguir levantar da cadeira da mesa para voltar pro Instituto. Então sua mãe sugeriu que ele passasse a noite ali e fosse embora de manhã, e como iria recusar? Sentia falta de sua cama também.

Ele enviou uma mensagem para Bobby dizendo que voltaria de manhã, e seguiu para o quarto que ocupava. Ficava bem em cima da varanda, com o telhado logo abaixo da janela, e quando morava ali, Luke tinha o costume de se sentar no telhado da varanda com um saco de salgadinhos e ficar assistindo o céu e lendo um livro qualquer.

Não tinha o salgadinho nem os livros, mas, que se dane, queria. Ele pegou o celular e abriu a janela, saindo para o telhado e se sentando devagar sobre as telhas, encostando contra a parede do quarto e encarando o céu, como costumava fazer. Havia uma certa paz naquilo. Uma familiaridade, quase como uma visita a um passado distante, porém melhor.

Luke fechou os olhos, relaxando o corpo por uns instantes, até ouvir o barulho de uma janela se abrindo. Olhando para o lado, viu Peter, saindo do próprio quarto como Luke tinha feito, subindo no telhado como ele e se sentando ao seu lado.

— Imaginei que fosse te achar aqui — o garoto comentou, estendendo um pacote de salgadinhos para Luke.

Bem, agora estava quase como antes. Luke pegou um salgadinho e comeu, mais por impulso do que qualquer outra coisa. Ainda estava muito pesado de toda a torta que tinham comido.

— Mamãe e papai nem acreditaram que você vinha — Peter comentou. — Falaram o dia todo, eu não via eles tão felizes desde que você foi embora. Mamãe estava na cozinha desde que chegou do serviço, e já tinha deixado um monte de coisa pronta antes. Você sabe como ela é com a comida, né?

Sabia. Jessie odiava cozinhar casualmente, mas quando tinha uma ocasião especial, se tornava o próprio Gordon Ramsey. E para alguém que cozinhava com tão pouca frequência, era incrível o quão boa a comida sempre saía.

— O que aconteceu de verdade? Com o Thomas?

Peter suspirou. Ele pegou mais uns salgadinhos, mastigando alguns antes de falar.

— Ele surtou quando descobriu que você vinha. Brigou feio. Falou que não queria dividir a casa com você e soltou um monte de ofensas. Não preciso repetir, né, você conhece o tipo. Mamãe chorou horrores, e papai disse que você tinha tanto direito a essa casa quanto ele. Daí ele disse que se era assim preferia sair, e fez isso mesmo. Meteu o pé. Isso foi ontem. Ele foi na aula hoje, daí eu consegui descobrir que ele tá na casa de um amigo aí. Deve voltar amanhã cedo, ele não vai conseguir ficar muito tempo sem comida de graça na mesa.

Bem como Luke tinha imaginado, então. Ele pegou mais um salgadinho, mas desejou ter algo para beber. De repente, sua garganta estava muito seca.

— Me desculpe. Eu sabia que isso ia acontecer… Eu —

— Para com isso, Luke! O Thomas é um escroto, eu prefiro mil vezes ter você aqui em casa do que ele. E se ele não quer, ele que vá se ferrar.

— Mas eu —

— Eu sei o que você tá pensando. “Ai eu nem sou filho de sangue deles, mimimi, blablabla”...

Luke não conseguiu responder, pois era isso mesmo que estava pensando. O fato de eles terem o acolhido em casa, e sua presença gerar tanta dor de cabeça, o deixava enjoado. Não queria dar trabalho pra ninguém. Morava com eles desde que tinha nascido, literalmente, mas uma parte de si continuava sempre sentindo que merecia menos estar ali.

— Eu trocaria o Thomas por uma cacatua se tivesse a chance. Vê lá se não ia trocar por você? Até papai já perdeu a paciência com ele, e isso não tem nada a ver com você, Luke. Ele se afundou sozinho. Eu juro. Por favor, sai dessa neura, ok?

Luke abaixou a cabeça. Assentiu, mas devagar, e não achava que tivesse convencido Peter. Não achava que tinha convencido nem a si mesmo. O garoto continuou.

— Você vai voltar pra jantar. Amanhã. Eu to mandando. Não tá sob discussão.

— Pete, eu não quero incomo —

Não tá sob discussão. E se você não aparecer, eu vou lá no Instituto te buscar e vou levar seu álbum de bebê pra mostrar pra todo mundo.

Luke sentiu o rosto esquentar, o pensamento de Damon e Amália tendo aquela informação para caçoar dele pelo resto da vida o aterrorizando por completo.

— Você não faria isso.

— Faria, sim. Se não quer que aconteça, aparece amanhã.

Ele não teve escolha a não ser suspirar, derrotado. Peter tinha esse poder sobre ele. Sobre qualquer um, na verdade. Não dava para teimar com ele.

— Agora me ajuda a resolver uma aposta — Peter continuou. — Qual deles é seu namorado?

— O-o quê?

— Ah, Luke, vamos lá. Você é um romântico incorrigível. Me ajuda aí, eu coloquei dez conto no cara de jaqueta preta.

— Você apostou?

— É claro. E aí?

Luke suspirou, pegando o saco todo de salgadinhos e enfiando uns três na boca. Isso ia perseguir ele até ali? Tinha ido pra lá pra relaxar, e agora essa…

— Você perdeu. É o Serpin, o garoto com pele de cobra. Bem, era. Eu acho.

Se Peter ia fazer alguma piada com o assunto — e era Peter, então era seguro assumir que sim — se impediu ao ver a expressão no rosto de Luke. De repente, o ar pesou. Peter pegou o pacote de volta, comendo um salgadinho, e encarando o céu estrelado em cima deles.

— Bem, é ele que sai perdendo.

Luke soltou uma risadinha curta, sarcástica, olhando para o alto também. Nath tinha dito que ele era uma estrela, e não no sentido legal. Apenas no sentido de que queria colocar mais distância entre eles. Isso não era justo. Não era justo com nenhum dos dois.

— Não sei. Namorar ele era… difícil. A mutação dele tem várias particularidades, deixava várias coisas complicadas. Mas, Peter, eu amo ele. Eu não sabia que sentimento era esse, ou se podia ser tão intenso, mas pelos céus, eu amo ele. Mal e mal estamos conversando mas toda vez que ele me manda uma mensagem parece que caiu dos céus.

— Hm. Viu só? Romântico incorrigível.

Luke riu, e Peter deu uma ombrada suave no garoto. O ar estava ficando leve, de repente. Passar tempo com Peter era tão agradável, e fácil… Tinha se esquecido. Já fazia tempo demais.

— Você acha que ele ainda gosta de você?

— Eu sei que sim. Ele não esconde as coisas. A questão é que ele acha que não me merece, o que é ridículo, porque eu acho que não mereço ele na maior parte do tempo. Mas, é como eu falei, a mutação… Eu não sei. Ele tem cuidado de muita coisa por agora também. Parte de mim quer acreditar que só precisamos de tempo, mas honestamente… Eu não faço ideia.

— Se ele tem lidado com muita coisa, talvez ele só precise de tempo. Dê esse tempo pra ele. Como é aquele ditado mesmo? Se for seu volta, se não voltar nunca foi seu? Algo do tipo.

Luke queria acreditar nisso. Do fundo do coração, queria, mas o mais assustador não era o tempo, era exatamente o ditado. Talvez Nath nunca tivesse sido seu. Isso seria muito mais difícil de recuperar do que um tempo afastados. Doeria mil vezes mais.

— A Lua tá bonita hoje, né? — Peter perguntou, jogando os braços pra trás da cabeça e se escorando na parede.

Luke olhou para o alto. Estava. Cheia, branca, brilhante. Era uma linda visão, mas agora só servia para o lembrar da distância entre Nath e ele. O garoto puxou o saco de salgadinhos para perto. Podia não ter um livro ali, mas a companhia de Peter valia muito mais.