Reese caminhava de um lado para o outro, apertando as mãos uma contra a outra, e projetando ondas de tranquilidade na própria cabeça. Se fosse ser sincera, tinha se arrependido de marcar aquele encontro no instante em que desligara a chamada, mas sempre que pensava em dar as costas e ir embora se lembrava do rosto de Azalea e de como ela insistia que estaria morta se não fosse por Héctor.
Dez minutos. Não precisava dar a ele mais de dez minutos pra falar, e depois poderia ir embora e nunca mais vê-lo na vida, independente do que Azalea dissesse. Pelo bem ou pelo mal, ela era como sua irmã, e se ela estava viva e podia falar com ela graças a ele, e o único pedido da menina era que desse a ele uma chance de se explicar — não precisava nem mesmo concordar — valia à pena.
A garota deu mais uma volta, o ruído de seus coturnos batendo no chão e ocupando sua mente enquanto ela se acalmava, repetidamente. Ia deixá-lo falar, não ia usar um átimo de seu poder e só ia deixar ele falar, e pronto. Não deveria ser difícil.
Ela virou em seus passos mais uma vez, e deu de cara com Héctor, saindo pelas portas da igreja. A garota sentiu um salto na boca do estômago, em parte era como se tivesse tomado um soco, em parte queria vomitar. Ele deu um passo para se aproximar, mas Reese se afastou, dando um passo para trás, e esticando a mão para manter a distância entre os dois.
— Você tem dez minutos, no máximo. Eu só vim porque Azalea pediu. Isso não era algo que eu queria fazer.
O garoto assentiu, abaixando o rosto, as mãos enfiadas nos bolsos da calça. Ele balançou para frente e para trás uma vez, a testa franzida, e Reese conteve a vontade de revirar os olhos, checando as horas em seu celular. Se Héctor quisesse passar seus dez minutos em silêncio não era problema dela, teria feito o que tinha prometido fazer.
Mas, pelo bem ou pelo mal, ele recuperou os pensamentos, levantando o rosto para ela, a expressão pensativa dando lugar a uma seriedade e uma firmeza aparecendo em seu rosto. Ele ainda tinha as mãos no bolso, mas agora estava com a cabeça erguida e as costas retas.
— Eu nasci na Cidade do México. É, eu sou mexicano. Meus pais morreram quando eu era muito pequeno. “Ataque mutante”, foi o que me disseram depois. Eu vim morar com um tio aqui, mas ele nunca quis saber muito de mim. Quanto mais eu crescia e ficava independente, mais ele foi me largando de lado. Quando eu fiquei velho o suficiente pra procurar emprego, só consegui porcaria. Ninguém emprega imigrante direito. E daí veio a polícia.
Aquele não era o começo que Reese esperava. Não queria ir ali pra ouvir a história de vida do garoto, não poderia se importar menos, mas eram os dez minutos dele. Se ele queria desperdiçar…
— Eles me confundiram com um traficante da região, preto deve ser tudo a mesma coisa pra eles. E adivinha? O traficante era mutante também. E depois, quando eu fui mandado embora de um trabalho de entregador porque um velocista mutante apareceu… Eu tinha catorze anos, fui vendo isso tudo acontecer, comecei a ler umas coisas na internet… A internet é um eco, qualquer coisa que você grita vai ter alguém pra gritar de volta. É muito fácil piorar quando você tá nos fóruns certos pra isso. Descobrir que eu era mutante, então, foi jogar mais sal ainda na ferida. O resto… Eu já te contei. Me juntei numa equipe pra matar “terroristas”, mas não eram terroristas. Eu percebi que tava errado, e tenho tentado remediar as coisas desde então da melhor maneira que posso. Eu não tenho mais nada que eu possa dizer. Ou era tarde demais, ou não era. E, se serve de alguma coisa… Pra qualquer parte disso tudo que seja minha culpa… Eu realmente sinto muito.
Ela não duvidava que sentisse. Já tinha experimentado o arrependimento dele na própria pele, e a sensação ainda a fazia arrepiar de cima a baixo. A garota sentiu um tipo de calafrio, e abraçou os próprios braços, encarando Héctor do outro lado da varanda da igreja.
— Mais alguma coisa? — Perguntou, tentando segurar seus poderes consigo mesma, mas vez ou outra eles acabavam escapando de seu controle. Sempre de forma que ela acabasse se arrependendo muito, e dessa vez, o suficiente para trazer mais uma vez o arrependimento de Héctor até ela.
Dessa vez, porém, sabendo de onde o sentimento vinha, ela se sentiu irritada. Como ele ousava fazê-la se sentir mal por ele, mesmo que sem se dar conta, depois de tudo o que tinha feito? Poucas vezes na vida a garota sentira vontade de partir para a agressão física com alguém, mas suas mãos começaram a tremer muito naquele momento.
— Por que você está aqui? — O garoto perguntou, tirando as mãos do bolso, e dando de ombros. — Eu sei como você se sente em relação a mim. Não estava esperando te ver de novo.
— Eu já disse, Azalea é como uma irmã pra mim. Ela quis que isso acontecesse. Mas é isso, está feito. Não tem motivo nenhum pra acontecer de novo.
— Ok.
— Ok.
Reese o encarou por um instante, e então decidiu que não queria mais ficar ali. Ela deu as costas, sem a menor intenção de se despedir, e já tinha decido dois degraus quando sua raiva conseguiu ganhar o melhor de si. Não era como se ela estivesse fazendo muita questão de usar a tranquilidade de qualquer forma, e algumas vezes as coisas simplesmente precisavam ser ditas.
— Você pode ficar aqui o quanto quiser — ela disse, se virando de volta para ele. O garoto já ia entrando na igreja, e parou para se virar para ela. — Pode dar comida pra mutante desabrigado, levar doentes pra hospital, o quanto quiser. Mas isso não é solução pra nada. Isso é ajuda pra quem já teve de lidar com o problema real, e você tá tapando os buracos pra se consolar. Mas o problema de verdade tá bem longe daqui, e você ajudou ele a acontecer. Socorrer quem tá sofrendo as consequências do seu erro não chega nem perto de dizimar o problema de fato. Espero que pelo menos seja o suficiente pro seu ego.
Ela o encarou por um instante a mais que gostaria. Os segundos duraram para sempre, e então ela deu as costas, descendo as escadas, sentindo a respiração acelerar, o enjôo voltar ao estômago e uma bagunça de memórias daquele maldito dia nos esgotos se atravessarem por sua mente.
“Calma. Tranquilidade. Fique calma.”
Reese fez o possível para controlar seus sentimentos, mas ainda chorava quando atravessou a avenida para chamar um carro de volta pro restaurante o mais longe possível daquela maldita Igreja.
[...]
Já era madrugada avançada quando Cass e Cat estavam agachados atrás de um arbusto nas redondezas da exageradamente grande casa dos Stryker. Os dois usavam suas máscaras, o relógio indicava três e meia da manhã, e os dois estavam parados ali, enrolando, mas sem terem coragem de admitir em voz alta que era isso.
Depois de analisar os dados e montar seus planos, Cassian trouxe sua ideia para Cat. Apesar de ainda estar cheio de ressalvas em relação ao resto do time, teve de pedir a Marlene para vigiar a casa com os pombos por um bom tempo para eles para terem certeza de que daria certo, e continuavam sem ter certeza. Chances boas, certamente, mas não certeza. E era essa chance de tudo dar errado que parecia ter grudado os dois ao chão pelos últimos minutos, encarando a grade da mansão e repassando o plano mentalmente.
— Quer saber — Cat comentou, em um murmúrio. — Essa é de longe a coisa mais estúpida que a gente já fez na vida.
— Hm… Não sei, não. Atacar a entrada de uma base Purificadora leva o prêmio pra mim. A gente deu sorte deles terem despachado as bombas antes da gente chegar.
— Ok. Então é só a coisa mais estúpida que eu já fiz na vida.
— Tudo bem, vai dar certo — Cass comentou, pigarreando e se virando para Cat. — Quanto tempo você tá conseguindo segurar?
— Dez minutos.
— É o suficiente. Pronta?
Não. Cat não se sentia nada pronta, mas a essa altura não achava que em algum momento fosse sentir. A garota suspirou, lançando um olhar cansado a Cassian, e ele puxou o celular do bolso, abrindo um aplicativo. De lá, tinham visão da câmera de um dos pombos de Marlene, postado casualmente sobre uma árvore do jardim da mansão.
— Tenho visão. Pode ir, eu te dou cobertura.
Ela assentiu, e se virou para os portões da mansão. Então, correu.
O muro não era tão alto assim, e com certeza não seria problema para um gato. Cat correu até se aproximar do muro, então se transformou, saltando com as patas traseiras para cima do muro, e depois para o outro lado dele.
Atingiu o chão com o silêncio nato de um gato, mas assim que sentiu a grama sob as patas seu corpo estremeceu de leve, e ela voltou devagar à forma humana. Não queria ficar na forma de gato por tempo demais. Segurar a forma agora era como tentar carregar algo muito pesado sobre a cabeça, a cada segundo mais complicado e exaustivo, até que não sobrava saída a não ser largar a coisa de vez.
Ela respirou fundo algumas vezes, ainda abaixada no chão, torcendo para os alarmes não dispararem antes do esperado, pois se isso acontecesse, estariam com problemas sérios. Ela rastejou um pouco contra o muro, recuperando o fôlego a cada passo torto e se apoiando nele para ficar de pé de novo. Essa tinha sido a parte fácil, porém.
Cat se colocou de pé, ajeitou a coluna, e caminhou para dentro da propriedade. Ela seguiu pelo jardim, tranquilamente, descansando e esperando, até ouvir o alarme da propriedade disparar. As luzes do jardim se acenderam de uma vez, e ela saltou para trás do arbusto mais próximo, esperando… Esperando…
Levou alguns minutos para um segurança aparecer do lado de fora. Cat esperou ele chegar o mais perto bastante, quase enfiando a cara por cima da sebe, e se transformou em gato mais uma vez.
Ela pisou para fora, virando a cabeça de lado e soltando um miado baixo. O segurança bufou, irritado, levando a mão ao ponto no ouvido, apertando alguma coisa.
— Alarme falso. É um gato. Achei que tinham calibrado essa coisa pra animais.
Ela não ouviu resposta, mas não precisava. O segurança se virou para voltar para dentro da casa e Cat o seguiu, o mais silenciosa que pôde para não ser notada, um passo de cada vez… Ela sentiu o corpo ser envolto em sombras, de repente, e agradeceu a ajuda de Cass. O segurança chegou à porta de entrada da área de serviço da mansão, entrando, e nesse momento, Cat correu.
Ela passou rápido por ele, e disparou pelo quarto escuro, escolhendo um canto para desaparecer embaixo de uma mesa, e deixando as sombras de Cass a cobrirem. Depois, viu a sua sombra de gato crescer e sair correndo em direção à porta, atraindo a atenção do segurança. Curioso. Não sabia que Cassian podia mexer com as sombras de outras pessoas, mas fazia sentido.
O segurança soltou um palavrão, bateu a porta da sala fechada, e se preparou para voltar para sua cadeira na guarita. Cat esperou, começando a sentir um tremor de leve, e tentou ignorar a sensação. Tinha de aguentar mais um pouco, só o suficiente para o homem começar a recalibrar o alarme. E então…
Ele abriu uma caixa similar a uma caixa de fusíveis ao lado da porta da sala, e digitou uma senha. Cat esperou, assistindo a luzinha ansiosa, esperando ficar verde…
A luz verde se acendeu. Cat andou para o fundo da sala devagar, escondida nas sombras de Cassian, e se transformou em humana de novo. Ela trazia um vidrinho bem pequeno e um pano dobrado na roupa. Era hora, só teria uma chance.
Cat abriu o vidro, derrubou o clorofórmio no pano e o homem pareceu perceber que algo estava errado, pois ajeitou a postura e estava prestes a olhar para trás. Cat não podia deixar ele fechar a caixa do alarme, e já tinha aberto o vidro, então só tinha uma chance.
O que for, será.
Ela saltou nas costas do homem de uma vez, travando seus braços com as pernas e levando o lenço ao nariz dele. Cat era muito bem treinada em vovinam, mas não era uma arte marcial focada em força física, e ela precisou usar toda sua força nas pernas pra conter os braços do homem. Felizmente, clorofórmio fazia efeito muito rápido, então logo ele começou a perder as forças e ficar zonzo, até cair de vez no chão.
— Não acredito que isso funcionou — ela murmurou, chocada. Era mesmo a coisa mais estúpida que já tinha feito na vida, mas olhando ao seu redor, viu as sombras do quarto se mexendo de forma entusiasmada, e abriu um sorriso pequeno. — Ok. Talvez não tenha sido assim tão estúpido. Obrigada.
Ela avançou até a caixa do alarme, aberta e desbloqueada, e procurou um botão de desligar. O segurança já tinha colocado a senha — e ela tinha observado e decorado, por via das dúvidas — mas acabou não precisando do número de novo. Ela apertou o botão de desligar o alarme, a luz verde piscou vermelha, e depois todas as luzes apagaram.
Cat abriu um sorriso enorme. Estava sentindo um certo cansaço no corpo, não achava que poderia se transformar em gato de novo tão cedo, mas não iam precisar mais de acordo com o plano. A parte difícil já tinha passado. A garota puxou o telefone, mandou os números da senha do alarme para Cass só por garantia, e disse a ele que podia entrar. Cat se abaixou para o corpo desacordado do segurança, mexendo em seus bolsos até achar um enorme molho de chaves. Ela arrancou os cabos dos computadores da sala, pegou o celular do homem, saiu da sala e trancou a porta.
— Ótimo. Você não vai sair daí tão cedo. Agora, aos próximos passos.
Em forma humana, Cat precisava tomar mais cuidado no jardim, mas com o alarme desligado e o segurança tendo dito aos demais que tinha sido “apenas um gato”, não achava que fosse voltar a ter problemas. Quem estaria vigiando da janela às três da manhã depois do próprio segurança dizer que não era nada de mais?
A garota voltou até o muro da casa, e encontrou Cassian descendo o lado de dentro com a ajuda de uma corda de sombra. Não era um muro impossível de pular, mas o fato de ele precisar de todo um aparato de escalada fez Cat pensar se não era hora de ser um pouco insistente com ele quanto a técnicas de luta. Não dava pra sair de todas as situações só com os super-poderes dele, qualquer dia desses ele podia acabar com problemas sérios. Na verdade, se lembrava bem, na última briga dele sem poderes quase tinha sido enforcado pela própria capa.
— Tudo bem? — Ela perguntou, vendo o garoto desfazer a corda.
— Tudo tranquilo. Estamos dentro.
Cass puxou o telefone, abrindo uma imagem que era um rabisco da casa feito por Marlene depois de enviar ratos repetidamente para lá para conferir o lugar. De acordo com o mapa, o escritório ficava no segundo andar, em uma das janelas do fundo. Os dois se aproximaram o máximo possível da parede, andando agachados e contornando a casa.
As janelas da mansão eram bastante ornamentadas em volta, com batentes de madeira e pequenos enfeites em cima onde se podia pisar caso tivesse um pé firme. Seguindo o mapa minuciosamente marcado, inclusive com as janelas da casa, a dupla logo chegou abaixo da janela que procuravam, e se agacharam ao lado da parede.
— Olha só pra nós — Cat brincou, estalando os dedos enquanto Cassian ajeitava as luvas. — Feito cão e gato.
Cassian sorriu, e embora Cat não conseguisse ver Cassandra muito bem mesmo com sua visão noturna, pode jurar em ter reparado alguma movimentação atrás do garoto.
— Pronta?
Cat respondeu com uma risadinha, e Cass ajoelhou. A garota subiu nos ombros dele, e ele se levantou, devagar. Aos poucos, ela se agarrou à parede e esticou a mão para alcançar o topo da janela do primeiro andar, e Cass apoiou as mãos na parede. Fios grossos de sombra começaram a se espalhar pela parede do local, se agarrando na janela, na cintura de Cat, e no corpo dele, formando uma elaborada escada em direção à janela do segundo andar. Cat encarou o constructo, receosa, mas pisou no primeiro degrau ainda assim. Para sua surpresa, tinha a mesma consistência de uma corda real, apesar de ter a aparência fantasmagórica e intangível de uma corda.
— Tá firme aí? — Ela perguntou, vendo Cass sustentar a escada para ela.
— To, mas vai depressa. Não consigo fazer maior que isso e segurar muito tempo.
Não precisava pedir duas vezes. Cat subiu os degraus, com passos muito rápidos e leves, e alcançou a janela do segundo andar. Estava trancada, mas ela já estava esperando isso, e esticou a mão, crescendo uma única unha de seu dedo direito. Isso era o máximo que ia conseguir transformar por agora, mas ia servir. Cat enfiou a unha no vão onde a janela se fechava e encontrou a tranca, a girando para o lado e destrancando a janela. Então Cat levantou o vidro, muito devagar, e rolou para dentro.
De alguma forma, o escritório conseguia ser maior e mais extravagante em pessoa do que nos vídeos roubados de Marlene. Ali dentro, ela tinha usado uma lagartixa, ou algo parecido, Cat não tinha certeza, mas tinha sido um bicho que andava colado no teto, porque tinham conseguido ver o local filmado de cima.
Havia uma quantidade muito exibicionista de estantes com livros em todas as paredes, poltronas de veludo que parecia caro — e que Cat quis muito arranhar mas achou melhor não porque não queriam deixar pistas de sua presença pra trás — e uma enorme mesa no meio com um computador. Cass entrou no escritório logo em seguida, fechou a janela atrás de si e respirou fundo, parando pra olhar em volta também.
— Hm — ele comentou, a boca franzida de leve. — Aparecido.
— Muito. Enfim, vamos logo com isso?
Cassian assentiu, se sentando na cadeira do computador, e Cat se colocou ao lado dele. O garoto tinha a senha do computador graças à lagartixa enxerida de Marlene, e Cat deixou ele mexer o quanto quisesse, se focando em manter seus ouvidos de gato bem atentos. Ao menor sinal de ruído externo tinham de ir embora, mas não devia haver muitos problemas depois de terem apagado o segurança e desligado o alarme. Seria muito azar.
Ela ficou esperando, ansiosa, desviando o olhar para a tela do computador hora ou outra, mas tentando não se distrair muito com isso para não perder o foco em sua função. Cat batucou os dedos na mesa, devagar, a atenção focada na porta e os ouvidos atentos, mas tirando uma sessão de ronco ou outra, e o barulho dos dedos de Cassian digitando algo no computador, não estava ouvindo mais nada.
Passaram-se uns bons minutos nessa situação de tensão. Cat esticava os dedos, ansiosa, atenta, quase como se esperasse algo dar errado a qualquer instante, mas quando algo aconteceu foi Cassian puxando sua blusa pra chamar sua atenção.
— Cat. Olha só isso.
A garota encarou a porta, ansiosa, não gostando de tirar a atenção de sua tarefa, mas virou o rosto para a tela. Tinha de ser importante, já tinha mencionado com Cassian que não seria bom distraí-la com o estado normal dos seus poderes.
Ela virou o rosto para a tela, se deparando com uma lista de nomes que Cassian rolava na tela. Alguns estavam marcados em vermelho, outros não. Metade de cada cor, ela arriscaria dizer.
— O que é isso?
— Parece ser algum tipo de lista de alvos.
— Alvos pra quê?
Mas Cassian não respondeu, e não precisava, pois à medida que Cat rolava a tela, ela entendeu sozinha. Todos os nomes naquela lista eram de mutantes ou de simpatizantes de mutantes que por algum motivo tinham sido considerados perigosos para a causa dos anti-mutantes. Havia uma nota de A a D, e em alguns até S, que parecia indicar o quão difícil seria eliminar o alvo. Alguns como o Homem de Gelo, muito poderoso, ou a Cristal, muito famosa, tinham nota S. Outros mais influentes mas não tão proeminentes como a Emma Frost estavam listados como A. E, rolando mais e mais a lista, Cat encontrou.
— Não… — ela murmurou, sentindo os olhos encherem de lágrimas e um bolo de nervosismo se apertar em sua garganta.
Tuan Lê. Classe D. Listado por “angariar opinião pública positiva”. Ela olhou para cima e, tinha saltado seus olhos a princípio, mas ali estava. Cather Lê, e também os nomes de seus pais, por “abrigar mutantes”. O nome de Tuan estava vermelho, o dela e dos pais ainda não, mas estavam listados como D também.
— Cass… Cass eles vão pegar meus pais…
— Eles não vão pegar ninguém. Eu já mandei uma mensagem pra Reese, ela tá no restaurante e vai ficar alerta. Eu vou pegar isso tudo aqui, nós vamos voltar pra lá e levar seus pais pra um lugar seguro. E depois entregar isso aqui pras autoridades que possam fazer algo a respeito.
Mas Cat não estava ouvindo muito bem mais. Começara a hiperventilar, e caminhava na sala de um lado a outro, as mãos tremendo e os lábios travados para impedir o grito agarrado em sua garganta. Ela estava certa. Não tinha sido um acidente. Tinham assassinado seu irmão, e estavam planejando fazer o mesmo com ela e com seus pais também. Que tentassem vir atrás dela, mas se chegassem perto de seus pais…
— Eu vou matar eles — ela comentou, os dedos apertados uns contra os outros e a respiração se agitando um pouco mais a cada segundo. — Cada um deles. Eu vou matar…
— Cat, se acalme — Cass comentou, levantando correndo. Ela sentiu a mão de Cassian apertando seu ombro de leve, a puxando devagar em sua direção. — Precisamos ser espertos sobre isso. Se a gente perder a linha aqui igual aconteceu na delegacia, pode ser o fim das nossas chances de ajudar sua família. Por favor, me escuta.
A garota se virou para ele, mas apenas metade de sua atenção estava em Cass. O resto era seu sangue fervendo, o rosto de seu irmão sorrindo em sua mente, soltando foguinhos de leve nas mãos para divertí-la em um dia triste. Tuan não merecia isso. Não Tuan. Ele sempre tinha sido o melhor dos dois. Ele não merecia…
Cat se sobressaltou de repente, ouvindo um barulho no andar de baixo. Ela ergueu uma mão, avisando a Cassian pra ficar em silêncio, e se concentrou por um instante. Suas orelhas começaram a mutar devagar, assumindo um formato de gato e subindo para o topo de sua cabeça. Ela ouviu, quieta, passos andando no andar de baixo, e um murmúrio, curto, baixo, e ela podia até não ter identificado as palavras, mas jamais confundiria aquela voz de novo.
— Jason está aqui.
— O quê? Como? São três da manhã, ele tá chegando agora? Mas…
— Ele deve saber que estamos aqui! Deve ter um alarme no computador, algum aviso remoto, não sei…
Cat olhou para a porta, ansiosa. Aquele homem era responsável pela morte de seu irmão. Ele estava planejando matar toda a sua família. E se os encontrasse agora…
— Pegue as informações naquele computador e saia daqui. Eu vou cuidar disso.
Cassian riu, uma única risada sarcástica e pesada.
— Nem pensar. Vamos sair os dois daqui, e viver pra lutar outro dia. E então…
— Cassian, pode não ter outro dia! — Cat cortou, a voz quase subindo rápido demais. Ela não estava mais ouvindo os passos, mas Jason estava em algum lugar naquela casa, e se tivesse de fato ido até lá por causa deles, era só questão de tempo até estar ali. — Esse cara quer matar a mim e a meus pais! Ele assassinou o meu irmão! Não, não quero saber. Pegue essa lista e saia daqui!
— Cat, da última vez que você fez isso, levou uma bomba de terrígeno na cara! Eu não posso deixar…
Cat ouviu um barulho surdo, repetido, e agora eram passos. Subindo uma escada. Ele estava indo para lá, e se encontrasse os dois, estariam perdidos.
— Não me interessa o que você pensa. Pegue a droga da lista e dê no pé. Além do mais, eu sei vovinam, e ele é um padre. Não pode ser tão difícil assim. Eu vou chutar a bunda dele e você vai entregar isso pras autoridades.
E antes de Cassian discutir, ou insistir mais, Cat se desvencilhou dele, deixando o escritório e fechando a porta atrás de si.
Com certeza ele não ia gritar por ela, mas Cat esperou muito que não a seguisse. A garota se recostou à parede, seguindo devagar pelo corredor, os ouvidos atentos a qualquer ruído. Só precisava pegar Jason de surpresa e apagá-lo o mais rápido possível, então poderiam os dois sair dali sãos e salvos.
Os passos de Cat eram leves e silenciosos. Ela abriu bem as mãos, espalhando os dedos, e suas unhas cresceram novamente ao tamanho de garras. Felizmente a visão noturna era parte padrão de sua aparência, e não precisava fazer força para isso, pois esse era o máximo que conseguiria sustentar de uma vez.
Ela chegou a uma curva e se preparou para virar, já agachada atrás da parede, quando sentiu algo frio cobrindo seu corpo. Abaixando o rosto, surpresa, ela viu um manto de sombra escuro a cobrindo de cima a baixo.
“Merda, Cassian, eu não te mandei ficar lá?”
Ela olhou para trás, mas não via Cass em lugar algum. Estaria ele fazendo isso tudo do escritório? Não, de tão longe assim ele não conseguiria. Conseguiria?
Cat respirou fundo, balançando a cabeça, e decidindo aproveitar. Se estava camuflada, estava camuflada, poderia usar a seu favor. A garota manteve uma pose de ataque na esquina do corredor, ouvindo os passos ficarem gradativamente mais altos. Estava vindo em sua direção, não havia dúvidas disso. Cat olhou para uma das janelas do corredor, e reconheceu o reflexo do homem, caminhando com o mesmo terninho preto irritante da igreja, quase chegava a ser uma piada. Ela respirou fundo, preparada, esperando… Quando ele estivesse ao alcance…
Cat soltou a respiração presa. Então atacou.
Ela pulou, os dois pés para a frente, plantando um chute duplo no peito do homem. Descobriu exatamente nesse momento o quão difícil poderia ser, pois Jason mal deu um passo para trás, mas Cat não teve tempo para se importar com isso. Ela voltou para trás com uma estrela de uma mão, colocando espaço entre os dois, e levantou as mãos à sua frente as palmas estendidas, e a perna direita à frente da esquerda.
Jason sorriu. Um sorriso sádico, cruel, o tipo que a fez desejar muito poder arrastar a cara dele pela parede só para arrancar aquele sorrisinho maldito de lá. O homem ajeitou o terno, e desabotoou os pulsos, então, atacou.
Cat não sabia dizer que estilo de luta tinha aprendido, arriscaria dizer judô, mas ele tinha aprendido, o que já não era algo que ela esperava. Pra piorar, todas as boas intenções de Cassian não pareceram ajudar muito estando tão perto assim de Jason, e como poderiam? Estava bem na frente dele, ele teria de ser cego para não ver.
Jason avançou de uma vez, e parecia querer agarrá-la, então Cat pulou para trás, colocando algum espaço entre eles. A garota saltou, pegando impulso na parede, e girou uma vez, sua perna voando na direção do rosto de Jason em um chute violento.
O homem grunhiu, caindo para o lado, e Cat pousou no chão, atacando de novo na direção contrária. Se ia ganhar essa luta, não podia deixar Jason pensar, ou revidar. Se ela estava certa, e ele sabia judô, conseguir prendê-la no chão poderia ser o fim.
Ela esticou as mãos para a frente, atacando com as unhas na direção do rosto dele, mas Jason pareceu ter recuperado a compostura. Ele se levantou, o rosto irritado e marcado com o que seria um hematoma no dia seguinte, e segurou os pulsos da garota.
No instante seguinte, ela soube que estava perdida. Jason passou uma perna sob os pés dela, e os dois estavam no chão. Ela grunhiu de dor ao bater as costas no assoalho, e Jason aproveitou o momento para travar os braços da garota ao lado dos quadris, com os joelhos. E então as mãos dele estavam em seu pescoço.
Cat se contorceu, a cabeça começando a doer, o ar tendo dificuldade em fazer o caminho até seus pulmões. Ela percebeu nesse momento que não tinha se recuperado tanto quanto imaginava, e na menor pressão, respirar já se tornava um grande problema.
Tinha de sair dali. Seus pais… Precisava cuidar de seus pais… Se contorcendo, ela virou as mãos, usando as unhas para agarrar as panturrilhas de Jason, e apertou. Apertou com toda a força que tinha, só precisava que ele hesitasse um pouquinho… Só um pouco…
Ele afrouxou as pernas por um átimo de segundo. Cat puxou uma das mãos, com força, e foi com ela na cara do homem, o arranhando com violência do lado direito. Jason gritou, já não a prendia no lugar mais, e Cat se arrastou para trás, levantando uma das pernas com força ao se pôr de pé, acertando o queixo do homem.
O rosto dele sangrava. Ele estava agachado no chão, agarrando o rosto, e esse, ela percebeu, era o momento. Cat chutou a cabeça de Jason contra a parede com toda a força que ainda tinha, e o homem caiu desacordado no chão.
Primeiro, Cat se jogou ao chão, as mãos indo ao próprio pescoço e o massageando, devagar. Ela tossiu, um pouco, os olhos ainda lacrimejando, e o ar voltando ao seus pulmões aos poucos. Por alguns segundos ela apenas ficou ali, sentada no corredor, sem pensar que alguém poderia vir atrás deles, ou que teria problemas de algum tipo. Só precisava respirar. Descansar…
Então a ficha caiu e ela percebeu que Jason Stryker estava desacordado na sua frente.
— Puta merda!
Ela ouviu passos, e se virou para o corredor em posição de luta de novo, mas era Cassian, que vinha correndo com Cassandra avançando em sua frente, algo que ela conseguia ver pela quantidade de janelas e iluminação mediana do corredor.
— Cat! Você está… — então ele desviou o olhar para o chão, e seu queixo caiu. — Isso é…?
— É. Você pegou as informações?
A única resposta de Cassian foi assentir, mas ele ficou parado no corredor, encarando o homem caído no chão com arranhões enormes e sangue escorrendo do rosto. E, talvez por conhecê-lo tão bem, Cat conseguiu ver o pensamento se formando na cabeça de Cassian antes mesmo dele falar.
— Meu deus, Cassian…
— Fala sério! Nós capturamos Jason Stryker!
Mas olhando para Jason caído no chão daquele jeito, ela não conseguiu discutir. Cassian estendeu a mão, conjurando as cordas de sombra ao redor de Jason, e acrescentando uma mordaça. Então, com as orelhas atentas caso mais alguém estivesse na casa, os dois começaram a levá-lo para fora de lá.
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