Nath não esperava que acabasse, de fato, aceitando a oferta de Esther, mas semanas depois de encontrá-la foi contatado pela Madre Superiora, que lhe disse que não podiam mais mantê-lo lá. Ela não parecia muito preocupada, pois informou que o quarto dele estava praticamente intocado no Instituto, que poderia voltar para lá e tudo ia ficar bem, mas…
Bem, a verdade era que não sabia dizer o que no fim das contas o tinha levado a aceitar a oferta de Esther. Em parte, ainda não se sentia pronto para voltar para os estresses que tinha passado no Instituto, com o antigo relacionamento com Luke e todos os apontamentos para testar seus poderes. Não, queria descansar. Procurou saber quanto custaria um quarto de motel, mas no fundo se perguntou, diversas vezes, porque ia se extenuar tanto dessa forma quando uma solução existia bem ali, ainda que temporária.
Então, ali estava. Esther morava em uma casa pequena, de três quartos, no Queens. Era uma casa que, Nath tinha certeza, para muitos seria vista como bem comum, mas para ele era impressionante. Era feita de painéis de madeira brancos e tinha uma janela e uma porta na frente, não sobrava espaço para muito mais. O garoto entrou, tímido, apertando a alça da mochila nas costas e segurando a bolsa com o resto das suas coisas, olhando a sala e a cozinha embasbacado. Nunca tinha visitado uma casa familiar antes. Quando chegou na adolescência, a idade na qual talvez fosse convidado para visitar a casa de algum colega da escola, acabou despertando a mutação e indo morar no esgoto. De lá, fora para o Instituto, e era onde tinha estado até então.
O andar de baixo tinha uma sala de estar e uma de jantar conjugadas, uma porta para um lavabo e uma cozinha. Entre as salas e a cozinha, uma escada levava para o andar de cima. Ele seguiu Esther escadas acima, e encontrou outras quatro portas. Duas eram para quartos, outra para um banheiro, e a quarta estava fechada.
A mulher disse alguma coisa, mas Nath não entendeu, apenas sentindo uma vibração suave no ar indicando a sonoridade, mas sem conseguir distinguir as palavras. Ele olhou para ela um pouco confuso, e Esther sorriu, um pouco sem graça, abrindo a porta do cômodo fechado.
Nath entendeu que aquele era o quarto onde iria ficar. Tinha uma cama de solteiro, uma mesa de cabeceira e um armário pequeno na parede da frente, onde ele podia colocar todas as suas coisas e ainda sobraria espaço. Ele deu um passo para dentro, e se virou para trás, encarando Esther, um pouco ansioso.
— Eu fico aqui? — Perguntou.
Esther preferiu pegar o telefone para responder, e Nath abaixou o rosto para olhar o aplicativo escrevendo as palavras dela:
“É… Eu sei que não é muita coisa, os quartos do Instituto deviam ser enormes, mas eu espero que sirva pra te ajudar. Pode ficar pelo tempo que quiser, viu?”
Não era muita coisa? Era um quarto inteiro. Só dele. Como isso era possível? O garoto deixou a bolsa e a mochila no chão, e abriu o guarda-roupa, um pouco tímido. Haviam algumas toalhas e roupas de cama ali, mas o resto estava vazio. Ia, de fato, sobrar espaço para as coisas dele.
Ele sentiu a mão de Esther o cutucando carinhosamente no ombro, e se virou mais uma vez para ler as palavras da mãe.
“Pode guardar tudo onde quiser, se faltar espaço eu tiro as roupas de cama.”
— Ah. Não precisa, vai caber. Minhas coisas tão todas aqui.
Esther desviou o rosto para olhar a mochila e a bolsa de Nath no chão do quarto e ele podia jurar que viu o canto da boca dela torcer um pouco para baixo por um leve segundo, mas logo ela estava sorrindo de novo, e ele não soube dizer se tinha sido apenas impressão sua ou não.
“Fique à vontade, o quarto é seu pelo tempo que precisar. Vou deixar você desempacotar tudo, te chamo pro jantar, ok?”
Nath assentiu. Esther o olhou de um jeito um pouco estranho, flexionando os dedos, parecia estar pensando sobre fazer algo ou não. Acabou acenando, um pouco tímida e deixando o quarto.
O garoto deixou a porta aberta, pois não iria ouvir caso ela batesse depois, e então se sentou na cama, encarando a parede, a bolsa e a mochila no chão. O guarda-roupa ainda estava com as portas abertas, e Nath encarou o móvel, pensando em colocar tudo ali dentro, mas ao mesmo tempo…
Não conseguiu desembalar suas coisas. Fazer isso faria tudo parecer tão mais… permanente. Não sabia explicar. Enquanto tudo estivesse dentro da mochila, seria fácil levantar no dia seguinte e ir embora. Ou no outro. Aquela não era sua casa, afinal, e não seria certo se enganar a respeito disso.
Assim, ele se sentou na cama, na beirada, testando o colchão, e depois tirou os sapatos e se deitou, tirando o celular do bolso. Luke tinha lhe mandado uma mensagem, e não queria responder agora, então pulou a conversa. A Madre perguntou se tinha chegado bem. Essa, ele abriu e respondeu que sim. Havia uma mensagem de Bobby fazendo a mesma pergunta, que ele também respondeu, e era isso.
De repente, ele desejou ter um amigo. Luke era seu amigo, mas também era mais que isso, e isso deixava tudo mais complicado. A distância tinha destruído seu relacionamento com Riya e Juna, o que ainda era estranho de pensar depois de tudo o que tinham passado, mas no fim das contas, os Morlocks eram um laço de sobrevivência muito forte, e agora que a sobrevivência não estava mais lá como antes, muitos tinham seguido seu próprio caminho. Sabia que se ligasse para Riya ou Juna elas atenderiam, mas ao mesmo tempo, sentia que elas tinham os próprios problemas para lidar, que não eram poucos, e não parecia certo incomodá-las com suas questões.
Talvez devesse ligar para Balu. Ainda tinha um ranço guardado de Damon, e não chegara a falar muito com as meninas, mas conhecia Balu a mais tempo. Talvez…
Nath considerou a ideia, até se lembrar de que o garoto estava vivendo em um furacão emocional incontrolável. Não só não queria piorar isso, como não fazia ideia se Balu teria condições de ouvir e aconselhar problemas emocionais de outras pessoas.
Cansado, ele suspirou e abriu um joguinho no telefone, mas não conseguiu se concentrar e acabou o colocando de lado também. No fim das contas, ficou jogado na cama por algumas horas, encarando o teto no quarto e esperando até ser chamado para jantar.
Se Nath escutasse, ele teria ouvido horas mais tarde uma gritaria descontrolada no andar de baixo, depois passos apressados para o andar de cima, e então não teria ficado tão surpreso quando uma garota de uns doze anos apareceu na porta do quarto que ocupava, de cabelo loiro comprido, olhos do mesmo azul de Esther e dele antes da mutação, e uma boa carga de maquiagem preta nas pálpebras. Usava uma camiseta preta de uma banda de rock, jeans rasgados e parecia completamente chocada.
Nath viu a boca dela se mexendo, e não fazia ideia do que dizia, mas a expressão dela falava tudo. A garota estava deslumbrada, quase pulando no lugar, e levou algum tempo para ela tirar o telefone do bolso e começar a digitar. Não devia estar familiarizada com o tipo de aplicativo que Nath usava, pois acabou só escrevendo em um aplicativo de notas e virando a tela para ele. A mensagem dizia algo nas linhas de “MEU DEUS EU NÃO ACREDITO QUE MEU IRMÃO É UM X-MEN E VOCÊ VAI MORAR AQUI AGORA VAI NÃO VAI” e depois era seguida por uma série de letras digitadas em um surto descontrolado.
— N-não! — Nath se apressou a corrigir, se levantando e pegando o próprio telefone do bolso, procurando o aplicativo que usava. — Eu só vou ficar um pouco. E eu não sou um X-Men, eu era Novo Mutante mas não tem time mais…
Ele abriu o aplicativo, um pouco nervoso, e foi bom ter feito isso pois a garota não demorou nada pra voltar a falar. Ele acabou pegando a frase pela metade, e ela falava tão rápido que até o algoritmo da Sábia estava tendo dificuldades para acompanhar, e isso era dizer alguma coisa.
“...mamãe disse que outro filho e mutante e X-Men e preocupada mas daí quarto vazio se eu e papai e é claro que a gente…”
— Pode desacelerar um pouco? — Ele perguntou, quando a garota enlaçou a mão na dele e começou a puxá-lo para fora do quarto.
“Ah, desculpa.” Ela respirou fundo, e desacelerou as palavras. “A gente sempre soube que mamãe tinha outro filho, mas ela nunca soube onde você tava. E aí ela descobriu e me falou que era você! Eu sigo vocês na internet, vocês são incríveis! Eu tava falando com mamãe, se eu tiver um poder também se eu posso me juntar. Eu tenho gene-X também, a gente fez teste e tudo mas não sabemos ainda o que eu sei fazer. Mamãe tem medo de acordar um dia e ver que eu explodi o quarto ou coisa parecida, ela acha que vai ser algo muito destrutivo porque eu ‘sou destrutiva’, palavras dela, não minhas, mas acho que está exagerando. Eu ia adorar se fosse algo com música, seria tão legal!”
Já estavam descendo as escadas. Clarissa não parava de falar, e Nath começou a sentir um nervosismo se alojando na boca do seu estômago. Não sabia o que fazer com a garota, é claro que poderia se soltar dela, não tinha esquecido que era super-forte, mas não conseguia encontrar forma de dizer a ela que tinha entendido tudo errado.
— Ei, Clarissa… É Clarissa, né? Não é isso tudo, ok?
Nath soltou um resmungo. Não gostava de falar, o aplicativo estava funcionando no limite e ninguém ali entendia libras. Até conseguia se virar com Esther, ela era tranquila e falava devagar, mas em dois minutos Clarissa já estava o deixando maluco.
“É sim, espera só até meus amigos saberem! Ah, minha nossa! Mamãe já te mostrou os livros dela? Eu achei incrível quando percebi, olha só que coincidência maluca! Parece até destino…”
Nath desistiu de acompanhar. Ele guardou o telefone e deixou Clarissa falando enquanto era levado pela sala da casa até uma estante, onde a garota mexia nos livros, procurando alguma coisa. Ela enfim tirou um deles e entregou para Nath, ainda falando, e ele abaixou os olhos para a capa, vendo uma foto de uma cobra enorme ali.
Ele sentiu o coração dar um salto. O que era aquilo? Nath correu os olhos pela capa, percebendo se tratar de um livro científico para herpetólogos, e com o nome de Esther como uma das autoras.
O garoto ergueu o rosto para Clarissa, chocado. Esther era herpetóloga? Não. Não podia ser, era coincidência demais. Qual era a chance de uma herpetóloga descobrir que era mãe de um mutante com a mutação relacionada a cobras? De repente, ele se perguntou porque, de fato, estava ali, uma sensação de pânico se alojando na boca do estômago. Devia ter imaginado que não teria tanta sorte assim… Devia ter imaginado que haveria outro motivo…
Com o coração disparado, Nath deixou Clarissa na sala, caminhando a passos tortos até a cozinha, onde encontrou Esther conferindo alguma coisa no forno. Ele pigarrou a mão apertando o livro com força. Não fazia ideia se Clarissa ainda estava tagarelando, seu rosto focado na direção de Esther, até a mulher se virar em direção a ele.
E então, no instante em que ela o olhou, Nath percebeu. Eles tinham a mesma cor de cabelo. Os mesmos olhos antes da mutação dele se manifestar. O formato de várias feições do rosto era parecido. Ele tinha herdado muitas coisas físicas dela, e agora, olhando o livro, percebeu, não tinha sido só isso. Em algumas das aulas de biologia no Instituto, tinha aprendido que em alguns mutantes o gene-X se manifestava refletindo o ambiente ou as condições nas quais o mutante tinha crescido, ou a mutação dos pais, caso eles a tivessem. Mas, às vezes, a mutação eram um reflexo do psicológico dos pais. Esther ser herpetóloga não era uma coincidência maluca. Era a causa.
Ele ergueu os olhos, zonzo, e viu que Esther parecia muito preocupada, e falava algo sem parar. Como Clarissa. Algo que as duas tinham em comum, porque afinal, essas coisas podiam, de fato, ser genéticas.
Como podia ter sido tão lento? A maior pista para encontrar sua família estivera debaixo do seu nariz esse tempo todo! Não podia ter acessado aquela carta antes dos dezoito anos, mas poderia ter procurado por conta própria, e sequer pensara nisso… Por quê? Por achar que não merecia, ou que não daria resultado? Não era isso que estava sentindo até agora?
Tinha carregado algo de sua mãe consigo há anos, e sequer fazia ideia.
Nath sentiu um puxão súbito no braço, e olhou para o lado, vendo Clarissa o chamando, também preocupada, e que Esther ainda parecia meio pálida. Piscando para afastar algumas lágrimas que tinham se ajuntado em seus olhos, ele pegou o telefone, abrindo o aplicativo às pressas.
“...por favor, desculpe, eu devia ter lhe contado, mas pareceu uma coincidência tão estranha, eu temi que você não fosse querer falar mais comigo, ou…”
— Não é coincidência — Nath cortou, abrindo o livro, curioso. — É o pedaço de você que eu tenho carregado comigo por todo esse tempo.
[...]
O franzido no canto da boca de Damon deixava muito claro o tamanho do seu desagrado naquele momento, enquanto ele refazia o nó na gravata e resmungava baixo sobre como estava ridículo com aquela roupa.
Quando tinha pedido a Bobby um terno emprestado, esperou receber algo que fosse minimamente decente, e embora o terno do mutante tivesse lhe servido muito bem, era claramente barato e não tinha sequer um par de abotoaduras para combinar. Não queria reclamar quando sequer teria um para vestir se não fosse por Bobby, mas céus.
— Não vai ter nó que melhore a situação, Damon. E se quer saber, eu acho que está muito bom — Amália comentou, escorada na parede do quarto, vendo ele ajeitar a roupa. — Deixa eu postar uma foto?
— Não — o garoto respondeu, ajeitando a gola e desistindo de vez. — Papai não pode saber que estou indo. Adrian me deu instruções muito específicas e eu acho que várias delas estão bem na área cinza da legalidade, então não quero furar nenhuma. Quem sabe quando eu voltar, mas daí eu espero poder vestir algo melhor.
O garoto deu as costas ao espelho e pegou as chaves. Não pretendia demorar muito por lá, era para ser simples, rápido e direto ao ponto. E, acima de tudo, discreto.
— Bem, boa sorte — Amália declarou, quando Damon saiu em direção à porta. — Espero que dê tudo certo.
— Vai dar.
Ou assim ele esperava. Damon deixou o Instituto e pegou um táxi, ajeitando as mangas do terno, ansioso, e repassando as instruções de Adrian em sua cabeça. Depois de muito pensar sobre o que tinha de fazer, acabou comentando com Niko no telefone e qual não fora sua surpresa quando a garota mencionou nos breves cinco minutos de conversa deles que conhecia um advogado em Nova York, e que o homem tinha cuidado do caso dela. Adrian tinha sido de fato muito solícito, devia dever alguma coisa muito séria a Niko, porque quando Damon disse que era amigo dela, o homem estava pronto pra pegar o caso pro bono se preciso fosse.
Mas Damon queria ir devagar. Não queria nem precisar ir pra corte se fosse possível, tudo que pudessem resolver por fora, era melhor. E por isso tinha montado seu plano.
Não diria que estava indo ameaçar o pai, isso incluiria uma possível chantagem ou distorção da realidade, e tudo o que tinha para apresentar eram fatos. Não. Estava indo colocar alguns pingos nos is, mas seu pai era um homem esperto. Ele ia saber ler nas entrelinhas sozinho, tinha certeza disso.
O carro continuou seguindo até chegar a um quarteirão antes de seu destino, um enorme prédio com um letreiro escrito “Santoro Tech” em cima dos portões. O prédio era suficientemente rico para ser feito quase que inteiramente de janelas, e ficava no Distrito Financeiro de Manhattan. Damon odiava pegar o táxi na cidade, era um inferno em qualquer hora do dia, mas não ia andar de metrô e Bobby não tinha emprestado o jato, então…
Cansado, ele desceu do carro um quarteirão antes, decidindo que se andasse o resto a pé chegaria mais cedo. Ele pagou o taxista e andou apressado, respirou fundo, ajeitou o terno mais uma vez, e entrou no prédio.
— Bom dia, Jones — cumprimentou, abrindo um sorriso simpático no rosto. Quanto mais gente o visse entrando de bom humor, melhor.
— Senhor Santoro! — O segurança cumprimentou, surpreso, ao lado do portão de acesso ao lado das catracas. — Quanto tempo!
— Pois é… Vim ver meu pai. Você poderia…
— É claro, senhor!
Jones abriu o portão e Damon o atravessou, ainda com o sorriso no rosto.
— Você é o máximo — comentou, dando um tapinha nas costas do homem. — E a esposa? Ela vai bem?
— Está grávida! Terceiro filho, consegue acreditar?
Damon quase perdeu o sorriso. Fazia tanto tempo assim desde sua última visita ao prédio que Jones ia ser pai de novo e sequer sabia disso? Inferno, ia ter que manter a compostura ou ia acabar batendo a cabeça do pai na mesa até ficar uma massa roxa no lugar.
— Uau! Não sabia, parabéns Jones!
— Vai ser um menino… Ainda estamos escolhendo o nome, mas acho que vamos acabar deixando a Shanna escolher. Ela tá muito animada de ter um irmão mais novo.
— Imagino… Bem, boa sorte pra vocês!
— Obrigado! Bom dia, senhor Santoro!
Damon assentiu, ainda com o sorriso largo no rosto, e entrou no elevador. Suas bochechas doíam, e ele desmanchou o sorriso para alongar o maxilar um pouco. Ainda precisava agradar a secretária, não queria ter de intimidar a coitada da moça. Ou talvez pudesse simplesmente entrar… Ele ainda era herdeiro da companhia, certo?
O elevador parou no último andar, que só tinha o escritório de seu pai como aposento, ocupando o andar inteiro. Damon achou graça do quanto aquilo o lembrava da casa de praia de Roberto, com as janelas na parede toda e a vista do alto da cidade. Seria mentira dizer que não tinha sentido falta de nada daquilo. Simplesmente entrar no prédio estava o mostrando o quanto estava sendo tirado de si. O deixava ainda mais irritado.
Ele ajeitou a postura, saindo do elevador na ante-sala do escritório. Ficou feliz de reconhecer Isabella, a mesma secretária de antes, sentada na bancada.
— Isa? Tudo bom?
Mas ela não pareceu tão feliz, pois olhou para ele e a cor sumiu de seu rosto imediatamente.
— S-senhor Santoro?
— Bom dia. Papai tá aí?
— Ah… Ele… Bem, sim, mas…
— Em reunião? Ocupado?
— Não, mas, senhor Santoro…
— Obrigado Isa, você é um anjo!
Ficou muito claro para Damon bem rápido, que seu pai tinha deixado ordens com Isabella para não deixá-lo entrar, mas não ia deixar algo simples assim o impedir. Em verdade, só servia pra provar ainda mais seu ponto. Damon se desviou de Isabella, que corria atrás dele nervosa nos saltos, e abriu as portas do escritório de uma vez.
Seu pai estava sentado à mesa, com o gancho do telefone no ouvido, conversando com alguém. Ele levantou o olhar para Damon, a expressão mudando para um desagrado tão visível que quase deixou Damon enjoado, não tivesse ele mesmo tão desagradado de estar ali.
— Me desculpe, apareceu uma emergência — o homem comentou ao telefone. — Lhe retorno a ligação depois.
Ele desligou o telefone, e Isabella passou rápido ao lado de Damon, agitada, balançando as mãos à frente do corpo.
— Me desculpe, senhor, eu tentei impedi-lo, mas…
— Não é sua culpa. Ninguém nunca conseguiu impedir Damon de fazer alguma coisa depois que ele decidiu que queria.
A frase foi dita com desdém pelo homem, mas Damon não conseguiu evitar um sorriso orgulhoso no rosto.
— Por favor, me deixe a sós com meu filho.
— Sim, senhor. Perdão…
Ela deixou a sala, fechando a porta atrás de si, e Damon enfiou as mãos nos bolsos do terno. O garoto fechou os olhos e respirou fundo, detectando aos poucos os aparelhos ligados ali dentro. Não haviam câmeras, o que era uma surpresa. O computador estava ligado, e um telefone de ramal — uma antiguidade na opinião de Damon, quem ainda usava telefone? —, além do celular de seu pai. Damon flexionou os dedos, prendeu a respiração, criando uma onda de energia dentro do peito, e soltou.
— Ah, pelo amor! — Seu pai xingou, ao ver o computador desligar e o celular fazer o mesmo. — Você veio aqui só pra me atazanar?
— Ah, que isso, papai… Eu só quero ter certeza que nossa conversa vai ser só nossa. Não seria legal ter gravações vazando por aí. Pra nenhum de nós.
O homem bufou, cansado, largou a caneta que tinha em mãos em cima da mesa e cruzou os braços, encarando Damon com o rosto irritado. O garoto foi até a mesa do pai, puxou uma cadeira para se sentar, e cruzou as pernas pra cima da mesa. Se seu pai quis mandá-lo tirar os pés, guardou a vontade para si, apesar de ter encarado o gesto com um ar de desdém no rosto.
— O que é que você quer?
— Minhas coisas.
Ele bufou, apertando a ponte do nariz por um instante.
— Esse circo todo é pra pegar suas roupas? Eu poderia ter mandado essa tralha pro Instituto pra evitar essa dor de cabeça toda, então se me dá licença…
— Ah, não, pai. Eu quero as minhas coisas. As roupas, sim, esse terno é emprestado e eu agradeço quem emprestou. Gratidão, imagine só! Aprendi essa nos últimos anos. Não… Eu quero as roupas, mas também quero meus cachorros. E eu quero a minha mesada, meus fundos de confiança, o dinheiro pra pagar minha universidade, Ivy League, é claro, e eu quero a merda de minha herança. Incluindo a Santoro Tech.
Por um instante, o homem apenas encarou Damon. Então, devagar, um sorriso foi aparecendo em seu rosto, um pouco maníaco, até se transformar, pouco a pouco, em uma gargalhada.
— Ah, Damon! É isto, finalmente conseguiram naquela escola de gente esquisita que você está. Ficou louco.
Damon, por outro lado, não estava rindo. Estava muito sério, e deixou o pai fazer seu circo e rir até não poder mais, esperando até o sorriso se apagar de seu rosto e ele o encarar com seriedade de novo.
— Eu tenho direito legal a essas coisas — o garoto continuou. — Ok, talvez não à empresa, mas às minhas coisas e ao meu dinheiro, eu tenho. Você pode me dar o que é meu, ou pode falar com meu advogado.
— Ha, advogado? Faça-me o favor…
— Na verdade — Damon cortou. Sabia que brigas legais não iam dar a ele tudo o que queria, então se pudesse pular essa parte, era melhor. Ele pegou o telefone, procurando um arquivo de vídeo em específico. Tinha guardado o celular num bolso revestido com proteção à PEM, um detalhe que tinha conseguido com Bobby para ajudá-lo a proteger suas próprias coisas enquanto usava seu poder. — Talvez a gente possa evitar o processo, e conversar para resolver isso. Afinal de contas, eu não acho que você vá querer isso aqui indo a público.
E, fazendo seu melhor para não colocar um sorriso muito convencido no rosto, Damon iniciou o arquivo de vídeo.
Era uma de suas melhores obras até então. Quinze minutos nos quais ele chorava e se fazia de confuso e abandonado, contando pro público como seu pai tinha o apresentado para o homem que o aliciara nos Purificadores, como depois de deixar o grupo e se descobrir mutante tinha sido jogado para fora de casa. Como sentia muito. Como estava assustado. Uma atuação de milhões. O melhor era que nem era mentira. Cada fato detalhado ali era verdadeiro. Pesado e organizado com cuidado para conseguir o efeito esperado, mas verdadeiro. Damon deixou o vídeo correr e acabar, vendo seu pai ficar mais e mais branco a cada palavra, e depois puxou o celular de volta. Tinha tido a delicadeza de deixar insinuado no vídeo que o seu pai também tinha afetado como enxergava sua sexualidade, e como isso tinha o custado um relacionamento com Theo, e poucas coisas deixariam o público mais amolecido do que a perspectiva de uma história de amor destruída por um homem terrível.
Por fim, com um sorriso convencido no rosto, Damon pegou o telefone de volta, o colocando no bolso.
— Não acho que eu precise dizer que tenho como provar a maioria senão a totalidade dessas alegações, não é? Até por que, eu não menti. E eu não acho que isso vai ser bom pras ações da empresa, considerando como um dos nossos produtos são próteses de alta tecnologia e o quanto inclusão é uma palavra importante pra imagem da empresa. Os investidores vão odiar. Os acionistas então, capaz de te colocar pra fora imediatamente. Você ainda pode passar por um processo civil bem desagradável se ficar provado que, de fato, me deve dinheiro. E acredite, é uma briga que eu estou disposto a comprar.
O homem se inclinou sobre a mesa, apertando a borda do tampo até as juntas dos dedos ficarem brancas. Estava furioso, mas Damon percebeu, rapidamente, conseguira seu propósito. Ele não poderia fazer nada, ao menos não por agora.
— O que você quer?
— Já disse. Roupas, cachorros, dinheiro. Herança. A coisa toda. Mas acho que não precisamos falar de detalhes agora, eu não vou ser idiota a ponto de conversar isso com você e deixar por isso mesmo. Você vai falar com meu advogado, e como você é um pai muito atencioso, vamos resolver tudo fora da corte, não é?
— Isso é chantagem — o homem retrucou. — Eu poderia te processar…
— É? Não sei. Não estou guardando um segredo seu, só estou ponderando se venho a público para contar a minha história ou não. Se você me impedir de fazer isso, daí sim eu acho que posso ler isso como censura. Ou ameaça. Não é sobre você, afinal de contas. É sobre mim.
Não houve mais resposta. Com uma onda de satisfação se espalhando por seu peito, e se lembrando de mandar uma boa garrafa de um vinho de boa qualidade para Adrian como agradecimento pelo conselho legal, Damon se levantou, guardando o telefone e colocando a cadeira no lugar.
— Como eu disse, espere o contato do meu advogado. Sempre um prazer falar com você, papai.
Damon acenou para o homem, ainda com um sorriso irônico no rosto.
— E as minhas coisas?!
— Ah, isso? É só um PEM. Tira da tomada e liga de novo que vai funcionar. Nos falamos depois!
Tentando não rir muito, afinal, pelo que Adrian tinha falado, esse era apenas o começo do que poderia ser uma jornada longa e complicada, ele deu as costas, ajeitando as mangas e saindo do escritório. Em qualquer outro cenário, tinha certeza, qualquer advogado ficaria maluco se o visse fazendo uma coisa dessas, mas esse não era um cenário qualquer. Ir ali tinha sido sua escolha, insistira com Adrian para isso e tinha falado que podiam lidar com as consequências depois, mas precisava olhar o rosto de seu pai enquanto falava para ele que ia ter suas coisas de volta. E sem qualquer registro da conversa, como ele iria provar que esse tinha sido o assunto?
Estava bastante otimista. Mal podia esperar para a primeira reunião com Adrian acontecer.
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