Irmandade de Mutantes: Supremacia Marvel 717 3
27 Folhas Secas
Já estavam nos esgotos por dias a fio quando Moonstar atendeu o telefone pela primeira vez. Seu pai vinha telefonando há dias, e o garoto ignorou as chamadas repetidamente, até receber uma mensagem muito preocupada do homem dizendo que se Moonstar não atendesse a próxima, sairia pela cidade procurando por ele. Assim, sem escolha a menos que quisesse colocar o pai em uma situação muito complicada, ele atendeu.
— Moonstar meu filho, pelo amor, onde é que você está?
Em tese, Moonstar nem sabia, e preferia assim. Estavam se locomovendo pelos túneis, um pouco a cada dia, tentando se manter sempre em movimento para não poderem ser encontrados. Não era a primeira vez que Moonstar se via em uma situação parecida, já tinha aprontado muito antes de conhecer a Irmandade, mas era a primeira vez que durava tanto tempo, e provavelmente a primeira vez que a situação vinha acompanhada de uma ficha policial.
— É melhor se você não souber.
— Que tipo de resposta é essa? Eu sou seu pai!
O homem começou a xingar e Moonstar afastou o telefone do ouvido, respirando fundo e lutando contra a vontade de desligar na cara do homem, algo que não iria ajudar em nada na situação atual. Não podia contar para ele que estava sendo procurado, ia deixá-lo doido, mas tampouco sabia como o tranquilizar sem acabar dando sua localização para ele, algo que só ia colocar o homem em problemas. Talvez fosse ter de simplesmente cortar a ligação antes de falar demais.
— Eu tô bem, pai. Tô ótimo, tô seguro, tudo firmeza, ok? Por enquanto, isso é tudo que posso te falar. Mas eu ligo assim que puder.
E antes do homem insistir demais, Moonstar desligou a chamada. Ele enfiou o telefone no bolso, um tanto irritado com a situação, e se jogou no amontoado de folhas mais próximo. De repente, sentiu falta da cama quentinha do Instituto, sem cheiro de mofo e com comida na mesa todos os dias de manhã. Miguel conseguia fazer crescer algumas frutas, mas se Moonstar tivesse de comer mais uma maçã ia ficar maluco. Às vezes, Marlene mandava alguns gatos roubarem comida de supermercados para eles, mas mesmo assim só dava para viver de bolo e salgadinhos até um certo ponto. Ele mataria por um cozido de kimchi agora.
— E aí? — Marlene perguntou, comendo um pacote de jujubas. O pé tinha melhorado o suficiente para ela conseguir suportar o próprio peso nele, mas a garota preferia ficar sentada com ele pra cima na maior parte do tempo por precaução.
— Papai tá preocupado, mas até aí nada de mais. Eu só queria que ele me deixasse em paz.
— Hm. Pelo menos ele não tá te procurando pra te entregar pra polícia — Marlene comentou, com um sorriso sarcástico e vencido no rosto, jogando mais três jujubas na boca.
— Pelo menos vocês tem pai — Miguel completou, se levantando e espreguiçando contra a parede do esgoto. — Honestamente, eu não esperava ter de voltar pra cá. Achei que depois dos Morlocks, minha vida ia seguir pra frente, mas a cada dia, parece que eu volto mais atrás. Primeiro com a gangue da lavanderia, agora de volta pros esgotos…
Miguel suspirou, dando um peteleco em um galho próximo pendurado na parede. Manter as plantas vivas ali embaixo gastava muito de sua energia, mas era tudo o que podia fazer para o lugar ficar mais tolerável. De qualquer forma, parecia uma enorme perda de tempo, e o fazia considerar se não devia deixar tudo para trás e ir embora. Não sabia para onde, mas para algum lugar onde pudesse realmente começar de novo.
Mas então ele se lembrava de como o mundo estava dolorosamente perigoso para pessoas como ele, e como tinha sido isso que o levara até a Irmandade. Precisava deixar o mundo seguro antes. Depois…
— Puta merda — Marlene disse, de repente, com o telefone em mãos. Miguel piscou os olhos, atordoado, afastando os pensamentos e se virando para ela.
— O que foi?
— Cassian e Cather capturaram Jason Stryker. E estão trazendo ele pra cá.
— O quê?!
Miguel correu até Marlene, se abaixando para ler as mensagens no telefone dela. Moonstar ficou parado no meio da plataforma, os encarando com um olhar letárgico no rosto, parecendo tão surpreso quanto Miguel se sentia agora. Como assim tinham simplesmente capturado Jason Stryker? As mensagens de Cassian só diziam isso, sem nenhuma explicação, e estava óbvio que qualquer novidade no assunto só chegaria até eles quando o trio estivesse ali.
— Como eles fizeram isso? — Moonstar perguntou.
— Não sei! As mensagens não dizem, eles só disseram que pegaram e estão vindo pra cá!
Miguel checou o celular. Eram quatro da manhã, mas não era novidade estarem acordados àquela hora. Sem luz do sol, o dia virava noite muito facilmente ali embaixo, principalmente quando quaisquer assuntos que precisassem ser resolvidos na cidade eram mais fáceis de resolver durante a noite, como o ocasional furto de comida.
Mas para Cather e Cassian terem capturado o homem àquela hora… Tinham de estar aprontando alguma coisa. E não tinham dito a eles o que estavam fazendo, o que deixou Miguel um tanto incomodado, e pela primeira vez, ele sentiu culpa pelo pequeno deslize que tinham cometido na delegacia. Se era assim que Reese tinha se sentido, mas pior por ter afetado sua saúde, tinha sido muita sacanagem com ela.
— E o que nós fazemos? — Moonstar agora parecia um pouco irritado ao falar, e Miguel se perguntou se ele estaria experimentando o mesmo sentimento agora.
— Esperamos, eu acho — Marlene respondeu. — O que mais podemos fazer?
Mais nada, Miguel considerou. Ele se sentou ao lado de Marlene, encarando o corredor ao lado da plataforma. O silêncio era apenas cortado pela água correndo e o som dos passos de Moonstar sobre os galhos e folhas no chão da plataforma enquanto o garoto andava ansioso de um lado para o outro. Esperaram por minutos que mais pareceram horas inteiras até ouviram movimentação no corredor e, se levantando de uma vez em meio a uma onda de curiosidade, Miguel correu até o corredor e viu Cassian carregando o homem nas costas, e Cather atrás, ajudando a levá-lo pelos pés. A movimentação de sombras ao redor do corpo de Jason indicava que Cassian também estava usando os poderes para ajudar, e ainda assim, os dois pareciam bem cansados.
— Eu pego! — Miguel exclamou, descendo a plataforma e esticando o braço para a frente. Galhos grossos saíram do chão, abraçando Jason pela cintura, e crescendo em direção à plataforma, carregando o refém até lá.
Miguel o colocou no chão, e levantou uma boa quantidade de vinhas para prendê-lo bem firme contra a parede da plataforma, ainda sem conseguir acreditar muito que o homem estava ali. Não sabia se ficava impressionado, assustado, ou preocupado. Talvez as três coisas.
— Devíamos vendar ele — Marlene sugeriu. — Não quero que ele veja minha cara.
Miguel moveu a mão mais uma vez e outras vinhas cresceram sobre os olhos do homem, cobrindo sua visão. O grupo parou para apreciar o feito, ninguém falando nada por um bom instante e encarando Jason como se esperassem que o homem fosse explodir de repente, ou qualquer coisa igualmente perigosa. Então, Moonstar quebrou o silêncio.
— Beleza. E agora fazemos o quê?
— Esperamos ele acordar — Cassian respondeu. — E aí tiramos algumas respostas.
A forma como Cassian disse “tiramos” deixou muito claro que, caso pedir com gentileza não funcionasse, ele ia tentar outros métodos sem pensar duas vezes. Ninguém quis retrucar, e ao menos para Miguel, vendo Jason ali na sua frente, sabendo que ele estava envolvido até o pescoço com o problema do terrígeno, o fazia querer encher o homem de porrada de graça mesmo, sem perguntar nada, então ele que não ia reclamar de qualquer método alternativo que Cassian quisesse usar. Miguel apertou as mãos para conter o impulso de apertar as vinhas um pouco demais, precisavam dele em condições de responder, e foi se acomodar nos cantos com o restante da equipe.
[...]
Jason levou mais uma hora para acordar. Quando aconteceu, ele gemeu e se contorceu, tentando se soltar das vinhas, mas apenas por despeito Miguel acabou apertando os galhos ainda mais por um instante, só para ele parar de xingar, e cobriu também sua boca com vinhas para que não reclamasse. O time, que estivera dormindo pelos cantos, acordou de uma vez, e apesar de terem discutido em detalhes o que fariam quando o homem acordasse, nenhum deles parecia prestes a tomar os primeiros passos para isso. Por fim, foi Cassian quem, vendo como o resto do time parecia congelado no lugar, pigarreou e empinou o queixo.
— Pois bem. Jason Stryker. Filho de William Stryker, cientista e reverendo de uma série de igrejas não muito amigáveis com a minha espécie. Agora, dono das igrejas, decidiu não só pregar contra minha espécie, mas disparar bombas nos cultos. Pra quê? Pra ver se mata uns? Nada legal, Jason. Nadinha.
Agora que Cassian tinha começado a falar, Jason parou de se mexer, e era difícil dizer pela venda nos olhos, mas ele parecia estar olhando na direção do mutante. Fora isso, não se mexia, e Cassian continuou falando.
— Veja bem como as coisas vão ser. Eu vou dizer a meu amigo aqui pra tirar a sua mordaça, e então você vai responder às nossas perguntas. E, se você não responder, eu vou pedir a minha outra amiga aqui pra colocar os passarinhos dela para comerem sua pele até você ficar em carne viva. É bem razoável, eu diria, então por favor, colabore, ok?
A ideia dos passarinhos tinha sido da própria Marlene, inspirada em algum conto grego de um cara que tinha o fígado comido por corvos todos os dias ou algo assim, mas ela não parecia muito animada para executar. Em verdade, ninguém queria chegar a esse extremo, então estavam torcendo para algumas bicadas serem o suficiente para fazê-lo abrir o bico. No entanto, ninguém ali menosprezava a loucura que o fanatismo podia incutir em um seguidor, e sabiam que a situação poderia acabar sendo bem diferente. Ao menos, esperavam que isso não acontecesse.
Cassian acenou para Miguel, e ele tirou as vinhas da frente da boca de Jason. O homem não sorria, nem parecia nervoso. Em verdade, sua boa estava inteiramente inexpressiva. Não estava se contorcendo, e não parecia incomodado com nada. Não era o que ninguém ali esperava, mas muito provavelmente ele estava tentando se fazer de forte. Talvez essa postura não fosse durar por muito tempo quando começassem.
— Vamos começar bem fácil — Cassian comentou, se sentando de frente para o homem. — Onde você conseguiu as bombas de terrígeno que fica soltando nas igrejas?
Jason não respondeu. Cassian não esperou que fosse, não assim de primeira. Sabia que ia precisar tentar algumas vezes.
— Você sabe quem é Cameron Hodge? Tem alguma ligação com ele?
Silêncio, mais uma vez.
— O trabalho de seu pai com a Arma X tem sido reutilizado recentemente?
Ainda nada. Cassian suspirou, se virou para Marlene e fez um joia com o dedão para ela.
Marlene respirou fundo, estendendo a mão à frente e chamando um pássaro. Demorou algum tempo para um pombo aparecer, o bicho teve de voar por dentro do tubo do esgoto e não parecia nem um pouco feliz por ter feito isso. Pousou sobre as vinhas de Miguel um pouco confuso, virando a cabeça de lado e balançando as asas. Se soubesse ler bichos, Miguel diria que estava irritado. E como não estar? No lugar dele, estaria também.
O bicho caminhou com as perninhas tortas e pulou para pousar no colo de Jason. O cheiro de esgoto ficou ainda mais forte uma vez que o pombo estava molhado. A boca de Jason pareceu tremer um pouco, mas foi a única reação que ele manifestou.
— Vamos tentar de novo — Cassian comentou. — O terrígeno. Onde você está conseguindo as bombas?
Jason não respondeu. Marlene comandou o pombo para se mover e bicar o dedo do homem, e assim começaram as mais longas duas horas da vida de Cassian.
Jason simplesmente se recusava a responder. Não importava o quanto o pombo o bicasse, ou depois, dois pombos, ou se Cassian ameaçasse de chutar a cara dele — e chutasse de fato — ou qualquer coisa parecida, nada parecia fazê-lo começar a falar. Em algum momento, ele podia jurar que viu Jason sorrir. Enfim, decidiram fazer uma pausa, e foi nesse momento de pausa que Cather achou melhor chamar Cassian para um canto, fora da plataforma.
— O que foi? — Ele perguntou em um sussurro, quando os dois desceram para o passeio ao lado do córrego do esgoto, longe o bastante para Jason não os ouvir.
— Isso tá muito estranho, você não acha?
Cassian deu de ombros. Não sabia dizer, nunca tinha interrogado alguém antes. Não sabia o que seria um comportamento esperado e o que não seria. Mas reconhecia aquela expressão no rosto de Cather, aquele franzido leve na testa e aquela compenetração de quem estava pensando muito em alguma coisa. E não gostou da nota de preocupação no rosto da garota.
— O que quer dizer? — Perguntou, cruzando os braços.
— É só… Algumas coisas não fazem sentido. Como Jason sabia que estávamos lá àquela hora da madrugada?
— Já falamos disso. Deve ter sido algum alarme silencioso.
— Sim, mas… Ele chegou lá muito rápido. E ele foi. Por que não mandar um capanga, ele deve ter vários, não deve? É quase como se… É quase como se ele já estivesse se preparando para ir pra lá.
A expressão de Cassian perdeu a curiosidade, ficando branca e assumindo um leve tom de preocupação. Não estava gostando nada do rumo dessa conversa.
— Às vezes é protocolo. Às vezes ele já tá acostumado com responder esse tipo de alarme assim mesmo. Você mesma comentou que ele sabia brigar.
— E ainda assim foi capturado por uma adolescente com a mutação semi-funcional cujo poder nem é altamente destrutivo.
— Você não disse que sabe o tal do “vovitam”?
— É vovinam. E Cassian, você não tá prestando atenção no meu ponto. Veja bem, estamos irritando ele com pombos e perguntas e ele nem muda de expressão. Isso é muito estranho… Eu não sei. Olha bem pra nós. Você não tem a impressão de que ele é a única pessoa que quer estar aqui?
Cassian esticou o olhar para a plataforma, vendo o rosto muito sereno de Jason preso à parede como se não tivesse um pombo lhe bicando a perna a uma hora inteira. Ele engoliu em seco, mas não respondeu. Não queria admitir em voz alta que ela tinha razão.
[...]
As coisas pioraram nas horas seguintes. Com as palavras de Cather ecoando na cabeça, Cassian ficou muito ansioso para conseguir suas respostas o mais rápido que conseguisse. Ele desistiu dos pombos, mas começou a dizer para Miguel apertar as vinhas a cada vez que não fosse respondido. A qualquer momento Jason ia começar a ter problemas sérios de circulação. Ele devia estar desesperado, ou ao menos incomodado, e ainda assim…
Tinham começado a dormir em turnos, mas Miguel não conseguia dormir muito bem, preocupado com as vinhas e se Jason estaria preso o suficiente. Cather começara a caminhar, ansiosa, de um lado a outro do lado de fora da plataforma, e Cassian estava se segurando para não fazer a mesma coisa. Já tinham desbloqueado o celular de Jason com a digital dele, mas Moonstar não achou nada além de mensagem de fiel da igreja perguntando quando ia ser a próxima reunião, e todas as mensagens eram velhas o bastante para essas reuniões terem passado. Não tinha sequer um endereço nas conversas. Jason não parecia que ia dobrar, e Cassian quis muito, do fundo do coração, acreditar que Cather estava apenas sendo paranoica, e na verdade, Jason era doido, mesmo.
Mas Cather se provou certa na tarde do dia seguinte.
A primeira coisa que Cassian ouviu foi um grito. No instante seguinte, a plataforma foi inundada de homens. Dezenas, usando trajes amarelos com capacetes similares a uma versão menor de um traje de proteção. Dois traziam Cather segura firme pelos braços, e a jogaram na plataforma com violência o bastante para ela bater a cabeça no chão e começar a sangrar. À frente do pequeno exército, haviam dois homens. O mais ao meio usava um traje verde, com uma logomarca de um polvo desenhado no meio, e trazia um monóculo no olho direito. O outro ao seu lado era…
— Hodge! — Cassian exclamou, correndo até Cather para ajudá-la a se levantar. A garota o olhou um pouco zonza, levando a mão à têmpora, onde havia um corte sangrando moderadamente.
Cassian ergueu o rosto, irritado, e apertou a mão, chamando as sombras da plataforma para perto, mas antes que pudesse fazer algo, o homem do monóculo levantou a mão, mostrando uma bomba de terrígeno.
— Eu não faria isso se fosse você. Não tem necessidade.
O garoto olhou para trás, vendo seu time se encolher contra as paredes do local. Se ele disparasse aquela bomba, era muito provável que nada acontecesse com Cassian, mas o restante de seu time provavelmente não teria tanta sorte. Cather tinha sofrido consideravelmente com a primeira bomba, e Moonstar tinha chegado perto demais de morrer. Engolindo a bile que lhe subia pelo estômago, Cassian abaixou a mão e soltou as sombras.
— Muito bom — o homem respondeu. — Solte meu associado, por favor. Vamos colaborar e eu prometo que não mato todos vocês.
Rangendo os dentes, Cassian sinalizou para Miguel soltar as vinhas de Jason. O garoto obedeceu, e Jason se levantou, apertando os pulsos e os olhos, friccionando uma série de pontos avermelhados na pele.
— Você demorou demais — Jason comentou, saindo da plataforma e alcançando os outros dois homens. — Estou a horas sendo bicado por pombos. Quase joguei tudo pros ares e saí daqui.
— Pare de reclamar, não foi fácil preparar tudo tão rápido assim.
Cassian deixou o queixo cair, abraçando uma Cather atordoada mais para perto. Ela tinha razão. Eles tinham planejado tudo. Por quê? Teriam feito isso apenas para encontrá-los? Ele sentiu os músculos tremerem, os olhos presos na bomba na mão do homem do meio, pensando se conseguiria tirá-la dali. Sequer sabia quem ele era. Tinha pensado que estavam na frente da situação, e só agora conseguia perceber o quão pouco sabiam de fato.
— Essas não são as crianças da igreja que pegou fogo — o homem comentou, passando a bomba para Jason.
— Eu já falei — Hodge respondeu. — Aquelas estão com os X-Men, não vai ser fácil chegar até elas.
— Tudo bem, nós vamos conseguir. Eu sequer os consideraria um problema, fazendo perguntas, salvando gente de lugar em chamas, eles parecem mais uma versão infantil de um bombeiro escolar. Mas se esses aqui podem fazer o que fizeram… É melhor evitar que as outras crianças comecem a ter ideias demais. Mas, de qualquer forma, um problema de cada vez. Sabem, quando um amigo meu me telefonou para dizer que um bando de crianças mutantes tinha roubado informações dele na delegacia, eu fiquei chocado. Parecia irresponsável demais para os mutantes do Instituto. Mas então eu descobri que vocês eram duas equipes diferentes, e honestamente, vocês estão saindo do chão igual baratas, ou coisa parecida? Isso é muito inconveniente. Veja bem, eu não tenho um problema com vocês, não é nada pessoal, mas eles dois aqui tem e eu tenho que concordar que menos mutantes no mundo significa menos problemas pra mim, então… Uma mão lava a outra, sabe como é.
Cassian apertou Cather mais contra si, arrastando um pouco para trás. Ele olhou para a parede, onde Marlene estava pregada a um canto da plataforma, Moonstar tinha se agachado ao lado dela, e Miguel estava um pouco mais afastado, com as mãos no chão, e Cassian se perguntou se ele estaria fazendo alguma coisa. Desejou profundamente que não. Ele talvez fosse imune a terrígeno e soubesse isso, mas a situação toda era muito delicada agora para correr esse tipo de risco. Moonstar e Cather poderiam não sobreviver.
— Não… — Cather murmurou, se sentando um pouco melhor. A têmpora parecia estar parando de sangrar. — Não pode ser… Você…
— O que foi? — Cassian perguntou.
— A polícia… Foi assim que ele sabia que estaríamos na mansão, é assim que eles estão conseguindo terrígeno. Você não ouviu? Ele tem um amigo na delegacia. Ele está pagando a polícia pra desviar estoque apreendido de terrígeno pra ele… E de quebra ficou sabendo da nossa invasão.
Não…
Cassian só não soltou um palavrão pois não conseguiu fechar a boca. Como tinham sido tão obtusos? Deviam ter percebido. Deviam ter imaginado. Deviam… Não… Todo esse tempo tinha pensado que estavam na frente, descobrindo tudo, desfazendo o esquema deles, e o tempo todo… Nunca tinham estado na frente de fato, tinham?
— Vocês têm sido uma pedrinha pequena, mas irritante no meu sapato. A coisa mais sensata a se fazer aqui seria me livrar de vocês, mas eu sou um homem da minha palavra.
Uma risada escapou no final da frase, um tipo de escárnio? Não… Era graça, mesmo. Ele estava achando engraçado. Estava menosprezando a equipe. Não ia matá-los porque não achava que eram problema, e como poderia, quando tinha estado vários passos à frente deles desde o começo? Ele provavelmente nem tinha precisado se esforçar muito para tirar Hodge da cadeia, devia ter pagado pessoas por lá também. Toda a situação era tão degradante que deixara Cassian enjoado, e era apenas o coração disparado e a adrenalina do medo correndo por suas veias que o impediu de vomitar naquele momento.
— De qualquer forma… você é inteligente, garota. Deve ser a líder da operação — o homem continuou.
— É muito esperta também — Jason respondeu, virando o rosto para o homem e mostrando as cicatrizes dos arranhões deixados ali por Cather. — Mas não tão perigosa, em retrospecto.
— Ah, é claro. O motivo pelo qual você estava aqui. Qual sua avaliação final?
— A maior parte deles é tão perigosa quanto qualquer criança com poderes. Exceto… Aquele ali.
Jason esticou a mão, apontando para o fundo da plataforma, e Cassian se virou para ver que o dedo estava bem na direção de Miguel.
— Ele foi aquele que derrubou uma equipe de máfia na cidade sozinho, e que fez a redoma da delegacia. E também que me prendeu na parede de forma muito desconfortável. Sem falar na redecoração do lugar.
— Interessante.
E então para absoluto pânico dos presentes, o homem estendeu a mão para o lado e pegou uma pistola com um dos seus soldados.
Cassian sentiu uma pedra de gelo cair em direção ao seu estômago. Ele se moveu, esticando o braço para colocar uma barreira de sombra sólida na frente de Miguel, mas Jason levantou o braço com a bomba e Cather ainda pressionava a ferida na testa. Podia salvar Miguel, mas então eles iam soltar a bomba, e o garoto não só poderia morrer de qualquer forma, como ainda poderiam levar Cather e Moonstar com ele.
E, mais uma vez desde que perdera Evelinne e Charlotte, Cassian se sentiu impotente.
— Não — ele pediu. — Por favor, ele vai embora. Vai morar numa floresta qualquer, nunca mais vai incomodar. Eu prometo. Por favor…
— Talvez você devesse ter pensado nisso antes de se meter em assuntos de adultos.
O homem destravou e preparou a arma. Marlene fez um movimento para se levantar, e então não apenas Jason, mas também uma dezena dos soldados de amarelo mostraram bombas para eles. A garota engoliu em seco. Moonstar parecia pregado à parede, incapaz de mover um músculo. E Miguel…
O garoto olhou para o homem em terror, vendo o cano da arma se apontar para ele. Tinha pensado mais cedo sobre como não tinha mais família viva, sobre como cada passo que dava para frente parecia estar o levando mais para trás, e naquele momento, encarando a arma apontada para seu rosto, ele percebeu, não era bem esse o caso.
Todo esse tempo, tinha feito o que podia para ajudar Cassian e os outros a protegerem aqueles que eram como eles. Para tentar acabar com tudo isso. Para que as próximas crianças que não encontrassem alento em seus lares não precisassem se esconder nos esgotos da cidade. Não podia ter sido tudo à toa. Simplesmente não podia.
— Ok, garoto. Acredite. Não é pessoal. E vocês… Fiquem fora das minhas coisas, ou na próxima vez, eu vou explodir as bombas sem aviso nenhum.
E o barulho de dois tiros seguidos ecoou no local.
Cather gritou. Marlene também devia estar enjoada, pois se virou para vomitar. Moonstar parecia ainda mais branco que de costume, e Cassian sentiu um ataque de tremedeira engolir seu corpo. Miguel caiu no chão, e em vez de sangrar, seiva branca começou a se espalhar pelo chão, por cima das plantas dele que, pouco a pouco, começaram a ressecar e morrer.
O homem pareceu satisfeito com seu feito, e como prometido, caminhou para fora da plataforma sem dar a mínima atenção aos demais. Como se não tivesse feito nada demais.
Cassian sentiu o estômago se retorcer, e em um acesso de fúria, soltou tudo o que sentia em um grito, a plenos pulmões.
— EU VOU MATAR VOCÊS! TODOS VOCÊS! EU PROMETO!
O grupo parou. O homem se virou para trás, e a única reação que Cassian viu em seu rosto foi um pequeno sorriso. Então, o grupo saiu.
Marlene tinha corrido até Miguel, tentava o socorrer de alguma forma, mas claramente o homem tinha experiência com tiros. Tinha perfurado duas artérias vitais, e Miguel aparentemente era humano o bastante para ter essas mesmas artérias no corpo, pois já estava sem vida quando Cather e Cassian conseguiram chegar até ele.
— Isso não pode… Não pode…
Cather soluçou, a garganta apertando e lágrimas subindo aos olhos. Ela começou a chorar. Marlene chorava. Cassian sentiu uma lágrima escorrer, os braços ainda tremendo de raiva, e Moonstar parecia completamente congelado no lugar. Simples assim, Miguel tinha morrido. Por ser forte demais. Uma ameaça. E pronto. Se fora.
— Gente — Moonstar chamou, a voz grave e presa na garganta. O grupo desviou o rosto para ele, vendo que o garoto apontava para um canto da plataforma, onde as plantas secavam mais devagar.
Havia uma boa quantidade de flores pretas ali, organizadas de uma forma específica. Cassian franziu a testa, os olhos embaçados pelas lágrimas, tentando entender o que aquilo queria dizer, quando depois de bastante esforço reconheceu a palavra “lutem” soletrada entre as flores.
— Miguel? — Ele chamou, mas o garoto estava irresponsivo.
Já era tarde. Cather chorava, Cassian tremia, Moonstar e Marlene pareciam doentes. As plantas continuaram secando, e as flores também desapareceram. Aos poucos, o time se viu sentado em cima de uma pilha de plantas secas, com Miguel caído entre eles, e uma ameaça silenciosa pairando no ar. Uma ameaça que, eventualmente, Cather conseguiu perceber.
— Ah, não… — ela murmurou, fungando e enxugando lágrimas com os braços um pouco trêmulos. — Ah não… Vocês ouviram… Eles vão atrás deles pelo que fizemos…
— Atrás de quem? — Cassian perguntou, as mãos inundadas da seiva branca de Miguel.
— As crianças do Instituto — Cather respondeu. — Eles vão tentar exterminar a gente.
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