Irmandade de Mutantes: Supremacia Marvel 717 3
28 A Casa Cai
Grace pousou graciosamente no batente da porta da casa, as asas se fechando às suas costas. Usava seu uniforme de Nova Mutante, uma decisão com a qual relutou por muito tempo por não saber exatamente se seria uma coisa boa ou não, mas decidiu que seria. Tinha lutado por esse uniforme e feito tudo o que podia enquanto o time ainda existia para que as coisas funcionassem da melhor forma possível. Tinha sido uma heroína. E no fim das contas, era sobre isso, correto? Sobre seus feitos e suas conquistas? Tinha feito tudo a seu alcance para se tornar um orgulho aos olhos do pai, e certamente teria conseguido. O que era melhor que uma super-heroína? Nada.
Ela respirou fundo, ajeitou a jaqueta da roupa e endireitou a postura. Não tinha avisado ao pai que estava indo, por algum motivo achou que era melhor ir de surpresa. Sua mãe também não sabia, ou, Grace tinha certeza, tentaria convencê-la do contrário. Mas isso não era um problema. Sua mãe só tentaria fazer isso porque não entendia a situação e não entendia seu pai. Mas ela entendia. E agora ia ficar tudo bem.
Grace esticou a mão, tocando a campainha da casa e esperando. Seu pai morava em uma casa bem maior que a que ela ocupava com a mãe, e não deveria ser surpresa considerando como o trabalho de advogado pagava bem a ele, mas ainda assim, Grace sentiu algo estranho… Não era inveja, era… ressentimento? Não era que tivessem faltado coisas para ela e sua mãe, mas certamente não tinha sobrado, e aquilo ali…
Não importava, com certeza havia uma explicação. Ela tinha encontrado o endereço dele usando o Cérebro, mas ele não ia se importar. Era sua filha, afinal. E então, depois que tivessem conversado, tudo ia se resolver. Só precisava de uns minutos… Ela balançou no lugar um pouco, contendo o impulso de bater o pé no chão e encarando a porta ansiosa, pensando se deveria tocar de novo. Estava cozinhando esse pensamento quando a porta se abriu.
E era justamente seu pai. Usava um roupão vinho e pantufas de seda nos pés, carregando um jornal debaixo do braço. Ele encarou a garota, sua sobrancelha subindo devagar e o rosto ficando gradualmente branco. Grace sentiu um comichão esquisito no estômago, o tipo de coisa que que ela sentia quando imaginava estar com problemas. E o olhar no rosto dele não parecia ajudar.
— O que raios…
— Pai! Olá! Eu pensei em-
O homem interrompeu a fala de Grace, olhando agitado para a rua deserta e a puxando para dentro pelo braço, batendo a porta em seguida. Parecia bravo. Ela o conhecia bravo. De repente, pensou se devia ter ido ali. De repente, pensou que não tinha sido uma ideia muito boa.
— O que você está fazendo aqui? E vestida desse jeito?
— Bem eu… O senhor usa Instagram? Eu pensei… Pai, eu sou uma super-heroína! Eu ajudo as pessoas, igual a você! Eu…
— Eu e você não temos nada a ver um com o outro! Nada! Eu pensei que tinha deixado claro que não tinha filha!
A garota piscou os olhos, dando um passo para trás, receosa, ao ver a postura do homem se inclinando um pouco em sua direção quase de forma ameaçadora. Não. Não era quase. Era ameaçador mesmo.
— P-pai, eu…
Mas ela perdeu as palavras na garganta. Ele começou a digitar algo no telefone, furiosamente, e a meio tempo da digitação, falou com ela.
— Eu não sei como você achou esse endereço, e não quero saber, mas não é para voltar aqui nunca mais, está me entendendo? Meu choffer vai te pegar na garagem e te deixar em algum lugar longe o suficiente daqui pra ninguém te ver saindo da casa.
— M-mas pai, eu…
— Eu não sou seu pai!
Ele a pegou pelo braço, mais uma vez. Grace já não fez esforço algum para esconder o choro, sua cabeça dando voltas e mais voltas enquanto era levada até a garagem.
Não tinha feito diferença alguma. Sua mãe tinha razão. Seu pai achava que mutantes eram todos monstros asquerosos, e ia continuar achando não importando o que ela fizesse ou o quanto tentasse provar que esse não era o caso. Seu pai não estava enganado, ou mal direcionado pelas coisas que tinha vivido na vida. Não era um caso de dar a ele uma prova de que as coisas não eram assim, e pronto. Não. Ele era como eles. Jason e as outras pessoas da igreja. Ele era exatamente como eles.
Grace parou de andar quando os dois estavam na frente do carro, puxando o braço com uma força que surpreendeu até a si mesma, e se virando para o pai com a testa franzida, as asas se expandindo às suas costas.
— Você é meu pai, quer queira, quer não! E saiba você que para eu existir assim, pelo menos metade de você e metade de mamãe tem que ser como eu. Mutações são genes recessivos. Não se vira mutante do nada, isso vem dos pais.
— Isso não é —
— É verdade sim! Faz um teste, papai. Assim você vai ver como a gente não é tão diferente assim.
Grace se desvencilhou do homem, voando para o alto da garagem, longe do alcance dele, do carro de do choffer. Ela voou de volta para dentro da casa e então para a janela mais próxima, saindo da casa pela janela e abrindo vôo em direção ao céu, sem se importar se alguém ia ver. Torcendo para alguém ver. Se seu pai queria servir como um símbolo para o ódio, ela ia fazer o contrário. Que lhe importava se os Novos Mutantes tivessem acabado? E até que, em parte, tivesse sido sua culpa? Haviam pessoas no mundo que precisavam de pessoas como eles. Era seu dever não desistir quando tudo se complicasse demais.
[...]
Nathaniel se reclinou na cadeira, os dedos batucando nos braços do móvel enquanto ele assistia Esther digitando algo no computador do outro lado do laboratório. Ela tinha dito que teria resultados em alguns dias, graças à quantidade de informação que Bobby já tinha sobre ele — incluindo um sequenciamento genético e diversos testes práticos — e embora Nath não estivesse exatamente animado sobre os resultados, o pânico tinha desaparecido.
Nos últimos dias, trocara de pele mais uma vez. Não disse nada a ninguém na hora, aconteceu de madrugada e ele jogou a pele velha no lixo como se nada tivesse acontecido. Mas no dia seguinte Esther olhou para ele e soube na mesma hora que ele tinha trocado, certamente já tinha visto o efeito vezes demais em cobras para poder identificar, e começou a fazer tantas perguntas depois disso que em dado momento Nath concordou com deixar ela examinar seus dados.
Não sabia dizer porque tinha confiado nela para isso, ou porque sentia diferente sobre isso em relação a deixar Bobby saber, por exemplo, mas havia algum nível de segurança envolvido. Parte de Nath achava que era porque, se fossem notícias ruins, Luke não ia ficar sabendo se não quisesse. Poderia evitar falar sobre. A outra parte simplesmente achava mais fácil discutir essas coisas com alguém com quem não tinha tanta intimidade assim. Não se sentia tão envergonhado. Era quase como visitar um médico.
De qualquer forma, agora estava ali, esperando, e não demorou para Esther se afastar do computador e ir até a mesa onde ele estava sentado com uma pilha de papéis. Os dois vinham fazendo uma série de testes à parte também, e embora Nath soubesse que Bobby e os demais no Instituto eram especialistas em mutantes e fizeram o melhor que puderam, era impressionante o que uma especialista em cobras estava conseguindo com ele.
— Ok, acho que podemos começar — ela disse, algo que Nath não podia ouvir, mas estava ficando muito melhor com ler os lábios de quem falava com ele e associar isso com as poucas vibrações e sons abafados que conseguia detectar.
Não era o tipo de coisa que funcionava com muito barulho externo interferindo, mas Esther parecia achar que era uma habilidade crua que ele poderia treinar com o tempo. Ele já tinha ouvido isso antes, mas essa tinha sido a primeira vez na qual acreditou de fato. Por via das dúvidas, o telefone estava ao lado dele, e vez ou outra ele desviava os olhos para o aplicativo para ler pedaços que não tinha entendido.
— A força é impressionante. Muitas cobras são superfortes, e você certamente herdou essa característica nos seus ossos. Você tem os olhos normais apesar das pupilas, pode ser que afete um pouco a sua fotossensibilidade, mas não é nada impossível de lidar. Pode tentar uns óculos escuros quando mudar de um ambiente muito escuro para um muito claro, mas você ainda tem a habilidade de expandir e contrair as pupilas como uma pessoa comum, apenas dentro de um limite diferente.
Nath assentiu. Tinha entendido o que ela queria dizer, mas ficou grato ainda assim quando ela foi lhe entregando os laudos. Gostaria de ler tudo com calma depois.
— O seu nariz também é normal, majoritariamente, mas você tem fossetas loreais.
— O que é isso?
— É como se fosse uma visão de calor. Uma hiper detecção de mudanças de temperatura.
— É por isso que eu to sempre com frio?
— Em partes. Eu achei estranho você falar que sentia tanto frio, mas aí me ocorreu, você não é uma cobra. Cobras sabem regular a temperatura do corpo instintivamente, você provavelmente não está pegando Sol o bastante. Já chegou a ficar quente demais?
Nath negou com a cabeça. Sequer sabia que isso era uma possibilidade, acostumado com o frio como estava.
— É algo que pode acontecer. A boa notícia é que algumas cobras como as Python são de atividade noturna, e não precisam de luz do sol, basta um ambiente aquecido para se sentirem bem. Então talvez um apetrecho como um smartwatch possa medir sua temperatura e fazer esse controle para você, te ajudando a controlar os horários e a quantidade de Sol para manter o corpo aquecido. Você ainda é parte humano, no fim das contas, o suficiente para conseguir reter o calor, eu espero.
Isso seria útil. Nath estava sempre indo pelo instinto: se estava frio, ia pro Sol. Se não estava mais, saía. Talvez ter uma forma melhor de controlar isso pudesse impedir o frio excessivo de vez. Talvez uma lareira ou um aquecedor fossem o suficiente pra isso.
— Eu nunca consegui usar visão de calor.
— Podemos dar uma olhada nisso depois com calma. Eu vou ser sincera, ainda não sei bem como funcionaria com você, já que você tem uma visão tridimensional completa, e todo o resto…
Nath sabia que não iria conseguir todas as respostas de uma vez, então tentou não se chatear muito com a resposta. Já estava descobrindo coisas demais, e estava muito grato por isso.
— Algo com a minha audição?
— Sim. Você tem o ouvido externo dos humanos, mas internamente seus ossos estão ajeitados como os de uma cobra. Uma cobra escuta sons de 50 a 1000Hz em média, o que são os sons mais graves e é um alcance um tanto fora da frequência de fala humana, salvo alguns sons específicos. Eu entendo porque você sente a vibração dos sons, os ossos do ouvido estão conectados com o maxilar, como uma cobra, e daí conectados com seu crânio, como um humano, então… Nath, eu não acho que você possa chegar a ouvir, mas acho que possa aprender a identificar as vibrações. Temos de testar a frequência exata que você detecta depois, saber se é exatamente igual a das cobras, mas… é uma ideia.
O garoto se lembrou de todas as vezes na qual dissera sentir os sons contra si, principalmente nos headphones de Luke, e de repente se sentiu idiota por não ter, de fato, seguido essa pista antes. Já entendera que iria ser surdo para sempre, mas ouvir e entender talvez fossem mesmo coisas distintas no fim das contas.
— A última coisa — ela comentou, entregando uma última folha de papel. — Você tem um dos venenos mais confusos que eu já testei. Paralisia, sim, um pouco de necrose também, e não é uma cópia exata do veneno de nenhuma cobra que eu já tenha analisado. Mas então eu resolvi destilar ele, e percebi que na verdade o efeito depende da quantidade. Em pequenas doses pode causar um pouco de dormência, em doses grandes, necrose. Isso são excelentes notícias!
Excelentes? Como necrose era uma excelente notícia, quando isso tinha arruinado seu namoro? Não tinha mencionado essa parte para ela, mas algo em seu rosto devia ter deixado claro o que estava pensando, pois Esther abaixou os papéis e tirou os óculos de leitura, o chamando a atenção com um carinho no ombro.
— O que foi? — Ela perguntou.
— É só… Eu tinha um namorado. Mas terminou porque eu tinha muito medo de beijar ele, e agora…
— Oh. Nath… Você não vai paralisar alguém com um beijo. Muito menos necrosar.
— Bem, eu não sei o que é “muito veneno” ou “pouco veneno” então…
— Algumas cobras matam alguém se uma gota cair na corrente sanguínea. Isso não é você. O seu veneno precisa acumular consideravelmente para causar paralisia local. Mais ainda para necrosar a região, apenas, mas não vai matar ninguém rápido assim.
Nath piscou os olhos, assustado. Se lembrava de ter beijado um garoto uma vez, e de ter acidentalmente mordido a boca dele, e que depois ele tinha ficado semanas sem sentir o lábio. Tinha sido apenas uma mordida de nada, e o evento o assustou muito quanto ao que aconteceria se mordesse alguém pra valer. Mas talvez… Talvez não tivesse sido uma mordida tão breve assim? Ou talvez…
— Uma vez… — Ele engoliu em seco. Essa era uma resposta que tinha de ter. — Eu beijei um garoto… E eu só raspei as presas nele e ele ficou sem sentir a boca por dias. Então…
— Quando foi isso?
— Alguns anos atrás. Pouco tempo depois da minha mutação surgir.
— Entendo… Bom, tenho de supor que ela estabilizou, porque isso não é o que eu vejo aqui. Talvez tenha sido um surto do seu gene na época, mas hoje em dia… Seja lá o que era, não é assim mais. Raspar suas presas em alguém vai fazer tanto mal quanto riscá-las com a ponta de uma caneta.
O queixo de Nath caiu, aos poucos. Ele puxou os papéis para perto, incrédulo, começando a trocar de uma folha para a outra em um estado de estupor absoluto. Superforça. Audição sensitiva. Visão de calor. Veneno controlável e não letal. Luke tinha razão. Bobby, seu terapeuta, todo mundo… Devia ter procurado saber sobre isso tudo antes. Tivera medo, é claro que sim, mas agora…
— Ah, mais uma coisa, para terminar! — Esther exclamou. — Cobras trocam de pele mesmo na vida adulta, quando estão feridas por exemplo. As ajuda a se curar mais rápido.
— Eu tenho fator de cura?!
— Bem…
Esther foi interrompida pelo telefone, vibrando incessantemente na mesa e provavelmente tocando alguma musiquinha que Nath não ouvia. Ele viu o nome de Clarissa na chamada e esperou Esther atender a ligação, olhando os relatórios em sua frente com uma mistura de surpresa e confusão no rosto. Ainda não sabia o que decidir disso tudo. Pareciam boas notícias, ou ao menos melhores que ele esperava. Mas eram boas? Tinham de ser. Podia beijar Luke? Podia mesmo fazer isso?
— Ei, Nath — Esther chamou, e ele ergueu o olhar confuso dos papéis para ela. — Clarissa te pediu para checar o Instagram, disse que é urgente.
O garoto deixou os papéis de lado, imaginando que tipo de postagem poderia ser mais importante que seu assessoramento, que a garota sabia que ele estaria fazendo naquele momento. Ele começou a rolar o feed com meia atenção apenas, mas não demorou a encontrar o que ela queria que ele visse.
— O que foi? — Esther chamou, e Nath tinha certeza que se tivesse sangue quente teria perdido a cor do rosto na hora.
Encarando o vídeo em sua frente, ele não conseguiu responder a mulher enquanto tudo se desenrolava, até que quando enfim respondeu, foi com uma palavra só.
— Merda.
[...]
As tardes de Luke eram bem mais livres agora que não tinha mais prática do time para fazer, e embora estivesse investindo tempo nisso por conta, não era nem de perto tanto tempo quanto costumava ser. Naquela tarde, ele se sentou na cozinha com um vídeo em seu celular, comendo cereal com leite de uma tigela. Teria assistido a série de gameplay inteira do jogo novo do Gavião Arqueiro que tinha saído, não fosse pela gritaria que começou a ouvir do lado de fora da cozinha.
Ele bufou, batendo a cabeça na mesa, frustrado. Terminou seu cereal às pressas e deixou a cozinha, se perguntando que raios estaria acontecendo agora, e qual criança estaria brigando com a outra pra usar a action figure da Miragem dessa vez, e deu de cara com dezenas de crianças chorando e se escondendo atrás dos sofás, debaixo das mesas, olhando para ele com expressões de terror. Outros alunos mais velhos pareciam estar tentando convencer as crianças a irem para algum lugar, e ainda sem entender de onde toda a comoção vinha, Luke deixou as crianças na sala e abriu as portas da frente.
Vários caminhões de guerra estavam parados do outro lado da cerca da mansão. Dezenas de soldados em roupas amarelas desciam deles, armados, apontando as armas para a casa. Vários traziam bombas de terrígeno presas ao cinto.
Luke sentiu o ar escapar de seu pulmão, uma lufada de pânico se alojando em seu estômago enquanto fechava a porta da casa. Ele se virou para trás, zonzo, vendo as crianças se escondendo. Um garotinho de não mais de cinco anos chorava debaixo do aparador, agarrado às pernas dele enquanto uma garota de uns doze tentava convencê-lo a se levantar. Um grupo de pré-adolescentes tinha se abraçado sobre o tapete, e no meio da choradeira, conseguia ouvir uma reza murmurada. Várias outras crianças estavam ainda correndo de um lado para o outro, subindo as escadas, descendo, gritando, ligando para os pais… Ninguém parecia saber onde ir, ou o que fazer, e de repente Luke quis se esconder e fugir também.
Mas não era isso que um líder fazia.
Bobby tinha dito a ele que parte do que fazia Scott um bom líder era como ele sempre tentava salvar as pessoas, mas que a outra parte igualmente importante eram as escolhas difíceis que tinha feito. As que podiam acabar mal… Mas que tinham de ser feitas ainda assim. Ele não poderia acertar todas, mas com certeza era melhor tentar a assistir em silêncio enquanto tudo desmoronava em seu redor.
Ele fechou as cortinas, deixando uma pequena fresta aberta em uma delas para olhar o lado de fora. As defesas da casa tinham sido ativadas, incluindo um escudo de força e várias armas automáticas, mas Luke estava bem menos otimista quanto à quantidade de dano que poderiam aguentar que gostaria.
O garoto se virou para dentro, e mais pessoas tinham descido para a sala, incluindo o restante de seu antigo time.
— O que, pelos raios… — Damon começou.
— Estamos sendo atacados — Luke respondeu.
O caos ainda acontecia ali embaixo. Precisava fazer algo. Já.
— Ok, veja só o que vamos fazer — ele anunciou, as engrenagens em sua cabeça girando mais rápido que conseguia acompanhar, mas com certeza, rápido o suficiente. — Nossa prioridade tem que ser evacuar a casa. Damon, encontre Bobby. Ele estava nos laboratórios do porão, o alarme deve ter acabado de disparar, deve estar subindo pra cá.
Damon o olhou meio atordoado por um instante, mas assentiu, e deixou a sala em direção aos andares de baixo. Luke continuou.
— Grace, o escudo da casa vai aguentar por mais um bom tempo. Voe lá fora, dê uma boa olhada no quarteirão. Filme se precisar. Precisamos saber direito o que está acontecendo por todos os ângulos. — A garota assentiu e saiu. — Balu, tem muita gente à beira de um ataque de pânico aqui, por favor veja se consegue ajudar. E Amália… Aquela sua conta no Instagram. Mostre pras pessoas o que está acontecendo.
— Oh. Você tem certeza?
— Absoluta. Faça o escândalo que precisar.
Amália concordou, e enfiou a mão no bolso tirando o celular e mudando para a função de vídeo. Luke se juntou a Balu, tentando convencer as crianças a se reorganizarem. Tinha de evacuar a casa mas isso não ia dar certo com todo mundo em estado de pânico daquele jeito. Barulhos de tiro começaram a ecoar contra o escudo, e ele se perguntou se Grace estaria bem, mas afastou a preocupação rápido da cabeça. Ela sabia se cuidar. Tinha de focar em fazer as coisas funcionarem, e confiar que seu time sabia o que estava fazendo.
— Oi, gente — Amália começou seu vídeo, quando Luke enfim conseguiu ajudar um menino a ir até a cozinha tomar um copo de água. — Aqui é a Maria Fumaça, fazendo um vídeo direto do Instituto para vocês… Estamos sendo atacados. Não sabemos o que está acontecendo…
A garota filmou o lado de fora pela janela, um pouco, e depois virou a câmera para a sala.
— Tem crianças aqui. Nós não somos um exército, à exceção dos Novos Mutantes, as demais crianças não sabem se defender. Devem haver cerca de cinquenta crianças precisando de ajuda. Por favor, espalhem esse vídeo… Se você é um herói lendo isso, por favor nos ajude.
Damon não demorou a aparecer depois disso, com Bobby à tiracolo, muito vermelho. Não haviam outros X-Men na casa naquele momento, e Luke pouquíssimas vezes tinha visto Bobby tão furioso como parecia agora.
— Eu vou dar um jeito nisso — ele comentou, se dirigindo até a porta da casa. — Luke, leve as crianças para —
— Não! — Luke interrompeu, segurando o pulso de Bobby.
Não sabia dizer o que o levou a fazer isso. Sequer sabia como tinha reagido tão rápido, a cabeça ainda girando entre problemas e possibilidades. Mas Bobby sequer tinha pensado antes de se voluntariar para ir para fora. E Luke sabia que ele ia fazer isso. E qualquer um devia saber.
— Luke, eu não acho que…
— Não, me escute! — O garoto argumentou, os barulhos de tiros ficando mais intensos do lado de fora. Ainda nem sinal de Grace, mas ele tentou afastar o pensamento mais uma vez. — Você não acha isso estranho? Dezenas de soldados, em plena luz do dia, armados com terrígeno o suficiente pra derrotar um exército, atacando uma casa que se sabe ter proteção o dia inteiro? É muito irresponsável!
— Eu não acho que eles sejam tão racionais assim.
— E eu concordo. Mas, Bobby, eu não sei… Eu tenho essa sensação… Eu acho que eles querem que você saia. Você já foi exposto a terrígeno antes?
A pergunta pareceu fazer Bobby parar. Ele franziu a testa para Luke por um instante, e no momento seguinte, gelo começou a cobrir seu corpo, o colocando na forma de herói que usava em combate.
— Não nessa quantidade.
— Aquilo é o bastante para matar a casa inteira. Bobby… Eles estão tentando nos tirar da casa, e deixar você aqui. É perfeito, não é? Eles perdem tempo te dopando de terrígeno enquanto tentamos fugir, e então outra coisa pior nos espera do outro lado. Nós somos atacados. Você pode morrer. Muitos de nós certamente morrem. Eles vencem.
— Ok, você tem um ponto. O que sugere?
Luke engoliu em seco. Sabia que podia estar assinando seu testamento de morte fazendo isso, mas sentia que estava certo. Não sabia dizer como sabia isso, mas sabia. Instinto, talvez.
— Você protege as crianças. Tira elas da casa, leva para um lugar seguro. E então eu-
— Nós — a voz de Grace interrompeu atrás dele, e Luke se virou para encontrar o restante de seu antigo time parado ali, com os uniformes dos Novos Mutantes em mãos.
— Nós — ele continuou, um sorriso pequeno se espalhando no rosto. — Vamos segurá-los pelo tempo que for necessário. Quando você conseguir levar as crianças para um lugar seguro, nós corremos para o X-Wing e damos o fora. Assim, ao menos as crianças têm chances maiores de ficarem à salvo com você por perto.
— Mas as chances não são tão altas para vocês — Bobby respondeu.
Não era um resmungo, um debate ou uma forma de contrariá-los. Era apenas uma constatação. Luke assentiu, e pegou seu uniforme com Grace, que já tinha o distribuído para os colegas. Ele reparou que havia um último colocado em cima da poltrona mais próxima. O de Nathaniel.
Também não era hora para pensar nisso. Nath estava bem. Estava em paz e colocando sua vida familiar nos trilhos. Tinha de deixar isso de lado, as prioridades agora eram outras.
— Espere aqui — Bobby pediu. Ele correu escada acima a passos largos. E as garotas foram até uma sala vazia próxima se trocar. Os garotos fizeram o mesmo na sala, rapidamente, e quando Bobby voltou o time já estava alinhado e uniformizado à sua frente.
Ele parou por um instante, admirando os cinco, um sorriso pequeno aparecendo em seu rosto. Então, estendeu a mão para Luke, entregando um pequeno pacote de pontos auditivos para ele.
— Falem uns com os outros, e falem comigo para sabermos como o outro grupo está indo. Aviso vocês assim que eu e as crianças estivermos fora de perigo. Vou pegar o avião, sei para onde ir. O seu vídeo ficou muito bom, Amália, vocês devem receber ajuda a qualquer instante. Não deixem eles entrarem na casa se assim puderem… Mas fujam se souberem que a batalha está perdida, ok? Se chegar a isso, é melhor viver para lutar outro dia.
— Certo — Luke respondeu, colocando o ponto e os distribuindo ao resto do time. — Boa sorte.
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