Assim que Bobby voltou para dentro da casa, Luke saiu pela porta, seguido de perto pelo restante do time. Os escudos da casa ainda estavam de pé, embora começassem a tremeluzir um pouco. As armas automáticas já estavam armadas e apontadas para a frente da casa para abrir fogo assim que o escudo caísse. Não ia demorar muito mais tempo para isso, e Bobby tinha cinquenta crianças para colocar em um avião e sair dali.

— Os escudos vão cair antes de Bobby sair — Luke comentou, se virando para o time ao seu redor. — Grace, o que você viu?

— Eles estão muito concentrados aqui na frente. Tem alguns pequenos grupos nas laterais da casa. Não vi ninguém no penhasco do hangar.

— O que torna o hangar uma rota de fuga perfeita — Luke respondeu. — Eu tinha razão, estão tocando a gente pra fora.

— A gente devia mudar o plano? — Damon questionou.

— Não. Se todo mundo sair não vai ter nada impedindo eles de avançarem antes do Bobby e as crianças chegarem no avião. Nós somos a última linha de defesa.

Luke correu os olhos pelo exército do lado de fora do escudo da casa. Se o post de Amália fizesse seu trabalho, ao menos algum batalhão policial deveria aparecer, não é? Ou o FBI. Ou qualquer um, honestamente. Os Vingadores? Quarteto Fantástico?

— Ah não... — Amália murmurou, de repente, com o telefone em mãos. O tom de voz dela deixou claro o quão ruins as notícias, quaisquer que fossem, seriam.

A garota abriu um vídeo no telefone e o virou para o time, e eles viram o que era uma cena de guerra na Broadway, com centenas de... mutantes? Não, não podiam ser mutantes, eles não estariam lutando contra o Homem-Aranha logo agora quando precisavam de ajuda...

— O que raios está acontecendo?! — Balu reclamou, passando o vídeo para o lado e vendo várias gravações de outros pontos de Nova York passando pelo mesmo problema.

— Não sei, mas não acho que vamos receber ajuda — Luke comentou, olhando ansioso para o escudo já com tantos buracos que as balas logo começariam a entrar. — Precisamos começar a pensar em algo.

Amália guardou o telefone, aflita, e o grupo encarou a frente da mansão. Flexionando os dedos, uma luz começando a se acender em sua mão, Luke apertou o ponto no ouvido. Queria saber exatamente de quanto tempo iam precisar.

— Bobby, um update?

— Isso vai demorar mais que eu gostaria. Talvez a gente devesse trocar-

Não, continue. Vamos conseguir o máximo de tempo que der.

— Certo. Vou te manter atualizado.

A conexão caiu. Luke olhou para seu time. Nenhum deles tinha habilidades de ataque que funcionariam em área. Talvez Damon pudesse ajudar, mas aquelas pessoas eram remanescentes dos Purificadores e o garoto já tinha feito o favor de anunciar os poderes deles na televisão. Depois do evento que revelara os poderes de Damon, quando ele tinha fritado um dos lotes de bombas dos Purificadores, não seria surpresa eles terem trabalhado a tecnologia de seus apetrechos para ser à prova de pulsos eletromagnéticos. Ainda assim, talvez valesse à pena tentar.

— Nós não podemos congelar aqui igual na delegacia, Luke! — Damon alertou, vendo o escudo tremeluzir cada vez mais a cada tiro que recebia. A qualquer instante, ele iria cair e os soldados iam invadir a mansão.

— Não vamos! Eu tenho um plano. Eu prometo, só precisamos esperar.

Damon franziu a testa. A forma como Amália e Balu se olharam não foi muito reafirmadora, mas já estava esperando por isso. Não tinha feito muita coisa para garantir a seus colegas de time que merecia seu lugar como líder do time, e chegara a questionar a si mesmo quanto a se o merecia ou não. Mas agora não era sobre merecimento, era sobre as decisões certas nas horas certas. Não importava quem era líder do que, o que importava era quem ia pensar em algo para tirá-los daquela situação. E, naquele momento, Luke sabia o que fazer.

— O escudo vai cair — ele anunciou. — Quando isso acontecer as defesas da casa vão se ativar e provavelmente vai acontecer uma troca de tiros muito violenta. Peguem cobertura, não vai demorar muito agora.

Estava bem perceptível O escudo já piscava freneticamente, uma mistura de ondas de plasma de um azul elétrico e espaços vazios aparecendo entre elas, mostrando mais falhas do que escudo em si no lugar. Luke olhou para seu time: uma garota que mexia com fumaça, um garoto que curava as pessoas, um outro que fritava eletrônicos e, no alto, Grace, vigiando o espaço lá embaixo como um falcão.

Ele levantou a mão, chamando Grace para o chão. A garota desceu rapidamente, pousando à frente de Luke com o olhar intrigado. Mas era possível ver nos olhos dela, por baixo da dúvida, uma fagulha de fúria que nunca tinha estado lá antes.

— Eu quero que você vigie eles para mim. Vai ficar ruim de ver, mas eu preciso que você sinalize para mim quando nossas armas pararem de atirar.

Grace franziu a testa, e Luke conseguia ver a pergunta "que armas" se formando no rosto dela, mas a garota não verbalizou a dúvida. Ela apenas assentiu e alçou vôo de novo, voando em círculos acima da casa.

Luke olhou para o escudo acima deles, as luzes piscando quase imperceptivelmente agora. Ele juntou as mãos à frente do corpo, concentrando uma forte luz branca ali, criando uma bola de luz intensa e maior do que as outras que já tinha feito antes. O garoto trocou um olhar com os colegas, enfileirados atrás de outras estátuas ao seu lado, e viu que havia tanta ansiedade no rosto deles quanto no seu.

De qualquer forma, não havia mais tempo para duvidar ou tentar mudar de rota. Era agora. Não teria como escapar.

Com uma última piscada débil, o escudo caiu.

Os primeiros tiros não demoraram a vir, tanto dos soldados quanto das máquinas de defesa que saíam do chão do jardim, mirando nos inimigos. Luke jogou a bola de luz para o alto, usando sua habilidade para manipulá-la e lançá-la para trás, em direção aos soldados. Então, ele fechou a mão, e a bola explodiu em uma forte onda de luz branca cegante, viajando por todo o jardim. Ele viu seus colegas se encolherem para perto uns dos outros, cobrindo os olhos, mas não parou para analisar por muito tempo. Nenhum segundo poderia ser desperdiçado agora.

— Se serve de alguma coisa — Luke murmurou, saindo de trás de sua cobertura para a grama do jardim, à frente dos soldados. — Eu sinto muito pela sua grama, Bobby.

Os soldados tinham parado de atirar, preocupados com a visibilidade prejudicada e tentando mais se proteger dos tiros das máquinas que atacar de volta. Luke respirou fundo, olhando fixamente para a grama atrás das armas automáticas de defesa. Ele concentrou energia nos olhos, os brilhando em um branco cada vez mais intenso, até que dispararou um laser deles em direção à grama.

Luke traçou uma linha, incendiando a grama e separando os soldados de um lado e eles do outro. Aos poucos, o efeito da granada de luz começava a passar, mas agora isso não seria mais um problema. Ele se voltou para trás da cobertura, e abriu um sorriso no rosto, olhando para Amália.

— Sufoca eles, Fumaça — Luke pediu, indicando com a cabeça a linha de chamas separando eles dos soldados e jogando fumaça no ar.

O rosto de Amália se iluminou imediatamente. A garota retribuiu o sorriso, um esgar convencido e um pouco cruel se espalhando em seu rosto quando ela levantou as mãos, buscando sentir a parede de fumaça atrás deles. Não precisou tentar muito, algumas partículas de fuligem já começavam a chegar até eles. Amália abraçou a fumaça com seus poderes, e então, com um gesto da mão, a ordenou para a direção contrária.

Como se um misterioso vento forte soprasse deles em direção aos soldados, a fumaça começou a voar do fogo do jardim diretamente para os inimigos. Luke ouviu gritos. Tiros. Ele olhou para cima, Grace voava freneticamente, tentando escapar de vários tiros mirados em direção à ela. Ele engoliu em seco, não tinha considerado como seu plano a deixava exposta... Mas tinha de confiar que ela conseguiria escapar.

Ainda assim, uma ajudinha não seria ruim. Luke criou outra bola de luz, jogando em direção aos soldados uma vez, mas essa acabou sendo um tanto mais fraca que a anterior. Os lasers dos olhos ainda eram uma habilidade nova que consumia bastante energia, e ele não estava acostumado a usá-la desse jeito por tantos segundos consecutivos.

Pelo bem ou pelo mal, Grace parecia estar indo bem. A garota tinha passado a maior parte de seu tempo livre treinando na Sala do Perigo, aprendendo a voar e desviar de projéteis, e o treino claramente tinha compensado. Grace voava de um lado para o outro, em determinado momento pegando uma granada atirada em sua direção com a mão e a atirando de volta em direção aos inimigos. A explosão aumentou a quantidade de fumaça, algo que Amália agradeceu com um joinha para amiga e logo incorporou em sua missão.

— E nós? — Damon perguntou, indicando ele e Balu, parecendo muito interessado em se juntar à briga.

— Ainda não! Espere só mais um instante!

As armas do jardim da casa tinham bastante munição, e poderiam durar horas em situações comuns, Luke tinha certeza, mas aquela não era uma situação comum. Era uma questão de tempo até os soldados descobrirem como driblá-las ou desarmá-las, provavelmente desarmar.

Luke manteve os olhos no céu, encarando os movimentos de Grace e trocando olhares com ela. Ela sinalizava para ele com a mão "espere", "ainda não", e Luke segurava ansioso a vontade de apressar as coisas. Precisava ter paciência. Confiar no time, confiar no plano... O impulso de querer ganhar a briga era grande, mas isso também poderia ser irresponsável, principalmente quando essa não era a missão deles. A missão deles era atrasá-los.

Ele esperou, tão calmo quanto poderia ficar, enquanto Grace voava e olhava para ele. Um tiro atravessou o braço dela de raspão uma vez, e Grace pareceu bem irritada mas não mudou o que estava fazendo. Depois mais um, na asa, e ela começou a cair.

Não era o que esperava. Balu poderia curá-la, tinha certeza, mas o próximo poderia ser em algum lugar fatal. O plano era bom, exceto que agora estava dando errado, então era hora de mudar um pouco as coisas.

— Pulso — Luke chamou, vendo Grace descer graciosamente em direção ao chão. Balu já corria até ela. — Frite eles. Rápido.

Damon olhou para Grace e Balu, agachados atrás de uma das árvores do jardim. Ele tinha as mãos sobre a asa dela. Damon não sabia diferenciar seu poder de pulso eletromagnético de seu poder de limitação de poderes mutantes, ou usava os dois ou não usava nenhum, e com Grace sangrando embaixo da árvore... A garota era um saco, mas nem por isso Damon a queria sangrando profusamente daquele jeito.

— Preciso de tempo! — Damon gritou, indicando Balu e Grace com a cabeça.

— Não temos tempo! Ela vai aguentar por alguns minutos Damon, mas talvez a gente não aguente. Agora, rápido!

Damon se virou para trás, ansioso. O fogo ainda estava alto, e Amália continuava jogando a fumaça para trás, mas o barulho dos tiros brutos das máquinas começara a diminuir. Estavam os desarmando, e quando isso acontecesse...

Ele respirou fundo. Não tinham tempo, de fato, mas ainda assim, teria gosto em dizer que a culpa era de Luke se algo desse errado. Damon contraiu os músculos do corpo, acumulando uma boa quantidade de energia na boca do estômago, e então soltou de uma vez.

A onda do pulso correu pelo jardim, se espalhando de maneira veloz, varrendo tudo e todos pelo caminho. Os mutantes se contorceram, sentindo um aperto no corpo, como se suas estranhas estivessem sendo contraídas.

Iniciou-se um barulho de estouro em cascata, à medida que os eletrônicos do local eram atingidos. Luke ficou muito satisfeito de constatar que, como tinha imaginado, os inimigos estavam de fato usando armas de tecnologia avançada, e que elas desligaram com o surto. O lado ruim foi sentir o seu telefone fritando em seu bolso, bem como o ponto em seu ouvido e, pela expressão de Amália, o telefone dela também.

Podiam ter desarmado os inimigos, mas tinha acabado de perder a comunicação com o mundo exterior. Incluindo Bobby.

Os mutantes respiraram fundo, Amália abaixada de gatinhas no chão tentando recuperar o ar, Balu agachado ao lado de Grace, ainda com a mão sobre a asa ensanguentada dela. Luke agarrado à base da estátua em sua frente. A sensação de levar um soco no estômago não ficava melhor a cada vez que Damon testava os poderes dele, e embora ele não precisasse mais da coleira para conter a energia, não tinha descoberto uma forma de fazer o surto ser mais confortável. Se é que existia um jeito.

— Funcionou! — Damon gritou, empolgado. — As armas deles estão caindo no chão!

— Isso não vai impedir eles de avançarem contra nós — Amália respondeu, se agachando devagar e apoiando a mão no ombro do amigo. — E eles são maioria.

— Mas nós somos mais fortes — Luke cortou, abrindo e fechando a mão e esperando a energia voltar para ela. — Pomba, Guardião — Grace e Balu olharam para ele. — perdi o contato com o Bobby. Termine de curar ela, depois voe para a saída do hangar, tente ver o que está acontecendo. Pulso, Fumaça... Eles vão atravessar o fogo a qualquer instante. Estejam prontos.

O time assentiu. Aos poucos, os músculos dos mutantes iam relaxando, os poderes voltando à tona. Balu conseguiu, em alguns minutos, colocar a mão sobre a asa de Grace e, a despeito dos gemidos de dor dela, começar a fechar a ferida. Luke deu as costas a eles, e voltou a atenção a Damon e Amália do seu lado. Eles trocaram um olhar por um breve segundo, e então, um dos caminhões se arrastou por cima das chamas separando os soldados deles.

"Arrastou" era de fato a palavra ideal para descrever, pois o caminhão estava desligado graças a Damon e não tinha sido dirigido até lá. Em vez disso, um grupo enorme de soldados tinha o empurrado por cima das rodas para passar por cima das chamas, e agora pulavam por cima da carroceria para passar pelo fogo, que embora ainda se espalhasse, o fazia mais lentamente que Luke gostaria graças à umidade do jardim. Para piorar, apesar de terem se livrado das armas de fogo, a quantidade de facas de combate e bastões era preocupante. De qualquer forma, só estavam ali para ganhar tempo, e assim que Grace pudesse voar de novo, teriam uma noção de exatamente quanto tempo mais precisavam ganhar. Até lá...

— Ok, Novos Mutantes — Luke chamou, um sorriso se espalhando em seu rosto quando sua mão se iluminou no branco forte de antes. — Hora do show.

Luke não achava que tivesse visto Damon tão feliz antes quanto naquele momento, mas ficou instantaneamente muito feliz por ter o garoto no time. Ele disparou de trás de sua cobertura em direção ao grupo de soldados mais próximo, a mão se movendo tão rápido em direção ao braço de um deles que o homem só percebeu o que estava acontecendo quando foi atirado por cima do ombro de Damon, caindo de costas no chão. Segurando o pulso dele, Damon girou o braço do homem, pisando por cima do corpo dele e tirando o bastão de sua mão antes que caísse no chão.

— Fumaça! — Ele gritou, atraindo a atenção de Amália e atirando o bastão para ela.

Amália o pegou o ar, girando no instante seguinte e acertando um dos soldados com o bastão no ombro direito. Ela esticou a mão para a esquerda, em direção às chamas, e fechou o punho, formando um pequeno redemoinho de fumaça. Amália o puxou para perto, enfiando a nuvem no rosto de três soldados que se aproximavam e os acertando no estômago com o bastão, um atrás do outro. Bem a tempo, ela virou os olhos de Luke brilharem em um branco forte, e chutou um dos caras na direção do colega.

Luke atirou, os lasers pegando com força o chão à sua frente e levantando mais chamas bem onde os soldados estavam se direcionando. Ele esticou a mão, acendendo um tiro de plasma na palma, e o disparando em direção aos inimigos. Então mais um, e mais outro, e os soldados caíam em sua frente um a um com a armadura queimada.

Eles pareceram perceber o perigo, pois resolveram desviar a atenção para Luke. Foi um grande erro de cálculo, porém, pois Balu já estava solto, e pulou nas costas de um dos soldados, as mãos cobrindo o rosto do homem. Ele começou a gritar, se contorcendo de dor, e o susto fez os outros soldados hesitarem e virarem a atenção para Balu. Luke aproveitou para atirar de novo, e então Damon apareceu com a faca em punho, puxando uma briga com o soldado mais próximo, e sendo seguido por Amália, agora com dois bastões nas mãos.

Um sorriso sádico apareceu no rosto de Damon quando ele enfiou a faca na panturrilha de um dos soldados, a puxando de volta e furando o ombro do homem em seguida. Ele caiu, e Damon virou a faca na mão, colocando a lâmina para frente bem a tempo de levantá-la para se defender de um golpe de bastão na direção do seu rosto.

Estava funcionando. A existência da parede de fogo, e a passagem estreita e complicada por cima do caminhão fazia os soldados chegarem do outro lado bem aos poucos, provavelmente pensando que seria muito fácil lidar com um bando de crianças, mas pouco a pouco eles eram dominados pela equipe. De vez em quando, Luke desviava a atenção para a parede de fogo, colocando um pouco mais de calor aqui ou ali para garantir que a defesa ficasse de pé. Se perdessem aquele funil, talvez fossem mesmo sufocados pelos números, e não era uma possibilidade a qual quisesse correr.

Tudo estava indo bem. Não iam só comprar tempo para Bobby, poderiam até acabar vencendo, e então, talvez, descobrir o que estava acontecendo na cidade. Talvez eles seriam a ajuda de alguém, e não o contrário. Talvez...

— LUZ! — A voz de Grace gritou, do céu, e Luke disparou um tiro em um soldado próximo antes de correr para a frente da casa para falar com ela.

Grace estava branca, um pouco trêmula. Assustada. Não tinha a menor chance das notícias serem boas, e o pequeno balão de esperança que tinha se inchado no peito de Luke começou a murchar.

— O que aconteceu?

— O hangar foi atacado! Você tinha razão... Haviam alguns aviões esperando do lado e fora, invisíveis.

Merda. Poucas vezes na vida Luke desejou tanto estar errado. Estivera errado tantas vezes, tinha cometido tantas falhas, porque logo agora quando a perspectiva era ruim ele tinha de estar certo?

— Bobby...

— Ele escapou... por enquanto. Levou o avião de passeio, as crianças estavam dentro, mas eles foram seguidos. Bobby ativou a camuflagem do avião e eu consegui falar com ele por instante. Ele disse que sabe para onde ir, que colocou o avião em piloto automático e que vai combater os aviões inimigos pessoalmente. Daí um míssil quase me acertou — ela engoliu em seco. — E eu acabei voltando. Mas Bobby disse que já conseguiu escapar e que é pra gente dar o fora também.

Mísseis eram ruins. Aviões inimigos seguindo Bobby e as crianças também eram muito, muito ruins, mas se ao menos pudessem sair dali, talvez pudessem parar em algum lugar para se reagrupar e pensar em algo. Luke assentiu, se virando para dar a notícia aos demais, mas sentiu a mão de Grace se fechar em seu pulso antes de se afastar.

— O que foi?

— O hangar explodiu. Eu não sei se Bobby viu, mas...

Luke encarou a garota por um instante, se perguntando qual seria a relevância da informação. O plano era simplesmente entrarem na mansão, pegarem o X-Wing e darem o fora dali pelo hangar e...

— Puta merda — o garoto xingou, se virando para encarar a confusão. Damon, Balu e Amália estavam segurando bem. Tinha imaginado que conseguiriam ganhar a luta, e nunca desejou tanto que isso fosse verdade. — Isso quer dizer que a única saída da casa...

— ...é por terra — ela completou. — E eu já fiz a varredura. Eles nos cercaram assim que Bobby saiu.

— Mas... Isso significa então...

Antes de Luke concluir, ele viu a consequência diante de seus olhos. Os soldados tinham circulado a parede de fogo, e alguém se jogou contra ele, vindo pelas laterais da casa. Luke caiu no chão, e olhou para o lado bem a tempo de ver Grace tentar levantar vôo e ser segurada pelo tornozelo. Um dos soldados a acertou com uma bastonada nas costas, e a garota caiu no chão, gritando e se debatendo para tentar se levantar.

Luke se contorceu, chutando e levando a energia para os olhos. O soldado segurou o rosto dele, o forçando para o lado, e colocando seu rosto de frente para Grace. Não podia atirar. Se usasse as mãos, só ia incendiar o chão abaixo de si. Se usasse os olhos, acertaria Grace.

— Escória mutante — alguém resmungou, chutando o rosto de Luke. Sangue começou a escorrer de seu nariz, e a dor indicava muito fortemente que o tinha quebrado. — Não é a toa que Strucker colocou eles no plano. Que bando de pirralho irritante...

— Pegamos o avião? — Outro perguntou, enquanto Luke se esforçava para virar uma das mãos para cima.

— Não. O Homem de Gelo saiu com eles, não vai ter como abater. Acho que vão tentar seguir, mas não coloco muita fé. Talvez se a gente matar um dos pirralhos dele, ele volte.

Luke ouviu gritos atrás de si, e se virou a tempo de ver o restante de seu time preso ao chão ou contra a lataria do caminhão. E ele percebeu, aterrorizado, que agora não podia fazer nada.

Mas sabia quem podia.

— FUMAÇA! — Ele gritou. E de novo, e mais uma vez, até ver Amália se mexer de cima do capô do caminhão, onde estava presa, levantando o rosto para ele com um olhar selvagem.

— Que idiota — uma soldado resmungou. — A gente consegue ver a fumaça, seu imbecil. A culpa é sua. Quem colocou fogo na grama foi você. Criança burra, de onde foi que tiraram esses...

Ela foi interrompida pela onda de fumaça que se espalhou por cima deles.

Luke prendeu a respiração, fechando os olhos, tentando impedi-los de arderem demais. Os soldados tossiram, se atrapalhando o suficiente para Luke soltar uma mão e a colocar no rosto do homem, acendendo a luz com a maior força que conseguiu. Ele gritou, um cheiro de queimado subiu no ar e Luke o viu cair no chão, rolando com as mãos sobre o rosto e chorando em meio a uma enorme cicatriz na forma de sua mão presente ali.

Ele se levantou, correndo até Grace. Usando a fumaça da maneira certa, talvez conseguissem sair. Luke passou o braço dela por seus ombros, a ajudando a ficar de pé. O jardim se tornara uma confusão de fogo, vultos e fumaça, e ele espremeu os olhos, mas não conseguia reconhecer nada nem ninguém.

— Grace, consegue voar?

— Não... Quebraram minha asa...

Luke xingou, um ódio gutural se revolvendo na boca de seu estômago. Grace agarrava o ombro dele, a asa dolorida, sem conseguir enxergar nada. Se encontrassem Balu, talvez ele pudesse ajudá-la, e então ela conseguiria voar com eles para longe um de cada vez, se a fumaça os cobrisse por tempo o suficiente. Mas onde ele estava? O corredor de fogo não era mais identificável, e a única referência que tinham era o caminhão.

A garota espremeu os olhos, procurando o vulto de formato quadrado em meio à confusão. Ela enfim o encontrou, bem à direita dos dois, e apontou para lá, puxando a jaqueta de Luke.

— Lá! É pra lá!

Os dois se apoiaram um no outro, caminhando firmes e um pouco às cegas na direção do vulto. Reconheceram vários formatos de pessoas pelo chão, algumas se movendo, outras nem tanto, mas a melhor parte com certeza foi reconhecer Amália, com as mãos na frente do rosto, afastando a fumaça aos poucos de si. Ela os viu, e esticou uma mão na direção deles. Grace sentiu a fumaça começar a evitar seu rosto, e a respiração e visão ficaram consideravelmente melhores, embora ainda fosse difícil ver o ambiente embaixo de tudo. Amália estava sentada ao lado de Damon, escorado contra ela e apertando uma costela, e Balu, do outro lado do garoto, com uma mão sobre as costas dele.

— O que aconteceu? — Luke perguntou, quando se aproximaram.

— Maria Fumaça intoxicou eles — Damon explicou. — Eu levei um chute bem doloroso como resposta... Ai, Guardião!

— Pare de se mexer, você quebrou duas costelas.

— Ótimo. Grande dia.

— Temos que sair daqui antes que percamos a vantagem da fumaça — Grace anunciou, esticando uma mão para Amália e a ajudando a se levantar.

— Como vamos fazer isso? — A garota respondeu. — Entre o fogo, o caminhão, os soldados e a própria mansão, estamos cercados.

Ninguém parecia saber responder a pergunta. Balu se aproximou de Grace para mais uma vez conferir a asa dela, e Damon encarou o caminhão, suspirando, cansado.

— O único jeito é sair por onde eles entraram. Eu vou na frente.

O garoto foi até o caminhão, subindo no capô e escalando para cima da carroceria. Ele engatinhou, mas o fogo e a fumaça tinham se espalhado bastante para trás. Era um caminho viável, mas não necessariamente fácil. Damon apertou o cabo da faca, chegando até o fim da carroceria e espiando para baixo.

Então ele riu. Teve de rir, pois não saberia como reagir de outra forma. Esperava que a fumaça de Amália fosse dar conta de dominar boa parte das pessoas do outro lado, ou ao menos esperava algum tipo de ajuda experiente, o que não esperava era que, de todas as pessoas, logo ele fosse responder ao pedido de socorro deles.

— Bela echarpe, lagartixa — Damon provocou, descendo da carroceria e apontando para o próprio pescoço para sinalizar o que queria dizer.

O garoto de pele verde escamosa e olhos heterocromáticos com pupilas fendadas se virou para ele, puxando uma echarpe preta que cobria o rosto para baixo. Nathaniel estava careca, mas era reconhecível ainda assim, não apenas pelos traços únicos, mas também pelo fato de estar segurando um soldado pelo pescoço com uma mão, o erguendo no ar.

— Obrigado — ele respondeu, abrindo um sorriso divertido ao jogar o soldado em uma pilha de pessoas desmaiadas do outro lado do jardim, uns bons vinte metros de distância. — Peguei com a minha mãe.