Irmandade de Mutantes: Supremacia Marvel 717 3
14 Questões
Damon acordou bem devagar naquela manhã. Tinha deixado a cortina aberta, um erro que ele sabia ser fruto de ter dormido acidentalmente, então acabou virando pro lado e dormindo de novo por um bom tempo antes de acordar de vez.
Havia algo pesado em cima de si. Ele olhou para baixo, ainda um pouco atordoado, e precisou de alguns segundos para reconhecer a dona dos cabelos ruivos deitada do lado dele com um braço passado bem displicentemente sobre seu peito. Não era um abraço, era só folga, mesmo. O garoto piscou os olhos um pouco zonzo, aos poucos sendo lembrado do que tinha acontecido no dia anterior.
Oh. Oh, mas é claro. Amália. Amália… Ele abriu um sorriso pequeno e um tanto mal-intencionado, tirando o braço dela de cima de si e se levantando, devagar. Aos poucos Damon foi catando suas roupas pelo chão para vestir, e esperava fazer isso sem incomodar a garota, mas ela acabou acordando ainda assim, resmungando e passando a mão pelo rosto enquanto se virava para ele.
— Bom dia. Eu tentei não te acordar.
Ela bocejou, se sentando devagar com o lençol seguro firme contra o peito, os olhos correndo o chão do quarto e reconhecendo, aos poucos, a bagunça que tinha se formado no dia anterior.
— Bom dia… — ela respondeu, um tanto mais lânguida que ele, bocejando e se jogando no colchão de novo, com a cara enterrada no travesseiro. Estava exausta, não queria se levantar.
Não era só a diversão, ela e Damon também tinham passado um bom tempo acordados de noite, conversando. Bem, na verdade, ele tinha passado muito tempo falando, ela preferia guardar os detalhes de sua vida para si mesma e escolheu apenas ouvir. Ao menos agora toda a situação com o tiro, os amigos, os Purificadores, e a família estava clara para ela. Talvez mais do que para Damon.
Ele não parecia perceber, e não ia ser Amália a avisar, mas mostrava bastante suas emoções quando falava de coisas que eram especiais para ele. Ela tinha visto carinho no rosto dele quando mencionara Theo, ressentimento ao falar de seus pais, arrependimento ao mencionar os Purificadores… Estava tudo ali, claro e legível em seu rosto como se escrito com tinta em folha de papel, mas ele mesmo não percebia. Não ainda.
A garota abraçou o travesseiro, se virando para Damon e vendo ele terminar de ajeitar a blusa no lugar. Ela esticou a mão para a mesa de cabeceira, alcançando seu celular e vendo que eram dez da manhã de sábado, certamente muito cedo para se estar de pé, e o tipo de horário no qual não queria ter de fazer nada de útil. Infelizmente para ela, o time tinha outros planos.
— Ah, mas que merda — ela reclamou, se sentando de novo e agora começando a se levantar.
— O que foi?
— Reunião dos Novos Mutantes na Sala do Perigo assim que todo mundo estiver de pé. E só faltava nós dois.
— Hoje? É sábado…
— Paciência, o dever chama — ela comentou, pegando as roupas no chão e começando a se vestir com elas de qualquer jeito. — Eu vou tomar um banho. Te encontro lá.
Ela já estava a caminho da porta, calçando as pantufas pelo caminho, quando colocou a mão na maçaneta e se virou para Damon.
— A propósito… Conseguiu responder sua pergunta?
Damon piscou os olhos, um pouco confuso por um instante, até se lembrar de que ela estava falando sobre. Quanto a isso… sim, tinha sua resposta, mas ainda não sabia como se sentia sobre ela. Parte de si queria guardá-la para si, pensar nisso um pouco, ter um momento sozinho com as novas descobertas, mas querendo ou não, devia respostas a Amália a partir do momento em que trouxera a garota para seus dilemas. Ela queria saber, e merecia, depois de tudo.
— Não sou gay, certamente não. Mas… Não é a mesma coisa… Eu não sei…
— Bem… algumas pessoas gostam de garotos mais do que de garotas, ou vice-versa, mas continuam gostando dos dois.
— Não é isso. É…
Theo. A palavra agarrou na garganta dele, e o garoto sentiu o rosto se avermelhar. Estava pensando como ia dizer isso a Amália quando nem conseguia dizer a si mesmo, quando a garota sorriu, girando a maçaneta e abrindo a porta do quarto.
— Eu sei — ela disse. — Ele é um garoto de sorte. Você é bom. Se precisar liberar um estresse de novo enquanto não se acerta com ele, estamos aí.
Damon poderia ter feito todo um discurso sobre como sua coisa com Theo tinha começado exatamente com isso de “liberar estresse”, mas antes de dizer alguma coisa já sabia que não tinha propósito. Não era a mesma coisa. Ele tinha sentimentos por Theo, era algo que já sabia agora, e recorrer a amassos descompromissados tinha sido a válvula de escape dos dois para não admitir o que sentiam de fato. Amália era, de fato, apenas uma diversão, o que ele também parecia ser para ela. Não era uma mentira para cobrir algo que não queriam admitir, como tinha sido antes.
Ele se sentou em sua cama, pegando o celular. Também precisava tomar um banho antes de ir para a Sala do Perigo, mas acabou parando com o telefone em mãos, encarando o número de Theo e pensando se talvez… Seria agora…
Não. Não, raios, não era o tipo de conversa que podiam ter rápido, e ele tinha um compromisso agora. Também não parecia certo ser feito no telefone. Tinham de se encontrar, isso sim, mas Damon ainda não sabia se estava pronto pra isso. E se chamasse Theo para uma visita e desse tudo errado? E se… E se…
Ele respirou fundo, balançando a cabeça e guardando o telefone no bolso. Depois. Bem depois. Agora tinham trabalho a fazer.
[...]
Luke estava com uma cara de pouquíssimos amigos quando Damon e Amália se juntaram ao resto do time — ou quase resto, uma vez que Nath não estava ali — para o que quer que fosse a reunião especial. Ele encarou os recém-chegados por um instante e suspirou, apertando a ponte do nariz e espreguiçando por um instante.
— Tá tudo bem? — Amália perguntou, vendo a situação do garoto.
— Ele tá com dor no corpo — Balu respondeu, num tom irritadiço. Não estava usando sua coleira naquela manhã, o que era novidade. Vinha ficando mais períodos de tempo com ela desligada, mas vê-lo sem ela na presença de Luke era novo. — Nas costas, especificamente.
— Bem — Amália respondeu, apontando para Balu e depois para Luke. — Não é seu trabalho isso?
— Nem pensar, dormiu no sofá porque quis. Se ele conversasse com as pessoas, sabe, em vez de ficar fugindo das coisas…
— Eu estou aqui e estou ouvindo vocês! — Luke exclamou. — Chega, não estamos aqui pra falar da minha vida.
— Mas não é só sua vida — Balu retrucou. — As coisas que você fala ou deixa de falar pras pessoas tem consequências. Quer dizer, não estou vendo Nath aqui, devo achar que isso não tem nada a ver com a discussão que eu sei que vocês tiveram porque estão os dois bravos e tristes desde ontem? E se é você dormindo no sofá, então eu só posso assumir que é você que está evitando…
— Balu — Luke cortou. — Cale a porra da boca.
Quatro rostos assustados se viraram para Luke. Por um instante, pareceu que Balu fosse explodir, seu rosto ficando progressivamente vermelho e as mãos apertando ao lado do corpo, mas ele respirou fundo, bem devagar, e cruzou os braços. Não disse mais nada, porém. Ficou claro que estava levando a ordem de Luke dramaticamente a sério.
— Por que estamos aqui? — Grace perguntou, no que era uma tentativa clara de redirecionar as atenções das pessoas para o que julgava ser o assunto de relevância.
Não gostava de como sempre pareciam estar brigando, ou fora de sintonia. Não gostava nada que Amália não tivesse dormido no quarto sem dizer nada, e não gostava de que Luke e Nath estivessem discutindo ou que Balu parecesse bravo com o líder por algum motivo. Focar o time no problema em mãos se parecia cada vez mais com segurar água entre os dedos abertos.
— É, claro — Luke comentou ajeitando as mangas do uniforme e corrigindo a postura. — Bobby nos deu permissão para falar com Roberto. Ele está esperando por nós em sua casa em Los Angeles. Vamos logo que ele é ocupado e não tem o dia todo.
Luke saiu andando depois disso em direção à saída da Sala do Perigo, já em direção ao hangar, e o restante do time teve de se adiantar para acompanhá-lo. Isso eram excelentes notícias. Era exatamente o que Grace esperava quando tinha estudado todo aquele bando de informação com Nath, e tinha imaginado o dia no qual poderiam finalmente encher Roberto de perguntas como um dia incrível de muito trabalho em equipe e grandes descobertas, mas se poderia usar alguma frase para descrever a situação atual, seria certamente “essa festa virou um enterro”. Parecia errado ir atrás de Roberto sem Nath junto quando ele tinha tido parte considerável na elaboração do plano, e ela sabia que não era como se Luke fosse propositalmente não chamar o garoto — podiam estar brigados, mas Luke era profissional demais para o próprio bem — o que só podia querer dizer que Nath não queria estar ali.
O grupo entrou no avião em silêncio, e Balu em particular se sentou no banco mais ao fundo, segurando os braços da cadeira com uma expressão de absoluto desagrado. Não só conseguia sentir no ar como todo mundo parecia deprimido em níveis diferentes, e certamente por motivos diversos — a não ser, talvez, Amália. Ela até parecia razoavelmente bem — como ainda não tinha dominado cem por cento a habilidade de impedir os sentimentos alheios de afetarem os seus. Usar a coleira menos vezes era parte de sua estratégia para controlar seus poderes, mas não era burro, estava com ela no bolso da jaqueta caso as coisas ficassem muito malucas na missão. Mas, de um jeito ou de outro, era um interrogatório, o que queria dizer que os poderes dele seriam bastante necessários, enquanto estivesse cercado pelo resto do time. Era melhor aprender logo a ter isso sob controle, e essa parecia uma oportunidade tão boa quanto qualquer outra.
O caminho até Los Angeles foi de apenas duas horas no X-Wing, e nem mesmo estavam forçando o veículo a sua velocidade máxima. O endereço de Roberto acabou apontando para uma casa de praia em Paradise Cove, o tipo de lugar onde se ficava pobre só de olhar o preço das coisas.
— Credo. Ele é rico demais até pra mim — Damon comentou.
Ainda estava olhando chocado o nível das casas do local, quando Luke chamou sua atenção para iniciarem a sequência de pouso. Não podiam pousar na praia, então mais uma vez a solução foi colocar o avião para pairar no ar, enquanto desciam com a ajuda de Grace para encontrar Roberto na porta da casa — de três andares, design único e muita cara de casa de rico — usando bermudas brancas, chinelos, uma blusa de botões aberta e segurando uma taça de alguma coisa na mão.
— Crianças! — Ele cumprimentou, com um sorriso largo no rosto. — Que boa visita! Entrem, entrem, fiquem à vontade… Trouxeram coisas de praia? Podem ficar aí pela tarde, a vista é ótima…
— Desculpe, só viemos a trabalho — Luke cortou, antes que alguém decidisse aceitar a oferta. Roberto parecia demais esses tios ricos que mimam os sobrinhos pelas costas dos pais e não queria acabar escapando da missão, embora, sim, a praia fosse estupidamente atraente agora.
— Ah, claro, crianças responsáveis. No que eu estava pensando…
Ele virou a taça de lado, jogando o resto de seja lá o que for que estivesse bebendo fora na areia, e andando para dentro da propriedade. Grace e Amália se olharam por um instante, a primeira um tanto impressionada com o status da casa, mas seguiram o time para dentro sem dizerem nada mais. A casa de Roberto era tão impressionante por dentro quando era por fora, o tipo de lugar com decoração de rico, muitas janelas e iluminação em excesso. O homem deixou a taça na mesa de centro e seguiu até as escadas, subindo para o segundo andar e parando em um escritório aberto com uma mesa posicionada à frente da parede de janelas, com vista pra praia.
— Muito bem — ele comentou, indicando as duas poltronas à sua frente. Amália e Luke se sentaram, e os demais se colocaram de pé atrás deles. — Em que posso ajudar?
— Estamos investigando um suspeito que teve conexões com a I.M.A. — Grace respondeu, tirando um bloquinho de notas do bolso e começando a passar algumas páginas. — Ele teve uma passagem pelo local a vários e vários anos atrás, estávamos nos perguntando se você teria informações velhas da organização guardadas com você, uma vez que já foi dono dela por um período de tempo.
A pergunta era praticamente retórica. Era muito óbvio que Roberto, assim como qualquer outro super-herói profissional que se prezasse, teria guardado o banco de dados da organização criminosa que pegou para si. O mutante abriu um sorriso um tanto divertido, parecendo impressionado por um momento, e abriu a gaveta da escrivaninha, tirando um pendrive e plugando no computador.
— Quem estou procurando?
— Jason e William Stryker — Luke respondeu, vendo Roberto assentir e começar digitar e clicar em coisas.
— Hm — ele comentou, alguns instantes depois. — Tem bastante coisa, até. Vocês vão ter um pouco de trabalho. Nunca gostei dessa parte do trabalho de super-herói… Mas, bem, estou copiando tudo. Mais alguma coisa?
— Ah, sim, queria te perguntar algumas coisas — Grace continuou, passando mais uma folha no bloquinho. — Em algum momento desde que você assumiu a companhia, viu ou ouviu falar de alguma interação de William ou Jason Stryker com alguma coisa?
Roberto suspirou, se recostando na cadeira e franzindo a testa. Pensou por um instante, mas não muito longo, não demorando a colocar um sorriso um pouco triste no rosto.
— Não, sinto muito.
— Certo… Algum interesse em mutantes, terrígeno ou inumanos?
— Isso sim, mas não é exatamente algo especial… Veja bem, a I.M.A é uma organização científica criminosa, o trabalho deles é investir dinheiro em soluções tecnológicas de todos os tipos para ajudar os bandidos que estão pagando mais. Então, com muita frequência, eles são contratados para lidar com soluções contra mutantes, contra inumanos, ou às vezes são procurados por um deles, e precisam pensar em formas de melhorar o jeito como atuam. Então é comum que eles tenham muitas informações sobre todo tipo de forma de vida imaginável, se procurar aqui eu devo achar até coisa com Celestiais.
Interessante. E fazia bastante sentido, também. A I.M.A cada vez mais se parecia com uma grande biblioteca de dados e experimentos para super-vilões, algo que não deixava Grace muito feliz. Ela sentiu o estômago se revirar, se lembrando de Damon comentar sobre como os inimigos muitas vezes estavam tentando os matar. Se aquilo ali não era uma demonstração do quão técnicos e dedicados podiam ser a uma coisa dessas, não sabia o que era.
— Além do terrígeno, eles já demonstraram interesse em armas químicas antes?
Roberto franziu a testa, agora parecendo incomodado. Ele puxou a cadeira para a frente novamente, olhando a tela do computador brevemente, antes de responder.
— O terrígeno não é uma arma química. É um mutagênico, e é muito importante para quem nasce com o gene inumano. O fato de que ele nos afeta dessa forma é uma terrível fatalidade, mas não é culpa do químico e nem de qualquer inumano que possa querer usá-lo.
Grace suspirou, revirando os olhos de forma discreta. Aquilo era apenas uma tecnicalidade. Não lhe importava se era arma ou não, estavam usando assim e era no que queria se focar.
— Bem, eles com certeza estão gostando de usá-lo como arma — Luke comentou, e para a surpresa dele, Roberto deu de ombros.
— É um erro prático, eu entendo, e não acho que muitos mutantes veriam dessa forma. Nossa espécie tem a péssima tendência de ser muito passional e achar que tudo que nos prejudica também gira ao nosso redor. Mas se vocês estão investigando isso tudo, precisam considerar que talvez nós não sejamos o objetivo, mas sim, a consequência. O terrígeno tem aplicabilidades infinitas, e embora, sim, tenham criado bombas para nos atacar, essas bombas também criaram uma quantidade palpável de inumanos pelo mundo. Vários deles que sumiram no ar. Não estamos lidando com bombas mais com tanta frequência, mas é óbvio que o terrígeno ainda está na jogada de alguma forma, ou vocês não estariam aqui.
— É uma igreja — Amália respondeu. — Tem uma igreja estourando terrígeno e pregando contra a nossa existência.
— Hm… — Roberto pousou o queixo na mão por um instante, voltando os olhos para o computador e retirando o pendrive da conexão. O entregou a Grace, e se levantou. — O que eu estou tentando dizer é que na minha experiência com a I.M.A. eles só são movidos a uma coisa: dinheiro. Estão dispostos a vender o que for para quem pagar mais. Então essa parte ética da investigação de vocês deve ter mais alguma coisa por trás.
— Bem, Jason é um preconceituoso arrogante… — Amália cortou.
— Então ele deve ter bolsos fundos pra financiar a I.M.A.. Acreditem no que estou dizendo, se vocês querem chegar ao fundo disso tudo, precisam seguir o dinheiro. E… tenham cuidado, por favor. Vocês são tão pequenos… me lembram quando eu estava nos Novos Mutantes.
— Como foi? — Grace perguntou, guardando o bloquinho e o pendrive no bolso.
— Foi intenso. Fiz amigos. Perdi alguns também… Bom, ainda me considero um Novo Mutante, se querem saber. Às vezes me encontro com o resto da equipe… Consegue ser bastante nostálgico.
Grace olhou para o lado, para as pessoas que compunham seu time agora. “Nostálgico” não era uma palavra que pensava que fosse usar para descrevê-los no futuro. Mal sabia como tinham conseguido os cinco chegar ali juntos. Sequer vira Amália a noite inteira, e dividiam um quarto.
— Bem… Obrigada por tudo — ela agradeceu, e Luke e Amália se levantaram.
— Mais alguma coisa que eu possa ajudar?
— Acho que não, precisamos dar uma olhada em tudo isso aqui. Mas ligamos se lembrarmos de algo.
Roberto retribuiu com um sorriso carinhoso, e guiou o time de volta para a porta. Grace pousou a mão sobre o bolso, quase para ter certeza de que o pendrive não fugiria, e o grupo voltou até a praia.
— Voltem depois pra se divertirem um pouco, a casa fica vazia às vezes, mas podem vir se quiserem, é só me ligar!
O mutante acenou para a equipe, Grace retribuindo com um sorriso sem graça enquanto flutuava de volta para o avião e descia a escada de cordas para o time. Um a um seus colegas começaram a subir de volta, se sentando em seus assentos, e depois do último, Balu, Grace foi se sentar em sua cadeira ao lado de Amália. A garota estava no twitter, de novo, mas não foi difícil para Grace conseguir chamar atenção para si.
— Hashtags de novo?
— Sim. Damon tinha razão, a dele já sumiu. Queria saber quem vazou isso pra começar.
Certo. Damon. Grace torceu a boca, cruzando os braços e sentindo o avião começar a se mover. Não queria conversar com Amália se isso fosse virar um testamento de como era impressionante que Damon tivesse atirado em Simon, então achou melhor trocar de assunto.
— Onde esteve de noite? Não te vi chegar pra dormir, e sua cama estava feita de manhã.
— Ah, é. Esqueci de comentar. Dormi com Damon.
— VOCÊ O QUÊ?
O resto do time se virou para elas, e Grace tapou a boca. Damon abriu um sorrisinho muito traiçoeiro e Grace tinha certeza, ele sabia do que estavam falando, o maldito, e estava se divertindo com isso.
— Dormi. Transei. Fiz amor, se ficar mais bonitinho pra você, mas é com certeza sentimental demais pra definir o que aconteceu.
— A-Amália… — Grace comentou, agora com a voz baixa, se virando para a amiga. — Ele atirou em Simon.
— Sim.
— Você não pode estar falando sério…
— É você quem não pode, Grace! Damon tem razão, estamos no meio de uma guerra! E ele também tem razão sobre a outra parte, a gente sabia que ele estava nos Purificadores, o que você estava esperando?
— Eu não sei! Más ideias, talvez uns cartazes de recrutamento, no máximo uma troca de socos, mas não… Não isso.
— Bem, não sei o que te dizer então. Eu sempre esperei algo daí pra pior. Surpresa pra mim foi ele ter atirado em uma pessoa só.
Grace ainda poderia dizer muito mais coisas, disso tinha certeza, mas conhecia Amália o suficiente para saber que, não só não adiantaria de nada, como deixaria a amiga irritada. Frustrada, ela enfiou a mão no bolso, apertando o pendrive. Pretendia analisar aquilo tudo com o time, mas ninguém parecia estar a fim de trabalhar em nada com ninguém ultimamente, a não ser talvez, ironicamente, Damon, de quem ela queria muita distância. Um deles sequer estava ali! Ela suspirou, virando o rosto para a janela da cabine de piloto. Essa era uma pesquisa que ela teria que fazer sozinha.
[...]
Na tarde do dia seguinte, Grace terminou seu treino físico mais rápido e logo se retirou para a biblioteca, onde teria paz para passar muito tempo com as informações de Roberto. Ele tinha dado a ela muito em que pensar.
Para começar, Roberto tinha razão sobre uma coisa. Mutantes tendiam sim a se enxergar como o foco de qualquer situação os envolvendo, e ela descobriu, para sua surpresa, não ser exceção a essa regra. Antes da conversa com Roberto, não teria considerado que o propósito do terrígeno era outro senão os matar, mas agora, com as informações em mãos, vendo quanto dinheiro era cobrado por estudos envolvendo esse tipo de coisa, teve de admitir que, talvez, fossem sim a pontinha do iceberg de algo muito maior.
Ao menos, tinha conseguido esclarecer algumas dúvidas. Tinha se perguntado com Nathaniel se os cristais de terrígeno eram reutilizáveis, e já tinha descoberto que não. Isso indicava que ou Jason tinha um estoque muito grande, ou ele ainda recebia cargas do mutagênico. De uma forma ou de outra, havia um fluxo a se seguir, e algo que poderiam tentar combater. Se destruíssem o estoque dele, ou encontrassem o vendedor e lidassem com quem quer que fosse, iriam cortar uma boa parte do problema. Talvez o problema todo, se o fornecedor para as bombas atuais fosse o mesmo e, pensando por um instante, não era como se existissem centenas de traficantes de terrígeno por aí, não é?
Era um plano de ação. Ela anotou a ideia em seu bloquinho, passando alguns arquivos para o lado e chegando em coisas bem mais científicas sobre o terrígeno depois, o tipo de coisa que teria muito mais serventia na mão do Fera que na dela. Ela fez uma nota sobre também passar tudo isso para ele, e continuou para a outra parte. A mais complexa.
A ficha de Jason Stryker era gigantesca. Continha informações desde o nascimento e arquivos intermináveis de registros, o que fez Grace se perguntar exatamente quanta coisa ele teria feito pela organização. Com um suspiro já cansado de pensar no tamanho do trabalho que tinha pela frente, ela começou a ler.
Nascido no meio do deserto de Nevada depois de um acidente de carro… Bla bla bla… Dados biológicos, dados sanguíneos, um monte de coisas que, embora compunham um perfil completo, não tinham muita utilidade para ela. A garota apoiou o rosto na mão, bocejando uma vez e rolando a rodinha do mouse sem prestar muita atenção no movimento, os olhos presos no texto muito técnico em sua frente.
Já tinha lido umas duas páginas de texto quando o verbete “gene-X” saltou em seus olhos. A garota ajeitou a postura, surpresa. O texto falava sobre William e o projeto dele com o gene, na Arma X, o que não era surpresa nenhuma. Surpresa era o resto do arquivo estar inteiramente censurado.
— O que raios…
Grace rolou a tela para baixo, mas todo o resto da ficha dele estava assim. Confusa, ela passou para a próxima seção, mas se deparou com a mesma coisa, e antes que se desse conta, a ficha tinha acabado e ela estava sem nada.
A garota soltou um xingamento baixo, abrindo uma aba no navegador e logando no e-mail da equipe. Roberto tinha deixado o contato com eles, então ela rabiscou uma mensagem bem elaborada explicando que um dos conteúdos estava censurado, e o que poderia ser feito a respeito. Com sorte, ele poderia abrir em seu próprio computador e mandar de volta para eles depois. Isso certamente poderia levar algum tempo, então era bom que tivesse o terrígeno no que se focar até lá.
Ela voltou a tela para os dados sob terrígeno, virando a página de seu bloquinho para tomar mais notas, e mais ou menos nesse momento foi distraída pelo barulho súbito de dezenas de livros caindo aos montes ao chão.
Grace se virou, surpresa, na direção do corredor onde tinha ouvido o som. Haviam alguns outros alunos na biblioteca, e embora alguns tivessem levantado o pescoço para olhar por curiosidade, ninguém quis se levantar para ver o que de fato era. Alguém poderia ter se machucado, pelos céus, as pessoas não tinham mais empatia nesse mundo?
— Olá? — Ela chamou, chegando até a pilha de livros caída no meio das estantes e encontrando, como tinha receado, um garoto embaixo de tudo. — Você está bem? — Ela perguntou, se abaixando e começando a tirar os livros de cima dele e os colocar de lado.
— É, são só livros, não vou morrer — ele respondeu, com a voz um pouco enfezada.
Grace tentou não culpá-lo. Se tivesse sido atingida por dezenas de livros de uma vez, talvez também ficasse irritadiça.
— O que aconteceu? — Ela perguntou, estendendo a mão para ajudá-lo a se levantar. O garoto pegou a mão dela, e ambos se colocaram de pé.
— Sou eu. Meus poderes — a resposta veio acompanhada de um gesto da mão, apontando para uma seção da prateleira que parecia ter sido devorada por algo ácido. — Minhas mãos destroem as coisas. Eu desliguei a coleira por um segundo só e… Bom.
Alarmada, Grace olhou para a própria mão, mas a coleira do menino já estava ligada de novo. Ele certamente não teria aceitado a ajuda de outra forma.
— Bem, foi um acidente — ela comentou, agora se abaixando para começar a pegar as pilhas de livro. O garoto fez o mesmo com a outra pilha, começando a segui-la em direção às mesas. — Mas talvez você deva manter isso ligado por mais um tempo.
— É, eu acho que sim. Obrigado… Grace, não é?
Ela colocou os livros na mesa, olhando assustada para o garoto. Não tinha falado seu nome para ele.
— Como…
— Ah, desculpe. É que você é meio famosa aqui no Instituto, né. Você e os seus colegas todos… Inclusive, isso que você está fazendo parece importante, eu não queria incomodar.
— Ah. É, bem, acho que já acabei por agora — ela respondeu, fechando a tampa do notebook e começando a juntar as coisas. — Tome cuidado na próxima, pode acabar se machucando seriamente…
— Byeol. É Moon Byeol, mas eu sou coreano, então o sobrenome vem antes. As pessoas também me chamam de Moonstar, se for mais fácil pra você.
— Certo — Grace respondeu, um sorriso simpático se abrindo em seu rosto enquanto ela pegava a pilha de coisas nos braços. — Se cuida Moonstar, nosso curandeiro é bom, mas nem ele faz milagre.
Ela abriu um sorriso e acenou para ele, deixando a biblioteca. O garoto parecia meio destrambelhado, e agora que o olhava bem, ela se lembrou dele como um dos piores pacientes de terrígeno que Balu estava cuidando. De repente, ela se sentiu muito grata de vê-lo de pé, bem, saudável daquela forma, mas a sensação também apertou um pouco seu peito. Havia sim urgência na situação atual, não queriam mais Moonstars por aí. Ele não conseguia nem pegar um livro numa estante sem derrubar tudo em cima de si.
— Nós vamos resolver isso. Eu sei que vamos — Grace murmurou, seguindo escadas acima em direção a seu quarto.
[...]
De tudo o que repetidamente tinha que aturar em sua vida atual, Nath imaginou que o pior seriam as análises científicas de sua mutação, mas quando chegou a essa conclusão tinha ignorado drasticamente o quão terrível uma sessão de terapia poderia ser.
Vinha matando as suas. Sabia que era o único do time a fazer isso, sabia que todo mundo ia em suas terapias e suas análises e treinos e todo o resto religiosamente, sem falhar um dia sequer, enquanto para ele era mais fácil não ir. Não queria revirar seu passado e nem descobrir seu futuro. Preferia a bênção da ignorância atual, mesmo que isso lhe custasse um relacionamento comum.
Não que houvesse alguma garantia de que respostas de quaisquer tipo fossem mudar sua situação nesse aspecto. Até onde sabia, poderia descobrir que ia ficar sem braços também, ou que ia ficar cego. Ou que teria que começar a engolir uma vaca inteira no almoço e ficar a digerindo por uma semana. Não. Não queria saber.
E o motivo pelo qual odiava a terapia era porque seu psicólogo não gostava nada dessa sua atitude.
— Como foram as últimas semanas, Nath? Algo sobre o qual queira falar?
As palavras do terapeuta foram transcritas para a tela de notebook ao lado de Nath, e ele leu, soltando uma risadinha sarcástica depois. Ah, claro. Seria muito interessante comentar com seu terapeuta que tinha provavelmente arruinado a única coisa boa da sua vida atualmente. Nath cutucou o couro da cadeira, encarando o chão em silêncio. Não queria falar nada, queria ir pro seu quarto — vazio — passar raiva — sozinho — por conta de tudo que tinha estragado nas últimas vinte e quatro horas.
— Você parece triste. O que aconteceu?
“Eu acusei meu namorado de me trair porque eu sou um idiota que talvez, no fundo, queira que ele faça isso, pois ao menos significaria que ele está feliz, e agora ele não está falando comigo”, Nath pensou, mas as palavras não saíram de sua boca. Pensou em como Luke tinha olhado para ele, na mágoa em seu rosto, sabendo que isso não era culpa de sua condição, mas simplesmente de sua atitude. Tinha causado isso. Tinha magoado os sentimentos dele de forma que sequer sabia se ele iria perdoar. Nem sabia se merecia.
Um bolo de choro se agarrou na garganta dele, e Nath abaixou a cabeça nas mãos, tentando impedir as lágrimas com o gesto, mas não adiantou muito. Já estava chorando.
Esses, para Nath, eram os piores momentos. Quando se sentia mal, quando queria chorar e desaparecer do mundo, quando precisava de um abraço, e sabia que não tinha ninguém para isso. Ou ao menos ninguém que contasse. Pais. Não fazia ideia de porque tinha sido largado em orfanato, porque seus pais não tinham o querido, e tentava não pensar muito sobre isso. Podia ser uma miríade de motivos. Talvez eles não tivessem dinheiro, e achassem que estavam dando uma condição melhor para ele. Talvez tivessem morrido, e não tinha família estendida que aceitasse o criar. Não tinha de ser algo como ter sido simplesmente largado lá, sem que ninguém se importasse, mas ainda assim, a mistura de raiva e mágoa continuava o comendo por dentro. Por que ele não podia ter uma família como todo mundo? Não costumava pensar que estava pedindo muito ao desejar um abraço de sua mãe, ou um conselho de seu pai, mas sequer os conhecia. Eram apenas vultos sem rosto que ele imaginava, às vezes, o recebendo em um abraço, o levando para uma casa — uma de verdade, não um orfanato, acampamento, ou escola, onde tinha passado a vida —, vendo suas notas da escola, seus amigos, seu namorado…
Talvez magoar Luke doesse ainda mais porque, no fim das contas, ele tinha se tornado seu porto seguro. Não tinha mais ninguém. E agora não tinha ele também.
Bem, tinha o terapeuta.
— Eu só… — ele comentou, em meio a alguns soluços. O homem ofereceu um lenço de papel e Nath usou para enxugar os olhos. — Eu só queria ser alguém de quem as pessoas podem gostar…
— Por que você acha que as pessoas não podem gostar de você?
Nath deu de ombros. Os motivos eram óbvios, mas não sabia se queria ou conseguia falar sobre. Ou, ao menos, eram óbvios para si mesmo, mas isso não parecia ser o suficiente pro psicólogo. Nath respirou fundo, fungando e tentando enxugar as lágrimas, apesar de não ter parado de chorar ainda.
— Olha só pra mim, eu sou uma aberração! Meus pais não me quiseram, eles deviam saber o que eu ia virar. Eu não servi pra cuidar dos Morlocks e manter eles seguros. Eu sou um péssimo colega de equipe porque tenho muito medo de trabalhar a minha mutação e um namorado pior ainda que ainda consegue estragar a melhor coisa que me aconteceu nisso tudo. Isso é… Eu sou inútil. Eu não devia estar aqui. Não sei porque estou.
“Aqui”, para Nath, naquele momento, poderia ser aquela sala ou simplesmente o mundo inteiro. Queria sumir, não sabia para onde, ou como, ou o que faria. Mas queria.
— Nath, os seus pais não são sua culpa. Os Morlocks também não. Você nunca deveria ter estado na posição de cuidar de todas aquelas pessoas em primeiro lugar — o homem respondeu, suspirando e colocando seu tablet de lado por um instante. — Há algumas coisas que acontecem, e que não podemos fazer nada a respeito. Para outras… eu acho que você deveria se focar no que pode mudar. Como sua relação com seu time, ou com seu namorado.
O garoto abaixou a cabeça, a garganta apertando de novo. Sim, em tese, podia consertar essas coisas. Mas e se na prática não conseguisse?
Ele olhou o relógio no pulso, aliviado de ver que seu tempo tinha acabado pelo dia. Nath se levantou, pegando a mochila, e o psicólogo se levantou também.
— Nath, considere o que eu falei. Converse com seus amigos, e seu namorado, ok? E nós nos falamos de novo na semana que vem.
— Ok — ele murmurou, sem muito comprometimento na fala.
Era fácil pensar em conversar com Luke ou se comprometer mais com a equipe. Fazer isso tudo, porém, seria algo completamente diferente. Nath estava cansado, e com a cabeça girando entre possibilidades sobre o que devia fazer.
— Obrigado — agradeceu. Podia detestar aqueles encontros, mas o terapeuta tinha razão. Havia coisas que podia corrigir, e coisas que estavam no passado. Tinha de colocar sua energia nas coisas certas.
— Me ligue se precisar de alguma coisa. A qualquer hora, certo?
Nath assentiu, lendo as últimas palavras do terapeuta na tela do computador. Então ele jogou a alça da mochila sobre o ombro e deixou a sala.
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