Miguel levou a bolsa de dinheiro para casa, a enfiou debaixo da cama, e acordou no dia seguinte, precisando de alguns minutos para se lembrar de por que estava tão animado. Ele se abaixou, puxando a bolsa e a abrindo, e vendo os maços de dólares lá dentro. Tinha mesmo feito isso, e sozinho. Um sorriso de orgulho se arrastou devagar em seu rosto, satisfeito por finalmente poder fazer algo para ajudar em vez de só ficar dando trabalho para as pessoas. Devia dar parte do dinheiro aos pais de Cat. Era o mínimo, depois de tudo o que vinham fazendo para mantê-los ali.

Mas apesar de ter encontrado o dinheiro sozinho, não queria tomar essa decisão sozinho. O time deveria decidir em conjunto quanto do dinheiro destinar para o que, e era por isso que a bolsa ainda estava sentada debaixo de sua cama havia alguns dias esperando que Cassian e Moonstar pudessem organizar suas agendas para uma reunião na qual todos — ou quase todos, com Cat ainda no hospital — pudessem comparecer. O dia, ao que tudo indicava, tinha chegado.

Ele se sentou na mesa da sala, ao lado de Reese, com Marlene à frente deles ainda no computador. Ela parecia estar grudada naquele negócio, seja lá o que estivesse tentando fazer. Miguel pensou que já tinham desistido de encontrar Jason dessa forma, mas talvez ela ainda estivesse tentando. Vai saber.

Moonstar acabou chegando antes, puxando uma cadeira para o lado de Marlene depois de um aceno de boa tarde dado pela metade, e começando a palpitar nas buscas da garota. Miguel abraçou a bolsa, devagar, deitando a cabeça sobre ela e vendo Reese mexendo em seu próprio celular. Devia mesmo ter algo de muito interessante acontecendo na internet pra todo mundo ficar tão interessado assim, mas por vezes, a situação fazia Miguel se sentir um pouco sozinho.

Por isso, quando a porta se abriu e Cassian entrou, Miguel ajeitou a postura, abrindo um sorriso largo, e animado para mostrar o que tinha feito. O líder acenou para eles, guardando os óculos de sol no bolso, e a sombra dele se inclinou para um lado, para um aceno mais amigável. Miguel sorriu, acenando de volta. Às vezes, gostava mais da sombra do que do dono dela.

— Bem, aqui estou — ele comentou, o que enfim fez Reese guardar o celular, e Moonstar e Marlene tirarem os olhos do computador. — O que aconteceu?

— Então — Miguel comentou, pigarreando e se colocando de pé. Ele puxou a bolsa de dinheiro para perto, abrindo o zíper e mostrando o conteúdo para os colegas.

Reese deixou o queixo cair. Marlene e Moonstar pareciam menos impressionados, mas isso provavelmente era só o jeito deles de ser. Foi a reação de Cassian que interessou mais a Miguel. O garoto ergueu uma sobrancelha, curioso, foi até a mala, tirou um maço, e analisou as notas, devagar, provavelmente checando se eram verdadeiras.

— Você roubou um banco? — Cassian perguntou, com uma naturalidade um tanto incômoda para Miguel.

Quem respondeu, para a surpresa de Miguel, foi Marlene.

— Não acredito. Foi você. Eu até imaginei, mas com a quantidade de gente com poderes em Nova York, vai saber…

— Foi ele o quê? — Reese perguntou.

Marlene digitou alguma coisa, virando a tela do computador para eles. E ali estava, uma reportagem sobre um “vigilante com poderes de planta que tinha apreendido criminosos em frente a uma lavanderia de fachada”.

— Que impulsivo — Cassian comentou. — Mas não tenho dó. Se Cat estivesse aqui, ela ficaria preocupada com você ter se exposto tanto.

— Não me importo, sendo sincero, foi pessoal. Eu tenho uma birra com esse povo, acabei esbarrando com eles em um passeio noturno. Não ia deixar eles irem embora de qualquer forma, e quando vi o dinheiro lá… Bem.

— Isso vai ser útil — Cassian disse, puxando a bolsa para perto e fechando o zíper. — Essex pode precisar de incentivo quando precisarmos dos serviços dele.

Cassian passou o braço pela alça, pronto para jogar a bolsa nas costas, mas Miguel se adiantou, segurando ela. Cassian o olhou, surpreso e um pouco irritado, e sua sombra avançou, abraçando a bolsa de dinheiro.

— Que raios, Miguel. Quer comprar um pacote de bala de mel novo?

— Não. Eu quero que a gente dê uma parte pros pais da Cat. Eles estão cuidando da gente, é justo…

— Eu não sei se eles vão querer isso. É dinheiro sujo.

— Pois pergunte antes.

— E contar pra eles o que estamos fazendo aqui no porão?

— Quem pegou o dinheiro fui eu, eu digo que temos que distribuir…

— Ok, parem — Marlene cortou. — Cassian, separa uma parte, coloca numa caixa e manda pro restaurante como doação anônima. Disfarça como sendo de um mutante que eles ajudaram, não seria mentira. O resto, você leva pra comprar o Essex depois.

Cassian e Miguel ainda se encaravam, e Reese se levantou, colocando uma mão no ombro de cada um.

— Se acalmem e pensem direito. Marlene tem razão, eles merecem uma boa parte. Dinheiro vivo é quase impossível de rastrear, de qualquer forma, não é como se fosse dar problema pra eles.

Aos poucos, as expressões tensas de Miguel e Cassian começaram a se anuviar. O garoto colocou a bolsa na mesa, e puxou uma cadeira para se sentar com o resto do time. Reese conteve um suspiro, aliviada. Não seria nada útil começarem a brigar entre si.

— Quanto dinheiro tem aqui? — Cassian perguntou.

— Não contei, mas tem alguns milhares, com certeza.

— Então vamos contar, e decidir quanto vai pra onde — Marlene sugeriu, deixando o computador de lado. — E começar logo, porque contar é um saco e vai demorar.

A garota puxou um maço de dentro da bolsa, e começou a contar as notas. O resto do time suspirou, a preguiça se manifestando, mas logo começou a acompanhar. Aos poucos perceberam que cada maço tinha mil dólares em notas de cem, e que a bolsa inteira deveria facilmente ter uns cem mil dólares, o que era um tanto preocupante. Era muito dinheiro. Se aquela gangue resolvesse que queria retaliar, talvez fossem ter problemas.

— Não se os pegarmos antes de pegarem a gente — Reese sugeriu, quando começaram a discutir o assunto na mesa.

— Não sei não — Cassian comentou. — Pode ser um bando de bandidos quaisquer, mas pode acabar sendo coisa de gente grande. Não quero mafioso atrás da gente, vai dar trabalho.

— Cem mil financia a pesquisa? — Moonstar perguntou.

Cassian não fazia ideia. O grupo encarou a bolsa por um tempo, em silêncio, e depois começaram a guardar o dinheiro. Separaram dez mil para os pais de Cat, o resto decidiram que era melhor guardar em outro lugar, e Cassian se ofereceu para cuidar disso. A bolsa de dinheiro ficou aos cuidados dele, e o time decidiu ir para o próximo tópico.

— Moonstar, Marlene, o que vocês tem? — Cassian perguntou.

— Nada — Marlene respondeu, dando de ombros. — É isso. Ou Moonstar conseguiu algo no Instituto, ou temos que ir pra delegacia. Eu não sei mais o que pensar.

Cassian suspirou, encarando o teto por um breve instante. Então, se virou para Moonstar. Talvez ele tivesse conseguido algo.

— Bom, eu subi uma hashtag com um perfil fake — Moonstar respondeu. — Um rumor que diz que um dos Novos Mutantes deu tiro em X-Men no passado. Adiantou, eles parecem ter brigado. Eu consegui achar a menina anjo sozinha mas não se faz amigos do dia pra noite nem com uma tonta como ela. O máximo que eu consegui foi correr o olho no computador e nas anotações dela, e sim, eles estão mesmo investigando o Stryker, mas não parecem ter muita informação por agora.

— Hm, bom trabalho — Cassian respondeu, se levantando. — Continue, nos avise se conseguir algo. Mas até lá, não podemos esperar mais. A cada segundo que eles ficam com terrígeno nas mãos, é mais perigoso pra nós. Marlene, acho que você vai ter que encontrar aquela delegacia pra gente.

— Bem. Não vou dizer que estou decepcionada — ela respondeu, abrindo um sorriso um pouco convencido. — Tenho certeza que conseguimos no mínimo um endereço lá. Se pegarmos Jason, sou capaz de apostar, só precisa de um susto grande o suficiente pra ele parar de mexer com a gente.

A expressão de Cassian indicou que ele não parecia ter tanta certeza. O garoto pegou a bolsa, e se levantou.

— Vou mandar os dez mil pro restaurante. O resto eu sei onde deixar, mas é melhor se vocês não souberem.

Ninguém discutiu com isso. Noventa mil dólares era muito dinheiro para se ter pesando na consciência.

— Ah, mais uma coisa. Reese, poderíamos usar a ajuda do Héctor na delegacia.

— Por que está me dizendo isso? — A garota perguntou, parecendo surpresa. Não era Cassian quem entrava em contato com o garoto para levar ele para fazer as coisas?

— Acho que ele foi com a sua cara. E se ele não quiser vir, talvez você consiga convencê-lo. Héctor é uma pessoa de palavra. Deixe ele confortável o suficiente para prometer a presença, e eu sei que ele não vai deixar de ir.

— Você quer que eu manipule as emoções dele?

— Se for necessário… Héctor é à prova de balas e super-forte. Só Miguel não vai bastar para proteger a gente em uma delegacia de polícia. Faça o que precisar, Reese, mas faça alguma coisa.

A garota suspirou, contendo um muxoxo de desagrado. Cassian se despediu do time, a sombra dele parando para deixar dois tapinhas nas costas de Reese, e então ele deixou o restaurante, seguido de Moonstar.

Reese suspirou, afundando o rosto nas mãos. Como raios iria convencer Héctor a fazer alguma coisa? Tudo bem, podia mesmo usar seus poderes, mas não era uma habilidade a que estava muito acostumada. Era boa em mentir, mas pra isso dar certo, a pessoa precisava ter um radar bem pequeno pra detectar essas coisas, e Héctor tinha visto através das mentiras dela em segundos.

Ia mesmo precisar usar seus poderes, e isso ia ter de funcionar. De um jeito ou de outro. Cassian tinha razão, Héctor não era uma ajuda dispensável nesse cenário.

Frustrada, a garota pegou seu celular. Héctor tinha a convidado para comparecer a uma das missas da igreja. Talvez fosse hora de descobrir quando era o evento mais próximo.

[...]

Reese saiu sozinha para a igreja naquela noite. Ela subiu seu capuz e manteve a cabeça baixa enquanto o táxi a dirigia até o local. Acabou chegando um pouco atrasada, a celebração já tinha começado e alguém estava cantando um salmo. Reese não tinha muita paciência pra esse tipo de coisa, sendo agitada demais pra sentar por mais de uma hora num banco enquanto assistia um padre falar. Assim sendo, ela se ocupou de observar os arredores, e o que viu foi surpreendente.

Héctor tinha razão. Ninguém ali se importava. Conseguiu ver, à distância, de seu banco do fundo, pelo menos uns cinco mutantes de aparência bem não-humana sentados no meio das pessoas. Contando com o fato de que não conseguia ver todo mundo daquele ângulo, deveriam haver bem mais. O Padre Lantom fez uma homilia com um discurso inspirado na aceitação do próximo e em como Jesus tinha ensinado aos seus discípulos a amar o próximo acima de qualquer coisa, e de repente Reese percebeu que, assim como Héctor tinha comentado, se sentia acolhida. Não tinha imaginado que isso pudesse de fato acontecer, e não fazia ideia do que fazer com esse sentimento. Chegou a se sentir um tanto desconfortável, e decidiu focar apenas no que tinha ido fazer ali.

Héctor estava lá, servindo de coroinha na celebração. Para ela, que tinha realmente o chamado de coroinha gourmet, a constatação veio com uma risadinha de canto. Previsível. Pessoas previsíveis eram mais fáceis de manipular. Ela pulou a eucaristia, achou que era demais para si, e esperou aos poucos o final da celebração, antes de se levantar de seu banco e ir até Héctor no altar.

— Ei — ela chamou, acenando, um pouco discreta e atraindo a atenção dele para si. Héctor se virou para ela, seu rosto ganhando um sorriso e os olhos brilhando ao vê-la ali. Ele estava mesmo feliz em vê-la.

— Reese! Você veio!

— Bem. Você chamou. Pensei que poderia vir nem que fosse pra te provar errado.

— E então?

— Você tem um minuto? — Ela perguntou, abrindo um sorriso divertido, e buscando seus poderes no fundo da mente.

Algumas pessoas eram mais susceptíveis que outras, e Héctor parecia ser dos mais complicados, ela percebeu, quando o alcançou com uma onda de tranquilidade e nada pareceu mudar nele a não ser um franzir de testa bem suave.

— É claro — ele respondeu, com uma risadinha um pouco nervosa. — Espere aqui, vou tirar as vestes. Já volto.

Reese assentiu, ainda com o sorriso no rosto, e se sentou em um dos bancos da segunda fileira. A parte mais fácil já tinha conseguido fazer, mas se Héctor realmente se provasse alguém resistente às habilidades dela, o resto poderia ser bem mais complicado. Ela respirou fundo, cruzando as pernas e enfiando as mãos no bolso do moletom. Se fosse fácil, qualquer um poderia fazer, não é?

Ele não demorou a voltar, agora com jeans e um moletom vermelho. O garoto se acomodou no banco, ao lado dela, com o mesmo sorriso satisfeito no rosto. Parecia mesmo muito feliz dela ter ido.

— O que achou? — Ele perguntou, balançando a perna um pouco, distraído.

Estava ansioso? Talvez. Era um sentimento bom de se usar. Pessoas ansiosas tomavam decisões impulsivas. Se conseguisse garantir que ele fosse em direção à decisão correta…

— Você tinha razão — ela respondeu. Aumentar a confiança e auto-estima dele seria um ótimo começo. — É um bom lugar. Fez eu me sentir acolhida, e isso não é algo que eu jamais achei que fosse dizer sobre uma igreja.

E era sempre mais fácil enganar com verdades e meias-verdades, então foi bom que pudesse começar com uma dessas. Héctor pareceu muito satisfeito, e ela nem tinha precisado influenciá-lo ainda.

— Bem… Pode voltar quando quiser. Eu… Eu não tinha certeza… Se você ia vir, sabe? Você não me mandou mais mensagens nem nada… Mas… Mas gostei que tenha vindo, de verdade.

Reese o analisou por um instante, estendendo seus poderes e tentando identificar a emoção dele. O que era aquilo, enterrado por baixo da euforia? Nervosismo? Não era ansiedade? Por que ele estava nervoso?

— As coisas ficaram meio chatas lá na base — ela comentou, ainda buscando meias-verdades. — Depois da Cat, não tivemos muito como progredir por um tempo. Pensei que me faria bem esticar as pernas. E como ela está, por falar nisso?

— Bem! Bem, sim, tem melhorado bem. O Dr. Essex pediu mais algumas semanas, porém. Acho que ele quer garantir que não tenham consequências a longo prazo, sabe?

Sim, sabia, Cassian já tinha comentado. Héctor abaixou a cabeça por um instante, a perna ainda se mexendo. Parecia estar pensando em algo para falar. Reese decidiu esperar. Seria mais fácil guiar a conversa se passasse por assuntos do interesse dele.

— Eu vi a reportagem sobre os bandidos pegos com raízes — ele comentou. — Foi aquele colega seus?

Interesse nas atividades da Irmandade? Interessante. Não podia deixar isso passar.

— Foi. Nós direcionamos o dinheiro para… boas causas. Melhor que nas mãos deles, não acha?

— É… É, acho que sim. Desculpe, eu não devia perguntar. Eu disse a Cassian que não queria nada a ver com o que vocês estão fazendo, não quero prejudicar o Padre Lantom.

Merda. Aquilo não era qualquer motivação. Héctor parecia ver Lantom quase como um segundo pai, ou no mínimo tinha um laço de gratidão imenso com ele. Como ela ia convencê-lo a ir contra isso?

— Imagine — ela respondeu, com um sorriso divertido no rosto. — Acho que saber não faz mal. E, olha só, você ficou bem legal de coroinha — ela elogiou, estendendo a mão para dar alguns tapinhas nas costas de Héctor.

O toque a ajudava. Não precisava ser pele com pele, mas a proximidade já era o suficiente para fazer os poderes dela irem um pouco mais fundo, um pouco mais longe. Talvez longe o suficiente para identificar o que era aquele sentimento debaixo da euforia pela visita dela, aquele nervosismo, a ansiedade, o que era… Era…

“Puta merda”.

Reese sentiu o rosto esquentar, e tirou a mão das costas de Héctor de uma vez. Quais eram as chances? Logo ela? Como? Por quê? Não era bonita, ou interessante, ou… Bem, não era nada de mais. Esperaria que ele se interessasse por Marlene, ou até Cather. Não ela. Como isso era possível?

— Reese? — Héctor chamou, e ela percebeu agora a mão dele passando em frente aos seus olhos. — Reese, tudo bem? Você congelou por um momento, aconteceu alguma…

— N-não! Não, está tudo bem — ela sorriu, tentando despistar o que agora era seu próprio nervosismo. — É… São meus poderes. Eu tenho alguns lapsos às vezes, mas estão ficando mais raros agora. Achei até que tinham acabado.

Mentira. Deslavada. Mas ele não ia questionar, não se era esse o tipo de sentimento que tinha por ela. Paixão era algo muito poderoso, principalmente fresca daquele jeito. Era algo que podia usar. Devia usar, se quisesse que ele concordasse.

— Precisa de ajuda com isso? Eu acho que o Dr. Essex…

— Não precisa, está tudo bem. Quase não acontece mais, e é bem inofensivo. Eu sempre fui meio distraída, acho que é só um agravante temporário.

— Ah. Ok, entendi.

Os dois ficaram em silêncio, Héctor provavelmente envergonhado, cozinhando palavras na cabeça, mas ela, pensando no que dizer, e em como dizer.

— Na verdade, Héctor… Acho que eu só queria te ver, um pouco… Eu preciso de um conselho.

— Conselho?

— É. É que… Bom, você tem essas coisas todas acontecendo… Fica ajudando os mutantes, sabe? A conexão com o hospital, as missas, e todo o resto… Eu… Tem algo que precisamos fazer, e… Eu não sei… Parece um pouco errado.

— Ah. Eu… Eu disse a Cassian que não queria saber, Reese, me desculpe.

— Eu sei! Eu sei, você não precisa saber! — Ela se adiantou, receando que tivesse perdido Héctor na conversa com essa última frase. Precisava trazê-lo de volta. Precisava que ele tivesse simpatia por ela. Pena? Preocupação, talvez. Algo assim com certeza iria funcionar nele. — Eu só… Eu estou com medo — admitiu, apertando a própria coxa e enviando uma onda de medo pelo seu próprio corpo. Seus olhos se encheram de água, e ela deixou ficar aparente o suficiente antes de levantar uma mão para os enxugar. — Mas ao mesmo tempo, eu sei… Eu tenho certeza de que se não fizermos nada, nossa espécie vai continuar morrendo e… Eu quero ajudar!

— Reese… — a expressão dele mudou, e Reese estendeu seus poderes novamente, alcançando a mente dele. Tinha conseguido. Ele estava preocupado. — Seja lá o que for… Tem muitas formas de se ajudar. Você não precisa fazer algo que não quer.

Preocupado o bastante para não deixá-la ir embora sem uma resolução? Talvez. Reese decidiu que valia à pena arriscar.

— Eu quero. Eu acredito em minha equipe, eu só… — Ela apertou a coxa mais uma vez, outra onda de medo. Agora deixou as lágrimas caírem. — Desculpe, Héctor. Desculpe, eu não devia te trazer pro meio disso.

A garota se levantou, pronta para dar as costas, e exatamente como tinha esperado, a mão de Héctor tocou seu ombro, a impedindo de sair. Um sorriso convencido se espalhou pelo rosto dela, de costas para ele, por um átimo de segundo, mas quando a garota se virou para Héctor seu rosto já estava de volta à mesma expressão de terror de antes.

— Não precisa se desculpar — ele comentou, o toque no ombro de Reese descendo pelo braço dela e parando em sua mão. — Eu ainda prefiro não saber os detalhes, mas se você precisar conversar…

Reese forçou um suspiro, se virando para Héctor e colocando um sorriso com uma boa nota de ingenuidade e simpatia no rosto.

— Acho que foi isso que eu fiz, não é? Desculpe, Héctor… Eu e meu time nos damos muito bem quando é sobre a missão, mas faz muito tempo que alguém se importa de verdade comigo, sabe? Eu acho que eu acabei me prendendo muito a isso, e isso não é justo com você. Obrigado… Por se importar. Acho que… Acho que de alguma forma eu só pensei que estaria mais segura com você por perto. Eu sei, besteira, mal nos falamos… Eu não devia me agarrar tanto a pequenas coisas.

Esse era o momento mais crítico, ela sabia. Honestidade era uma carta poderosa, e ela fez o possível para aquele parecer seu momento mais vulnerável. Héctor só precisava comprar o ato.

— Onde está sua família…? Se me permite perguntar.

— Minha mãe sumiu quando eu comecei a ficar… bem… assim — ela respondeu apontando para o próprio rosto. — Papai sempre esteve comigo, mas me guardou em casa a vida toda, tinha medo. A filha de uma amiga deles foi morar conosco, era muito amiga minha. Olha só.

Reese colocou a mão no bolso, tirando o celular e abrindo uma foto sua com Azalea.

— A gente era inseparável, mas papai continuava me prendendo em casa, tinha medo de me deixar sozinha no mundo com essa cara. Aos poucos eu comecei a fugir com Azalea, até que fugimos de vez e fomos parar nos Morlocks. Estava tudo até meio bem, até aquela menina de vermelho aparecer e…

De repente, Reese sentiu algo diferente. A paixão, a empatia, todos os sentimentos de Héctor sumiram, afogados debaixo de outra coisa. Dor.

— Héctor? — Ela perguntou, pousando a mão no ombro dele. — Tudo bem?

Reese usou seus poderes, buscando um pouco de tranquilidade, tentando trazer o foco de Héctor de volta para ela. O que tinha acontecido? Ele estava pálido, suava frio… Teria ele visto o massacre também? Não… Não se lembrava dele nos Morlocks. Talvez tivesse algum amigo por lá?

— V-Você estava lá? — Ele perguntou. — No massacre?

— Sim, mas eu consegui fugir. Azalea também, eu acho, mas não sei onde ela foi parar. Estava ferida, e não foi pro Instituto até onde eu sei, então…

— Pode me mandar a foto com ela? Talvez eu possa ajudar.

Ajudar com Azalea? Como? O que estava acontecendo? Por que o comportamento de Héctor tinha mudado tanto?

— Eu mando, sim… Obrigada, Héctor, eu nem sei como agradecer…

— Eu só quero ajudar, ok? Por favor.

Ele estava a pedindo, para ajudar? Reese não fazia ideia do que tinha acontecido, de por que ele tinha mudado de comportamento tão de repente, mas não podia deixar isso passar.

— Bem… Até poderíamos usar sua ajuda, Héctor. Com habilidades como as suas… Eu só não queria te incomodar, você disse que não queria se envolver. Honestamente, acho que não seria ruim, não vejo alguém no time se opondo…

Ela fez o melhor para parecer que tinha acabado de pensar nisso. Ainda sentia a mesma dor, misturada com pânico, vinda do garoto. Naquele estado, ele estaria bem menos sensível a indiretas e sutilezas do tipo, tinha certeza.

— E-eu… Eu não sei, eu… Eu preciso pensar…

— Desculpe, eu não quero te pressionar — Reese comentou, agora segurando a outra mão de Héctor, mas ele se soltou. Parecia ainda mais pálido, sua pele negra começando a se aproximar perigosamente de um marrom meio cinza.

— Eu converso com você, ok? Só… toma cuidado, por favor.

Ainda se preocupava com ela. Talvez… Talvez tivesse conseguido? Não sabia dizer. Ela decidiu apenas abrir um sorriso, e ajeitar o capuz na cabeça mais uma vez.

— Você também, Héctor. Fiquei preocupada…

— Tá tudo bem. Eu vou ficar bem. Nos falamos, certo?

Reese assentiu, e o garoto se despediu, dando as costas e enfiando as mãos no moletom.

Alguma coisa tinha acontecido. Talvez Cassian soubesse o quê, se contasse para ele como a conversa tinha ido, mas não era muito importante no momento. Tinha conseguido fazer Héctor prometer que ia pensar no caso, o que já era bem mais que tinha esperado antes. Considerava isso uma vitória.

[...]

Alguns anos atrás

Jason se levantou de sua cama, precisando saltar um pouco para chegar ao chão. A king size que seus pais tinham colocado em seu quarto era um tanto alta para um garoto de cinco anos, assim como o quarto todo era ridiculamente grande para uma criança tão pequena — e estranhamente arrumado, também.

Seus pais não gostavam de nada fora do lugar, então todos os seus brinquedos ficavam no quarto de brinquedos, e sempre ao fim do dia, quando era hora de ir para a cama, alguns criados iam lá para ajeitar o que ele tinha tirado do lugar. Jason tinha permissão para ter um brinquedo em seu quarto se quisesse dormir com ele, e o escolhido era um boneco de pelúcia do Coisa, do Quarteto Fantástico, que falava “tá na hora do pau” quando ele apertava a barriguinha dele. Jason já tinha acordado algumas vezes de madrugada por apertar o brinquedo sem querer enquanto dormia, mas não era por isso que estava de pé dessa vez. Eram as dores de cabeça de novo.

Ele seguiu pelo corredor da mansão, descendo as escadas com o Coisa firme em uma das mãos, e bocejando pelo caminho. Seus pais tinham falado a ele que se sentisse essa dor de noite, era para tomar um comprimido marrom do que ficava em cima da bancada. Já costumavam deixar separado para ele, até. Assim, Jason desceu as escadas pretendendo engolir o remédio e voltar para a cama sozinho, mas ao chegar aos pés da escada, parou.

A luz da sala estava acesa. Normalmente isso não teria o impedido, mas dessa vez, ouviu a voz de sua mãe, e ela não parecia muito feliz, o que fez Jason ter menos vontade ainda de passar pela sala. Ele se sentou ali, decidindo esperar eles pararem de brigar e fingir que tinha acabado de descer depois. Seria melhor. Mas, é claro, isso quis dizer que podia ouvir a conversa.

— Eu não aguento mais isso, William. Isso é tudo culpa sua!

— Minha culpa? Minha, apenas? Não é assim que funciona, Marcy, e eu não vou aceitar você falando comigo desse jeito debaixo do meu teto!

— Eu não me importo! Eu deveria ter morrido naquele maldito acidente! Eu e aquela aberração!

Calada, Marcy, as paredes tem ouvidos nessa casa.

Ela soltou um grunhido, frustrada, e Jason não ouviu nada por algum tempo. Ele abaixou os olhos entre os joelhos, afundando o rosto no boneco. Tudo bem, sabia que sua mãe não gostava dele. Sabia que seu pai não gostava dele. Ainda assim, não queria que brigassem por sua causa. O que quer que tivesse feito de errado, só queria descobrir logo o que era, para que pudesse arrumar e então poderiam ser uma família feliz, os três, não é? Jason sentiu a garganta apertar, e lágrimas subirem aos seus olhos. O que quer que tivesse feito de errado… Podia consertar. Sabia que podia consertar, só precisava de uma chance.

— Se livre disso, William, estou te avisando. Se não tirar isso da nossa casa, quem vai sair sou eu!

Jason apertou o boneco, agora contendo soluços e fungadas.

— Eu estou analisando a situação, Marcy, pare de gritar. E pare de beber, isso não é o tipo de coisa para discutirmos aos berros desse jeito. Eu já disse que vou resolver, então vou resolver. E se quer saber, você tem tanta culpa nisso quanto eu, e é melhor começar a me tratar melhor senão quem te coloca pra fora sou eu, e eu quero ver se virar sem o padrão de vida que eu te arrumei sozinho por esses anos todos, e…

— Tá na hora do pau! — O boneco gritou, e Jason colocou a mão na boca, assustado, em instinto, como se ele tivesse gritado.

Ele ouviu sua mãe xingar, e passos do pai, em seguida. Assustado, Jason apertou o boneco, começando a subir as escadas, correndo. Podia não entender tudo o que estava acontecendo, mas tinha certeza de que se fosse pego ouvindo aquela conversa, estaria com problemas. Ele acelerou em passos muito rápidos, direto de volta para o quarto, no escuro, sem se importar se estaria sendo visto. Jason voou para debaixo das cobertas e apertou o boneco do Coisa, esperando, torcendo…

A porta do quarto se abriu, e a luz se acendeu. Jason continuou deitado ali, abraçado ao Coisa e de olhos fechados, fingindo que dormia. Alguns segundos se passaram, a luz se apagou e a porta se fechou de novo, e o garotinho suspirou aliviado.

Sua cabeça ainda doía, mas não ia arriscar sair do quarto de novo, nem se o preço fosse mais uma noite sem dormir.