Moonstar precisou frequentar a biblioteca do Instituto muito mais que gostaria nos dias que se seguiram. Não era que não gostasse da biblioteca em si, muito lhe agradava achar livros sobre assuntos diversos e ler no tempo livre, e a biblioteca do local era rica nisso. O que o incomodava eram os frequentadores. O lugar nunca estava vazio, e uma vez que era ali que Grace sempre ia para fazer suas pesquisas pra equipe, tinha de ficar lá o tempo todo, todos os dias, esperando que ela aparecesse em alguma tarde qualquer.

Levaram alguns bons dias para isso acontecer. No meio tempo, Moonstar se manteve em contato com Cassian pela conta do twitter que tinha usado para vazar a fofoca de Damon, e parecia que Marlene estava conseguindo preparar algo para eles. Cat ainda estava no hospital e não havia resposta definitiva sobre Héctor, então quando a hora chegasse, provavelmente seriam apenas os cinco.

Droga, ia precisar de um disfarce. A última coisa que queria era ter de usar uma fantasia, mas não podia arriscar os Novos Mutantes o reconhecendo ao lado da Irmandade. Uma roupa preta e uma balaclava tinham de ser o bastante, não é?

Ele suspirou, largando o livro de eletrônica que vinha folheando, e olhando distraído para a mesa a alguns metros de distância da sua, onde Grace costumava se sentar, pensando quando seria seu dia de sorte. No meio desse pensamento, um anjo entrou pelas portas da biblioteca.

Moonstar tentou não sorrir demais, travando a risadinha sarcástica antes de sair. Ele esperou Grace entrar, sentar na mesa e se acomodar, começando a espalhar seus papeis pela mesa, e então esperou um pouco mais só para não parecer que estivera esperando por ela. Enfim, se levantou, com o livro de eletrônica debaixo do braço. Algo se revirava em seu estômago, uma mistura de nervosismo com preguiça, não sabia se porque não queria falar com ninguém ou porque não queria ser pego, mas de qualquer forma, a situação era menos que ideal. Ainda assim, ele forçou um sorriso simpático no rosto, parou ao lado de Grace e pigarreou.

— Olá. Desculpe incomodar, Grace.

— Byeol! — Ela exclamou, se virando para ele com um sorriso gentil no rosto.

Não eram muitas pessoas que se importavam com chamá-lo por seu nome, e embora a pronúncia dela estivesse longe de ser perfeita, era uma surpresa a garota se lembrar o suficiente dele para recordar até mesmo seu nome, em vez do apelido que todo mundo usava. A surpresa estampou no rosto de Moonstar por um instante, mas ele logo a afastou, sustentando o sorriso descontraído.

— É, oi… Eu só queria te agradecer. Pelos livros, e todo o resto.

— Ah! Imagina, não foi nada — a garota respondeu. — Como vão as mãos?

Excelente pergunta, ele pensou. Moonstar esticou a mão para a mesa, pegando o bloquinho de anotações de Grace e virando as páginas de uma vez.

— Achei melhor deixar essa coleira quieta. Odeio esse negócio, mas quero poder mexer com as coisas em paz.

Ele devolveu o bloquinho para a mesa. Não tinha conseguido ler nada em uma passagem de páginas tão rápida, mas foi bom ver que Grace não pareceu alarmada por ele ter encostado na coisa. Não devia nem mesmo ter se importado, e Moonstar não sabia se era um cenário de confiança parcialmente ganha, ou se ela não via o quão valioso o bloquinho tinha se tornado. Provavelmente a segunda opção.

— Não vai ser pra sempre, é só até seus poderes acalmarem — ela respondeu.

— É, espero que sim. Bem, de qualquer forma, obrigado por ter se importado. Se tiver alguma coisa que precisa de ajuda… Não sei, com algum livro, com o computador…

— Ah, não, obrigada, eu só estou estudando e… acho que algumas coisas seriam até confidenciais.

E ela terminou essa frase com uma risadinha, que Moonstar se forçou a devolver. Se não ia conseguir mexer no computador dela, deveria no mínimo tentar furtar o bloquinho. Ele pensou se deveria pedir ajuda dela para encontrar um livro no dia seguinte, e então tentar pegar quando não estivesse olhando, mas precisou interromper seus pensamentos no mesmo instante. Ela levantou a mão, acenando para alguém na porta, e olhando para lá, Moonstar viu Guardião, com uma expressão cansada, mas tranquila.

Guardião não podia chegar perto dele nessas circunstâncias, ia estragar tudo.

— Ah, olha só a hora! — Moonstar exclamou. — Obrigado Grace, mas eu preciso correr.

E antes que a garota pudesse responder qualquer coisa, ou inventar de apresentá-lo para Guardião, Moonstar já estava disparando em direção à saída. Os dois mutantes cruzaram o caminho, e Balu acabou encarando Moonstar por um instante a mais. Ele parecia bastante nervoso… mas também estava quase correndo em direção à saída. Teria acontecido algo?

— Moonstar? Tudo bem?

— Tudo certo! — O garoto respondeu, acenando da porta e deixando a biblioteca no instante seguinte.

Balu ainda encarou a porta por alguns instantes, antes de se voltar para Grace e puxar uma cadeira para perto dela. Ultimamente, ela era a única pessoa de quem Balu conseguia ficar perto, com Nath mais triste que nem sabia o que, Amália e Damon rondando um ao outro com interesse em coisas, e Luke sentindo uma mistura de culpa e ansiedade dolorosas sempre que estava por perto dele.

Mesmo Grace, porém, tinha limites. Ela era boazinha demais, mas tinha algum tipo de tristeza suave por baixo disso tudo, e de tempos em tempos, precisava se afastar dela também. Agora que não usava mais sua coleira, graças aos treinamentos com Bobby, gerenciar quem ficava ao ser redor por que espaço de tempo tinha se tornado uma prioridade, e ao menos por enquanto, ficar sozinho era a melhor decisão na maior parte do tempo.

Agora, porém, era um encontro importante. Balu puxou uma cadeira para perto de Grace, se inclinando sobre a mesa e encarando o monitor.

— O que temos aqui? — Ele perguntou.

— Não sei, acabei de abrir. Acho que vamos ter que ler juntos.

O email era curto. Roberto pediu desculpas breves por não ter conferido a criptografia do arquivo antes de enviar, e embaixo um arquivo comprimido com versões desbloqueadas do arquivo. Grace abriu o documento, e soltou um suspiro logo em seguida. As dezenas de páginas eram puro texto. Era bastante coisa pra ler.

— Espero que esteja com paciência, Balu. Isso aqui vai demorar.

[...]

A máquina de fumaça que Bobby tinha arrumado era bem forte levando em conta o quão pequena ela era. Ele tinha colocado o negócio no meio da Sala do Perigo, e ligado já em uma frequência bem forte, e estava parado ao lado de Amália, anotando coisas em seu tablet enquanto ela controlava a fumaça de acordo com os comandos dele.

— Vamos tentar alguns formatos específicos — comentou Bobby, vendo que Amália estava guiando a fumaça com sucesso dentro dos anéis de metal que tinha pendurado pelo local. — O que consegue formar?

A garota franziu a testa. A curiosidade sobre o seu poder era que fumaça tinha a tendência a se dispersar, então tudo o que ela fazia para guiar o material estava indo contra a natureza física dele. Guiar a fumaça para um ponto específico era fácil uma vez que ela sempre queria se mover, mas mantê-la parada em um formato…

Ela apertou os olhos, imaginando uma esfera, e começou a tentar comprimir a fumaça. Esferas deveriam ser fáceis, era a mesma força vinda de todos os lados, e era um formato, não é? Bobby não devia estar esperando que ela transformasse a nuvem de fumaça em um My Little Pony, era querer demais. A garota manteve a compressão, mas era difícil, a fumaça parecia escapar entre sua força como areia, se recusando a ficar presa no mesmo lugar.

Os braços de Amália começaram a tremer. Ela sentiu um suor frio escorrer pelo seu pescoço e soltou um palavrão sonoro, ainda fazendo a mesma força, tremendo cada vez mais e sentindo, aos poucos, a esfera se dissolver mais e mais entre sua força.

— Ok, vamos dar uma pausa — Bobby comentou, desligando a máquina.

Amália suspirou, aliviada, caindo sentada no chão e respirando fundo. Ela pegou a garrafa de água ao seu lado para beber um pouco, sentindo a garganta um pouco seca, e sabendo que Bobby já devia estar esperando o relatório.

— Ela não gosta disso — Amália comentou, entre os goles de água, ofegando.

— A fumaça?

— Sim… Não gosta de ficar contida.

— Interessante. Quando você diz “gosta”, há algum tipo de pensamento senciente envolvido?

Amália deu de ombros. Não sabia dizer como sabia que a fumaça não se conformava bem a essa ordem, mas havia bastante resistência. Quanto mais ela segurava, mais a fumaça queria fugir.

— Você já tentou aplicar suas habilidades a outras coisas, como vapor de água?

— Não. Só fumaça. Eu meio que consigo sentir ela, não sei explicar. Por que a pergunta?

— Os poderes dos mutantes não são mágica, Amália… Bem, exceto quando literalmente são, mas a maior parte pode e é explicada por uma teoria científica. No seu caso, fumaça é uma suspensão de partículas resultantes da combustão na atmosfera. Seria interessante descobrirmos se seus poderes se conectam com as partículas ou com a concentração delas, ou talvez com o próprio ar. Se a fumaça tem que ser resultado de algum tipo de combustão específica, ou se qualquer uma serve.

— Ah. Saquei.

Bobby levantou o tablet, digitando mais algumas coisas. Uma arma de laser se projetou da parede, daquelas das quais Grace costumava desviar. Então o mutante ergueu o braço, fazendo uma parede de gelo no meio da sala, e apertou um botão.

A arma de laser atirou no gelo, começando a queimar a parede e levantar uma onda de vapor instantânea no ambiente.

— Tente agora, por favor.

Amália estendeu a mão. Nunca tinha tentado fazer isso antes, até a ideia lhe parecia completamente insana, mas agora que Bobby tinha comentado, ela mesma estava curiosa. A garota ergueu uma mão, buscando alcançar a névoa com seus poderes, pensando se iria sentir alguma coisa… e sentiu.

Era diferente, e bem mais complicado. A fumaça a respondia de imediato, embora tentasse fugir se contida por muito tempo. A névoa estremeceu um pouco, mas não se deixou afetar pelo comando dela. Mas, mesmo assim, conseguiu sentir algo.

— É diferente… Ela não me obedece, mas eu consigo sentir…

— Hm — Bobby anotou mais algumas coisas, e desligou a arma a laser. — Bem, acho que isso nos dá mais uma boa direção para seguir. Se seus poderes estão relacionados a partículas suspensas no ar, as possibilidades são imensas!

O relógio de pulso de Bobby apitou uma vez, e ele levantou o braço para dar uma olhada.

— Nossa sessão acabou — ele comentou, guardando o tablet. — Tem algo que você queira acrescentar?

Tinha? Pensou por um instante em confessar que ela e Damon vinham afanando a gaveta do criado mudo também, mas percebeu que se ele tinha descoberto sobre o escritório, deveria saber sobre isso também. Era mesmo impressionante que o estoque dele e do namorado não acabasse, olhando por esse lado.

— Acho que não, mas eu te procuro se pensar em algo.

Bobby respondeu com um sorriso.

— Bom trabalho, Amália. Suas habilidades estão progredindo muito bem, estou orgulhoso.

— Por nada. Normal, eu não faço nada pela metade.

A resposta do X-men foi rir. Então Amália pegou sua garrafinha, se levantou e deixou a Sala do Perigo, sabendo que alguém teria uma sessão de treino depois dela.

Mas não foi apenas Luke, o próximo da fila, que ela achou na porta. O líder entrou parecendo muito cansado e sem se preocupar em cumprimentar ela e Damon, que também esperava ali, e assim a dupla ficou parada no corredor.

— Que educado — Amália comentou, com uma boa dose de ironia.

— Vou te falar, eu conheço ele já faz um tempo e nunca vi ele desse jeito. Ele é chato. Certinho demais, segue as regras todas, cumprimenta todo mundo o tempo todo… Ultimamente ele tá todo rabugento.

— Deve ser falta de sexo. Ou de qualquer coisa, na verdade. O namoro dele parece bem estressante.

Os dois encararam a porta aberta por um tempo, vendo Luke estender a mão para a frente, mirando em um manequim de gelo. A mão do garoto começou a brilhar, primeiro suave, mas depois cada vez mais forte, até um jato de luz disparar de seu braço, fazendo um furo no meio do manequim onde o intestino estaria. As bordas ainda derretiam quando Bobby refez o manequim para o garoto tentar de novo.

— Acho que ele ficar estressado agora não é uma coisa muito segura pra quem tiver por perto — Amália comentou. Luke se virou para a porta nesse momento, ainda parecendo um tanto irritado, e ela e Damon se retiraram pelo corredor.

— Ao menos o poderzinho novo dele é útil. Bala acaba, tirinho de luz não — Damon disse, agora quando já estavam alcançando a sala da mansão.

— É, mas esse poderzinho não vai servir de nada se não tivermos um lugar pra atacar — Amália comentou, se jogando no sofá com Damon ao seu lado. — Queria que Grace lesse aquela porcaria toda mais depressa. Mas daí também, eu dei uma olhada, são algumas dezenas de páginas e ela tá olhando sozinha, até onde eu sei. Eu não teria paciência. Odeio papelada.

— Somos dois. Mas às vezes ela é necessária.

Amália suspirou, enfiando a mão no bolso e pegando o celular. Ela abriu o twitter indo de novo para a hashtag do time, e o assunto do dia aparentemente era considerar se Nath trocava de pele igual uma cobra de verdade. Assim como o restante do time, Amália sabia a resposta, assim como sabia o quão tímido Nath era sobre o assunto, então não ia dizer nada sobre. Em vez disso, foi para sua conta no instagram — tinha ganhado algumas centenas de milhares de seguidores desde que começara a postar fotos do time, e continuava subindo — e se ajeitou no sofá para perto de Damon.

— Vem cá, não postei nada hoje — ela chamou, ajeitando a câmera para pegar os dois.

Damon abriu um sorriso convencido, ajeitando o cabelo, e os dois se colocaram na frente da câmera, ele passando o braço pelos ombros dela. A foto ficou tão boa quanto poderia, considerando como Amália se odiava em fotos, mas era o suficiente. Ela passou um bom filtro, e apertou o botão para postar.

— Nenhum comentário de Pulso Assassino? — Ele perguntou, vendo ela escrever uma legenda pra foto.

— Sempre vai ter um ou outro, mas em geral, acho que você tinha razão. Tá virando lenda urbana.

Ótimo. As pessoas trocavam de assunto como trocavam de roupa hoje em dia, então, honestamente, ele esperava que esquecessem dele até mais depressa, mas assim estava de bom tamanho. O garoto pegou o controle da televisão no sofá, e Amália se jogou contra o braço do móvel, passando as pernas para cima do colo de Damon. Ele fingiu não reparar, trocando de canal, distraído, pensando se acharia uma reprise de um jogo de futebol pra assistir — quem sabe não desse sorte de achar um dos Texans? — mas acabou desviando os olhos para encarar Amália assim mesmo.

Ela era uma boa companhia. E isso não era só sobre os ótimos amassos que vinham trocando, mas a sinceridade dela o agradava de uma forma única. Ela era autêntica, não era de mentir sobre nada e certamente não fingiria interesse nele. Estava ali, interessada, simplesmente porque estava, e já fazia muito tempo que Damon não sentia isso.

— Oh-oh.

— O quê? — Ele perguntou, frustrado por não achar sua reprise pra assistir. — O que é “oh-oh”?

— Grace. Ela e Balu estão convocando a gente na Sala do Perigo. Eles acharam alguma coisa.

[...]

O time — com a surpresa da presença de Nath dessa vez — se reuniu na Sala do Perigo quase imediatamente. Balu andava de um lado para o outro, e Grace estava inclinada sobre a mesa improvisada ali, passando alguma coisa no notebook. O último a chegar no local foi Nath, então foi um alívio não terem começado antes disso, pois ninguém achou que ele fosse aparecer.

Ele parecia tão bem quanto Luke, e com Balu com sua cara de poucos amigos quando Luke chegou, e Grace parecendo bastante alarmada, Damon e Amália eram os únicos integrantes da equipe minimamente funcionais no momento, um pensamento que deixou Amália chocada. Se fossem depender dos dois para alguma coisa, estavam todos ferrados.

— O que aconteceu? — Luke perguntou, satisfeito de ver Balu e Grace se revezando para traduzir algumas palavras em ASL para Nath. Seu pedido para todo mundo aprender a língua parecia estar surtindo frutos.

— Talvez vocês queiram se sentar — Grace sugeriu, virando o computador para eles e mostrando os arquivos de Roberto, agora todos cobertos de marcações coloridas. Ela respirou fundo, e Balu se sentou na mesa, do outro lado do computador. — Roberto me enviou de volta o arquivo com as informações sobre o Jason, agora sem encriptação. E tem algumas coisas interessantes nele.

— Como por exemplo… — Luke atiçou, assistindo os dois com um olhar atento.

— A falta de detalhes é curiosa — Grace prosseguiu. — Levando em conta que era um arquivo da I.M.A. em si, eu imaginei que eles teriam sido mais detalhistas com as anotações, mas ou o arquivo detalhado está fora do alcance de Roberto, ou eles sequer anotaram em algum lugar pra começo de conversa. Aqui só foi possível descobrir uma coisa: William Stryker usou a I.M.A. para conseguir equipamentos para a Arma X e outros projetos particulares, e então, anos depois, foi até eles com outro pedido. O que diz aqui é que seu filho Jason tem uma “condição” que precisa de tratamento, e que a I.M.A. foi responsabilizada como tal, mas nenhum outro detalhe foi dado.

— “Condição”? — Damon questionou. — Tipo o quê, uma unha encravada? Não tem nenhum detalhe? Nada?

Grace negou com a cabeça.

— Eu achei melhor chamar vocês aqui porque talvez eu tenha deixado alguma coisa escapar, então se vocês quiserem ler o arquivo também… Eu acho que pode ajudar.

Um enorme arquivo de dezenas de páginas. Amália conteve um resmungo, era exatamente o que estava tentando evitar. Mas se iam chegar a algum lugar com essa situação toda, não ia ser de graça. Iam ter de se esforçar. E se no momento “se esforçar” significava ler a ficha de Jason todinha… Amália suspirou. Era o jeito.

[...]

Luke não gostava de se referir a nenhum trabalho como “inútil”. Entendia que era tudo parte da missão, e se Grace estava pedindo uma segunda opinião, era porque, provavelmente, achava que se teria algo para ganhar com isso. Mas até ele no fim do dia teve de admitir que a coisa toda tinha sido uma enorme perda de tempo.

Não o arquivo em si. Tinham ganhado uma visão muito pessoal da vida de Jason Stryker — nascido em um acidente, pais complicados, foi para a I.M.A. com dez anos de idade e ficou por lá até a vida adulta — e mais algumas sobre o pai William, incluindo a parte na qual ele tinha começado as igrejas antes de Jason e até algum nível de conexão não explicada com os Purificadores. Infelizmente, porém, os arquivos sobre eles continham apenas a informação pertinente para os negócios com a companhia, de forma que qualquer outra coisa interessante para eles não estaria disponível naquele documento, então por hora tinham os carregamentos de terrígeno para se focar.

Mas isso era problema pro Luke do dia seguinte. O garoto abriu a porta do quarto, desanimado, e seu olhar esbarrou no de Nath por um segundo. Ele estava sentado no lado dele da cama, com um livro em mãos, mas levantou o rosto assim que o outro entrou.

Luke sentiu o estômago gelar. Desde a briga na cozinha, os dois tinham se evitado como a praga, exceto nas raras ocasiões as quais Nath decidiu agraciar o resto do time com a sua presença. Mas nesses cenários, sempre estavam acompanhados. Sozinhos, era a primeira vez. Luke tinha a impressão de que Nath tinha evitado ir para o quarto enquanto não estivesse dormindo no sofá, então encontrá-lo ali quando foi buscar seu travesseiro e cobertor foi uma surpresa e tanto. Nem sabia se boa ou ruim, a essa altura, mas uma surpresa ainda assim.

“Eu vou só pegar minhas coisas.”, Luke anunciou, estendendo a mão para o travesseiro. Chegou a tocar o lençol, mas antes de poder juntar suas coisas e deixar o quarto, a mão de Nath se fechou sobre seu pulso, atraindo sua atenção.

“Podemos conversar?”

Luke engoliu em seco. Queria conversar com Nath, estava muito triste com a situação atual dos dois e sentia falta dele mais que qualquer outra coisa. Mas não queria brigar de novo. Tinha sido assustador para si mesmo que acabasse falando todas aquelas coisas para Nath daquela forma, parte de si querendo magoá-lo para retribuir o que sentia, e tinha se sentido culpado pouco tempo depois. Tinha sido muito perverso. Não se reconhecia e não confiava em si mesmo para lidar com a situação de novo.

“Eu não quero discutir.”

“Eu também não. Eu… Eu queria te pedir desculpas.”

Luke arregalou um pouco os olhos, surpreso com o gesto. Não que achasse impossível Nath se desculpar por algo, mas tinha ficado tão focado em sua própria vontade de fazê-lo que só agora se lembrava do motivo pelo qual tinham discutido em primeiro lugar.

“Eu não devia ter te acusado daquele jeito sem nem perguntar nada, me desculpe… Eu sei que isso não justifica nada, mas eu sei que eu sou um péssimo namorado, e que você deve estar detestando ficar comigo e eu acho que parte de mim até queria que fosse verdade porque aí ao menos você estaria feliz com alguém, em vez de se prender nesse namoro chato comigo e… Me desculpe. Eu sei que me namorar não é interessante. Eu pensei que você fosse acabar desistindo, eventualmente.”

Quando Nath acabou, ele estendeu a mão, tocando a de Luke e entrelaçando seus dedos por um instante. E nesse momento, Luke sentiu seu coração partir por dentro. Se Nath vinha sentindo por todo esse tempo que estava estragando o namoro dos dois, e Luke tinha, por cima disso, ido dormir no quarto de um garoto relativamente libertino sem nem ao menos falar com ele, isso com certeza tinha piorado tudo.

Ele suspirou, se sentando no colchão, ao lado do namorado. Nath não olhava para ele. Talvez estivesse com receio da resposta? Talvez. Luke segurou o queixo do namorado com delicadeza, o puxando para cima para seus olhos encontrarem os dele.

“Eu também não fui justo com você. Eu devia ter explicado o que estava acontecendo, talvez a gente pudesse chegar em uma solução juntos. Mas eu não queria te chatear, e eu sabia que isso ia acontecer.”

“Mas não tem solução, tem? Quer dizer… Não é como se minha mutação fosse voltar pra trás.”

“Mas… Mas talvez ela possa ir pra frente, não acha? E então…”

Luke não terminou seus gestos. O namorado se levantou de uma vez, balançando a cabeça e resmungando, e dando as costas para ele. Luke suspirou. Sabia que isso ia acontecer quando começassem a conversar, mas agora que já tinham começado, não queria deixar o assunto morrer sem resolução. Era algo muito sério para ficar no ar daquele jeito. Ele se levantou, puxando o ombro do namorado e o virando para si.

“Não. Você não vai me dar as costas desse jeito, isso é sério!”

“Eu sei que é! Mas é sério pra mim, Luke! É a MINHA mutação, é problema meu! Eu não quero saber! Eu não quero ir me deitar todos os dias sabendo que amanhã pode ser ainda pior!”

“Mas pode ser melhor…”

“Eu não quero saber! Eu estou feliz não sabendo, eu quero ser ignorante sobre isso até que eu não possa evitar! Eu. Não. Quero. Saber!”

E Luke não queria se irritar, não queria mesmo, mas a forma como Nath parecia tão agressivo sobre o assunto mexia com ele de algum jeito inexplicável. Por que ele se recusava tanto a ouvir um bom conselho? Nem apenas bom, a essa altura, necessário. Nath podia repetir para si mesmo quantas vezes quisesse que a situação era apenas da sua conta e de mais ninguém, mas isso não era verdade. Não na circunstância atual.

“Você não pode tomar uma decisão dessas agora, isso é egoísta!”

“Egoísta? Eu estou sendo egoísta tomando uma decisão sobre mim mesmo? Mas ah, é claro, eu desse jeito não sou um namorado bom o bastante, não é? Não estou pensando o suficiente sobre você?”

“Isso não é sobre mim também! É sobre o time! Eu não posso te levar pra uma missão na rua sem que a gente tenha a menor noção do que você pode fazer, não se deve ter esse tipo de surpresa no meio de uma missão!”

“Então eu não sou um bom colega de time também?”

“Não foi isso que eu disse…”

— Então eu estou fora! — Nath exclamou, de repente.

Se arrependeu do que disse no mesmo instante, pois a raiva começou a se dissolver do rosto dele ao ver o choque no rosto de Luke. O quarto entrou em um silêncio profundo, ninguém falava nem sinalizava nada. Nath caminhou devagar de volta para a cama, se sentando no colchão, e Luke relutou um pouco mas se juntou a ele.

“É isso que você quer? Sair da equipe?”

“Não… Eu não quero nada disso, Luke… Mas eu tenho mais receio de mexer com minha mutação, do que vontade de ser um Novo Mutante… Ou…”

“Ou vontade de me beijar.”

Nath assentiu. E no fim das contas, Luke percebeu, toda a tensão entre eles era sobre isso. Não importava o quanto Nath o amasse, o quanto quisesse ser um Novo Mutante, o medo que ele tinha de quem iria se tornar era maior. E quando sua mutação afetasse sua vida amorosa, ou heroica, Nath já tinha decidido qual escolha iria fazer.

“A gente pode só ir dormir? Tô exausto… E eu queria que você ficasse aqui.” Nath pediu, e Luke entendeu perfeitamente. Também se sentia exausto. Nunca tinha imaginado que briga pudesse cansar alguém a esse ponto, mas, bem, ali estava.

E sobre ficar ali, não era como se sair do quarto estivesse adiantando de alguma coisa, e agora que Nath já sabia mesmo, seria mentira dizer que não sentia falta da própria cama. Luke levantou o travesseiro, pegou seu pijama e se trocou. Quando eles se deitaram, porém, foi cada um virado pro seu lado sem falarem em mais nada.

Luke pensou que estar ali o faria ter mais uma noite de sonhos inquietos e desconfortos físicos, mas embora isso tenha acontecido, foi sob circunstâncias bem diferentes. Os sonhos foram confusos, e ele não se lembrou de nada depois, a não ser a parte mais próxima do final no qual estava sendo esmagado em um abraço do Rhino forte o suficiente para roubar o ar de seus pulmões, e então seu peito começou a doer, e então tudo doía e seu corpo gritava e estava afogado em desespero e então…

Acordou. De uma vez, em sobressalto, e percebeu logo em seguida que a dor era muito real. A falta de ar também. Luke abaixou os olhos, assustado, para encontrar os braços de Nath fechados ao seu redor com uma força absurda, e a dor que Luke sentia com isso aumentava cada vez mais. O garoto choramingou, esticando a mão para trás e começando a cutucar Nath desesperadamente, o balançando pela coxa e começando a chorar conforme a dor nas costelas aumentava cada vez mais.

Tinha quebrado alguma coisa. Céus, tinha quebrado… Ele continuou balançando, até Nath acordar, e acabar o soltando.

Luke se sentou, devagar, soltando um grito de dor ao sentir pontadas nas costelas que deixaram suas suspeitas muito palpáveis.

— Luke? — Nath o chamou, tocando seu ombro devagar. — Luke, o que…

“Balu. Por favor. Rápido.”

Nath saiu correndo do quarto. Luke abraçou o peito, tentando se focar em respirar fundo, mas cada puxada de ar fazia o peito doer mais. Ele esperou, agarrando o lençol com outra mão, até Nath entrar correndo no quarto com Balu ao seu lado.

Com todos os problemas que vinha tendo com Balu ultimamente, Luke teve de agradecer pelo instinto do garoto de ajudar as pessoas ser maior do que qualquer implicância atual entre eles. Balu não fez perguntas, subiu no colchão e foi com a mão direto onde Luke apertava.

— Você quebrou três costelas. Como fez isso a essa hora da noite?

— Nath… Foi sem querer… Ele… Não sabia…

Mas mesmo dizendo isso a Balu, Luke sentiu uma onda de nervosismo correndo pelo seu corpo. Agora tinha sido suas costelas. E se tivesse sido seu pescoço? Cobras matavam com abraços, não matavam? E se tivesse sido sua coluna?

Balu aliviou a dor, e começou a consertar as fraturas, e agora que conseguia respirar normalmente de novo Luke virou o rosto para Nath, e viu na expressão dele o quão aterrorizado ele parecia.

— Pronto — Balu confirmou, se afastando. — Foi uma fratura leve, mas seja lá o que vocês estavam fazendo…

— Dormindo. Estávamos dormindo. Foi sem querer.

— Que seja. Tentem não precisar me chamar durante a noite, eu agradeceria.

Balu passou a mão sobre as costelas de Luke uma última vez, para ter certeza de que nada estava fora do lugar, e então se levantou e deixou o quarto. Luke ainda sentia um incômodo leve, uma pontada de dor caso se mexesse, mas não queria incomodar Balu mais que o necessário. Para isso podia tomar um remédio no dia seguinte.

E então, quando estavam apenas os dois no quarto, foi apenas meio instante de olhar trocado entre eles. Nath abaixou o rosto, levando as mãos aos olhos, tentando se impedir de chorar, e Luke quis poder consolá-lo, mas estava assustado demais para isso.

“Isso é precisamente sobre o que estava falando”, Luke gesticulou, depois de atrair a atenção de Nath. Não para ter o seu momento de superioridade de “eu te disse” para cima dele, mas porque se isso não fizesse Nath entender a importância e gravidade da situação, não sabia o que faria. Não tinha mais argumentos.

“Me desculpe… Eu não queria…”

“Eu sei que não foi sua culpa, Nath, mas isso é exatamente sobre o que eu estava falando.”

Luke achou melhor não dizer mais nada, por hora. Temeu que pudesse perder a cabeça mais uma vez. Pegou seu travesseiro e suas cobertas, e dessa vez Nath não o impediu quando deixou o quarto.

Na manhã seguinte, quando Luke voltou para o quarto na esperança de poder conversar com Nath sobre o que tinha acontecido, encontrou o guarda-roupa vazio e os poucos pertences de Nath não estavam em nenhum lugar. Ele tinha partido.