Irmandade de Mutantes: Supremacia Marvel 717 3
8 Planos de Emergência
— Porra! Bastet, saia daí!
Com todo o barulho na igreja, Cassian só podia torcer para ter sido ouvido, mas não faria diferença. Cat tinha percebido o perigo sozinha e estava de fato tentando sair do local, mas ele viu a água cair sobre o terrígeno, a névoa se espalhar pelo local, e nenhum gato preto saiu do meio da confusão.
— Bastet — ele chamou mais uma vez, se inclinando, olhando o monitor mais de perto. Ao seu redor, o restante do time estava em silêncio absoluto, todos observando. Esperando… — Bastet? Bastet!
Nada. Cassian se levantou de uma vez, levando as mãos à cabeça e tentando respirar fundo. Sua sombra se agitou sobre seus pés, começando a andar de um lado para outro em desencontro a seus próprios movimentos. Tinha pedido. Tinha dito a ela para que não fosse, sabia que iria ser perigoso, mas não estava esperando algo desse nível. Não achava que ninguém estivesse. Era uma igreja, pelo amor, onde eles tinham arrumado aquilo?
O garoto respirou fundo, se virando mais uma vez de frente para o computador. As câmeras dos pombos estavam se mexendo, Marlene com uma mão para cima a girando lentamente, provavelmente comandando os pombos a mudarem o ângulo de visão. A câmera de Cat estava parada no lugar. Ela provavelmente tinha desmaiado. Se continuasse ali, poderia ser pisoteada. Ou pior, descoberta.
— Temos de tirar ela de lá — Cassian anunciou, se abaixando e pegando as roupas da garota no chão. — Eu vou.
— Pensei que não quiséssemos arriscar você ser descoberto — Miguel comentou, uma sobrancelha subindo devagar em tom inquisidor.
— Era uma espionagem, agora é um resgate, pouco me importa. Você e Reese não podem chegar perto desse lugar, mais um pouco de terrígeno é capaz de matar o Moonstar, e Marlene tem que manter esses pombos de vigia. Portanto, eu vou.
Marlene e Miguel se olharam por um instante, e Cassian podia ver que eles tinham ressalvas, mas não estava a fim de discutir. Ele enfiou a mão no bolso, conferindo se a chave da moto estava lá, e esticou a mão para a caixa que usavam de mesa para o computador, pegando o outro ponto de ouvido e enfiando em sua orelha.
— Me ajudem a saber quando agir — instruiu, as mãos um pouco trêmulas enquanto ajeitava o ponto. — Eu preciso de uma rota livre da Bowery até Hell’s Kitchen depois de encontrá-la.
— Hell’s Kitchen? — Reese perguntou. — O que vai fazer lá?
— Invocar um plano de emergência. Falem comigo no caminho. E Marlene, se os pombos cansarem, troque, mas sempre deixe pelo menos um de vigia. Eu quero saber tudo que acontecer nesse lugar.
Antes que mais alguém questionasse alguma coisa, ele voltou para a porta do telhado, descendo para dentro do restaurante e saindo pela porta da frente. Sua moto estava parada perto de um beco ao lado, e o trânsito estaria um inferno mas pelo menos de moto poderia cortar caminho nem que precisasse passar por cima do passeio. Ele subiu no veículo, enfiou o capacete na cabeça e deu partida.
— Estou a caminho — comentou, ouvindo um chiado em seu ouvido que indicava que o ponto estava ativado.
“Tente seguir pela Central até a Lafayette, estão mais vazias. Dali pode cair na Rua 4” ouviu a voz de Reese. “Midas e eu vamos te guiar, Narciso está ajudando Dánkoma com os pombos. Tem algo acontecendo na igreja…”
— Foquem na Bastet. Se não for importante pra isso, eu posso saber qualquer outra coisa depois.
Ele acelerou a moto, costurando pela avenida de forma irresponsável o suficiente para provavelmente lhe custar a licença de direção, mas sem se importar muito com isso, até porque nem estava com a carteira no bolso naquele momento. Reese estava certa, o trânsito estava mais tragável por esse caminho, mas ainda assim ele se pegou fazendo algumas manobras arriscadas e furando o passeio vez ou outra. Era mesmo uma sorte os moradores de Nova York estarem acostumados com esse tipo de alopragem aleatória, ou talvez não chegasse a Cat tão rápido quanto gostaria.
Cat… L'enfer, tinha dito a ela que não era para ir, já tinham câmeras nos pássaros, mas não, ela tinha que insistir em uma coisa estúpida e perigosa dessas. Não sabia se sentia medo por ela ou raiva do que tinha feito. Ou as duas coisas.
— Quelle merde Cat, quel entêtement inutile! — ele xingava pelo caminho, sem se importar se alguém estaria ouvindo pelo ponto, desviando de carros em manobras perigosas e furando sinais mais vezes que deveria.
Em algum ponto, no caminho, o ponto chiou mais uma vez, e ele sentiu um calor no peito, uma mistura de irritação e ansiedade. E se fossem notícias ruins? Por favor que não fossem notícias ruins…
“Anúbis, Bastet está se mexendo” Moonstar anunciou, a voz saindo estranhamente séria para o que Cass tinha estudado sobre o garoto. “Ela ronronou para o segurança da porta e ele abriu pra ela sair. Ela cambaleou até o beco do lado e então nós perdemos a câmera.”
Ele tentou não se focar na parte em que tinham perdido a conexão visual com ela. Ela tinha conseguido sair da igreja, isso por si só era uma excelente notícia. Precisava focar nisso.
No que foram os oito minutos mais demorados de sua vida recente, Cass finalmente parou a moto ao lado da igreja. Ele girou a mão, seus olhos ficando pretos por trás dos óculos de Sol que tinha colocado mesmo sendo noite, e deixou as sombras cobrirem parcialmente seu rosto, esperando isso bastar para disfarçar sua aparência para qualquer um que estivesse prestando atenção demais.
O garoto pegou as roupas dela no baú da moto, correndo até o beco e tocando a parede. As sombras do beco se moveram sobre as paredes, se esticando para a frente, tocando a lixeira, as sacolas, os jornais, buscando, até Cassian sentí-las envolvendo algo que se movia.
— Cat!
Ele correu beco adentro, olhando em volta ao chegar no meio. Viu despontando, atrás da lixeira, um tornozelo acinzentado, os pés com unhas um pouco maiores que uma pessoa comum deixaria. Ela não o respondeu quando ele chamou.
— Cat, está me ouvindo? — Chamou de novo, se aproximando um pouco mais. A resposta dessa vez foi um gemido.
Ele queria respeitar a privacidade dela, mas mais que isso, queria que a garota ficasse viva, então acabou deixando a decência de lado por um instante. Ela estava sentada atrás da lixeira, sentada contra a parede do beco e abraçando os joelhos. Tremia e choramingava. Fazia um esforço enorme para respirar. Cassian sentiu o coração dar mais um salto, e se ajoelhou no chão, de frente para ela.
— Cat, ei. Sou eu. Cassian. Estou com suas roupas. Você precisa vestir preu te tirar daqui, ok?
Ela levantou o rosto, devagar. Respirava pelo nariz e pela boca ao mesmo tempo, e mesmo assim estava se esforçando. Ele estendeu o bolo de roupas para ela, e a garota esticou uma mão, as pegando devagar.
— Estou aqui, ok? Vou te levar pra um lugar seguro.
A resposta dela foi um aceno bem lento com a cabeça. Cassian se levantou, se virando de costas e esperando enquanto ouvia a garota vestindo a calça e a blusa que tinha levando para ela, em meio a arquejos e alguns gemidos de dor. Cassian usou suas sombras para envolver as mãos e os pés dela, a sentindo tremer e tentando ajudá-la a ficar de pé.
Sombras sólidas não eram uma habilidade que dominava muito bem ainda. Estava tentando, mas era complicado, principalmente considerando o quão fluida a natureza das sombras era. Ele fez um esforço, as fechando depois na cintura dela, a segurando contra a parede para mantê-la de pé enquanto terminava. Enfim, sentiu a mão da garota apertando seu ombro, e se virou para vê-la usando a blusa amassada e um jeans vestido meio torto, mas no lugar.
Cass soltou a sombra da cintura da garota, a pegando nos braços em seguida quando as pernas dela fraquejaram. Conseguia ouvir bagunça do lado de dentro da igreja, uma série de gritos ininteligíveis, mas olhando do lado de fora nada, indicaria a nefastidade do que tinha acabado de acontecer ali dentro. Parecia apenas um culto comum.
Não, não era para pensar nisso agora. Ele a carregou, seus braços reclamando um pouco do esforço. Cat não era pesada, mas ele também não era exatamente forte. O garoto colocou Cat na moto com cuidado, colocando seu capacete na cabeça dela.
— Sombra, não deixe ela cair — ordenou, se sentando na frente da garota e segurando o guidão.
A sombra de Cass se moveu, se colando sobre o corpo de Cat, seus braços e pernas se alinhando aos dela. O garoto estremeceu com o esforço, tentando se focar enquanto sua sombra moveu os braços de Cat para se segurar nele. Uma gota de suor escorreu por seu pescoço. Teria que aguentar isso por no mínimo vinte minutos. Menos se dirigisse de forma particularmente irresponsável.
Cassian apertou o ponto de novo.
— Gente, aquela rota pra Hell’s Kitchen. Rápido!
“Tormenta aqui” ele ouviu a voz de Reese, surpreendentemente rápido. “Caia na Park pela Terceira e pegue a Rua 49.”
— Em frente ao Rockefeller? Tá falando sério? — Ele questionou, agitado, já dando partida na moto e voltando a costurar pelo trânsito, mas com um pouco menos de descuido, tanto por Cat na garupa quanto pelo esforço para manter sua sombra a segurando contra si.
Conseguia sentir o movimento do peito dela respirando, e para sua confusão, esse estava diminuindo. Não sabia se era o esforço passando, e ela tendo alguma facilidade para respirar, ou se estava apenas se cansando. Ele balançou a cabeça, tentando não pensar nisso agora e se focar no caminho. Hell’s Kitchen. Plano de contenção. Tinha planejado contra isso, tinha organizado tudo para o que tinha acontecido com Evelinne e Charlotte não se repetir. E não ia se repetir.
O trânsito estava infernal na 49, como ele tinha imaginado, mas havia, para sua alegria, um corredor. Reese e Moonstar sabiam mesmo do que estavam falando. Ele acelerou ao máximo, desviando de carros e espelhos retrovisores, sentindo seus braços tremerem e o suor se intensificar pelo esforço de usar sua sombra para prender Cat contra si. Estava começando a enxergar dobrado, mas conseguiu reconhecer algumas ruas.
Ele fez uma curva fechada, acelerando mais ainda enquanto os prédios se tornavam familiares e, pouco a pouco, a paisagem o lembrava do dia em que tinha ido até ali montar seu plano de emergência.
E ali estava, a Igreja Clinton, no meio da cidade, com uma torre de relógio enorme e as portas abertas como ele sabia que iriam estar.
Cassian parou a moto de qualquer jeito, descendo do veículo aos tropeços e pegando Cat nos braços, soltando sua sombra. Um alívio percorreu sua espinha, mas o enjôo e a sensação de vômito não foram embora. Precisaria segurar um pouco. Só um pouco…
Ele entrou pelas portas com Cat nos braços, vendo a igreja felizmente vazia, mas sabendo que não estava vazia por completo.
— HÉCTOR! — O garoto gritou, caminhando até o altar e fazendo uma curva em direção à porta da sacristia. Suas pernas estavam tremendo, o custo de usar uma habilidade tão complexa por tanto tempo cobrando seu preço.
Ele chamou mais uma vez, aos berros, já se apoiando contra a parede da igreja ao lado da porta e sentindo a visão escurecer aos poucos. Estava pensando que ia apagar no chão com Cat nos braços quando a porta se abriu.
Cassian abriu um sorriso um pouco sarcástico, um pouco engraçadinho, ao reconhecer o garoto parado ali. Alto, de pele negra e mais músculos do que seria comum para alguém de sua idade — mas justificado pela sua mutação —, Héctor o olhou por um instante, a boca se abrindo em um gesto de surpresa, mas se abaixando em seguida para pegar Cat.
— Eu quero saber o que aconteceu? — Ele perguntou, pegando a garota com um dos braços e usando o outro para apoiar Cassian até ele estar de pé.
— Acredito que sim. Mas eu preciso vomitar no seu banheiro antes.
— Você sabe onde é.
Cassian deixou Cat com Héctor, e desviou os passos para uma portinha ao lado, tropeçando até o vaso sanitário e realmente vomitando toda sua janta. Ao menos, o corpo estava parando de tremer. Ele respirou fundo algumas vezes, até o suor frio e o tremor irem se controlando. Aos poucos, se apoiou na pia do lavabo, se colocando de pé e a abrindo para jogar água na cara.
Estava pálido como se estivesse morto. Nunca lhe fez tanto sentido usar o deus da Morte como nome em combate.
Cassian esperou mais alguns segundos até se estabilizar de pé, e saiu do banheiro, já encontrando Héctor curvado sobre Cat, deitada no banco de madeira da sacristia. O peito dela subia e descia devagar, estava, sim, respirando, felizmente, mas isso era tudo o que ele sabia dizer. Não era médico.
— Héctor?
— Terrígeno?
— Sim…
Héctor suspirou, fazendo o sinal da cruz e beijando um relicário pendurado em seu pescoço. O garoto foi até um armário, abrindo a portinha e começando a tirar alguns vidrinhos.
— Pegue a jarra de água na mesa de cabeceira. E beba um pouco pelo amor de Deus, você está branco feito um fantasma.
Água. Sim, era uma boa ideia. Cassian serviu um copo para si e entregou outro com a jarra para Héctor, bebendo devagar enquanto ele separava alguns comprimidos para Cat. O silêncio no local se tornou tenso, e Cassian apenas esperou enquanto Héctor ajudava Cat a tomar os comprimidos e colocava uma toalha molhada em água fria sobre a testa dela. Por fim, não havia muito mais que o garoto pudesse fazer. Ele guardou tudo no lugar, digitou algo no celular e chamou Cassian para fora da sacristia com um gesto da cabeça.
Cass o seguiu até os bancos da igreja, se sentando ao lado de Héctor em frente ao altar. Não precisou perguntar. Héctor já sabia o que ele queria saber.
— Os médicos estarão aqui em dez minutos. Estão separando um quarto para ela no hospital.
— Obrigado.
— Por nada. Mas você não devia ter trazido ela aqui, terrígeno é coisa séria. Eu te falei que para emergências seria melhor levar direto a um hospital…
— Héctor, olhe só pra ela. Ela é cinza. Tem olhos de gato, dentes, unhas. O que acontece se ela virar um gato na mesa de cirurgia? Você me prometeu contato com um hospital que saberia ajudar mutantes, sem julgamentos. Não vou arriscar largar Cat em um lugar qualquer e à mercê de um médico que pode ser intolerante demais.
Héctor não respondeu, olhando para o altar por um instante e tocando o relicário em seu pescoço, distraído. Levou mais alguns instantes para ele dizer algo.
— Está tão ruim assim? O suficiente para ser perigoso mutantes que parecem diferentes irem para uma mesa de cirurgia qualquer?
Cassian soltou uma risada sarcástica, baixa, passando as mãos pelo rosto. Quando tinha procurando Héctor antes de juntar sua equipe, perguntando se ele conheceria algum lugar que ajudasse mutantes feridos caso fosse necessário, não esperava que ele fosse oferecer a própria igreja como casa de passagem, mas, aparentemente, era algo que o Padre Lantom já vinha fazendo há algum tempo. Também não tinha esperado precisar disso tão cedo, mas se aquela igreja tinha se provado algo era que os discursos estavam muito mais inflamados e perigosos do que as ruas faziam parecer.
— Esse terrígeno… Ele foi ativado em uma igreja, Héctor. Criaram um culto voltado a nos odiar. Ela estava lá em forma de gato, só pra observar tudo, e de repente… Sim. Está bem ruim. Ou talvez eu esteja ficando paranóico demais. Talvez as duas coisas.
Cassian viu o lábio de Héctor tremer.
— Isso que você foi não é uma igreja. São um bando de pessoas sujas usando o nome de Deus pra seus propósitos nojentos. — Héctor comentou, se levantando. — Você tem planos para lidar com eles?
Como Cassian tinha imaginado, até a boa vontade de Héctor tinha limites. E o dele estava bem ali, no uso torpe de suas crenças religiosas.
— Vou ter. Eles não vão escapar impunes, eu te garanto.
— Ótimo. Não se preocupe com a garota, ela vai ficar bem. Eu te mando notícias. Mas você tem que ir embora antes dos médicos chegarem.
Sim, isso também era parte do acordo. Héctor não queria a igreja sendo associada com a Irmandade, então quanto menos gente o visse conversando com alguém da equipe, melhor.
— Vou esperar sua ligação.
Héctor assentiu, e Cassian se levantou, apertando a chave da moto na mão e deixando a igreja.
[...]
O quarteto continuou de olho nas telas do computador, divididos entre encontrar a melhor rota para Cassian e manter os olhos no que acontecia dentro da igreja. Mas desde que o terrígeno tinha disparado, as pessoas tinham se reunido em um círculo fechado e confuso, e estava bem difícil ver o que acontecia no meio dele. E a situação não mudou muito depois disso, por um longo tempo.
Reese suspirou, olhando a tela do computador e se espreguiçando um pouco. Cassian tinha chegado onde queria, conseguiam saber, mas precisaram esperar mais um bom tempo para receber notícias dele. Foi cerca de meia hora, esperando em ansiedade, vendo aquele círculo bizarro de pessoas na igreja, até a voz dele se fazer ouvir no ponto de novo.
“Gente, Anúbis aqui. Calavera recebeu Bastet, ela está em um hospital seguro. Os médicos disseram que a situação é estável. Não parece ter danos graves.”
A garota soltou uma lufada de ar aliviada, e não foi a única. Miguel parecia ter acabado de receber a notícia do fim de uma guerra. Mesmo Marlene e Moonstar estavam mais tranquilos.
— Nos mande mais notícias se tiver.
“Sim, mas agora eu preciso ir pra casa. Continuem de olho na igreja. Midas, acho que você também deveria ir.”
— Provavelmente — Moonstar respondeu, se levantando. — Tem toque de recolher, estou perto demais de passar do limite.
Ele foi embora sem se despedir apropriadamente ou se oferecer para ajudar com algo mais, mas Reese a essa altura não se importou. Cat ia ficar bem. Tinha sido a primeira pessoa em muito, muito tempo, a recebê-la e ajudá-la de alguma forma. Não queria nada de ruim acontecendo com a garota. Não encontrava aquele tipo de gentileza com frequência direcionada a pessoas como ela.
— Até mais, Anúbis — Reese se despediu, interrompendo a conexão. Moonstar já tinha ido embora, e com isso ela, Marlene, e Miguel foram os únicos que ficaram ali em cima. Dentro da igreja, o círculo e as orações continuavam. Ainda não era possível ver muita coisa.
— Vamos esperar o culto acabar — Miguel sugeriu, as flores laranjas de sua cabeça dando lugar a outras, brancas, aos poucos. — Então podemos revezar quem fica no computador.
As garotas assentiram, e o trio esperou. Quando alguma movimentação começou na igreja de novo, algum bom tempo tinha se passado, e o círculo começou a se desfazer. Foi Miguel quem percebeu primeiro, chamando a atenção das outras duas para assistirem a movimentação. Marlene ligou o áudio de uma das câmeras remotamente, mas o som ainda estava abafado para o pombo atrás da janela.
Assim, foi com os olhos que coletaram mais informações. À medida que o grupo abria o círculo, e a visão clareava, eles conseguiram ver o que estava no meio dele: um casulo de terrígeno. Os cantos e orações tinham sido direcionados à pessoa encasulada.
— Mas o que caralhos… — Marlene murmurou.
Jason estava dizendo algo no púlpito, e o culto parecia estar acabando, pois as pessoas começaram a dispersar logo em seguida. E assim, muito em breve, a igreja esvaziou.
— Vocês viram o que eu vi? — Reese questionou.
— Um bando de pessoas rezando pra um pobre coitado que teve um gene inumano ativado pela terrigênese? — Miguel perguntou. — Vi sim.
— O tal Jason disse algo sobre “Deus dar armas para lutarem contra as criações do diabo”. É isso. Eles enxergam os inumanos como um presente divino pra nos combater.
— E para onde é que estão levando o presente divino? — Miguel perguntou, apontando para a tela.
Um grupo de três homens em trajes de proteção entrou no local, levando um carrinho de carga e descarga. O trio se reuniu ao redor do casulo, usando uma pequena faca a laser para soltar o casulo do chão, depois o colocando no carrinho e o carregando para fora.
Depois disso, um outro grupo entrou, para terminar de limpar o resto de casulo do chão da igreja. Eles fizeram isso em uma velocidade surpreendente, e logo saíram do local, como se nunca tivessem estado lá.
As luzes se apagaram. As portas se fecharam. Era o fim das atividades pelo dia.
— Você pode fazer um pombo seguir eles? — Miguel perguntou.
Marlene levantou a mão no ar mais uma vez, a girando. Um dos pombos levantou vôo, encontrando um caminhão do lado de fora onde tinham colocado o casulo. O caminhão deu a partida e o pombo começou a acompanhar. O outro ainda estava pousado na janela do lado de fora.
Não precisaram acompanhar por muito tempo. O pombo seguiu o caminhão por meia hora até uma pista de vôo privada nos arredores da cidade. Os mesmos homens descarregaram o casulo do caminhão, o colocaram no avião, e o avião decolou.
— É o fim da linha — Marlene comentou. — Pássaros não voam em altitude de avião.
Reese suspirou, e Miguel franziu a testa, frustrado. Ele se virou para a outra câmera, que o pombo ainda filmava a igreja, mas nada de novo tinha acontecido lá. Não tinha mais de onde pegar informações agora.
— E agora? — Reese perguntou.
— Cassian pediu para continuarmos vigiando. E ele tem razão, algo pode acontecer — Marlene respondeu, estralando os dedos, encarando a tela do computador.
— Vamos revezar então — Miguel sugeriu. — Vão dormir, vocês duas. Eu tô meio descansado, o que é bem raro de acontecer, eu chamo uma de vocês se ficar com sono.
— Pode ser eu — Reese se ofereceu, se levantando. — Mas vamos trazer isso tudo pra dentro, não tem por que continuarmos aqui no telhado.
Miguel concordou, e se levantou, pegando o notebook. Então o trio desceu para o porão do restaurante.
[...]
No dia que se seguiu, Cassian veio ao restaurante dizer aos pais de Cat que ela tinha sido pega em um acidente, sem dar muito contexto. Dizer que os dois ficaram arrasados era um eufemismo, depois do que já tinha acontecido com Tuan, o filho mais velho. Cassian levou horas para explicar para eles que Cat estava bem, em um hospital, estável e se recuperando aos poucos.
Depois de passar o endereço para os dois verem a filha, Cassian foi até o porão explicar aos colegas que se recuperando “aos poucos” era um pouco mais rápido do que a realidade. Cat não estava piorando, mas chamar os pequenos sinais de melhora de recuperação era um pouco de exagero que ele tinha feito para tentar acalmar os pais da garota. Ela estava em coma e não tinha precisado ser entubada, mas usava uma máscara de oxigênio.
Ninguém sabia o que ia acontecer com ela agora, ou quando a teriam de volta no time — quando, não se, Cassian tinha feito questão de frisar — e portanto, pelo meio tempo, só lhes restou se ocupar de vigiar a igreja, algo que vinha se provando um trabalho bem mais monótono que o esperado.
Mais dois cultos aconteceram. O primeiro ocorreu exatamente como antes, sem nenhuma surpresa. Marlene rotacionava os pombos de tempos em tempos para eles poderem descansar, trocando a câmera para outro animal, mas o máximo de adrenalina que isso tinha rendido até então tinha sido assistir a mesma coisa se desenrolar de novo uma vez. E então na segunda. Mas algo devia com certeza ter dado errado na segunda, porque, no dia seguinte, algo diferente apareceu.
Eram Moonstar e Reese vigiando na hora. Os dois gravaram todo o evento e mandaram uma mensagem, correndo, para Cassian vir até o restaurante, pois o grupo todo precisava ver com seus próprios olhos.
Ele não demorou para chegar. Marlene e Miguel já estavam ali e se juntaram na hora, o grupo de mutantes se acomodando na frente da tela. Cassian entrou com a roupa meio amassada e ainda com uma etiqueta escrito “visitante” presa em sua camisa.
— Estava com Cat? — Reese perguntou, levantando o rosto do monitor para encarar Cassian. — Como ela está?
— Estável — ele respondeu, com a expressão séria, engolindo em seco.
“Estável”, como Reese já tinha aprendido nos últimos dias, não era uma coisa ruim, mas também não era boa. Era quase como um adiamento interminável, os deixando permanentemente esperando por uma mudança, enquanto ao mesmo tempo se temia uma mudança ruim. A sensação era virulenta, corroendo a boca de seu estômago e piorando suas ansiedade noturnas. Cat estava se juntando ao seus pesadelos agora, aparecendo morta por ter tentado ajudar.
Por ter tentando ajudar a ela. Reese trocou um olhar com Miguel. Ele também vinha sentindo algo parecido, tinham conversado sobre isso. Parecia tão injusto. Miguel estivera dormindo em uma barraca no parque antes de Cat os receber. E agora…
— Vocês disseram que viram algo — Cassian comentou, puxando uma cadeira para perto. — Temos que descobrir o máximo de coisas possíveis. Cat vai querer saber tudo quando voltar.
Sim. Exato. Reese pigarreou, tentando afastar os maus presságios da cabeça e reproduzindo um vídeo que tinham gravado da câmera do pombo. O vídeo começava com as portas da igreja sendo arrombadas. Em seguida, um homem muito alto, careca, de colete, carregando uma escopeta com uma lâmina de machado na ponta, entrou no local. Atrás dele, veio uma mulher bem mais baixa, de cabelos longos e braços biônicos. Haviam mais pessoas ali, mas Cassian parou de prestar atenção, pois mais uma garota entrou e ele mal pôde acreditar em seus olhos.
— Sacré bleu…!
— Eu sei — Miguel retrucou, dando de ombros. — O que a S.H.I.E.L.D. está fazendo ali? Quer dizer, eles estavam investigando terrígeno e inumanos, mas não conseguiram resposta ainda, então é possível que vão se meter nisso? Quer dizer, eu acho que…
O que Miguel achava ou deixava de achar escapou pelos ouvidos de Cassian. A garota baixa, de pele negra, cabelos afro bem curtos e pequenas argolas douradas na cabeça se virou exatamente na direção do pombo, e agora não havia dúvidas. Cassian seria incapaz de confundir o rosto de sua namorada em qualquer momento de sua vida.
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