Levaram duas semanas e uma ameaça para Bobby conseguir uma resposta de Simon. Não estava orgulhoso do que tinha feito, seu último áudio sendo “São catorze dias. Se eu não ouvir de você em dois dias, vou te considerar desaparecido e estrear a chave do seu apartamento.”, mas não era mentira. Simon não costumava demorar um dia para respondê-lo, levar duas semanas inteiras era muito preocupante. Principalmente considerando as suspeitas de Bobby em relação à igreja. Felizmente, o ultimato bastou, e Simon enfim respondeu, dizendo a Bobby para ir vê-lo em casa.

Então ali estava Bobby, no que era a situação mais estranha de sua vida amorosa desde quando tinha se descoberto gay. Ele se perguntou de repente se era por isso que tanta gente tinha ressalvas quanto a misturar namoro com trabalho, e com certeza não ajudava quando o trabalho incluía risco de vida frequente. Bobby não sabia se ficava com raiva de ter sido ignorado esse tempo todo, preocupado com o sumiço, aliviado pela resposta… Até onde sabia, durante essas duas semanas de agonia em que esperava Simon responder, ele poderia ter levado uma bomba de terrígeno na cara. Não queria ser o namorado paranoico, mas, céus, estavam vivendo em tempos paranoicos, e não tinha nada que pudesse fazer sobre isso, a não ser se contorcer de desespero quando alguém com quem se importava ficava duas semanas sem dar notícia.

Mas tudo bem, Simon estava ali. Tinha lhe respondido e o chamado até seu apartamento, então certamente estaria tudo bem, e o homem teria uma ótima explicação para tudo. Bobby suspirou e apertou a campainha. Estava com as chaves no bolso, e apesar de o próprio Simon as ter dado para ele, lhe pareceu errado ir entrando sem avisar, mesmo que tivesse tecnicamente permissão para tal. Era, de fato, uma situação complexa.

Simon abriu a porta, e num espaço de dez segundos Bobby percebeu que toda sua paranoia deveria sim ter algum fundamento. O homem estava só de bermuda, todo molhado, e parecia haver uma névoa na casa por trás dele. Algo estava errado. O apartamento estava muito quente e abafado, parecia ter se transformado em uma sauna. Bobby nem tinha entrado ainda e já estava desconfortável.

— Olá… — Simon cumprimentou, saindo da frente da porta para dar passagem para Bobby.

Ele entrou devagar, olhando em volta com um olhar de dúvidas, tentando entender o que estava acontecendo no lugar. Se tratando de Simon, talvez ele só estivesse no humor para uma sauna, e tinha decidido esquentar o lugar ele mesmo. Mas algo não parecia certo. Eram muitas coisas estranhas acontecendo de uma vez para ser uma coincidência ou uma ideia maluca e inocente.

— Olá — Bobby respondeu. — Se importa se eu esfriar um pouco esse lugar?

— Vá em frente.

Bobby começou a emanar um ar frio de seu corpo, e Simon abriu a janela. Bastava esperar a convecção fazer seu trabalho, o que não demorou muito para já ser perceptível. Simon assistia em silêncio, parado de pé no meio da sala, e não parecia dar sinais de que fosse querer se sentar, então Bobby decidiu fazer isso sozinho ele mesmo, puxando uma cadeira da mesa de jantar e se acomodando. Ele esperou um pouco, era óbvio que estava querendo respostas e deu a Simon a chance de começar a falar sem ser questionado, mas ele não o fez, então decidiu começar.

— Então… Duas semanas. Não faça uma coisa dessas Simon, por favor, eu achei que tinha te acontecido algo. Responda mandando eu ir me ferrar, mas responda, eu imploro.

Simon assentiu, cruzando os braços com força, ainda de pé no meio da sala.

— Tudo bem. Me desculpe Bobby, eu não queria te preocupar.

— Bem, adivinhe, deu muito errado. O que está acontecendo? E tem alguma coisa acontecendo, então não tente dizer “nada”, por favor. É muito insulto à minha inteligência.

Simon abaixou o rosto, encarando os próprios pés. Não parecia disposto a dizer nada, mas ao menos não tinha tentado mentir. Era um começo, mas não era o bastante. Bobby ainda conseguia ouvir o questionamento de Damon ecoando na sua cabeça, e era realmente uma coincidência estranha.

Mas se Simon tinha mesmo colocado fogo na igreja, como Bobby estava torcendo para não ter feito, ele não ia simplesmente confessar isso para alguém que podia prendê-lo. Bobby era um X-Men, tinha jurisdição para resolver esse tipo de bagunça mutante, e por mais que não quisesse fazer isso com o próprio namorado, não era uma questão de querer ou não, de escolher entre fazer ou não fazer. Era sua responsabilidade.

— Simon…

— Me desculpe — o homem cortou, caminhando devagar até a cadeira de frente para Bobby. Ele se sentou nela devagar, e o Homem de Gelo sentiu a temperatura subir vários graus ao seu redor com a aproximação do namorado. — Eu fiz algo que você me disse para não fazer. Passei as últimas duas semanas pensando em como te procurar e contar… Mas você vai ficar muito puto, então…

Merda. Merda, ele tinha mesmo feito alguma coisa. Bobby engoliu em seco, sentindo um aperto estranho no peito, uma mistura de tristeza com desapontamento, e também decepção, sabendo que, dependendo do que a confissão fosse, teria de fato que prender Simon — e logo agora que tinha realmente se apaixonado por ele.

Não era mais nenhum adolescente, mas mesmo assim tinha se permitido sonhar um pouco, seria besteira dizer que não. Tinha pensado em se mudarem juntos, fosse no Instituto, no apartamento de Simon ou em outro lugar. Apresentá-lo para seus pais, e conhecer a mãe dele. Quem sabe um casamento? Bem, era um romântico. Sua cabeça voava longe às vezes.

E de fato muito longe, pois a realidade estava se mostrando outra. Bobby cruzou as mãos na mesa, mantendo a postura o mais séria e neutra possível, como costumava fazer com qualquer outro interrogado. Não podia pegar leve com ele só por ser Simon.

— O que você fez? — Perguntou, tentando disfarçar o leve aperto em sua voz, um reflexo de sua garganta se apertando em um desejo de chorar, fruto de seu nervosismo e da possibilidade de ver todos seus sonhos se desandando em sua frente agora.

Tudo teria sido muito mais fácil se nunca tivesse se apaixonado. Agora, porém, já era tarde para isso.

— Eu só queria dar uma olhada, eu juro. Eu fui passar uns dias com mamãe, te contei, não foi? Pois então. Ela recebeu um irmão dela lá para um café um dia. Meus tios são muito preconceituosos então eu tento só não ficar na sala quando eles estão em casa, mas é meio maluco como as pessoas falam alto quando acham que você não pode ouvir… Enfim, ele estava falando algo sobre eu ser uma aberração e coisa parecida, e um monte de besteira anti-mutante, e foi lá pra levar um panfleto pra minha mãe, e…

Panfleto. O queixo de Bobby caiu, e Simon parou de falar, percebendo ter mencionado algo importante.

— Esse panfleto — Bobby cortou, sabendo para onde a conversa estava indo mas não querendo acreditar. Se recusando. — Era sobre uma tal “Igreja de Stryker”?

O olhar culpado no rosto dele disse tudo. Bobby se levantou de uma vez, a cabeça dando voltas, tentando encontrar justificativas, se recusando a aceitar o que tinha acontecido. Porque não era possível. Simon não era assim. Sua passagem pela Irmandade tinha sido fora do controle dele, ele não iria propositalmente entrar naquela igreja e fazer uma coisa dessas. Tinha de ter um motivo.

— Simon — Bobby chamou, tentando manter a voz firme e fazendo força para não lacrimejar. Não queria ter de prendê-lo. Não queria, por favor… — Você colocou fogo na igreja?

— Bem…

— Meu Deus… Ah meu Deus, não acredito…

— Não foi de propósito! Eu juro, Bobby, eu…

— Não foi de propósito?! — Bobby cortou, a temperatura começando a esfriar consideravelmente ao seu redor. O namorado, ainda só de bermuda, estremeceu, abraçando os braços e se arrepiando com o frio no local. Simon tinha razão. Bobby estava puto. — Como alguém acidentalmente incendeia um prédio com seus poderes de incendiar coisas? Você é adulto, Simon, você controla suas habilidades muito bem!

— Eles tinham terrígeno lá!

Terrígeno? Bobby parou de falar, o choque o acalmando o suficiente para a temperatura na sala começar a amenizar de novo. Simon viu que tinha feito Bobby parar por um instante e não ia perder a chance. Já tinha começado a falar, agora que terminasse de uma vez.

— Eu só fui assistir o culto deles. Eu queria ver que tipo de coisa eles falavam lá dentro, entender como eles pensam pra tentar pensar no que podemos fazer pra combater. Mas em algum momento eles trouxeram um cristal de terrígeno dos fundos, fecharam todas as portas e o ativaram. Eu não consegui fugir. Meus poderes saíram de controle, e ainda não voltaram por completo. Estou passando o dia inteiro no chuveiro e não consigo me resfriar… Eu juro que por mais raiva que eu tenha sentido naquele lugar, eu não ia atear fogo, é uma ideia estúpida que só pode nos atrapalhar mais que qualquer outra coisa, mas eu não consegui me impedir. Me desculpe…

Eles tinham terrígeno. A igreja anti-mutante com discurso para eliminá-los do mundo tinha terrígeno.

Meu Deus, Simon tinha respirado terrígeno.

— Simon! — Bobby avançou até o namorado, puxando o rosto dele para perto, o analisando, sentindo suas mãos começaram a esquentar e queimar de leve. A raiva mudou seu alvo de Simon para a maldita igreja, agora também acompanhada de um desespero latente. Ele cobriu as palmas com uma camada leve de gelo, e Simon tremeu um pouco de novo. — Você devia ter me ligado imediatamente. Perdeu o juízo??? Precisamos fazer uns testes, precisamos ver a extensão dos danos, precisamos…

— Bobby por favor, pare — o homem respondeu, se levantando e empurrando o namorado devagar. — Eu estou bem. Nada de errado no pulmão, só meus poderes estão esquisitos.

— Seus poderes não são inofensivos, Simon. Você não pode ficar andando por aí com o risco de colocar fogo nas coisas aleatoriamente! Você precisa de um bloqueador. Junte algumas coisas e vamos no Instituto pegar um pra você, e depois…

— Eu não quero um bloqueador! Bobby pare por um instante e me escute, por favor!

O homem parou, encarando Simon com alguma surpresa e também uma boa dose de receio, pois a temperatura na sala estava subindo mais uma vez. Bobby respirou fundo, exalando mais uma onda de ar gelado ao seu redor, tentando combater os efeitos do que Simon fazia. Estava funcionando, mas iria parar assim que deixasse o local.

— Eu pensei que você fosse entender — Simon comentou, com uma risadinha irônica e confusa. — De todas as pessoas… Nós somos iguais, você e eu. Em parte foi por isso que nos atraímos, não foi? Eu passei a vida reprimindo meu gene-X sem saber, porque já era muito lidar com o fato de ser gay, e você fez o exato oposto. Agora nós finalmente estamos em uma posição na qual nós dois estamos bem com as duas partes de quem somos, e você quer que eu coloque um bloqueio nisso? Como você ia se sentir se eu te mandasse de volta pro armário a essa altura?

Péssimo. Ia se sentir muito mal, e entendia perfeitamente do que Simon estava falando, mas não era certo comparar as duas coisas.

— Não é a mesma coisa.

Como não é a mesma coisa?

— Eu estar dentro ou fora do armário não apresenta risco de colocar todo um prédio em chamas enquanto eu durmo. Por favor Simon, você é inteligente. Você tem vizinhos. Você sabe que isso é uma situação perigosa.

Simon suspirou, e Bobby sabia que tinha vencido o argumento. E ainda bem que tinha, porque, namorado dele ou não, era sua responsabilidade como X-Men garantir que um mutante com poderes fora de controle não representasse perigo para si e nem para os outros. Se Simon não aceitasse ir embora, teria de chamar Kitty para levá-lo algemado, e se tomasse esse tipo de ação policial com ele, tinha certeza, ia jogar todo seu relacionamento no lixo por conta de seu trabalho.

— Você não tem que ficar lá, nem nada do tipo — Bobby comentou, se aproximando do homem e segurando a mão dele. Não queria forçar Simon mais do que o necessário, e mais que tudo, queria que ele entendesse a situação. — Você pode colocar uma coleira, e voltar pra casa. Depois apareça no Instituto de tempos em tempos e nós vamos te ajudar a controlar isso de novo até poder tirar a coleira. Eu prometo.

Para alívio de Bobby, Simon concordou, assentindo com o rosto baixo e apertando os dedos do namorado de leve. Parecia muito triste. Ou envergonhado. Talvez as duas coisas.

— Me desculpe. Eu não queria… Não quero machucar ninguém.

— Eu sei — Bobby respondeu, levantando o rosto de Simon devagar para o olhá-lo nos olhos. — Não foi sua culpa. Eu só estou aliviado de você estar vivo.

Os olhos de Simon brilharam e um sorriso pequeno se espalhou em seu rosto. Bobby o beijou, brevemente, sentindo os lábios dele bem mais quentes que o comum contra os seus, e logo se afastou.

— Vista uma camisa. Vamos logo começar a resolver isso.

[...]

Naquela tarde, o time decidiu treinar ao ar livre. Grace voava alto, passando por cima das estátuas e desviando de bolinhas de paintball atiradas nela por algumas máquinas de treino do jardim. Damon e Amália estavam treinando alguns golpes juntos, com mais intensidade que uma seção de prática comum pediria, mas isso era bom para Balu, que já tinha curado duas luxações e uma torção num espaço de tempo de meia hora. Os dois pareciam estar se divertindo, o que era bom para Balu, que também se divertia de tabela. Luke, que vinha tentando criar jatos de luz sólida a algum tempo, estava tentando colocar fogo em um pequeno monte de folhas usando um raio laser concentrado — ou ao menos o que ele queria que fosse um raio concentrado — e Nath…

Nath tinha simplesmente se deitado na grama, aproveitando o Sol. Talvez, Luke pensou, isso fosse parte do motivo pelo qual não estava conseguindo criar o jato de luz, não conseguia se concentrar. Não com Nath do seu lado daquele jeito.

Depois da troca de pele, Nath não foi chamar Luke de volta para o quarto, e o garoto acabou dormindo na sala. No dia seguinte, voltou para seu quarto e acabou encontrando Nath, adormecido e exausto na cama. Todo o cabelo dele tinha caído.

Dizer que Nath tinha acordado em desespero era um eufemismo. Luke não via Nath chorar desde quando tinha contado para ele que Santino tinha morrido, e mesmo naquela ocasião, tudo tinha acontecido através de um rádio. Ver Nath se desfazer em prantos daquele jeito na sua frente tinha mexido com Luke de alguma forma.

Não tinha tido coragem de cobrá-lo sobre os treinos depois disso, ou sequer sobre suas avaliações de mutação. No máximo tinham conseguido descobrir que ele ainda tinha folículos capilares, então existia uma chance do cabelo crescer de novo, mas a resposta de Nath para isso foi “dessa vez”, e depois ele não quis falar mais sobre o assunto. Já tinha sido um milagre para Luke convencê-lo a sair do quarto o suficiente para aquela sessão, mesmo que o namorado só estivesse deitado na grama, de olhos fechados. Poderia estar dormindo.

Luke parou um pouco com os jatos de luz, não estava funcionando mesmo e estava começando a se cansar um pouco demais. Ele deu uma última olhada para o restante do time, Grace ainda desviando com uma certa habilidade dos tiros — apesar de ter uma ou outra mancha de tinta nas asas e no uniforme — e Damon e Amália testando novos golpes juntos, com Balu do lado. Agora eles estavam começando a ensinar Balu a socar também. Interessante. Mal não ia fazer.

Como todos pareciam bem entretidos, ele se sentou ao lado de Nath — do lado certo, para sua sombra não cobrir o Sol dele — e fez um carinho suave em seu ombro. Nath abriu os olhos devagar, se deitando de barriga para cima e olhando para Luke do seu lado.

Desde quando tinham se conhecido, Nath sempre tinha sido mais quieto, um pouco pessimista, mas tinha um espírito guerreiro. Estava acostumado a lutar para garantir segurança e recursos para os Morlocks, acostumado a ver as coisas boas nas situações mais sombrias. Aquele brilho nos olhos dele, em meio a toda adversidade, logo depois de terem passado por um massacre horrível, era grande parte do motivo pelo qual tinha se apaixonado.

O brilho tinha desaparecido. Começara depois de Santino e da visita de Murdock, e só vinha piorando desde então. Nath parecia sempre triste e cansado, e Luke estava ficando sem ideias do que mais poderia fazer para tentar ajudá-lo. E não ajudava que sempre estivesse tão ocupado com o time e com seu próprio treinamento. Vinha desalojando pelo menos um dia da semana para passar todo com Nath, mas por mais que o namorado gostasse de estar com ele, não parecia estar se divertindo tanto. Ele nunca parecia estar se divertindo.

“Como está se sentindo? O Sol está te fazendo bem?” Luke perguntou. Isso também era em parte um motivo pelo qual tinha agendado aquele treinamento ao ar livre. Um bom banho de Sol costumava fazer milagres pelo humor de Nath. Costumava.

“Um pouco, sim.” o garoto respondeu, se sentando.

Bem ao corpo, Luke conseguiu perceber, mas não tanto ao humor. Talvez… Talvez se engajasse Nath em algo que ele gostava de fazer… Talvez se fizesse ele pensar em outra coisa…

“Meus lasers não estão funcionando direito. Você tem alguma ideia?”

Nath deu de ombros. Não tinha, ou não queria pensar no assunto, mas Luke percebeu muito rápido que tinha sido uma péssima ideia de tópico. Nath estava assim por causa da mutação dele. Mutação deveria ser o último assunto na mesa.

Mas falar de algo simples como seriados e filmes como costumavam fazer parecia muito simples e fora do clima. Então Luke abraçou o garoto, deitando a cabeça no ombro dele e deixando um beijo breve em seu pescoço.

“Eu te amo, Nath. Eu quero te ajudar.”

“Você pode tirar meu gene-X?”

Luke se assustou com a resposta, e seu rosto certamente demonstrou isso. Sabia o quanto o namorado estava insatisfeito com sua situação, mas nunca tinha o ouvido falar sobre deixar de ser mutante. E não era algo possível. Ter Nath pensando nesse tipo de coisa não era bom, Luke conseguia pensar como poderia ser perigoso para o bem estar mental de Nath, e talvez para o físico também.

Não era mais sobre querer ou não, as avaliações de mutação também incluíam acompanhamento psicológico quando necessário, e Nath não podia continuar escapando disso. Tinha de dar um jeito de convencê-lo a ir, cedo ou tarde, de preferência cedo, antes que algo ruim acontecesse.

“Nath… Eu acho que nós precisamos conversar sobre suas avaliações —”

Nath revirou os olhos, levando as mãos à cabeça e bufando.

“Você não vê? Sempre que eu uso minhas habilidades mais do que o comum, eu troco de pele. E sempre que eu troco de pele, algo piora! Ir em avaliações, ter de ficar usando minhas habilidades e me testando o tempo todo, só vai servir pra terminar de me transformar em uma aberração! Eu não quero isso, por favor, não me faça fazer isso…”

Até para Luke, que já tinha aprendido bastante ASL e conversava com Nath todos os dias, foi difícil pegar algumas das palavras, de tão rápido que Nath estava gesticulando, as mãos tremendo um pouco de desespero e indignação. Mas ele entendeu a mensagem geral muito bem. Nunca tinha reparado em nada disso, e agora entendia porque Nath não queria ir nas avaliações, bem como entendia que não podia obrigá-lo a isso. Então o que iria fazer?

Luke não sabia o que dizer. Foi felizmente salvo pelo restante do time, Grace voando em sua direção e os outros três correndo. Nath tinha voltado a encarar a grama no chão, e não parecia muito interessado no que quer que o grupo tivesse para dizer. Luke decidiu que conversaria com ele depois. Ainda precisavam achar uma solução para tudo isso.

— O que aconteceu? — O líder perguntou.

— É Simon, olha! — Grace exclamou, apontando para os portões da mansão.

Simon e Bobby estavam entrando, e nenhum dos dois parecia muito feliz. Bobby também não estava trazendo Simon algemado… Mas isso também não queria dizer muita coisa, os dois namoravam. Talvez Bobby não quisesse pegar pesado com ele. Isso era algo que Luke entendia muito bem.

— Sim. O que tem? — Luke questionou, ainda tentando entender a empolgação do resto do time.

— Bobby pode ter descoberto algo! — Amália exclamou. — Como por exemplo se ele realmente ateou fogo na igreja!

E Luke conseguiu ver a ideia se formando na cabeça do restante da equipe, até mesmo Grace, antes mesmo que dissesse alguma coisa.

— Nem pensem…

Não conseguiu terminar. O quarteto já estava atravessando o jardim em direção aos recém-chegados, e Luke não teve escolha a não ser ir atrás. Nath não fez menção de levantar, e pelo momento, Luke achou melhor deixá-lo lá.

Quando ele alcançou o resto do time, uma conversa já tinha se iniciado, e não parecia ser das melhores.

— …você, não foi? Ou não foi? Por quê? É por que eles são um bando de preconceituosos nojentos? — Amália questionava.

— Eu já não disse a vocês que eu vou cuidar dessa investigação agora? — Bobby perguntou, olhando o time por um instante e depois para Luke. Luke percebeu que o homem tinha se colocado um passo à frente de Simon, e que Damon e Simon se olhavam de forma muito intensa, e nada amigável.

— Disse — Luke cortou, passando na frente da equipe e tentando empurrar o quarteto para trás. — Desculpe Bobby, não vamos nos envolver, só ficamos curiosos…

— Escutem aqui vocês… cinco? Onde está o Nathaniel? — Bobby esticou a cabeça, vendo Nath deitado na grama mais ao fundo, e suspirou. — Certo, passem a mensagem. Essa investigação é bem perigosa. Não é o tipo de coisa que vocês podem se meter, é perigosa demais até pra mim, e eu sou adulto nível ômega. Eu não quero vocês perto disso, fui claro? Vocês sabem o tipo de coisa que podem fazer, nós concordamos em ser cuidadosos com isso e em troca eu prometi que não ia impedir vocês de mexerem com o que fosse seguro. Então, é isto.

— Mas…

— Sem “mas” nem meio “mas”, Damon, assunto encerrado. Vocês tem de se preocupar com suas avaliações e com problemas de ordem simples. Isso não está sob discussão.

E sem dizer mais nada, Bobby pegou Simon pelo braço e foi o levando para dentro do Instituto, um comportamento tão culpado que só faltava uma assinatura numa confissão pra terminar de selar o envolvimento de Simon no ocorrido.

Mas se Bobby dizia que não era problema deles, não era problema deles, e Luke aceitava isso. Já tinha visto de perto as consequências de desobedecer esse tipo de ordem. Tinha pressionado a ferida de Santino enquanto ele sangrava até a morte sob suas mãos, por conta de seu plano. Sua ideia. Seu time. Sua responsabilidade.

Ele balançou a cabeça, tentando afastar as imagens de Santino ferido de sua mente. Santino não tinha sido sua culpa. Seu irmão não tinha sido sua culpa. Acidentes aconteciam e falhas também, e não era para carregar isso nas costas pelo resto da vida. Mas mesmo dizendo isso a si mesmo diariamente, não conseguia absorver a mensagem. Tinha se trancado naquele Instituto para se impedir de ferir aqueles que amava, e como resultado, tinha um mutante morto e uma equipe de pessoas que não pareciam levar isso a sério para poder cuidar.

Por muito tempo, tinha achado que Bobby o tinha escolhido como líder da equipe só por ser o mais velho quando o time tinha começado, mas agora entendia que havia algo a mais. Ele era o único ali que tinha se voluntariado a ir ao Instituto especificamente por ter machucado alguém, o que dizia muito sobre seu jeito de pensar e agir.

Luke sentiu a cabeça doer. Entre tudo isso e a situação com Nath, sentia que já tinha se esforçado o bastante por um dia só. Talvez fosse aceitar o conselho que todo mundo lhe dava, e descansar pelo resto do dia.

[...]

— Isso é tão injusto — Amália resmungou, enfiando a mão no pacote de amendoins com chocolate que estavam comendo e mastigando um deles. — Se não fosse por nós, Bobby não ia nem saber que tinha que perguntar alguma coisa pro Simon.

— Eu sei, Amy — Grace respondeu. Estavam ela, Amália, Balu e Damon deitados no chão da Sala do Perigo, dividindo um pacote de amendoim e se recuperando da seção de treino de mais cedo. — Mas Bobby não ia falar isso à toa. Alguma coisa deve ter acontecido.

— Mas a gente não pode nem saber o que é? — Balu resmungou, seu tom saindo muito parecido com o de Amália. — Amy tem razão, a gente devia no mínimo ter informações sobre o que está acontecendo. O que você acha, Damon?

Os três se viraram para ele, e o garoto franziu a testa, um pouco desconfortável.

— Não acho que eu possa achar alguma coisa. É Simon. Eu quase matei ele, lembram? Não quero cutucar onça com vara curta, se Bobby me mandou ficar longe dele, essa é uma ordem que eu não vou achar ruim de seguir. Sei lá, vai que ele decide tacar fogo em mim ou algo parecido.

— E a gente vai simplesmente sentar aqui sem fazer nada? — Amália perguntou, cruzando os braços e se sentando. — Não foi pra isso que me alistei.

— Bom se vocês não tem mais nada pra fazer, problema seus. Eu tenho umas coisas pra resolver e estou faz semanas pensando como, mas acho que finalmente tenho uma ideia, então…

— Eu acho que Balu tem razão. Mas Bobby também — Grace cortou. — Ele pode não querer que a gente se envolva com as coisas, mas poderia pelo menos ter contado pra gente.

A expressão no rosto de Amália se alterou no instante seguinte, do enfezamento com a situação para a realização de quem acabara de ter uma ideia muito boa. Grace tapou a boca com a mão, se repreendendo do que tinha acabado de dizer, pois conhecia aquele olhar. Amália estava prestes a ter uma ideia muito ruim.

— Gente, é isso! — A garota exclamou. — Não precisamos fazer nada, só precisamos descobrir o que Bobby não quer contar pra nós! Ele é todo paranoico e organizadinho, aposto que tem todo um depoimento do Simon escrito ou gravado em algum lugar.

— Pausa — Balu interrompeu. — Você quer mexer nas coisas do Bobby?

— Só dar uma olhadinha! Só pra ver o que foi que ele descobriu, e pronto, se for perigoso assim mesmo a gente vai perceber que é e não vai mexer mais, né?

Damon abriu um sorriso de canto, carregado com uma dose considerável de más intenções.

— Não vou mentir, a ideia de aporrinhar o Homem de Gelo um pouco é bem interessante. Eu bem quis ir embora daqui, ele não deixou porque não quis.

— Não! — Grace cortou. — Absolutamente não! Gente, vocês não tem empatia? O Bobby passa um esforço danado pra cuidar desse lugar, pra cuidar da gente e ajudar os alunos todos, e vocês querem ir pelas costas dele quando ele deu um voto de confiança pra nós?

— Ele não vai nem ficar sabendo, a gente só vai olhar e deixar tudo no lugar depois! — Amália respondeu, se colocando de pé. Damon seguiu e Balu também, embora ainda um pouco receoso.

— Só olhar? — O garoto perguntou. — Eu não quero que a gente se meta em encrenca… Mas eu também não aguento mais as pessoas não me deixando ajudar quando eu posso.

— Vocês vão colocar a gente em problemas — Grace comentou. — Eu não vou fazer parte disso.

— Mas não vai entregar a gente também, né? — Amália perguntou de volta, fazendo uma expressão ansiosa e quase apelativa.

Sabia que Grace não ia fazer isso. Ela podia seguir muito as regras, mas mais que isso, era uma amiga leal. A garota suspirou, se levantando e flutuando a alguns centímetros do chão.

— Quando vocês forem pegos, ao menos façam o favor de dizer que eu não tive nada a ver com isso, combinado?

— Não vamos ser pegos — Amália respondeu, animada, e pegou o pacote de amendoim do chão. Grace deixou a Sala do Perigo, e a garota se virou para os dois. — Precisamos de um plano! Ideias?

Levaram um bom tempo para discutir opções. Primeiro tinham pensado que seria algo muito difícil, mas depois perceberam que a mansão em si já era à prova de invasões, não teria porque o escritório de Bobby ter alguma proteção a mais, isso deveria estar apenas no Cérebro. Então o trio conjurou uma estratégia, e quando a noite caiu e avançou, quando já era uma hora da manhã, estavam prontos para agir.

Eles se encontraram no corredor do andar dos escritórios, de pijamas, descalços e em silêncio. Balu, com a coleira desativada, foi na frente, a mão pousada na parede, sentindo o que podia sobre as emoções das pessoas pelo caminho.

Ninguém parecia estar acordado, ou em alerta. O trio seguiu em silêncio, até uma porta mais para o fim do corredor.

— Ninguém acordado mesmo? — Amália perguntou, em um sussurro.

— Ninguém. Damon, sua vez.

O garoto assentiu, abrindo a mão para revelar um par de gazuas. Ele se ajoelhou na frente da porta e as enfiou na fechadura bem devagar, começando a mexer para cima e para baixo.

— Eu perdi essa aula? — Amália perguntou, com um sorriso no rosto.

— Não, aprendi essa com os Purificadores. Não é o tipo de coisa que você costuma precisar saber quando tem super-poderes, e… Ah, espera… Preciso ouvir isso.

O trio ficou em silêncio, Amália agachada ao lado de Damon, Balu abaixado mais para a frente, ainda com a mão na parede, procurando identificar os sentimentos das pessoas por ali. Estava ficando mais fácil com o tempo, mas ainda não tinha aprendido a se fechar de vez para os sentimentos alheios. Ainda assim, vinha precisando usar a coleira por menos períodos de tempo, o que com certeza era um avanço, e mais que se podia dizer de Damon, que ainda não tinha aprendido a impedir seu poder de anular o das outras pessoas.

— Droga, Theo é muito melhor nisso do que eu… — Damon resmungou.

— Quem é Theo?

Estava escuro, mas Amália podia jurar que um tom rosado subiu ao rosto de Damon quando ela perguntou.

— Ninguém.

E para a sorte de Damon, a fechadura fez um clic no instante seguinte, e a porta se abriu. O trio correu para dentro e ele encostou a porta. Damon acendeu uma lanterna em seu celular e Balu e Amália avançaram até a mesa de Bobby, pegando o tablet. Ela apertou o botão lateral e percebeu que o tablet estava bloqueado. Já estavam contando com isso, porém, e para a felicidade dela, era uma senha de padrão desenhado na tela.

Mais cedo, Balu tinha procurado Bobby. O pretexto da visita tinha sido mostrar seu progresso com os poderes, mas na verdade, o objetivo tinha sido assistir Bobby desbloquear o tablet com bastante atenção para perceber a senha. E como Bobby confiava em Balu mais do que seria sensato na circunstância atual, ele desbloqueou o aparelho bem na frente do garoto.

Balu repetiu o padrão, e o tablet se abriu, para a alegria do trio, mas parte de Balu não pode deixar de se sentir um pouco culpado. Isso tinha sido um abuso claro da boa fé de Bobby, e embora ainda achasse que era o certo a se fazer, pois não queria passar a chance de ajudar com o que fosse preciso, e não ia deixar ninguém o colocar no banco de novo, a culpa ainda comia o fundo do seu estômago.

— Só o que estamos procurando — Balu pediu. Não queria sair de lá se sentindo ainda pior.

— Eu sei, não vou gastar a sorte ficando aqui mais do que precisa — a garota comentou, mexendo até encontrar os arquivos mais recentes. E ali estava, um vídeo com a data do dia e o nome de Simon na frente. — Pendrive.

Balu entregou a ela um pendrive com adaptador, e ela enfiou no tablet, começando a copiar o arquivo. O garoto voltou para a parede, a tocando mais uma vez, mas ainda parecia tudo muito tranquilo. Ninguém acordado, nem para ir ao banheiro.

— Pronto — Amália comentou, tirando o pendrive e enfiando no bolso. — Vamos sair logo daqui.

O trio voltou tudo para o lugar e se dirigiu até a porta, Damon a trancando como tinha aberto, e o grupo fez seu caminho de volta pelo corredor, em direção ao quarto de Balu. Eram trinta minutos de vídeo. Tinham muito pra assistir.