Já fazia um bom tempo. Mais de mês, se Damon quisesse ser bem preciso. Estava começando a esfriar bastante, e em algumas semanas já se poderia esperar neve em Nova York. Desde o Halloween, ele não tinha mais visto ou falado com nenhum de seus amigos, então o fato de Niko poder pegar o telefone para falar com ele naquela quarta à noite tinha feito muito bem para seus ânimos. Já estavam jogando conversa fora há algum tempo, e apesar de saber que nada mais seria como antigamente — Damon sequer gostaria que fosse — havia algum conforto em poder interagir de novo com uma velha amiga.

— Estamos em novembro — ele comentou, jogado na cama com um pacote de carne seca, comendo algumas tirinhas enquanto conversava com ela. — Logo o Dia de Ação de Graças vai estar aí. Acha que consegue vir pra cá?

Antes da resposta, Niko soltou um suspiro breve, deixando muito claro o que iria dizer. Damon tentou não se magoar. Ela teria seus motivos, tinha certeza disso, e mesmo que não soubesse quais eram, Niko tinha o visitado no Halloween, então certamente viria de novo se pudesse, não é?

— Desculpe, Damon. As coisas estão meio… agitadas. Eu estive em Nova York uns dias pra trás, mas nem pude sair com ninguém, foi tudo muito rápido. Pretendo voltar quando for possível, mas…

— Entendi. Agora não dá.

— É…

E ele não fazia ideia do motivo, mas não queria saber. Já tinha percebido ser um assunto sobre o qual Niko não queria falar, e se insistisse, ela poderia acabar desligando a chamada, e aí vai saber quando se falariam de novo.

— Tudo bem, quem sabe no Natal, ou no Ano Novo.

— É, quem sabe.

Ele engoliu em seco, sentindo a garganta apertar quando começou a formar nela a pergunta sobre Theo. Se sentia envergonhado em pensar em telefonar para ele, ou até mandar mensagens com mais conteúdo que o habitual “como vão as coisas” que trocavam mais por cordialidade que qualquer outra coisa, então se não ia perguntar para ele, Niko era a melhor chance. Se ela falasse algo.

Decidiu tentar.

— E Theo? Está tudo bem? Você disse que ele estava na Escócia quando veio pro Halloween…

— É, estava. Ele já voltou faz um tempo.

Damon não pode deixar de perceber que Niko tinha desviado de responder se estava tudo bem ou não. Perceber isso fez um arrepio estranho percorrer sua espinha, quase como um calafrio de alerta. Algo parecia estranho.

— Ainda estão juntos por aí? Onde quer que estejam… Talvez eu possa visitar um dia, tenho tido mais tempo livre, acho, considerando…

— Olha, Damon, eu preciso ir. Me desculpe.

O garoto tentou não se sentir ofendido. Já eram duas da manhã, talvez ela estivesse mesmo com sono. E parecia ocupada o tempo todo, então talvez não tivesse tanto tempo assim pra descansar. Muitas coisas poderiam estar acontecendo, não queria dizer que era sobre ele.

— Ok. Hm… Diga… Diga ao Theo que liguei. Que estou bem e que espero que ele também esteja. Pode fazer isso pra mim?

— Posso, mas sinceramente, quando vocês vão voltar a conversar um com o outro direito? A essa altura eu acho que — ela parou de falar, e Damon a ouviu gritar um “já estou indo” meio abafado para longe do telefone. — Desculpe, mesmo. Nos falamos mais depois. É meio difícil você vir me visitar, mas da próxima vez que eu for pra Nova York vou tentar fazer com tempo de sobra, ok?

— Tudo bem! — Ele exclamou, sentindo um certo alívio ao perceber que, realmente, ela só estava ocupada, e que ainda tinha interesse de visitá-lo em algum momento. — Boa sorte com o que quer que seja aí.

— Obrigada. Você também. E tome cuidado, por favor, um susto com terrígeno já foi o bastante.

Eles se desejaram boa-noite, e a chamada acabou. Damon se jogou no colchão com um sorriso um pouco besta no rosto, pegando outra tira de carne e se levantando de um salto. Toda essa carne seca o tinha deixado com sede, talvez não fizesse mal uma boa xícara de café. O horário não era dos mais oportunos, mas cafeína já tinha deixado de fazer efeito pra ele havia muito tempo. A essa altura era como beber água, mas mais gostoso.

O garoto saiu do quarto, caminhando para a cozinha com uma boa espreguiçada pelo caminho. Passou pela sala quase que em piloto automático, arrastando os pés até a cozinha e abrindo a gaveta para pegar uma das cápsulas da cafeteira, só para perceber que as cápsulas de café preto tinham acabado e só tinha sobrado a baboseira doce de cappuccino e outras coisas parecidas.

Frustrado, ele abriu a porta do armário, encontrando o pacote de pó de café, a caixa de filtro de papel e um fervedor. Ia fazer o café no fogão mesmo, certamente não era tão difícil assim. Damon encheu o fervedor de água, colocando em uma das bocas do fogão, e então parou.

Ele deveria colocar o pó de café na água antes ou depois de ferver? Que tanto de pó? E o filtro servia pra quê? Irritado, ele virou o saco do pó de café procurando instruções, e depois pegou o celular pra procurar mais instruções, só pra perceber que não fazia ideia de como ligar o fogão. E isso não era algo que ele queria tentar através de um vídeo no youtube, e se o troço explodisse com ele? O garoto encarou os acendedores por um instante, quase esperando que um milagre acendesse o fogão pra ele, mas no fim das contas teve de aceitar que ia ficar sem café, pois entre isso e beber a baboseira do cappuccino era melhor ficar só bebendo água mesmo.

Ele guardou tudo de volta no armário e foi voltando pelo corredor, já bem menos cego de fissuração no café, de forma que dessa vez prestou atenção suficiente nos seus arredores pra perceber que tinha alguém dormindo no sofá da sala.

Ele levantou uma sobrancelha devagar. Com o cabelo laranja e curto daquele jeito, só podia ser uma pessoa. Damon pensou em seguir reto e deixar pra lá, mas acabou se dando conta de que com certeza Luke saberia fazer café, ele parecia aquele tipo de gente que sabia fazer essas coisinhas todas bem minuciosamente. Então, sim, parecia uma ótima ideia acordá-lo.

— Luke? — Damon chamou, o balançando não tão delicadamente pelo ombro. — Luke, o que você tá fazendo no sofá? Ei!

O garoto resmungou, demorando um pouco pra abrir os olhos. Quando o fez, piscou um pouco atordoado no escuro, se sentando devagar.

— Damon? O que está fazendo acordado?

— Procurando café. Você sabe fazer café?

Luke bocejou, ainda olhando em volta um pouco confuso. Ele acenou com a cabeça, confirmando que sim, sabia fazer café, e esfregando os olhos.

— Que horas são?

— Duas.

— Não tá meio tarde pra café?

— Não tá meio tarde pra cochilar no sofá? O que aconteceu, o namorado te pôs pra fora? — Damon perguntou, com um sorrisinho engraçado no rosto, vendo Luke se por de pé e começar a caminhar pra cozinha. O garoto acendeu uma luz na mão e foi usando para iluminar o caminho.

— Eu me pus pra fora. Não importa.

E geralmente Damon teria feito mais piadas, mas mesmo ele percebeu o tom de voz desconfortável de Luke. Alguma coisa tinha acontecido.

Não era que o garoto tivesse um coração de gelo, ou que fosse completamente incapaz de empatizar com as pessoas, mas geralmente não se importava com os problemas dos outros. Dessa vez, porém, acertou muito perto de seus próprios problemas para poder ignorar. Ele também não tinha uma vida amorosa muito suave.

— Espero que não tenha sido uma briga muito feia — comentou, se sentando em cima do balcão e vendo Luke acender o fogão sem nenhuma dificuldade e colocar a água pra ferver. Nada explodiu.

— Não brigamos. Eu… Deixa pra lá.

Damon esticou os olhos pra pia, e viu Luke colocar o filtro na jarra de café, depois algumas colheres de pó lá dentro, e esperar. A esse ponto, já estava associando o processo com o que lera na internet, então não ia demorar muito.

— Você toma forte, né?

— Sim. Eu sei que você gosta dessas palhaçada com chocolate, ainda tem umas cápsulas dessa na gaveta.

— Nem pensar, se eu beber café agora não durmo mais.

É claro. E por falar em dormir…

— Ficar no sofá vai te dar dor nas costas. Tem uma cama vazia no meu quarto, se você não quer dormir no seu.

E talvez parte dessa oferta também fosse uma tentativa sua de encobrir a própria culpa no recente furto ao escritório de Bobby. Tinha passado meia hora com Amália e Balu assistindo um relato preocupante de Simon sobre terrígeno e a igreja fanática, e vendo Luke se dispôr a fazer café pra ele àquela hora da madrugada, sem nem reclamar de ter sido acordado, talvez tivesse feito sua consciência pesar um pouco por ir pelas costas do líder dessa forma. Só talvez.

— Não, está tudo bem. É temporário.

— Temporário desde quando? Para de besteira. Só vai, dorme, e sai de manhã. O sofá daqui é péssimo pra dormir, vai te deixar todo marcado do couro.

— Não vai mesmo incomodar? — Ele perguntou, pegando a água fervente e começando a colocar no coador. O cheiro de café fez o espírito de Damon se reavivar na mesma hora.

— Nada. Você quem decide, eu não uso essa coleira no quarto, então se não te incomodar ficar sem as luzinhas durante a noite, fica à vontade.

Luke serviu café na xícara, a entregando para Damon e abrindo um sorriso pequeno. Ele mesmo não serviu nada para si. Tinha mesmo levantado só pra passar o café pra ele.

— Valeu.

— Não há de que. Eu que agradeço pelo quarto, acho que você tem razão. Vou pegar minhas cobertas.

E Luke deixou a cozinha, deixando Damon ali com sua xícara de café e pensamentos demais na cabeça. Desde que tinha se juntado a esse time, tinha o feito apenas por achar ser seu dever ajudar a remediar a bagunça do terrígeno de alguma forma, depois de ter feito parte dela, principalmente porque caso o problema continuasse acontecendo ele continuaria em perigo de se dar muito mal. Mas desde o começo, só tinha visto todos os outros colegas de equipe como isso, colegas, uma repetição do mesmo hábito dos Purificadores que tinha colocado uma parede entre ele, Niko, e Theo.

De repente, ele se perguntou se não era hora de as coisas serem diferentes. Não sabia quando Niko poderia visitá-lo. Ainda não conseguira juntar a coragem para ligar para Theo. Talvez devesse começar a seguir em frente. Podia levar um pedaço de seu passado consigo, mas precisava seguir.

Damon virou o resto de seu café e foi caminhando de volta para seu quarto.

[...]

— Eu só estou dizendo que coça — Simon comentou, seguindo Bobby pelo corredor na manhã seguinte enquanto puxava a coleira no pescoço. — Sério, vocês já pensaram em revestir ela com uma suave camada de um tecido de algodão puro?

— Acredite, eu sei como você se sente.

— Sabe nada. Já teve de usar uma dessas?

— Já. A primeira de todas.

E como Simon parou de andar para encarar Bobby com um rosto incrédulo e um pouco irônico, Bobby parou, abrindo um sorriso típico de quando tinha uma boa história para contar.

— Eu tive um… probleminha com Loki de Asgard uma vez. Uma confusão com os gigantes de gelo, e meus poderes saíram completamente de controle. Depois disso, em uma esbarrada com um outro grupo fanático, na verdade, o primeiro que o Cameron Hodge montou, eles me colocaram um cinto bem pesado pra bloquear meus poderes. Mas foi hilário, porque não sabiam que estava tudo fora de controle, e acabaram me ajudando a organizar as coisas. Mas… é, foi um saco. Era pesado e incômodo, e demorou um tempo preu controlar meus poderes de novo. Mas eventualmente, eu consegui, e me livrei do cinto. As coleiras de hoje foram modeladas na tecnologia desse cinto, que era muito maior e mais pesado, e é por isso que a tecnologia não está cem por cento funcional ainda.

A resposta de Simon foi um simples “hm”, meio curioso e meio derrotado.

— E como eu já expliquei, não é que eu não me importe com sua opinião no assunto, e eu vou fazer uma nota sobre porque não é a primeira vez que alguém comenta, mas no momento estamos mais preocupados com fazer ela funcionar, Simon, o que já tá sendo um problema e tanto — Bobby continuou, com a mão na maçaneta do escritório. — Mas se estiver mesmo muito ruim, você pode tirar um pouco, contanto que esteja perto de mim, eu tenho certeza que consigo apagar se você sair pegando fogo por aí.

— Ah — Simon respondeu, agora escorando na parede, de braços cruzados e com uma expressão piadista no rosto. — Você vai apagar meu fogo é?

Um tom muito vermelho subiu ao rosto de Bobby e ele girou a maçaneta de uma vez.

— Não foi isso que eu falei!

— Fooooi, foi sim, certeza que foi. Não vem me desapontar agora, depois de fazer uma promessa dessas é melhor que você —

Simon foi interrompido pela mão de Bobby, esticada, pousada sobre o peito dele e o impedindo de entrar no escritório. O Homem de Gelo olhava em volta pelo local com a expressão séria, analítica, o tipo de expressão que deixava claro que não era mais hora de piadas.

— O que aconteceu?

— Alguém entrou no meu escritório. Fique aí fora.

Simon encarou o namorado, que se congelou de cima a baixo e deu um passo pequeno para dentro do local, se perguntando como ele sabia uma coisa dessas. Ficou parado na porta como instruído, vendo o homem caminhar para dentro um passo de cada vez, uma camada de gelo se formando muito devagar sobre o chão e, para a surpresa de Simon, revelando manchas de pegadas de pés descalços.

— Incrível. Como…

— Pessoas deixam assinaturas de calor para trás. Muito sutis, e somem com o tempo, mas eu consigo perceber se tiver menos de um certo tempo. E… bem, eu também deixo minhas coisas no exato mesmo lugar antes de sair. Quem veio aqui colocou meu tablet onde estava, mas um pouco torto pra esquerda. A cadeira nem se deram ao trabalho de arrumar.

Bobby seguiu até o tablet, o pegando e começando a procurar alguma coisa. Simon não sabia se já podia entrar, então ficou parado ali do lado de fora, olhando o namorado caminhar de um lado para o outro e esperando, até vê-lo soltar uma risadinha incrédula e se sentar sobre a mesa.

— O que foi?

— Vem ver.

Simon entrou no escritório, fechando a porta atrás de si e alcançando o namorado, bem a tempo de vê-lo reproduzindo um vídeo de uma câmera de segurança de seu escritório mostrando três de seus alunos entrando no local de noite.

— Impressionante.

— Não, não é impressionante, é preocupante. Eles deviam estar procurando seu depoimento.

— Tá. Mas é um pouco impressionante, sim.

Bobby suspirou, largando o tablet na mesa e afundando o rosto nas mãos. Mas será possível… E pior de tudo, até podia esperar uma coisa dessas de Damon e Amália, mas Balu costumava ser mais comportado. Tinham aliciado o menino, era a única explicação.

— Vão acabar fazendo algo idiota — Bobby exclamou, se levantando e balançando os braços em indignação. — Vão acabar entrando naquela igreja sozinhos Simon, é isso que vão fazer! Eu disse a eles pra não se preocuparem com isso, mas será possível que eu estava falando com uma parede?

— Hm… Não, você estava falando com adolescentes, é um pouquinho pior. E você já é meio difícil em condições normais, então…

— O que quer dizer?

Ah, ótimo. Simon quis se bater na mesma hora em que percebeu o que tinha falado, mas agora já era tarde. Ele encarou Bobby por um instante, quase esperando que o homem desistisse, mas quando ficou claro que isso não ia acontecer, decidiu se jogar na poltrona de visitas antes de falar.

— É que, Bobby, não me leve a mal, mas você é um pouquinho… Hm… Controlador.

O jeito ofendido com o qual o namorado o encarou deixou muito claro que tinha sim levado a mal. Bem mal.

— Eles são crianças, Simon. E eu sou responsável legal por eles. Se acontecer alguma coisa, adivinha de quem é a culpa?

— Bem, se é assim, então é muito mais fácil desfazer o time todo e assim nenhuma criança vai estar em nenhuma missão, não é? Problema resolvido? Não?

Bobby abriu a boca, mas não respondeu. E nem iria. Simon sabia porque o time existia a despeito dos riscos, mas Bobby não conseguia enxergar onde estava perdendo o equilíbrio. Simon levantou-se, se sentando na mesa e segurando uma das mãos do namorado, fazendo um carinho na mão dele com o polegar, um pouco aliviado de Bobby não ter se soltado dele ou o tirado de seu lado.

— Eu entendo — Simon continuou. — Não posso imaginar o que me ver sangrando daquele jeito deve ter feito com você. E Judah antes de mim. E Warren e Jean, todos esses anos atrás… Mas Bobby, tem uma lição meio importante aqui pra você aprender. O que aconteceu ano passado quando você deixou as crianças todas no Instituto e foi resolver a crise do terrígeno na cidade?

Bobby suspirou, revirando os olhos.

— Eles saíram pelas minhas costas pra um lugar ainda pior. Mas aquilo é diferente! Se eu estivesse aqui…

— Você estava aqui quando eu quis ir na Igreja de Stryker, mas eu não te contei. E eu não te contei porque sabia que você ia ficar maluco e não ia me deixar ir.

— E com razão! Olha só pra você!

— Bobby, eu ia de qualquer jeito, a diferença é se eu ia brigado com você ou escondido. Eu escolhi esconder porque eu te amo e não queria brigar.

Houve uma ruptura no ar. Bobby sentiu seu coração falhar uma batida, e o próprio Simon abaixou o rosto, um tanto envergonhado. Não tinham falado essas três palavrinhas um para o outro ainda, e não era assim que Simon queria começar. Mas agora era tarde.

— No fim das contas, — ele continuou, torcendo para que a conversa continuasse por cima desse seu pequeno deslize. — Você está repetindo os mesmos vícios. Eles entraram escondidos no seu escritório porque você não deixou eles investigarem o problema que eles mesmos descobriram. E se você for atrás deles agora e os repreender por isso, na próxima eles vão sair de casa escondidos. E daí, o que vai fazer? Prender os seis em uma cela lá embaixo? Acredite — Simon levou as mãos ao rosto de Bobby, o virando para o olhá-lo nos olhos. — Eu sei que você está com medo de algo ruim acontecer. Mas Bobby, se você continuar os afastando, aí sim algo pior vai sair disso tudo.

No fundo, Bobby sabia disso. Sabia pois já tinha visto acontecer, mas ainda estava chocado com a teimosia adolescente de insistir em desobedecê-lo mesmo depois do que tinha acontecido da última vez.

— E o que eu faço com isso? — Perguntou, dando de ombros, e olhando para Simon, cansado. — Não posso deixar eles saírem por aí se enfiando no meio de lugares perigosos e situações de vida ou morte.

— Eu concordo. O que nós fazemos com isso é deixar as crianças montarem um plano, revisar o plano deles e cobrir as brechas. E então, quando for algo seguro, deixar eles executarem.

Bobby abaixou o rosto, franzindo a testa. Ainda estava resistindo, Simon pôde ver. Procurando a falha no raciocínio dele, tentando rebater.

— Planos dão errado.

— Sim, por isso existem backups — Simon respondeu, se levantando da mesa de um salto e parando na frente de Bobby, segurando as mãos dele. — Nós, no caso. Nós vamos atrás, pra caso algo dê errado.

— …nós?

Simon abriu um sorriso de canto, soltando uma das mãos de Bobby para fazer um carinho no rosto dele, seu polegar passando pela linha do maxilar dele, devagar.

— Bobby, você não acha mesmo que eu vou te deixar fazer uma coisa dessas sozinho, não é? Até porque está claro que é o tipo de coisa que você não quer fazer, e talvez nem saiba como. O que posso dizer? Cuidar de crianças é difícil.

Bobby não respondeu, os olhos azuis brilhando enquanto encarava perdido os de Simon. Esse foi o momento no qual Simon percebeu que até então Bobby não tinha parado pra pensar na possibilidade de não precisar cuidar de tudo sozinho. Típico.

— Bom — o Homem de Gelo pigarreou baixinho. — É, acho que não seria ruim.

— Não vai ser de graça, você me deve uma. E um dia eu vou cobrar.

Simon tinha um sorriso no rosto quando falou sobre isso que fez Bobby ter uma boa ideia de qual tipo de cobrança estavam falando.

— Além do mais — ele continuou, agora aproximando os lábios do pescoço de Bobby e deixando um beijo ali. Depois, subiu com eles para seu ouvido, sussurrando as próximas palavras. — Não passamos tempo juntos de verdade desde antes de eu ir ver minha mãe. Faz quase um mês. Acho que você deveria vir jantar no meu apartamento hoje.

— Acha? — Bobby perguntou, as mãos apertando o tampo da mesa, um arrepio descendo lentamente pela sua espinha, até a virilha.

— Tenho certeza. Traga vinho. Eu posso ou não usar a jockstrap vermelha que você gosta, mas só tem um jeito de você saber.

Simon terminou com uma mordida leve no lóbulo da orelha de Bobby, e antes do mutante poder reagir de alguma forma, seu namorado já tinha deixado o escritório.

[...]

— Agora vocês conseguiram. Estamos em apuros! — Grace reclamou, batendo o pé com uma certa teimosia no corredor. Suas penas estremeceram de forma muito fofa, o que não ajudou em nada a contribuir com a pose de irritada que ela queria passar.

— Eu não acredito que vocês três fizeram uma coisa dessas! No que estavam pensando?! — Luke resmungou, gesticulando tudo torto para Nath entender, tamanho o nervosismo que sentia no caminho.

“É o Damon e a Amália, não acredita mesmo? Só o Balu que me choca”, a resposta de Nath veio também em ASL, e fez Luke suspirar, exausto.

— O que ele disse? — Amália perguntou, caminhando pleníssima com os braços cruzados atrás do pescoço. Ao lado dela, Damon mexia no celular e Balu mascava um chiclete. Nenhum dos três parecia se importar que estavam prestes a levar um esporro por culpa deles.

— Quer saber, já passou da hora do resto do time aprender ASL — Luke resmungou, metendo o dedo no telefone de Damon pra bloquear a tela e chamar atenção dele.

— Ei! Meu joguinho.

— Caguei pro seu joguinho. Já chega! Nós vamos entrar naquele escritório e lidar com o que quer que seja que Bobby jogar na nossa frente, e depois vocês vão colocar ASL no cronograma de treinamento, todos vocês. Isso é, se ainda tiver um time pra aprender alguma coisa depois que o Bobby terminar. Invadiram o escritório dele, o que vocês acharam que ia acontecer, honestamente!

Como já era de se esperar, foi Luke quem abriu a porta, mas dessa vez Grace flutuava bem perto dele. Tinha avisado a eles para não fazerem isso, e embora também não tivesse tentado impedir, não tinha levado em conta como isso poderia dar problemas para o líder da equipe, que já parecia cansado demais. Se confessar que sabia de tudo tirasse um pouco da responsabilidade das costas dele, estava pronta para fazer isso.

A equipe entrou, Luke e Grace na frente, Nath um pouco atrás e os três responsáveis pela bagunça o mais no fundo possível. Balu fechou a porta atrás dele, e Bobby cruzou as mãos sobre a mesa.

— Eu sei o que vocês fizeram. Quer dizer, metade de vocês — o mutante começou, direto ao ponto. Luke suspirou e abriu a boca para começar a falar, mas Bobby levantou a mão na mesma hora e ele se calou. — Venham aqui os três.

Luke e Grace se afastaram, abrindo espaço para Amália, Damon e Balu passarem. Bobby virou o tablet para eles, reproduzindo o vídeo da câmera dos três, e Grace ficou ao menos satisfeita de ver que eles pareciam um pouco desconcertados de serem pegos no flagra. Não iria longe o bastante a ponto de dizer envergonhados ou qualquer coisa do tipo, mas desconcertados. Se pelo erro ou por terem sido descobertos, não sabia dizer.

— Como vocês entraram?

— Fui eu — Damon respondeu. — Eu arrombei a fechadura.

— E como sabiam minha senha?

— Eu — Balu, agora. — Eu te vi usando.

— O adaptador de USB pra USB-C?

— Meu — Amália respondeu.

Bobby colocou o tablet de lado e se recostou na cadeira, a mão no queixo, como quem pensava um pouco.

— Trabalho em equipe. Impressionante — então se inclinou para a frente, com o olhar sério. — Não façam de novo. E pelas costas do líder do seu time, ainda por cima. Luke não está aí a toa, ele foi escolhido porque toma decisões sensatas. Ou… talvez porque pense muito como eu.

O Homem de Gelo suspirou, agora olhando o grupo com um olhar curioso, quase incerto. Grace viu Balu relaxar, e se isso era sinal de alguma coisa, era que ele não detectava hostilidade no momento. Estavam bem, então? Sem esporro? Tinha de ser algum milagre.

— Foi trazido à minha atenção que eu sou um tanto… controlador — Bobby continuou. — Não vou confirmar nem negar essa informação, mas o fato é que eu pensei que o acontecimento na base dos Purificadores ia ser o suficiente para mostrar pra vocês que não se deve sair fazendo as coisas sozinhos, mas acho que me enganei. E considerando como vocês insistem em se colocar em situações de risco independente das minhas ordens contrárias, eu decidi autorizar a investigação do caso do terrígeno — e como quase todos, à exceção de Luke que estava boquiaberto e Nath que ainda tentava acompanhar a conversa, começou a comemorar ao mesmo tempo, Bobby precisou levantar a voz pra continuar. — COM RESSALVAS.

Mesmo com esse destaque nas ressalvas, o clima no escritório não se reduziu. Agora Bobby tinha seis crianças variando da mais pura empolgação para um absoluto choque em sua frente, e se perguntou se estava fazendo a coisa certa. O aperto de Simon em seu ombro o fez pensar que sim.

— Ok, vejam bem como isso vai funcionar — ele continuou. — Vocês vão criar um plano pra investigar isso. Antes de saírem por aí executando um plano qualquer, vão trazer para mim, pra que Simon e eu ajudemos vocês a tampar os buracos. E depois, quando for a hora do trabalho de campo, eu e Simon iremos como backup para caso algo dê errado. Por favor, por favor mesmo, não pensem em algo e saiam por aí sem falar comigo. Eu estou dando um voto de confiança pra vocês e preciso do mesmo em retorno.

— E eu garanto que não vou deixar ele sabotar vocês à toa — Simon cortou, com um sorriso divertido no rosto.

— Tudo bem, eu sei que ele não está mentindo — Balu cortou. — As pessoas ficam nervosas quando mentem.

— Tem mais — Bobby continuou, agora um sorriso pequeno aparecendo em seu rosto. Uma nota de orgulho, talvez. — Eu preciso que todos vocês levem suas avaliações muito a sério no processo. Se Simon e eu vamos ajudar vocês a planejar as coisas, temos que saber o que podem fazer. Especialmente você, Nath, que tem faltado nas suas. É muito importante que você vá, o acompanhamento psicológico é essencial. Se quiser falar sobre isso depois pode vir no meu escritório, mas isso vale pra todos vocês. Sem perder as avaliações ou os treinos, certo?

Mais uma onda de acenos, e Bobby puxou o teclado de seu computador para perto.

— Eu vou criar um login pra vocês no banco de dados dos X-Men, podem começar a pesquisa lá. E Simon está disponível na parte da tarde se quiserem perguntar algo pra ele. Por enquanto isso é tudo, vocês tem aula agora de manhã, vão andando. Não podem perder as aulas também. E nem as notas. É bom manterem boas notas, ouviram?

Não precisou falar duas vezes. O grupo saiu do escritório aos pulinhos, discutindo estratégias um por cima do outro e felizes demais com a nova possibilidade.

— O que foi que eu fiz? — Bobby perguntou, a sobrancelha levantando de leve.

— Deu uma chance pra eles. Estou orgulhoso de você — então se abaixou de novo para sussurrar no ouvido de Bobby. — Jockstrap vermelha.

Céus, tinha ganhado na loteria. Precisava pensar em algo bem legal para presentear Simon depois.

[...]

Mais tarde, naquele dia, Grace e Nath se sentaram em uma das mesas da biblioteca do Instituto, com um notebook à frente e vários papeis de recortes antigos de jornais e anotações. Ambos tinham comparecido a suas avaliações mais cedo — embora Nath o tivesse feito a contragosto — e agora estavam começando alguma pesquisa nas informações que tinham, enquanto o resto do time se ocupava de treino de combate. Luke e Balu tinham demonstrado algum interesse na pesquisa, mas deixaram os outros dois começarem na frente, mas Damon e Amália não pareciam nada interessados no tópico. Para Grace, estava tudo bem. Cada um tinha seus talentos, e ela tinha certeza, o seu estava ali.

Ela e Nath já tinham montado uma cartolina com uma série de anotações e setas coloridas puxando de um lado para o outro com o que sabiam antes, e agora tinham estreado o login que Bobby os cedera para fazer a pesquisa sobre os tópicos que ainda não sabiam ou que precisavam investigar mais. E depois de pouco tempo vários pontos já estavam começando a se conectar.

— Nath, veja isso aqui — Grace comentou, o celular ao seu lado transcrevendo suas palavras para Nath acompanhar. — Não tem muita coisa sobre Jason Stryker, mas William Stryker, pai dele, foi o responsável pelo projeto Arma X. Arma X, sabe. Logan, Laura Kinney, Wade Wilson…

— O pai dele fez experimentos com mutantes e agora o filho quer erradicar a espécie? — Nath respondeu, em sua voz mesmo, baixa e um tanto rouca pela falta de uso, mas mesmo sem conseguir se ouvir ele preferiu a isso a ter de digitar frases compridas demais para Grace ler.

— Exato! Isso é muito estranho… O que aconteceu no meio do caminho pra terem uma mudança de visão tão extrema?

— O que sabemos sobre Jason?

Grace puxou o computador, mudando de aba na pesquisa e mostrando a aba que tinha lido a minutos atrás.

— Não muito. Só que ele passou algum tempo associado com a I.M.A., uma organização criminosa de tecnologia. Mas não fazemos ideia do que aconteceu lá, porque na época foi investigado pela S.H.I.E.L.D. e eles censuraram todas as informações.

Isso certamente não ajudava muito. Nath voltou o olhar para as anotações que tinha separado, percorrendo o olho sobre elas, sentindo que estava perdendo alguma coisa.

— E sobre a I.M.A., o que tem aí? — Perguntou, por fim, se inclinando na direção do computador.

Grace digitou a pesquisa e mais um texto apareceu. Os dois leram em silêncio, até chegarem em um ponto bastante específico… e oportuno.

— Não acredito! O Mancha Solar comprou a I.M.A.? — Grace exclamou, surpresa.

— Já faz muito tempo… Ele os transformou em Novos Vingadores mas você sabe como essas organizações são. Sempre voltam.

— Então é provável que já estejam ativos de novo…

— Sim, mas… Roberto os comprou muito depois de qualquer que seja o encontro de Jason com a organização. E se ele ainda tiver o banco de dados original da organização em algum lugar?

Os dois se olharam por um instante, um sorriso aparecendo no rosto de Grace. Ela puxou a cartolina para perto, começando a anotar e circular em linhas vermelhas algumas palavras.

— Precisamos de uma reunião com ele — a garota comentou, ainda escrevendo. — Bobby certamente não vai se opor a isso, é só uma conversa.

— Sim. Talvez ele saiba até onde Jason está conseguindo o terrígeno, isso ia ajudar muito.

Grace ainda estava escrevendo, quando parou de repente erguendo o olhar para Nath.

— Onde ele está conseguindo?

— É, pros cultos.

— Você acha que eles não são reutilizáveis?

— Você acha que eles são?

Os dois se encararam por um segundo e Grace voltou para o computador, agora pesquisando a palavra “terrígeno”. Encontraram um longo texto científico explicando os danos que a névoa podia trazer para os mutantes, mas não havia conhecimento sobre o cristal em si. Provavelmente nunca tinha sido relevante para os mutantes saberem esse tipo de coisa, estavam mais preocupados com como tratar as consequências.

— Precisamos de um inumano — ela comentou. — Você conhece algum?

— Não. Um agente da S.H.I.E.L.D. também seria legal. Você conhece?

— Não.

A dupla suspirou, se recostando nas cadeiras e encarando as anotações que tinham feito. Era um começo. Precisavam de um encontro com Roberto, um inumano para entrevistar e, se Roberto não tivesse as respostas, um encontro com um agente da S.H.I.E.L.D.. Certamente Bobby não se oporia a nada disso, certo? Eram apenas conversas.

Grace pegou seu lápis, o girando na mão devagar e voltando o olhar para Nath. Embora realmente gostasse de trabalho de pesquisa, não era só por isso que tinha se oferecido para ir com ele para a biblioteca de tarde. Tinha o reparado isolado na noite anterior, fugindo do treinamento, e depois de ver Bobby dar uma bronca nele não conseguia deixar de se perguntar o que estaria acontecendo, ou se podia ajudar de alguma forma.

— Então… — ela começou, puxando alguns dos papéis que não estavam mais usando para perto, para os organizar. — Me desculpe por intrometer, mas… Eu não pude deixar de notar, você parece um pouco pra baixo. O que aconteceu?

Nath a olhou como se a garota tivesse perguntado algo muito absurdo, os olhos arregalados e a respiração aumentando um pouco, devagar. Se Grace precisava de alguma confirmação de que algo estava errado, ali estava ela.

— Nada.

— Eu não vou contar pra ninguém, prometo. Só quero ajudar, de alguma forma.

Nath olhou para baixo, um pouco encabulado, se focando em juntar seus lápis, e Grace decidiu que não ia insistir. Seu objetivo não era deixá-lo sem graça, era justamente oferecer ajuda. Se ele não estivesse confortável pra isso, então…

— Luke não dormiu no quarto comigo… E eu vi ele saindo do quarto do Damon de manhã.

Oh. Certo, isso realmente não soava bem. Mas Grace já tinha visto como Luke olhava para Nath, era uma das coisas mais adoráveis que já tinha visto. Ela, romântica, chegava a pensar se um dia ia encontrar alguém pra olhar para ela daquele jeito.

— Olha… Eu sei que parece ruim, mas talvez vocês devam falar sobre isso. Ele parece gostar muito de você.

— Eu sei. Mas não importa o quanto ele goste… Eu não posso beijá-lo e tenho a cara de uma aberração. Até meu cabelo caiu. O Damon é bonito e perfeitamente normal. Não seria surpresa Luke ir atrás dele para… coisas.

Ela não os conhecia a tanto tempo, mas a ideia parecia errada em sua cabeça. Não conseguia ver Damon se dando bem com alguém tão passivo quanto Luke, ele estava ficando amigo era de Amália, os dois compartilhando traços demais de personalidade destrutiva. Mas ela sabia que dizer isso agora não ia ajudar Nath.

— Fale com ele. Relações acabam por menos que isso, Nath. Quando meu pai descobriu que eu era mutante, ele foi embora sem olhar pra trás, sem nem me dar ouvidos. Eu daria qualquer coisa pra poder conversar com ele, fazer ele entender… Foi por isso que eu entrei no time. Luke vai te ouvir. Não jogue isso fora.

Nath manteve a cabeça baixa, ainda juntando suas coisas, e deixando claro que a conversa tinha terminado. Grace achou melhor começar a organizar suas anotações em uma apresentação de powerpoint para explicarem tudo pro time depois. Nath precisava de tempo para pensar. Se ele quisesse conversar depois… estaria ali.