Irmandade de Mutantes: Supremacia Marvel 717 3
11 Grandes Mentes Pensam Igual
Naquela tarde, Miguel e Reese esperavam enquanto observavam Marlene conversando com Moon em cima do computador. As coisas tinham se complicado um bocado ultimamente. Depois que a S.H.I.E.L.D. tinha se envolvido na última sede da Igreja de Stryker, eles tinham se realocado, de novo, mas dessa vez, o endereço não parecia estar disponível em lugar algum. Cassian tinha ficado muito sério depois disso, e Reese vinha o sentindo estranhamente alerta durante algumas ligações de telefone, mas não sabia sobre o que ou com quem eram ou para saber o motivo do desconforto dele. Marlene tinha usado os pombos para seguir Jason por algum tempo, mas acabaram o perdendo de vista e agora tinham voltado à estaca zero, porém, nem mesmo um endereço na internet tinham para encontrá-lo.
Mas isso não era problema dos dois, ao menos não hoje. Depois de tantos dias, tinham entrado em contato com Cassian, expressando seu desejo de ir visitar Cat. Ainda se sentiam muito gratos por ela tê-los acolhidos daquela forma, e como a garota tinha acordado, embora ainda não pudesse deixar o hospital, acabaram pedindo por uma chance de vê-la. Cassian não contestou, dizendo a eles que estivessem prontos para sair na tarde do dia seguinte, e assim estavam.
Ele não demorou a chegar, com os óculos escuros pendurados na gola da camisa e os olhos pretos com os quais costumava se apresentar. Reese tinha percebido que o sentia mais confortável quando se apresentava assim, quase como se precisasse fazer força para manter os olhos normais, e fosse um alívio não ter de se preocupar com isso perto deles. O garoto parou ao pé da escada, os braços cruzados na frente do corpo, esperando quieto, mas sua sombra foi mais proativa e se inclinou para o lado, saindo de trás dele e acenando um "olá" para os outros dois. Cassian olhou para ela com uma sobrancelha erguida, quase desafiador, e a sombra deu de ombros, voltando para trás dele.
— Ela está ficando rebelde — o garoto comentou.
— Imagino de onde será que ela puxou isso — Marlene respondeu, sem tirar os olhos do computador. — Não é possível que foi do dono, que pensamento absurdo.
A ironia na voz dela não escapou a ninguém. Cassian pareceu encarar Marlene ofendido por um momento, mas se tinha algo a dizer, guardou para si. Ele desfez a postura, chamando os outros dois com um aceno, e Reese e Miguel se adiantaram até a porta.
— Descobriram alguma coisa? — Cassian perguntou, agora para Moon e Marlene, ainda sentados em frente ao computador.
— Não. Quer tentar um pouco em nosso lugar? — A garota respondeu, arrancando um sorriso sarcástico de Moon.
— Não, fiquem à vontade. Tenho coisa melhor pra fazer. Vamos andando.
E com uma despedida de um aceno breve, o trio deixou o restaurante.
O procedimento para visitar Cat era bem simples. O dono do hospital, um médico chamado Nathaniel Essex, tinha algum interesse em mutantes e fazia todo o tratamento de graça, contando que pudesse estudar um pouco a evolução no procedimento. O homem era, no entanto, desconfiado, coisa que Cassian, Reese e Miguel também eram, e portanto precisava de uma ponte para fazer esse contato. A ponte, no momento, era Héctor Hernández, um mutante que fazia caridade em uma igreja de Nova York e tinha conseguido a confiança do Dr. Essex. A coisa toda era equilibrada em ovos, se não fosse por Héctor era provável que ninguém confiasse em ninguém, então era essencial que o garoto os acompanhasse em qualquer visita ao hospital. E, por isso, a primeira parada do trio foi na Igreja de Clinton.
Tinham seguido de táxi até lá, Reese e Miguel com capuzes de moletom puxados para cima e olhando para a janela ou para baixo para esconder o rosto. Cassian, já com os óculos no rosto, começou a conversar com o motorista sobre alguma fofoca nova envolvendo o Pássaro Trovejante e acabou distraindo o homem o suficiente para ele não se importar com as outras duas presenças em seu carro. Era possível dizer pelo interesse dele na fofoca de Pássaro Trovejante que ele não odiava mutantes, talvez até fosse um apoiador da causa, mas preferiram não arriscar. Reese e Miguel ficaram calados por todo o caminho, até o táxi parar na frente da igreja e o trio descer do veículo.
Reese sentiu um bolo de nervoso agarrar em sua garganta. Marlene não era a única com cartazes espalhados por aí, a diferença sendo que os dela eram de "procurada", enquanto os de Reese eram de "desaparecida", e se tinha um lugar no qual chamaria muita atenção, seria uma igreja. Reese tinha muita consciência de sua aparência, de cabelos azuis, olhos vermelhos de esclera preta e, o mais diferente, três chifres na cabeça, se tinha um local onde não passaria despercebida era ali. Ela parou na escada, vendo Miguel e Cassian começando a subir e se perguntou se deveria seguir com eles ou não. Talvez pudesse apenas esperar ali. Entrar em uma igreja não era algo que gostaria de fazer. E se acabasse pegando fogo do nada? Não era impossível, era?
Os dois perceberam que não estavam sendo seguidos e olharam para trás, Cassian parado com as mãos no bolso, e Miguel virando a cabeça de leve, com um olhar curioso no rosto. O problema deveria ser óbvio, mas aparentemente, não era.
— Ah, gente — ela comentou. — Convenhamos — e estendeu a mão, apontando pra Igreja e esperando que a situação se auto-explicasse.
— Frescurada — Cassian respondeu, com uma mão na cintura. Sua sombra, embaixo dele, mimicou o gesto, mas ainda era possível ver que ela tinha feito isso conscientemente, em vez de ser uma projeção natural, e chegava a ser engraçado de ver. — Deixa de bobagem, o Héctor tá tranquilo ali dentro.
Reese encarou as portas, e não subiu nenhum degrau a mais. Se Cassian quisesse a achar fresca por isso, tudo bem, mas mesmo que não tivesse medo literal de pegar fogo, a situação não deixava de deixá-la desconfortável, quase como se estivesse se propondo a pisar na casa de alguém sem ser convidada.
— Que seja — Cassian comentou, levantando os braços pra cima, desistindo. — Eu vou buscar ele, você espera aí então.
E ele subiu as escadas, entrando dentro da igreja e deixando Reese e Miguel para trás.
— Você poderia ter ido — a garota comentou, com as mãos nos bolsos, olhando para o chão e chutando um bolo de papel aleatório que estava ali.
— Eu também poderia ter ficado. Escolhi.
Os dois encararam as portas da igreja por um instante. Estando abertas, eles conseguiam ver o interior, mas apenas um pouco, estando atrás de um enorme tapa-vento antigo decorado com entalhes na madeira. Não era possível ver Cassian ou o tal Héctor dali.
— Você é religioso? — Reese perguntou, curiosa, ainda observando o tapa-vento como se fosse possível ver algo além dele.
— Não. Mamãe era. Ela rezou muito enquanto tivemos os nossos problemas, esperando que algo fosse nos ajudar a sair de tudo...
— Você fala dela com muito carinho.
Miguel deu de ombros, algumas flores pretas crescendo em sua cabeça.
— Ela era minha única família.
Não precisou dizer que sentia falta dela, ou o quanto tinha a amado, o sentimento estava implícito mas ao mesmo tempo muito claro para Reese. Ela subiu um degrau da escada, aproximando-se de Miguel e pensando se saberia ajudar de alguma forma, mas nesse momento Cassian apareceu, acompanhado de um garoto de pele negra, um tanto mais alto que ele, cabelos curtos e mais músculos que a idade deveria permitir. Héctor, certamente.
— Este é o Héctor — ele apresentou, às pressas. — O hospital não fica longe daqui, podemos ir andando.
Cassian parecia determinado a apenas sair andando sem maiores conversas, e Miguel seguiu atrás dele, mas Reese parou. Héctor a encarava com um olhar curioso, quase a analisando de cima a baixo, e descendo as escadas com um ar misterioso sobre si mesmo. Cassian tinha comentado algo sobre o garoto ser ajudante do padre da igreja, alguma espécie de coroinha gourmet, então não precisou muito para Reese pensar no que estaria se passando na cabeça dele. Ela pigarreou, sem graça, sentindo o rosto corar pela vergonha de estar sendo exposta daquela forma, e começou a descer as escadas, quando sentiu a mão de Héctor, tocando seu ombro de leve.
— Desculpe, eu não queria encarar.
— Tarde demais — ela respondeu, uma nota de sarcasmo passeando ácida pela sua voz.
— É só que... Cassian me disse que estava vindo com mais dois, eu me perguntei porque vocês escolheram esperar aqui fora. E... bom... Nós somos todos filhos de Deus. Todos nós. Você não precisa ter receio de entrar.
Não precisava ter receio? Algo se revirou no estômago de Reese. Ela se virou para Héctor, irritada, e puxou o capuz para baixo, mostrando seu rosto e seus chifres por completo.
— Não preciso ter receio? Posso me sentar em um banco ali atrás para atender a uma missa e os outros fiéis não vão querer me colocar pra fora? Não vão falar que eu sou uma cria do demônio?
Héctor abriu um sorriso pequeno em resposta, e não tinha nem mesmo se retraído ao ver o rosto dela. Reese se sentiu confusa. Pessoas como ele, cheias de regras, certinhas assim, não olhavam no rosto dela e continuavam bem. O que tinha de errado com esse garoto? Ela estendeu seu poder para frente um pouco, buscando as emoções dele, tentando encontrar o medo ou a repulsa escondidos por debaixo de uma fachada de indiferença, mas não estava lá. Ele realmente não se importava.
— Não na igreja do Padre Lantom — Héctor respondeu, descendo as escadas. — Talvez você deva vir um dia. Quem sabe não te dê um pouco de esperança... e fé.
Reese não teve tempo para responder o quão absurdo a ideia dele era. O garoto já estava seguindo para trás dos outros dois, e ela teve de subir o capuz de novo e se apressar pra acompanhar. Ele era... estranho. Definitivamente. Era a única forma de o descrever.
[...]
O Hospital Essex ficava a poucas quadras dali. Não era muito grande, ocupando apenas parte do quarteirão e tendo dois andares apenas, mas era muito bonito e parecia bastante moderno. Miguel e Reese encararam a fachada por um instante, muito bem pintada, com um letreiro bem ajustado em cima e uma arquitetura chique ao redor. Parecia o tipo de lugar que daria atendimento de primeira mão à Cat, e pensar que ela estava conseguindo ser cuidada ali de graça era, com certeza, um alento ao coração. O quarteto subiu a pequena rampa de entrada, passando pela recepção — quase vazia, no momento — e seguindo até o balcão de entrada. O atendente demorou alguns instantes para perceber o grupo ali, mas quando os viu, abriu um sorriso enorme, já pegando o telefone do gancho.
— Ah, senhor Hernández! O Dr. Essex vai ficar muito feliz de te ver, e com amigos novos ainda!
— Só vieram ver a amiga deles, Pablo. A nossa paciente especial.
— É claaaaro... Vou notificá-lo assim mesmo, se não se importar.
Certamente não seria um problema o médico de Cat saber que estavam ali, Reese pensou, talvez pudessem até perguntar algumas coisas. O atendente digitou um número no telefone e o segurou com o ombro contra o ouvido, começando a digitar coisas no computador. Ele logo espalmou quatro crachás de visitante sobre a bancada, mas o telefone não tinha sido atendido ainda.
— Podem ir indo, eu vou continuar tentando falar com ele aqui — o atendente anunciou, liberando a catraca para o grupo. — Já sabem onde ir, não é?
Héctor concordou, e Cassian já estava entrando. Reese e Miguel se olharam por um breve instante, e logo passaram pela catraca, seguindo os outros dois.
O quarto de Cat ficava no segundo andar. Entraram no elevador, e logo saíram no corredor, Cassian e Héctor marchando à frente com Miguel e Reese logo atrás. Cassian acabou parando na porta do quarto 207, e Héctor se afastou da maçaneta, escorando-se na parede do lado de fora.
— Vou esperar aqui — ele comentou. — Não quero saber do que vocês vão conversar, ignorância é uma bênção.
— Você que sabe — Cassian respondeu, dando de ombros e abrindo a porta.
Era um quarto muito bom, considerando toda a situação. Tinha televisão, cama para visitantes, e uma boa quantidade de aparelhos conectados a Cat, que estava deitada na cama, com o encosto um pouco levantado e mudando os canais da televisão com um controle. Ela ainda tinha um tubo de oxigênio passando debaixo do nariz, mas ao menos tinham lhe tirado a máscara. A mãe da garota, sentada na poltrona ao lado dela, levantou-se de uma vez ao ver os outros mutantes entrarem.
— Ah, vocês vieram... Vou deixar vocês falarem com ela.
— Boa ideia, mãe — Cat brincou, com um sorriso juvenil no rosto.
A mulher lançou um olhar de leve desaprovação à garota, seguindo até Cassian em seguida e pegando as mãos dele entre as suas.
— Eu nem sei como te agradecer. Nunca poderíamos pagar por um hospital como esse. Muito obrigada, Cassian, você vale ouro... Vale ouro mesmo.
Reese pode jurar que Cassian estava envergonhado, tanto pelo rosado muito sutil em seu rosto, quanto pelo olhar meio enviesado que ele desviou do rosto da mulher.
— Não fui só eu, tem o Héctor também...
— Eu vou agradecer a ele também. Mas obrigada, ainda assim — ela insistiu, soltando as mãos de Cassian e pegando a bolsa na cama de visitas. — Vou tomar um café. Divirtam-se, mas não muito, Cat precisa descansar.
A mulher saiu do quarto, fechando a porta, e no instante seguinte Cat explodiu em gargalhadas.
— Você vale ouro Cassian, ouviu? — Ela perguntou, em meio às risadas. — Mamãe gosta de você, minha nossa, coitada dela!
— Ha ha — ele respondeu, se jogando na poltrona anteriormente ocupada pela mulher. — Ela é a única que vê minhas qualidades indiscutíveis, isso sim.
— Ah é, claro. Com certeza.
Cat ainda estava rindo um pouco, e foi parando devagar enquanto Cassian ainda a encarava com uma expressão de algo entre estar enfezado e um pouco divertido. Reese achou melhor não tentar entender o que ele sentia agora. Seja lá o que fosse, parecia muito pessoal.
— Bem, e vocês? — Ela perguntou, agora olhando para Miguel e Reese. — Aconteceu alguma coisa? Minha nossa, Marlene está bem? Espero que esteja tudo bem...
— Só viemos te ver — Miguel cortou, vendo como Cat parecia estar preocupada com a visita surpresa dos dois. — Queríamos saber como está.
E Cat pareceu realmente surpresa. Ela soltou um "oh" um pouco chocado e colocou o controle da televisão de lado, abrindo um sorriso pequeno.
— Bem... Estou bem. Quer dizer, melhor. O Dr. Essex disse que eu estou melhorando bem, devo poder ir pra casa em algumas semanas. É um tempo considerável mas poderia ser bem pior, não é?
Sim, poderia. Muito pior. Reese foi até a cama de visitas, sentando-se nela, e Miguel puxou uma cadeira da mesinha de jantar pra se acomodar. Cat parecia ter cor no rosto, e não ofegava entre as palavras, embora respirasse fundo uma vez ou outra. Estava mesmo melhorando. Era uma das menos azaradas, então.
E era em sorte e azar mesmo que Reese queria pensar agora, pois tinha sido muita sorte Cat não sofrer efeitos duradouros depois de ter entrado naquela igreja e ter ficado presa lá dentro daquele jeito. A coisa toda poderia ter sido muito pior.
— Mas e vocês? — Cat perguntou, olhando de um colega para o outro. — O que tem feito? Cassian se recusa a me dizer como vai a investigação...
— É porque você precisa descansar! — Ele cortou, inclinando um pouco para a frente e a encarando com um olhar sério. Sua sombra, atrás dele, cresceu um pouco, cruzando os braços. — Não é pra ficar pensando nesse tipo de coisa agora.
— Ah, Cass, por favor! Ficar aqui tá um saco.
— Se você tivesse me ouvido e ficado no restaurante não teria de ficar aqui desse jeito. Vai ficar sem notícia sim até se recuperar, talvez isso te ensine a pensar duas vezes sobre fazer esse tipo de coisa maluca da próxima vez.
Cat abriu a boca, parecendo muito ofendida. Ela olhou para Reese e Miguel, e a mutante trocou um olhar com o amigo, os dois concordando em silêncio. Se Cassian não queria que dissessem nada... problema dele, não estavam ali pra obedecer ninguém.
— A S.H.I.E.L.D. apareceu, não sabemos pra quê...
— ...e a galera da igreja levou o inumano embora, só Deus sabe pra onde...
— ...e a igreja saiu de novo de lá, só o Universo imagina pra que canto.
Cassian os encarou com o queixo caído, parecendo muito ofendido de ter sido contrariado dessa forma. Cat, com os braços cruzados, virou o rosto de volta para Cassian.
— Então não temos nada?
— Marlene e Moon estão trabalhando em opções.
— Maravilha, não temos nada. Sinceramente, vocês não conseguem mesmo fazer nada sem mim?
A garota pegou o controle de novo, agora tentando mudar de canal do reality de bolos que estava passando para qualquer outra coisa. Reese abriu um sorriso, achando certa graça em ver Cassian tão calado assim depois de Cat tê-lo repreendido daquela forma. Parecia um milagre. Não se parecia em nada com ele.
[...]
Mais tarde, quando o trio deixou o quarto, havia um homem ao lado de Héctor. Muito alto, de pele bastante clara, olhos escuros e um cabelo preto escovado para trás com gel, a plaquinha escrito "Dr. Essex" presa ao jaleco dele deixava claro estarem de frente ao dono do hospital. Ele tinha um sorriso divertido no rosto e conversava com Héctor sobre alguma coisa qualquer quando viu o grupo sair.
— Ah, vocês devem ser os amigos de Héctor! É um prazer, eu sou Nathaniel Essex, médico responsável pela sua amiga e dono desse hospital.
Ele estendeu a mão para apertar a deles, Cassian retribuindo o gesto com uma boa dose de conforto, talvez já o tivesse conhecido antes. Reese e Miguel se retraíram um pouco no aperto, olhando para o homem, ela desconfiada, e ele receoso. Isso não abalou o sorriso no rosto do médico, que apertou uma prancheta contra o peito, e olhou para Héctor antes de continuar a falar.
— Estava conversando agora com Héctor sobre Cather. Eu entendo que vocês tenham seus receios sobre mim, não me conhecem, e devem estar pensando "o que um médico humano tanto quer com a nossa espécie". E, bem, acho que primeiro eu devo dizer que sinto muito sobre como os meus tem tratado vocês.
— Você é humano? — Miguel perguntou, embora o pensamento já tivesse atravessado sua mente. Aquela era apenas a confirmação, e o deixou ainda mais inquieto.
— Sim. Eu sou um geneticista. Um evolucionário, se preferirem assim, interessado no estudo da evolução humana e... bem, vocês são a evolução. Estava pensando que talvez vocês fiquem um pouco mais calmos sobre o cuidado sendo dado à sua amiga e sobre a pesquisa que eu faço na minha instituição se puderem vê-la com seus próprios olhos. Então... Se quiserem me acompanhar.
Essex apontou para o elevador, caminhando até ele e apertando o botão. Héctor não hesitou em seguir, e Cassian acabou os chamando com um gesto da cabeça antes de ir atrás. Aquilo não fazia sentido. Não deveriam confiar em um humano que por acaso gostava de estudar o gene deles. Era o tipo de tragédia escrita para acontecer. E se de repente ele decidisse que os mutantes eram uma ameaça? O que aconteceria com sua pesquisa? E com o caráter dele, até então tão devoto em os ajudar?
Talvez devessem, sim, ver essa pesquisa. Saber exatamente com quem estavam lidando. Reese fechou a mão no pulso de Miguel e foi o puxando consigo para o elevador. Lá, Essex apertou o botão para um andar no subsolo, e começaram a descer.
Cassian estava estranhamente calado, observando o homem, e pela primeira vez em bastante tempo sua sombra se comportava agora como uma sombra normal. Héctor parecia relaxado, mas Reese sentia o coração acelerando, e sentia o próprio Miguel ficando nervoso ao seu lado. Ela fechou os dedos nos dele, segurando a mão do garoto e deixando seu poder emanar entre os dois, colocando aquele véu de tranquilidade sobre seus sentimentos.
Não achava que Héctor ou Cassian fossem capazes de entender. Mesmo se Essex fosse bem intencionado, algo que julgariam agora, sempre que algo de ruim acontecia aos mutantes, pessoas como eles eram os primeiros a sofrer as consequências. Havia um motivo pelo qual os Morlocks eram uma comunidade tão firme antes de tudo acontecer. Poucas coisas eram tão capazes de unir pessoas que não se conheciam como um medo em comum. E o medo, no caso, era de humanos com intenções ruins.
Ela não sentia animosidade vinda do homem. Ele não parecia estar mentindo agora, mas isso não queria dizer que ele jamais iria mudar de ideia. Isso não queria dizer que ele nunca seria uma ameaça. Conhecimento era perigoso. Desastroso, nas mãos erradas. E seriam certas as mãos de Nathaniel Essex?
As portas do elevador se abriram. Não iria demorar para descobrirem. Eles se viram de frente para um enorme laboratório, com meia dúzia de cientistas andando de um lado para o outro. Essex entrou no lugar, e Reese e Miguel olharam atordoados de um lado para o outro, vendo as cabeças dos cientistas se virarem para eles, os encararem por um instante e se voltarem para o que faziam. Essex não pareceu nem mesmo reparar, caminhando em direção a uma mesa maior no fundo e um computador colocado na frente de um monitor quase da altura da parede.
— Eu tenho estudado o gene X há anos — o médico comentou, puxando uma cadeira para se sentar à frente do computador e começando a digitar alguma coisa. — Comecei no meu trabalho de formatura, já tenho um PhD e até hoje trabalho com isso.
Algo se abriu na tela, uma representação em 3D de uma hélice de DNA, Um grupo estava marcado em roxo, e Essex clicou nele, mostrando para os mutantes atrás de si.
— Esse é o gene X. Vocês sabem como funciona, cientificamente falando?
O grupo negou. Tudo o que Reese sabia era que aquilo ali tinha feito ela parecer um demônio caminhando na terra. Os detalhes eram um mistério absoluto.
— Ele é como os marcadores que disparam o processo da puberdade — Essex explicou. — Quem tem esse gene recessivo, em algum momento da vida, geralmente no processo da puberdade, vai ter ele ativado, e ele acaba gerando várias mutações. Elas variam muito de uma pessoa para outra. Em você, rapaz — indicou Miguel. — certamente deu às suas células alguma capa de celulose, eu imagino, talvez tenha adicionado pigmentos de clorofila... Às vezes, é possível prever o tipo de mutação que uma pessoa vai ter, analisando os pais dela. Às vezes, é totalmente inesperado. Alguns estudos sugerem que a mutação pode ser influenciada por diversos fatores, como por exemplo o ambiente, condições psicológicas ou até mesmo os interesses dos pais. Há quem diga que interesses podem estar codificados no genoma das pessoas, e portanto passar para os filhos, geneticamente. Mais de uma vez, esbarrei com casos assim, de mutantes que manifestam poderes similares a histórias que ouvem quando crianças, ou até a hobbies de um pai que nunca conheceu. É fascinante...
O médico olhou para o grupo, um pouco atrapalhado e com os olhos brilhando. Reese não discutiria com o fato de que ele com certeza gostava do que estava falando. E ele realmente sabia muito sobre eles. Talvez soubesse mais. Era importante sondar, ela decidiu.
— E o terrígeno? Você sabe algo sobre isso? — A garota perguntou.
Essex abriu o sorriso de novo. Devia ter achado que estava os entediando, pois pareceu muito feliz em poder continuar com o assunto. Ele se voltou para o computador, digitando mais algumas coisas e abrindo outras janelas, mostrando agora uma estrutura química, certamente a do terrígeno.
— Um pouco... mas menos do que gostaria. Tenho estudado a interação do químico com o gene X desde que os ataques começaram, mas ainda não consegui determinar exatamente o que faz alguns mutantes mais vulneráveis que outros. Mas eu acho que pode ter a ver com a agressividade do processo de mutação. Não estou falando de mutações mais ou menos chamativas, não, mas do quanto o corpo resiste, por dentro, à mutação do gene quando ela acontece. Acho que isso pode fragilizar um pouco as células, mas é uma teoria muito leve ainda, não tenho o suficiente para confirmá-la. De qualquer forma, vocês vão ficar felizes de saber que o corpo de sua amiga está produzindo glóbulos brancos suficientes e em boa velocidade para serem mais rápidos que os danos que a intoxicação causa no corpo dela, motivo pelo qual tem se recuperado tão bem.
Reese ergueu os olhos, encarando Cassian por um instante e vendo um sorriso pequeno e um tanto esperto aparecer no rosto dele. Então, de repente, algo clicou na cabeça de Reese, e ela entendeu porque estavam ali, e porque Héctor fazia parte de tudo.
— Bem, acho que por agora é só isso, Dr. Essex, não queremos tomar muito do seu tempo — Cassian comentou, em um tom bizarramente educado para seus padrões.
— Imaginem... Eu adoraria recebê-los de novo... Se não for pedir demais, quem sabe, recolher uma amostra genética? Eu sei, eu sei, é pedir demais... Mas... Se puderem considerar...
— Vamos pensar a respeito — Reese cortou, apertando mais a mão de Miguel. — Mas acho que agora realmente precisamos ir, não é bom pra gente como Miguel e eu ficar andando pela cidade nos dias de hoje.
— Ah, é claro. Bem, obrigado. É sempre um prazer, Héctor.
— Igualmente, Dr. Essex, obrigado por tudo.
O médico se despediu com um aperto de mão firme com Héctor, e o grupo voltou pelo elevador.
Reese ainda esperou estarem do lado de fora do hospital, pedindo outro carro agora de volta para o restaurante, antes de falar alguma coisa.
— O cientista — ela comentou. — Vamos precisar de um cientista para tirar o Projeto R do papel...
— ...e ele já tem décadas de estudos sobre o gene X, e começou a aplicar tudo ao terrígeno recentemente, sem falar na vontade em estudar o assunto e na ótima estrutura e recursos — Cassian completou, ainda com o sorriso convencido no rosto. — Sim, Reese, eu já tinha um acordo com Héctor antes, em parte porque o interesse em comum que nós e Essex temos é muito útil para nós dois. Se conseguirmos as informações de Stryker, certamente ele vai conseguir concluir a pesquisa e criar a vacina para nós.
— Mas — ela olhou para Héctor, um pouco receosa, mas ele não parecia irritado. Em verdade, ela começava a achar que ele era incapaz de se irritar, tamanha a complacência que vinha apresentando desde que tinham se conhecido. — Será que é uma boa decisão deixar todo esse conhecimento nas mãos de um... um humano?
— Eu não vejo problema — Miguel cortou, dando de ombros. Reese percebeu que ainda segurava a mão dele, e a soltou, tirando o véu de tranquilidade da mente dos dois. Na mesma hora a leve dúvida dela começou a se transformar em uma inquietude considerável, e a garota decidiu devolver o véu de tranquilidade para sua própria mente, ao menos para poder terminar a conversa de forma imparcial. — Quer dizer, Stryker já tem essas informações, pelo menos assim a gente garante que alguém do nosso lado vai tê-las também.
Fazia sentido, mas ainda assim... O carro chegou e Héctor se despediu, voltando à pé para a igreja. Reese entrou no carro com os outros dois, mas continuava sem saber como deveria se sentir. Racionalmente, fazia sentido, e não dariam sorte de encontrar alguém melhor que ele, tinha certeza. Enfim, Reese cedeu.
— Espero que seja a coisa certa a se fazer.
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