Era uma tarde comum para Luke quando ele foi até a Sala do Perigo testar mais das suas habilidades. Apesar de não ser mais parte de um time, isso não ia impedi-lo de ser um herói, nem que tivesse que esperar mais um ano e seu aniversário de dezoito para isso. Ele apertou um botão no controle, e mais drones saíram da parede, voando pelo local. Luke ergueu o braço, carregando a luz, e atirou.

Um a um, ele explodiu os drones e os restos foram caindo no chão. Sua mira estava melhorando bastante, e a potência também. Em verdade, começava a considerar se precisava reduzir a potência um pouco. Um tiro daqueles poderia atravessar completamente o peito de uma pessoa comum, e não queria matar ninguém.

Ele pegou o tablet e deu uma analisada nos dados de seu tiro, pensando em como dificultar o treino, quando seu celular vibrou no bolso. Distraído, ele pegou o aparelho, e quase deixou o tablet cair ao ver o rosto de Nath pedindo uma chamada de vídeo.

Luke largou o tablet na mesinha, se sentando sobre ela e atendendo a chamada.

Nath parecia bem, exatamente como no dia quando tinha partido, exceto por uma descascada de leve nos cantos do rosto. Ele iria trocar de pele em breve, e Luke se lembrou do namorado desesperado por achar que a qualquer momento seria a última, e como ele estava assustado com o que poderia acontecer. Teria ligado por isso?

“Nath?”, Luke chamou, colocando o celular virado, escorado em sua garrafinha de água, para ficar com as mãos livres para sinalizar. “Onde você está? Está tudo bem?”

“Estou bem… Me desculpe por ter ido embora daquele jeito.”

Luke nem conseguiu sentir raiva. Nath parecia bem. A expressão estava com a testa franzida, mas não havia tristeza em seus olhos. Estava pensando em algo?

“Tudo bem… Eu fiquei um pouco chateado, mas a última coisa que eu te falei foi uma versão mais bonita de ‘eu te disse’. Não me espanta que você tenha ficado bravo comigo.”

“Ah? Não… Eu não fiquei bravo, eu só… Eu pensei que se eu me despedisse, você ia me pedir pra ficar. Se você pedisse, eu não iria embora, mas eu precisava disso. Do espaço, sabe? Me desculpa.”

E com certeza Luke teria pedido, então embora ainda estivesse chateado com isso, entendia.

“Tudo bem. Eu entendo… Fico mais feliz em saber que não está bravo comigo.”

Mas isso não queria dizer muita coisa, queria? Ainda eram namorados? Não sabia dizer. Nunca tinha namorado antes de Nath, e por conta disso, nunca tinha terminado também. Menos ainda ter uma discussão desse tipo. Era tudo confuso demais… Luke decidiu que não queria falar disso agora. Nath tinha ligado pra ele, e a última coisa que queria fazer era discutir.

“Então… Como vão as coisas?”

“Bobby arrumou preu voltar pro orfanato. Tenho estado aqui. Tô seguro, tá tudo bem.”

Orfanato. Ainda bem, Luke pensou, o coração aliviando um pouco.

“Posso ir te ver?”

Nath hesitou, abaixando o olhar um pouco. Antes do garoto responder, Luke já sabia qual seria a resposta, e tentou não ficar muito triste por isso. Ele tinha dito que precisava de tempo. Tinha de dar esse tempo a ele.

“Ainda não. Eu… Luke, eu preciso de um conselho seu. Desculpe se for pedir muito agora, com tudo que tá acontecendo com a gente, mas é que eu não sabia pra quem pedir ajuda. Juna tá passando por muita coisa, e eu não era tão próximo assim da Riya… Eu só tenho você.”

Luke balançou a cabeça, em uma negação. Nath não tinha que se justificar, não para ele. Ia ajudar com o que pudesse, sempre, estando juntos ou não.

“Não preocupe com isso. Eu quero ajudar. O que aconteceu?”

“Bem… Eu tenho mãe.”

“...O quê?”

Nath pegou algo ao lado dele, e então mostrou um envelope de carta para Luke. Estava aberto, Nath certamente tinha lido o conteúdo.

“Ela deixou uma carta preu receber aos dezoito anos. Ela quer me conhecer… Ou ao menos queria, dezoito anos atrás. Eu não sei o que fazer.”

“Entendi… Você tem o nome dela? Eu posso acessar o cérebro, ver se consigo achar alguma coisa. Se não conseguir, sempre tem a Sábia.”

“Não… Eu tenho o número dela. Eu posso ligar. Eu só… Luke… E se… Bem, olha pra minha cara. E se…”

Nath não terminou, e não precisava. E nesse momento, algo estalou dentro de Luke. De repente, os últimos meses fizeram ainda mais sentido. Nath não receava que Luke fosse deixar de gostar dele, se fosse esse o caso, depois de repetir tantas vezes que o amava e não se importava, eventualmente ele ia entender.

Mas não era tão fácil fazer isso quando ele odiava a si mesmo. Se Nath não gostava de si mesmo, estaria o tempo todo esperando as outras pessoas o verem como se via, e o detestarem também. Não seria fácil fazê-lo entender que o amava se ele não se julgava digno disso.

“Você tem falado com seu terapeuta?”

“Sim… Mas eu peguei a carta ontem, e ainda não liguei pra ele depois.”

“Ligue. E pelo amor, ligue pra essa mulher. Qual a pior coisa que pode acontecer? Se ela gostar de você, você vai ter conseguido uma família, Nath! E se não gostar… Você viveu até hoje sem ela, não vai ser nenhuma perda. Mas você não pode fugir disso porque está com medo. Não fuja.”

Os dois se encararam por um instante. O conselho claramente não era apenas sobre a mãe dele, e Nath percebeu. Ele assentiu, devagar, encarando o papel nas mãos.

“Eu vou ligar pro meu terapeuta… E vou ligar pra ela depois.”

“Isso. Faça isso.”

Nath assentiu. Os dois ficaram em silêncio por um tempo. Luke não queria desligar. Não sabia se Nath tinha mais alguma coisa para falar, mas nem que ficassem ali com a tela acesa, em silêncio. Sentia muita falta dele, mais do que tinha imaginado. Ver o rosto dele agora o fazia querer sair correndo do Instituto para encontrá-lo onde estava, e abraçá-lo, e beijá-lo, e…

“Eu vou ligar pra ela. Mas então você vai me fazer um favor, e falar com sua família também, ok? Você precisa fazer isso.”

Luke sabia. Já estava planejando isso, de qualquer forma, e pretendia fazer a visita em breve, só precisava pegar um pouco mais de coragem. Mas se Nath tinha coragem de conhecer a mãe que nunca vira na vida, podia voltar pra casa e enfrentar seu passado. Tinha de poder.

“Combinado. Eu faço isso, você faz sua parte, e talvez depois a gente saia pra tomar um sorvete e falar como foi, né?”

Não conseguiu se conter. Não queria pressionar Nath, mas não tinha imaginado que vê-lo em sua frente assim fosse ser tão complicado. Seu coração quase chegava a doer. Nunca tinha imaginado que fosse sentir algo assim por alguém.

“Eu… não sei. Desculpe, eu não devia ter te ligado.”

“Não, devia sim. Tá tudo bem, eu —”

“Nós somos muito diferentes, Luke. Eu sou esquisito, não adianta dizer que não, e tem coisas demais, problemas demais… É muito difícil estar comigo, e se é difícil pra você, acaba sendo difícil pra mim também. Eu não faço ideia se é possível pra mim ter um namoro normal com alguém. Talvez seja. Talvez não. Até eu saber… Você… Olha só pra você. Você é bonito, carinhoso, atencioso… Você merece alguém melhor.”

“Nath, eu não quero alguém melhor. O melhor pra mim é você. Eu quero você!”

Nath balançou a cabeça, em uma negação.

“Você é uma estrela, Luke. Literalmente, seu poder… É isso que você é. Nós somos diferentes demais.”

— N-não… — Luke respondeu, sentindo os olhos encherem de lágrimas. Não importava a Luke que fossem diferentes, Nath estava muito errado se achava que não o merecia ou alguma bobagem do tipo. Isso não era verdade.

“Eu te amo, Nath. Do jeito que você é. Não diga isso assim, não sem pensar… Por favor.”

“Me desculpe. Eu acho que eu vou por agora. Vou ligar pro terapeuta. Eu não devia ter te incomodado, desculpa Luke.”

— Nath…

Mas o garoto acenou em despedida, e desligou a chamada. Luke ficou ali, sentado, encarando a tela por um instante. Então seu corpo estremeceu, uma onda de calor subindo dos pés à cabeça. O calor se acumulou em seu rosto, cada vez mais alto, próximo aos olhos, e Luke tentou conter as lágrimas na garganta mas não conseguiu.

Ele soltou um grito de tristeza, as lágrimas saindo dos olhos, mas algo mais aconteceu. O calor saiu de seus olhos em lasers disparados em direção à parede da Sala do Perigo, uma descarga de energia que ele não conseguiu conter. E quando enfim acabou, tinha partido a parede da sala ao meio.

Luke encarou a parede em choque por alguns instantes. Nunca tinha feito isso antes, não sabia que podia fazer. Precisava reportar a Bobby, analisar o poder, saber como funcionava… Mas ele só conseguiu ficar sentado ali, encarando o estrago e pensando, com um aperto no peito, como aquela nova descoberta o afastava ainda mais de Nath.

[...]

Ter feito treze anos tinha mudado algumas coisas no dia-a-dia de Balu. Agora que era considerado oficialmente um adolescente, tinha ganhado alguns direitos a mais, e até então, não tinha achado necessário usufruir de nenhum deles. No entanto, como tantas outras coisas recentemente, isso também tinha mudado.

Balu saiu naquela tarde sem falar com ninguém, sabendo só precisar se atentar ao toque de recolher e chegar no Instituto antes de perder o horário. Felizmente, apesar da dissolução do time, Bobby parecia ter se esquecido de revogar o acesso deles ao banco de dados dos X-Men, ou talvez ele não se importasse de deixar aberto para eles. Fosse por que motivo, Balu tinha conseguido acessar as informações e como resultado, agora sabia exatamente onde Anne Walsh estava presa.

Pegou um carro até lá, encarando a janela o tempo todo, a mão fechada ao redor do anel de Ganesha pendurado em uma corrente em seu pescoço. Apesar de ter decidido fazer a visita, e não ter dúvida nenhuma sobre essa atitude, ainda sentia um embrulho no estômago e uma palpitação no coração durante o caminho. Ele murmurava em uma voz quase inaudível uma prece a Vishnu, pedindo por calma e paz para conseguir seguir com o que pretendia fazer, mas se o deus estivesse ouvindo, devia estar ocupado demais para fazer alguma coisa, pois o aperto no coração de Balu não se aliviava por nada. Ou talvez aquele tipo de nervosismo fosse demais até para ele ajudar.

Pela primeira vez, Balu desejou que seu poder pudesse também controlar suas emoções em vez de só mimicar a de todo mundo à sua volta, mas agora que estava conseguindo controlar essa habilidade bem o suficiente para ficar ao redor das pessoas sem sua coleira, era como se ela não existisse. Talvez houvesse alguma forma de acessá-la no futuro, mas não seria tão cedo, pelo que vinha percebendo, e não queria esperar mais. Não podia. As palavras de Luke vinham corroendo sua cabeça cada vez mais, e voltara a ter pesadelos com a morte dos pais, como costumava ter até um ano depois da morte deles. Não queria continuar com essa angústia apertando o peito. Seu terapeuta provavelmente ia ter um ataque quando soubesse que estava fazendo isso, mas, bem, o que ele não via não ia ter como o coração sentir, não é?

O carro passou pela ponte, e em instantes Balu estava de frente para a Ilha Ryker.

— Pode descer, garoto. Isso é o mais perto que eu chego.

Balu conseguiu sentir ansiedade vindo do motorista, mas como já tinha se tornado comum para si, estava bem mais acostumado a sentir as emoções dos outros sem se influenciar por elas. Não sabia bem como funcionava, a única forma de descrever era que ele fazia força para se manter neutro apesar do seu corpo querer mimicar as reações. Naquele motorista, sentia uma palpitação leve, um princípio de suor frio, e um reflexo de ansiedade. Balu respirou fundo e forçou seu corpo a se comportar normalmente, agradeceu o motorista, e desceu do carro.

Em um local como a Ryker, era mais do que essencial ter esse controle sobre si mesmo. Balu soltou o colar, ajeitou a postura, e caminhou até os portões.

Havia um guarda no guichê de entrada. Balu tinha ido até lá em horário de visitação, para garantir que não poderiam lhe dizer que não teria como entrar agora, mas isso não queria dizer que seria simples. Ele pigarreou, batendo no vidro de leve, e o segurança olhou para baixo.

— Que é garoto?

— Eu preciso visitar uma prisioneira. Anne Walsh.

— Hm. Tu é filho dela, ou algo do tipo?

— Não.

Balu também estava preparado para isso. Em tese, os Novos Mutantes não tinham se desmanchado, não oficialmente. Por mais que não atuassem mais como um time, Amália tinha se acovardado demais para anunciar isso ao público, e era com o que Balu estava contando agora.

— Anne Walsh está envolvida em uma investigação em andamento. Eu preciso falar com ela.

Não era mentira. Anne tinha tido envolvimento com os Purificadores, e Balu pretendia usar a oportunidade para fazer algumas perguntas nesse sentido, então em tese o guarda deveria deixá-lo entrar, não é?

— Investigação? Pirralho, poupe meu tempo, pelo amor de deus… Uma criança…

Balu enfiou a mão no bolso, pegando o celular e achando o Instagram da equipe. Precisou rolar muito pra encontrar o vídeo da entrevista que tinham dado depois de sair da igreja de Jason, mas achou, deu play, e colocou a tela do celular colado no vidro do segurança.

— Talvez isso refresque sua memória.

— Hm? — O guarda se inclinou, assistindo o vídeo com um olhar curioso. Balu esperou, focando nas batidas do próprio coração, tentando mantê-las sob controle.

Calma. Paz de espírito. Cabeça fria.

Ele apertou a mão, contendo o impulso de segurar o anel de Ganesha mais uma vez. Sabia que fazer algo maluco assim ia deixá-lo nervoso, não sabia que seria tanto. Mas para tudo na vida tinha uma primeira vez.

— Quem é seu supervisor, garoto? — O guarda perguntou, escorando para trás na cadeira, a mão no queixo.

Balu congelou. Se dissesse “Bobby Drake” e o homem ligasse pro Instituto, estaria frito. Se ele estava perguntando era porque não sabia. Será que… uma mentirinha branca, só dessa vez…

— Roberto da Costa.

— O ricasso da praia de Los Angeles? Espera aí.

Como Balu tinha imaginado, o segurança devia ter algum tipo de linha de primeira chamada com heróis diversos, porque puxou o telefone e ligou.

O garoto engoliu em seco, esperando. O guarda conversou por algum tempo, e depois desligou a chamada.

— Ok, garoto. Boa conversa.

Balu quase deixou o queixo cair. Os portões se abriram e ele entrou, atordoado, quase sem acreditar que Roberto era de fato tão desconectado com as coisas quanto parecia. No meio do caminho, seu telefone começou a tocar, e ele pegou percebendo se tratar do próprio Mancha Solar. Receoso, mas ainda se controlando, ele atendeu a chamada.

— Olá.

— Desembucha.

— Anne estava na base dos Purificadores que meu time invadiu no ano passado. Agora que temos informações novas, eu pensei se teria algo mais que podemos perguntar.

— Sei… Só isso mesmo?

— Ah, sim.

— Certo. Boa sorte, então.

— Ok. Obrigado.

A ligação caiu. Balu parou de andar no meio do corredor, encarando o celular, com uma sensação estranha no peito. Não sabia direito o que era, mas alguma ânsia o fez encarar o celular por alguns instantes, enquanto esperava o guarda para levá-lo até a sala de visitas. Antes de se dar conta, Balu foi até as chamadas recentes e ligou de volta para Roberto.

— Pois não?

— Ela também matou meus pais dois anos atrás. Eu vi tudo.

Silêncio. Balu ouviu uma batida leve na mesa, e aguardou, pensando se tinha acabado de queimar sua chance. Levou alguns instantes para Roberto falar.

— Quais são seus poderes, mesmo?

— Eu curo pessoas. E eu também tenho uma espécie de empatia que aprendi a controlar recentemente.

— Hm. É uma situação muito volátil emocionalmente. Já testou sua empatia em cenários de estresse extremo?

— …não.

— Entendi. Vai ser arriscado. Você acha que consegue?

Balu respirou fundo, sentindo as batidas do próprio coração o acompanharem. Tinha de conseguir, vinha treinando pra isso por muito tempo. Sua empatia não era mais um desafio no Instituto, e esse era o momento de mais estresse no qual poderia se colocar. Era o melhor teste possível, não é? Então, tinha de tentar.

— Acho que sim.

— Ok. Boa sorte, mantenha a calma. Se precisar de algo quando sair, me ligue de novo, eu penso no que fazer.

— Você… vai me deixar ir?

— Balu, eu estou do outro lado do país. O que é que eu vou fazer pra te impedir? — Ele perguntou, soltando uma risada leve. — Não se faz omeletes sem quebrar ovos, garoto. Ninguém sabe mais que você se você dá conta. Se não der, a gente arruma a bagunça depois. O importante é você saber a hora de sair antes de acontecer algo drástico, pro resto a gente dá jeito. Combinado?

— Combinado. Obrigado, senhor da Costa.

— Meus amigos me chamam de Bobby.

Nesse momento, Balu riu. Não teve como não rir com a ironia da situação. Depois de tudo, estava mesmo respondendo a Bobby, não é? Então até se perguntassem, ele poderia dizer “o Bobby deixou” e nem seria mentira.

— Ok, Bobby. Eu te digo como foi.

— Vai lá, acaba com ela. Verbalmente.

Balu sorriu e agradeceu, desligando a chamada, uma onda de coragem percorrendo sua espinha. Ele ajeitou a postura, pigarreou, e estava com a expressão ainda mais confiante do que na entrada quando o guarda o veio buscar para a sala de visitas. O homem abriu a porta e o colocou de frente para uma sala com várias cadeiras e telefones, e então uma divisão de vidro com os presos do outro lado, com outro telefone, para falar com as visitas. Ele seguiu o guarda pelas cadeiras até a quinta, e então, ali estava. Anne Walsh.

Vê-la foi como levar um soco no estômago. Aquele rosto era exatamente o rosto que ele se lembrava, e ver um sorriso cruel se espalhar na boca dela foi o sinal perfeito para Balu de que ela se lembrava perfeitamente dele.

O guarda saiu, e Balu sentiu uma onda de emoções fortes se atirando contra a proteção que ele tinha formado. Aquela sala tinha raiva e tristeza demais, e agora Balu sentia raiva e tristeza também.

Rangendo os dentes, ele se sentou e pegou o telefone, vendo a mulher repetir o gesto. As palavras fugiram a ele, e de repente ele desejou ter os poderes de Kitty pra atravessar o vidro e bater a cabeça da mulher na mesa até não sobrar nada.

Tinha sido ela. Conseguia ver claramente em sua frente ela e o marido com armas em punho, tentando mirar nele, vendo que não conseguiriam, e matando os pais em vez dele. Conseguia ver a mãe mandando ele correr, e então tinha corrido, mas não sem antes ver aquele olhar de crueldade estampado no rosto dos assassinos de seus pais.

Balu sentiu que ia vomitar. Seus braços tremeram, e ele repassava a visão em sua mente, de novo, e de novo, e de novo… O barulho dos tiros, o sangue no chão, os gritos de sua mãe… Corra! Balu, corra, saia daqui, por favor… Saia!

Tinha sido ela.

— Ora, ora… O filho dos Rajani.

E ela lembrava dele. Ouvir seu nome sair da boca da mulher daquele jeito fez seu estômago se revirar, e ele não soube se deveria se focar em conter o enjôo ou ficar no controle de suas emoções. Decidiu pelas emoções, o que o fez engolir um bolo de refluxo subindo pela garganta. Eventualmente, conter a ansiedade tinha de matar o enjôo também.

Agora que estava de frente para ela, tudo o que tinha pensado dizer, sumiu. Em todo o caminho até ali, em seus pensamentos, tinha planejado um discurso, todo um texto sobre como ela tinha arruinado sua vida, sobre toda a raiva que ele sentia, sobre o que tinha visto, e até sobre como ela tinha ousado abandonar uma pessoa íntegra como Luke. Mas naquele momento, ele percebeu, nada disso importava. Podia recitar todo seu discurso do começo ao fim, e ela só iria rir, pois não se arrependia de nada. Mostrar sua dor e seu trauma para a mulher só ia dar mais gosto a ela pela tragédia que tinha causado.

De repente, a raiva de Balu se converteu em fúria. Não havia nada em sua frente a não ser crueldade, e não tinha como vencer, porque o jogo já tinha acabado, e a vitória já era dela.

— Ora, ora. Uma cadela desgraçada — Balu respondeu.

A mulher levou a mão ao peito, irônica, fingindo ofensa.

— Que é isso? Que eu me lembre, os Rajani sempre descreviam o filho deles como um anjinho…

Ele decidiu não alimentar a diversão dela.

— De onde vocês Purificadores conseguiram as bombas?

— Onde você está vivendo, hã? Eu fiquei sabendo que o Homem de Gelo te acolheu… ainda está lá? Que patético…

— O terrígeno veio de onde?

— Garoto, se essa é sua técnica de interrogação, você vai ter que melhorar muito. Não tem nada que você queira que eu vá te dar assim, de graça.

E não havia nenhum benefício que Balu tivesse estômago para oferecer a ela. A única coisa que poderia fazer era ameaçar, mas como ia fazer isso através de um vidro? Ele encarou o rosto sorridente da mulher, e como ela estava adorando aquela situação, sabendo que tinha algo que podia dar para ele e que não ia ceder… Balu apertou a mão mais uma vez, sentindo o sangue pulsar contra ela, acompanhando as batidas do seu coração.

Então, ele teve uma ideia.

— Você sabe o que é o septo interventricular? É uma parede de músculo no seu coração que separa o sangue venoso do arterial. Ela é essencial para manter uma pessoa viva.

Balu levantou uma mão, a colocando no vidro. Contato físico facilitava muito curar uma pessoa, mas com um pouco de esforço, ele conseguia usar os poderes à distância, principalmente porque ela não estava tão longe assim. Balu se focou, olhando para a mulher, e buscando as batidas do coração dela.

— Se você não quiser que eu rasgue o seu no meio, comece a falar.

O sorriso no rosto de Anne se atenuou, ficando amarelo, e ela enrijeceu a postura.

— Você está blefando.

— Estou?

Balu desviou seu foco para a coxa da mulher, procurando pelo músculo lateral, e contraiu a mão com força. Aquilo era bem mais difícil do que ele queria deixar transparecer, mas não era impossível.

Vinha entendendo mais sobre seus poderes ultimamente. A capacidade dele de curar não era seu poder, pura e simplesmente, mas sim o resultado de uma sincronia e um entendimento dele com o corpo humano. Era natural para o corpo querer se manter inteiro e saudável, então era fácil para Balu incentivar esses processos. Osso quebrados queriam colar, músculos doloridos queriam relaxar, e ele conseguia acelerar esse tipo de coisa. Mas se podia fazer isso, poderia forçar o corpo a fazer o contrário? Tinha testado essa hipótese algumas vezes, com níveis de sucesso variados, mas agora estava bem melhor com isso. Ao menos, para coisas pequenas como uma contração muscular.

Anne sentiu a dor. Ela levou a mão à coxa e olhou para Balu, os olhos arregalados, a respiração afobada. Ela se virou para trás, provavelmente para pedir ajuda, mas Balu se adiantou para o gancho do telefone.

— Eu não faria isso se fosse você. Até eles te tirarem daqui, alguma desgraça natural pode te atingir.

O que você quer?

Agora sim estavam conversando. Balu abriu um sorriso pequeno, soltou a pressão sobre o músculo dela, e retomou a conversa.

— Saber de onde vem o terrígeno que seu chefe conseguiu.

— Eu não sei.

Balu abaixou suas defesas, tentando mimicar os sentimentos dela, mas a mulher estava muito assustada agora para ser possível medir se estava falando a verdade ou não. O nervosismo do medo mascarava as outras emoções que seriam boas indicações.

— Besteira. Você estava na base central dos Purificadores, trabalhando lá. Tinha contato direto com Cameron Hodge, sou capaz de apostar. Quer que eu acredite que não sabe de nada?

— Eu não sei de onde veio o terrígeno, eu juro!

Ela tinha ficado pálida. O medo aumentou, e Balu considerou por um instante que ela estava assustada o suficiente para não arriscar mentir. Se esse era o caso, então Hodge compartimentalizava a informação mais do que seria útil agora.

— O que você sabe?

— As bombas chegavam de avião. Só Hodge podia receber. Depois, o meu trabalho era redistribuir as caixas pelo país. Eu não sei de onde vinham e nunca perguntei, não era meu trabalho saber.

Merda. Balu rangeu os dentes, nervoso, apertando mais o gancho do telefone. Talvez ela soubesse sobre alguma outra coisa, então. Só talvez.

— Jason Stryker. O que sabe sobre ele?

— É o filho do William. Esteve em algumas reuniões, não falava muito, só ouvia. Acho que ele tinha uma cadeia de igrejas pra recrutar Purificadores, mas nunca me confirmaram isso.

Curioso. Balu imaginou se Anne saberia de algo, mas ela ter de fato visto o homem em contato com Hodge antes de tudo acontecer significava que ele estava envolvido com a coisa toda por um bom tempo. Fazia sentido também em como os Purificadores tinham conseguido crescer tanto de uma vez, boca-a-boca não seria tão efetivo tão depressa.

— Tudo bem. Eu acredito em você — Balu respondeu, com um sorriso leve no rosto. Anne pareceu recuperar a cor, devagar. — Bom trabalho. Espero que aproveite sua estadia aqui, daqui pra frente. Presa na Ryker, capturada por um grupo de crianças… Que patético.

Balu sentiu fúria subindo na mulher ao ter as próprias palavras usadas contra ela. Anne levantou o rosto, a expressão de fúria cada vez mais intensa. Se xingasse Balu, talvez ele quebrasse o mindinho dela. Um osso pequeno desses deveria ser possível de fazer. Uma trincada bem pequena iria doer horrores mas não seria nada grave, e serviria de lembrete, não é?

Ele não chegou a fazer nada, pois nesse instante, os alarmes da penitenciária soaram.

A atenção dele se desviou para as luzes vermelhas nas paredes, uma sirene alta tocando pelo local. Os guardas atrás dos prisioneiros caminharam até eles para levá-los de volta às celas, e Balu viu outros dois entrarem pela porta da sala de visitas. Quando ele voltou o olhar para onde Anne estava, ela já deixava o local, acompanhada de um dos guardas.

— Vamos garoto, você não pode ficar aqui — o guarda anunciou, o chamando com a mão.

Balu se levantou, olhando em volta, frustrado. Tinha perguntado tudo o que pretendia, então não era como se estivesse perdendo em alguma coisa, mas aquele alarme não parecia um bom sinal.

— O que está acontecendo? — Ele perguntou ao guarda enquanto saíam da sala.

— Nada com que precise se preocupar.

— Não me convenceu.

— É um procedimento padrão, não se preocupe com isso.

Balu parou de andar. Ele conseguia sentir o estado de alerta do guarda. Ele estava mentindo.

— Garoto…

— Eu sou um Novo Mutante. O que está acontecendo?

— Espera, você tem poderes? Ah… Tem… Eu lembro de você, da internet.

O guarda olhou em volta, parecendo agitado e indeciso, mas tirou uma pistola do coldre, entregando para Balu.

— Estão soltando alguém das celas superiores. Fique perto de mim.

Balu olhou para a pistola, meio chocado. Vinha aprendendo a lutar com Damon e Amália já a algum tempo, mas armas não era algo que tivessem abordado em detalhes. Sabia apontar e atirar, mas já não lembrava do que eles tinham falado sobre recarga.

— Armas não são muito meu estilo — Balu comentou, seguindo o guarda de perto.

— Você não é o garoto da PEM?

— Não, esse é o Pulso… Eu sei curar.

O guarda suspirou, e os dois viraram um corredor, onde encontraram um outro grupo de guardas correndo em direção às escadas para o andar de cima. Balu apressou o passo para acompanhar o guarda, seguindo o restante deles escadas acima, e então deram de cara com o que só podia ser um filme de guerra.

Alguém tinha conseguido abrir todas as salas, e os prisioneiros estavam soltos pelos corredores, brigando e arrumando confusão.

— Mas que merda… — o guarda xingou, pegando o walkie-talkie no ombro e apertando o botão. — Olhos no prisioneiro?

Um ruído de estática soou e Balu ouviu apenas algumas palavras da resposta, graças a toda a bagunça no corredor, mas a palavra “helicóptero” foi muito audível para ele.

— Vocês tem um heliporto?

— Vem comigo.

O guarda sinalizou para outros no caminho, e Balu seguiu o grupo em direção às escadas, correndo com eles para os andares superiores, a pistola firme na mão. Ele conferiu três vezes se a arma estava travada, e como não fazia ideia de que modelo era aquele ou de quantas balas teria, decidiu considerar que só tinha um tiro, e se tivesse mais um era sorte. Não podia errar.

Quando chegaram ao heliporto, havia um pequeno grupo de pessoas armadas escoltando um prisioneiro no uniforme verde em direção ao helicóptero, onde uma mulher esperava para recebê-lo. Balu mal teve tempo para ir para trás de um dos seguranças com escudo quando começaram a atirar.

Balu levantou a arma, mirando no helicóptero em vez dos soldados, que agora embarcavam um de cada vez. Não adiantou nada. Ele começou a mirar nas pessoas, então, mas errou todos os tiros, em parte pelo recuo da arma, e em parte porque não sabia mesmo mirar. O helicóptero fechou as portas e decolou, e aos poucos, os tiros cessaram.

— Richard, entre em contato com a Força Aérea para rastreio do helicóptero.

Mas no meio da fala do guarda, o helicóptero desapareceu. Simplesmente ficou invisível no ar, e o pedido de repente pareceu despropositado.

Balu suspirou, cansado, devolvendo a pistola para o policial. Usualmente, teria se sentido inútil numa situação dessas, mas não dessa vez. Algo aconteceu. Talvez por ter sido levado em conta, ou ao menos por ter tentado… Não sabia dizer. Não poderia dizer que estava orgulhoso do resultado, mas estava ao menos feliz por não ter atrapalhado nada.

— Alguém se machucou? — Balu perguntou.

Uns três guardas levantaram a mão, e Balu foi pro mais próximo, curar o que era um tiro de raspão no braço.

— Quem era aquele? — Ele perguntou, usando seus poderes e fechando a ferida em segundos. Os outros dois guardas se aproximaram e pareciam bem impressionados com o que ele estava fazendo. O garoto sentiu um certo orgulho naquele instante.

— Você disse que é de onde? Novos Mutantes, né? — Balu assentiu em resposta. — Então imagino que vá querer saber. O cara naquele helicóptero era o Cameron Hodge.