Irmandade de Mutantes: Supremacia Marvel 717 3
12 Memórias
O silêncio no porão do restaurante era interrompido apenas pelo plec plec insistente de Marlene clicando uma caneta, enérgica, enquanto rolava algumas telas no computador, os cabelos loiros amarrados em um coque baixo atrapalhado e seus olhos azuis correndo freneticamente pelas informações na tela. Não fosse a presença daquela caneta, era provável que já teria jogado alguma coisa na parede a essa altura, tamanha a sua frustração com a situação atual.
Já fazia um bom tempo desde que a filial mais recente da Igreja de Stryker tinha se fechado, seus pombos não conseguiam seguir Jason, e todas as pistas tinham desaparecido no ar. Ela tinha sido convidada para ir visitar Cat junto dos demais, mas não conseguia tirar sua cabeça do problema à sua frente, e o pensamento de que a cada segundo no qual não conseguiam rastrear Jason significava mais tempo com a igreja operando e cuspindo nojeiras contra eles não amenizava sua situação. Sem o site da igreja para acessar, sem Jason para seguir, estava andando em círculos e encarando as páginas de pesquisa do google com um olhar de desespero de dar dó.
Moonstar, o colega de time moreno, de pele clara e ascendência coreana, estava sentado no sofá ao seu lado com o celular em mãos, mas não parecia ter muito mais sucesso. Tinham tentado procurar pelo facebook, se infiltrar em grupos supremacistas, e já tinha lido tanta baboseira preconceituosa que estava surpreso de seu olhos não terem derretido para fora dos globos oculares. O pior de tudo era que não estava adiantando para o esperado, havia muita merda proferida nesses grupos, mas nada apontando para a igreja. Estava óbvio que tinham percebido que a S.H.I.E.L.D. tinha os encontrado pela internet, e portanto, varrer todas as menções atuais da rede tinha sido a escolha sensata. Em verdade, não podiam nem mesmo garantir que a igreja estava funcionando de novo, talvez tivessem dado uma pausa para esperar a poeira baixar.
Enfim, Marlene se cansou, fechando a tampa do notebook com um barulho alto e suspirando, cansada. Ela se levantou da cadeira e se jogou no sofá, ao lado de Moonstar, esticando os olhos para a tela do celular dele. Claramente, não estava tendo mais sorte que ela.
— Não existe a menor chance de encontrarmos ele na internet agora — ela comentou, colocando os pés para cima da mesinha de centro. — Precisamos de outra ideia.
A questão era que já tinham pensado em uma boa quantidade delas, desde as mais simples, como sair perguntando por aí, até as mais dramáticas. A essa altura, estavam chegando perto demais de aceitarem uma das dramáticas, pois para infiltrarem alguém para sair perguntando, teria de ser alguém de fora, uma vez que metade da Irmandade tinha a aparência bizarra e dos três restantes Marlene era procurada, Moonstar estava preso com uma coleira mutante no pescoço e Cassian jamais se sujeitaria a uma coisa dessas.
— Devemos voltar a considerar o arrastão? — Marlene perguntou, vendo Moonstar enfim colocar o celular de lado e repetir o gesto dela, jogando os pés para cima da mesa de centro.
— Se atrairmos a atenção de qualquer grupo de super-herois antes dos supremacistas não vai adiantar nada e ainda vamos acabar com problemas. É uma ideia burra.
Sim, ela sabia, a pergunta tinha quase sido retórica. Precisavam voltar alguns passos para trás, pensar do começo de novo… Marlene se levantou, pegando a caneta na mesa e começando a clicar a tampa novamente, agora andando de um lado para o outro.
— Temos de achar um jeito de encontrar esse homem. Se não vai ser pela igreja, tem que ser por outra coisa. O que sabemos?
— Arma X, William Stryker… Bla bla bla.
— William. Onde está William?
— Preso, até onde eu sei — o garoto comentou, pegando o celular de novo, agora para conferir a informação. Ele digitou alguma coisa, procurou por algum tempo, e então o colocou de lado mais uma vez. — Exato.
— Preso… Então ele tem uma ficha criminal.
— Presumivelmente — Moonstar respondeu, franzindo a testa e encarando Marlene com um olhar curioso e irritadiço, o clique da caneta o estava incomodando bastante. — Você acha que a ficha criminal dele pode nos levar a Jason.
Não era uma pergunta, até porque Moonstar concordava com o raciocínio. Fichas criminais teriam históricos, propriedades, uma série de coisas que, com William preso, seriam agora ou do estado, ou de Jason, dependendo do que se tratava. Se descobrissem um endereço sequer que poderia ter ficado de herança, era um local por onde começar.
— E talvez o próprio Jason também tenha uma ficha. Não sabemos no que ele se meteu pela vida antes da igreja…
— …mas se ele tiver pisado fora da linha, vai ter um histórico. Bem, isso é uma das ideias mais desastrosas que tivemos. Teríamos de invadir o servidor de uma delegacia de polícia pra isso, e só tem dois jeitos de fazer isso: ou com um hacker muito bom, o que não temos, ou entrando dentro da própria delegacia.
Os dois se encararam, visualizando por um instante a equipe invadindo uma delegacia de polícia para roubar informações de um computador. Se desse certo, ela percebeu, poderia sair de lá não apenas com informações sobre Jason… mas poderia tirar a si mesma do sistema. De repente, seu coração disparou, a ideia parecendo mais e mais atraente a cada segundo.
Mas era perigoso. Muito perigoso. Quase impossível, e apostando em um palpite, pois talvez as fichas criminais deles não ajudassem em nada. Não… tinha de ter outra forma, alguma coisa mais segura. Menos idiota…
Marlene olhou para Moonstar por um instante, seus olhos viajando lentamente do rosto dele para a coleira presa em seu pescoço. O objeto, entregue a ele pelo Homem de Gelo em pessoa, estava ali controlando as habilidades dele, o impedindo de desintegrar tudo em que tocasse. Era algo que todo mundo morando no Instituto tinha direito de usar se fosse necessário. E Moonstar estava lá. No Instituto. Debaixo do mesmo teto que os X-Men e…
— Moonstar! — Marlene exclamou, se sentando na mesa de centro. Ele se sobressaltou um pouco com o movimento brusco, mas pelo menos ela tinha parado com o clique irritante da caneta. — Você pode ajudar a gente!
— O que cacetes você acha que eu tenho feito? — Ele perguntou, parecendo ofendido.
Felizmente, Marlene não pareceu se abalar.
— Não assim, idiota. O Instituto! Foram os Novos Mutantes que atenderam o chamado de socorro do incêndio da primeira igreja. E se eles ainda estiverem trabalhando no caso?
O garoto franziu a testa, parecendo desconfortável. Não estava gostando nada do rumo dessa conversa. Conseguia ver as engrenagens girando na cabeça de Marlene e sabia exatamente onde isso ia parar.
— Não. Absolutamente não — ele cortou, se levantando e enfiando o celular no bolso. — Vou embora, já deu por hoje.
— Moonstar, fala sério! Pensa, só por um instante… Eles tem recursos, tem todo o banco de dados dos X-Men à disposição deles, e está sendo desperdiçado com seis crianças leite com pera brincando de salvar gatinho de árvore com o Homem de Gelo segurando uma rede de segurança embaixo. O que nós estamos fazendo é sério, a gente precisa de ajuda muito mais que eles!
— Eu não vou…
A discussão foi interrompida por vozes e passos nas escadas do porão. Cassian, Miguel e Reese estavam voltando, e pelo tom de vozes pareciam ter boas notícias. A porta se abriu, e o trio entrou, e a conversa cessou assim que viram as posições confrontativas em que Moonstar e Marlene se encontravam.
— O que aconteceu? — Cassian perguntou, decidindo pular os cumprimentos básicos da boa educação.
— Marlene acha que devemos invadir uma delegacia de polícia — Moonstar respondeu. — Eu estava indo embora.
Os três recém-chegados olharam para Marlene com expressões surpresas, mas Cassian e Reese tinham um leve tom de interesse por baixo do horror. A garota suspirou, caminhando até a porta para barrar Moonstar de sair antes de terminarem a conversa.
— Verdade, eu disse isso mesmo, eu acho que William e Jason podem ter fichas criminais com informações valiosas. Mas — ela correu a completar, antes de dizerem algo mais. — um jeito bem menos suicida de conseguir esse tipo de informação é no banco de dados dos X-Men, algo que os Novos Mutantes devem estar usando e que o Moonstar não quer tirar proveito.
— Essa é de fato uma ideia bem melhor e menos suicida — Miguel respondeu, um sorriso pequeno abrindo em seus lábios.
— Gente que mora no Instituto não pode acessar essas coisas assim à toa! — Moonstar insistiu, batendo o pé no chão. — Acham que eu não tentei? Tem coisa que eu queria saber também. Não dá, pra pegar as informações boas mesmo, você precisa de um login especial.
— Login esse que os Novos Mutantes devem ter — Reese respondeu. — Espera, Marlene tem razão. Você está lá dentro Moonstar, todos os dias. E não foi pra isso que aceitamos você aqui no time? Pra nos dar informação?
— Uma coisa é eu ficar de olho na movimentação, outra completamente diferente é vocês sugerirem que eu deva virar um Novo Mutante!
— Não estamos sugerindo isso — Cassian comentou, de repente. — Mentir para seis pessoas é bem mais difícil que mentir pra uma só.
— Você acha que eu devo amigar um deles?
— Um deles tem que ser idiota o suficiente — o líder respondeu. — Pensa um pouco.
Moonstar, irritado, bufou, passando os rostos dos Novos Mutantes em sua cabeça. O líder era paranoico, já tinha presenciado, se tentasse com ele era capaz do garoto fazer uma checagem de antecedentes em sua vida inteira, e não ia gostar do que visse, então não era uma opção. O garoto que tinha cuidado dele no hospital era um detector de mentiras caminhante, então também, péssima ideia. O menino cobra era surdo, não conseguiria conversar com ele, e dos três restantes, um garoto era um maluco que já tinha quase matado um X-Men, um risco que não queria correr, e a outra menina era escandalosa e sabia dar chaves de pescoço bem demais pro seu gosto. Sobrava…
— Mas que merda — Moonstar suspirou, se lembrando que, realmente, a garota anjo parecia idiota a esse ponto. Então, sim, talvez essa ideia tivesse alguma aplicabilidade prática.
— É só um caminho, mas é uma ideia menos perigosa, ao menos por enquanto — Miguel comentou. — Pense, se eles descobrirem você, qual é o pior que acontece?
— Me botarem numa sala de interrogatório com o garoto indiano e então eu acabaria entregando todos vocês, porque é impossível mentir pra ele. Eu tentei por semanas dizer que estava bem pra ele parar com os checkups médicos, mas sem nem avaliar meus sintomas, ele já sabia que eu estava mentindo. Ele simplesmente sabe.
— Vamos montar um número de emergência — Marlene sugeriu. — Se algo der errado, vamos lá te buscar, na mesma hora. Mas precisamos tentar. Mesmo se eles não tiverem a informação que precisamos, seria no mínimo útil saber o que eles estão tentando fazer.
Enfim, Moonstar suspirou, um olhar de derrota se espalhando pelo seu rosto. Ficou claro que ele tinha cedido. Marlene saiu da frente da porta, e o garoto foi embora, sem se despedir de ninguém resmungando uma série de coisas pelo caminho.
— Não vamos descartar a delegacia de uma vez, porém — Cassian comentou. — Em último caso, pode se fazer necessário.
— Certo. E como está Cat? — Marlene questionou, agora voltando para sua cadeira na mesa.
— Melhor. Devemos tê-la de volta em algumas semanas.
— Conhecemos um médico pesquisador também, acho que você deveria saber disso — Reese comentou, se sentando no sofá ao lado e começando a narrar para Marlene os acontecimentos no hospital Essex.
[...]
A madrugada já avançava muito quando Miguel se levantou para pegar uma xícara de chá. Haviam noites nas quais não conseguia dormir, o que era dizer muito considerando como ficava com a energia baixa com frequência. Reese achava que ele precisava pegar Sol, igual uma planta, e ele também, motivo pelo qual vinha subindo para o telhado do restaurante nas manhãs. Vinha dando algum resultado, mas ainda precisava dormir de noite para ficar descansado, e em algumas noites isso não era possível.
Estivera dormindo quando o ataque aconteceu. A garota, a quem os tabloides tinham chamado de “Adaga” depois do ocorrido, decidiu atacar de noite, enquanto todo mundo dormia. Por muito tempo, Miguel não entendeu o que tinha acontecido. Tinha se levantado aos sustos, com gritos, e arrancado sua mãe da barraca com ele. Viu algumas pessoas correndo em direções diferentes, mas até encontrar Reese, os únicos Morlocks cuja sobrevivência estava confirmada para si tinham sido Nathaniel e Santino, o último por ter recebido homenagens póstumas depois do ocorrido na base Purificadora.
Agora, é claro, sabendo como Cameron Hodge os tinha financiado, tudo fazia sentido. Mas o que Miguel não tinha percebido até então era sua ingenuidade. Tinha pensado que com Hodge preso o problema iria acabar. Como tinha sido tolo. Não se mata uma ideia. Sempre haveria outro grupo podre de pessoas podres para ressuscitar esse tipo de coisa.
Ele pousou a xícara de chá na mesa de canto, acendendo a lanterna do celular e se abaixando ao lado de sua cama. Já estava ficando cheio de tranqueira guardada debaixo dela de novo, um hábito adquirido nos esgotos dos quais não conseguira se livrar. Naquela época, nunca sabia quando iria esbarrar em um par de tênis de novo, então sempre que conseguia colocar as mãos em algo útil, guardava. Agora, o hábito só estava servindo para juntar entulho nas suas gavetas e nas caixas embaixo da cama.
Já que não ia conseguir dormir, podia muito bem começar a limpar as coisas. Ele puxou a primeira caixa de baixo do colchão, já dando de cara com uma quantidade de lápis, canetas, borrachas e papeis que certamente não lhe era necessária. Tinha guardado até os panfletos do restaurante.
— Mamãe ia odiar essa bagunça — ele murmurou, sentindo os olhos inteiramente verdes lacrimejarem um pouco com a lembrança.
Quem diria, sentia falta até mesmo dela brigando com ele. De como ficava irritada com as coisas fora do lugar. Chegava em casa tarde da lavanderia, e era claro que ver bagunça a deixaria nervosa. Ela tinha relevado um tanto esse comportamento enquanto moravam nos esgotos, mas era uma situação totalmente diferente. Tudo era diferente.
O garoto ficou acordado por horas, mexendo nas caixas, juntando pilhas de lixo e doações. Eram três da manhã quando o bule de chá esvaziou e ele tinha acabado com a bagunça, deixando um saco de lixo amarrado ao lado da cozinha e uma caixa de doações em cima da mesa de jantar. Mas agora, mesmo depois de todo o chá, não achava que conseguiria voltar a dormir. Cansado, ele vestiu seu moletom, puxou o capuz para cima, deixou um bilhete na mesa de cabeceira e saiu.
Não prestou atenção em onde estava indo. Seus pés seguiram um caminho silencioso pela rua, de cabeça baixa, desviando de becos estranhos ou esquinas com pedintes — já tinha sido assaltado por um pedinte uma vez e mesmo conseguindo se defender bem, não queria o estresse. Por muito tempo, seguiu um caminho automático, seus pés indo em frente e sua mente divagando entre diversas memórias de seu passado, quando de repente reconheceu a rua onde estava.
A lavanderia. Seu subconsciente tinha o levado à lavanderia e ao apartamento onde tinham morado, alguns andares acima dela. Ele sentiu um bolo de nostalgia e tristeza se remexer em seu estômago. De certa forma, julgava que todos os seus problemas tinham começado ali. Seu pai tinha os abandonado assim que o garoto nasceu, e desde então, tinham sido apenas ele e sua mãe, ela se desdobrando em turnos duplos naquela lavanderia para sustentá-los. Se nunca tivesse precisado trabalhar ali, nunca teria ficado na mira dos mafiosos que lavavam dinheiro no lugar. Então nunca teriam precisado fugir para os esgotos. Então nunca teriam ido pro Instituto. Nunca teriam se exposto a terrígeno. Ela ainda estaria ali.
Talvez, no fim das contas, a culpa fosse de seu pai ser um completo imbecil. Miguel queria ter mais rancor do homem do que tinha, mas era difícil odiar alguém que sequer tinha rosto em sua memória. Ele franziu a boca, desagradado, encarando a fachada do lugar, quando uma van com a logomarca da lavanderia começou a se aproximar.
Miguel franziu a testa, levantando o pulso para olhar seu relógio. Eram três horas da manhã. Que tipo de lavanderia recebia encomenda a essa hora? Algum instinto fez o garoto se afastar para trás de um poste grosso, se escondendo na sombra da noite para observar as portas da van sendo abertas. Quatro pessoas saíram, dois carregando semi-automáticas, outros dois carregando bolsas pesadas que, Miguel de repente soube, tinham dinheiro dentro. Certamente, era dinheiro.
O sangue dele ferveu. Depois de tudo o que tinha acontecido… Tinha feito uma denúncia depois de fugir com sua mãe, mas não tinha adiantado nada, tinha? Eles ainda estavam ali. Ele apertou as mãos, irritado, e as árvores do quarteirão começaram a se torcer muito devagar na direção dele. Isso não era justo. Como era possível, depois de tudo o que tinha acontecido, que a vida simplesmente continuasse para eles? Nenhuma consequência? Nenhuma perda? Nada?
Não… Hoje não.
— EI! — Ele gritou, saindo de trás do poste, abaixando o capuz e estendendo a mão.
— O quê? — Um dos bandidos se virou, com a arma em mãos. — É um pirralho. Vá cuidar da sua vida garoto, isso aqui é coisa de adulto.
— Ei, ele não pode ver a gente, cara. Mete bala!
— Na criança? Fala sério… A gente não tem um código de ética ou coisa pare…
Não terminaram de discutir. Miguel respirou fundo, buscando os ramos e raízes debaixo do solo, sentindo as plantas se moverem, respondendo ao seu chamado, e moveu as mãos para cima de uma vez.
Duas ramas grossas saíram do chão, se prendendo nas semi-automáticas e as puxando para cima, as arrancando das mãos dos bandidos e as colocando fora do alcance deles.
— É um heroizinho maldito! Atirem!
Os bandidos alcançaram pistolas em coldres nas cinturas, as erguendo para atirar. Miguel fez um gesto com a mão, a arrastando para o lado em sua frente, e uma parede de casca de sequóia apareceu, mas não estava segurando as balas.
Má ideia. Ele correu, repetindo o gesto e agora puxando uma parede de carvalho, bem mais eficaz. Talvez precisasse aprender um pouco mais sobre plantas se ia ficar usando elas desse jeito, mas isso era para depois. Agora…
Protegido atrás de metros de tábuas de carvalho, ele moveu a mão novamente, agora chamando ramas do chão que envolveram a van. Então, com mais um gesto, ele a jogou para o lado, na direção dos bandidos.
Três armas caíram no chão. Miguel usou os ramos para tirá-las do caminho, e pegou o último bandido armado com outra vinha, agora tirando a pistola de sua mão.
— Vocês estão mexendo com isso aqui há anos. Vocês tem ideia do que isso fez com a vida das pessoas? — Ele perguntou, usando mais vinhas para pegar os outros três e os erguendo a vários metros do ar. Os bandidos começaram a se contorcer, mas não teria como se soltarem. — Vou deixar vocês aí. A polícia lida com vocês de manhã — o garoto anunciou, apertando as vinhas uma última vez, e dando as costas pra ir embora.
Os quatro gritavam xingamentos, mas Miguel decidiu não se importar. Que xingassem. A essa hora no dia seguinte com sorte estariam dormindo em uma cela de polícia. Talvez abrissem o bico e entregassem alguém importante, vai saber. Miguel não era ingênuo de achar que pegar esses quatro bandidos iria acabar com o negócio todo, mas ia dar uma dor de cabeça, então já era um começo.
Ele estava pronto para ir pra casa, quando seus olhos se prenderam nas bolsas de lona jogadas no chão.
De repente, algo clicou na cabeça de Miguel. Cassian tinha dito que precisariam de três coisas: um cientista, informações, e dinheiro. Ele, Cat e Héctor estavam abrindo o caminho pra boa vontade de Essex. Marlene e Moonstar estavam trabalhando em encontrar Jason e as informações sobre a Arma X. Só faltava…
Ele caminhou até as bolsas de lona, as abrindo, temendo encontrar um corpo em vez do dinheiro que achava que estaria ali, mas não. Eram mesmo rolos e rolos de dólares, notas de cem agrupadas em conjuntinhos específicos.
Ladrão que rouba ladrão… Certo?
— E eu vou ficar com isso! — Ele anunciou, pegando as bolsas e jogando as alças por cima dos ombros.
Se podia ajudar os mutantes e tirar dinheiro de gente nojenta no processo… Miguel sorriu. Talvez pudesse repetir isso depois. Quem sabe levar alguém com ele para aumentar a eficácia. Uma coisa iria garantir: que os fundos não faltassem para a operação deles.
[...]
Era tarde… Muito tarde… Ou cedo? Cedo demais? O homem grunhiu, gemendo de dor e girando na cama enquanto sua cabeça reclamava contra o movimento. Ele estendeu a mão para a mesa de cabeceira, encontrando o celular jogado ali e apertou o botão para acender a tela.
Quatro e meia da manhã. Ele passou as mãos pelo rosto, suspirando e se sentando devagar.
Estava ali de novo, a memória, o pensamento de seu passado o atormentando enquanto dormia. Ele franziu a testa, tentando se lembrar, mas fazia tempo… Fazia tanto tempo…
Foque. Pense. Se lembre. Você tem de se lembrar. Você deve se lembrar. O passado é poderoso… Eles fizeram você. Quem fez você?
Jason piscou os olhos, balançando a cabeça, confuso. Via paredes brancas, um chão de azulejo do mesmo material. Uma televisão. Era uma cama de hospital, mas não era um hospital, era?
Ele suspirou, fechando os olhos e tentando se acalmar. Às vezes levava um tempo, mas sempre conseguia colocar os pensamentos no lugar. Sua cabeça doía, tudo parecia estar girando… Queria dormir. Não podia dormir.
Jason se levantou, voltando a focar a visão no próprio quarto de seu apartamento, e caminhando a passos tortos em direção à cozinha. Precisava de uma aspirina. Ele abriu a gaveta do móvel, irritado, virando três pílulas na mão e as engolindo com um gole da garrafa de uísque largada em cima da mesa. Talvez isso o matasse. Talvez não ligasse pra isso.
O homem seguiu até o sofá e se jogou lá, fechando os olhos e esperando o remédio fazer efeito. Aos poucos a mancha branca que engolira sua mente começou a suavizar, a dor desaparecendo a cada segundo, enquanto a luz se anuviava cada vez mais.
Eles fizeram você. Quem fez você?
Sim. Sabia. Seus pensamentos estavam em ordem agora. Droga, já fazia muito tempo. Tempo demais. Anos. Muitos anos. A vida era diferente. Tudo era diferente. Jason não era mais o garotinho, filho de seu pai, lutando contra a própria morte e torcendo para ser bom o bastante para ele, para compensar todo o trabalho pelo qual ele tinha passado para cuidar do filho… Não. Jason estava com as mãos no volante agora. “Reverendo Stryker” não era mais o nome usado por seu pai. Agora era seu. O trabalho era seu. A missão era sua.
Sua missão. A missão de seu pai. A missão de quem o tinha feito.
Quem fez você?
Ele grunhiu, balançando a cabeça, piscando os olhos e puxando o computador para perto. Sabia quem era, sabia porque estava ali. Queria estar ali. Não importava o passado, não importava mais nada, agora comandava a si mesmo, a seus desejos e seus objetivos, e agora era sua vez de livrar o universo daquela praga conhecida como gene X.
Praga. Infestação. Blasfêmia. Maldição. Tudo isso, estavam à mercê… Estavam sendo dominados, por todos os lados, por aquela tortura interminável. Não entendiam… Não conseguiam entender, conseguiam? O altruísmo necessário para oferecer a própria existência em troca de um bem maior não era algo que qualquer pessoa poderia entender. Não era o tipo de coisa que se podia esperar de heróis e rebeldes, cada um agindo à sua forma, mas todos procurando receber algum tipo de congratulação depois de um ato popular, algo apelativo para a vontade de algum grupo.
Não havia objetivo. Não havia classe. Eles não sabiam.
Jason abriu o notebook, iniciando o terminal e começando uma conexão protegida com um servidor remoto. Esperou alguns segundos e a mensagem apareceu.
Sagittarius:
Você me cansa.
Ele estava cansado? Sentado, assistindo as coisas se desenrolarem sem levantar um dedo sequer para completar o trabalho necessário? Jason sentiu algo se enrolar em sua garganta. Tudo bem, sabia que ele não tinha interesse em seus objetivos. Ambos eram apenas um meio para o fim do outro.
Holofote:
Eu preciso de mais.
Houve uma pausa consideravelmente comprida antes de Jason receber uma resposta.
Sagittarius:
Você sempre precisa de mais.
Está se comportando como um drogado viciado.
Essas coisas não caem do céu.
Ego. Jason apertou as mãos, estalando os dedos antes de digitar a resposta.
Holofote:
A S.H.I.E.L.D. se envolveu.
Precisei interromper as atividades.
O que acha que acontece com você se chegarem até mim?
A pausa dessa vez foi maior. Mas Jason sabia que não iria ficar sem resposta depois disso, então esperou, pacientemente, até ser recompensado.
Sagittarius:
Eu não tenho mais, não agora.
Você não é o único que tem problemas com a S.H.I.E.L.D.
Virá a seu encontro quando for propício.
Em troca, espero que não se esqueça de sua promessa.
Não posso usar meus brinquedos se você não os testar para mim antes.
Holofote:
Eu sou um homem da minha palavra.
Essa foi a última mensagem. A conexão foi encerrada, e Jason soube, era o melhor que ia acontecer por agora.
Ele se levantou do sofá, suspirando e massageando as têmporas. Talvez conseguisse voltar a dormir, certamente não faria mal tentar. Ele foi arrastando os pés de volta para o quarto, a cabeça voltando a divagar entre memórias de seu passado, mais e mais claras a cada passo que dava.
Você sabe quem fez você.
Jason se deitou, os olhos presos no teto de seu quarto, sem conseguir os fechar. Tinha um trabalho a fazer. Não era o trabalho de seu pai. Não era o trabalho deles. Era seu. Deus tinha dado a ele aquela missão, a ninguém mais. Precisava cumpri-la. Precisava…
Precisava de tempo.
Ele fechou os olhos. Enxergou um mundo de luz branca, mais uma vez, mas sem a dor de cabeça, conseguiu, ao menos, adormecer.
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