A luz do quarto estava apagada, mas a luz da lua entrando no aposento através da janela era forte o suficiente para permitir a Luke ver cada mínimo detalhe em sua frente. E ali estava, Nath. Alto, forte. Seria resultado da mutação? Luke não sabia dizer, mas era impressionante o quão forte Nath era quando desgostava tanto dos níveis mais básicos de musculação. Os olhos, um verde e um âmbar, com as pupilas em forma de fenda, brilhavam refletindo uma alegria genuína, acompanhada de um sorriso amplo no rosto. Luke conseguia ver as presas dele por trás do sorriso, mas para ele, isso era mais um detalhe bonito no rosto de Nath. A pele esverdeada e coberta de escamas também brilhava um pouco sob a luz da lua, de forma encantadora, única.

Nath era maravilhoso. Não percebia, mas era, e Luke não se cansava de dizer isso, nunca cansaria, pois era verdade. Ele olhou Luke por um tempo, com um ar curioso, seus olhos percorrendo o namorado de cima a baixo e enviando um arrepio pela espinha de Luke. O sorriso de Nath se anuviou um pouco ao se perceber encarado de volta, e ele levantou as mãos, sinalizando para conversar com Luke.

“O que está olhando?”

“Você”, Luke respondeu, se aproximando de Nath e segurando a mão dele por um instante. “Você é incrível. É o garoto mais lindo que eu já vi.”

“Você tem um gosto estranho.”

Talvez. Não se importava, porém. Se o resto do mundo não conseguia ver Nath como ele via, azar o deles, mas Luke bem gostaria de Nath se ver assim também. Lhe partia o coração vê-lo tão triste consigo mesmo, especialmente quando o achava tão incrível. Queria que ele visse isso também.

Se aproximou, levando as mãos ao rosto dele e fazendo um carinho suave. Nath olhou para baixo, para os olhos de Luke, suas mãos enlaçando a cintura do namorado e o puxando para perto. Luke conteve um suspiro, sentindo seu corpo tão próximo do de Nath, o calor do peito dele pressionado contra o seu, e a respiração indo de encontro à sua boca…

Nath sempre estava com os lábios um pouco ressecados, então Luke se surpreendeu com o quão macios eles eram. Depois daquele primeiro contato, tudo se tornou um turbilhão, os lábios de Nath se separando e a língua dele encontrando o caminho até sua boca, as mãos subindo pelas suas costas por baixo do tecido da camisa, e Luke puxando o tecido da camiseta de Nath com vontade, para cima, esperando que o namorado o soltasse para tirar a peça de roupa…

O beijo era intenso, meses e meses de um desejo reprimido culminando em uma explosão, uma situação muito mais descuidada do que seria sensato para eles. Luke conseguia sentir as presas de Nath roçando contra seus lábios, depois contra seu pescoço, quando suas pernas tropeçaram nas dele para tentarem um caminho torto até as camas unidas atrás dos dois. Seu coração disparou, e a cada batida ele conseguia sentir o sangue pulsando contra sua cabeça, contra sua espinha, contra sua virilha.

— Nath… — o suspiro escapou dos lábios de Luke, mesmo sabendo que o namorado não o ouviria, quando ele se deitou sobre seu corpo no colchão, agora levando os beijos para seu ombro, puxando sua camisa para cima para retirá-la também.

Estava muito quente ali, de repente, apesar da brisa da noite. O sangue pulsava mais e mais forte, a sensação em sua virilha se tornando incômoda, apertando dentro das calças, fazendo os músculos de seu corpo enrijecerem em ansiedade. Mas Nath estava fazendo seu caminho, seus lábios agora passando pelo peito dele, e depois pelo abdômen… Luke agarrou os lençóis, seu corpo queimando em expectativa, já conseguia sentir os lábios de Nath roçando o cós de seu short e então…

Luke acordou de sobressalto, suando e arrepiado. Por um leve instante, ele sentiu a brisa fria do quarto passando sobre sua pele e gelando o suor, o fazendo estremecer, e no instante seguinte se deu conta do que tinha, mais uma vez, acontecido, e de que, mais uma vez, precisava tomar um banho frio às… sete da manhã, dessa vez, julgou, ao ver que o sol já tinha nascido. Melhor do que das vezes nas quais tinha precisado fazer isso no meio da madrugada. Frustrado, Luke se levantou devagar para não acordar Damon e foi caminhando para o banheiro.

Nath não tinha falado muito desde que o namorado começara a dormir fora do quarto, mas Luke conseguia ver que ele não estava muito feliz. É claro que não estava, por que estaria, vendo o namorado sair do quarto toda noite pra ir dormir em outro lugar? Provavelmente achava que ele era o problema. A realidade, porém, não poderia estar mais longe disso. Damon tinha perguntado uma única vez porque estava dormindo ali em vez de na própria cama, mas quando Luke não quis responder, não fez mais perguntas. Ainda bem. Luke não fazia ideia de como ia explicar a Damon que não podia dormir com o namorado porque tudo o que queria fazer era dormir com o namorado.

Não sabia dizer quando tinha ficado tão difícil lidar com a situação. Primeiro tinha um ou outro sonho um pouco mais interessante, mas gostava de pensar que estava com tudo sob controle. Foi só quando passou uma hora inteira de uma madrugada debaixo de um chuveiro frio que percebeu que talvez precisasse de um pouco de espaço de Nath para conseguir dormir. Assim, foi parar na sala. A distância tinha ajudado por um tempo, mas agora a saudade estava prevalecendo e, o pior de tudo, era tudo tão real… Em seus sonhos, ele tinha beijado, abraçado, tocado Nathaniel de tantas formas que olhar para o namorado agora o fazia lembrar de tudo isso, e de tudo que não podia acontecer entre eles.

Ou ao menos, que não queriam que acontecesse. Tinham tentado, na medida do possível, mais de uma vez, mas não demorou para ficar claro para os dois que aquilo era menos que ideal. Nath não ficava confortável quando não podia beijar Luke devidamente, e Luke não ficava confortável se Nath não estava. Acabaram desistindo, e Luke pensou que isso não seria um problema. Ele não queria que fosse um problema, se sentia culpado só de pensar nisso quando os dois tinham desistido do assunto, mais culpado ainda por sonhar, de forma tão gráfica. Por que não podia simplesmente desligar essa parte do seu subconsciente?

Luke entrou em seu quarto para pegar uma muda de roupas e viu que Nath não estava mais lá. Felizmente. Não queria que o namorado o visse de pé num estado tão desnorteado e começasse a fazer perguntas. Quieto, ele pegou as roupas e deixou o quarto em direção ao banheiro, torcendo para não encontrar com Nath pelo caminho.

Não encontrou. Nath já estava na mesa do café da manhã, comendo sozinho e encarando desapontado a cadeira ao seu lado onde Luke costumava se sentar. Em algum momento, teria de admitir, para ele e para si mesmo, que tinha dado errado. Tinha sido um belo sonho, não tinha? Pensar que poderia ter aquele tipo de coisa para si. A cada novo obstáculo Nath se via obrigado a abrir mão de mais alguma coisa, e via Luke fazer o mesmo puramente por sua causa. Não parecia certo. Nada parecia. Ele abaixou a cabeça, apoiando o rosto nas mãos e contendo um suspiro e um choro agarrado na garganta. Era sua culpa. Tudo. Não só a situação atual, mas o fato de sequer ter começado. Sabia que isso ia acontecer, sabia que esse tipo de relacionamento não era possível para si mesmo, então por que raios não tinha impedido tudo antes de começar? Por que tinha se permitido sonhar que poderia dar certo dessa vez? Mesmo Luke obviamente tinha uma tolerância limite para a situação dos dois. E a tolerância tinha acabado, se todas as noites passadas no quarto de Damon indicavam alguma coisa. No mínimo, Luke não queria ficar perto dele mais, mas era provável que algo mais estivesse acontecendo.

O pensamento deixou o cereal de Nath com um gosto amargo. Ele suspirou, cansado, se levantando com a tigela pela metade e a levando para a cozinha. E então, para seu desespero, e porque nada era tão ruim que não pudesse ficar pior, encontrou Luke lá, servindo uma xícara de chá para si.

Pensou em sair antes que o namorado o visse, mas foi tarde demais para isso quando ele levantou o rosto bem em tempo de vê-lo ali, parado com a tigela em mãos. E por um breve instante pareceu a Nath que eles iriam apenas fingir que nada tinha acontecido, Luke indo para a sala de jantar com seu chá e Nath lavaria sua tigela de cereais, mas Nath percebeu naquele momento que os dois não ficavam sozinhos de fato havia muito tempo, o que era insano considerando que viviam na mesma casa e dividiam um quarto juntos. E a tensão do ambiente acabou vencendo o desejo de Nath de simplesmente seguir sem tocar no assunto, algo se revirando em seu peito e acumulando sob seus olhos na forma de lágrimas. Ele largou a tigela na pia, se colocando na frente de Luke para ele não sair, apesar do namorado não ter dado nenhum sinal de que o faria.

“Onde passou a noite?”, Nath perguntou, embora já soubesse a resposta. Não era que achasse que Luke mentiria para ele, mas… Bem. Talvez achasse, um pouco.

Luke bebeu um gole de seu chá, sentindo o estômago afundar. Era o exato tipo de situação que não queria. Não queria contar a Nath o que vinha se passando em sua cabeça, não só porque seria um tanto vergonhoso, mas principalmente pelo que sabia que isso faria com o namorado. Nath ia se culpar. Tinha certeza. Não podia evitar o assunto, mas certamente podia dar a resposta menos completa. Escapar da parte ruim.

“No quarto do Damon.”

E como Nath tinha imaginado, não mentiu. O garoto engoliu em seco, tentando sufocar o aperto na garganta, e levantou o rosto em uma tentativa débil de impedir lágrimas de se formarem. Sabia que isso ia acontecer cedo ou tarde. Luke não estava feliz com ele. Como poderia estar, com a situação como era?

“Por quê?”

Merda, Nath, Luke pensou, fechando os olhos e respirando fundo.

Então, ele ouviu Nath rir. Curto, sarcástico. Soou estranhamente cruel na voz dele, nunca tinha ouvido o namorado demonstrar nenhum sentimento ácido como aquele. Nem quando seus amigos morreram tinha o visto com raiva. Muito triste, sim. Desolado, deprimido. Apático. Mas não ácido, não assim.

“Nath…”

“Você poderia ter falado comigo. Quer dizer, eu sei que não seria uma conversa simples, eu sei que não, mas se você realmente… Você disse que me ama. Então o mínimo que eu mereço é a verdade. Mas em vez disso eu tenho que assistir tudo sabendo que não posso fazer nada a respeito e… Por que você não me deixa de uma vez? Você não sabe como dizer, é isso? Não sabe como terminar tudo? Eu posso fazer isso por nós, e então você pode ir ser feliz com Damon com seja lá que tipo de relacionamento vocês dois estão tendo e…”

Luke não conseguiu acompanhar todos os sinais, com Nath gesticulando tão depressa com uma palavra por cima da outra, mas conseguiu acompanhar o suficiente. É claro… Nath pensava que ele e Damon tinham um caso. Primeiro, Luke ficou chocado, mas não durou muito. É claro que Nath pensaria isso, levando em conta como o relacionamento deles não vinha muito bem e ele vinha passando a noite no quarto de outro cara sem dar nenhuma explicação. Mas no instante seguinte, Luke não pode deixar de sentir-se magoado, não por Nath ter assumido isso, mas por sequer ter perguntado antes de ter tanta certeza de que Luke faria uma coisa dessas. Ele não estava perguntando, ou confrontando, nem mesmo cobrando uma resposta. Estava apenas afirmando, assumindo. Doeu. Luke não sabia se devia, mas doeu.

“Eu estou tendo um caso com o Damon, é isso?”

“Eu não sou idiota, Luke. Ele é normal, e bonito, e pode beijar e fazer essas coisas todas que eu não posso ou não me sinto bem fazendo nessa situação, e você tem dormido no quarto dele a semanas. Eu sei. Eu vi.”

Sim, exatamente assim. Sem perguntas, sem benefício da dúvida. Sem nem mesmo uma esperança de não ser verdade. Apenas direto e cheio de certezas. A mágoa ainda estava ali, mas Luke sentiu uma onda de algo diferente passar pelo seu corpo. Algum tipo de conformação, imaginou.

“Você pensar isso é uma coisa. Eu entendo, na circunstância atual. Mas eu acho que eu merecia no mínimo um pouco de confiança. Você acha mesmo que eu seria o tipo de pessoa a fazer uma coisa dessas? Se você quer mesmo saber, Nath, o motivo pelo qual eu saí do quarto foi porque eu não aguento mais ficar perto de você sem poder te beijar, sem poder… Eu tenho tido sonhos! Eles só pararam quando eu saí de perto de você, e eu não te contei porque eu sabia que saber desse tipo de coisa ia te deixar mal! Então, está satisfeito agora? Era isso que queria saber?”

Os gestos de Luke ficaram mais agressivos, e quando ele terminou, Nath não respondeu, o queixo caindo devagar. Luke não quis dar a ele a chance de responder. Se sentia magoado e sua cabeça estava girando. Ele pegou a xícara de chá, acendendo uma luz do sol na mão para manter a xícara aquecida, e deixou a cozinha sem olhar para trás.

[...]

Nath não apareceu pelo resto do dia. Horas mais tarde, depois do almoço, o restante do time se reuniu na Sala do Perigo para o que foi uma tarde inteira de treinamento. Balu estava ficando cada vez melhor com os golpes que aprendia com Damon e Amália, ao menos o suficiente para se defender em primeiras situações. Luke começara a conseguir dar disparos de luz sólida, embora ainda um pouco fracos e débeis, mas já achava isso um ótimo caminho. E Grace estava ficando ainda melhor em desviar dos lasers que a sala disparava contra ela. Algumas manobras eram de fato impressionantes, e ela também se divertia muito no treinamento, o que era um ótimo catalisador para que continuasse se esforçando mais.

No fim da tarde, os cinco pararam para tomar um banho e vestir roupas limpas, mas depois acabaram se encontrando na sala, jogados no sofá e nas poltronas com acesso liberado à televisão. Era raro a sala estar vazia desse jeito, normalmente sempre haviam uns dois ou três outros alunos no local, mas aquele deveria ser o dia de sorte deles. Enquanto Grace e Damon discutiam sobre o gênero do filme que iriam assistir — ele queria alguma coisa nova de ação que tinha saído com o Keanu Reeves, e ela queria um romance bonitinho que tinha aparecido na tela inicial do streaming — Balu se retirou para a cozinha para fazer a pipoca, e isso deixou Luke encarando a tela com uma expressão cansada e Amália rolando o feed do twitter no celular. A garota vinha explorando a tag #NovosMutantes no twitter haviam dias e esbarrado em todo tipo de fanart, teoria, fanfic e fofoca imaginável, e muitas fanarts e fanfics eram pareando eles entre si, o que tinha rendido coisas como ela e Damon (Damon era muito bonito, seria mentira dela dizer que a ideia não tinha passado pela sua cabeça), ela e Grace (jesus não, seria como beijar sua irmã), Luke e Damon, Luke e Nath, Luke e Balu, Luke e Grace, Luke e ela (qual era a coisa das pessoas com Luke, era porque ele era líder do time? Ele nem era tão interessante assim), Damon e Balu, Damon e Nath, Damon e Grace (algum trocadilho legal com o nome dele e o fato de ela ser um anjo), Grace e Nath e algumas coisas envolvendo o Homem de Gelo que ela preferiu reportar para a plataforma. Basicamente, todo mundo com todo mundo, e se ela não tinha visto alguma combinação, era provável que só não tivesse procurado o suficiente. As fanarts de família eram mais bonitinhas, porém, mostrando eles como os seis filhos perdidos do Bobby. Com essas, Amália não podia deixar de rir um pouco. Com a forma como Bobby vinha pageando a investigação deles, não deixava de ser um pouco verdade.

— Ei, Luke, olha só — ela chamou, virando o celular dela pra mostrar uma bem bonitinha dele e Nath tomando sorvete juntos, mas isso só fez o garoto soltar um muxoxo, puxar a almofada de trás de suas costas e afundar o rosto nela.

Amália estava tentando, de certa forma, ignorar a cara de depressão de Luke ao seu lado, mas com certeza o fato de Nath não ter aparecido o dia todo não era uma coincidência, principalmente com uma reação dessas ao desenho que ela tinha mostrado. Ela se perguntou se deveria perguntar algo, e no fim das contas, sua inquietude venceu.

— O que cacetes tem acontecido com vocês dois?

Luke suspirou, se recostando para trás do sofá. Um cheiro de pipoca começou a subir da cozinha e ao lado Damon e Grace ainda discutiam com o controle da tevê largado sobre a mesinha de centro.

— É uma longa história. Nath não pode beijar, basicamente. Achei que não seria problema, mas acho que isso finalmente está estressando nosso namoro.

Essa era uma explicação muito simplista da situação, mas era tudo o qual Luke sentia vontade de dividir com alguém agora. Ele abraçou a almofada, olhando para a cozinha e ouvindo os estouros do milho de pipoca vindo do local. Preferia não falar sobre isso agora se fosse possível, acabaria esbarrando com Nath de noite e ainda não sabia como agir quando isso acontecesse. Estava tentando não pensar no assunto.

— Bem, parece um problema — ela comentou, ainda rolando o telefone distraída, e atualizando o feed. — Longe de mim dar palpite, mas eu quando me envolvo com alguém gosto de manter as coisas o mais físicas possí… PUTA MERDA.

O grito de Amália finalmente distraiu Damon e Grace de sua discussão. Ela encarava o telefone, chocada, e Balu veio correndo da cozinha com o balde de pipoca em mãos. Até Luke largou a almofada, enrijecendo a coluna em posição de alerta.

— O que foi? — Grace perguntou, flutuando até a amiga e esticando o pescoço sobre o ombro dela pra ver a tela. — O que aconteceu?

— #PulsoAssassino — Amália comentou, virando a tela do celular para Damon. — Olha só, eu vou perguntar, tá legal, porque a fofoca rola. Não é de hoje que rola, e você deve saber, e eu honestamente tinha pensado “sem chance, olha só o tamanho dele”, e todo o resto, mas isso aqui é um problema. Então, Damon, afinal de contas, foi ou não foi você quem atirou no Simon?

Quatro pares de cabeça se viraram para Damon na mesma hora. O garoto abriu a boca, pensando no que dizer, correndo os olhos pelo time e vendo que a coleira de Balu estava ligada, então talvez conseguisse mentir.

Mas… Amália tinha razão. Era sério. Não queria perder o lugar no time, estava gostando da atenção até cinco segundos atrás, mas esse não era o tipo de coisa sobre a qual pudesse mentir para os quatro sem qualquer tipo de problema a longo prazo. Ele rolou os olhos, decidindo que ser sincero era a melhor opção.

— Oficialmente, não. Ele não prestou queixa porque tem o rabo preso com o Bobby, ou algo parecido. E não existem provas, também.

Um “sim” teria sido menos esclarecedor. Damon viu Grace flutuar levemente para longe dele, Amália o encarar com o queixo caído, e Luke e Balu, que o conheciam a mais tempo, apenas o encarando com a expressão vazia e sem emoções. Amália abaixou o olhar pra tela do celular, devagar, e depois o levantou de volta para Damon, ainda com um ar incrédulo no rosto.

Como?

Damon usualmente não queria render o assunto. Ele bufou, pegando o controle da televisão, pronto pra escolher o filme sozinho, quando sentiu a mão de Amália se fechar contra a dele, com força.

— Na-hã. Responde minha pergunta se não quiser que eu varra o chão da sala com a sua bunda.

E Damon não tinha dúvidas, ela poderia fazer isso e não ia nem precisar de seus poderes. Ele grunhiu, largando o controle, e dando a resposta com um tom de voz irritadiço e desconfortável.

— Rifle sniper, algumas quadras de distância… Entre o Homem de Gelo indestrutível e a Lince Negra invulnerável, sobrou pra ele. Então eu só precisei ir na assinatura térmica mais alta. Mais alguma coisa?

— Com um tiro à sua disposição, você acertou exatamente a cabeça de um X-Men a quadras de distância? — Luke perguntou, piscando os olhos. — Impressionante. Não sei se estou impressionado ou aterrorizado.

— Aterrorizado! — Grace cortou. — Estamos aterrorizados!

— Ah, fala sério gente — Damon cortou. — Vocês sabem que eu era parte dos Purificadores, achavam que eu estava fazendo o que lá, distribuindo biscoitos de escoteiras?

Ainda silêncio. Balu largou a pipoca na mesa de centro, Grace continuava flutuando para trás. Luke o encarava com uma expressão indecifrável e apenas Amália não parecia querer afogá-lo no vaso sanitário mais próximo. Então, Balu se aproximou, sentou-se na mesa de centro de frente para Damon, e desligou sua coleira.

— Por que você fez isso?

— Porque eu tinha uma arma e permissão pra dar o tiro — ele respondeu, sabendo que não daria para mentir nem se quisesse. Mas, ainda assim, não queria. A verdade era essa mesmo, não tinha o que fazer, eles podiam lidar com isso ou chutá-lo da equipe. E então teria que virar um vigilante solo, o que seria bem chato e trabalhoso, mas faria sem pensar duas vezes.

— Não te importou que fosse matar alguém com isso? — Grace perguntou, agora já do outro lado do sofá, atrás de Luke.

— Não. Não era alguém, pra mim, era um mutante. Uma pessoa não vai parar num grupo desses sem ter algumas ideias extremas sobre a vida, Grace. Mas isso não sou eu mais. Então se vocês quiserem me por pra fora da equipe, tanto faz também.

— Ah, nós não te queremos fora da equipe — Amália comentou, um sorriso suspeito se abrindo no rosto dela.

— Não? — Grace questionou.

— Não. Quer dizer, a situação de relações públicas está meio caótica agora, mas…

— É só ignorar, acreditem — Damon respondeu, esticando a mão pra pegar uma pipoca. Balu estapeou a mão dele para o impedir no meio do processo. — Auch. Amália, não podemos ensinar ele a bater mais.

— Espera, só eu estou chocada com o que acabamos de descobrir aqui? — Grace questionou, agora começando a subir em direção ao teto.

— Se Bobby e Simon, em especial, acham que ele pode estar no time, não vou ser eu que vou ir contra o julgamento deles — Luke comentou, se recostando no sofá de novo. — Na verdade acho até melhor pedirmos uma sniper pra você, estamos desperdiçando um talento.

— Mas eu…

— Você está preocupada com o fato de que eu atirei no Simon ou com o fato de que eu atirei, apenas? — Damon indagou, apoiando os cotovelos nas pernas para se inclinar para a frente.

— O que quer dizer?

— Quero dizer, se você tem um problema com o fato de eu ter feito parte de um grupo de extermínio, não pode ser isso te incomodando agora, porque todo mundo já sabia disso. E até onde eu sei, foi você quem incentivou Amália a fazer as pazes comigo, então isso não te incomoda. Então te incomoda que eu tentei matar alguém, não é?

Grace não respondeu, mas começou a flutuar devagar para o chão. Era confirmação suficiente para Damon, e ele pegou o controle da televisão de volta, selecionando o romance que Grace queria assistir.

— Somos uma equipe de super-herois tentando fazer a coisa certa, mas às vezes o outro lado vai estar tentando matar a gente, Grace. Nem sempre vai dar pra devolver de forma pacífica.

A garota não disse mais nada. Balu ligou a coleira de novo, começando a distribuir as tigelas de pipoca entre os colegas e Luke iniciou o filme. Grace escolheu se sentar na poltrona mais distante da sala, e Damon tentou não se ofender por isso. Não era como se fosse ser fácil, e já sabia disso. O que estava acontecendo agora eram apenas as consequências de suas próprias atitudes, algo que o iria perseguir de um jeito ou de outro pelo resto de sua vida. Esse era apenas o começo.

[...]

Já era noite quando o filme acabou, e Damon acabou se oferecendo para lavar a louça. Sabia que ia precisar fazer algumas coisas do tipo pelos próximos dias para subir sua moral com o time, principalmente com Grace, e embora não soubesse ainda o quanto da tensão de mais cedo poderia ser remediada, já estava satisfeito só de todos terem concordado de não mencionar a informação com mais ninguém. Certamente tinha de ser algo promissor.

Ele estava terminando a última tigela quando Amália entrou na cozinha, com o jeans, a blusa do Metallica e a jaqueta de couro que vinha usando agora que o clima estava ficando mais frio. Apesar disso, estava descalça. Damon ergueu uma sobrancelha, curioso, colocando a última tigela no escorredor e enxugando as mãos. Tinha lavado tudo e não quebrara uma tigela sequer, e parecia tudo bem limpo. Com certeza isso era uma evolução.

— Esqueci algum talher? — Ele perguntou, largando o pano de prato na pia e se virando para Amália. Ela se aproximou dele, se escorando na pia e dando de ombros.

— Não. Você sabe que vai precisar de mais que isso pra acalmar os ânimos, né?

— Ruim assim? Como está todo mundo?

— Grace está bem alarmada. Ela foi deitar. Não sei dizer o que Balu pensa sobre isso, mas acho que ele também não sabe, sempre está com os sentimentos bagunçados. Acho que Luke escolheu ver tudo de um ponto de vista prático, ele pensa bastante como um líder, às vezes acho que esquece de pensar que nem gente também.

Damon riu, baixinho. Sim, parecia mesmo com o garoto.

— E você?

— Acho que eu concordo com Luke — ela comentou, olhando para baixo, alguns fios de cabelo vermelho escorrendo sobre seu ombro. — É impressionante e podíamos sim estar usando isso. Principalmente porque já tem eu pra ganhar das pessoas no um contra um, então…

— Ah, é assim? — Ele perguntou, abrindo um sorriso largo. — Ainda vou descobrir como ganhar de vocês.

— Vocês — ela respondeu, um sorriso curto se abrindo em seus lábios. — Eu e sua amiga? Ela é amiga do tal Theo também?

O sorriso no rosto de Damon sumiu, e ele se afastou da pia, dando alguns passos em direção à bancada atrás deles. Amália moveu a boca, dizendo um palavrão mudo.

— Desculpe — comentou. — Céus, você tem uma bagagem e tanto, hein?

— Tenho. Deve ser por isso que eles mal falam comigo mais. Se bem que eu mesmo…

Ele mesmo não vinha procurando Theo. Era uma coisa de duas vias, não era? Não podia culpar Theo pela situação dos dois quando ele mesmo não investia nisso, mas era no mínimo frustrante tentar tanto entrar em contato com Niko e ela quase nunca poder dedicar tempo para ele. Tinha dito a si mesmo que iria seguir em frente, e estava fazendo isso, mas isso não queria dizer que não doía.

Amália podia não conhecer Damon a muito tempo, mas não era nada comum vê-lo amuado daquele jeito. Ele era sempre sarcástico, tirado e metido. Uma reação dessas era com certeza de tristeza genuína, e não ficava bem no rosto dele. Ela não gostou de ver isso lá.

— Ei — Amália chamou, segurando a mão de Damon e o puxando para perto, chamando sua atenção para que olhasse para ela. — É perda deles.

— Não, não acho que seja. Eu caguei muito minha relação com os dois. A culpa foi minha. Eles ainda têm um ao outro. No fim das contas, quem perdeu e ficou sozinho fui eu.

— Olha só, eu não sei o que aconteceu, e nem faço questão de saber. Mas eu conheço uma pessoa arrependida quando vejo uma. E, ao menos nos meus padrões de ética, todo mundo merece uma segunda chance.

— Até quem dá tiro na cabeça de X-Men?

Amália riu, dando de ombros. Não sabia exatamente o que tinha de tão interessante em ver Damon admitir uma coisa dessas, ela devia estar no mínimo preocupada, mas se as intenções dele no time não fossem verdadeiras, Balu já teria denunciado isso faziam tempos. E muita gente considerada herói por aí já tinha feito coisa pior. Não tinha a Feiticeira Escarlate quase exterminado a raça inteira uma vez? O que era um tirinho perto disso? Nada.

— Damon, eu acho bizarramente atraente que você tenha conseguido fazer isso.

Atraente?

De repente, algo clicou na cabeça de Damon. Estava a tanto tempo cozinhando seu relacionamento conturbado com Theo, que sequer tinha parado para pensar em sua vida amorosa de forma geral. Sequer tinha parado para entender a si mesmo nesse aspecto e, olhando para Amália, sim, ela era bastante atraente. Como não tinha percebido isso? Em tempos anteriores já teria dado em cima da garota umas cinco vezes. Mas não, estava muito preso no passado para isso.

Precisava se descobrir. Como iria resolver sua situação com outra pessoa se ainda não tinha nem mesmo conseguido resolver sua situação consigo mesmo? Talvez essa fosse a chance.

— Eu devo te alertar — ele comentou, se aproximando devagar, os olhos viajando do rosto de Amália para o curto decote da camiseta dela. — Existe uma chance de que eu seja gay, e que tenha sentimentos por alguém. Eu não sei. Não faço ideia de como saber.

Pensou que isso fosse fazer Amália desistir, desejar boa sorte e dar as costas, mas não. Ela arregalou os olhos, levemente surpresa por um instante, afinal, Damon não fazia o tipo, de forma nenhuma. Mas ela se lembrou da reação dele quando estavam entrando no escritório de Bobby e ela perguntou quem era Theo. Ele tinha de fato ficado sem graça, então, não era impressão sua. Mas Damon não parecia se importar com isso agora, e não era como se ela estivesse caindo de amores ou algo parecido, então também não se importava. Talvez pudesse fazer um favor a ele e arrumar um agrado pra si mesma ao mesmo tempo. Só via vantagens. Ela abriu um sorriso de canto, sua mão subindo para a nuca de Damon e se prendendo nos cabelos dele.

— Eu consigo pensar em uma ideia para descobrir.

Amália ainda viu um sorriso de canto nos lábios de Damon antes de o beijar. A mão dela puxou os fios do cabelo dele, Amália não era de delicadezas demais, e claramente Damon também não, que logo enlaçou a cintura dela, a puxando para perto e separando os lábios para sua língua encontrar a dela. A boca dela tinha gosto de menta, a garota provavelmente tinha escovado os dentes depois da pipoca. Ele enfiou a mão por baixo da camisa dela, subindo em direção ao sutiã de Amália, e ela o puxou para trás, se sentando na pia, o puxando para perto enlaçando as pernas nos quadris dele.

— Eu acho — Amália disse, quebrando o contato e sentindo a boca de Damon traçar seu caminho pelo pescoço dela. — Que você não é gay.

— Hm… Ainda não tenho certeza. Acho que preciso testar mais um pouco

Ele se aproximou para beijá-la de novo, sua boca encontrando a dela, suas mãos traçando caminhos pelas costas da garota. Ela suspirou, separando sua boca da dele e recebendo alguns beijos no pescoço em seguida, até que de repente Amália pousou as mãos no peito do garoto o afastando.

— Oh, porra, Damon. Ainda estamos na cozinha.

Porra.

O garoto se afastou dela de uma vez, e Amália ajeitou suas roupas às pressas. Seu corpo estava quente, o coração palpitando rápido, e ela via pela cor no rosto dele que ele também estava.

— Que tal seu quarto? — Damon perguntou.

— Grace está lá! Devia ser o seu, você não divide com ninguém.

— O Luke… Ah, foda-se, eu coloco um não perturbe na porta — ele respondeu, estendendo a mão para ela.

Amália pegou a mão de Damon, o seguindo a passos um tanto apressados para fora da cozinha.

— Eu sou muito nova pra ser mãe, inclusive.

— Não se preocupe, eu tenho certeza que na gaveta de algum X-Men deve ter alguma coisa. Só me dê alguns minutos.

Os dois subiram até o quarto de Damon e ela entrou, o esperando lá dentro. Enquanto o garoto estava fora, rabiscou um “não perturbe” em uma folha de caderno, pregando com fita bem em cima da maçaneta do quarto. E, como Damon tinha prometido, ele não demorou a voltar.

— Bela placa — ele comentou, arrancando a blusa e a jogando no chão.

— Bem, você tem razão. Isso pode demorar um pouco, você tem uma dúvida muito séria para tirar. Não queremos que seja tirada pela metade.

— É. Certamente não queremos — Damon respondeu.

Luke que dormisse em outro lugar. Hoje, ele estaria bastante ocupado, e por um bom tempo.