Irmandade de Mutantes: Supremacia Marvel 717 3
20 Ingratidão
Reese acordou na manhã seguinte com uma pontada de dor aguda na cabeça, uma sensação que subia, a atacava entre os olhos, e depois caía novamente. Sozinha no quarto do porão do restaurante, ela aproveitou o escuro e ficou na cama por horas, virando de um lado para o outro e torcendo para a dor passar. Eventualmente, foi vencida pelo cansaço e pegou o telefone, abaixando toda a luz da tela e mandando uma mensagem para Cassian.
Tormenta:
Minha cabeça tá me matando.
Anúbis:
Entendi. Espera aí, chego daqui a pouco.
Agradecendo ao universo por Cassian ser desocupado o bastante no dia de domingo pra responder na hora, ela respirou fundo, piscando os olhos e tomando coragem para se levantar. O dia anterior não tinha ido como esperavam, e Reese não fazia ideia do quão certo tinha dado. Cassian tinha a ajudado a chegar, praticamente a carregando pelo caminho, e não tinham nem mesmo tido tempo para conversar. E os outros, como estariam? Onde estariam?
A garota caminhou até o banheiro, esfregando os olhos. Precisava colocar a cabeça no lugar. Não sabia quais seriam seus próximos passos e sua assistência poderia ser necessária. Isso, é claro, se não tivesse tudo ido por água abaixo.
— Bote a cabeça no lugar, Reese — ela murmurou, respirando fundo e jogando água no rosto.
O reflexo dela no espelho parecia quase cadavérico. Pálida, com os olhos fundos e grandes olheiras, estava óbvio que tinha passado dos limites no dia anterior. O que não entendia era por que. Tinham três minutos, isso tinha sido combinado e coordenado. Por que então tinha precisado segurar a delegacia inteira por mais tempo que isso? Não tinha conseguido, e o resultado fora desastroso.
Mas não era culpa sua. Não era culpa sua. Tinha sido categórica: três minutos. Não sabia o que tinha gerado o atraso, mas não era sua responsabilidade. Precisava respirar fundo, esperar Cassian chegar e entender o que tinha acontecido. Ela enxugou o rosto, ajeitou o cabelo do melhor jeito que pode, se sentou na sala e esperou.
O garoto realmente não demorou. Em cerca de dez minutos, Cassian estava passando pela porta com uma sacolinha de farmácia na mão. Ele jogou o item para Reese, dispensando o bom dia, e a garota correu para a cozinha pra tomar seu analgésico.
— Tem certeza que é só dor de cabeça? — Ele perguntou, se sentando no sofá onde Reese estivera instantes atrás.
— Tenho. Acho que acabei me esforçando demais ontem… Inclusive, você sabe o que deu errado?
Cassian soltou uma risadinha de escárnio quase imperceptível, mas Reese não duvidou de seus ouvidos, pois conseguia sentir a insatisfação de Cassian a metros de distância dele, o que só indicava o quão palpável ela era. A garota tomou seu comprimido, e voltou para a sala, agora mais curiosa que qualquer outra coisa.
— Eles ficaram animados demais e saíram gastando tempo que não tinham no servidor da polícia — Cassian respondeu, enfiando a mão no bolso e tirando o pendrive com as informações de lá. — Eu dei uma olhada nas coisas hoje de manhã antes de vir pra cá e é ainda pior que eu tinha pensado. Eles pegaram três fichas além da uma que tinha sido discutida. Por isso demorou tanto.
Reese encarou o pendrive, um pouco atordoada, seu queixo caindo enquanto sua cabeça ainda dolorida desenhava as conclusões. Depois de informar seu time repetidas vezes sobre seus limites, eles tinham jogado tudo pro espaço e entrado na sala do delegado com toda a vontade de pegar o que bem entendessem, independente das consequências para ela do lado de fora. E tinham feito isso três vezes.
— Você… Eles…
— Eu sei. Acredite, você não está mais puta do que eu estive.
Ela duvidava. Poucas vezes na vida tinha sentido tão descartada, e nenhuma delas tinha vindo de pessoas em quem pensava poder confiar. Algo se embrulhou no estômago da garota, e toda sua preocupação anterior, toda a vontade de saber se eles estavam bem e o que teria acontecido, foi pelo ralo. Tinha se arriscado muito no dia anterior, colocado seu pescoço à prova e sua saúde em cheque, pra ser retribuída com esse nível de consideração? Que tipo de piada de mau gosto era essa?
— Eles estão bem, estão escondidos nos esgotos. Marlene parece que vai se recuperar do tiro. Agora, eu estive pensando no que fazer com as informações daqui.
Se Cassian esperava uma resposta ou ideia de Reese, ficou sem receber, pois a garota ainda estava parada no meio da sala, encarando o mesmo ponto na mesa e sentindo a cabeça girar. Isso pareceu fazer o mutante perceber que algo estava errado.
— Reese? Tudo bem? Você pode ir pro hospital se precisar, não está na situação deles, então…
— Eles… Eles ignoraram meu aviso dos três minutos? Sabendo o que isso ia fazer comigo, eles ignoraram?
— Hm. Não diria que ignoraram, mas no mínimo se permitiram esquecer.
A garota se sentou na cadeira, sentindo os olhos lacrimejando e a bile subindo pelo estômago. Não era por baboseira emotiva, não estava ali pra fazer amizades e não se importava se não fizesse. Mas a situação poderia ter lhe feito muito mal, talvez nem conseguisse sair de lá andando. Cassian tinha praticamente a carregado até em casa. Isso… isso era demais.
— Reese, você está bem?
— Não.
Cassian suspirou. A garota ainda olhava meio enojada para o pendrive, e o líder pegou o objeto, o enfiando no bolso.
— Descanse. O restante do time não pode sair dos esgotos e eu não quero você se esforçando tão cedo. Vou ver a Cat no hospital, acho que ela vai sair hoje, e trabalho nos próximos passos com ela.
Reese não respondeu. Ela ainda estava com o rosto meio verde, e com a cabeça girando violentamente entre pontos de vista da situação.
— Eu te digo quando souber de algo — Cassian anunciou, se levantando devagar, caminhando receoso ao redor da garota, quase como se temesse uma explosão.
Então ele deixou o porão, torcendo para o que quer que Reese estivesse sentindo agora passasse com o tempo, mas no lugar dela, não sabia se ia conseguir. Ele mesmo estava fervendo de raiva.
[...]
— Não, por favor — Cat comentou, caminhando até a porta do quarto e parando na frente do Dr. Essex. — Só mais uma vez. Tem que ter alguma coisa…
O médico suspirou. Parecia cansado, e Cat não o culpava. Ela estava abusando consideravelmente da boa vontade dele, forçando os limites um pouco mais a cada vez que pedia, por favor, para que a deixasse ficar mais um pouco…
— Cather — o homem comentou, pousando as mãos nos ombros da garota em um carinho quase paternal. — Eu sinto muito. De verdade. Mas não tem mais nada que eu possa fazer, nós já tentamos tudo… Eu realmente acredito que é algo que vá progredir com o tempo, mas você vai precisar ter paciência. Eu não tenho mais motivo pra te manter aqui, preciso te dar a alta, ok? Se você sentir alguma coisa pode voltar, mas eu cheguei no limite das minhas capacidades. Eu realmente sinto muito. Chame alguém pra te buscar, ok?
Ela já tinha chamado, sabendo que seu último apelo poderia ser muito infrutífero, mas ainda assim, tinha esperanças. A garota suspirou, se despedindo de Essex com um abraço breve de agradecimento, e com um último sorriso com uma nota de pena, ele deixou o quarto.
Frustrada, Cat voltou à sua cama, começando a juntar suas coisas na mochila que tinha ali. Depois de acordar no hospital e perceber para sua surpresa que estava viva e ia se recuperar, não pensou que teria de se preocupar com alguma outra coisa além de uma boa saúde, mas tinha subestimado o que o terrígeno poderia fazer com seu corpo. E, até agora, não tinha contado para ninguém e não sabia como ia o fazer. Como ia contar para Cassian.
O considerava um bom amigo. Se importava com ele, e sabia que ele se importava com ela também. Vinha a visitar com frequência, e Cat se lembrava de como ele tinha acelerado a carregando na moto para salvá-la depois do ocorrido. Mas tudo isso vinha acontecendo depois de se juntar ao time dele, e quando não fosse mais útil para o time, o que iria acontecer? Cassian ainda iria se importar desse jeito com ela? Ao menos ainda tinha o restaurante, ele precisava do local para a equipe, não é?
Nervosa, ela fechou a mochila e se sentou na cama, esperando. Ele ia perguntar, sabia que ia, sempre o fazia, e ela tinha de ser sincera. Seria muita irresponsabilidade sua arriscar as estratégias do time fingindo poder fazer coisas que não podia. Não era uma conversa para a qual estivesse minimamente ansiosa, mas ainda assim…
Cather esperou pela manhã, assistindo um programa do Animal Planet na televisão e apertando as mãos no colo, ansiosa. As horas se arrastavam e ela olhava o relógio, ansiosa. Cassian tinha dito que antes do meio-dia estaria lá. Então estaria, não é?
Eram onze e meia quando a porta do quarto se abriu, e ali estava ele. Jeans, uma blusa com uma estampa de meme, jaqueta de couro e os óculos escuros pendurados na gola. Ele chegou com os olhos inteiramente pretos, e Cat se perguntou se era impressão sua ou se era sua super visão de gato agindo, mas podia jurar que algumas veias pretas bem pequenas estavam começando a se espalhar para fora dos olhos dele.
Aos pés dele, Cassandra se inclinou para o lado e acenou, animada. Cather respondeu com um sorriso e um aceno simples em retorno.
— Não me atrasei. Considero um recorde — ele comentou. — Está tudo pronto? Podemos ir? Tenho umas coisas pra te mostrar.
Cat abaixou os olhos para o próprio colo. Ele certamente queria mostrar coisas da Irmandade pra ela. Não queria ter essa conversa tão cedo, mas pelo visto, não teria muita escolha.
— Cat? — Cassian chamou, entrando devagar no quarto e fechando a porta atrás de si. — O que aconteceu? Está sentindo alguma coisa?
Não. Não era sobre o que sentia, e sim sobre o que não vinha conseguindo sentir. Ela mordeu o lábio inferior, tentando conter uma onda de choro de subir por seu corpo. Cassian se perguntou que santo tinha ofendido pra ter de lidar com duas garotas à beira de um ataque de choro no mesmo dia, mas Reese tinha tido boas razões. Cat também deveria ter.
— O que está acontecendo? — Ele perguntou, se sentando na cama ao lado dela, devagar. — É o Essex? Você ainda não está bem e ele não quer mais ajudar?
— N-não… Ele fez tudo que pode.
A resposta dela era um indicativo muito forte de, realmente, algo não estar bem. Receoso, Cassian estendeu sua mão, tocando as dela em um aperto encorajador. Ela ainda não olhava para ele, e sua voz saiu baixa em meio a uma balbuciada contida, mas ela respondeu.
— Minha mutação… Eu… Não consigo segurar.
Cassian precisou de um instante para entender o que ela queria dizer, mas quando conseguiu, a irritação de mais cedo voltou, agora subindo em uma onda de fúria. Ele apertou mais as mãos de Cat, talvez mais do que devesse, e a outra em seu colo se fechou em um punho firme. Cassandra, na parede oposta, começou a crescer muito de tamanho, se mostrando nervosa e irritada com a postura dos braços armados ao redor do corpo.
— O gato? Você não consegue segurar o gato?
— Eu ainda posso ajudar! — Ela se apressou a dizer, enxugando os olhos às pressas, soltando suas mãos da de Cassian no processo. — O porão ainda está disponível, e eu ainda tenho a visão noturna e a leveza da forma humana. E Essex acha que com o tempo o gato vai voltar, então… Então está tudo bem. Eu ainda posso ajudar.
Cassian sentiu a mente girar. Reese caída no chão no dia anterior, Cat com a mutação afetada, três integrantes fugindo da polícia… Quando tudo tinha desandado dessa forma? Estava contando com Cat para poderem seguir com o plano que tinha traçado, mas apesar do que ela estava dizendo, poderia mesmo ajudar? Não seria perigoso demais…
— Não sei. Acho que isso deu errado. Talvez seja hora de jogar a toalha — ele comentou, suspirando e se jogando para trás no colchão, encarando o teto do quarto.
Tinham chegado perto… Tão perto… Com a ficha de William, conseguira localizar o antigo endereço do homem, e isso seria o suficiente para conseguirem mais pistas, tinha certeza. Mas Cassian não tinha esperanças de invadir o local sozinho, e não podia forçar Cat a isso naquelas circunstâncias. Com os outros quatro fora da jogada, seria esse o fim da linha para eles?
— Jogar a toalha? Não conseguiram ontem? Eu vi uma reportagem, mas eu não sabia dizer…
Cassian enfiou a mão no bolso, tirando o pendrive e entregando para a amiga.
— O que a gente queria está aí, mas eu não acho que tenha como juntar um time pra ir olhar. As coisas não saíram muito como esperado ontem. Reese está muito mal, precisa descansar bastante por um bom tempo. O resto do time agora é procurado e teve de se refugiar nos esgotos da cidade. Por agora, só sobramos nós dois…
— Eu vou com você — a garota comentou, se deitando também na cama, ao lado de Cassian, e virando o rosto para encará-lo.
Ele virou o rosto, olhando a garota. Ela parecia bem. O rosto corado, a cor da pele de volta ao leve cinza comum, respirando normalmente… Mas sem a mutação dela… Não ousaria. Não podia colocá-la em perigo mais uma vez, quem sabia o que mais uma bomba de terrígeno faria com ela?
— É muito perigoso. Estamos falando da casa de William Stryker, já vai ser ruim o suficiente comigo lá pra deixar tudo escuro, se eu te levar junto…
— Então o que, eu vou ser uma inconveniência? Eu ainda tenho parte dos meus poderes, Cassian. Eu me ofereci pra entrar nesse time e estou comprometida com nosso objetivo. Essas pessoas mataram meu irmão. Eu não me esqueci disso. Eu ainda quero provar que foi de propósito.
Cassian resmungou, sua cabeça trabalhando rápido, dividindo ao meio suas vontades. A ajuda de Cat seria muito bem-vinda, mas valeria a pena o risco que ela iria correr? Se alguma coisa acontecesse, seria sua culpa, não é?
Mas não tinha bastado a igreja para provar que ninguém poderia impedi-la de fazer o que quisesse? Cather era dona de sua vida, se ela quisesse correr esse risco, era parte do time tanto quanto qualquer outro e era um direito dela decidir se estava pronta para ação ou não.
— Você tem certeza? — Ele perguntou. — Por que eu não tenho muitas escolhas. Eu só tenho você.
— Eu devo isso a Tuan, Cass. E… eu quero te ajudar. Eu quero que isso dê certo. Eu sei que eu consigo, depois do susto na igreja eu não ia me meter de novo em algo que é mais do que eu daria conta.
E aquela justificativa teria de bastar. Cassian abriu um sorriso pequeno, e se levantou, estendendo a mão para Cat e a ajudando a se colocar de pé.
— É melhor irmos embora, então. Temos muita coisa pra planejar.
Cat pegou a mão de Cassian, se levantando e jogando a mochila nas costas. Não sabia se essa situação com apenas os dois disponíveis para seguir o plano seria temporária, ou se o resto do time iria se unir em breve mas, pelo tempo que fosse necessário, ia participar de tudo que pudesse. Estava cansada de ficar sentada em um hospital sem fazer nada, de qualquer forma. Precisava esticar as pernas, e se acabasse arranhando a cara de um humano no caminho… uma pena, mas era parte do ofício.
— O que mais aconteceu enquanto eu estava fora? — Cat perguntou, quando os dois caminhavam para a rua.
— Ha, deixa eu ver… Minha mãe descobriu, está puta comigo mas não pode fazer nada pra me impedir. Eu me sinto meio mal de usar isso a meu favor mas, bem… Só meio, então dá pra ignorar. E minha namorada mal fala comigo agora então to começando a me questionar se ainda tenho uma.
Cat riu. Sentira falta de Cassian, das ruas, do ar fresco, da vida do lado de fora. Era bom estar de volta.
[...]
Reese passou toda a manhã e um bom pedaço da tarde andando de um lado para o outro no porão, seus pensamentos comendo sua mente e seu estômago se revirando em ansiedade e repulsa. A dor de cabeça ao menos passou, graças aos comprimidos, mas isso não tinha acalmado seu coração.
Já era o meio da tarde quando ela decidiu pegar o telefone. Não podia ficar ali de pé no meio do quarto do porão sendo comida por pensamentos paranoicos. Odiava a sensação de ser dominada por suas emoções, e por vezes achava que era por isso que tinha ganhado seus poderes. Ela respirou fundo, acalmando seus sentimentos devagar, e mandou uma mensagem.
Não esperava ser respondida tão rápido, mas de mensagem em mensagem ela conseguiu o que queria: uma desculpa para sair do porão. A garota se trocou, vestindo algo mais apresentável que os moletons velhos nos quais tinha dormido, e saiu do restaurante.
O carro que a levou dessa vez o fez de muita má vontade, e ela percebeu os olhares atravessados que recebia do retrovisor. Tentou não se importar, esse tipo de coisa acontecia todo dia e não adiantava ficar emburrada por causa disso. Precisava mudar o mundo. Era o que estavam fazendo. Era o que ele estava fazendo. Héctor.
Pensou que era um pouco maluca de decidir ir visitar o garoto depois de tê-lo manipulado tanto em seu último encontro, mas no fim das coisas, poderia ser uma boa ideia. Não o queria descobrindo qual tinha sido sua intenção, e sumir depois de uma conversa daquelas seria no mínimo esquisito.
Mas no fim das contas, não era só isso. Seria mentira sua dizer que não tinha ficado com a imagem da igreja de Lantom pregada em sua cabeça, e a sensação de acolhimento que sentira lá não era algo que tivesse experimentado desde os Morlocks. E certamente não era algo que jamais tivesse acontecido em um local verdadeiramente seguro e confortável. Tinha esperado encontrar Héctor na igreja de novo, era domingo, deveria estar movimentada, mas no fim das contas ele deu outro endereço para ela, o de um parque na cidade, e era para onde estava indo agora.
O carro a deixou na frente do parque, onde estava ajeitada uma quantidade enorme de tendas, havia música e muitos mutantes caminhando de um lado a outro. Reese pagou o taxista às pressas e desceu do carro, maravilhada com a cena em sua frente. Era como um festival, apesar de pequeno. O cheiro das comidas das tendas subiu e ela sentiu o estômago roncar, percebendo que não tinha comido nada o dia todo. Ela se perguntou que tipo de festival seria esse, até começar a prestar atenção nas barracas e encontrar Héctor em uma delas, servindo cachorros quentes ao lado do padre Lantom e de mais algumas pessoas.
A garota correu até lá, contando os dólares que ainda tinha consigo e quantos poderia gastar deixando sobrar o suficiente para voltar pra casa. Ela acenou para Héctor, o cheiro das salsichas grelhadas a atentando ainda mais, e a garota alcançou a tenda, pousando os braços no balcão e esticando os olhos pros cachorros-quentes.
— Cheguei — ela anunciou, apertando as notas na mão. — E faminta. Nem sabia que tinha cachorro-quente, mas olha, o cheiro tá ótimo. Quanto é?
Héctor abriu um sorriso pequeno, montando um cachorro-quente com salsicha e mostarda e entregando para a garota.
— Pra você é por conta da casa — ele respondeu, entregando o lanche para ela.
Reese sentiu um calor subir às bochechas que tinha certeza, nada tinha a ver com o sol do fim de tarde. Ela guardou o dinheiro, pegando o lanche e dando uma boa mordida, seu estômago agradecendo.
— Ah, você é a amiga que o Héctor estava esperando? — Lantom perguntou, servindo um cachorro-quente para um garoto meio roxo que estava acompanhado de um casal que parecia ser os pais dele. — Vá dar uma volta com ela, Héctor, vai ficar tudo bem aqui.
— Ah, mas Lantom…
— Vá logo, menino, eu disse que nem precisava vir hoje. Vá, ande!
O encorajamento sorridente do padre pareceu surtir efeito. Héctor agradeceu com um sorriso e tirou o avental que usava, o deixando na bancada e dando a volta na tenda. E então, ali ele estava, com uma blusa de botões, calça cáqui e tênis um pouco surrados.
Combinava com ele. Certinho como Héctor era.
— Então… — Reese comentou, quando começaram a andar pelo local. — O que é isso, exatamente?
— É a II Feira de Igualdade do Gene-X. O padre Lantom e algumas outras pessoas se juntaram pra começar depois do que estava acontecendo ano passado. Ele me contou que ano passado tiveram de pedir a alguns heróis pra fazerem a segurança, daí alguns mutantes menores acabaram vindo pra garantir que ninguém fosse aparecer armado, sabe? Esse ano acharam que estava mais tranquilo e acabaram chamando a polícia mesmo, pra impedir bombas ou algo parecido.
Reese se virou, olhando o local e reparando em vários policiais espalhados pelo local com armas nas mãos. Não pode deixar de se lembrar da delegacia, em como tinha recebido ajuda e como tinha enganado todo mundo naquele lugar para que o resto de seu time — ingrato — pudesse roubar coisas pelas costas deles.
Ela pigarreou, mordendo mais um pedaço de seu lanche e voltando a analisar as barracas.
— Você conhece essa gente toda?
— Alguns. Aquele ali é o pastor Richards, de uma igreja protestante do Harlem, ele eu conheço porque frequentei a igreja algumas vezes quando mais novo… Ah, e aquele rabino eu conheço de rosto mas não lembro o nome, dizem que a Lince Negra frequenta a sinagoga dele… E aquele é o Sheikh Abdullah, veio lá de New Jersey pra um evento na cidade, e… Ah. Desculpa, estou entediando você.
Definitivamente não estava. Reese olhava atordoada de uma tenda para a outra, vendo tantas pessoas de tantas origens e crenças diferentes se juntando pra dar um momento legal para pessoas como ela. A garota terminou seu cachorro-quente, mas a última mordida foi um pouco amarga, e ela acabou se sentando em um banco próximo com Héctor ao seu lado.
— Tudo bem, Reese?
E ali estava de novo em Héctor aquela sensação de preocupação, uma dose de carinho misturada junto. E mais uma vez, ela se sentiu confusa, se perguntando se seria mesmo possível ele não ter reparado em como ela tinha o manipulado da última vez, ou se ele só fingia que não.
— Tem sorvete aqui? — Ela perguntou. — Eu gostaria de uma casquinha.
— Ah, acho que sim. Só um instante.
Ela nem teve tempo de entregar uma nota para Héctor, e ele já tinha saído pelo festival afora.
A garota respirou fundo. Não ia demorar para ele voltar, e ela precisava colocar os pensamentos em ordem. Isso era ridículo. Se Héctor era tonto a ponto de se interessar por ela, ótimo, podia usar isso a seu favor, mas não precisava ficar toda sentida fazendo isso. Nunca tinha lhe acontecido algo assim antes, não ia ser agora que ia começar. Ela puxou um espelho da mochila que trazia consigo, ajeitando o cabelo às pressas e conferindo se seu rosto ainda estava parecendo o de um defunto, mas não só tinha recuperado a cor, como agora estava bastante vermelha.
— Que ótimo…
Ela guardou o espelho às pressas, largando a mochila no banco bem a tempo de Héctor voltar, comendo uma casquinha de pistache e estendendo uma de morango pra ela.
— Desculpe, esqueci de perguntar qual você queria — ele disse, se sentando ao lado dela com sua casquinha.
Reese gostava de morango, então não foi problema, e mesmo se ele tivesse trazido alguma coisa bizarra como banana era capaz de comer só de puro nervosismo. Tinha ido ali procurar um pouco de ar fresco, gostava de como tinha se sentido na igreja naquele dia, mas se esquecera da outra parte. De como Héctor se sentia perto dela, aquela paixão sem sentido, e então…
Havia outra coisa, não é? Ela se lembrou, de repente, da mudança de comportamento que Héctor tivera com ela na igreja instantes antes de ir embora. Reese olhou para ele e estendeu uma onda de seus poderes, o alcançando para fazer uma leitura de seus sentimentos. Lá estava, como antes, a admiração. E, buscando um pouco mais, por baixo de tudo, encontrou a culpa.
Parecia mais proeminente hoje, a ponto de Reese se surpreender por não ter reparado sozinha, mas com o cansaço como sentia agora fazia sentido seus poderes falharem um pouco. Aquilo tinha algum gatilho, com certeza, mas não sabia como perguntar sem deixar claro que tinha invadido a cabeça dele.
Para seu alívio, o próprio Héctor decidiu começar.
— Eu vi na televisão a coisa na delegacia. Foram vocês, não é?
Reese não sentiu que podia responder isso. Ela deu mais uma lambida em seu sorvete e o silêncio pareceu ser toda a resposta de que Héctor precisava.
— Está todo mundo bem? — Ele perguntou, e para Reese, que esperava ser repreendida, foi uma reação surpreendente.
— Ah, bem… Eu acho que sim. Não vi o resto do time depois disso, mas Cass disse que estão bem, então…
— Entendi.
Os dois ficaram em silêncio mais uma vez, focados em seu sorvete, mas, curiosa, Reese vasculhou os sentimentos dele, encontrando uma inquietude, um tipo de ansiedade indicando que ele queria falar mais alguma coisa. A garota esperou. Os dois acabaram terminando seus sorvetes antes de Héctor tomar coragem para falar, mas pela bagunça de sentimentos do garoto, Reese teria esperado o tempo que fosse necessário. Era importante, tinha certeza, e estava muito curiosa.
— Reese… Eu tenho uma coisa pra te mostrar — ele disse, enfim, se levantando, a voz saindo em um tom receoso e acompanhada de uma onda poderosa de vergonha, receio e arrependimento.
— O que aconteceu? — Ela perguntou, pegando a mochila e se levantando devagar. Héctor estendeu a mão para a garota e ela hesitou por um instante, encarando os dedos dele, antes de aceitar o contato.
Héctor tinha um aperto firme, mas para alguém com super-força ele conseguia ser bem gentil no toque. Reese decidiu aproveitar aquele contato para manter um fluxo mais firme de seu poder para as emoções dele, e o receio aumentava misturado com o arrependimento a cada passo que davam. Reese começou a se sentir desconfortável. De que ele se arrependia tanto? Quase chegava a doer o peito.
Os dois atravessaram o parque, passando entre tendas e grupos de pessoas, até chegarem em uma região mais aberta onde vários grupos de mutantes estavam sentados, comendo e conversando entre eles. Héctor foi a guiando entre as pessoas, um passo de cada vez, até ela ver ao longe para onde estava sendo levada.
— Não… — Reese murmurou, sentindo os olhos lacrimejarem pela segunda vez naquele dia, mas dessa vez por uma onda de felicidade e alívio tão intensa que quase fez suas pernas tremerem. — Não pode ser… Eu… Como? Como?
Era inconfundível. Azalea estava ali. Os mesmos cachos castanhos compridos, a pele parda, um sorriso pacífico e criando imagens no ar, fazendo ilusões de coelhos correrem um por cima dos outros na grama do parque.
— Héctor… Como você…
Ela deu um passo, querendo correr até a garota, abraçá-la, Azalea era para todos os efeitos sua irmã, e estava bem ali, a passos de distância… Mas Héctor segurou a mão dela, e Reese se virou para o garoto, ainda zonza com o gesto dele.
— Você perguntou como… — ele comentou, e mais uma vez a onda de arrependimento chegou a Reese, violenta como um soco no estômago, o suficiente para fazê-la perder um pouco o equilíbrio. — Eu a ajudei a sair… Eu estava lá. Eu… Reese… Eu era um dos Carrascos.
Foi como levar um balde de água gelada de uma vez na cabeça.
Reese levantou o rosto, horrorizada, agora puxando a mão com violência, mas ainda sem conseguir se soltar. O enjôo de mais cedo voltou, agora ainda mais forte, fazendo o cachorro-quente e o sorvete brigarem em seu estômago. Não tinha o visto naquele dia, vira apenas a garota das facas. Mas… O que ele estava dizendo…
— Eu não sabia — Héctor continuou, e presa onde estava, Reese não teve escolha a não ser escutar. — Nós fomos chamados para caçar terroristas. Então descobrimos que era uma comunidade de pessoas vivendo quietas nos esgotos e eu não podia… Eu não podia. Eu tentei chegar a tempo, consegui dizer àquele garoto dos Novos Mutantes e alguns amigos dele para correrem, mas quando cheguei no acampamento principal já era tarde… Eu fiquei horas depois correndo pelos esgotos em busca de sobreviventes, tentando tirar o máximo possível de pessoas de lá antes de Nala os encontrar. Eu achei treze. Azalea foi um deles. Foi assim que eu conheci o Essex, eu levei todo mundo pra igreja do Lantom e ele se ofereceu pra cuidar dos sobreviventes e… E… Por favor fala alguma coisa…
Ela não sabia o que dizer. Ela nem mesmo sabia como se sentir. Seu estômago revirava, mas a culpa de Héctor era tão violenta agora que não teria como ser falsa. As informações sobre ele ter sido dos Carrascos e sobre ter salvado Azalea brigavam em sua cabeça, incapazes de encontrar alguma coerência. Não conseguia fazer sentido de nada disso. Não conseguia…
— Me solte — ela pediu, a respiração afobada, a voz séria e o enjôo se misturando à culpa de Héctor.
O garoto não disse mais nada. Ele soltou a mão de Reese e a garota cambaleou, tonta, até o grupo de amigos onde Azalea estava. Héctor ficou parado no lugar, vendo as duas garotas se reencontrarem, em um abraço apertado e uma reação de fraternidade tão forte que o fez se sentir ainda mais sozinho.
Lantom tinha razão. Não tinha amigos da sua idade. Não tinha família. Não tinha ninguém. Mas com a forma como Reese o tinha olhado agora… Como tinha sido tolo. Não merecia ninguém. Poderia passar o resto da vida tentando compensar, e nunca seria o suficiente. Aquele tipo de carinho que Reese e Azalea compartilhavam agora não estava escrito em seu futuro. Tinha jogado isso fora ao se tornar o que tinha sido.
Héctor engoliu as lágrimas, deu as costas, e voltou à barraca de cachorro-quente.
Fale com o autor