O silêncio no quarto era interrompido pelas batidas constantes do som das baquetas de Amália acertando um conjunto de bancos e cadeiras organizado com cuidado na frente da cama de solteiro de Damon para simular uma bateria. Depois que Nathaniel tinha partido, Luke voltou para o próprio quarto, o que foi ótimo para Amália, que não estava conversando com Grace e tinha agarrado a oportunidade para ela mesma conseguir um pouco de distância da amiga enquanto ela processava os acontecimentos recentes.

Ou ao menos Amália esperava que fosse apenas uma questão de processar. A ideia de Grace estar tão frustrada com o time e por extensão com ela a ponto de poder ter arruinado a amizade delas deixava Amália ansiosa e desconfortável, o suficiente para fazê-la se ocupar de outra coisa — qualquer uma — só para não precisar pensar nisso. Naquela tarde, era um protótipo de bateria, já que a mansão não tinha uma.

Ela tinha de apreciar a resiliência de Damon de ficar deitado na cama ouvindo aquela arruaça enquanto ela tentava replicar uma bateria com a mobília da casa, mas enquanto ela batucava acompanhando mais um hit do AC/DC saindo de sua caixinha de som, Damon ficou ali e não reclamou em nenhum instante qualquer. Isso a fez considerar que ele simplesmente não estava prestando atenção, pois com certeza ele teria reclamado se fosse da sua vontade, e ao olhar para trás percebeu estar muito certa.

O garoto estava focado no telefone, e Amália parou as batidas, pausando a música. Damon passava o dedo sobre a tela, provavelmente correndo algo para o lado. Fotos? Amália se jogou no colchão, deitando ao lado dele e vendo que era exatamente isso. Foi surpresa, porém, ver o conteúdo das fotos. Ela pensou que o encontraria encarando fotos da amiga ou do ex-namorado, mas eram imagens dele abraçado a três pastores alemães usando coletes à prova de bala.

— São seus? — Ela perguntou, vendo Damon passar mais uma foto para o lado e depois abaixar o telefone.

— Maquiavel, Erzebet Báthory, e Gengis Cão. Cães de treinamento militar. Ganhei do meu pai como recompensa por vencer uma competição adolescente no clube de tiro que a gente frequentava.

É claro que Damon tinha participado de um clube de tiro. A informação fazia tanto sentido quanto qualquer outra coisa, e explicava ao menos como ele tinha se tornado um atirador tão preciso a uma idade tão jovem. Devia estar atirando por anos.

— O que aconteceu com eles?

— Estão com meus pais, na mansão de onde eles me chutaram, com o dinheiro a que eu não tenho mais acesso e as minhas coisas que eu não consegui tirar de lá — Damon respondeu, suspirando. — Eu estou de saco cheio. Perdi minha amiga, meu crush, minha família e até a porra dos meus cachorros. E agora, até a porcaria do time que deveria servir pra eu finalmente fazer algo de útil com essa merda de vida acaba indo pro espaço e apesar da bagunça do Luke e do Balu ter parte nisso, eu sei que eu tenho também. Era muito mais fácil tolerar o fato de que eu quebro tudo que eu ponho a mão quando eu estava mesmo tentando quebrar as coisas. Agora eu queria que ao menos uma coisinha desse certo e… Bom, aí estamos.

— Pais podem ser um inferno às vezes… — Amália comentou, seu olhar divagando para o teto do quarto.

— Aconteceu algo com você também?

A garota olhou para Damon, pronta para responder automaticamente que “estava tudo bem”, mas por algum motivo, parou no meio do caminho. Já vinha dividindo muito de sua vida com ele, e agora que tinha estragado sua relação com Grace ao menos temporariamente, não tinha muitas pessoas com quem conversar. Ela decidiu que queria aproveitar essa oportunidade.

— Não exatamente… Eu não tenho problemas sérios com meus pais, é só que eles não gostaram nada de eu me alistar pro time. Eles vivem a vida como heróis, mas de alguma forma acham que eu tenho o direito de ser menos que isso. Não parece certo.

— Eu diria pra enfiar o que seus pais acham no cu e fazer o que te der vontade, mas isso não acabou muito bem pra mim, então… Talvez você deva fazer o exato oposto e falar com eles.

Falar. Amália soltou uma risadinha sarcástica e revirou os olhos, imaginando como uma conversa sobre seu status como heroína iria acontecer com seus pais. Eles a respeitavam o bastante para não proibi-la de estar no time, mas não sabia se esse sentimento se estenderia para um confronto, e não sabia se queria testar isso.

— Fácil falar. Por que você não tenta? — Amália brincou. Com pais como os dele, seria ainda mais estressante que a situação dela, isso era certeza.

— Talvez eu tente, sim. Só não estou cem por cento certo de como…

— Como é?

Damon deu de ombros.

— Visitar a mansão do Roberto foi quase um soco no estômago. A mesada que a gente ganha aqui não dá nem preu comprar uma gravata se eu quiser, isso é um absurdo.

Absurdo para Amália, que piscou os olhos, chocada, foi Damon querer gravatas que custavam mais de cinquenta dólares. Ele não pareceu perceber a reação, pois continuou tranquilamente.

— Daí eu andei pensando no que fazer, pesquisei algumas coisas… E acredite ou não, eu tenho mesmo direito a muita coisa que meus pais pegaram de mim. Só estou pensando no melhor jeito de pegar de volta.

Parecia algo muito estressante. Amália se sentou, surpresa, sentindo o próprio coração dar um salto, um misto de ansiedade e… inferioridade, talvez. Se Damon, que tinha um problema absurdo com seus pais, estava disposto a confrontá-los, como podia ela se acovardar de uma conversa com sua melhor amiga e de uma com pais que a amavam?

— Você vai mesmo fazer isso? — Ela perguntou, e Damon se sentou de volta, mostrando o celular para ela. As fotos dos cachorros estavam numa pasta com algumas outras fotos e um arquivo de notas.

— O que é meu, é meu. Se eu não posso ter o time pra me puxar o saco, eu quero ao menos meu dinheiro e meus cachorros de volta. E vai ser bom ter algo pra distrair a cabeça quando inevitavelmente a internet começar a especular sobre o fim da equipe.

Amália soltou um grunhido, se deitando de novo. Não tinham postado nada sobre a separação do time, esperando, no fundo do coração, que não fosse uma situação permanente. Mas a verdade era que os dias passavam e nada parecia melhorar. Ninguém estava trabalhando nessa direção… nem mesmo ela.

Raios. Precisava muito conversar com Grace.

Ela se levantou, frustrada, ajeitando o cabelo e se espreguiçando.

— Onde vai? — Damon questionou.

— Ver se resolvo a minha parte do problema.

[...]

Apesar de ter oficialmente deixado o time, Grace não quis parar de treinar. Gostava muito de voar, e vinha aproveitando a oportunidade de expandir suas habilidades sempre que a Sala do Perigo estava vazia, o que recentemente era a maior parte do tempo. Além disso, voar a ajudava a esfriar a cabeça, e era algo que precisava muito fazer agora.

Faziam anos que não se sentia tão sozinha, desde quando tinha chegado no Instituto e Amália se tornou sua amiga. Agora que não vinham falando uma com a outra, Grace sentia um abismo em seu peito, uma saudade tremenda de sua mãe… E um desejo de ver seu pai.

Tinha certeza que as coisas seriam diferentes agora. Ela era uma heroína. Era famosa. Haviam vídeos por todos os lados dela saindo daquela Igreja com uma mulher nos braços, seu pai teria visto. Não teria como ele odiá-la depois disso tudo. As coisas seriam diferentes, tinha certeza…

— Grace?

A garota, que flutuava deitada de barriga pra cima pelo ar, se virou, vendo Amália parada no meio da sala em sua jaqueta de couro, jeans, camiseta de banda e botinhas sem salto. Não parecia diferente em nada, e ainda assim, Grace sentia como se tudo tivesse mudado.

Parte de Grace não queria falar com Amália agora. Não queria brigar, e não sabia se isso iria acontecer caso começasse a falar com ela. Mas Amália estava parada ali, olhando para cima com a testa franzida de leve e balançando devagar no lugar, esperando. Não iria embora sem a conversa.

Grace flutuou devagar até o chão, pousando na frente de Amália e guardando as asas atrás das costas.

— Então?

— Então — Amália pigarreou, apertando as mãos na frente do corpo. — Eu só quero saber se ainda está puta comigo.

— Eu?

— É.

— Eu não estou puta com você. Eu só…

Só não conseguia acreditar que a amiga estivesse tendo um caso com o mesmo cara que estava tentando assassinar mutantes até dois anos atrás. Não era nem questão de ficar irritada com o fato, ela só não queria ouvir Amália falando de Damon e do tempo que vinham passando juntos. Não eram detalhes dos quais ela queria participar.

— Então eu poderia, em tese, voltar pro nosso quarto?

Grace deu de ombros. Se quisesse, não poderia a impedir, o quarto era dela também. E seria mentira dizer que não sentia falta da amiga, só não sabia como a nova dinâmica delas deveria funcionar.

— Você está mesmo com o Damon?

— Mais ou menos… Não é meu namorado nem nada do tipo, mas é boa companhia.

Boa companhia… Grace seria capaz de discutir, mas não queria brigar com Amália, não naquele momento. A garota se sentou no chão, e foi acompanhada da amiga, ainda em silêncio, parecendo receosa quanto ao que dizer, ou como interagir. Grace queria continuar incomodada, e de certa forma estava, a situação atual comendo seu subconsciente, mas não conseguia ficar brava com Amália. Simplesmente não conseguia.

— Então. Ele pelo menos é bom de beijo?

Amália abriu um sorriso largo, uma mistura de alívio com safadeza, e a resposta ficou bem clara ali mesmo. Grace riu, baixinho, e Amália respondeu com uma ombrada de leve na garota, a repreendendo pela pergunta.

— Pra quem não é Ave Maria você tá cheia de graça, hein? — Amália perguntou, com uma risada divertida no final.

— Eu sou anjo, não santa. Não vamos confundir as coisas.

As duas gargalharam por um instante, e um ar de leveza assumiu a sala. Estava claro que Grace não era a única receando o desgaste daquela amizade mas, talvez, não houvesse desgaste capaz de destruir uma amizade como a delas. Era forte demais.

— O que você tem feito? Ainda treina seus vôos? — Amália perguntou, vendo os arcos e lasers armados pela Sala do Perigo em formação de treino já bem mais avançada que quando elas tinham se juntado ao time.

— É. Eu me divirto bastante, então, sim. E você?

— Pensando… Talvez eu telefone pros meus pais, eventualmente.

— Hm. É, eu tenho pensado nisso também.

Amália piscou os olhos, os arregalando um pouco, e Grace abriu um sorriso pequeno, um pouco tímido.

— Você quer visitar seu pai? Grace…

— Tá tudo bem. Eu sei que você tem suas ressalvas, mas ele não é perigoso. Só… Confuso.

A garota franziu a testa e Grace se sentiu diminuir, quase como se fosse sumir no chão da sala. Tudo bem, talvez confuso não fosse a melhor definição, mas… Ele não era uma pessoa, de todo, ruim. Tinha certeza disso. Só precisava ver as coisas pelo lado dela, entender…

— Você vai precisar de companhia para isso?

Em qualquer outro estado, Grace teria dito que sim. Não ia ser o tipo de situação fácil de lidar, e a perspectiva de ter de enfrentar aquilo sozinha era, como em tantas outras vezes, assustadora. Mas já seria demais uma mutante batendo na porta do pai, duas ia acabar o enlouquecendo, tinha certeza disso.

— Acho que isso é algo que eu preciso fazer sozinha.

Amália abriu um sorriso ainda maior, e Grace sentiu seu coração se aquecer. Sabia que a amiga iria com ela se pedisse, mas vê-la se deleitar em orgulho depois daquela resposta era a maior injeção de coragem que poderia ter pedido. Seria, sim, ótimo ter a companhia de Amália, mas percebeu pela primeira vez em muito tempo que não precisava dela. E isso era tão incrível como poderia ser.

[...]

Já faziam dias que Luke se sentava na sala do comando, de frente para aquela tela de computador. As informações não iriam mudar sozinhas, e não havia nada que seus olhos encarando uma tela pudessem fazer, mas ainda assim, lhe pareceria errado não tentar nada com aquelas informações. Aquele pendrive tinha custado muita coisa. Bem, talvez não o pendrive, mas a missão certamente tinha marcado o fim da equipe, e pensar que todo o estresse teria acontecido por nada o fazia se sentir ainda mais inútil que nunca.

Ele suspirou, abaixando a cabeça e batucando os dedos na setinha para a direita, vendo as páginas mudando na tela. Grande coisa saber a identidade de três dos integrantes da Irmandade se não tinha coragem de os entregar. Não parecia certo. Eles eram mutantes como ele, estavam lutando pelo que achavam certo. Podia não concordar com eles, mas não conseguia ver justiça sendo feita caso eles fossem entregues.

Bobby tinha pedido suporte no controle do Instituto e agora a supervisão variava de X-Men em X-Men, dependendo de quem estivesse na cidade. A chefe da vez era Ororo, também conhecida como Tempestade, uma mulher muito empática mas bastante rígida quanto aos horários de aulas e de treinamento e do resto todo. Em outro cenário, Luke teria pedido a ela para deixar o time sair em uma missão, mas… que time? Ele mesmo não achava que queria sair. Certamente não queria liderar nada tão cedo, mas mesmo se não fosse líder, não queria sair. Então… Talvez, sim, a última missão tivesse sido para nada.

Ele suspirou, cansado, pegando o pendrive de volta e desligando o computador. Até então, não tinha falado com Bobby sobre o que tinha acontecido direito. O X-Men tinha recebido a pilha de uniformes em sua sala e tentou fazer perguntas aos alunos, mas quando viu que isso não ia funcionar, apenas informou ao terapeuta da escola para ele poder guiar as crianças como pudesse.

Luke não achava justo estar evitando Bobby como se fugisse da cruz, mas não conseguia pensar em ter coragem para olhá-lo nos olhos e descrever como tinha falhado. Não lhe importava o quanto as pessoas diziam que não era sua culpa, não conseguia deixar de sentir que, em partes, era.

Talvez, finalmente, fosse hora de ter essa conversa. Luke se levantou, enfiando o pendrive no bolso e seguindo Instituto adentro em direção ao escritório de Bobby.

Estava, à exceção do próprio Bobby, vazio. Ele bateu pra entrar e Bobby sinalizou, dando permissão. O homem encarava algo em sua tela com o rosto cansado, batucando os dedos na mesa. Luke entrou, devagar, fechando a porta e isso atraiu a atenção de Bobby para si.

— Oi — o garoto anunciou. — Só vim te devolver isso.

Luke pegou o pendrive, o colocando sobre a mesa.

— Não acho que isso seja meu.

— Bom, tem que ser. Tem informação pertinente sobre a Irmandade, coisa que você pode usar pra investigar. Então… Divirta-se.

Ele tinha ido até ali pra conversar, mas agora, de frente para Bobby, acovardou-se. Luke deu um sorriso sem graça, acenando com a mão e dando as costas para deixar a sala. Mas Bobby o impediu.

— Luke, espere um instante — ele comentou. — Sente-se aqui. Quero falar uma coisa.

Ótimo. A conversa da qual tinha desistido ia acontecer independente de sua vontade. Tentendo conter a frustração, Luke voltou para trás, se sentando na cadeira de frente para Bobby. O X-Men tinha desligado o monitor, e isso era um bom indicativo de que a conversa ia ser séria.

— Eu nunca te contei sobre porque te escolhi para liderar os Novos Mutantes, contei?

— Hm… Por que eu era mais velho?

“Era”, pois hoje em dia isso nem era mais verdade. Grace e Nath levariam o pódio, tendo dezoito anos cada, caso o time ainda estivesse inteiro como antes. Para a surpresa de Luke, Bobby negou com a cabeça.

— Não. Eu te escolhi por causa do motivo pelo qual você veio pra cá. De todos os integrantes anteriores, e até dos atuais, você foi o único que escolheu vir para o Instituto para proteger alguém.

— …oh.

Era verdade. Uma semana antes de sua chegada, um acidente doméstico o tinha feito quase queimar seu irmão na cozinha de casa. Luke já se sentia abençoado demais por ter sido adotado por uma família tão boa, a ideia de que poderia machucar algum deles… Tinha sido ele a pedir aos pais para ir ao Instituto, ele a se preocupar, desde o começo, em ser o melhor mutante que pudesse ser para não machucar ninguém.

— Eu pensei que uma pessoa com o seu comportamento saberia proteger o time e os amigos acima de qualquer coisa. E eu não estava errado, só… incompleto. Eu me perguntei por muitos anos o que tinha feito Charles escolher Scott como líder da minha formação dos X-Men, e embora eu tenha percebido ao longo da vida que ele é realmente um excelente líder, não acho que eu tenha o entendido completamente até agora… Eu tenho ótimas lembranças de Scott tomando decisões que salvavam as pessoas, salvavam a gente, mas acho que me esqueci de todas as outras coisas. As decisões difíceis que nem sempre tinham bons desfechos.

Luke franziu a testa, os olhos viajando do rosto de Bobby para o tampo da mesa, um bolo de desconforto se acumulando em seu estômago. Se aquele era o jeito de Bobby de dizer a ele que Luke não conseguia tomar decisões difíceis… Já tinha percebido isso. Tinha sido por falha sua que a Irmandade tinha escapado. Deixar Damon os perseguir, ou Grace, poderia ter acabado com um deles ferido mas também poderia ter acabado com alguém da Irmandade capturado. Era um risco, e não tinha sabido arriscar.

— Bem, eu sei que não sou adequado pro trabalho. Se fosse, o time ainda estaria junto.

— Não foi o que eu disse. É importante para um líder se preocupar com o bem estar de seu time e das outras pessoas também, e eu acho que pouquíssimas pessoas tem uma habilidade tão inata de fazer isso. Mas tudo é parte de um conceito maior, entende?

Entendia, até, mas não sabia porque essa conversa estava acontecendo agora. Parecia um pouco tarde demais.

— Você voltou pra casa? Visitou sua família?

Não. E Luke não teve coragem de dizer isso em voz alta, sabendo bem a impressão que isso passaria de si mesmo. Ele balançou a cabeça, em negação, se lembrando do susto que seu irmão tinha tomado naquele dia. Telefonava sempre para eles, mas desconversava toda vez que mencionavam uma visita. E se algo acontecesse de novo? Não… Não podia arriscar. Luke decidiu não render o assunto nesse tópico, não precisava de Bobby insistindo com ele também.

— Não sei porque está me dizendo tudo isso agora, Sr. Drake. Não tem mais time, eu não sou líder de nada.

— Você gostaria de ser?

Luke inflou o peito para dizer, mais uma vez, que não tinha relevância, mas foi interrompido pelo toque do celular de Bobby. O homem fez menção de recusar a chamada, mas Luke se levantou de uma vez, cansado da situação e fazendo questão de deixar o pendrive quietinho na mesa de Bobby.

— Pode atender. Eu só queria te entregar mesmo, acho que já estou saindo.

E correu para fora da sala antes de Bobby chamá-lo de volta, ou algo do tipo, seguindo seu caminho pelos corredores em direção ao próprio quarto e pensando em se afundar no colchão até criar raízes, mas antes de conseguir fazer isso, esbarrou com Balu no corredor.

Meio olhar trocado com o garoto indicou como ele ainda estava muito magoado, mas o pior era a raiva estampada por baixo da mágoa. Luke sentiu o peito apertar, considerava sim Balu um grande amigo apesar do que ele pensasse, e vê-lo com tanta raiva de si daquela forma, doía.

— Balu… Eu sinto —

— Eu sei.

Havia um tom de aceitação na voz dele que Luke não tinha ouvido antes. Apesar da raiva, não detectou agressividade no que o garoto falou, e a constatação fez uma leve onda de alívio passar pelo corpo dele. Talvez não estivesse tudo estragado ainda. Talvez ainda pudesse corrigir ao menos isso.

— Tá fazendo o quê hoje? — Luke perguntou, enfiando as mãos nos bolsos, casualmente, pensando em como abordar o assunto. — Tenho ficado muito à toa ultimamente, sem o time e o Instituto pra cuidar… Eu pensei —

— Desculpa, to ocupado — Balu respondeu, passando por ele pelo corredor. — Falamos depois.

Luke não soube dizer se era ou não verdade. Independente disso, poderia voltar pro quarto ou procurar Damon e Amália, que pareciam ser as únicas pessoas que ainda falavam com ele. Decidiu que era isso que ia fazer.

[...]

Nath acordou naquela manhã tão desanimado quanto nos dias anteriores. Nunca tinha pensado, em toda sua vida, que depois de conseguir deixar o orfanato acabaria voltando para lá, principalmente quando já tivesse dezoito anos.

As coisas tinham certamente mudado. Tendo fugido na época depois de um excesso de bullying quando começou a descamar, agora as outras crianças o paravam no corredor para dizer que ele era um herói. Nath sorria, sem graça, não sabendo como responder. Assinou alguns cadernos, tirou algumas fotos, e esperou pacientemente pelo surto de sua chegada passar. Levou alguns dias, mas agora ele não era mais novidade e a poeira estava baixando.

Embora não tivesse desejado voltar ao orfanato, tinha de agradecer a Bobby pela solução rápida. Seria perigoso para ele ficar sozinho na rua, não tinha para onde ir e não queria voltar aos esgotos. Chegou a pensar que Bobby diria que não podia fazer nada, mas assim como quando tinha lhe permitido ficar, agora encontrou outra casa para ele sem demora.

Era, de fato, uma ótima solução, mas Nath não sabia o quão duradoura ela seria. Tinha afinal dezoito anos, e em tese nem devia estar ali mais. Mas só faziam algumas semanas do seu aniversário, certamente poderia ficar ali mais um pouquinho, nem que por tempo o suficiente pra conseguir um emprego em algum lugar e se virar por conta própria. Certamente, ninguém se oporia a isso, não é?

Teve de se perguntar a mesma coisa de novo quando bateram na porta do quarto que ocupava com alguns outros garotos e, ao abri-la, viu a Madre do orfanato do outro lado da porta, acompanhada de uma noviça, e com um sorriso piedoso no rosto. Ele não gostou nada disso. Aquele olhar de pena… Nunca sabia se era de fato piedade ou se eram notícias ruins. Torceu para ser piedade. Não tinha de ser sempre um problema, às vezes ela só tinha dó. Até ele tinha dó de si mesmo.

— Olá, Nath. Gostaria de falar um pouco com você, pode me acompanhar?

A noviça, como Nath já estava se acostumando, era uma das poucas no orfanato a saber ASL, e estava ali para facilitar a comunicação. Ele assentiu, já pensando em quanto custava o aluguel de um quarto em um motel barato, e foi seguindo as mulheres pelos corredores.

— Sabemos que faz pouco tempo do seu aniversário de dezoito anos, meus parabéns.

E lá estava. Ele engoliu em seco, assentindo em agradecimento e sentindo o coração apertar. Com seus poderes, talvez conseguisse um trabalho de força bruta que pagasse bem. Carga e descarga? Lutador de MMA? Devia haver algo…

— Algumas crianças chegam e se vão e nós nunca aprendemos nada sobre elas. Mas algumas outras… Não é impossível, apesar de ser menos comum, que recebamos crianças com alguma coisa junto com elas.

Nath parou no meio do caminho. Estavam quase de frente para a porta do escritório da Madre, e ela abriu a porta, o convidando para dentro. O que ela estava falando…

Já tinha visto acontecer algumas vezes na sua época. Algumas crianças tinham pistas dos pais: joias, presentes de infância, nomes bordados em cobertas… Outras sabiam desde sempre o que tinha acontecido, como pai mortos ou presos, ou crianças entregues pro serviço de acolhimento pelo Serviço Social. Mas, ocasionalmente, uma criança chegaria a uma certa idade, e recebia algum presente deixado pelos pais. Era raro, mas acontecia. Mas por algum motivo, Nath nunca tinha tido essa esperança.

Tinha sonhado, é claro, mas sempre tinha afastado como um desejo tolo. Não haviam muitos pais que adotassem crianças com Gene-X, a taxa conseguia ser mais baixa do que de crianças com deficiências ou doenças por poder ser perigoso, e se o fato de Nath ter quebrado as costelas de Luke provava algo, era que de fato poderia ser. Assim, apesar de ser deixado ele lá quando bebê, a obrigação de colocar esse tipo de coisa na ficha o fez ficar lá, sem despertar o interesse de ninguém em momento algum. Pensando nisso, como seria possível que não tivesse sido largado lá por repulsa, por pais que sabiam o que ele seria e que jamais iriam querer nada com ele?

Nath tinha internalizado e adotado tanto a ideia como verdadeira, que ver a Madre abrir uma gaveta em um armário fichário de metal, mexer um pouco nas coisas e tirar lá de dentro uma carta, fez Nath começar a chorar no mesmo instante.

Ele cobriu a boca, chocado, tentando controlar a súbita tremedeira nos braços. O olhar da Madre agora estava claro para si, não era dó, era empatia. Com os olhos embaçados, ele virou o olhar para a noviça, tentando acompanhar as próximas palavras da melhor forma que pode.

“Tivemos instruções expressas para apenas te entregar a carta quando você fizesse dezoito anos, ou para seus pais adotivos, caso fosse adotado. Como esse não foi o caso… Aqui está. Gostaria de deixar claro que não lemos o conteúdo e não sabemos o que ela diz. Ler ou não é escolha sua, ela pode dizer coisas boas mas também pode dizer coisas horríveis, entende?”

Tremendo, ele assentiu. Entendia. Céus, não lhe importava o que a carta diria, era alguma coisa. Era muito mais que ele jamais tinha esperado receber. Mal conseguia acreditar.

— O-obrigado… — ele balbuciou, pegando o envelope e enxugando as lágrimas.

A letra no envelope era um pouco corrida, e de forma, de alguém que escrevia com certa pressa, conseguia imaginar. De um lado, o envelope dizia “Esther Taylor”, e tinha um número de telefone embaixo. Do outro lado, o nome dele, e um aviso grande para só entregar ao destinatário quando ele fizesse dezoito anos.

Com os dedos tremendo, ainda parado de pé, ele rasgou a beirada do envelope com muito cuidado, quase como se não quisesse estragar o presente, como se fosse a coisa mais preciosa a já colocar as mãos em sua vida. Ele tirou as folhas de papel dobradas lá de dentro — folhas de caderno simples, o tipo que se usa para estudar — e as desdobrou tremendo tanto que mal conseguia ver as palavras.

A noviça o tocou nos ombros, o ajudando a se sentar. Alguém pôs um copo de água em sua mão, mas ele não bebeu. Já estava com os olhos presos nas palavras em sua frente.

Querido Nathaniel,

Se este ainda for seu nome… Eu não sei como fazer isso. Me convenci de que esta carta é importante, e de fato acredito que seja, mas poucas vezes tive de fazer algo tão difícil quanto escrevê-la. Peço que me perdoe se as palavras forem confusas, ou insuficientes, mas minha cabeça não tem estado no lugar, e meu coração pesa ao tentar colocar tudo isso em palavras. Nem mesmo sei se será possível.

Pensei por muito tempo se deveria apenas te deixar no orfanato e seguir minha vida, mas o pensamento de que você poderia crescer pensando ter sido abandonado por falta de amor me assombrou um dia após o outro. No fim, eu decidi que você merece a verdade, e eu gostaria que a tivesse.

Hoje, enquanto escrevo essa carta, você ainda não nasceu, mas vai acontecer a qualquer momento agora, e quando isso acontecer, eu sei que não mais poderei vê-lo. A verdade, Nathaniel, que me dói mais do que qualquer outra coisa que senti na vida, é que não posso tê-lo comigo. Eu tenho vinte anos de idade. Conheci um rapaz em uma festa da faculdade no ano passado, e receio que tenha bebido mais que deveria, pois não me lembro de tantas coisas quanto gostaria. Quando descobri que estava grávida, não consegui encontrar o seu pai mais. Sequer me lembro do nome dele, e isso me envergonha e me assusta a cada dia. Recorri a meus pais por ajuda, e minha família me virou as costas. Nath, eu prometo, não há nada que eu queira mais do que tê-lo comigo, mas eu sequer sei como vou me sustentar sozinha em Nova York.

Eu não posso te dar a vida que você merece. Eu tentei, por meses, procurar por um emprego e por meios de nos manter juntos, mas enfim precisei entender que se eu quero que você tenha um bom futuro, com uma boa família, sem sofrimentos e privações, eu não posso te dar isso.

Eu sinto muito. Me perdoe Nath, me perdoe, eu imploro… Eu te amei a cada segundo que te tive comigo, e te amarei por cada ano da minha vida que eu viver. Se um dia você puder me perdoar, se um dia você quiser, não há nada que eu gostaria mais do que conhecer o homem incrível que você se tornou.

Mas se esse não for o caso, em qualquer situação, eu gostaria que você soubesse que você foi, sim, muito amado por mim. Que eu não te abandonei por não te querer bem, mas sim por querer que você possa ter o melhor. Eu sinto muito. Eu te amo. Eu te amo com tudo que eu sou.

De sua mãe,

Esther

Ele terminou a leitura encarando o papel ainda em choque. A letra estava trêmula em vários pontos. Em tantos outros, haviam borrões de tinta e um ou outro que se parecia muito com uma gota de água. Como uma lágrima.

De repente, ainda tremendo, ele percebeu que tinha um copo de água em sua mão. Nath o bebeu, engolindo a água em solavancos entre as lágrimas, e abaixando a carta, o tremor na mão se controlando aos poucos. Ele levantou o rosto, receoso, e viu que a noviça e a Madre estavam tentando falar com ele. A mulher precisou repetir os gestos algumas vezes para ele identificar a pergunta.

“Nath, tudo bem? Você precisa de algo, quer falar sobre alguma coisa?”

Respirando fundo, ele olhou para as folhas em seu colo. Se quer sabia o que dizer, sua cabeça girando repetidamente sobre aquele penúltimo parágrafo no qual ela dizia que gostaria de conhecê-lo se fosse sua vontade.

Se fosse sua vontade. Se pudesse perdoá-la. Era demais. Era muita informação de uma vez, o mundo parecia ter começado a girar no dobro da velocidade de repente, e ele não sabia o que fazer.

Acabou terminando de beber o copo, e percebeu que as freiras ainda esperavam resposta. E, naquele momento, ele só conseguiu pensar em uma coisa pra dizer.

— Eu… Eu tenho mãe.