Não foi surpresa para Cassian a chegada de Moonstar no restaurante no horário combinado. Tinha feito seu dever de casa: Moonstar tinha um desejo de rebeldia queimando debaixo da pele, já tinha participado de grupos rebeldes e planejado vinganças. Tinha certeza de que ele acabaria cedendo se a oportunidade lhe fosse oferecida mais uma vez, e não se enganou.

O garoto entrou calado, fez contato visual com Cassian por um instante, agora dando de cara com olhos castanhos comuns em vez dos pretos da noite anterior, e caminhou até a mesa, se sentando à frente dele. Moonstar não podia sair sem a coleira, não quando desintegrava qualquer coisa com o toque mais simples, então tinha enrolado um cachecol no pescoço para cobrir o adereço — uma escolha bem chamativa para aquela época do ano.

A reação de Cassian a isso foi encarar o garoto por um instante, levantando uma sobrancelha devagar com um ar inquisidor, mas decidiu que não tinha por que gastar energia questionando a moda alheia. Além do mais, sabia sobre a coleira e imaginou que esse pudesse ser o motivo. Talvez.

— Bem, aqui estou — Moonstar comentou, se reclinando na cadeira e passando os braços para trás da cabeça. — O que tem pra mim?

— Quanta pressa. Não quer comer? O Goi Cuon é muito bom.

— Já comi, não vim demorar. Se for tirar uma com a minha cara, estou indo embora.

Imbécile — Cassian resmungou, vendo a mãe de Cat lhe trazendo sua comida.

— O que disse?

— É “fome” em francês — o garoto respondeu, pegando os rolinhos, agradeceu com um sorriso e a mulher se retirou.

— Hm. Você fala francês então?

— Moonstar, eu sou francês. Você também não é daqui, é? — Cassian questionou, mordendo um dos rolinhos. O porco estava no ponto, e sem pimenta do jeito que ele gostava. Perfeito.

— Coreia do Sul. Achei que ia saber isso também, já que vasculhou minha vida toda.

— Não toda. Só a parte importante.

A expressão de Moonstar ficou um pouco tensa por um instante, um tremor entre as sobrancelhas franzidas, e ele cruzou o braço. Estava ficando muito ansioso. Essa coisa de espionar pros outros queria dizer que se fosse visto com Cassian estaria com problemas, tinha certeza, e embora o problema em si não fosse lhe tirar o sono, a preguiça de lidar com possíveis consequências já estava o colocando em estado de pressa de ir embora dali.

— E então? — Insistiu, parecendo enfim vencer Cassian pelo cansaço.

— Ok. Eu tenho um plano. Eu já tinha, antes, mas tomou precedência com os acontecimentos recentes. Você sabe o que torna o terrígeno tóxico para alguns mutantes?

— Genética.

— Exato. Ter o gene X recessivo, ou seja, ser um mutante, pode tornar a pessoa vulnerável ao químico em níveis diferentes. Não sou cientista para saber os detalhes, mas… Eu achei no mínimo curioso que alguns mutantes morram em instantes em contato com o terrígeno, enquanto outros não passam por nada.

— Você e todo mundo. Qual é seu ponto?

— E arma X, você conhece?

— Isso é algum tipo de teste de entrada? Não tenho paciência pra essas coisas.

Cassian mordeu mais um rolinho, parecendo gostar de deixar Moonstar impaciente. O garoto lutava contra um sorriso por saber que isso poderia lhe custar a conversa, e Moonstar estava percebendo isso. Mas seria mentira sua dizer que não estava ficando curioso. Tinha um fraco por questionamentos científicos e qualquer coisa que desafiasse seus conhecimentos, e um tombo ainda maior por uma oportunidade de exibi-los.

— Arma X, o projeto que criou o Wolverine. E depois dele, Deadpool e X-23. Mais alguma coisa?

— Eu só estava pensando… — Cassian prosseguiu, agora com o tom um pouco desinteressado, como se estivesse falando do clima e não de experimentos científicos clandestinos com mutantes. — Se foi possível usar o gene de um mutante com altas capacidades regenerativas para criar outros mutantes com capacidades semelhantes, não seria possível fazer o mesmo com mutantes que são imunes ao terrígeno? Não seria possível criar… uma vacina?

Moonstar encarou Cassian por um instante, a testa franzindo ainda mais. Cass quase conseguia ver as engrenagens girando no cérebro dele, enquanto Moonstar calculava o peso de sua proposta, o que queria fazer e como isso poderia mudar o mundo para os mutantes. Era muito, sabia. Ambicioso. Precisariam de recursos, cientistas… Mas se desse certo, e Cassian faria todo o possível para dar, iria mudar tudo. E estavam precisando de uma sorte dessas.

— Você é louco — Moonstar respondeu, encarando os rolinhos com um olhar indecifrável, enquanto sua cabeça dava voltas e voltas por todos os motivos pelos quais aquilo era absoluta loucura… E os outros pelos quais não era.

Seu irmão estava morto, tantos outros mutantes também, e com a existência de uma arma como o terrígeno solta por aí, sair de casa já era um ato de extrema bravura. Embora por agora a bravata o enchesse de coragem, mesmo Moonstar não queria passar o resto da vida assim. Ele queria que alguém pagasse por tudo isso. E não era exatamente essa a possibilidade lhe sendo apresentada?

— Digamos que seja possível — Moonstar comentou, mal acreditando que estava de fato entrando nessa. — Qual seu plano?

— As primeiras coisas de que vamos precisar são dinheiro e terrígeno. Ainda estou trabalhando em como conseguir as duas, mas qualquer ideia é bem-vinda. Conversei sobre isso com meu time ontem depois de te encontrar, todo mundo está trabalhando em opções.

— De quanto dinheiro estamos falando?

— Bastante. Por quê?

Moonstar pensou por um instante, e Cassian observou, ansioso, mas tentando parecer calmo, enquanto comia seus rolinhos. Um sorriso foi se abrindo aos poucos no rosto de Moonstar, com uma nota de empolgação e um pouco de malícia também.

— Sabe aquela igreja que pegou fogo e os Novos Mutantes foram ajudar no resgate?

— É, eu vi na televisão. Uma grande palhaçada. O que tem ela?

— Eu ouvi um pedaço de uma conversa, e depois fui pra internet dar uma pesquisada… Se nós queremos dinheiro, lá pode ser um ótimo lugar para começar.

[...]

Miguel já não dormia bem há dias. Tinha ido com Reese até os esgotos por achar que era a coisa certa a se fazer, e não querer que ela passasse por aquilo sozinha, mas assim como tinha receado, assim que os poderes calmantes dela perderam a influência sobre ele, o pânico atacou. Vinha dormindo muito mal, atormentado pelas memórias do que tinha acontecido naquela maldita noite, vendo o sangue e ouvindo os gritos em sua cabeça, e se lembrando de sua mãe gritando para ele que corresse o mais rápido que pudesse.

Não tinha conseguido correr, tampouco sua mãe. Mas alguma coisa aconteceu para assustar a garota das facas e mandá-la embora antes de terminar, de forma que os dois tinham sobrevivido a tudo aquilo, por um milagre.

Ou por um castigo. Não podia ser milagre se pouco tempo depois o terrígeno tinha enfim tirado sua mãe de si. Desde os onze anos, quando seus poderes começaram a se manifestar e sua aparência a mudar, Miguel não conseguia se lembrar de um minuto sequer no qual não estivesse se escondendo ou fugindo em sua vida, mas ao menos em todas essas vezes sua mãe estivera consigo. Agora… Agora estava só.

Ou quase. Ele olhou para Reese, deitada em sua cama em um longo cochilo que já estava durando umas duas horas, provavelmente tentando recuperar o sono que seus pesadelos tinham tirado dela; e então para Marlene, sentada no computador, monopolizando a máquina como costumava fazer. Não que Miguel se importasse. Não entendia como smartphones funcionavam e computadores eram bruxaria de mesmo nível para ele.

Estavam esperando o almoço, Miguel sem vontade de comer mas se sentindo revigorado depois de um cochilo no terraço, e enfim a porta de seu porão se abriu, mas não foi só Cat descendo com as marmitas. Cassian vinha atrás, agitado e um tanto alarmado, e atrás dele, um garoto que Miguel não conhecia, mas era capaz de apostar, era o sexto membro que tinham esperado esse tempo todo.

— Venham cá — Cassian chamou. — Isso é importante. Acorda a Reese.

Miguel não gostou da ordem, Reese precisava descansar, mas soube perceber a agitação no ar. Algo tinha acontecido. Ele a acordou com alguma delicadeza, a balançando no ombro, e a garota se sentou devagar, confusa.

— É o Cassian. Ele tem algo para nós.

Reese concordou, sonolenta, e Miguel foi para a área que chamavam de “sala”, esperando a garota se juntar a eles. Cat tinha espalhado as marmitas na mesa e olhava Cassian com um ar sério, quase desconfiado. Marlene tinha colocado o notebook de lado e também encarava Cassian, mas com muito menos seriedade e muito mais desdém.

Reese mal tinha se sentado em sua cadeira quando Cassian se virou para Moonstar, gesticulando para o time.

— Time, Moonstar, Moonstar, time. Moonstar, diz pra eles o que me falou.

Sem nem dar um segundo para respirarem, então. Tudo bem. Direto aos negócios.

— Vocês tão sabendo da igreja que pegou fogo ontem? — Uma onda de acenos e “ahams” respondeu a pergunta do recém chegado. — Pois é. Ouvi os Novos Mutantes conversando com o Homem de Gelo ontem, não deu pra ouvir tudo porque eu tinha acabado de sair da sala e não ia ficar pageando o corredor igual um idiota até porque isso foi antes deu encontrar o Cassian e saber que deveria espionar alguma coisa, então…

— Moonstar… — Cassian apressou, começando a andar de um lado para o outro.

— Certo, certo… É uma tal “Igreja de Stryker”, presidida por um “Jason Stryker”. O lugar foi feito pra gente se reunir e rezar pra mutante morrer. Falar que a gente é praga do diabo e essas coisas todas. Eles são muito discretos sobre isso, não colocam na fachada do lugar nem nada e não saem distribuindo panfleto por aí, só pra pessoas seletas. Você tem que ter um panfleto e uma recomendação pessoal pra entrar.

Foi Marlene quem reagiu primeiro.

O quê?

— Isso que vocês ouviram. Daí o Cassian falou que precisava de dinheiro, e eu pensei, dá pra pegar a caixinha da igreja… Não é como se eles merecessem ter grana.

— Fizeram uma igreja pra pregar contra a gente? — Reese questionou, soltando uma risadinha sarcástica em seguida. — É o cúmulo. Isso porque nem viram a minha cara, imagina se vissem.

Moonstar, que só agora tinha conhecido a garota e visto os chifres e olhos pretos dela, conseguiu muito rápido perceber a ironia da coisa toda.

— Talvez vejam — Cassian comentou. — Eu acho que Moonstar nos trouxe uma oportunidade excelente. Precisamos roubar essa igreja.

— Cassian… — Cat repreendeu, puxando um par de hashis para perto e abrindo sua marmita.

— Ah, fala sério Cat. Estão pregando pra nossa morte. Tirar uns dólares deles é o mínimo que eles tem que sofrer. E tem mais. É a igreja de Jason Stryker.

A expressão neutra de todos na mesa o encarando de volta deixou claro que ninguém achava isso relevante, e Cassian foi obrigado a aceitar que não deveriam achar mesmo. Era ele quem tinha ficado fissurado com as pesquisas da Arma X e até a noite anterior seu time sequer sabia que o plano dele envolvia vacinas e pesquisas genéticas.

— Elabore — Marlene pediu. Cassian suspirou, e decidiu ir com a versão mais resumida possível.

— Jason Stryker é filho de William Stryker, notório Purificador e um dos responsáveis pela criação do programa Arma X. O programa que eu mencionei ontem como sendo a base pro Projeto Regenerar funcionar. Além de dinheiro, podemos conseguir informações por lá, ou no mínimo um refém. É essencial pro Projeto R sair do papel.

Algumas sobrancelhas erguidas e outros queixos levemente caídos deixaram claro que ele tinha convencido os demais de seu ponto. Era um presente dado de bandeja para eles, seriam burros se não tirassem proveito.

— Eu não discordo. Só acho que não dá pra sair entrando no lugar pela porta da frente, e te conheço bem pra saber que quando você fica com fogo pra fazer algo desse jeito acaba abandonando um pouco do bom senso.

— Ok — ele comentou, virando com um ar sarcástico e um pouco desafiador para Cat. — O que você sugere então?

— Precisamos no mínimo montar uma tocaia. Ver onde estamos nos enfiando antes de sair entrando pela porta da frente.

O que era muito mais fácil de falar do que de fazer. Reese, Miguel e Cat seriam abatidos na mesma hora se chegassem perto do lugar, e mesmo para Cassian, Moonstar ou Marlene, que passavam por humanos, poderia ser complicado arrumar uma recomendação.

— Cat deveria ir — Marlene sugeriu. — Não acho que alguém vá achar estranho um gato sentado na janela.

Razoável. Muito razoável. Mas Cassian olhou para Cat e as sombras atrás dele estremeceram por um instante, uma reação difícil de interpretar, mas fácil de se perceber, não era positiva.

— Não. Não sozinha, é muito perigoso. Eu deveria ir com ela.

— Você é um dos únicos de nós que pode sair por aí sem ser reconhecido, Cassian. Se eles desconfiarem de algo e capturarem você, perdemos a vantagem — Marlene retrucou.

— Ela não vai sozinha.

— Pelo amor, Cassian, eu sou capaz de tomar minhas decisões por conta própria. Eu vou como gato, não vai ter problema nenhum.

— Eu tenho uma ideia — Reese cortou, entre uma garfada e outra de seu macarrão. — E se Marlene enviar outros bichos com ela? Ratos, pombos, o tipo que não é estranho estar na rua ou algo assim e que pode mandar um alerta pra Cat sair correndo se algo estiver errado.

Marlene suspirou. Não era a primeira e não seria a última vez que sentia necessidade de explicar como seus poderes funcionavam, mas ainda assim, a cada vez que acontecia conseguia ser um pouco mais cansativo.

— Eu não converso com bichos, Reese. Eu posso emitir comandos pra ele, mas eles não podem me contar o que viram lá dentro. Se queremos dar um alerta pra Cat, precisamos conseguir ver a igreja em tempo real.

— Hm — Moonstar interferiu, se apoiando sobre a mesa. — E se colocarmos câmeras nos pássaros? Sabe, essas bem pequenas que se esconde em cantos da casa. Teríamos olhos lá dentro e sua amiga aí nem precisaria ir. Quer dizer, assumindo que você diz para bichos aonde ir e que a outra ali vira gato, que foi o que eu consegui entender.

— Isso pode funcionar — Cassian respondeu, agora olhando intrigado para Moonstar. — Marlene, seria possível?

— Seria. Os animais podem não gostar muito, mas é, possível seria. Eu vou ter que ver se eles aceitam isso antes.

— De qualquer forma, eu vou ainda assim — Cat completou. — Sem discussão. Vai ser ótimo ter mais olhos lá dentro, mas se precisarmos entrar de repente ou alguma situação exija reação rápida, eu preciso estar lá. Os bichos da Marlene não são sencientes, são bichos comuns.

— Eu acho…

— Não estou pedindo sua permissão, Cassian. Procurem as câmeras num site barato, e vamos ver quantos dólares conseguimos juntar. A igreja ou vai ser reformada ou vai acabar se mudando pra outro lugar. Quando isso acontecer… estaremos prontos.

[...]

Como Cat tinha mencionado, e como todo mundo já imaginava, não demorou muito para a igreja ressurgir. O problema maior foi encontrá-la. Depois de terem sido expostos graças ao incêndio, Stryker pareceu decidir que era prudente se esconderem ainda mais. As referências aos mutantes tinham desaparecido do site da igreja para qualquer um que tivesse ouvido falar deles agora não desconfiar do real propósito do local. Não queriam chamar atenção. No canto inferior direito da página havia um ícone de mapa, levando para a nova localização da igreja, e o site indicava que qualquer um que quisesse se juntar a eles seria aceito como um dos “convidados especiais de Deus à nossa casa”.

Um bando de merda empilhada em cima de mais merda na opinião de Marli, mas ainda assim, ali estava ela, se sentando naquela cadeira e vigiando o mapa do Google para tentar analisar o prédio, as janelas e suas possíveis entradas. Stryker tinha se realocado do Soho para a Bowery — claramente estava tentando ficar perto de quem tinha dinheiro — e agora para um prédio um pouco maior, o que fez Marlene se perguntar se a igreja estaria crescendo também. Isso não seria nada bom. O novo local também tinha dois andares como o anterior, mas tinha o dobro da largura. A maior parte das janelas ficava bem no alto, e pareciam o tipo de lugar onde um pombo poderia pousar com discrição. Para Cat, seria mais fácil ficar em uma janela também, mas a garota estava decidida a entrar lá dentro nem que ficasse perto da porta. A discussão ainda estava acontecendo entre ela e Cassian, mas Marlene não se importava com onde Cat ia sentar. Tinha que se preocupar com seus pássaros.

Felizmente, as câmeras não tinham sido caras, e assim, um domingo depois, a equipe estava reunida no terraço do restaurante, já na parte da noite, prontos para começar a tarefa.

— Eu ainda não gosto disso — Cassian resmungou, pegando uma das fitas onde tinham prendido câmeras. Haviam três ao todo, deveria ser o suficiente. Esperava que fosse.

— Já falei que não tem que gostar — Cat retrucou, tirando a jaqueta e começando a desamarrar as botas.

Ela precisava parecer um gato de rua, então não ia poder sair em sua adorável roupa preta de gatinho para essa missão. A garota respirou fundo, começando a encolher e crescer pêlos pretos, ficando cada vez menor, até se tornar um gato completo sentado em cima do monte de roupas que estivera vestindo antes.

Cassian suspirou, mas pareceu desistir de discutir. Marlene chamou dois pombos da rua, que pousaram aos lados de Cat, dando passinhos desajeitados no chão. Não pareciam felizes, e também, pudera, com Cat os encarando e virando a cabeça daquele jeito.

— Nem pense nisso — Marlene advertiu. — São seus aliados hoje.

A resposta foi um miado.

Reese ajudou Miguel a amarrar as fitas com câmeras nos pescoços dos pássaros, e em Cat colocaram um ponto no seu ouvido e prenderam a câmera embaixo do pescoço, com fita, escondendo ao máximo no meio dos pelos dela. Cat tinha pelo o bastante para despistar a fita fina e cobrir bem a câmera, felizmente, mas ela teria de se sentar em uma posição bem específica para conseguirem ver algo.

— Ninguém vai reparar em um gato sentado na mesma posição por horas, vai? — Miguel questionou, algumas flores laranjas aparecendo em sua cabeça.

— As pessoas não prestam atenção em nada em culto de igreja maluca, ficam em êxtase. Ninguém vai ver.

Miguel decidiu acreditar que Reese tinha razão.

Amarraram as três câmeras e Moonstar e Marlene as sincronizaram no computador, começando a transmissão ao vivo. Tinham bateria nelas para algumas boas horas, então isso não seria problema. Tudo estava pronto. Agora era torcer para funcionar.

— Estamos funcionando — Marlene anunciou, mostrando as três janelas no computador com as visões da câmera. — Só a câmera da Cat vai ter áudio, pra não causar interferência. O culto começa em meia hora, são vinte minutos a pé daqui até lá. Está na hora de ir.

A garota balançou uma mão no ar, e os dois pombos levantaram vôo. Cat olhou para eles uma última vez, caminhando até o grupo e ronronando um pouco contra o tornozelo de Cassian. Ela não precisava falar para deixar claro que era sua forma de dizer que ia ficar tudo bem. Então, Cat pulou para o beco ao lado, e sumiu de vista.

[...]

Andar pela cidade como um gato tinha vantagens e desvantagens. Por um lado, Cat não gostava do quão pequena se sentia vendo os tornozelos das pessoas passando do seu lado, mas por outro corria tão rápido que ninguém conseguiria pará-la nem se quisesse. Os vinte minutos se tornaram dez sob suas patas ágeis, e ela só parou quando já estava de frente para a porta do lugar.

Ao lado, havia um restaurante e um beco. Cat entrou no beco, pulando em cima da lata de lixeira e esperando.

“Bastet, os pombos estão posicionados”, ela ouviu a voz de Cassian no ponto em seu ouvido. “Lembre-se, um miado para sim, dois para não. Está tudo bem aí?”

Cat miou uma vez.

“Já sabe como vai entrar?”, agora era Marlene. Agora dois miados. “Tudo bem, espere aí. Depois que o culto começar vai ficar mais fácil, os pombos já tem visão de dentro da igreja. Te avisamos quando for seguro.”

Um miado. Então Cat esperou.

Ela conseguia ouvir muito bem o que acontecia lá dentro. Por hora eram apenas burburinhos e conversas sobrepostas, nenhum microfone ou som mais alto indicando que algo tivesse começado. Levaram ainda alguns minutos para a situação mudar. De repente, aplausos, e então uma voz mais alta que as outras se fez ouvir.

— Boa noite, irmãos e irmãs em Cristo!

Cat se sentiu enojada. Tinha conhecido uma boa quantidade de mutantes cristãos e tinha certeza de que todos eles rasgariam a cara de Jason se tivessem a chance. E não seria capaz de discordar. Quanta falta de respeito…

“Talvez agora eu consiga trazer Calavera de volta”, Cassian comentou, com uma risadinha sarcástica.

“Quem é Calavera?”

“Não importa Narciso, vamos prestar atenção.

Cat começou a caminhar de um lado para o outro sobre a lixeira. Jason tinha começado seu discurso, falando sobre fé, salvação e “tomar cuidado com a obra do diabo”, o que claramente seriam eles, mas a palavra mutante ainda estava guardada em sua boca.

Cat miou, em tom interrogatório.

“Só mais um pouco, ainda tem gente distraída”, Moonstar respondeu.

Ela tentou não se frustrar. Tinha concordado com aquilo e com seguir os termos deles desde que pudesse ir, e ela mesma sabia ser sensato. Não podia ser descuidada, mas ainda assim a ansiedade a comia por dentro.

E então, aconteceu.

— …maculando a obra de nosso Deus com sua marca. A marca do demônio, a marca do X infectando as pessoas e criando esses mutantes a serviço da besta!

A igreja irrompeu em gritos. Ela ouviu a voz de Marlene em seu ouvido, um “Agora!” ansioso, e pulou da lixeira para o chão, se esgueirando pelo canto da porta e se sentando o mais perto que podia da rota de fuga.

E Reese de fato tinha razão. A atmosfera de culto estava tomando conta do lugar, colocando as pessoas ali em um estado de estupor, quase em outra realidade. Jason gritava contra os mutantes, os fiéis respondiam amém. Cat podia jurar que viu um chorar. Ela sabia que tinha que virar a cabeça, filmar os cantos, procurar saídas, mas a situação toda parecia saída direto de um programa de televisão com pastor exorcizando fiel no palco. Só faltava o fiel e o exorcismo, algo que Cat não queria ver.

O lugar era maluco, e cheio de gente. Seria difícil invadirem, Cat tinha certeza, mas não impossível. Precisariam analisar qual era a extensão dos poderes de Reese, seria essencial. A manipulação emocional ali dentro era muito forte.

— …e agora, meus irmãos e minhas irmãs — Jason continuou, voltando para o altar depois de mais uma seção de gritos, ordens e pregações. — Deus é forte. Deus cuida de seus filhos, e envia a eles os meios para se defenderem das ameaças do diabo!

Cat se levantou. Houve uma mudança instantânea na atmosfera do local. Todos estavam calados, e muito concentrados. Ela ouviu resmungos no ponto em seu ouvido, mas queria ver o que estava acontecendo. Deu alguns passos para o lado, o bastante para sair de trás de algumas cadeiras e ter visão do altar.

Na mesma hora, as portas da igreja começaram a se fechar. Um dos ajudantes foi até o pastor, entregando a ele uma bandeja em um pequeno pedestal, coberta com uma caixa e um paninho.

— Obrigado — Jason agradeceu, colocando o pedestal sobre o altar, e tirando o paninho e a caixa.

E ali estava, um perfeito exemplar de cristal de terrígeno.

“Porra! Bastet, saia daí!”

Cassian não precisava pedir duas vezes, mas as pessoas começaram a se aglomerar naquele momento e, tendo com a porta da igreja fechada ela nem mesmo sabia para onde correr. Cat acabou um pouco perdida entre todos os tornozelos se movendo ao seu redor e não conseguia sequer saber em que direção ir.

— Que venha a nós, irmãos e irmãos, a bênção de nosso Senhor!

O local irrompeu em “améns”. Cat se espremeu entre os tornozelos, ouvindo reações surpresas das pessoas ao se darem conta de que havia um gato ali dentro, mas não se importou. Uma gota de água caiu sobre o cristal de terrígeno no mesmo momento em que ela, desesperada, saltava para fora da confusão de pés ao seu redor, procurando desesperada por uma saída.