Irmandade de Mutantes: Supremacia Marvel 717 3
4 Falsa Paz
Todos os últimos meses que Marlene tinha passado viajando de um lugar para o outro a fizeram começar a apreciar muito rápido os pequenos confortos de uma casa fixa. Ter uma cama onde dormir era muito bom e, em único dia, já tinha feito milagres pelas suas costas. Cather aparecia três vezes ao dia com porções de comida trazidas do restaurante para os três, tinham água encanada no banheiro e até uma televisão e acesso ao wi-fi. Se ela, que tinha passado um tempo morando nas ruas e em hotéis quando o dinheiro dava, considerava uma acomodação de luxo, mal conseguia pensar no que significava para seus novos colegas.
Não tinha conversado muito com eles. Reese e Miguel passavam a maior parte do tempo juntos, sentados no sofá ou nas camas do quarto, conversando em murmúrios sobre coisas as quais Marlene preferia não saber. Conhecia a história dos Morlocks tão bem quanto qualquer outro com acesso à internet nos últimos anos, e se os dois sobreviventes vinham conversando em sussurros pela casa, ela conseguia imaginar o quão gráfica a conversa poderia ser. Não, não queria mesmo fazer parte.
Até porque, ela tinha seus próprios problemas com os quais se preocupar. Cassian a havia encontrado depois de seu acidente no zoológico vir a público em reportagens de jornal, e embora isso significasse que tinha conseguido um grande apoio e uma boa estabilidade para poder continuar buscando seus objetivos em troca de ajudar Cassian com os dele, também significava que a notícia existia e ele não tinha sido o único a ver. Desde o lançamento da reportagem sobre a “aberração mutante” que tinha “atiçado um tigre contra um veterinário”, ela havia visto sua foto rodando de cabo a rabo como procurada, em parte por várias pessoas quererem sua cabeça depois do ocorrido, e em parte por Ed, seu pai, procurando-a. Por que caralhos ele a estava procurando? Certamente para entregá-la para a polícia ou alguma palhaçada do tipo.
Ela bufou, vendo que a situação não tinha melhorado muito. Tinha criado uma conta falsa em algumas redes sociais para poder fiscalizar o movimento, mas a sociedade estava tão inflamada contra os mutantes que percebeu que seu rosto não ia sumir tão cedo. Uma busca por seu nome revelava resultados demais, e uma busca mais geral ainda retornava seu rosto.
Marlene suspirou, se jogando contra o encosto da cadeira e encarando a tela do computador, como se esperasse que algo fosse mudar magicamente. Não ia. O mundo não concedia esse tipo de sorte a gente como ela, tinha aprendido isso há muito tempo, quando sua mãe morreu.
Sua mãe… Marlene abriu outra guia no navegador, os dedos parando na barra de busca, se perguntando exatamente o que digitar. Sabia que todo mundo tinha seu motivo para estar ali, mas não sabia se Cassian podia mesmo ajudar com o seu como tinha prometido. Não que se importasse; aceitara o convite por acreditar que alguém tinha de levar a justiça a quem vinha atacando seu povo, e se os X-Men estavam sendo bunda mole demais para isso, então ela estava disposta a se oferecer. Mas… se houvesse uma chance…
Ela digitou o nome da mãe na barra de busca. Não se surpreendeu ao ver que, assim como nas últimas vezes nas quais tinha feito isso, as notícias mais recentes eram sobre ela, e não sua mãe, e as demais eram de anos atrás, quando o atentado tinha acontecido. Se ainda havia alguma investigação ocorrendo, o que ela duvidava, ninguém estava se importando o bastante para noticiar.
— Idiotas. Ninguém se importa, importa?
A pergunta era retórica e, para Marlene, a resposta era óbvia. Ela fechou o notebook, irritada, mais ou menos na mesma hora em que ouviu a porta do quarto se abrindo e o cheiro familiar de comida vietnamita entrando no aposento. Ela conferiu o relógio. Estava mesmo na hora de jantar.
Cather colocou as porções em cima da mesa, e Marlene percebeu se tratarem de cinco em vez das três usuais.
— Cassian está vindo? — Ela perguntou, cruzando os braços e girando na cadeira para ficar de frente para a garota.
— Sim.
— Ele vai finalmente dizer o que quer da gente?
Cather levantou os olhos da mesa onde estava arrumando os talheres e encarou Marlene por um instante. Mais uma vez, a mutante sentiu um arrepio esquisito, uma pressão atrás da cabeça como se seus poderes estivessem tentando acessar a mente de Cather, mas algo os impedisse de fazer isso. Ela se remexeu na cadeira, desconfortável com a sensação, e desviou o olhar de Cat, esperando que isso fizesse a sensação sumir. Ajudou, mas não resolveu por completo.
— Não sei — a garota respondeu. — Cada um tem seu motivo para estar aqui. Se ajuda quem puder se ajudar.
Isso Marlene já tinha percebido ser bem verdade. Reese e Miguel estavam indo muito bem nesse quesito. Ela se perguntou se, quando chegasse sua vez de precisar de alguém, algum deles estaria disposto a ajudá-la a procurar papéis em delegacias de polícia ou fazer outras coisas de licitude igualmente questionável. Não fazia ideia da resposta.
Cassian não demorou muito para aparecer. Ele chegou com os olhos pretos e com sua sombra se mexendo de forma desencontrada atrás, como se estivesse pensando para copiar os movimentos dele em vez disso simplesmente acontecer. Era estranho. Diferente, mas interessante. Poderia ter perguntado algo, mas já tinha decidido que só precisava se preocupar com seus problemas e com o que quer que achasse que devia se meter. Como por exemplo, o grande plano de Cassian, se ele resolvesse dividi-lo com eles.
— E aí — ele cumprimentou, pegando sua marmita e se sentando à mesa.
Reese e Miguel vieram dos fundos nesse momento, puxando cadeiras para si também, e Cat tirou a marmita das mãos de Cassian, pegando outra na mesa e a entregando para ele.
— A sua é essa. Sem pimenta.
— Obrigado.
Marlene franziu a testa, se sentando em sua cadeira devagar, observando Cassian abrir a marmita. Tinha percebido que ele e Cat eram conhecidos de longa data, até por ele poder levá-los até o restaurante como um lugar de confiança para ficar, mas aquela pequena interação a fez se perguntar o quanto de fato eles se conheciam e, caso a resposta fosse “muito”, se ela teria alguma informação a mais que o resto da equipe poderia estar perdendo.
Cat se sentou, e ao perceber que a garota iria entrar em seu campo de visão, Marlene parou de encarar. Não queria que Cather percebesse as dúvidas passando por sua cabeça; não gostava das pessoas se metendo em suas questões, e também ajudava a evitar a reação estranha de seus poderes. A essa altura, todos já estavam abrindo suas marmitas para comer, e Marlene se perguntou se enfim saberia do que se tratava a visita súbita de Cassian. Aparentemente, sim.
— Então, eu queria saber como vocês estão se acomodando — ele começou, pegando os talheres e começando a comer. Marlene decidiu que não queria responder primeiro, e voltou a atenção para a sopa à sua frente.
— É perfeito — Reese respondeu, o que à primeira vista parecia um exagero para Marlene, mas não pela primeira vez desde que tinham chegado ali, ela tentou se lembrar de onde a garota estava vindo. Para ela, provavelmente era perfeito mesmo. — E a comida também é ótima.
Miguel concordou com a cabeça, mastigando uma porção um pouco mais comedida de macarrão. Ele não parecia ter muito apetite, mas saía com frequência para o teto do restaurante durante o dia. Marlene estava convencida de que ele precisava fazer fotossíntese.
— Ótimo. Muito bom. E como vão… as outras coisas?
Marlene abriu um sorriso pequeno de canto. Era isso então que Cassian queria ali. Tudo bem, também era isso que ela queria. Parecia uma boa ideia tratar do assunto o quanto antes.
— Ainda estou pesquisando um pouco — Marlene comentou. — Deixarei vocês saberem se puderem fazer algo.
— E vocês? — Cassian perguntou, se virando para os outros dois.
Reese trocou um olhar breve com Miguel, e Marlene percebeu naquele gesto simples como estava certa. Eles vinham mesmo discutindo sua situação um com o outro. E, realmente, ela não queria saber os detalhes relacionados. Esperou que eles não fossem começar a discursar alto sobre qualquer coisa do passado deles. Não queria vomitar em cima de sua sopa.
— Miguel e eu vamos sair depois da janta, se não for problema — Reese respondeu. — Tem algo que queremos checar. Achamos melhor fazer esse tipo de coisa à noite, sabe? Pra evitar atenção indesejada.
— É uma decisão sensata. Espero que achem o que estão procurando. Cat?
— Se tiver algo, você vai saber.
Uma resposta direta e até um pouco atravessada. Felizmente, Cassian não pareceu se importar, apenas dando de ombros e voltando para sua sopa. Depois disso, a sala entrou em uma situação de silêncio um tanto constrangedora, preenchida apenas pelos sons de sopa sendo sorvida das colheres. Marlene olhou para Reese e Miguel, se perguntando se eles estariam tão inquietos quanto ela estava agora, mas os dois sabiam o que queriam fazer em seguida. Era provável que não sentissem nem metade da ansiedade e confusão que ela sentia agora. E então, porque a inquietação começou a incomodar demais, Marlene decidiu se pronunciar.
— Pensei que você tinha um grande plano que precisava de uma equipe — Marlene disse. — Algo para ajudar os mutantes, sabe? Para resolver os meus problemas eu consigo me virar.
Cassian levantou o rosto, encarando Marlene com um sorriso convencido. Ele se jogou para trás na cadeira, se recostando contra o encosto e cruzando os braços.
— Algo está te incomodando?
— Talvez eu esteja um tanto confusa com a circunstância atual. Além do mais, pensei que seríamos uma equipe de seis, e a menos que eu não saiba contar…
— Exato — ele respondeu, se voltando para seu prato de comida. — Seis.
Marlene sentiu o olho tremer um pouco em nervosismo, e em um surto de poder ela sentiu os pombos na esquina acima do porão começarem a voar em círculos, meio desnorteados. A garota respirou fundo, tentando desligar sua influência dos coitados dos pássaros, e virando a atenção para Cassian. Ele tinha um jeito detestável de lidar às vezes, mas até agora não tinha deixado de cumprir nenhuma promessa. Só estava demorando um pouco com a outra.
— E então? — Ela perguntou, sua voz saindo um pouco irritada por ter de sequer fazer a pergunta. Devia ser óbvio a essa altura o que ela queria saber, mas Cassian parecia levar gosto em vê-la se esforçando daquele jeito. Ou ao menos, era o que o sorriso no rosto dele indicava.
— Ainda não falei com ele. Ele levou uma bomba de terrígeno na cara e está internado no Instituto. Até eu conseguir estabelecer contato, o meu “grande plano” vai ter que esperar. Então vocês deviam usar o tempo para vocês.
— Puts… — Miguel pareceu solidário. — Como ele está?
— Espera — Marlene interrompeu, piscando os olhos indignada e parando com sua colher a meio caminho da boca. — Você nem falou com ele ainda? E tem essa certeza toda de que ele vai entrar?
— Ele vai, confia — Cassian respondeu, pegando mais uma grande colherada da sopa. — E vai ser melhor ainda porque ele vai estar no Instituto. A gente vai poder colher muita informação através dele.
Confia. A melhor resposta que ele podia dar era “confia”. Marlene respirou fundo, bebeu sua sopa e tentou focar a cabeça no que importava. Tinha um teto, comida de graça e estava suficientemente escondida da polícia e dos anti-mutantes procurando por ela. Se Cassian queria demorar com o plano dele, por mais que ela quisesse fazer algo, não adiantava espernear. Podia acabar perdendo o local seguro.
— Precisamos mesmo? — Reese questionou. — De informações do Instituto, no caso.
— Qualquer informação é sempre bem-vinda, eu gosto de saber das coisas — Cassian respondeu, depois de mais uma grande colherada. — Além do mais, eu já comentei que algumas coisas que vamos fazer podem não ser exatamente cem por cento éticas. Ou ao menos, não aos olhos dos escoteiros do Drake. Se eles quiserem se meter, eu quero saber antes.
E ficou claro que ele não tinha mais nada a dizer sobre o tópico. Marlene encarou sua sopa antes de pegar uma colher e voltar a comer. Saber que teria tempo para cuidar de seus próprios problemas porque a equipe ainda não estava completa era ótimo… Exceto a parte na qual ela não sabia por onde começar.
[...]
Miguel engoliu em seco, as mãos fechadas em um punho apertado nos bolsos, encarando a tampa de bueiro no chão à sua frente. Eram três da manhã. Ele e Reese tinham saído pelos fundos do restaurante, ele com um moletom com capuz erguido e ela com um lenço amarrado na cabeça, escondendo os chifres. Àquela hora, não esperavam encontrar muita gente nas ruas, mas ainda assim o poder dela acabou sendo muito útil para detectar se estavam de fato sozinhos pelo caminho e, apesar de estarem, ele não conseguia deixar de sentir uma inquietude, se manifestando no nascimento de algumas ervas daninhas entre seus cabelos, as quais ele tentou afastar com as mãos sem muito sucesso.
— Ora ora, se não estamos voltando pra chacina — Reese disse, um sorriso se abrindo em seu rosto com uma nota trêmula.
— Quanto antes lidarmos com isso, melhor. Por favor.
— Ok. Quando quiser.
O garoto respirou fundo, estendendo as mãos na direção do bueiro. Lentamente, ramos grossos começaram a crescer por baixo da manga de seu moletom, avançando em direção à tampa. As plantas foram se enfiando pelos buracos e gretas que encontravam, se enrolando e se prendendo na tampa aos poucos até estar toda envolvida por elas. Miguel então puxou as vinhas para trás, arrastando a tampa consigo e abrindo a entrada do bueiro para eles.
— Legal — Reese comentou com um sorriso agradecido, avançando para as escadas do bueiro e começando a descer. Miguel, ainda se perguntando o que estava fazendo ali, começou a descer atrás.
Não tinha nada a ganhar voltando ao local. Seus problemas estavam muito longe dos esgotos; a história dele por lá tinha se encerrado. Mas não para Reese. E Miguel não sabia se era por ela ser a primeira Morlock que encontrava em tanto tempo, mas vê-la tão preocupada com a amiga, sabendo o que ela teria passado… ele simplesmente queria ajudar. Então quando Reese mencionou voltar ao esgoto para procurar por pistas, Miguel se ofereceu antes mesmo de pensar no que estava falando.
Agora era tarde para voltar atrás. Poderiam encontrar um corpo lá, pelo amor de Deus, mas mesmo assim, já tinha feito sua promessa. Ele desceu as escadas atrás dela, usando as vinhas mais uma vez para colocar a tampa do bueiro no lugar. Reese tirou o celular do bolso, ligando a lanterna, e os dois começaram a avançar pelo corredor. Miguel ficou chocado ao notar como tantas coisas pareciam as mesmas — o cheiro, a iluminação fraca e a umidade desconfortável — causando nele um efeito bastante depressivo. Céus, tinha morado ali por anos. Os dois deixaram os sons dos seus sapatos preencher o ar, pisando em poças de água nojenta de profundidades diferentes, e aos poucos, Miguel sentiu as flores de seus cabelos irem murchando.
Devia ter imaginado que isso aconteceria. Seus poderes nunca tinham sido os mais impressionantes ali embaixo, o que fazia muito sentido uma vez que tudo que crescia naquela iluminação e com aquela qualidade de água era um musgo bem sem graça. E certamente o seu humor naquele momento não estava ajudando.
— Preciso te dizer — ele murmurou, olhando em volta um pouco nervoso. — Meus poderes não são os melhores aqui embaixo. Pouca luz. Água nojenta. É bem limitado. Eu tinha me esquecido.
E tinha, de fato. Deixar os esgotos o tinha feito tão bem que se acostumara ao quanto a fotossíntese o ajudava. É claro, tinha tomado o banho de Sol habitual de manhã, então não deveria sofrer muitos efeitos andando ali embaixo apenas um pouco, mas as plantas não gostavam dali. Era difícil fazê-las crescer num lugar daqueles, e o que crescia costumava desanimar e murchar muito rápido, independente de quanta energia ele colocasse na planta. Mas, em seu nível de habilidade atual, não havia muito o que pudesse fazer a respeito.
— Tudo bem, não estamos esperando problemas — ela respondeu, virando uma curva para a direita e conferindo algo no telefone.
Era verdade, não estavam esperando problemas. A questão era que geralmente os problemas os encontravam ainda assim, independente de serem desejados ou não. Vinha com o gene, certamente.
Os dois caminharam em silêncio por uma boa parcela de tempo. Não demorou para que ele percebesse como sua noção de tempo voltou a ser perturbada lá embaixo. Andaram por uma hora inteira, seguindo o caminho em direção ao antigo acampamento, e a falta de noção de quanta distância isso realmente representava, uma vez que os corredores pareciam todos iguais, também atrapalhava Miguel de entender há quanto tempo estavam ali. Além disso, o silêncio era incômodo, mas a cada passo mais para perto do acampamento, mais um único assunto se tornava proeminente em seus pensamentos, e se pudesse adiar ao máximo falar sobre isso, preferia adiar. Eventualmente, sabia, seria inevitável.
Pararam mais meia hora depois, ao lado de um cruzamento dos túneis. À direita, pintado na parede com uma tinta branca já bastante suja e gasta pelo tempo, estava uma letra M, quase imperceptível, mas legível o suficiente para quem já sabia que ela estaria lá. Como eles.
Miguel sentiu o coração saltar com a familiaridade da situação. Podia não ter escolhido morar nos esgotos, podia ter odiado cada segundo tendo de viver neles, mas gostando disso ou não, por muito tempo o local tinha sido sua casa, e os mutantes morando com ele, sua família. Tinham recebido a ele e a sua mãe sem fazerem perguntas, e os acolhido sem nenhuma ressalva. Caminhar por aqueles túneis e parar ao lado daquele corredor era quase como caminhar de volta para casa. Quase.
A outra parte de Miguel sabia o que esperava do outro lado daquela curva. Ele se perguntou como o local estaria, se alguém teria se importado em lavar o sangue das paredes e do chão dos esgotos, se alguém teria voltado para procurar pessoas ou objetos deixados para trás. Não sabia se seria mais assustador encontrar o local inteiramente vazio ou da mesma forma na qual o tinham deixado. A perspectiva fez os pelos na nuca de Miguel se arrepiarem e, de repente, ele não tinha assim tanta certeza de que conseguiria seguir em frente.
— Olha só pra isso — Reese murmurou, a luz da lanterna iluminando o M da parede de cima a baixo, e ela o analisou como se o visse pela primeira vez. — Que dejá-vù…
Dejá-vù era uma forma bem simplista de descrever o sentimento de ansiedade que passara a tomar conta de Miguel. Não conseguia entender. Seu coração estava disparando, as palmas das mãos suando de leve e a parte de trás das coxas arrepiando devagar. Era um ataque de pânico? Não sabia, mas flores roxas começaram a crescer descontroladas em sua cabeça, o que poderia ser um sinal. Provavelmente era, não era?
De repente, Miguel viu Reese congelar no lugar. Ela, que antes estava analisando a pintura com algum interesse, parou, o celular em mãos e encarando a parede em silêncio. Miguel se perguntou como era possível ela estar tão tranquila. Sabia que a situação toda era perturbadora para ela também, ao menos um pouco. Tinha ouvido, mais de uma vez, a garota choramingar enquanto dormia, algumas vezes até acordar em meio a seus pesadelos. Não precisava ser um gênio para saber sobre o que eram os pesadelos dela. Era provável que parecessem muito com os dele.
— Você está bem? — Reese questionou, se virando para ele. Os olhos vermelhos de escleras pretas o encararam, analíticos, e ele se perguntou se a pergunta era retórica. Não queria responder; já era humilhante o bastante estar em vias de desabar no corredor, não precisava confirmar isso em voz alta.
Felizmente estava bem visível em seu rosto o tamanho do desconforto, e Reese estendeu a mão, tocando o rosto dele e fechando os olhos. Devagar, Miguel começou a sentir os sintomas desaparecerem. Primeiro foi o suor, depois os arrepios. Aos poucos, até as flores roxas em sua cabeça foram desaparecendo, dando lugar a margaridas brancas. Miguel respirou fundo, aliviado, e Reese abriu os olhos, agora o encarando fundo nos olhos dele.
Era uma sensação estranha, ele decidiu, ter as emoções controladas por Reese. Ela conseguia mudar como ele se sentia, mas não como pensava, de forma que o medo e o receio ainda estavam ali em sua cabeça, mas escondidos atrás de uma barreira artificial feita basicamente de uma sensação de insensibilidade. Sim, estava com medo de virar a curva e do que iria ver lá, mas não se importava. Não era nem mesmo coragem — era apenas uma capa de indiferença jogada sobre seus sentimentos originais.
Era possível dizer onde seus pensamentos acabavam e onde os sentimentos artificiais que Reese tinha colocado nele começavam, mas não era possível resistir a eles, por mais que sua mente continuasse tentando, o cobrindo de pensamentos desesperados e receios infundados. Não importava. Tudo ia ficar bem. Era a única coisa que ele conseguia sentir.
Reese soltou a respiração presa de uma vez, tirando a mão do rosto de Miguel e pigarreando em seguida. Havia um leve tom rosado nas bochechas dela, algo similar ao que acontecia com alguém depois de correr por algum período de tempo. Cansaço, Miguel percebeu. Não a conhecia tão a fundo, e se perguntou o quão cansativo seria para ela usar uma dose tão pequena de seus poderes para ajudá-lo daquela forma. Ele abriu a boca, a fim de formular a pergunta, quando se deu conta do que estava acontecendo de fato.
— É por isso que você não está surtando, não é? Está manipulando seus sentimentos?
A garota franziu a testa, cruzando os braços e se virando de costas para ele. Parecia nervosa. Não havia sido essa a intenção de Miguel com o comentário, e ele se preocupou de ter magoado os sentimentos da garota logo antes de entrarem no local provavelmente mais traumático de suas vidas. Isso certamente não ajudaria em nada.
— Do que te importa saber? — Ela perguntou, pegando o telefone de novo e acendendo a lanterna mais uma vez. Parecia pronta para marchar para dentro do acampamento sozinha, e Miguel sentiu que isso seria uma ideia ruim.
Ele segurou o ombro dela com delicadeza antes que ela fugisse, o bastante para fazer a garota se virar para ele.
— Obrigado por fazer isso por mim — agradeceu, esperando que isso fosse o suficiente para ela desfazer a barreira protetora a seu redor.
Foi. Reese descruzou os braços, a postura relaxando um pouco e o rubor de seu rosto aumentando um pouco, sutil, mas visível em sua pele muito pálida, mesmo à meia-luz de sua lanterna.
— Não ajuda nada ter você em pânico agora — ela respondeu apenas, parecendo não se importar muito em retribuir o agradecimento. — Bem, vamos logo com isso, ok? Quanto antes acabarmos, antes voltamos pra casa.
Voltar para casa, no porão do restaurante. Não ali, onde sentia que tinha de fato voltado. Miguel sentiu a bile se remexer no estômago, mas agora não tinha o que fazer. Ele se concentrou naquela camada de tranquilidade falsa colocada por Reese por cima de seus pensamentos, tirou o próprio celular do bolso, ativou a lanterna e olhou para a garota.
Sem dizer nada, deram as mãos, o aperto de ambos bem mais forte do que provavelmente precisava ser, cada um buscando mais apoio na companhia que o outro. Reese deu o primeiro passo, e os dois viraram o corredor.
Miguel tinha se prendido tanto entre as possibilidades de tudo estar como antes ou não haver mais nada para trás, que não considerou a possibilidade intermediária: só estava ali o que tinha sobrado do evento. Não havia nenhum corpo no local, para alívio de Miguel, mas havia várias outras coisas. A primeira era um par de fitas policiais amarela e preta presas, atravessando toda a plataforma onde o acampamento ficava para manter visitas longe. Atrás das fitas, o local parecia um cenário abandonado de filme de terror.
Havia vários pequenos pertences espalhados pelo chão, como bolsas de maquiagem, bonecos e alguns pares de sapatos. A maior parte das barracas estava no mesmo lugar, intocada, com uma ou outra tendo se desfeito e sendo agora um emaranhado de barras de metal e coberturas de lona no chão. O cenário já era muito desolador só pela atmosfera de abandono, mas era ainda pior ver manchas de sangue aqui e ali, por cima das barracas, dos objetos, no chão, até na parede. Miguel fechou os olhos, respirando fundo e vendo o rosto da garota de traje vermelho em sua frente, vendo as facas de cristal voando e a expressão de ódio absoluto dela enquanto fazia o que tinha ido fazer.
Ele engoliu em seco, agradecendo mais uma vez pela cortina de tranquilidade artificial em sua mente e seguindo Reese para o acampamento, saltando as faixas amarelas com ela.
— O que estamos procurando? — Ele perguntou, pensando que falar seria melhor para terminar de afastar quaisquer pensamentos ou memórias intrusas de sua cabeça. Podia até estar tranquilo, mas assim mesmo não queria pensar naquilo tudo.
— Não sei… — ela respondeu, caminhando pelo local e olhando em volta. — Alguma pista, se houver.
Para Miguel, que mal tinha trocado alguns bons dias com Azalea, seria muito difícil reconhecer uma pista, então decidiu caminhar atrás de Reese, esperando que seu apoio moral fosse o suficiente. Agora que já tinha ido até ali, começou a se arrepender. Quando saíssem de lá, quando os poderes de Reese parassem de atuar sobre si, tinha certeza de que o horror da cena o alcançaria. Não estava ansioso para isso.
— Então… — Miguel decidiu puxar conversa. Mudar de assunto, insistir em não focar na cena ao seu redor. — Você tem mais alguém além dessa amiga?
Reese fez uma pausa, virando a lanterna para o lado antes de responder.
— Não. Só ela. Você?
Ninguém. Não mais.
— Eu tinha minha mãe. O terrígeno levou ela.
— Eu sinto muito…
— Eu também.
Fazia apenas alguns meses desde que a tinha perdido, mas a morte dela acontecera tão pouco tempo depois do massacre dos Morlocks que Miguel não achava que tinha conseguido processá-la. Não por inteiro. E nem sabia se queria. Talvez fosse mesmo melhor não pensar muito sobre.
Estavam chegando no centro do acampamento quando Reese parou. Miguel parou ao lado dela, olhando para onde a luz do celular dela apontava: uma boneca da Garota Marvel jogada no chão ao lado de uma mancha onde antes tinha estado uma poça de sangue.
— Não acredito…
— O quê? O que foi?
Reese se abaixou, pegando a boneca devagar e a girando na mão.
— É… É isso. É da Azalea.
— Então… Ela não voltou aqui? — Miguel perguntou, e Reese não disse nada a princípio, apertando a boneca nas mãos. — Reese…
— Sempre que ela estava com medo ou preocupada com alguma coisa, ela pegava a boneca… Ela dizia que um dia os X-Men iam achar a gente. Ninguém aqui queria ir pro Instituto, ou a gente poderia ter ido, não é… Mas…
— Mas também não queríamos estar aqui.
— É…
Miguel esperou um pouco, observando Reese com a boneca em mãos, pensando se aquilo era ou não o que a garota estava procurando. Por fim, Reese a guardou na bolsa que carregava, caminhando em direção à saída, e Miguel se apressou para segui-la.
— Azalea teria ficado com a boneca se estivesse assustada… A menos que tivesse fugido com pressa demais para buscá-la na barraca. Ela pode estar viva, Miguel.
Um pouco esperançoso? Talvez. Mas poderia muito bem ser verdade.
— Então vamos continuar procurando.
Reese olhou para Miguel, um sorriso se abrindo em seu rosto.
— Obrigada. Isso não deve ter sido fácil.
— Com você, foi menos pior.
Era muito útil, afinal, ter uma onda de tranquilidade permanente correndo pela sua mente em uma situação tensa como aquela. Os dois passaram pelas faixas de contenção do acampamento e voltaram a seguir pelos túneis, caminhando em direção à sua nova casa.
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