Na maior parte do tempo, havia silêncio. O limbo entre a consciência e inconsciência era um local curioso de se navegar, especialmente naquela situação específica na qual Moon estava, querendo acordar, mas ainda sem conseguir fazê-lo. Nesse período, foi acompanhado pelo som de um bipe constante e às vezes algumas vozes bem baixas, falando sobre algo o qual ele não conseguia se focar o suficiente para entender. Em dado momento, as vozes se tornaram mais nítidas e ele pôde identificar o que diziam, e embora fosse um progresso, algumas coisas ainda não faziam muito sentido.
— Olha os vitais dele — disse uma voz masculina. — Deve estar acordando. Talvez precise de um empurrãozinho.
— Certo — outra voz respondeu, agora de um garoto bem mais novo, e Moon sentiu um toque em seu pulso.
Sua pele começou a esquentar na região onde sentira o toque; não de maneira desagradável, mas sim como se uma pequena onda de calor estivesse surgindo dali. A onda foi subindo por seu corpo e, quando chegou em seus pulmões, Moon conseguiu puxar uma boa lufada de ar. No fim, foi isso que o permitiu despertar.
O garoto abriu os olhos estreitos, que denotavam sua descendência coreana, e piscou um pouco atordoado. De pele clara, cabelos ondulados e de um tom castanho bem escuro, Moon poderia ser um garoto normal, mas o fato de estar ali, com uma coleira no pescoço, indicava o contrário. Em sua frente, segurando seu pulso, estava um garoto pré-adolescente de ascendência provavelmente indiana, e o homem, sem dúvidas, se tratava do Homem de Gelo em pessoa, o que fez Moon franzir a testa, confuso. Então tudo começou a voltar em sua cabeça.
Tinha saído com seus amigos para ensinar uma lição em um zelador da escola que tinha xingado uma colega mutante no dia anterior. Acabaram por nem mesmo encontrar o homem, sendo pegos em uma explosão de terrígeno no caminho. Depois disso, Moon não se lembrava de muita coisa, mas se o Homem de Gelo estava ali…
— Onde estou? — Ele perguntou, sentindo a boca e a garganta secas e a voz saindo gasta e rasgada. — John, Cassidy… Onde…
— Seu pai o trouxe aqui, Byeol — o Homem de Gelo respondeu. O garoto soltou seu pulso e Moon sentiu o calor sumir do corpo, mas agora já estava desperto por completo e não precisava mais dele. — Você e mais dois foram encontrados vivos na explosão, mas depois de trazê-los para cá, eles não resistiram. Eu sinto muito.
Eles não resistiram… Moon piscou os olhos algumas vezes e, olhou em volta, vendo a quantidade de máquinas e fios presos a ele. Deu-se conta de que estava em um tipo de unidade de tratamento intensivo. Eles eram seis. Só tinha sobrado ele.
Moon moveu os lábios, procurando algo para dizer, mas perdendo as palavras no caminho. Seus amigos estavam todos mortos. Seu pai o tinha levado até ali.
Seu pai o tinha levado até ali.
Depois de tudo para não deixá-lo saber o que vinha fazendo, não só seu pai tinha descoberto como ainda tinha salvado sua vida. Moon tentou buscar apoio para se sentar, sentindo os braços um pouco frágeis, e o garoto veio em sua ajuda novamente, agora a onda de calor agindo para ajudar seus músculos a sustentá-lo. Ele olhou para a mesa de cabeceira ao seu lado, vendo um copo de água, algo que ele precisava desesperadamente agora, e seu telefone e carteira ao lado.
Ele bebeu a água e pegou o celular sem pensar duas vezes, discando o número do pai. Agora que o corpo estava terminando de se recuperar da letargia do coma, começou a sentir uma série de sentimentos atravessando sua cabeça, mas acima de qualquer outro, uma mistura de raiva pelo destino de seus amigos e ansiedade por não saber o que estaria se passando com seu pai ou o que ele teria visto. Nesse momento, o Homem de Gelo e o garoto deixaram a baia dele, provavelmente para dá-lo privacidade com a chamada de telefone, algo pelo qual Moon ficou um tanto aliviado. Queria poder conversar em paz.
Moon não precisou esperar mais de dois toques para que o homem atendesse. Havia uma boa nota de desespero na voz dele, e o garoto sentiu um embrulho no estômago que não imaginou que fosse sentir, mas ainda assim, aconteceu.
— Moon? Moon, meu filho, é você?
— Sou.
— Não acredito…Minha nossa, meu filho… Eu pensei que…
— Estou bem — Moon cortou. A última coisa de que precisava era ouvir o pai falando que tinha achado que ele iria morrer. — Quero ir pra casa.
Houve uma pausa. Moon conseguiu ouvir um suspiro entrecortado de seu pai, e até o vestígio de um pigarro, e sabia se tratar de um sinal de que o homem tinha algo a dizer que ia acabar detestando ouvir.
— Você acabou de acordar. Deve ficar aí para os X-Men terem certeza de que está bem.
Oh, não. Não, isso não estava cheirando bem.
— Pai, eu tô bem. Eles têm um garoto aqui que cura as pessoas, eu só preciso de uma ajeitada final dele e posso sair e ir pra casa, só isso…
— Não. Moon, você vai ficar aí.
Merda.
— Pai…
— O que você estava pensando? Correndo por aí com outros mutantes, se metendo em encrenca? Pelo amor, você poderia ter morrido! Eu já perdi seu irmão, você quer mesmo fazer isso com seu velho pai?
— Me desculpa, mas…
— Não tem desculpa que me faça mudar de ideia, Moon. Você vai ficar aí, onde é seguro, até essa maluquice de terrígeno terminar, onde os X-Men podem ficar de olho em você. Onde já se viu uma coisa dessas! Não quero você se tornando um vigilante, entendeu bem? Seu trabalho agora é focar nos estudos e ficar seguro, e o Instituto é o melhor lugar pra isso, então você vai ficar aí.
E Moon conhecia seu pai o suficiente para entender quando a palavra dele era final. Não adiantaria discutir. Ele franziu a boca, engolindo quaisquer palavras que tivesse para falar e deixando o assunto morrer. Não ficaria no Instituto, mas se saber disso estressasse seu pai, era melhor guardar para si.
— Como você está se sentindo? — O homem perguntou, depois de um silêncio desconfortável.
— Bem, acho. Nada dói. Tudo parece estar no lugar.
— Eu vou aí te visitar. Faça tudo que os X-Men disserem e se cuide, entendeu?
— Hm.
— Eu só quero o melhor pra você. Eu te amo, meu filho.
E depois disso não tinha mais o que fazer na chamada. A cabeça de Moon começou a rodar, um sinal de que talvez não estivesse tão bem quanto imaginara, mas não ia dizer isso ao seu pai. Ele se despediu e desligou a chamada, tacando o celular na mesa de cabeceira e se deitando de novo.
Nem fodendo ia ficar naquele antro de gente certinha e chata, mas podia pensar nisso depois. Por agora, talvez precisasse de fato descansar.
[...]
Amália encarou a porta da Sala do Perigo, com os braços cruzados e um bico considerável no rosto. Ao seu lado, Grace a olhava com um ar esperançoso e um tanto pacifista, o que não estava ajudando Amália a se sentir menos pressionada. Finalmente, Amália bufou, descruzando os braços e se virando para a amiga com um olhar cansado no rosto.
— Eu tenho mesmo que fazer isso?
— Tem. Ele ficou visivelmente chateado, Amy. Nós somos uma equipe agora, não podemos ser uma equipe se não nos dermos bem com nossos colegas.
— Ele não sabe perder e a culpa é minha?
Grace apenas levantou uma sobrancelha, e Amália rangeu os dentes, sabendo que a garota não ia ceder seu ponto. E não era que achasse que a amiga estava errada; Amália entendia muito bem o ponto de Grace sobre se certificar de que não havia animosidade entre ela e Damon, mas isso não tornava a situação toda muito melhor. Porém, não teria como fugir, isso já estava muito claro. Amália colocou a mão na maçaneta com a expressão ainda emburrada, e abriu a porta, entrando na sala.
Damon estava sozinho, praticando uma série de chutes e socos rápidos em um saco de pancadas. Para uma sala com tantos apetrechos incríveis, era curioso vê-la sendo usada para algo tão simples, mas ela não iria questionar o desejo dele. Ele tinha o direito de treinar como quisesse.
O garoto parou seus socos e ergueu o rosto, a expressão séria a analisando por um instante antes de voltar ao que vinha fazendo. Ele provavelmente achava que ela estava ali para treinar seus poderes em vez de conversar. Mas não era o caso.
Amália não tinha muita paciência para meias palavras ou rodeios demais, então caminhou direto até ele, se apoiando no saco de pancadas e enfim atraindo a atenção do garoto. Damon a encarou um pouco surpreso, tirando os fones do ouvido e os guardando no bolso. Amália franziu a testa ao reconhecer o riff saindo alto pelos fones antes de Damon desligar a música, e abriu um sorriso pequeno.
— AC/DC?
— É. É bom pra focar.
Com isso ela teria de concordar, estava ouvindo a banda há poucos dias atrás para pintar suas unhas. E falando do fatídico dia no qual pintara as unhas… Tinha um objetivo ali.
— Olha só — ela começou. — Grace me pediu pra falar com você porque acha que você tá puto comigo. Eu também acho, um pouco.
— Por que eu estaria? — Ele respondeu, franzindo a testa com uma expressão de confusão genuína no rosto.
Então não estava. Curioso.
— Por que eu chutei sua bunda? — A resposta de Amália também veio em tom de dúvida, e foi a reação de Damon a isso que mais a surpreendeu. Ele soltou uma gargalhada curta e sonora, desenrolando as bandanas das mãos e se afastando do saco de pancadas.
— Você deu sorte com um golpe que eu não estava esperando. Não vai acontecer de novo.
E, realmente, ele não parecia incomodado com o fato de ter perdido. Então…
— Bem, é que… Você não parecia muito bem. Mas se está tudo bem, então não é problema meu. Obrigada, boa conversa, até mais.
Amália deu as costas, mas antes de conseguir sair, a voz de Damon atraiu sua atenção de novo.
— Onde você aprendeu aquilo?
— Aquilo o quê?
— A chave de perna que usou pra me derrubar.
O sorriso não estava mais no rosto dele. Ele parecia curioso, talvez até um pouco triste. Amália não sabia dizer com certeza.
— Ah, aquilo. É um movimento básico de Jiu-Jitsu. É comum para derrubar oponentes mais fortes que você.
— Ah. Bem, isso faz sentido. Vou tomar um banho.
— Sem problemas, eu…
Amália teve sua fala cortada por um alarme vindo de seu bolso. Damon parou, acreditando que ela ainda tinha algo para dizer, determinado a esperar ela conferir o telefone antes de continuar sua fala.
— Oh… — ela arquejou, lendo algo e abrindo um sorriso bem devagar. — Tá tendo um incêndio em Manhattan!
Damon franziu a testa. Ela deveria estar feliz por isso?
— Ok…
— Bobby disse “crimes pequenos ou catástrofes naturais”, não foi? É nossa chance!
E antes que Damon pudesse responder qualquer coisa, Amália saiu correndo pela porta. O garoto encarou a porta por um momento, e depois decidiu pegar suas coisas e ir tomar um banho rápido, caso fossem mesmo sair para o campo.
Pelo menos, tinha visto que Amália sabia mesmo lutar. Em toda sua vida, apenas uma pessoa tinha conseguido derrubar Damon daquela forma, usando um golpe idêntico. Tinha a visto no Halloween, mas depois disso, assim como com Theo, Niko passou a ser um fantasma em sua vida, assombrando-o com pequenas coisas como a forma com a qual Amália tinha o derrotado.
Ficar sozinho doía. E o pior de tudo era se dar conta, aos poucos, do quanto dessa situação era de fato culpa sua.
[...]
O incêndio estava acontecendo em uma igreja no Soho. Quando Amália encontrou Luke no jardim tomando Sol com Nath e mostrou o acontecimento, primeiro o garoto ficou sem reação. Por um milissegundo, ele olhou para Nath, e então clicou em sua cabeça porque Amália estava o mostrando aquilo. Era a oportunidade perfeita para a estreia deles.
Ele se levantou de um salto, sendo acompanhado pelo namorado.
— Encontrem o resto da equipe — orientou. — Sigam para a Sala do Perigo, peguem os uniformes e esperem do lado do avião. Eu vou falar com o Bobby.
— Rápido! Pessoas podem estar presas lá dentro!
Sim, Luke sabia, mas não estava tão preocupado assim com isso. Já fazia muito tempo que incêndio não era coisa séria em Nova York; a qualquer instante um herói qualquer apareceria para salvar as pessoas. O maior risco deles demorando tanto seria de outro herói chegar primeiro e resolver o problema, mas talvez esse fosse o dia de sorte deles.
Luke correu para o escritório no segundo andar, batendo na porta com um pouco mais de energia que o necessário em condições normais, mas perfeitamente ciente de que era de fato uma situação de urgência. Bobby atendeu a porta na terceira sequência de batidas, parecendo um tanto surpreso com a insistência de Luke.
— Incêndio em Manhattan — o garoto falou, quase atropelando as palavras. — Podemos, não é?
— Incêndio? Não vi nada sobre nenhum incêndio… — Bobby disse, levantando o tablet que levava na mão e passando o dedo para o lado. — Bem, se é só um incêndio… Podem sim, não vejo por que não. Mas vocês estão indo para ajudar os socorristas e qualquer outro herói que estiver no local, entendeu?
— Sim! Obrigado!
Luke virou as costas para sair, apressado, mas Bobby acabou o impedindo, deixando o garoto quase pulando no lugar de ansiedade.
— Ah, Luke! Um dos seus colegas de equipe está faltando às avaliações de mutação dele. O… Nathaniel. Eu ia falar com ele, mas me perguntei se você ia querer uma chance de resolver antes de eu interferir.
O garoto piscou os olhos, atordoado. Nath estava faltando às avaliações? Por quê? Essa era uma das regras mais importantes da equipe, Luke já tinha sido bem incisivo a respeito nos últimos treinamentos, e nem era porque queria, mas porque Bobby quem tinha reafirmado a necessidade para ele.
— Eu… Eu vou falar com ele quando voltarmos.
E antes de Bobby dizer mais alguma coisa, Luke foi correndo de volta para a Sala do Perigo, a mente dando voltas nos motivos os quais Nath teria para tomar esse tipo de atitude. Porém, não podia ficar pensando nisso agora; uma missão bem sucedida dependia de foco absoluto, mesmo uma simples como essa. Ele entrou na sala, nada surpreso em ver o resto do time ali, já em seus uniformes de couro amarelo e preto. Grace tinha ganhado a versão com saia que Heather tinha desenhado, e colocara uma calça preta por baixo. Para todos os demais, era a mesma jaqueta e calças de antes.
— Vou colocar o piloto automático no avião — Luke anunciou, terminando de calçar o tênis às pressas e correndo para fora, seguido pelo resto da equipe. — Bobby disse que somos apoio apenas, entendido? Não tentem nada maluco, por favor, ou ele pode acabar nos colocando de castigo. É só fazermos como temos treinado, e Bobby vai estar vendo tudo daqui. Apesar de que, Amália, ele disse que não viu nada sobre incêndio nenhum.
— Imaginei que não — a garota respondeu. — Meus pais são socorristas, ele é bombeiro e mamãe é enfermeira. Eu aprendi a sintonizar a frequência deles pra saber das coisas primeiro. Mas do jeito que as coisas são, daqui uns dois minutos já vai estar na internet, certeza.
Luke não duvidava, mas de uma forma ou de outra, não importava como ela ficara sabendo. Tinham um trabalho a fazer, e era nisso que precisavam focar.
O grupo entrou no avião, e Luke se sentou no banco do co-piloto, com Damon pegando seu lugar no piloto. Os demais se ajeitaram nas cadeiras de trás, e Luke e Damon começaram a decolar. Luke não era o melhor piloto — tinha certeza de ser incapaz de fugir de ataques aéreos, por exemplo —, mas tinha aprendido o suficiente para levar todo mundo de um ponto A a um ponto B em segurança. Contudo, preferia a experiência de Damon, pois embora o garoto vivesse resmungando que não era o melhor piloto, ele ainda assim era, no mínimo, o melhor dos seis. Portanto, com o cargo designado a Damon, o avião traçou a rota, o hangar se abriu, e logo estavam no ar.
O caminho foi feito em um silêncio um pouco tenso. Vinham treinando em grupos e individualmente, se preparando para esse tipo de momento, e era de se esperar que todo mundo estivesse nervoso, mas Luke se perguntou se alguém estaria tão nervoso quanto ele. Era sua responsabilidade. Se algo desse errado, era sua culpa.
Não que não confiasse no time. Se achasse que não estavam em condições, teria recusado a oferta de Amália na mesma hora, e só se aprendia até certo ponto em uma sala de simulação. Algumas coisas só estavam lá fora, no mundo real. Ainda assim…
Ele se virou para trás, mais nervoso que na base dos Purificadores. Naquela ocasião, tudo tinha sido decidido às pressas, no calor do momento e sob uma onda violenta de adrenalina. Luke tinha consciência de não terem tomado as melhores decisões, e o fato de um deles ter morrido era a melhor prova disso. Agora, não tinha desculpa para esse tipo de falha. Estavam prontos. Tinham de estar prontos.
O avião chegou na região, e a fumaça se tornou visível à distância. Amália sentiu uma comichão na boca do estômago, e um sorriso de canto se espalhou por seus lábios. Logo na primeira chance deles ela já podia ajudar, e muito. Não poderia ser mais ideal que aquilo.
A rua estava fechada por causa do caminhão de bombeiro, e Damon pegou o manche, manobrando devagar para colocar o jato em sobrevoo, pairando sobre a avenida. O grupo tirou os cintos, Luke abriu as portas do avião, e o sexteto saiu.
Havia uma leve confusão no local. A fumaça estava alta e muito preta, havia um grupo de bombeiros conversando na entrada e uma multidão de pessoas sendo isolada da região. Amália percorreu o perímetro com os olhos. Nenhum sinal de outro herói.
— Conseguimos! Agora só precisamos entrar e tirar as pessoas de lá — ela disse, dando um passo à frente, mas sendo impedida por Luke, que estendeu o braço em sua frente.
— Precisamos é de um plano. E permissão.
— Permissão?
A pergunta de Amália foi respondida depressa. Um dos bombeiros se afastou do grupo que coordenava o caminhão, caminhando até eles e parecendo um tanto enfezado. Ou cansado. Ou as duas coisas, era difícil dizer. Ele suspirou, tirando o capacete, passando a mão pelos cabelos suados e o colocando de volta.
— E o que são vocês? — Ele perguntou.
— Os Novos Mutantes. Viemos ajudar.
— Mutantes? Fala sério…
O homem passou a mão no rosto e depois cruzou os braços, encarando o grupo com um olhar até um pouco desdenhoso.
— Seis crianças mutantes querem me ajudar a apagar um incêndio? Olha só, eu entendo a credencial de herói e todo o resto, mas vocês parecem meio novos...
Poderiam ter discutido isso por muito tempo. Poderiam mesmo, mas Amália tinha outros planos. Ela não tinha se empolgado toda com a perspectiva só para ser enxotada para fora porque o chefe dos bombeiros não achava que deveriam estar ali. Não. Ela tinha ido para ser parte do resgate, e não ia ser um adulto desconhecido que iria dizer a ela que não podia fazer isso.
A garota se separou da equipe, dando a volta no bombeiro e caminhando mais e mais para perto das faixas que isolavam a área ao redor do incêndio. Então, como se não fosse nada de mais, passou por baixo de uma delas e foi caminhando até o foco.
— Maria Fumaça! — Luke gritou. — Fumaça, volte aqui!
Tinham acabado de começar, e já estavam saindo fora do planejado. Uma das coisas que ele tinha conversado era que ninguém deveria sair de vista sozinho para resolver as coisas sem ser discutido antes, e em menos de um minuto lá ia Amália, parada agora na frente do prédio com as mãos estendidas no ar à sua frente.
— Ei, você — ela chamou, acenando para um dos bombeiros próximos. Eles pareciam um tanto incrédulos com a presença da garota, mas Amália não achou que o choque fosse protegê-la de ser expulsa do lugar por muito tempo. Precisava agir. — Pra onde eu mando a fumaça?
— O quê?
Ela suspirou, e decidiu que “para cima” era a melhor escolha, sentindo uma pressão se formar em suas mãos ao acessar seu poder e colocá-la em contato com a fumaça do local.
Havia de fato muita fumaça, mas grande parte era acúmulo. Forçar a fumaça a sair para cima em linha reta com certeza ia melhorar a situação caso alguém estivesse ficando sem ar lá dentro. A garota sentiu o fluxo da fumaça, encontrando uma janela aberta no andar de cima por onde parte dela estava saindo, e concentrou seus poderes ali, começando a puxar a fumaça para fora.
O efeito foi visível muito rápido do lado de fora. A fumaça que vinha saindo por todas as janelas começou a se dissipar, focando agora em uma única coluna no segundo andar, atrás da igreja, como se fosse uma chaminé. Aos poucos, Amália foi sentindo a fumaça sumir de perto do chão, exatamente como queria, e pôde dizer que a situação estava entrando em controle.
Grace abriu um sorriso orgulhoso. Amália estava indo muito bem. Os bombeiros olhavam embasbacados para o comportamento bizarro da fumaça, mas nenhum deles disse nada sobre o que a garota fazia, provavelmente achando que valia a pena ter uma garota do lado de fora se ela estava ajudando daquela forma.
Para Grace, porém, aquilo foi um sinal. Tinham ido até ali para ajudar pessoas, e era exatamente isso que ela queria fazer. A garota abriu as asas, começando a voar devagar alguns centímetros para cima e olhando para o segundo andar da igreja. Havia algumas janelas abertas, com certeza uma grande o bastante para que pudesse passar.
— Eu vou dar uma olhada no segundo andar! — Ela anunciou, pegando mais altitude. E mais uma vez, Luke não pôde dizer nada antes de Grace sair de seu alcance.
Uma tragédia em termos organizacionais, que por algum motivo estava funcionando. Ele piscou os olhos algumas vezes, se sentindo de repente muito inapto, mas percebendo ainda assim que precisava cumprir sua função, quer achasse que tinha condições, quer não. Ele viu Grace entrar no segundo andar pela janela e respirou fundo. Não adiantava chorar o resgate derramado. Tinham de fazer o que pudessem agora.
— Ok. Guardião, você fica aqui caso alguém saia ferido — Luke comandou, apontando Balu na direção da ambulância.
— Mas…
— Sem “mas” nem meio “mas”, intoxicação por fumaça é coisa séria e as pessoas podem estar precisando de você.
O pior para Balu foi não conseguir protestar. Luke estava certo, já que tinha saído com a equipe com o específico propósito de querer ajudar e salvar as pessoas com seus poderes, e não haveria lugar melhor que a ambulância. Mas ainda assim, a perspectiva de sentar do lado de fora e esperar o fazia se lembrar do evento com Santino, o que por sua vez, o deixava um tanto aflito. O garoto obedeceu, ansioso, se sentando no chão da caçamba da ambulância e brincando com os dedos. Em seu pescoço, sentia o metal frio do anel que Riya o tinha presenteado, pendurado em uma corrente, lembrando-o dos últimos eventos antes da partida dela. Estava ali para ajudar. A ambulância era o melhor lugar para isso. Não estava em casa. Não tinha dado as costas. Estava ali para ajudar.
Nisso, Luke se virou para os dois colegas de time restantes, levantando as mãos para sinalizar para Nath.
— Nós vamos entrar no primeiro andar e ver se achamos alguém, rápido enquanto Maria Fumaça está deixando o ar limpo, eu não sei por quanto tempo ela consegue fazer isso nessa proporção. Um de vocês vai pro andar de cima ajudar Pomba Branca. Andando.
O grupo disparou em direção às portas da igreja, ignorando os dois bombeiros que tentaram impedi-los. Os próprios bombeiros pareciam incertos sobre barrá-los a qualquer custo, mas Nova York tinha a tendência de deixar pessoas em uniformes de heróis se meterem nesse tipo de situação, e dessa vez não foi diferente. Era como ter uma carteirinha que os dava permissão para entrar no lugar. As portas estavam escancaradas e o fogo se espalhava pelas cadeiras e pelo o tapete do local, mas havia um caminho por onde podiam passar, talvez algo aberto pelos bombeiros. A escada para o segundo andar à direita estava bloqueada com escombros, e Luke soltou um xingamento baixinho, muito para a surpresa de Damon, ao seu lado. Não poderiam ajudar Grace. Tinham de torcer para os bombeiros conseguirem encaixar a escada e a ajudarem por conta própria. Luke respirou fundo, sentindo um leve pânico, se lembrando de Santino e de tudo que tinha dado errado na sede dos Purificadores… Mas não. Não ia ser assim dessa vez. Tinham se preparado. Tinha que confiar que Grace não ia tentar se meter em mais do que dava conta. Ele respirou fundo, voltando sua atenção para o primeiro andar. Com um olhar rápido, Luke identificou os dois bombeiros trabalhando ao lado de uma viga de madeira, tentando puxá-la para cima, e era possível ver que eles estavam com dificuldades.
— Alguém deve estar preso ali embaixo — Damon comentou, embora não fosse necessário.
Luke chamou os dois com um gesto da mão, e o trio foi caminhando para o fundo da igreja. O efeito dos poderes de Amália ali levava toda a fumaça em direção à janela do segundo andar em uma fila ordenada, deixando o ar incrivelmente respirável ali embaixo. Luke abriu um sorriso pequeno. A garota sabia mesmo o que estava fazendo, e isso não deixava de dar uma certa onda de orgulho a Luke. Embora esse tipo de desobediência em campo pudesse ser perigoso, ele teve de aceitar que, dessa vez, provavelmente tinha sido o que abrira as portas para deixá-los ajudar.
— Ei! Ei, viemos ajudar! — Luke anunciou, chegando com os outros dois até a viga desabada.
A peça de madeira estava soterrada debaixo de mais umas outras tantas parecidas, um pouco travada no lugar, e os bombeiros lutavam para conseguir levantar o bastante para soltar a perna do homem desacordado embaixo delas no chão. Eles olharam para os três, se demorando um pouco em Nath, mas não dizendo nada, parecendo aceitarem a presença deles ao parar o olhar um pouco no uniforme que usavam.
— Qual a situação? — Damon perguntou.
— Tá travado. Não sei se temos tempo pra tentar tirar com jeito, e com força não tá indo. Algum de vocês tem super-força?
Luke trocou um olhar com os colegas. Nath, que vinha acompanhando tudo graças a uma tradução simultânea de Luke, foi quem respondeu, em ASL.
— Ele disse “não, mas somos três. Às vezes ajuda”.
Os bombeiros se olharam, mas mesmo sem a fumaça para intoxicar, o local em si estava ficando bem quente e insuportável. Luke não sentia o calor, mas conseguia ver Nath e Damon começando a suar na nuca, e isso o fez perceber que não fazia ideia de como a mutação de Nath reagia com calor excessivo, e era exatamente por isso que ele não podia faltar às avaliações.
“Merda, Nath. O que você tá pensando?”
Encarando o namorado por um instante, o trio se aproximou da viga para ajudar a carregar. A força adicional de três pessoas realmente ajudou a viga a se mexer um pouco mais, mas ainda não era o suficiente. Talvez fossem mesmo precisar de algo mais estratégico, quem sabe usar algo como alavanca.
— A gente deveria ir lá fora buscar por algo pra alavancar isso aí.
Um dos bombeiros riu, sarcástico. É claro que já teriam pensado nisso.
— Um colega foi buscar no caminhão, mas o que a gente tem lá não tá dando torque o suficiente.
Luke se virou, olhando pelos escombros em chamas do local. Não podiam ficar ali dentro muito tempo, poderia ser mais perigoso que estava disposto a arriscar com seu time, e já bastava Grace ter se enfiado no andar de cima sozinha.
— Acho que temos que sair. Não podemos ajudar aqui e não quero que nos tornemos problemas também.
Damon deu de ombros, e parecia pronto para obedecer sem nenhuma discussão, mas foi Nath quem o parou, segurando o ombro do namorado.
“Não podemos deixar eles aí. Estão precisando de ajuda!”
“Eu sei, Nath, mas se não podemos ajudar, é melhor a gente ver se tem algo lá fora que podemos fazer.”
Nath olhou para o homem soterrado ali embaixo, e de volta para Luke. Havia algum tipo de raiva nos olhos do namorado, e Luke se lembrou de que Nath já tinha perdido pessoas demais. Talvez ele não estivesse em condições mentais tão boas para estar presente — algo que saberia se o garoto não estivesse faltando às suas avaliações.
Luke estava se perguntando se teria de discutir isso no meio da igreja em chamas, mas pela primeira vez desde que conhecera Nath, ele resolveu desobedecer. O garoto deu as costas a Luke, agarrando a viga sozinho e teimando em puxá-la para cima, independentemente da impossibilidade de situação.
— Serpin… — Luke chamou com um suspiro, tocando o ombro do namorado.
E então, a viga se moveu. Luke e Damon mal tiveram tempo de se surpreender com isso antes de Nath se colocar debaixo dela, a sustentando nos ombros e começando a empurrar para cima.
Nath gritou e suas pernas começaram a tremer. Aos poucos, um centímetro de cada vez, a viga foi se movendo para cima, e os bombeiros se abaixaram, pegando o homem preso pelos braços para arrastá-lo para fora devagar.
O gesto tirou Luke de seu estupor, e ele se abaixou com Damon para ajudar os bombeiros. Em algum momento, um creck audível indicou algo se quebrando, e Luke olhou em volta receando se tratar de uma das vigas, mas percebendo em seguida ser pior: era o ombro de Nath.
— Rápido, ele não vai conseguir segurar!
— Achei que vocês não tinham super-força, garoto — o bombeiro disse, o homem quase completamente livre da viga agora, faltando apenas um último puxão.
— Não devia ter — a resposta de Luke saiu em um sussurro confuso.
O homem estava livre, e os bombeiros o carregaram, o que foi muito oportuno, pois quando Nath soltou a viga, suas pernas cederam de vez e ele caiu de joelhos no chão, o braço direito em uma posição estranha, e a pele, que já era esverdeada, parecendo ainda mais verde.
— Pulso — Luke chamou, e não precisou fazer duas vezes.
Damon se adiantou, passando um dos braços de Nath por suas costas. Luke pegou a cintura do namorado e os dois começaram a arrastá-lo para fora, entre os gemidos de dor do garoto. Do lado de fora, os bombeiros já tinham levado o homem para receber ajuda, e Luke reparou, pela forma como olhavam para eles com alguns sorrisos no rosto, que a história já devia ter se espalhado. Ele tentou sorrir em resposta, mas estava nervoso demais para isso.
Pararam na rua, vários metros para a frente da igreja. Amália ainda estava parada do lado de fora, comandando a fumaça pelo seu caminho único para fora. Balu, na ambulância, curava o homem que tinham resgatado. Ainda não havia sinal de Grace.
— Ele deslocou o ombro — Damon disse, ao deixaram Nath ajoelhado com o braço bom tremendo, coberto de fuligem como os outros dois estavam e parecendo um tanto enjoado.
— Como você sabe disso?
— Aconteceu um bocado de vezes nos Purificadores. Eu também sei arrumar, olha só.
— Espera!
Antes que Luke pudesse contestar as possíveis habilidades de Damon, o garoto se colocou atrás de Nath, segurando o ombro dele e o puxando para o lugar. Nath gritou mais uma vez, mas esta devia ter sido a gota d’água, pois o garoto acabou apagando no chão. Por outro lado, o ombro dele realmente estava no lugar certo, para a surpresa de Luke, que não tinha colocado fé nenhuma em Damon.
— Ele pode precisar de um protetor de ombro. Ou não. Depende do que Balu puder fazer.
— Não use o nome dele em público! — Luke repreendeu, se abaixando ao lado de Nath e o puxando para o colo.
— Tá, que seja. Vou ver se mais alguém precisa de algo.
Luke não sabia dizer se Damon queria mesmo arrumar alguma coisa pra fazer ou se só queria sair de perto dos dois, mas não se importou com isso. O resgate já estava saindo muito diferente do que ele tinha planejado, mas ao menos, a situação estava sob controle. Ou estaria, quando Grace saísse da igreja. Nath gemeu um pouco, e Luke passou a mão no rosto dele em um carinho, tirando um pouco da fuligem.
— Tá tudo bem, foi só seu ombro. Quando Guardião tiver terminado com o homem, ele vai olhar pra você, ok?
Nath não teria ouvido nada, é claro. E mesmo sendo apenas o ombro dele, Luke não pôde deixar de sentir um embrulho no estômago, um desconforto relacionado com a similaridade daquela situação ao que tinha sido segurar Santino em seus braços enquanto ele morria.
“É só o ombro, está tudo bem. Está tudo bem…”
Embora isso fosse verdade, nada estava saindo como planejado, e da última vez em que tinham agido no impulso, os resultados foram catastróficos demais. Luke só esperava que fosse diferente dessa vez.
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