A noite de Nova York havia mudado. Nunca tinha sido das mais amigáveis ou receptivas, sempre repleta de grupos de criminosos planejando assaltos, casas de mafiosos atuando na surdina ou super-vilões colocando outro plano mirabolante em prática. Por esse lado, era provável que para muitas pessoas, nada parecesse diferente. Mas para Cassian…

Era fácil para ele se esconder, o fazia até sem intenção, tendo a aparência de um humano. Os óculos escuros, antiga companhia para disfarçar os olhos inteiramente pretos a cada vez que usava seu poder, estavam agora na maior parte do tempo enfiados no bolso de seu casaco. Ele não devia ter de esconder nada. Havia outros mutantes que sequer tinham a opção de se esconder, e Cassian via, diariamente, o que isso vinha fazendo com eles.

Ele apertou as mãos nos bolsos, parando na esquina da rua Walker com a Baxter em Chinatown, debaixo de um dos postes de luz da esquina. Durante a noite, por causa das fontes de luzes artificiais vindas de tantas direções diferentes, as sombras costumavam se comportar de forma estranha. Ele conseguia sentir, vendo sua própria sombra se dividir em três no chão. A mais escura das três inclinou a cabeça um pouco de lado, parecendo enfezada com os efeitos dos postes de luz nela. Cassian não podia culpá-la. Era mesmo uma irritação.

Fazia muito tempo desde que estivera ali pela última vez, e seria impossível, senão cego de sua parte, não perceber como o local tinha mudado. Aquele pedacinho da rua, entre a Walker e a White, costumava ser um dos locais da cidade onde mutantes se reuniam mais. Ainda que raramente, ainda buscando tomar cuidado com grupos de Purificadores, apenas alguns tantos assumiam o risco, ficando de olho para a possível aproximação de um grupo hostil.

Seria impossível, porém, prever uma bomba. Até onde Cassian sabia, poderia haver uma naquele instante, debaixo de um carro, dentro de uma lixeira, só esperando que os mutantes achassem seguro voltar para um de seus pontos de encontro preferidos para poder disparar. Mais uma nota do requinte de crueldade da situação atual. O medo os tinha feito perder seus espaços seguros. Não tinha o próprio Cassian evitado voltar ali por tanto tempo?

E ainda não se sentia totalmente seguro, tendo voltado. Ele respirou fundo, sentindo sua sombra estremecer um pouco, refletindo seu nervosismo interior. Em outras ocasiões, talvez tivesse a deixado se enrolar em seu corpo para se esconder, como vinha fazendo ultimamente. Ali, porém, não achava seguro deixar seu status como mutante tão óbvio, ao menos não estando sozinho na rua sem seu equipamento.

— Só mais um pouco — ele murmurou, olhando de um lado para o outro na rua e esperando para poder atravessar.

E então, do outro lado do quarteirão estava o letreiro desbotado de amarelo sobre o fundo vermelho, em uma representação simbólica da bandeira do Vietnã. Chim Den, ou “pássaro preto”, significado do nome já explicado por Cather, costumava estar sempre cheio e movimentado, e às vezes era comum haver filas de mutantes do lado de fora, esperando para entrar. Agora, apesar do cheiro de curry e especiarias vindo do restaurante ser tão familiar como antes, o fato das mesas estarem todas vazias, como ele conseguia ver pela janela, era como levar um soco no estômago.

Ele engoliu em seco, respirando fundo e abrindo a porta do estabelecimento. Não pisava nele há cerca de um ano, desde quando tinha começado toda a história com a Irmandade, então seria mentira dizer que não era estranho voltar. O restaurante em si estava exatamente igual, com as cadeiras e mesas de madeira espalhadas pela parte da frente, um balcão à esquerda no fundo onde estava o caixa, e uma portinha atrás, que levava para a cozinha. Diferente era ver o lugar vazio daquele jeito em plena sexta-feira à noite, embora não fosse uma surpresa. Um sininho tocou quando ele abriu a porta, e Cassian não esperou que ninguém o respondesse, já se sentando na cadeira da primeira mesa à direita, próxima à janela, de onde conseguia ver ao menos parte do movimento da rua.

Não demorou muito para as portas do fundo se abrirem, e uma mulher adulta com idade para ser mãe de Cass saiu da cozinha. Ela enxugava as mãos no avental quando ergueu o rosto para vê-lo sentado no canto do restaurante. Os dois se olharam por um instante, e ele percebeu o exato momento no qual foi reconhecido: o olhar dela suavizou e a mulher abriu um sorriso não tão discreto. Ela deu as costas e voltou para a cozinha, gritando algo em vietnamita que ele não conseguia entender, embora tivesse reconhecido “Cat” como uma das palavras. E, de fato, poucos segundos depois, Cather Lê, ou apenas Cat para os conhecidos, saiu pela porta.

Ela fazia jus às suas lembranças, embora estivesse um pouco mais alta. Cather tinha os olhos estreitos do leste asiático e longos cabelos negros, agora presos em um rabo de cavalo alto. Suas írises refletiram um pouco quando ela olhou para ele, mimicando o efeito que acontecia com olhos de gatos ao olharem para luz, algo esperado considerando a cor amarelada e as pupilas retráteis.

A garota avançou pelo restaurante, trocando um olhar sério com Cassian sem dizer nada. Ele reparou que a pele dela ainda tinha o mesmo tom sutilmente acinzentado, algo que passaria batido para qualquer pessoa que olhasse rápido, mas que saltava aos olhos de quem prestasse atenção. Ele observou, calado, ela fechar as cortinas das janelas e trocar a placa do restaurante para “fechado”, só então seguindo para a mesa dele.

De perto, ele viu que os dentes, afiados como de gatos, também eram os mesmos. Cat se sentou à sua frente, em silêncio. Ele percebeu que ela carregava uma marmita pequena, e a colocou sobre a mesa, sem dizer nada. O momento quase pareceu como todos os que eram antes de tudo, não fosse pelo restaurante fechado e as janelas cobertas. Quase. Mas nada era como antes.

Cather tinha conhecido Cassian depois de o garoto entrar em seu restaurante numa noite qualquer, morto de fome, em um horário de pouco movimento. Se deram bem, ficaram amigos. Ela o ofereceu as sobras de macarrão para levar para casa. Depois, ele voltou várias vezes, até enfim mencionar a Irmandade. Ela recusou a proposta e ele não voltou mais.

Cat entendia. Sabia que o que ele estava fazendo era perigoso, e tinha visto a confusão na base Purificadora na televisão. Caso ele se tornasse um alvo, se fosse visto no restaurante dela o tempo todo, um point de encontro de mutantes, transformaria o local num alvo. Ela tinha ficado chateada com a ausência, e achava que uma mensagem de texto não doeria, mas ao mesmo tempo, não queria julgar a paranoia dele quando ela mesma não sabia a que nível de perigo ele estava se enfiando. Sentira a falta de Cassian como alguém que troca de escola e sente falta de um amigo antigo, mas entende que a relação ficou no passado.

Contudo, ficar longe de Cassian não tinha impedido os problemas dos mutantes de encontrarem a ela e a sua família, e Cat estava cansada de assistir a tudo acontecer sem fazer nada a respeito.

A garota empurrou a marmita levemente para a frente, cruzando os braços e encarando Cassian. Ele levantou a tampa, abriu um sorriso de canto e fechou de volta.

— Obrigado.

— Acabei de fazer. Coma direito, você gasta energia demais.

O cheiro era o mesmo, e o gosto com certeza estaria tão bom quanto. Os detalhes simples, como o tom de voz baixo e calmo dela, aliado ao sotaque vietnamita, o fizeram se sentir nostálgico.

— O cheiro está ótimo do jeito que me lembro. Se eu engordar, a culpa é sua.

Ele sustentou o sorriso no rosto por mais algum tempo, mas Cather manteve a expressão séria, e isso acabou afetando a expressão dele, que se desfez.

— Certo. Direto ao trabalho — ele disse, apoiando os cotovelos sobre a mesa. — Recebi sua mensagem, obviamente. Pensei que você não quisesse ter nada a ver com a Irmandade. O que aconteceu?

Ela ergueu um pouco o queixo, parecendo estremecer antes de responder.

— Tuan está morto. Dizem que foi terrígeno, em um desses ataques — ela respondeu, engolindo em seco ao fim da frase. Cassian sentiu os músculos enrijecerem com a resposta. O queixo dele caiu e ele moveu a boca devagar como se procurasse o que dizer.

Tinha conhecido Tuan. O irmão de Cather, alguns anos mais velho que ela, era um cara tranquilo, divertido, e costumava ser a alma e o carisma do restaurante. Tinha a habilidade de criar faíscas bem simples, como mini-fogos de artifício nas mãos, e com frequência as usava para entreter os clientes. Ele também se lembrava de Cat ser muito apegada a ele. Aquilo não podia ser fácil. De repente, ele se sentiu mal por ter sumido por tanto tempo, mesmo que tivesse boas intenções em mente.

— Você não acredita? — Ele questionou, atentando-se ao tom de dúvida e desconforto na voz dela.

— No terrígeno, sim. Ele tinha todos os sintomas e a toxina no corpo quando foi encontrado. É o acidente que parece estranho, e bastante conveniente. Ninguém tem vindo mais no nosso restaurante. É exatamente o que você pensou que fosse acontecer se continuasse vindo aqui, não é? Pois então. Aconteceu assim mesmo.

— Você acha que atacaram o Tuan para tentar intimidar vocês a fecharem o restaurante?

— É possível. Os mutantes que frequentavam aqui pararam de vir depois que o Tuan morreu. Eles não vêm mais aqui na região e era a única coisa que destacava o nosso restaurante em Chinatown. Além disso, ficamos com a fama de ser “lugar de mutante”, então muitos humanos não querem vir. Sem mutantes, sem humanos, sem clientes, sem restaurante. Mas eu não tenho como provar nada disso. Meus pais estão arrasados, eles acreditam que foi acidente e eu acho que a qualquer dia vão acabar fechando o negócio, mesmo. Se eu puder provar que foi um ataque deliberado, papai e mamãe podem acabar insistindo no restaurante… E talvez isso traga alguns clientes de volta. Talvez. Ou talvez eu esteja pensando demais…

Não… Ele não achava que ela estava. Era exatamente o tipo de porcaria nojenta que vinha acontecendo com os mutantes ultimamente. Depois da grande explosão de terrígeno, os ataques e tramoias continuaram acontecendo, mas em sua maioria era por baixo dos planos. Volta e meia uma bomba ainda estourava, sim, mas agora era alguém berrando atrocidades e clamando liberdade de expressão. Um vizinho que sumia. Um mutante que aparecia morto e era chamado de “acidente”. Se Cat estava paranoica, então eram dois deles.

— Mesmo se não adiantar para salvar o restaurante, você e seus pais têm o direito de saber a verdade.

— Eu sei.

E embora Cat mantivesse uma postura estoica, os olhos dela brilhavam e ela levou a mão a eles, enxugando lágrimas que começavam a se juntar ali. Cassian apertou a mão tentando conter o turbilhão de raiva mais uma vez se remexendo dentro de si. Ter Cat no time seria excelente, muito melhor do que ele tinha esperado para seu novo time. Precisava garantir que isso desse certo.

— Se você quiser mesmo se juntar a nós, vamos incluir a investigação sobre Tuan em nossos objetivos. Isso é uma promessa — ele garantiu, piscando os olhos uma vez, deixando-os inteiramente pretos. Sentia que conversar com mutantes com sua alteração mutante à mostra várias vezes os deixava mais confortáveis, e ela já parecia muito alarmada com a situação toda. — Mas a proposta seria bem diferente de como foi um ano atrás. As coisas mudaram.

— O que aconteceu?

Cassian suspirou. Uma bomba.

Um erro tinha jogado toda a estabilidade da equipe dele pelo ralo. A equipe dele. Não conseguia deixar de se sentir um pouco responsável, mas o sentimento estava enterrado debaixo de todo o desconforto com a circunstância no momento.

— Saímos para tentar recuperar uma bomba. Éramos três. Uma delas morreu. A outra vai ter sequelas pelo resto da vida. Eu perdi a minha equipe e o meu patrocinador, porque ele disse que não quer poder ser rastreado de volta para a morte de uma menor. Não tem mais base, não tem mais dinheiro, não tem mais nada. Eu só fiquei com a moto porque comprei da mão dele com minhas economias. Se você aceitar, somos apenas nós seis contra o mundo.

Ela franziu a testa suavemente, mas não demorou mais de alguns segundos para dar sua resposta.

— Já tem sido eu contra o mundo há algum tempo. Seria bom ter companhia.

Cassian assentiu, sabendo que Cather sabia exatamente do que estava falando. Sabia onde estava entrando e, ainda assim, queria entrar.

— É bom você dizer isso, porque três deles não têm pra onde ir. Você ainda tem espaço no porão?

O porão do Chim Den funcionava como um quarto de estadia transitória para mutantes necessitados há muitos anos. Com frequência, ficavam sem espaço por lá e tinham que colocar os mutantes no chão, ou até recusar recebê-los simplesmente por não ter como. Mas dessa vez era diferente.

— Desde que Tuan morreu, não há ninguém por lá. Ninguém quer ficar aqui. Posso receber três, mas eles vão ter que entrar pelos fundos e… Acho que é melhor se não forem vistos na frente do restaurante. Eu sinto que estão nos observando e não quero dar a impressão de ter mais gente aqui dentro do que deveria.

Um pedido sensato, ao qual Cassian tinha certeza, os demais acatariam.

— Certo. Me mande uma mensagem quando eu puder trazê-los — ele respondeu, levantando-se com sua marmita e estendendo a mão para Cat. — Bem-vinda à Irmandade de Mutantes, Cat. É ótimo ter você na equipe.

— Acredite — ela respondeu, apertando a mão dele. — O prazer vai ser todo meu.

[...]

A garota encapuzada andava animada de um lado para o outro, quase saltitando entre os passos, balançando os braços distraída. Usava um moletom preto, com o capuz erguido para cobrir seu rosto, sabendo não ser seguro andar por aí mesmo de noite nos dias atuais. A mutação de Reese não era nada discreta, tendo lhe rendido cabelos ondulados naturalmente azuis, agora cortados na altura do queixo, olhos de escleras pretas e pupilas vermelhas, e três chifres vermelhos, um na testa e dois nos lados da cabeça. Até colocar o capuz vinha ficando difícil, uma vez que eles estavam chegando a dez centímetros de comprimento e complicando sua vida. Talvez fosse ter de começar a usar chapéus…

Ou talvez pudesse viver num mundo no qual não tivesse de se esconder ou viver com medo. Isso seria bom. E era por isso que estava ali, não é? Dez minutos antes do combinado, andando de um lado para o outro e esperando um dos outros mutantes ou o sortudo do Cassian chegar.

Sortudo, de fato. Pele clara, cabelo castanho, olhos escuros, aparência completamente normal e ainda de homem branco para completar. Se tinha alguém que poderia passar por todo esse dilema sem nunca dar de cara com um problema era ele, então era no mínimo curioso que o garoto estivesse se dispondo a passar por essa dor de cabeça. Cassian tinha comentado algo sobre ter perdido colegas de time quando ela, com um ar petulante e duvidoso, perguntou sobre as intenções dele. No fim das contas, por ora, era o suficiente. Haveria tempo para descobrir o restante depois.

E não era apenas Cassian, é claro. Ela tinha uma descrição superficial de seus novos colegas de equipe pelos quais estava esperando ali, o suficiente para poder reconhecê-los quando chegassem, portanto, acabou distinguindo Marlene bem rápido. Assim como Cassian, a garota era branca, porém loira, dos olhos claros e aparência perfeitamente normal. Reese não fazia ideia das intenções dela, mas de forma geral, não desconfiava das intenções deles. Ser um mutante já era difícil demais sem ficarem se atacando.

— Reese? — A garota perguntou, ajeitando uma mochila nas costas. Uma pomba de rua voava de forma muito curiosa, em círculos, sobre a cabeça de Marlene. Reese se perguntou se ela teria reparado.

— É. Marlene?

A resposta da recém-chegada foi apenas concordar e se recostar contra a parede do beco onde estavam se escondendo. Marlene não parecia afim de conversar, e a própria Reese não conseguiria se focar nisso no momento, pois estava muito ocupada pensando em outra coisa. Miguel.

Quando Cassian o descreveu para ela, e completou com “ele era um Morlock como você, talvez vocês se conheçam”, Reese sentiu o coração tomar um solavanco na mesma hora. Claro, conhecia Miguel. Todos os Morlocks se conheciam de alguma forma; não haviam sido sido lá um grupo muito grande, e tinha trocado um par de palavras com ele. Ainda assim, com exceção de Nathaniel, que de vez em quando aparecia na televisão com os outros Novos Mutantes — era a cara dele, honestamente —, ela não sabia dizer com certeza se algum outro Morlock tinha sobrevivido. Não estivera no Instituto depois do massacre, e não conseguira encontrar a única pessoa a quem tinha buscado. Então, ter um em seu time de repente, desse jeito…

Ela continuou seus passos, agitada, ouvindo os pru pru do pombo como barulho de fundo e conferindo o relógio minuto a minuto. E enfim, faltando dois minutos, Miguel chegou, já com Cassian caminhando atrás dele.

O garoto estava exatamente como ela se lembrava. A pele marrom simulava a textura de uma casca de árvore, embora não fosse tão rígida. Os olhos eram inteiramente verdes, sem distinção de esclera, íris ou pupila. Entre os cabelos pretos e cacheados, cresciam alguns oleandros em tons leves de roxo, e se ela se recordava bem, era um sinal de que ele estava nervoso.

— Reese…

— Depois — Cassian cortou, a voz muito baixa, esticando a mão na frente do peito de Miguel para impedi-lo de avançar. — Imagino que tenham muito pra pôr em dia, mas é perigoso dois mutantes diferentes como vocês na rua, juntos, nos dias de hoje. Temos que entrar no restaurante logo, lá dentro vocês conversam. E fiquem em silêncio.

A própria Reese sentia precisar desesperadamente conversar com Miguel, mas também precisava muito de um lugar para ficar, e era Cassian que proveria isso a ela. Então ela se calou, trocando um olhar ansioso com Miguel. Apenas mais um pouco. Poderiam conversar.

O restaurante estava logo atrás deles. O beco onde tinham se encontrado estava fechado no fundo com uma grade, da qual Cassian se aproximou e abriu um portão usando uma chave. O trio passou pelo portão em silêncio, com Marlene acenando para o pombo que voou para longe em seguida, e então Cassian abriu uma portinha de metal que era a entrada de serviço para o lugar.

A entrada dava em um pequeno corredor, com uma outra porta à esquerda, trancada, e uma pequena escada à direita. Cassian trancou a porta atrás dos quarto e os guiou escada abaixo, onde havia ainda outra porta, essa destrancada. Ele a abriu, e um a um, o grupo entrou.

O porão do Chim Den era surpreendentemente aconchegante. Com três beliches, uma televisão velha, mesa com quatro cadeiras, um banheiro no fundo e uma pequena cozinha com fogão e mini-bar, tinha sido reformado na época em que o restaurante rendia uma boa receita para abrigar melhor os mutantes. Limpo, organizado e simples. Marli soltou um suspiro de alívio; vinha dormindo em motéis baratos e cantos de ruas quando o dinheiro acabara já há muito tempo, e mal podia acreditar que teria uma cama para chamar de sua, mesmo que temporariamente.

E sabendo que seus dois colegas eram Morlocks, não ficou surpresa em ver o mesmo olhar no rosto deles.

— Nem sei como te agradecer, Cassian — Miguel disse, caminhando até a cama do canto e colocando sua mochila no beliche de baixo.

— Não sou eu que você tem que agradecer — ele respondeu, indicando a cozinha.

Curiosa, Marlene se virou para a bancada, e sentiu um formigamento familiar em seus pensamentos, quase como um sussurro: o tipo de sensação que ela tinha quando havia um animal por perto, mas diferente. Abafado. Parcial.

— O que… — ela murmurou, caminhando em direção à cozinha.

Então um gato preto saltou na bancada, e dali para o chão. O animal se sentou no chão na frente dela, virando a cabeça para o lado devagar e balançando o rabo com a languidez clássica da espécie. Marlene nunca havia conhecido um animal que não conseguisse ouvir antes. Sabia que estava ali, mas… Era tão estranho.

— Essa é a Cat — Cassian apresentou, sentando-se na cadeira da pequena mesa de jantar. — Cat, para de palhaçada, eu tenho que ir pra casa rápido.

A gata se virou para ele, e Marlene poderia jurar que ela estava enfezada, mas não tinha certeza, e isso era muito esquisito. Ainda estava se perguntando por que Cassian estava conversando com a gata quando o animal se encurvou para frente e começou a crescer de tamanho, mudando de forma, o pelo encurtando nas pernas e crescendo na cabeça, até Marlene perceber que a gata tinha se transformado numa pessoa. Uma garota da idade dela, oriental, usando um collant preto.

— Pois bem — a garota disse, sentando-se sobre a bancada da cozinha. — Então, são vocês? Eu sou a Cather, mas me chamam de Cat. Reese, Marlene e Miguel, certo?

— Você é um gato — foi a reação de Marlene, ainda piscando os olhos um pouco embasbacada. Nunca tinha conhecido uma pessoa que virasse um animal antes. Seus poderes estavam assobiando de forma confusa em sua cabeça e não sabia se gostava da sensação.

— E você é a garota que controla animais. Não preciso dizer pra não tentar isso comigo, não é?

É claro que não. Quem ela achava que Marlene era? Tudo bem que não se conheciam, mas por favor, estava ali para lutar pela liberdade dos mutantes. Não faria sentido furar seu próprio ideal dessa forma.

— Podem ficar à vontade — Cat continuou. — Tem comida na geladeira, roupa de cama no armário e escova de dente nova no banheiro. Normalmente, os mutantes que ficavam aqui trabalhavam no restaurante, mas eu acho que Cassian comentou com vocês que é melhor que vocês fiquem aqui embaixo por enquanto.

— Comentou. Tá tudo bem, a gente entende — Miguel respondeu.

Marlene, apesar de realmente entender, ficou um pouco incomodada pela forma como ele respondeu por ela daquela forma, mas não ia começar uma briga por aquilo e àquela hora da noite. Tinha uma cama agora. Queria dormir.

— Ótimo. Se precisarem de algo, por favor peçam a Marlene pra me chamar. Ela passa de humana.

Triste, porém real, e ninguém debateu a instrução.

— Eu volto para conversamos em breve — Cass disse. — Temos muito para discutir, e é melhor fazermos isso com cuidado, não podemos chamar atenção demais. Aproveitem pra se instalar agora, devem estar precisando descansar.

De fato, não podiam chamar atenção. E para Miguel, que era naturalmente chamativo, ouvi-lo dizer em voz alta era como se lembrar de estar em um quarto em chamas depois de esquecer por um instante. Cassian e Cat se despediram dos três, saindo pela porta do porão, e logo eles estavam sozinhos ali.

Marlene não demorou para se ocupar na cama do canto oposto a de Miguel, abrindo a mochila e organizando suas coisas aos poucos, e ele não se importou nada com isso. Agora tinha outra coisa que queria fazer.

— Reese! — Ele chamou, aproximando-se da garota com um braço estendido, pensando em abraçá-la, mas não sabendo se devia mesmo fazer isso. A forma curiosa como ela o encarou mostrou que ela também não sabia.

Miguel se lembrava de Reese vagamente como uma garota que sempre estava andando por aí de braço dado a uma outra menina de cabelos castanhos e pele parda, uma que passaria por humana, mas estava nos Morlocks ainda assim. A garota não estava ali com Reese. Não precisava pensar muito para entender o motivo.

— Olá… — Ela respondeu, acenando para ele, também sem saber muito como cumprimentá-lo, e depois de passarem por um breve constrangimento de indecisão, acabaram se acertando apertando as mãos. — Eu… Eu não sabia que você estava bem. Não sabia que ninguém em específico estava, na verdade, então…

— Tudo bem, eu sei. Não te vi no Instituto, achei que tinha… bem.

Os dois se encararam por um instante. Algumas flores de heléboro pretas começaram a crescer entre os cabelos de Miguel, e ele abaixou a cabeça, levando as mãos para os olhos, tentando segurar as lágrimas. Ambos sabiam o que tinham visto. Nenhum deles quis falar nada a respeito.

— Eu consegui escapar. Me separei da Azalea no processo… Você chegou a vê-la no Instituto?

E aquela simples pergunta de Reese parecia inflacionada de esperança, com um brilho intenso por trás das írises vermelhas, quase implorando a Miguel com os olhos, “por favor, por favor me diga que sim”. Mas a verdade era bem menos agradável, e era a única resposta que ele poderia dar.

— Não a vi, desculpe — os olhos de Reese se apagaram na mesma hora, e ela se sentou na cama, puxando a mochila para perto, já parecendo ter perdido o interesse na interação. E ele não podia culpá-la. A pior parte da esperança era quando ela morria. — Mas eu não fiquei lá por muito tempo, e muita gente foi embora sem eu nunca tê-los visto, então isso não quer dizer muita coisa. Nós podemos procurar.

E pela forma como Reese o olhou, ele soube, era para isso que ela estava ali. Para isso, e para impedir que nunca mais ninguém passasse pelo mesmo que eles, e ninguém tivesse o destino que poderia ter atingido sua melhor amiga.