O único som no quarto naquele momento vinha do celular de Amália, estourando uma música do AC/DC no último volume. Sentada no pé da cama, ela pintava as unhas com um esmalte preto, algo que não era de seu feitio por mais que gostasse da cor, mas que agora vinha fazendo mais. Seu poder estava manchando seus dedos de fuligem, e ao menos com o esmalte ela conseguia garantir que as unhas ficassem bonitinhas.
De cabelos ruivos presos em coque baixo só para sair da frente do rosto, olhos verdes e pele clara coberta de sardas, Amália cantarolava a letra da música distraída, batendo um pouco o pé no ritmo da bateria, sem perceber, focada apenas em passar o esmalte na unha. Estava terminando o último dedo e esperava que o óleo de secagem rápida fosse realmente rápido, pois se não fosse era provável que ela e Grace acabassem se atrasando, e não queria avacalhar a chegada das duas nos Novos Mutantes quando ela mesma tinha sido tão incisiva quanto a isso.
Não que Grace não quisesse entrar na equipe. A garota, tão ruiva quanto a amiga, com os mesmos olhos verdes e a mesma pele muito clara, poderia ser facilmente assumida como irmã de Amália, e as duas já tinham presenciado a confusão uma boa quantidade de vezes. Mas as semelhanças certamente acabavam ali. Os poderes de Grace nada tinham a ver com os de Amália, tendo Grace enormes asas de penas brancas nas costas, algo bem menos discreto que os dedos sutilmente manchados de fuligem de Amália. A garota estava sentada na outra ponta da cama, encostada contra a cabeceira e desenhando um pássaro em seu caderno de desenhos enquanto esperava Amália terminar. Ela espiou a barra superior do telefone, vendo já serem onze da manhã daquele sábado, o horário marcado para a reunião dos recrutas dos Novos Mutantes. Estavam atrasadas, mas tinha certeza que não haveria problema, não é?
— Merda — Amália xingou, levantando a mão e vendo o trabalho concluído. Não importava o quão rápida fosse a secagem do esmalte, sem chance de chegar na Sala do Perigo com as unhas finalizadas. — Foda-se, é o que tem pra hoje — ela resmungou, abrindo o vidrinho de óleo e espalhando sobre os dedos às pressas.
— Eu acho que ficou muito bom — Grace comentou, observando os dedos da amiga por um instante. Como tinham imaginado, o esmalte preto tinha se camuflado bem com as pontas sujas de fuligem dos dedos dela. O efeito final era bem mais interessante do que os dedos sem nada.
— Só vai ficar bom pelos próximos três minutos se eles me pedirem pra bater em alguma coisa. Mas paciência, vamos nessa — ela respondeu, se levantando e se espreguiçando um pouco. Grace colocou o desenho de lado e se levantou também, seguindo a amiga para fora do quarto delas.
Amália estava no Instituto há quatro anos, sendo uma das alunas enviadas para o local para aprender a lidar com sua mutação e poder levar uma vida comum. Quando Grace chegou no local, parte de uma leva de mutantes refugiados procurando um local seguro para se proteger das bombas de terrígeno, ainda estava assustada com a situação, mas sabendo porque sua mãe tinha tomado essa decisão. Era mesmo o melhor para mantê-la fora de perigo. E ainda assim, as duas marchavam de encontro ao olho do furacão. Mas Grace não tinha dúvidas, e sabia que Amália também não.
A conversa entre elas tinha sido bem breve. Luke Dunn, também conhecido como “Luz Solar” e líder atual dos Novos Mutantes, anunciara num café da manhã que tinham vagas na equipe caso alguém quisesse entrar. Não precisaram de mais que um olhar e algumas palavras para saberem que era exatamente o que queriam, e que portanto, era exatamente o que iriam fazer. Mesmo assim, um pouco de ansiedade populava o fundo da mente de Grace, uma bolha de medo que ela sabia, olhando para Amália, que a amiga não sentia.
Ser uma Nova Mutante seria perigoso. Por mais que Grace genuinamente quisesse tentar, ainda sentia medo do que poderia acontecer consigo no processo. Isso não deveria acontecer… Deveria? Como era possível querer tanto uma coisa, e ao mesmo tempo, temê-la dessa forma?
As portas da Sala do Perigo estavam abertas, e elas entraram, Amália um pouco mais à frente com as mãos cuidadosamente apoiadas nos quadris, e Grace atrás, com passos mais tímidos e receosos. No meio da sala, encontraram os quatro garotos que integravam o time agora. O líder, Luke, também ruivo — poderiam começar uma convenção de ruivos em breve se as duas também entrassem no time — conversava em ASL com o namorado, Nath, de pele verde clara escamosa, olhos amarelos fendados, cabelos brancos e presas de cobra na boca. Esse tinha dado bem pouca sorte na mutação. Além deles, um garoto de pele marrom e descendência indiana, com cabelos pretos e olhos de mesma cor, estava encostado contra uma parede mais oposta. Balanath, conhecido como Balu. E por fim, o último, um garoto caucasiano de cabelo loiro escuro e olhos azuis, sentado no chão parecendo entediado e, as duas perceberam, com uma coleira preta no pescoço.
Amália e Grace se sentiam muito gratas por não precisarem de uma daquelas. As coleiras eram cedidas a mutantes com poderes perigosos os quais ainda não sabiam controlar, para inibi-los e evitar acidentes. Os rumores no Instituto eram de que Damon, o garoto com a coleira, costumava ser um assassino de mutantes, e elas não faziam a menor ideia do que ele estava fazendo ali. Com certeza a presença dele fazia com que as pessoas pensassem duas vezes antes de se juntarem ao time. Elas tinham pensado.
Mas no fim das contas, ambas tinham chegado à conclusão de que Bobby não o deixaria zanzando pelo Instituto se ele fosse perigoso para os outros estudantes, menos ainda o deixaria se juntar à sua equipe de alunos. E diziam as más línguas que Balu era um tipo de detector de ameaças ambulante, e ele estava ali tranquilamente ao lado dele, então…
Amália pigarreou, erguendo um pouco o queixo e vendo o grupo se virar para elas. Luke fez mais um sinal curto para o namorado e deu alguns passos à frente, cruzando os braços e as analisando por um instante.
— São só vocês? — Ele perguntou, sinalizando também em ASL, o que as garotas julgaram ser uma tradução simultânea da conversa para Nath entender, até porque, ele continuou sinalizando enquanto outros falavam.
— Tá reclamando? — Amália retrucou, franzindo os lábios e apontando para Damon. — Você acha aquilo ali convidativo?
— Ei — Damon protestou, se levantando. — Eu tenho nome.
— Amy, por favor — Grace interferiu, puxando a mão da amiga um pouco para trás.
Não queria começar a participação delas na equipe com problemas. Na verdade, queria evitar os problemas a qualquer momento, o que às vezes a fazia se perguntar por que ainda andava com Amália por aí. Ela era um imã de problemas.
— Não, não acho convidativo — Luke respondeu. — O que me indica o quanto vocês querem mesmo estar aqui. Eu só perguntei pra saber se já podemos começar.
— Ah — Amália respondeu, a postura se derretendo. — Bem. Sim.
— Só pra vocês saberem, eu estou ouvindo tudo, bem aqui — Damon comentou, acenando, mas Luke não pareceu ligar, e Grace e Amália também não.
— Quais seus nomes? — Luke questionou.
— Eu sou Grace, essa é a Amy.
— Ok. E o que vocês sabem fazer?
O tom da conversa era muito mais ameno agora, e Grace sentiu um leve alívio interior ao ver a tensão se dissipar. Ela abriu um sorriso leve com a pergunta, feliz em poder participar de algo que gostava de fazer: usar seus poderes.
Suas asas, cujas pontas chegavam ao seu tornozelo quando fechadas, se abriram, e começaram a bater devagar, a tirando do chão um centímetro por vez. Grace voava há poucos meses, tendo começado mais ou menos na época do incidente do terrígeno, mas já era seu passatempo preferido. Acabara procurando vídeos do Arcanjo depois de um tempo de sua chegada no Instituto, admirada com as manobras que ele conseguia fazer, e sonhando em conseguir aprender a replicá-las. Tinha chegado a pensar se poderia conhecê-lo, mas Bobby explicara que ele não era “contatável”, o que quer que isso significasse. Porém, os vídeos ainda existiam e eram acessíveis, e Grace vinha tentando replicar um giro simples no ar ultimamente, com níveis variados de sucesso.
— Eu preciso aprender uns truques — ela confessou, pousando no chão devagar e dobrando as asas novamente. — Mas acho que é pra isso que estou aqui, não é? Ao menos em partes.
— Impressionante… — Luke murmurou, a analisando com o olhar curioso. Grace se perguntou no que ele estaria pensando, mas não teve muito tempo para isso antes de ele se virar para Amália. — E você?
— Eu mexo com fumaça — a garota respondeu, estendendo a mão e fazendo uma pequena nuvem de fumaça aparecer ali. — Não é lá muito útil por conta própria, mas eu sei lutar também. Serve?
— Hm… Não sei, não sou muito expert nesse aspecto — Luke disse, apoiando o queixo na mão por um instante. — Ok. Damon, tira a coleira, você e a Amy vão treinar uma rodada aqui.
Os dois olharam para Luke como se ele tivesse acabado de dizer que estava com vontade de pular nas costas do Super Skrull em chamas.
— Ah, fala sério. Eu acabei de fazer as drogas das minhas unhas!
— Não vou lutar contra uma garota novata.
— Eu não estou pedindo — Luke cortou. — Amy disse que sabe lutar. Você é único integrante da equipe qualificado pra julgar esse tipo de habilidade, porque caso não tenha percebido isso ainda, não é muito a praia de nós três aqui. Então, faça-me o favor.
Damon encarou Luke um tanto irritado, mas levou a mão ao pescoço, retirando a coleira. Na mesma hora, uma onda passou pelo ambiente, como se um vento forte tivesse varrido o local. Era verdade, então, Amália percebeu, ao ver o resto de fumaça ainda projetando de seus dedos desaparecer. Damon podia suprimir as habilidades dos outros mutantes.
Se a intenção era tornar a briga justa, isso com certeza seria alcançado com esse truque. Vendo que não tinha outra saída, Amália suspirou, tirando a jaqueta, a entregando para Grace, e reajeitando o cabelo em outro coque mais apertado no topo da cabeça. O grupo de mutantes na sala se afastou para as beiradas, deixando espaço para os dois no meio, e Amália se encurvou um pouco, estendendo os braços em uma posição básica de jiu-jitsu, a luta que tinha praticado durante a vida. A posição de Damon era bem menos conservadora, alguma arte marcial agressiva, ela julgou.
De repente lhe ocorreu que nunca tinha lutado contra alguém que sabia outra arte marcial. Não era como se praticasse luta livre. Não fazia ideia do quanto isso ia dificultar a coisa toda, mas não era de dar para trás depois de um desafio.
— Muito bem. Podem começar — Luke anunciou. — Balu está aqui, então não precisam se preocupar muito com ossos quebrados, mas por favor não matem o coleguinha.
Um comentário muito bem colocado, Grace pensou, ao ver o brilho intenso nos olhos de Amália. Conhecia aquele olhar: temeu pelo bem estar de Damon, e pelo da amiga por extensão. Se ele fosse tão vingativo quanto ela, a luta poderia rapidamente se tornar um problema.
E não demorou para Grace ver que em algum nível ela tinha razão. Damon avançou primeiro, dois passos rápidos laterais, e no instante seguinte sua perna estava voando na direção de Amália, o pé bem na direção do queixo dela. Grace suspirou, alarmada, cobrindo a boca para evitar um gritinho, mas logo ficou muito claro que aquela interação ainda renderia bastante pano para manga.
Amália se virou, agarrando a perna de Damon com as mãos e puxando, o desequilibrando. Os olhos do garoto se arregalaram; ele não parecia ter esperado que ela fosse de fato reagir, e ele logo estava indo de encontro ao chão. Damon girou o corpo rápido, porém, apoiando as mãos no chão e puxando a perna com força. Agora foi Amália quem se desequilibrou, e ele girou, reganhando o equilíbrio na perna esquerda e a girando com força, aproveitando o desequilíbrio de Amália para chutá-la com tudo nas costas.
Ela soltou um palavrão alto, indo de encontro ao chão. Parecia que ia cair com tudo, mas se recuperou no último instante, rolando com uma cambalhota e se levantando de frente para Damon alguns metros para frente. Ele avançou de novo, mas dessa vez Amália tentou uma tática diferente. Ela ficou ali, parada, esperando o movimento do chute dele, e quando veio, se abaixou, desviando do arco e avançando em direção a ele.
Amália agarrou os braços de Damon, o segurando no lugar. Em um momento como esse, o instinto dela era soltar fumaça para atordoar mais o inimigo, mas por um microssegundo ela se esqueceu de que não seria capaz de fazer isso agora. A hesitação e confusão momentânea foi o suficiente para Damon acertar uma joelhada em seu estômago, e a garota se encurvou, dando um passo para trás. Esse, ela pensou, seria o momento no qual iria perder… E ela não aceitaria perder logo no primeiro contato com a equipe. E especificamente para Damon. Não. Sem chance.
Ela rolou para o lado no chão, puxando uma lufada forte de ar para se recuperar e escapando de mais um chute dele, mas dessa vez, o último. Quando o pé de Damon acertou o chão, Amália se levantou, atrás dele, e atacou com seu último movimento. A garota segurou no ombro de Damon, pegando um impulso e girando pelo lado dele, pisando em sua coxa e escalando o corpo dele. Amália viu os olhos de Damon se arregalarem e por um instante foi como se ele tivesse congelado no lugar. Era tudo o que ela precisava. Amália fechou as pernas no pescoço de Damon e jogou o peso do corpo para trás, derrubando o garoto no chão e agarrando um de seu braço com as mãos livres. Ela puxou um dos dedos dele, mas não precisava quebrar. Já soube, olhando para o garoto, que a briga tinha terminado.
Amália o soltou, se levantando satisfeita e erguendo as mãos para analisar as unhas. Tinha estragado apenas uma delas, ao menos. Seria fácil de corrigir. Damon ainda estava no chão, e Amália se perguntou se teria quebrado algo dele sem querer. Luke pareceu pensar isso também, pois pediu Balu para dar uma olhada na situação.
— Estou bem — Damon resmungou, ao sentir as mãos de Balu sobre suas costas. Devia ser verdade, pois o garoto logo o soltou e foi até Amália.
— Eu talvez tenha quebrado alguma coisa — ela disse, tocando as costelas onde recebera o chute de Damon.
— Não, é só o hematoma mesmo — Balu informou, ao colocar as mãos sobre as costelas dela. — Isso deve resolver.
Amália sentiu um calor confortável onde antes estava doendo, e logo a sensação passou e ela não sentia mais nada. Novinha em folha.
— Uau. Obrigada. Poderzinho útil.
— É mesmo, quando me deixam usar — o garoto respondeu, fechando a cara e encarando Luke por um instante antes de voltar para um canto um pouco mais afastado.
Nesse momento, Damon se levantou. Ele parecia bastante chocado. Não devia estar acostumado a perder, Amália pensou. Parecia ser o estilo dele.
— E então? — Amália perguntou, Grace caminhando de volta para perto da garota.
— Não sou eu quem decide — Luke respondeu, se virando para Damon. — E aí?
— Ela sabe o que está fazendo — o garoto respondeu apenas, colocando a coleira no pescoço de novo. — Serve.
— Ok. Balu?
O garoto se virou para as duas, encarando-as por um instante, ainda parecendo incomodado com alguma coisa. Com elas? Não podia ser, podia? Grace sentiu uma onda de insegurança, dando um passo um pouco para trás de Amália. A amiga nem se mexeu. Ela não parecia muito aflita.
— É da vontade delas que estão aqui, se é isso que quer saber — o garoto respondeu, estralando o pescoço devagar.
— É precisamente isso. Muito bem então garotas, bem-vindas aos Novos Mutantes.
— Aê, caralho! — Amy comemorou, trocando um toque de mãos animado com Grace. Agora sim as coisas iam ficar bem mais interessantes.
[...]
A enfermaria do Instituto tinha visto dias piores, mas isso não queria dizer que as coisas não estavam um pouco caóticas atualmente. Embora ao menos não estivessem mais precisando colocar leitos nas salas e nos corredores, as camas da enfermaria em si estavam quase todas ocupadas. A maior parte era de mutantes se recuperando de um ou outro ataque recente, alguns se recuperando de acidentes com seus próprios poderes. Aquele local tinha se tornado o centro de treinamento mais frequente para Balu, mas também um dos piores locais para se estar.
Já fazia algum tempo que tinham detectado a nova habilidade empática dele. Para desespero do garoto, era completamente involuntário, de forma que andar em um local com pessoas era o bastante para bagunçar suas emoções por completo. Na maior parte do tempo, ele sentia coisas demais e todas ao mesmo tempo, e como resultado, quando não precisava estar com ninguém, preferia ficar sozinho. Tinha conseguido um quarto só para si para poder ter um lugar para relaxar, e sempre que conseguia fazê-lo, só lhe restava cansaço e apatia.
Ainda assim, ele preferia cansaço e apatia ao que estava sentindo agora. De todos os locais no Instituto, a enfermaria era a maior fonte de medo e desespero. Em situações extremas, Balu usava uma coleira, como quando estava com muitas pessoas em volta e queria se distrair. Noite de cinema, por exemplo. Mas de forma geral, se não expusesse seu poder a situações cotidianas, não conseguiria aprender a controlá-lo, e sabia disso. E mesmo que esse não fosse o caso, estava na enfermaria justamente para curar pessoas. Não podia usar a coleira lá.
Logo, ficar na enfermaria o cansava muito rápido, e o permitia usar seus poderes por curtos espaços de tempo. Se focava sempre em alguém que tivesse alguma situação grave, mas agora que a maioria das pessoas estava só terminando de cicatrizar alguma coisa, ou tomando medicações para tratar o terrígeno, não havia muito que pudesse fazer. A não ser, é claro, vigiar o caso de Moon Byeol.
Tinha sido levado ali pelo pai. O garoto havia sido exposto muito de perto a uma bomba de gás terrígeno, e chegado no Instituto com graves dificuldades para respirar e poderes descontrolados. Exatamente como Damon. De certa forma, assistir àquilo tinha sido como levar um soco no estômago. Tinham lutado contra os Purificadores, destruído a base deles. Deveriam ter vencido. Ainda assim, ali estava, um repeat inesperado de uma situação terrível, mais uma vez. Mais uma vez, um garoto com uma coleira no pescoço, preso a um respirador, em coma na enfermaria deles. E, Balu receava, mesmo que Moon melhorasse e saísse dali, a qualquer instante o terceiro poderia chegar. O quarto. O quinto…
Ele puxou um banco para perto da cama dele, se sentando e pegando um bloquinho no bolso. Vinha anotando os sinais vitais de Moon três vezes por dia, na esperança dos números mostrarem alguma melhora progressiva, e tentando comparar os dados com o que tinham coletado do tempo de internação de Damon. Seus poderes não eram tão bons para curar o dano de terrígeno, e Balu sentia ser essencial entender mais sobre como o processo de recuperação acontecia. Isso com certeza poderia ensiná-lo a ajudar, não é?
Balu verificou a frequência cardíaca, atividade cerebral e a taxa de oxigenação, virando as páginas do seu bloquinho para ver os números os quais tinha anotado anteriormente. A frequência cardíaca estava estável, e a atividade cerebral flutuava um pouco, mas isso não devia ser surpresa. Lendo sobre o estado do coma, Balu já tinha aprendido que, às vezes, pessoas ouviam e reagiam mentalmente ao ambiente ao seu redor. Uma mudança na atividade cerebral podia muito bem ser uma reação a algo que Moon tivesse ouvido. O mais interessante dos dados, então, era a oxigenação.
A dele tinha estado a muito baixa quando o garoto chegou no Instituto. Depois de o colocarem na oxigenação e Balu fazer o possível para atacar os sintomas, além de um bom tempo de recuperação, começaram a observar quanto tempo a respiração dele demorava pra estabilizar sem a oxigenação artificial. Agora, Moon estava conseguindo se manter em um nível sustentável por alguns minutos sem a máquina antes de se cansar. A melhora tinha começado lenta, mas parecia estar acelerando mais e mais ultimamente. Balu queria acreditar que poderiam acordá-lo a qualquer instante. Queria poder ajudá-lo também.
Mas, por enquanto, sabia que o que podia fazer era limitado a apenas isso. Ele deu uma última olhada nos dados do garoto e saiu da enfermaria, ligando a coleira em seu pescoço e respirando aliviado ao sentir o atordoamento familiar em sua mente. Era como desligar uma dor de cabeça.
E por falar em dor de cabeça, não ficou surpreso em encontrar Damon parado do lado de fora da enfermaria, encostado contra a parede, encarando Balu com os braços cruzados.
— Ainda investido? — O mais novo perguntou.
— Era eu até alguns meses atrás. Sim, estou investido.
— A oxigenação tem melhorado mais rápido. Pode ser que ele esteja bem em breve, então vamos poder tirar ele do coma induzido.
— Hm…
Damon encarou a parede por um tempo, e não pela primeira vez, Balu se perguntou o que ele estava pensando. Era muito estranho ter acesso aos sentimentos das pessoas sem ter acesso aos pensamentos que os motivavam. Mais cedo, depois de perder a luta para Amália, Balu tinha se aproximado dele para conferir se o garoto tinha se machucado, e tinha sentido uma onda de melancolia e tristeza muito incompatível com o que uma derrota deveria fazer com alguém com a personalidade dele. Esperava que o garoto estivesse furioso, ou desse um piti. Não que estivesse tão… triste.
— Me diga se algo mudar — Damon anunciou enfim, desencostando da parede e caminhando de volta pelo corredor. Não precisaria procurar por ele para isso, tinha certeza. Damon estaria ali esperando quando Balu fosse fazer seu próximo check-up.
[...]
Eram onze da noite. Nath bocejou, seus olhos pesando e fechando devagar em uma bela pescada sonolenta. Ele balançou a cabeça, enérgico, mas a esse ponto teve de aceitar, não adiantava mais esperar. Ele encarou a tela do notebook um pouco decepcionado, a tela de abertura de Peaky Blinders girando em loop em sua frente.
Havia marcado com Luke de se sentarem às oito para assistir alguns episódios. Tinha pegado pacotes de salgadinhos, um cobertor quentinho e deixado a tela ali, esperando. Eram onze horas, e nenhum sinal dele. Nenhuma mensagem. Nada. Aquilo já se qualificava como um atraso de três horas quando a porta do quarto se abriu.
Luke entrou um pouco cabisbaixo, e Nath conseguia ver o quão exausto o garoto parecia. Ele também bocejou, fechando a porta atrás de si e se virando para Nath. Então ele viu o cobertor, o notebook e os salgadinhos, e sua mão foi até a própria testa na mesma hora, se dando um tapa irritado.
“Peaky Blinders. Era hoje, não é?”, perguntou, usando ASL para se comunicar com o namorado. Nath assentiu. “Desculpe, Nath. Fui passar o relatório das recrutas novas pro Bobby e acabei ficando lá até quase agora. Estávamos ajeitando uniformes pra elas.”
Ele podia ter mandado uma mensagem, Nath pensou, mas claramente tinha de fato se esquecido do compromisso. Tudo bem. Acontecia com todo mundo uma vez ou outra.
“Podemos remarcar. Amanhã é domingo”, Nath sugeriu, começando a juntar os pacotes de salgadinhos.
Luke se adiantou, ajudando Nath a recolher e a tirar o notebook da cama. Inferno. Tinha se esquecido completamente. Nath devia estar muito chateado, com certeza, embora não fosse falar. Ele pegou o pijama no guarda-roupa, indo ao banheiro para se trocar e logo voltou, já encontrando Nath ajeitando os cobertores para dormir.
Os dois tinham juntado as camas no quarto já há um bom tempo, e Luke não fazia ideia se podiam ter feito isso, mas não era segredo para ninguém no Instituto que namoravam e, até então, não tinham tentado os colocar em quartos separados. Talvez Bobby achasse que não adiantaria tentar separar os dois, já que moravam debaixo do mesmo teto... Ou talvez ele achasse que não tinha problema, considerando que sequer podiam se beijar.
Ou melhor dizendo, que Nath não podia beijar Luke. O contrário, os dois tinham percebido num dia aleatório, não era verdade. E naquele momento, Luke decidiu usar um pouco disso, abraçando o namorado por trás e tocando os lábios nas costas dele, um pouco abaixo dos ombros.
— Me desculpe — pediu de novo em um sussurro, se perguntando se o movimento de seus lábios ou a vibração de sua voz contra a pele dele seria o bastante para fazê-lo entender.
Ou às vezes o contexto já tinha sido o suficiente. Nath se virou para ele, abraçando-o de frente, e os dois apertaram o contato um pouco; Luke deitou a cabeça no ombro de Nath, e o outro se encolheu um pouco no abraço, aproveitando o calor suave dos poderes de luz do Sol emanando da pele dele, uma das coisas que o aquecia um pouco uma vez que Nath tinha sangue frio.
“Tudo bem. Foi um dia cheio, a gente devia ter pensado isso melhor. Amanhã, ok?”
Ok. Luke assentiu, segurando o rosto de Nath entre suas mãos e o puxando para perto, devagar. Deixou um beijo suave sobre a ponta do nariz do namorado, segurando a mão dele depois e o puxando para a cama consigo. Estava exausto. Sentia que ia apagar igual a um urso assim que fechasse os olhos.
“Cheio mesmo… Mas ao menos conseguimos mais duas pessoas. O que achou delas? Você ficou tão calado durante a apresentação das meninas…”
Nath deu de ombros. Realmente, tinha preferido observar em silêncio, mas era por não sentir que tinha algo com o que contribuir. Os dois se deitaram na cama, mas Luke não apagou o abajur. Ainda estavam conversando, afinal.
“Amy parece saber o que está fazendo. Grace voa, isso é legal. Acho que vai ser bom.”
Não era lá uma opinião muito encorpada. Luke teve a estranha sensação de que Nath não queria falar sobre o assunto, e não sabia se era por estar chateado com ele ou se era apenas por Nath nunca querer falar sobre esse tipo de coisa. Talvez as duas situações ao mesmo tempo.
Era melhor se deitarem logo. Tinha de fato sido um dia e tanto, e o próprio Luke não sentia que tinha muita energia para conversar agora. Ele apagou o abajur e se deitou um pouco mais para o meio, abraçando Nath e fechando os olhos. O garoto se aninhou no abraço como sempre fazia, e como Luke tinha previsto, não demorou muito para cair de vez no sono.
Fale com o autor