Irmandade de Mutantes: Supremacia Marvel 717 3
17 De Boas Intenções...
Marlene acabou escolhendo um local bastante estratégico. Era uma delegacia em uma parte mais residencial da cidade, a uma distância considerável tanto da torre dos Vingadores quanto do Prédio Baxter e do Instituto Xavier. O objetivo era que, caso tudo desse errado, tivessem mais tempo para ao menos deixar o local antes que os policiais pedissem ajuda.
Ainda assim, a esperança da equipe era de que esse momento sequer chegasse, já que seu plano tinha a possibilidade de funcionar inteiramente sem um pingo de conflito caso tudo desse certo no processo. O problema, é claro, era tudo dar certo no processo, algo que se mostrava cada vez menos provável de acontecer, principalmente no que dizia respeito à parte de Reese.
Tinha acabado de anoitecer quando os cinco integrantes disponíveis da equipe se reuniram em uma praça ao lado da delegacia, sentados discretamente na grama como se fossem apenas um grupo de adolescentes desocupados. Cather ainda estava no hospital, algo que parecia estar deixando Cassian um tanto incomodado, e não havia sinal de Héctor em lugar algum. Pelo que Reese comentava, ele não ia aparecer.
Mas tudo bem, a equipe decidiu, afinal, o plano deles estava orquestrado apenas para os cinco, de qualquer forma. Héctor seria uma boa ajuda e garantia, mas se não estava ali, não estava. Iriam tentar com o que tinham em mãos.
— Ok, vamos repassar uma última vez — Cassian comentou, se virando para o resto do time, sentado em uma roda. — Reese e eu iremos entrar na delegacia com a desculpa de fazer uma denúncia. Ela vai se conectar às emoções de quantos policiais conseguir, eu vou causar um apagão e ela vai tentar manter todo mundo calmo. Enquanto isso acontece, vocês entram com a ajuda de Moonstar, Miguel vigia a saída e Marlene pega os dados que precisamos. Tudo entendido?
Na teoria, é claro, era um plano incrível. Mas pelo que era a milionésima vez nos últimos dias, Reese suspirou, revirando os olhos.
— Eu preciso destacar que eu tenho uma notável dificuldade com controlar as emoções de uma pessoa, e você está me pedindo pra fazer isso com uma delegacia inteira.
— É uma delegacia pequena — ele rebateu. — E não quero que você controle eles por tempo demais. Se você consegue fazer uma pessoa por muito tempo, consegue fazer várias pessoas por um instante só.
— Não é assim que funciona. Olha só eu acabei de conseguir mil favoritos na minha fanfic do Wolverine e foi o momento mais feliz da minha vida até então, não quero morrer depois de um feito desses.
— Você tem uma fanfic do Wolverine? — Miguel interrompeu.
Reese abriu um sorriso, pegando o celular e digitando alguma coisa. Então abriu um link em um site e virou para Miguel, mostrando o título da história e o incrível feito de mil favoritos logo embaixo do link.
— Escrevo ela já tem uns dois anos, nem acreditei quando deu isso tudo.
— Caramba! Me passa o link pra ler depois!
— Passo sim… Se a gente sobreviver — ela completou, suspirando e guardando o telefone de novo.
— Ok, ótimo, parabéns Reese, depois compramos um bolo pra sua fanfic — Cassian comentou, tirando os óculos de Sol do bolso. Ele os encarou por um instante mas acabou desistindo. Estava de noite. Seria estranho demais. — Estamos prontos?
Marlene assentiu, colocando um ponto no ouvido. Cassian colocou o outro no seu, e atrás dele, sua sombra inflou o peito, orgulhosa, como se preparada para um combate muito sério. Reese abriu um sorrisinho para ela, e a sombra encolheu um pouco, quase como se envergonhada.
— E você se comporte — Cassian ordenou para a sombra. — Ninguém lá dentro deve saber que eu tenho poderes, vai cagar o negócio todo.
A sombra girou a cabeça, como se rolasse os olhos, e balançou a cabeça em confirmação. Então Cassian e Reese se despediram do grupo e seguiram até a delegacia.
— Vamos acertar a história — Cassian murmurou no caminho, fechando a mão ao redor da mão dela. — Você é minha irmã. Estávamos tomando sorvete ali na praça. Um cara passou de carro gritando “aberração, vocês devem todos morrer” e jogou um objeto não identificado pela janela.
— E nós não sabemos o que era.
— Exato. E não quisemos procurar saber, porque se for uma bomba…
Era a melhor história que tinham conseguido inventar. Era inocente o suficiente para a polícia poder verificar o local, decidir que o objeto não passava de uma garrafa qualquer e que por pior que o ocorrido fosse, não havia nada que se fazer. Era o tipo de história que poderia ser falseada facilmente, não lhes causaria problemas e não pedia detalhes demais, porque “foi tudo tão rápido”. Essa, na opinião de Reese, era a única parte do plano à prova de problemas. O restante…
Os dois chegaram nas portas do local e entraram, ele um pouco na frente. Reese abaixou um pouco a cabeça, sabia que não adiantaria muita coisa, afinal, em breve estaria conversando com um oficial, mas ainda estava dada como desaparecida pelo seu pai. Uma busca qualquer poderia acabar revelando isso, então era melhor tomar cuidado e aparecer o mínimo necessário. Qualquer coisa, podia dizer que tinha vergonha da própria cara, e não achava que alguém fosse discutir com isso.
A dupla se aproximou do guichê de entrada, e Cassian pigarreou. Uma policial sentada no guichê falava no celular, e ergueu a mão por um instante, pedindo para esperarem enquanto desligava o telefone. Então ela se virou para os dois com um sorriso amável no rosto, sorriso esse que não se abalou em nada ao trocar o olhar de Cassian para Reese. A garota gostou dela. Era uma pena precisar mentir para a mulher.
— Olá, crianças. Em que posso ajudar vocês?
— Olá — Cassian cumprimentou. — Nós achamos que vimos uma coisa… Mas não sei, pode ser impressão. Mas se não for…
— Ah, certo. Do que estamos falando?
— A gente tava tomando sorvete na praça, um carro passou gritando uma coisa bem… desagradável pra minha irmã — Cassian respondeu. — E a gente viu algo voando. Pode ser um lixo qualquer, mas pode ser outra coisa, a gente não quis chegar perto pra olhar. Esses negócios são perigosos, sabe.
— Entendi. Só um segundo, esperem ali no banco que vou chamar um oficial pra recolher seu depoimento.
Até agora estava tudo indo muito bem. Reese aproveitou a proximidade pra começar a estender seus poderes e tocar os sentimentos da mulher com eles. Precisava continuar focada nessa ligação enquanto fazia outras com os outros oficiais do local, e foi o que começou a fazer em seguida, olhando em volta pela recepção e estendendo seus poderes para tocar os dois oficiais que conversavam perto da máquina de café. Os demais estariam para dentro do local, teriam de entrar para isso.
— O oficial White vai receber vocês — a mulher anunciou, apontando para o corredor.
Reese apertou a mão de Cassian, buscando algum tipo de firmeza, e os dois seguiram em frente. A próxima seção da delegacia tinha cerca de uma dezena de policiais, alguns sentados em seus computadores, outros conversando com pessoas, outros de pé pelo local. Um dos policiais acenou para eles quando os dois entraram, e a dupla seguiu até ele. No caminho, Reese começou a expandir seus poderes, buscando as emoções dos presentes ali, mas já sentia a conexão com os oficiais da recepção ficando um pouco fraca. Com sorte, todos convergiriam para lá em um apagão. Com sorte.
— Boa noite — o policial comentou, bem menos sorridente que a policial da recepção, mas ainda empático, no mínimo. — Sentem-se. Como se chamam?
— Pode ser anônimo a denúncia? — Cassian perguntou. Não queria precisar mentir seu nome também. — Minha irmã tem a cara chamativa, não quero o sujeito vindo atrás da gente depois.
— Ah, claro. Tudo bem — o policial comentou, digitando alguma coisa. — Por que não me conta o que aconteceu?
Cassian começou a descrever a história inventada. Para evitar contradições, ele e Reese tinham combinado de que só sabiam o que tinham discutido, e que a resposta para qualquer outra coisa era “foi muito rápido, não sei dizer”. Também tinham combinado de, se possível, apenas Cassian falar, para Reese poder se focar em seu outro trabalho, e isso parecia estar funcionando. Por hora.
Era possível dizer que a natureza da denúncia não estava facilitando muito o trabalho do oficial. Poderia, de fato, ser qualquer coisa jogada pela janela, inclusive um guardanapo, então o que estavam dizendo a ele agora era para vasculhar uma praça cheia de lixo de pessoas porcas atrás de um explosivo de terrígeno que talvez nem existisse. O homem não estava feliz.
— Não sei se tem muito que possamos fazer por vocês. Existem centenas de carros pretos em Nova York, vocês não viram a placa, mal viram a cor do cabelo do sujeito…
— Tudo bem se não puderem fazer nada com ele, o que nos preocupa é o que quer que seja que ele tacou na praça…
— E que poderia muito bem ser um saco de papel. Olha, não estou dizendo que não entendo…
— Tudo bem, a gente sabe — Cassian comentou, esticando o olhar para Reese.
Ela estava com o capuz levantado, usando sua aparência e uma possível vergonha como motivo para isso, mas Cassian conseguia ver o motivo real por baixo dele. A garota estava branca, tinha começado a suar frio, e tremia um pouco. Ela não tinha exagerado sobre aquilo ser um esforço fora de nexo para si. Tinham de mover com o plano logo ou não conseguiriam fazer isso em momento algum.
— Eu acho que minha irmã está tendo uma crise de pânico… Você tem um copo de água?
— Claro garoto, só um instante.
O oficial se virou de costas para eles por um microssegundo, e foi tudo o que Cassian precisou.
Não era só Reese quem tinha dificuldade com usar os poderes em larga escala, mas Cassian achou melhor ser bem direto sobre seu caso. Nunca tinha feito isso, mas pelos seus cálculos, conseguia. Era um plano cheio de talvezes, mas era o plano que tinham, e ele estava determinado a fazer de tudo um pouco para que desse certo. O garoto chamou as sombras para a delegacia, e em segundos elas começaram a cobrir as paredes. Cassian se focou no objetivo, sombras sólidas na frente das câmeras e das lâmpadas, para escurecer o local. O acontecimento súbito abalou os oficiais por um instante, e Cassian viu vários se virarem para eles, os mutantes presentes no local, como se procurassem resposta para o mais recente e bizarro acontecimento.
E era agora. Reese não podia falhar, ou seriam colocados pra fora da delegacia antes de Marlene e os outros sequer chegarem na parede certa. Reese fechou os olhos, respirando fundo e procurando os sentimentos que tinha encontrado quem estava coberto de desconfiança, ou receio. E eram quase todos.
Um a um, ela começou a enviar calma e relaxamento para eles. Em um canto da sala, um oficial tirou a mão da arma no coldre. Em outro canto, uma mulher voltou sua atenção à sua mesa, pegando uma bolinha de brinquedo e jogando de uma mão para a outra. Um oficial de cada vez, eles foram desfazendo suas posturas de ameaça, e se distraindo com outra coisa que não fossem os dois.
Era esse o momento. Cassian passou a mão pelas costas de Reese, em um semi-abraço, se aproximando mais dela.
— Está tudo bem, irmã. É só um apagão, vai ficar tudo bem.
Esse era o sinal que tinha sido combinado do lado de fora. Ali, os dois precisavam aguentar por quanto tempo pudessem, e torcer para que conseguissem tempo o suficiente para o restante do time atuar.
[...]
“Está tudo bem, irmã. É só um apagão, vai ficar tudo bem.”, Marlene ouviu, em seu ponto no ouvido.
— É o sinal. Eles estão no controle, vamos lá.
Ela, Miguel e Moonstar colocaram balaclavas sobre o rosto. Cassian e Reese precisavam entrar na delegacia de cara lavada, mas se os três não tinham essa necessidade, então não correriam esse risco. O grupo, que já estava abaixado no estacionamento, saiu correndo até a parede dos fundos, a qual, de acordo com a vigilância feita previamente pelos pombos-vigia de Marlene, dava para o escritório do detetive.
— Faça as honras, Midas — Marlene declarou, apontando para a parede.
— Com prazer.
O garoto apertou o botão em sua coleira, a desligando. Então pousou as duas mãos na parede da delegacia.
A parede começou a se desfazer em pó. Moonstar arrastou as mãos para cima e em volta deles, vendo apenas um breu de escuridão do outro lado. Os três tiveram o cuidado de não ficar diretamente na frente do buraco, caso o detetive dessa delegacia fosse do tipo de atirar primeiro e perguntar depois, mas ele não parecia estar na sala de qualquer forma.
— Narciso, a porta.
Miguel se abaixou, tocando o chão. Ele chamou vinhas e galhos poderosos de baixo do chão, os levando até a porta da delegacia e travando a maçaneta e as juntas. Enquanto Miguel reforçava a barricada, Moonstar acabou seu buraco, e ele e Marlene entraram no local.
A sala estava mesmo bem escura, mas nada que uma lanterna de celular não resolvesse. Marlene se sentou no computador, mexendo o mouse e constatando, aliviada, que realmente o negócio estava logado e em repouso, prontinho para ser usado.
— Narciso, entra — ela chamou.
Miguel entrou, usando mais vinhas para tampar o buraco feito por Moonstar, e o trio se inclinou sobre a mesa para vê-la trabalhando, Moonstar com as mãos cuidadosamente colocadas para trás do corpo. Marlene abriu o banco de dados do computador, e com uma boa ponta de esperança de não ser solicitada uma senha já que o detetive já estava logado, digitou “Jason Stryker”.
Não precisou. O arquivo fez a busca por alguns instantes e então logo indicou que a busca tinha zero resultados.
— Mas que droga! — Ela xingou, baixinho.
— Tente o plano B — Moonstar pediu.
Suspirando, ela digitou “William Stryker”, e dessa vez, teve retorno. A ficha era bem grande, e não teriam tempo de ler tudo ali, então Marlene procurou um botão de exportar arquivo para copiar ele para o pendrive.
— Anúbis, como estão as coisas aí? — ela perguntou.
“Gente eu acho que minha irmã vai desmaiar! Tem algum paramédico aqui?”
Nada bem. Marlene assistiu a cópia do arquivo, pensando que não teriam muito tempo, mas… Mas…
Ela digitou o próprio nome na caixa de pesquisa. Sua ficha apareceu como a de Stryker, obviamente muito menor, mas ainda marcada como caso suspeito. Ela procurou um botão para apagar a ficha, mas não havia nenhum.
— Mas que droga…
A cópia do arquivo de Stryker acabou. Podiam ir. Mas… Quando teria outra chance? Ela exportou a própria ficha e começou a copiar também.
— Não foi isso que viemos fazer aqui — Moonstar comentou.
— Podemos gastar tempo com isso? — Miguel perguntou.
— Eu não tenho certeza…
— Não, espera, se você pode, eu também quero. Procura a minha mãe, ela foi vítima de um crime…
— Gente?
Nenhum dos dois ouviu Moonstar. Ele bufou, irritado, vendo Miguel se abaixar sobre o teclado e digitar alguma coisa. Não que ele mesmo não quisesse fazer sua busca, mas… Bem… Já estavam ali, já estavam perdendo tempo. O que era um segundo a mais?
— Depois é minha vez, e então vamos embora. Preciso que puxe um caso de bombardeio pra mim, ver se tem algum suspeito…
Os três se acumularam em cima do computador. Marlene digitava com pressa, procurando um arquivo atrás do outro, copiando tudo em que conseguiam colocar a mão. Ela ouviu um chiado no ponto em seu ouvido, e sentiu o estômago afundar. Estavam queimando seu tempo? Por favor, que ainda tivessem tempo…
— Anúbis, status.
“Irmã. Irmã acorde, por favor…”
Reese não tinha aguentado.
— Temos que sair daqui — Marlene comentou, puxando o pendrive de uma vez do computador. Nesse momento, alguém tentou abrir a porta do escritório, e graças às vinhas de Miguel, ela não cedeu.
— Ei, quem está aí? — Uma voz do outro lado gritou. — Abra a porta!
— Narciso, saída estratégica — Marlene pediu.
O garoto estendeu a mão para as vinhas que cobriam o buraco da parede, as chamando para saírem do caminho e abrir a passagem para os dois. E então, nesse instante, ele percebeu exatamente o quanto tudo tinha dado errado.
— Merda — Marle xingou, assim que viram dois policiais parados do lado de fora do buraco, com armas apontadas para eles.
Em um milissegundo, Miguel ergueu uma parede de madeira, segurando o impacto quando os policias começaram a atirar. Batidas insistentes indicavam que agora os policiais tinham trazido um aríete para a porta da sala e se eles não entrassem antes, os do buraco provavelmente entrariam.
— Estamos fritos — Miguel comentou. — Midas, faz outro buraco.
— Pra onde? As outras paredes dão pra dentro da delegacia, se eu abrir mais um buraco só vou tá abrindo passagem pra eles…
Marlene xingou, baixo, apertando o pendrive em sua mão. Tinham conseguido o que precisavam, se fossem pegos agora ia ser tudo por nada… Ela amaldiçoou o momento no qual tinham tomado aquela decisão, deviam saber que ia ser algo burro, e começou a pensar se iam ter de fato que lutar contra policiais. Seria uma tremenda dor de cabeça, ainda mais do que o tamanho do buraco onde já estavam metidos.
— Narciso, derruba os guardas do estacionamento — Marlene ordenou.
— Mas…
— Você fez isso uma vez com os bandidos da lavanderia, faz de novo agora! Ou a gente tá muito, muito ferrado!
Miguel soltou um resmungo, mas esticou as mãos para a frente. As batidas começaram a ficar cada vez mais insistentes, mas ele tentou ignorá-las, focando nos guardas do lado de fora e encontrando raízes debaixo do chão.
Ele pegou os dois, tirando também as armas de suas mãos. Infelizmente, ao perceber isso, reparou que mais três tinham se juntado a eles, e precisou cuidar deles também, o que não era fácil quando se mexiam tanto. As batidas na porta ficavam cada vez mais intensas, e ele dividiu sua atenção, usando mais plantas para reforçar a barricada.
— Acho… Eu acho que os peguei… — Miguel comentou, a voz baixa e um pouco zonza.
— Abaixa essa parede do buraco então pra gente sair daqui! — Moonstar pediu, a voz saindo em um agudo semi-desesperado.
Miguel moveu a mão para baixo, puxando a parede para o chão e abrindo o caminho para fora. Lá, os policiais pareciam mesmo todos presos e desarmados, e Marlene foi a primeira a pular para fora da sala. Moonstar foi logo atrás, e por último Miguel, levantando a parede de madeira mais uma vez para não serem seguidos tão facilmente. Então, ao acabar, ele se virou para a parede da delegacia e vomitou.
— Eca — Moonstar comentou.
— Tenta você então, quero ver se vai ficar bem depois.
— Briguem depois, temos que sair daqui antes que eu perca o pendrive.
Os grupo deu a volta pelo estacionamento, decidindo que era melhor sair pelos fundos do local que arriscar passar pela porta. Eles estavam prontos para sair correndo quando uma viatura avançou, fechando o caminho do trio, e um barulho forte indicou que dentro da delegacia a porta tinha enfim sido arrombada.
— Narciso — Marlene murmurou, entre os dentes, levantando os braços em sinal de rendição para a viatura parada à sua frente. — A qualquer momento.
Miguel olhou nervoso para os arredores. Ainda estava um pouco zonzo, mas conseguia ver o tamanho do perigo atual. Nervoso, ele se ajoelhou, tocando o chão, e começou a chamar as plantas debaixo do asfalto para cima.
O garoto gritou, e a terra começou a tremer. Uma a uma, vinhas começaram a surgir do chão, grandes e assustadoras, furando a terra, virando carros e jogando pessoas para os lados.
Um policial atirou, desesperado, quando uma vinha lhe pegou o pé. Marlene sentiu a bala acertar seu tornozelo, e caiu no chão no mesmo instante, soltando um grito de dor. O grito de Miguel cessou, e o garoto despencou ao chão, apagado.
Por um lado, tinham afastado os guardas deles. Por outro, Marlene estava sangrando, Miguel não estava consciente e havia uma enorme jaula de madeira ao redor deles.
— Midas, abra uma saída pra nós.
— Tem certeza? Não estamos mais seguros aqui dentro? — Ele perguntou, olhando para o tornozelo dela e se lembrando de todos os guardas que Miguel tinha afastado deles com a redoma de vinhas.
Em verdade, Marlene não sabia dizer, mas não podiam ficar ali para sempre. Então o que raios iriam fazer?
[...]
Cassian tinha pegado Reese nos braços, na confusão, e agora deitara a garota no chão da delegacia. Ela tinha tentado, e todos sabiam que existia uma chance de dar errado, mas Cassian não tinha esperado que fosse ser tão errado assim. Não queria alguém de seu time ferido mais uma vez, já bastava Cather no hospital, e sabia que a paciência de Héctor ficaria bem limitada para eles se o chamasse para ajudar depois de terem feito algo tão anti-ético e irresponsável. O senso de escoteiro dele com certeza não se curvaria a um ataque a uma delegacia de polícia.
— Reese — Cassian chamou em um sussurro, aproveitando a confusão ao redor deles. — Reese, deixe estar. Eles já estão reagindo, não segure mais ninguém.
— Mas… Os outros.
— Deixe ir!
A garota suspirou, cansada, mas soltou as poucas pessoas que ainda estava tentando controlar. Muitos tinham convergido para a sala do detetive, outros tinham saído pela porta. Uma das policiais tinha ficado com os dois, mas então parou para buscar uma água para Reese e ainda não tinha voltado.
— Temos que ajudar…
— Temos é que sair daqui — Cassian comentou. — Eles olharam na nossa cara, precisamos nos fazer de vítima.
Relutante, a garota assentiu. Ela começou a recuperar a cor no rosto, e satisfeito, Cassian a ajudou a se sentar e se encostar na escrivaninha mais próxima. A policial escolheu esse momento para voltar com o copo de água, e Cassian o pegou com um sorriso simpático no rosto.
— Obrigado. Me desculpe, minha irmã é bem sensível com essas coisas… Foi por isso que viemos aqui, desde o terrígeno tudo tem a assustado bastante… O que aconteceu?
— Alguns vândalos invadiram a sala do detetive — a mulher respondeu. Cassian entregou o copo para Reese e ela começou a beber, devagar. — Eles devem ter causado o apagão de alguma forma.
Seria ótimo se continuassem nessa linha de pensamento. Quando essa notícia saísse na televisão — e invariavelmente sairia — Cassian sabia que sua mãe não ia ficar nada feliz. Talvez fosse finalmente obrigado a abrir o jogo com ela. Niko provavelmente não ficaria feliz também, mas se isso a fizesse telefonar pra ele, então talvez, quem sabe, fosse uma vitória.
O rádio da oficial chiou, e ela apertou um botão para responder. Cassian atentou os ouvidos para entender a conversa, e seu estômago afundou.
“Oficial Turner aqui, os invasores são dotados, não sabemos de que tipo. Algum deles se fechou com os amigos em uma… gaiola de planta. Meu Deus eu detesto essa cidade.”
— Precisamos de reforço. Como está o pedido que fizemos?
“Deve estar a caminho. Acho que fomos respondidos por uma equipe de mutantes, ou algo assim. Por mim que sejam até demônios, pouco me importa, desde que limpem essa bagunça…”
Mutantes? E a forma como o guarda tinha falado, “alguma equipe de mutantes” em vez de “X-Men” por exemplo, não deixava uma boa impressão na boca do estômago de Cassian. É claro que, com a sua sorte, e considerando o escopo do problema em questão, Robert Drake pularia na oportunidade de mandar seus alunos para mais um combate de pequena escala. Como não tinha pensado nisso antes? Era exatamente o tipo de treta ao qual eles iriam querer responder!
Não podia ser visto ali com Reese. Tinha frequentado o Instituto uma vez como Anúbis e outra como Cassian, e por mais que dissesse frequentemente que eles eram burros como uma porta, nem mesmo eles seriam tão idiotas a esse ponto. Era arriscado demais.
— Reese, temos que sair daqui — ele murmurou para ela ao ver a oficial se afastando. Cassian respirou fundo, devolvendo a luz à delegacia de uma vez e ajudando a garota a se levantar.
— Mas e os outros?
— Eles vão ter que se virar. Se eu for visto aqui o time inteiro está em perigo e você não está em condições de fazer nada agora. Confie em mim, vamos embora. Eles dão conta do reforço que está chegando.
— Ah céus… — Reese comentou, passando o braço pelos ombros de Cassian e o acompanhando até a saída. No caminho, alguns policiais apontaram a direção para eles. Não pareciam mesmo desconfiar em nada do envolvimento dos dois, ao menos por agora. — Não me diga que enviaram…
— Aham. Bobby Drake decidiu dar um teste pros seus Novos Mutantes.
— Cass, eles não podem ver Moonstar ali. Eles não podem.
— Isso não está mais em nossas mãos.
Fale com o autor