Irmandade da Adaga Negra: Amor e Drama
14 Continuação de Pais e Filhos 03 Wrath e Beth
Capítulo 04
Meses se passaram. A tensão se gerava cada vez mais entre Vishous, Mahg e Butch. Mas todos na Irmandade estavam mais preocupados e temendo pela vida de Wrath. Seu rei poderia deixá-los. Ser levado pela morte. Wrath continuara não aceitando o sangue de nenhuma outra fêmea, além de mal comer. Como resultado, ele estava muito magro, e fraco demais, a ponto de todos pensarem que ele poderia morrer a qualquer momento. Mal conseguia ficar de pé. Já tinham tentado forçá-lo a aceitar da veia de Layla e também a aceitar comida, mas mesmo fraco, Wrath continuara com uma força de vontade e teimosia de ferro, e sua magia ainda era capaz de evitar que o obrigassem a fazer o que ele não queria.
Certa noite, enquanto ele dormia, através do sono sentiu alguém se deitar ao lado dele. O corpo quente de uma mulher. Ele se virou; no sonho, ela era sua Beth.
— Leelan... — ele sussurrou, rouco, passando o braço pelo corpo macio e feminino. Seu estômago rugiu quando o cheiro da pele e do sangue atingiu suas narinas, fremindo-as. Ela sussurrou:
— Beba de mim, meu rei... Se alimente de mim...
Ele estranhou o som da voz. Não era a voz de sua shellan... Wrath acordou do sonho, ofegando, e ergueu a mão, levando-a até sentir uma mão feminina apoiada em seu peito. Segurou a mão e a levou ao seu rosto, aspirando o cheiro da pele. Logo grunhiu de raiva. Não, não era sua shellan! Pelo cheiro, era No'One, a mãe de Xhex.
— O que você está fazendo aqui?! — ele grunhiu.
— Apenas tentando fazer com que meu rei não morra. O destino de nossa raça depende do senhor, meu rei. Não posso deixá-lo morrer, quando todos os vampiros precisam de sua liderança. Você é o único capaz de guiar nossa espécie, Wrath. Então, vai ter de beber.
O som de porta se abrindo chegou aos ouvidos de Wrath. Percebeu, pelo odor, que eram Tohrment e Rhage.
— Isso mesmo, meu rei. Você irá viver, Wrath. Um inferno que nós te deixaremos ir para o Fade. Tohr, segure-o por um lado.
Os dois grandes machos seguraram Wrath por seus grandes ombros, e por mais que ele se sacudisse e agitasse, fraco como estava, não conseguiu se soltar.
— Que porra vocês estão fazendo?! Soltem-me!
— No'One, faça-o! Dê seu pulso a ele! — gritou Rhage.
O cheiro de sangue fresco alagou as narinas de Wrath, que a contragosto sentiu suas presas se alongarem a um tamanho impossível. Mas ele afastou a cabeça quando sentiu a pele feminina perto de seus lábios.
— Rhage, abra a boca dele! — gritou Tohrment.
Wrath tentou lutar contra as manoplas que escancaravam suas mandíbulas, mas não conseguiu. Logo gotas deliciosas agridoces começaram a cair em sua boca, como se a vampira estivesse mantendo seu pulso aberto sobre a sua boca. Seu estômago rugiu mais forte, mas ele não queria. Estavam-no forçando.
— Beba, meu rei... É para o bem de toda nossa raça... — disse a voz suplicante da fêmea.
Fazendo um grande esforço, Wrath conseguiu se livrar das mãos imensas que agarravam sua cabeça e mandíbulas. Então cuspiu o sangue que caíra em sua boca. Irritado, ele tentou abocanhar seus Irmãos, e conseguiu até dar algumas boas mordidas nos braços de Tohrment e Rhage.
— Wrath! Pare, seu fodido idiota!! Isso é para o seu bem, filho de uma puta!
Usando suas últimas forças, o rei conseguiu escapar das mãos de seus Irmãos, e então pulou da cama. Sua pulsação estava rápida e fraca, e ele parou perto do poste da cama. Mas sentiu uma forte tontura. Uma sensação horrível se espalhou por seu corpo. Ele precisou se agarrar ao poste da cama para não cair, mas nem isso conseguiu deter sua queda, pois seus braços perderam a força. Ele caiu, batendo a cabeça no chão tão forte que estrelas explodiram dentro de sua mente. Sua respiração estava agitada e superficial. De repente, ele sentiu. Estava indo ao Fade... A luz brilhante, coisa que ele não via havia tanto tempo, era hipnotizante, chamava-o. As portas abertas permitiam que ele visse seu pai e sua mãe, sorrindo para ele, chamando-o. E ele foi.
***
Deitado em sua cama em seu quarto na cabana, Angher pensava em sua vizinha. Não conseguia entender porque o hellren da doce fêmea que era sua vizinha não conseguia encontrá-la. Até ele, se suas tendências fossem o sexo oposto, já teria caído de amores por ela. Ele estava preocupado. Beth estava já com uma barriga imensa, e ela não quisera se mudar para a casa dele. Ele e Kindhy poderiam cuidar dela melhor ali, poderiam vigiá-la, mas ela era teimosa demais. A gravidez para as vampiras era muito perigosa, e normalmente poucas conseguiam levar uma gestação até o fim. A maioria tinha suas crianças prematuras, e poucos bebês sobreviviam. Até mesmo as fêmeas sofriam um grave perigo.
— Querido! — disse a voz de Kindhy vindo da sala. Tinha sido a vez dele de alimentar Beth, e Angher ficara o esperando. Estavam, nesse último mês, ambos de férias, e as estavam desfrutando juntos no chalé.
Quando o magnífico loiro apareceu no umbral da porta, os olhos escuros de Angher se enterneceram. Quando mais jovem, tinha tentado ter relacionamento com fêmeas. Com algumas até conseguira, mas sempre achara que algo faltava. Ele se sentia confuso, pois alguns homens o atraiam. Ele tinha medo de se revelar um gay, mas esse medo passara totalmente ao conhecer Kindhy. Ele era o homem de sua vida, e hoje Angher assumia sua homossexualidade com orgulho. Amava aparecer em público com seu doce Kindhy ao lado, seu protetor braço forte, longo, da cor de chocolate ao leite envolvendo o ombro largo e cor de creme suave de seu anjo loiro.
Kindhy se sentou na beira da cama, apoiando o queixo na mão. Seu rosto parecia preocupado. Meio se sentando, recostando suas costas imensas na cabeceira da cama, Angher conseguiu estender seu braço até ele, afastando algumas mechas de sua longa cabeleira loira.
— O que o preocupa, Nallum?
Kindhy voltou o rosto para o lado, acariciando a mão de Angher com sua face, para logo lhe dar um beijo suave na palma.
— Beth, querido... Ela... Não sei, mas sinto que ela pode ter seu bebê a qualquer instante. A barriga dela está tão grande e baixa... É um perigo ela ficar lá sozinha.
— Mas ela é teimosa demais, Nallum. Já oferecemos várias vezes para que ela viesse ficar conosco, ou ao menos para que ela aceitasse que nós nos revezássemos, indo dormir no chalé dela.
— Fico pensando... Quem é o Hellren dela? Olha, Angher, eu quero muito que ela viva, eu já a amo como a uma irmãzinha, mas temos que ser realistas. E se ela morrer? Como faremos para entregar a criança ao pai, se nem ao menos sabemos quem é?
Angher estendeu seus longos braços e puxou Kindhy através da cama até que esse estivesse acomodado sentado entre suas coxas musculosas, suas costas apoiadas no largo peito. Kindhy suspirou de satisfação.
— Não se preocupe, Nallum. Se depender de mim, Beth não vai morrer. E de você. Ou seu curso de Medicina não está servindo para nada?
— Mas é que minha área não é a Obstetrícia, e...
— E nada. Eu sei muito bem que você é capaz. Você tem um dom, Kindhy. Você é capaz de dar a vida. Você recebeu da Virgem Escriba o maior dos dons. Você dar a vida e eu... a tiro.
Amuado, Kindhy voltou o rosto para a dura face cor de chocolate de Angher.
— Nunca mais diga isso, meu amor. Você não tira vidas. Você nos protege. Você tira de circulação malvados lessers em Manhattan. Está certo que não se revela à Irmandade, por não ser um guerreiro de sangue nobre como eles, mas salva a vida de centenas de vampiros. Eu tenho muito orgulho de você, Angher.
Angher era um vampiro mestiço, filho de um vampiro forte e uma humana afrodescendente. Desde cedo ele sentira em si o desejo de ser um guerreiro, mas temia se apresentar à Irmandade da Adaga Negra em Caldwell. De negro, lá, parecia que eles tinham apenas as adagas. E ele temia que fosse vítima de preconceito, por ser, além de negro, filho de um vampiro não nobre e de uma fêmea que, além de não ser uma Escolhida, era uma humana. Mas sangue guerreiro parecia percorrê-lo de tal forma que ele não pudera resistir ao chamado. Sem que a Irmandade sequer soubesse, ele lutava contra lessers nas noites da Cidade de Nova Iorque, principalmente em Manhattan, um reduto da Sociedade Lessening, e os matava, enviando-os de volta ao seu criador, o Ômega.
Kindhy, entretanto, era totalmente diferente. Filho de uma família da Glymera, sempre tivera privilégios, e nascera com o dom de curar. Estava se formando para ser médico de vampiros, mas já salvava vidas. Angher brincava, fazendo uma comparação entre eles, dizendo que ele era um demônio sombrio e Kindhy, um anjo dourado. Ao que Kindhy respondia que eram os contrastes entre eles o que mais aumentava sua atração.
Kindhy se voltou de frente para Angher, sentando-se em seu colo, seus joelhos pressionando as laterais das coxas musculosos do belo afro-americano. As manoplas de Angher acariciaram as faces cor de pérola de seu amado, vendo com prazer elas se tingirem de um delicado tom rosado.
— Meu anjo... — ele murmurou, sua voz grave retumbando nos ouvidos de Kindhy. — Tão doce... meu terno Kindhy...
As pálpebras de Kindhy tremularam até se fecharem, seus longos cílios dourados pousando contra a pele macia. Ele se inclinou até roçar o ombro forte de Angher com seu rosto, o nariz se esfregando contra a pele escura e brilhante, sentindo o odor másculo e agreste.
As mãos de Angher subitamente seguraram os cabelos de Kindhy na nuca, erguendo sua cabeça e a mantendo no ângulo perfeito para um beijo. Os lábios muito carnudos e protuberantes, de um tom arroxeado, atacaram os rosados e esculpidos lábios finos de Kindhy em um beijo voraz. Era sempre ele, Angher, o dominante na relação. Estava em sua natureza, como estava na de Kindhy ser mais dócil, mais submisso. O loiro o abraçou, gemendo de prazer ao sentir o sabor único da língua dele dançando contra a sua.
Angher estava nu sob o lençol, e foi fácil puxar o tecido até expor seu corpo muito musculoso como ébano duro. Suas mãos rasgaram a camisa e a calça de Kindhy, ainda sobre seu colo, para deixá-lo despido para ele. O nariz de Angher roçou contra a pulsante jugular de Kindhy e suas presas se alongaram, da mesma forma como, mais abaixo, seu membro imenso roçava contra as nádegas de Kindhy.
Esse, sentindo as presas de seu amado, gemeu:
— Siiimmm...
Mas Angher negou com a cabeça.
— Você está faminto... Sinto a sua fome... Sei que o sangue de uma fêmea pode suprir muito mais a sua fome, mas eu te dou meu sangue com todo prazer, amor e abnegação...
Os olhos azuis tormentosos de Angher se abriram. Deslizaram pelo rosto forte de seu macho até se fixarem na grossa artéria que pulsava contra a pele. Seu estômago rugiu, fazendo Angher rir com os dentes apertados e a respiração arfante.
— Sim, a sua fome está gritante... E não só a de sangue...
Contra seus abdominais, ele podia sentir o grosso membro de Kindhy pulsando e roçando. Desceu suas mãos até as nádegas dele, e o preparou para recebê-lo dentro de si. Quando Kindhy sentiu seu corpo deliciosamente devassado pelo grande macho, grunhiu num misto de prazer e dor que era uma mistura explosiva. Angher segurou os cabelos de Kindhy até pressionar sua boca contra sua própria artéria. Sem conseguir resistir, ele o mordeu profundamente, sentindo o poderoso trovejar de poder preenchendo suas células famintas e o sabor mais delicioso do mundo explodir em sua língua.
— Sim, Kindhy... Bebe de mim... se alimenta de mim...
Kindhy parou de sugar só para dizer, seus olhos vidrados, os lábios manchados de carmim:
— Mais rápido, Angher.... Mais duro! — para então voltar a beber sofregamente.
O grande guerreiro acatou o desejo de seu amado, que também era o seu, erguendo seus quadris contra ele com mais força, segurando firme os quadris estreitos de Kindhy para puxá-lo duro e rápido contra seu corpo ardente, suas coxas poderosas batendo contra as nádegas dele. Com o movimento e com o contato dos dois corpos, o membro de Kindhy roçava forte entre os dois ventres. Ambos gozaram ao mesmo tempo, longa e intensamente.
Kindhy gritou, e Angher capturou o grito com seus lábios, beijando-o intensamente, sentindo na boca do outro o sabor de seu próprio sangue.
— Eu te amo... — Kindhy sussurrou, ofegante, contra a orelha de Angher. Esse roçou um beijo nos cabelos loiros e suados e murmurou:
— Como eu, meu anjo de luz...
***
Beth estava dormindo, e mesmo no sonho estava inquieta. Algo de errado estava acontecendo, ela sabia. Algo ruim... algo que tocava seu coração de uma forma que a fazia querer chorar. Ela acordou sentindo lágrimas em sua face.
Sentou-se na cama, as mãos esfregavam o rosto, os braços, passavam entre os cabelos longos e negros. Uma dor estranha parecia cortar sua alma. Ela não tinha a mínima ideia do que acontecia consigo. Só soube que, de uma hora para outra, passou a chorar desesperadamente, agoniada, sentindo como se recebesse uma punhalada no coração. Arregalou os olhos quando sentiu. Nitidamente ela sentia... a alma de Wrath se despedindo daquele mundo! Não! Seu hellren não podia estar... morrendo.
De olhos arregalados, arfando, ela tentou encontrar seu celular, quando se lembrou de que deixara o antigo na mansão e o novo estava na sala. Ela tinha que telefonar! Tinha que saber o que estava acontecendo!
Levantou-se e arrastou seu pesado corpo pela cabana. De repente, a dor de sua alma parecia estar se estendendo ao seu corpo. Uma dor excruciante parecia romper seu corpo por dentro, e ela gritou, abraçando o próprio ventre. Quando olhou para baixo, percebeu que havia uma possa de líquido no chão e que sangue ensopava sua camisola. O que acontecia de errado com seu bebê?! Ela não podia estar perdendo as pessoas que mais amava em sua vida ao mesmo tempo, podia? Caminhou lentamente pelo corredor até chegar à sala. Lá, não conseguiu mais se manter de pé e caiu de joelhos. Arrastou-se até a mesinha onde estava o celular novo e ligou para a mansão. Ninguém atendia, o que era sinal de mau agouro. Nova onda de dor a fez pensar primeiramente em seu filho, e ela não hesitou em telefonar para seus novos amigos.
***
Kindhy e Angher dormiam abraçados. Quando o telefone tocou àquela hora do dia, ambos acordaram e se olharam, assustados. Só podia ser... Beth! Kindhy pegou o telefone apressadamente e viu que realmente era ela.
— Beth?!
Ouviu um lamento de dor e uma respiração forçada.
— Kin...dhy... Está doendo... muito... Acho que... vou perder meu bebê... estou sangrando...
Alarmado, Kindhy olhou para Angher.
— Beth... mesmo sendo muito cedo, acho que ela entrou em trabalho de parto.
Angher se levantou na mesma hora, vestindo um jeans sobre sua pele nua.
— Fique aqui. Ela vai precisar de você. Você não pode com o sol, mas como sou mestiço, posso recebê-lo. Vou buscá-la.
Enquanto o alto, imponente e belo negro saía, Kindhy murmurou:
— Por favor, volte logo... Salve-a, meu amor.
Preparou um lugar para Beth dar à luz, em seguida se ajoelhou, fechou os olhos e pôs-se a rezar:
— Por favor, querida Virgem Escriba, salve Beth... Como mãe de toda uma raça que é, permita que ela tenha essa criança e que nenhum dos dois morra no processo...
Capítulo cinco
Wrath sentia cada parte de seu corpo doer. Ele se sentou e suas mãos sentiram o chão de pedra fria. Entretanto, ele sabia muito bem o lugar onde estava. O cheiro e o barulho da fonte e dos pássaros eram inconfundíveis. Ele estava no Outro Lado, perto do lugar onde Payne e ele lutavam no passado. Sentia-se fraco, doente. Ele estava mesmo morrendo? Mas ele vira seus pais o chamando, sorrindo para ele...
Alguém se aproximava dele. Era uma sensação de poder, e ele logo percebeu que era a Virgem Escriba. Ele se esforçou para se levantar, mas suas pernas estavam muito fracas, e não conseguiu. Ficou ajoelhado lá, arfando, suando.
— Você nunca teve bons modos e respeito comigo mesmo, não precisa tentar começar agora, quando mal pode consigo mesmo.
— Então você vai ter de aceitar que estou fodido o bastante para fazer perguntas, mesmo que não goste de ouvi-las. Que porra estou fazendo aqui? Estou morto?
Ele sentiu uma mão muito quente tocar seu ombro e se admirou. A Virgem Escriba não era muito de tocar. E ele sentiu um cheiro estranho, salgado. Logo percebeu. Eram lágrimas. A Virgem Escriba estava chorando por ele? Ele estava tão fodido assim?
— Por minha intervenção, você está vivo, sim, Wrath, filho de Wrath. Eu não permiti sua morte. Fiz as portas do Fade se fecharem para você. Interferi com o Destino. E sei que, em algum momento, irei pagar por isso. Mas não podia deixar o rei de minha raça, o único vampiro de sangue puro que ainda existe, morrer. Mas a sua vida está por um fio, e nem mesmo eu posso manter as portas do Fade fechadas por muito tempo, pois a Morte é algo que vem inexoravelmente. Seu corpo está ainda lá, no chão de seu quarto, e sua alma, aqui, está conectado a ele por um fio. Quero apenas saber algo. Você quer morrer?
Ele baixou a cabeça. Morrer? Não, ele não queria. Mas não sabia como podia evitar. A única coisa em que podia pensar era em sua Beth, que, temia, podia estar morta nesse momento. Na verdade... longe dele, levando um filho seu na barriga... O mais provável era que ela estivesse morta. E isso, ele não podia aguentar. Não podia tolerar a ideia de viver num mundo sem sua amada shellan. Decidiu-se. Sem ela, preferia morrer.
— Eu... eu... — ele apertou os dentes e grunhiu. Logo sentiu suas próprias lágrimas descendo por seu rosto. — Sem Beth, senhora, prefiro a morte. Sem ela... eu sou um fodido pedaço de nada.
Wrath sentiu a Virgem rodeá-lo e logo a sentiu às suas costas. As mãos quentes dela se dirigiram à cabeça dele e tocaram suas têmporas. Ele sentiu uma descarga elétrica ali. Ofegou.
— Ela não está morta, Wrath. Nem ela nem sua herdeira. Te darei a benção de ver o que eu vi quando procurei saber sobre a rainha.
Na mente de Wrath, umas imagens começaram a se formar. Eram tão nítidas que ele ofegava, surpreso. Jamais tivera uma imagem clara das coisas, nem mesmo mental. Mas agora via tudo, embora não através de seus olhos, claramente. Primeiro viu uma região linda, verde. Era uma paisagem montanhosa. A imagem foi se aproximando, até que ele pôde distinguir um chalé. Em seguida, a imagem mudou, e ele viu o interior da habitação. Uma sala decorada em estilo simples, rústico, até que, quando a imagem se focou no chão, Wrath se retesou e gritou, jogando a cabeça para trás. Em sua mente, ele via Beth jogada no chão, arfando, as mãos sobre um ventre imenso, dilatado, o rosto suado, em parte coberto pelos cabelos. Sua boca estava aberta num rictus de dor, as presas, alongadas, talvez pela agonia.
A imagem sumiu da mesma forma que apareceu. Wrath agora novamente só via a habitual escuridão. As mãos da Virgem Escriba, agora, estavam sobre a testa dele, acariciando, como se tentando aliviá-lo da dor.
— Ela não está morta, mas pode morrer a qualquer instante, Wrath. Está em trabalho de parto. Está dando à luz sua filha, sua herdeira. Aquela da qual você não quis a existência. E a rainha está fazendo de tudo para que a criança nasça... Mesmo que tenha que morrer no processo.
— Não... — ele gemeu, angustiado.
— E ela está sozinha, como você mesmo viu. Agora volto a perguntar. Você quer morrer?
Apertando os punhos, ele grunhiu selvagemente.
— Não!
— Então precisa ir salvá-la.
— Mas... mas... eu não sei onde ela está! — ele gemeu, atormentado. — Nunca consegui encontrá-la, não sei que porra aconteceu, mas não consigo rastreá-la através do sangue, é como se ela estivesse usando um estranho tipo de mys...
— Irei salvá-lo, Wrath, e irei ajudá-lo a encontrá-la. Mas antes você tem que saber que tudo o que está acontecendo é sua culpa. Se não tivesse sido tão intolerante, ela não teria por que ter fugido. A dádiva de ser mãe é algo sagrado. Eu sei bem disso. E você tentou tirar dela algo único, um dom que concerne apenas às mulheres. Me prometa que jamais fará isso de novo! A rainha poderá tentar ter quantas crianças ela quiser!
Wrath baixou a cabeça, chorando. Detestava chorar, aquilo o fazia se sentir um fraco, mas a dor que sentia dentro do peito era tamanha que ele não conseguia se conter. Ele era um fodido filha da puta. Sua shellan só estava sofrendo sozinha, no momento, por sua culpa. Em voz abafada, mas intensa, ele disse:
— Prometo que ela terá os filhos que quiser. Eu mesmo me responsabilizarei para servi-la em cada um de suas Necessidades.
As mãos da Virgem Escriba desceram de sua testa até cobrirem os olhos do rei. Wrath sentiu um calor estranho passar daquelas mãos para suas pálpebras fechadas.
— Esse é a primeira dádiva que te concedo.
Quando ela retirou as mãos, Wrath abriu os olhos, e logo teve de fechá-los de novo. Aos poucos, os abriu novamente, e ofegou diante o banho de imagens e brilho que suas retinas miraculosamente curadas miravam. Ele via perfeitamente bem. Como jamais vira em toda sua fodida vida. Todo o branco brilhante daquele lugar, os pássaros coloridos na árvore branca...
Ele sentiu uma sombra escura rodeá-lo, então viu, pela primeira vez claramente, a Virgem Escriba. O véu negro que a percorria de cima a baixo, a luz clara que parecia emanar debaixo dele.
Ela lhe estendeu uma branca e brilhante mão que apareceu debaixo do véu. Ele hesitou em pegá-la.
— Vamos, segure. Venha comigo. Iremos até seu corpo e eu irei te dar a capacidade de ir atrás de sua shellan.
***
Beth chorava, agarrada à sua barriga. A dor que sentia parecia como se estivessem esmagando sua espinha e rasgando-a por dentro. Era quase impossível suportar, e ela só o conseguia porque era a vida de sua filha que corria risco. E, ainda mais, ela sentia como se a essência de Wrath tivesse abandonado a terra. Temia que algo horrível tivesse acontecido ao seu hellren, e aquilo parecia contribuir para acelerar seu trabalho de parto.
De repente, a porta do chalé se abriu e fechou rapidamente. Ela ergueu sua cabeça com esforço e viu, no vão, Angher. O imenso vampiro negro correu até ela e se abaixou.
— Angher? — ela sussurrou, arfante. — Como... como você...
— Deixe as explicações para depois, Beth! Você tem algo com que possa cobri-la para transportá-la até meu chalé?
— Sou mestiça... Posso com o sol... Então devo imaginar que você também é... — nesse momento uma série de dolorosas contrações atingiu seu corpo e ela quase se dobrou. Apertou o grosso punho de Angher com tanta força que o vampiro fez uma careta de dor.
— Sim, sim, mas preciso levá-la até Kindhy, você sabe que ele pode cuidar de você, está quase se formando!
— Salvando minha filha, eu não me importo, Angher!
Ele a pegou nos braços e rapidamente saiu do chalé. Correu até o carro de vidros escuros. Embora pudessem suportar luz do sol, por serem mestiços, a pele deles era ainda muito sensível e se queimava com facilidade. Angher cuidadosamente pôs Beth deitada no banco de trás, deu a volta e entrou no carro, para logo dirigir como um louco para seu chalé.
Quando lá chegaram, Kindhy já tinha preparado um lugar para o parto de Beth. Forrara a cama com algo plástico e, sobre ele, vários cobertores. Tinha esterilizado uma tesoura para cortar o cordão umbilical da criança, quando ela nascesse.
— Beth! — ele gritou, indo até Angher, que a tinha nos braços. Com um sorriso falso, que deixava ver toda a ansiedade que sentia, ele olhou para ela. — Então chegou a grande hora, não é, querida? Vamos ter uma criança linda berrando daqui a pouco!
Ofegando, ela sorriu para Kindhy.
— Eu espero, Kind... Sei como os bebês das vampiras morrem com facilidade... e também as mães... ainda mais com partos fora do tempo...
— Não se preocupe, Beth... Nós faremos o possível para salvar os dois, e tenho certeza que sobreviverão...
— E você, como eu, Beth — disse Angher — não é totalmente vampira. Seus genes humanos devem ajudá-la...
Angher a depositou sobre a cama.
— Angher, querido, você pode ficar ao lado dela, dando-lhe forças? Ela precisa. Quando ela começar a empurrar, segure-a, dê apoio a ela... Isso é trabalho de um hellren, mas na falta dele...
O coração de Beth deu um salto quando ela pensou novamente em Wrath.
— Meu hellren... eu não consigo... sentir a presença dele mais nesse mundo...
Kindhy e Angher se entreolharam. Estava explicado o que acelerara o parto de Beth. Ansiedade, medo.
— Seu hellren está bem, Beth, você vai ver... Vamos nos concentrar apenas em você e nessa criança apressada...
Kindhy tirou a roupa íntima de Beth, abriu e ergueu suas pernas para verificar como as coisas estavam.
— Está com pouca dilatação... Temos que esperar... Um bebê de tantos meses assim não teria a mínima condição de passar.
Beth choramingou quando mais uma onda de dor a atingiu.
— Mas as contrações... Elas estão vindo cada vez mais fortes, e o tempo entre elas está se aproximando...
Kindhy não podia negar para si mesmo. Estava preocupado. Ela tinha muito pouca dilatação para as contrações violentas e rápidas que a acometiam. Ele já podia perceber uma hemorragia que, no momento, era leve, mas que podia se tornar bastante grave se Beth não ganhasse ao menos um pouco mais de dilatação. Ela não aguentaria uma viagem de carro até o hospital mais próximo, que ficava há horas dali, e ela estava muito tensa para tentar uma desmaterialização com ele. O parto tinha que ser normal de qualquer forma. Mesmo porque ele não poderia sequer tentar uma cesariana de emergência, uma vez que não tinha consigo seus instrumentos cirúrgicos.
— Vamos aguardar, Beth, querida. No momento, é o que podemos fazer.
***
Desesperado, Rhage tentava a todo custo despertar Wrath.
— Meu rei, por favor... Droga, Wrath, abra esses seus fodidos olhos, cara!
Tohrment passou as mãos nos cabelos e telefonou para Havers.
— Havers, Tohrment. Venha à mansão da Irmandade agora sem falta. O mais rápido que puder. Desmaterialize-se, é mais rápido, Wrath está precisando de você!
Ele desligou e, abaixando-se, tomou o corpo do macho nos braços e o depositou na cama, enquanto No’One, sentada numa ponta do colchão, olhava para tudo com os olhos arregalados.
— No’One, vá até Fritz e os demais, os acorde, diga que o caso é sério! Podemos estar perdendo nosso rei no momento! Apresse-se, porra!
A vampira disparou para fora do quarto. Os olhos de Rhage, cheios de lágrimas, olharam para o rosto inconsciente de seu amigo, seu Irmão, seu rei.
— Será que a gente vai perdê-lo, Tohr? Não posso imaginar a Irmandade e o mundo de nossa raça sem Wrath! Por que não encontramos um novo médico para a Irmandade quando Jane se foi?! Não quero... droga, não posso perder meu Irmão!
— E não vai perder, guerreiro — disse a inconfundível voz da Virgem Escriba.
Os dois vampiros se viraram para verem surgir de lugar algum a Mãe de sua raça. E abriram as bocas de espanto quando viram que ela trazia pela mão uma forma translúcida e imaterial de Wrath!
A espécie de espectro se aproximou e se deitou na cama, por cima de Wrath, afundando-se e desaparecendo em seu corpo. A Virgem Escriba tirou o véu, fazendo todos – naquele momento, não só Tohr e Rhage, mas a Irmandade em peso, bem como Havers – ficarem boquiabertos com sua figura, que era a imagem mais linda, clara e brilhante que já tinham visto na vida.
A Virgem Escriba, ou Analisse, como ela se chamava, olhou para todos e sorriu com ar de superioridade.
— Não deixaria que Wrath, filho de Wrath, fosse ao Fade, quando há tanto para ser feito pela nossa raça.
Ela pôs a mão sobre o peito de Wrath e uma luminescência saiu de sua mão como uma descarga elétrica, fazendo com que o tronco do macho se erguesse como se ele tivesse recebido uma desfibrilação. Poucos segundos depois, Wrath abriu os olhos. E todos ofegaram quando ele se sentou na cama. Os olhos verdes translúcidos e incandescentes de Wrath não mais tinham apenas um ponto negro como pupila, mas pupilas normais. Ele gemeu:
— Beth... preciso... preciso ir até minha leelan...
Ele tentou se levantar, mas suas pernas fraquejaram e ele teve que voltar para a cama, usando dessa vez a cabeceira para apoiar suas costas largas, mas mais magras que o habitual.
— Assim, você não será capaz de dar um passo fora da cama, guerreiro — disse a Virgem Escriba. — Você precisa se fortalecer... nem que seja por alguns momentos. Então, dar-lhe-ei a honra que jamais outorguei a alguém.
Wrath voltou seus olhos para a Virgem, pela primeira vez vendo a verdadeira beleza que ela possuía. Seus olhos agora estavam vendo intensa e claramente, e ele relanceou o olhar rapidamente pelas faces de todos no quarto, dando-se conta de que era a primeira vez que os via verdadeiramente como eram. Mas logo sua vista se moveu novamente para a Virgem Escriba. E ele ofegou. Ela estava erguendo a manga de sua longa veste branca, deixando a mostra um pulso de um branco pálido, leitoso, perolado. Ela ergueu a mão e disse:
— Beba, Wrath, filho de Wrath. Beba meu sangue, o mais puro de todos e poderoso como nada mais nesse mundo, e ele lhe dará forças momentâneas e a habilidade para quebrar seja que barreira o impede de saber onde está sua shellan. Vá até ela e a salve.
Wrath se sentiu incerto, por um momento, temendo beber o sangue daquela que era a Mãe da raça dos vampiros. Mas Beth, naquele momento, era mais importante que tudo, para ele. Segurou a mão suave, virou-lhe a palma para cima e trouxe o pulso para próximo de seus lábios. Suas presas cresceram com a expectativa de seu corpo em receber um alimento forte, coisa que lhe era negada havia tantos meses. Ele abriu a boca, mas antes dirigiu seus olhos para a face da Virgem. Ela apenas curvou a cabeça rapidamente, dando-lhe permissão. Então Wrath cravou seus dentes nas tenras artérias. Na hora que o mais ancestral e poderoso dos sangues tocou sua língua e desceu por sua garganta, Wrath soltou um profundo rugido gutural enquanto seu corpo se arqueava e enrijecia como se atingido por um raio. Aquele sangue, diferente dos outros, não lhe dava asco, mas o alimentava e dotava de uma energia poderosa, sem igual. Logo ele passou a beber com gula. E o mais incrível era que o corpo da Virgem não se debilitava. Era como se seu sangue constantemente se renovasse. O que era o mais provável de ser verdade.
As células famintas de Wrath adquiriam nova vida. Ele sentia o poder até na medula dos ossos. Quando finalmente se fartou e ergueu o rosto, a Virgem o olhava com aprovação. As feridas nos pulsos se fecharam e cicatrizaram rapidamente, e em segundos era como se jamais alguém tivesse cravado as presas na pele.
— Agora vá, Wrath. Algumas de minhas habilidades e poderes agora formam parte de você. Encontre e salve sua shellan.
Ele se ergueu da cama com facilidade, como se não tivesse quase caído quando o tentara mais cedo. Seguia magro – em relação ao que tinha sido antes – pela falta de comida sólida, mas se sentia igualmente, talvez até mais poderoso do que antes.
Ajoelhou-se perante a Virgem Escriba, tomou sua mão na sua e a levou aos seus lábios, beijando-a suavemente.
— Obrigada... — sussurrou. — Juro, a tratarei agora como sua posição o merece.
Ele se levantou, fez aparecer sobre seu corpo roupas de couro e, sobre os olhos, óculos escuros. Fechou os olhos e se concentrou na imagem, cheiro, presença de Beth. Sentiu a camada protetora que o impedia de seguir seu rastro, mas agora, com os poderes da Virgem Escriba percorrendo seu corpo, aquilo não era nada. Penetrou facilmente pela barreira e logo pôde sentir o chamado. O sangue dela chamava o seu, como o seu chamava o dela. Dando uma última olhada na audiência boquiaberta e silenciosa, Wrath se desmaterializou.
***
Finalmente Beth conseguira um pouco mais de dilatação. Kindhy, agora, a cada vez que uma potente e dolorosa contração vinha, a intervalos curtos e regulares, a instigava a fazer força.
— Vamos, Beth, querida, mais uma vez... Você consegue!
— Eu não estou conseguindo... — ela gemeu, arfando. Seu corpo estava muito dolorido e cansado, depois de horas seguidas de trabalho de parto.
— Angher, ajude-a! Levante as costas dela e a apoie, quem sabe assim ela consegue forçar mais a barriga e fazer a criança sair! Já verifiquei, o bebê não está em posição errada! Se ela se esforçar mais, ele pode nascer!
— Não — disse uma retumbante voz. Os dois se voltaram para ver, aparecendo à porta do quarto, o mais impressionante homem que já tinham visto. Imenso, mais alto ainda que Angher, que tinha uns bons dois metros, ele era forte, embora parecesse ter perdido bastante peso num período curto de tempo. Vestia-se de couro, tinha longos cabelos negros e, na face, um par de óculos escuros. E aquelas características eram conhecidas por todos na raça vampírica, mesmo os que jamais o tinham visto.
— O Rei Cego... — sussurrou Kindhy.
— Wrath, filho de Wrath, o verdadeiro líder da Irmandade da Adaga Negra — disse Angher com respeito e admiração.
Beth abriu os olhos e, arfando, imersa em uma maré de dor, fixou os olhos no grande homem em couro negro. Temia estar tendo uma alucinação. Aquele era o sinal de que ela estava morrendo?
— Wrath... — ela murmurou, erguendo um braço trêmulo, a mão como se quisesse tocá-lo e saber se ele era real.
— Leelan... — disse o guerreiro num tom emocionado e terno. — Eu disse “não”, porque, como hellren de Beth, é meu o privilégio de ajudá-la quando ela está dando à luz o meu filho.
Ele caminhou até ela, no processo tirando os óculos e os jogando de lado. Angher saiu do lado de Beth e Wrath ergueu o tronco dela e se sentou atrás, fazendo-a apoiar as costas em seu peito largo.
Beth aspirou o perfume natural de seu hellren, que havia tanto tempo não sentia, e seus olhos se encheram de lágrimas.
— Eu... eu pensei... que você... estava morto.
Abraçando-a, acalentando-a, instigando-a a fazer força, Wrath apoiou seu queixo no topo da cabeça dela e sussurrou:
— Por um momento, eu estive. Mas voltei, com a ajuda da Virgem Escriba, por sua causa, Leelan... Então, por mim, agora você vai arranjar forças e expulsar de seu ventre nosso filho.
Como se renovada com a visão e a força de seu hellren, Beth passou a empurrar com vigor redobrado.
— Está vindo, Beth! Está vindo! — gritou Kindhy. — Já vejo a cabeça! Esforce-se apenas um pouco mais! Queremos ou não ter o herdeiro do trono conosco ainda hoje?
Num último esforço, Beth gritou e sentiu a criança deslizar de seu corpo. Ouvir o choro agudo trouxe a mais profunda emoção ao seu espírito, e ela chorou. A criança suja de sangue e líquido amniótico nas mãos de Kindhy era a visão mais linda que ela já tinha visto.
— É uma menina, não é? — ela sussurrou.
— Sim, Leelan — inesperadamente, para ela, disse a voz de seu hellren. — Uma menina linda.
Menina linda? Como ele podia saber, cego como era? Beth voltou a cabeça para trás e, ao ver as pupilas normais nos olhos mais incrivelmente verdes que eram os de Wrath, ela ofegou.
— Você... você está vendo...
Ele lhe sorriu, e ela percebeu que os olhos dele estavam marejados.
— Sim, Leelan... o melhor dos presentes. Porque assim eu posso ver o quanto você realmente é bela.
Beth sorriu, mas de repente uma dor profunda a fez ficar séria e logo fazer uma careta. Ela sentia, alguma coisa estranha acontecia em seu corpo.
— Kindhy? — ela sussurrou. — Eu.. eu não estou bem...
Kindhy, preocupado, colocou o bebê nos braços do pai. Esse ofegou ao sentir o peso morno, e quando seus olhos vagaram pela diminuta face, encheram-se de lágrimas. Jamais ele supusera que poderia, um dia, ver de forma tão clara seu filho e sua amada shellan. Beth era... tão, tão linda! Ele olhou para o rosto de sua shellan, que estava muito pálido e com expressão de dor.
— O que houve, Leelan?
— Não... sei... só sei que dói... Mas me deixe... ver minha filha...
Wrath pôs a criança nos braços de Beth. Ela chorou e riu ao mesmo tempo de emoção. O bebê era tão lindo! Tinha uma penugem de cabelos escuros na cabeça e olhos que, embora a cor ainda fosse meio indefinida, já mostravam que seriam tão claros e incandescentes como os do pai.
— Ela vai se chamar Vihcttory.
— Lindo nome, leelan... — Wrath sussurrou, mas seus olhos preocupados estavam na figura de Kindhy, fosse lá quem fosse aquele vampiro, que examinava sua esposa.
— Rompimento... — Kindhy sussurrou. — Acho que algo se rompeu dentro de Beth... Ela está sofrendo uma hemorragia muito forte... se não a detivermos...
Wrath se levantou como um raio e apertou os ombros do cara, sacudindo-os levemente, grunhindo:
— Salve-a! Seja lá que merda tenha de fazer, salve-a!
Na mesma hora braços longos, musculosos e escuros puxaram Wrath para trás e ele ouviu uma voz mortal:
— Salte meu nallum agora.
Rosnando, as presas despidas, Wrath virou a cabeça.
— Se você sabe o que é bom, irá soltá-lo agora e deixá-lo fazer o que é preciso, em vez de agir como um fodido filho da puta — tornou a dizer Angher.
Vendo que era o melhor a fazer, Wrath soltou os ombros do vampiro loiro. Baixou os olhos.
— Sinto muito... Mas... eu preciso que a salve... sem minha leelan... não há para que viver.
Kindhy examinou novamente Beth, e sussurrou, atormentado:
— Não sei se há mais tempo... ela perdeu sangue demais... Ela está morrendo... meu rei.
— Não! — Wrath rugiu, seus olhos enlouquecidos se voltando para sua shellan, que tremia sob o leito, pálida, mostrando força apenas o suficiente para manter Vihcttory nos braços. Então ele se lembrou das palavras da Virgem Escriba. Agora vá, Wrath. Algumas de minhas habilidades e poderes agora formam parte de você. Encontre e salve sua shellan. Ele poderia salvar Beth? Tentaria. Por quantas vezes fosse necessário.
Wrath se ajoelhou ao lado da cama, próximo aos quadris de Beth. Pôs suas duas mãos sobre o ventre dela e fechou os olhos. Com toda sua energia, com todo seu amor, focou-se no desejo de salvá-la, de curá-la do que fosse que ela tivesse.
Uma espécie de energia suave e branca pareceu emanar de suas mãos e penetrar as roupas e pele de Beth. Em sua mente, Wrath suplicava:
Virgem Escriba, se me ouve agora, ajuda-me. Ajuda-me a salvar minha nalla... Eu te rogo... Te suplico...
— Está... — sussurrou a voz admirada e fascinada de Kindhy. — Está funcionando! A hemorragia está parando...
Em mais alguns segundos, a hemorragia parou por completo. Chorando, Wrath encostou sua face no ventre de sua rainha, agradecendo incessantemente à Virgem Escriba por aquele milagre.
Ele se ergueu. Beth, exangue, ainda tremia na cama, pálida. Tinha perdido muito sangue. Wrath sabia que tinha de repô-lo. E agora seu sangue, antes já poderoso, estava muito mais forte, graças ao rico e ancestral sangue da Virgem Escriba, que percorria suas veias. Ele tirou delicadamente Vihcttory dos braços de Beth, depositando-a cuidadosamente nos braços de Kindhy, sentou-se ao lado de sua shellan e mordeu o próprio pulso. Aproximou a ferida sangrenta dos lábios dela.
— Beba, leelan... Beba para se curar...
Ela, entretanto, não bebia.
— Por favor, mahmen, beba... Por mim... por Vihcttory...
Ele abriu os lábios dela e deixou cair algumas gotas vermelhas e brilhantes em sua boca. Os lábios de Beth revoaram suavemente pelos furos, sua língua deslizando, recolhendo mais do néctar da vida que tanto precisava. E, de supetão, Beth agarrou o antebraço de Wrath, trazendo-o mais perto, seus lábios se fechando sobre as punções e sugando com ânsia. Wrath gemeu num misto de prazer e dor. Sentia a maior alegria e o maior prazer do mundo ao saber que estava salvando a vida de sua fêmea.
Beth fechou os furos e ergueu os olhos para seu hellren. Ela se sentia a mais feliz e realizada das mulheres, pois estava com seu hellren, seu bebê era forte e sadio e ela sobreviveria para estar com eles.
Quando Beth finalmente dormiu, Kindhy cuidou de Vihcttory. Envolvida numa longa camisa limpa de Angher, ele depositou o bebê ao lado da mãe, e ele logo adormeceu também aconchegado ao calor materno.
Depois de passar um tempo contemplando mãe e filha, Wrath saiu do quarto. Limpou a garganta. Kindhy estava no colo de Angher, no sofá da sala, o rosto escondido no musculoso trapézio do vampiro maior. Angher deslizava as mãos pelas costas largas do loiro e por seus longos cabelos, sussurrando:
— Calma, nallum... você foi um herói... Você sabe disso... Ajudou Beth, que agora sabemos que é nossa rainha, num momento em que ela precisava de verdade.
Wrath ouviu a voz abafada de Kindhy.
— Eu sei, nallum... Mas por pouco não perdemos nossa amiga.
Os dois voltaram os rostos para Wrath e esperaram. Esse foi até eles e disse, estendendo a manzorra:
— Quero agradecer. Vocês cuidaram de minha shellan quando eu não pude... — nesse momento, a voz de Wrath se quebrou e ele precisou respirar por alguns segundos. Os dois vampiros apertaram, um após o outro, a mão que Wrath oferecia.
— Meu rei... — disse Kindhy. — Foi uma honra cuidar de Beth, ajudá-la quando ela mais precisou de nós.
— Eu não conseguia encontrá-la, por mais que eu tentasse. Poderiam agora me dizer quem são vocês e como conheceram minha shellan?
— Eu sou Kindhy, filho de Nohble. Fui eu que conheci Beth em primeiro lugar. Estava vindo visitar Angher, meu namorado, e me perdi nas Catskills. Então a encontrei em um chalé que era perto daqui, embora eu não soubesse disso, no momento. Ela estava... faminta. Fraca por falta de sangue. Eu acho que ela morreria em poucos dias, se eu não tivesse oferecido meu sangue a ela. Durante esses meses, eu e Angher estivemos alimentando-a.
Um potente odor de macho vinculado inundou o cômodo enquanto Wrath grunhia. Era a natureza dele, como vinculado, mostrar sua posse sobre a fêmea. Mas ele logo se acalmou ao ver que Angher e Kindhy eram homossexuais e que, se não fosse por eles, Beth provavelmente teria morrido.
— Agradeço a você... — ele sussurrou em voz áspera. Voltou-se para Angher. — E você? Kindhy é filho de Nohble, um empresário que pertence à Glymera. E de quem você é filho? Seu nome é Angher, não?
Ele percebeu como o vampiro negro se retesava.
— Sim, sou Angher, mas meu pai era um vampiro civil comum. Não pertencia à Glymera. E minha mãe... era humana. Sou mestiço. Isso importa?
— Uma merda que importa. Minha shellan também é filha de uma humana.
Vendo naquela conversa uma chance para seu amado Angher, Kindhy disse:
— Angher é um guerreiro.
— Porra, Kind, não di...
— Um guerreiro? — cortou Wrath.
— Sim, um valoroso guerreiro. Ele acaba com montes de lessers em Manhattan, e de uma forma tão eficaz que o reduto dos lessers, lá, está se extinguindo.
Wrath mediu o imenso vampiro com seus novos olhos.
— A Irmandade está precisando de novos guerreiros. A verdadeira guerra acontece em Caldwell. Não gostaria de fazer um teste?
Agora Angher parecia paralisado de surpresa.
— A... a Irmandade da Adaga Negra? Mas... mas... sou mestiço... Não sou filho de um guerreiro nem de uma Escolhida...
— Uma merda se isso me importa alguma coisa. E você... — ele se voltou para Kindhy, que parecia emocionado por ter ajudado seu namorado. — Você parece ser bom com essas coisas de médico.
— Kindhy está se formando em Medicina, meu rei — disse Angher numa profunda voz emocionada e rouca. — Ele tem o dom da cura.
— Também estamos precisando de um médico na sede da Irmandade. Pensem direito nessa proposta. Se quiserem trabalhar conosco, apareçam em Caldwell para uma entrevista.
Wrath deu um cartão com apenas um telefone. Não havia mais nada nele, pois ele era cuidadoso em não deixar rastro algum que levasse quem quer que fosse à sede da Irmandade.
Ele deixou Angher e Kindhy se olhando de forma encantada e apaixonada e voltou a entrar no quarto. Seus olhos verdes se enterneceram quando pousaram sobre Beth e Vihcttory.
— Juro... — ele sussurrou em voz rouca, emocionada. — Vocês duas nunca mais irão sofrer por minha causa.
Epílogo
Apesar do forte sangue de Wrath, Beth levou meses para se recuperar totalmente do parto problemático. Nesse meio tempo, Wrath voltou a comer e, de vez em quando, quando sentia que a fome de sangue era muito grande, alimentava-se de uma das Escolhidas, pois não podia se arriscar a ficar fraco, uma vez que, agora, ele alimentava Beth de novo. Como resultado da alimentação sólida substancial, ele tornou a engordar e ficar grande e forte como sempre.
Angher e Kindhy contataram a Irmandade e, depois de um severo rastreamento de cada passo da vida deles por Vishous, constatou-se o quanto eles eram idôneos. Kindhy conseguira seu diploma, e foi contratado como médico da Irmandade, agora que Jane tinha partido. Angher passou a fazer parte de um programa extensivo de treinamento para poder, enfim, se tornar um Irmão.
Mesmo quando Vihcttory completou cinco meses, Wrath ainda receava se aproximar de forma mais íntima de Beth, por temor de machucá-la. Ela já estava subindo pelas paredes. Fazia quase dois anos que não fazia amor com seu hellren, e se sentia quente, necessitada, mas ele rejeitava qualquer tentativa de aproximação. Não que ele não quisesse. Ela sentia, a cada noite em que ele se deitava ao seu lado na cama, o cheiro potente e erótico de vinculação, que exalava cada vez mais constantemente enquanto a abstinência se estendia. Ela via, marcando as justas calças de couro, o grande e grosso membro de Wrath, que parecia viver em uma eterna ereção. A visão e o cheiro a deixavam quente e atormentada, e cada alimentação que fazia em seu grosso pescoço era uma tortura. E outra coisa que a irritava, e enciumava, também, era que Wrath não bebia mais dela. O idiota ainda achava que ela podia estar debilitada, mesmo tendo se passado meses. O ruim era que ela sentia a fome rugindo no corpo de seu hellren. Ele bebia da Escolhida apenas o suficiente para que Beth pudesse saciar a fome sem deixá-lo fraco demais.
Certa noite, já cansada de esperar, Beth tomou uma resolução. Wrath seria dela de novo, ele querendo ou não! E seria nessa mesma noite.
***
Wrath se deitou na cama, já arfando. Vivia agora num constante estado de excitação, mas temia machucar Beth. Ele ainda se lembrava muito bem de como ela se ferira no parto de Vihcttory. Por falar em sua shellan, onde ela estava? Já devia estar dormindo. Ele geralmente vinha para a cama muito tarde, para que ela já estivesse dormindo quando ele finalmente se deitasse.
— Nallum? — disse a voz de Beth. Ele se voltou e seu queixo caiu.
Saindo do banheiro vestindo apenas uma transparente camisola de renda negra, curta e decotada, ela parecia uma deusa. Estava linda e deliciosa. Uma onda de amadeirada fragrância inundou o quarto. Porra. Não tinha como ele esconder o quanto a visão dela o excitava, o odor de sua Vinculação não permitia. Agora, com sua nova visão, tudo era muito mais difícil. Ela era a coisa mais linda que ele já tinha visto em sua vida. Seus longos cabelos escuros balançavam enquanto ela caminhava lentamente para a cama.
— Vamos... vamos dormir... — ele grunhiu, a voz rouca, a respiração arfante.
Beth maneou sedutoramente a cabeça para um lado e para o outro.
— Não, Wrath, não vamos.
Beth afastou o lençol. Ofegou e gemeu, levando as mãos aos próprios seios, cobertos por tecido que deixava divisar os mamilos rijos. Wrath vestia apenas uma Boxer negra, que não conseguia esconder a potência de sua ereção.
Ela se pôs de quatro na cama e sensualmente engatinhou até ele. Wrath, agora, mal podia respirar. Beth parecia uma felina. Ela se sentou sobre as coxas dele e estendeu as mãos, deslizando-as pelo peito musculoso. Arfava de excitação.
— Nallum... — ela disse numa voz sincera, desprovida de artifícios de sedução, embora estivesse rouca. — Eu simplesmente não posso mais esperar. Eu sei que você teme por mim, por minha saúde e integridade física, mas já estou bem há mais de dois meses. Eu preciso de você, hellren. E também preciso que volte a se alimentar de mim.
— Mas...
Ela levou dois dedos aos lábios de Wrath, calando-o, e disse:
— Sem mais. Desejo você, e com tanta ansiedade que não sei como ainda não te violentei — numa voz cheia de ciúmes, continuou — E, mesmo sabendo que não há nada entre você e Layla... Tenho vontade de arrancar os olhos dela a cada vez que você a morde! Se quer que a integridade física da Escolhida se mantenha, aconselho-o, pare com isso. Suas presas tem um lugar onde se enterrar.
Ela tocou o próprio pescoço, bem onde sua jugular pulsava rapidamente.
A fragrância escura da vinculação se tornou mais forte, e Beth fechou os olhos, aspirando-a, envolvendo-se nela. Wrath não pôde mais se conter. Abrindo os lábios, tomou aqueles dedos no úmido calor de sua boca, sugando-os e deslizando a língua entre eles.
Beth arfou e se arqueou. Wrath virou-a rapidamente na cama, arquejando, e, quando ela estava de costas com ele por cima, atacou sua boca em um beijo faminto e voraz. Os lábios masculinos deixaram a boca e deslizaram pelo pescoço, para logo descerem até os seios cobertos de renda e passarem a sugar os mamilos por cima do tecido mesmo. As manzorras deslizaram pelas coxas, subindo a barra da curta camisola até a cintura, então rasgaram a calcinha mínima como se ela fosse um simples cordão. Ergueu as pernas de Beth, apoiando-as em seus ombros, e pressionou o rosto no sexo úmido e sem pelos dela. Aspirou o odor de desejo como se precisasse daquilo para viver, então deslizou a língua, provando a umidade agridoce que tanto gostava. Beth arqueou os quadris contra ele, gemendo, e Wrath os segurou enquanto a lambia e sugava com volúpia até fazer Beth estremecer na agonia e êxtase de um orgasmo fenomenal, o primeiro em um longo, longo tempo. Choramingando, ela agarrou os cabelos longos de Wrath, trazendo-o para mais perto de seu corpo.
Wrath tornou a rolar os corpos, fazendo-a ficar por cima dele.
— Vamos... — ele grunhiu — seguir seu ritmo...
Os olhos vidrados, Beth olhou para baixo. Subitamente tomando um ódio mortal por aquela Boxer negra que a impedia de ver o que tanto queria, ela a rasgou de cima a baixo. Tomou o membro enorme de Wrath em suas duas mãos, percorrendo-o de cima a baixo, os olhos espreitando o rosto dele. As pálpebras do macho estavam meio descidas sobre os olhos de um verde tão expressivo, os cílios longos fazendo uma espécie de sombra. Mas ela percebia, pela primeira vez, as pupilas dilatadas pela excitação. Wrath a espreitava, como um predador. Mas ao mesmo tempo, continha-se. Aquela batalha de emoções era expressiva e muito erótica.
Mordendo suavemente o lábio com suas presas alongadas pelo desejo, Beth se ergueu, segurou o membro pulsante em uma das mãos e foi descendo, sentindo-o escorregar lentamente dentro de si. Wrath fechou os olhos e mordeu os lábios também, mas de uma forma que fez com que uma gotinha de sangue aparecesse. Beth se inclinou sobre ele para poder deslizar a língua pelo lábio e recolher aquela gota deliciosa.
— Seu sabor... é tããão bom...
Ela se ergueu de novo e começou a se mover para cima e para baixo. Ofegando, Wrath abriu os olhos e a admirou. Ela era tão linda ali... Ainda vestia a camisola de renda, e, erguendo os braços, ele baixou o decote até os seios ficarem expostos. O tecido se enrolava agora apenas na cintura e as alças nos ombros. Com os movimentos, os seios fartos balançavam suavemente, o que era muito erótico para ele. Principalmente quando ela ergueu os braços, deslizando as mãos pelos cabelos e arqueando a cabeça levemente para trás.
Aos poucos, Beth aumentou o ritmo dos movimentos. Mas não conseguia ir na velocidade que queria.
— Nallum... — ela gemeu entrecortadamente. — Por favor... Eu quero duro... forte...
Ele ainda pensou brevemente, em meio à sua mente enevoada, que tinha que ser delicado, mas logo o desejo o cegou a qualquer coisa que não fosse a necessidade de fazê-la feliz, de satisfazê-la – e a ele próprio. Rolando na cama de novo, de forma que agora estavam quase atravessados sobre ela, ele ergueu e abriu mais as pernas de Beth, suas mãos seguraram firme seus glúteos. E sem poder se conter, lançou-se sobre ela como um macho selvagem se lança a uma fêmea no cio. Seus movimentos se tornaram rápidos, vorazes, duros, e Beth agradeceu aquilo. Era o que ela precisava. Suas mãos se aferraram aos bíceps dele enquanto suas pernas enlaçavam-lhe as costas com força.
E, sentindo uma fome voraz, ela cravou suas presas duramente no musculoso peito dele, bem sobre onde pulsava uma artéria. O rico e poderoso sangue temperado com as especiarias escuras do desejo entrou aos borbotões em sua boca faminta, e ela bebeu com ânsia. Aquilo fez disparar pelo corpo dela o mais doce e mais cataclísmico orgasmo que já tinha sentido em sua vida.
Como algo inexorável, as presas longas de Wrath se aproximaram da garganta de sua shellan e, mesmo dizendo a si mesmo que precisava se conter, ele afundou suas presas na carne macia daquele pescoço. O sangue doce e delicioso também fez com que o orgasmo dele disparasse, e ainda com a boca sobre a pele dela, ele rugiu enquanto disparava sua semente dentro de seu corpo.
Ambos permaneceram por vários minutos imóveis, apenas sentindo os ecos do prazer aos poucos abandonarem seus corpos trêmulos. Wrath se virou, levando-a consigo, fazendo-a ficar deitada contra o corpo dele, a cabeça apoiada em seu peito arfante.
— Eu... — ele murmurou roucamente contra os cabelos dela. — Eu a machuquei, Leelan?
Ela riu contra a pele almiscarada.
— Machucar? Se dor for remotamente parecido a isso, quero sempre senti-la. Irei me tornar uma masoquista com todo o prazer.
Wrath riu. Suas mãos ficaram acariciando suavemente os braços de Beth.
— Eu te amo tanto, Beth... Jamais farei o que fiz de novo. Você terá quantos bebês quiser.
Ela sorriu.
— Bom, porque pretendo ter ao menos um menino. Um menino forte e lindo como você.
— Eu não sou lindo... Homens não são lindos.
Ela riu.
— São, sim. Para mim, você é a coisa mais preciosa, meu amor...
Ele riu.
— Só não diga isso na frente de meus Irmãos. Preciso manter minha reputação de ogro.
Então ele ficou sério.
— Só quero te pedir que... seja o que for que tenha em mente, a partir de agora confie em mim. Vamos conversar antes de tomarmos decisões precipitadas. Não fuja mais de mim, Leelan.
Ela o beijou no peito.
— Não irei, nallum. Jamais.
***
Dois dias depois, Beth entrou no quarto de Vihcttory, que se comunicava com o seu, e parou, estarrecida. Lassiter estava com a menina nos braços, acalentando-a. E Vihcttory parecia se sentir confortável e gostar de estar nos braços dele.
— Rainha — ele disse.
Ela se aproximou lentamente dos dois. Ainda não o agradecera pelo que ele lhe fizera, mesmo depois de todos aqueles meses. Em voz embargada, ela murmurou:
— Acho que ainda não te agradeci, não foi, Lassiter?
Ele sorriu, algo que era extremamente raro. As luzes do quarto faziam brilhar todos seus piercings e brincos prateados.
— Não era necessário. O simples fato de ter confiado em mim já vale por mil agradecimentos.
Ela sentia muita curiosidade de saber por que ele a ajudara. Afinal, Lassiter parecia não ter nenhum interesse em nada mais a não ser a felicidade de Tohrment, e, agora, de Tohrment, Nalla e o bebê que ela esperava, um menino cuja gestação mal se iniciara.
— Por quê? — ela apenas perguntou.
Lassiter depositou Vihcttory com cuidado no seu berço. Olhou para Beth.
— Quer mesmo saber? Nem sempre é bom ter vislumbres do Futuro.
Mas ela precisava saber. Precisava... entender.
— Esses anos todos em que acompanho Tohrment, desde que o encontrei prestes a morrer na ocasião da morte de sua antiga shellan... Isso tudo está relacionado com o que aconteceu no presente. Meu Destino era fazer Tohr continuar vivo e se recuperar, pois dele nasceria o futuro rei.
Beth arregalou os olhos. Não estava entendendo nada.
— Rei? Como rei? Wrath é rei, e os descendentes dele serão os reis.
Lassiter sorriu.
— De certa forma, isso é verdade. Protegendo a herdeira que crescia em seu ventre — os olhos dele relancearam sobre Vihcttory, cômoda em seu berço — assegurei o futuro da raça.
Ela ofegou. Se o que ela estava pensando era verdade...
— Espere um pouco. Deixe-me pensar... — ela respirou um pouco, tentando concatenar as ideias. — Por acaso está me dizendo que Vihcttory e Brhavve... o bebê que Nalla irá ter... Eles estão destinados...
Lassiter movimentou a cabeça lentamente para cima e para baixo.
— Sim. Eles estão destinados a se vincularem, e de sua união irá surgir o mais poderoso de todos os reis da raça. O que enfim conseguirá acabar com o Ômega e seus Lessers. Isso daqui a incontáveis anos.
Beth arfou sob o peso daquele conhecimento. Seus olhos vagaram sobre a face inocente e linda de sua filha.
— Você está destinada a ser alguém brilhante, Vihcttory. E eu farei de tudo para assegurar isso.
Beth voltou para seu quarto, deixando Lassiter com sua filha. Confiava nele, e tinha certeza de que, se dependesse do anjo caído, sua filha jamais sofreria algum perigo. Deitou-se sobre a cama, enlaçando o corpo de Wrath, que dormia. Ele acordou e a abraçou por trás, pois adorava dormir naquela posição, como se os dois fossem duas colheres encaixadas.
— Leelan? Pensei tê-la ouvido falar com alguém? — ele murmurou numa voz sonolenta.
— Era impressão, Nallum... — ela sussurrou, depositando um beijo suave na mão dele, que segurava as suas. — Volte a dormir.
Logo Wrath dormia de novo. Inundando-se no seu calor e conforto, Beth sorriu.
— Amo você — sussurrou.
— Também te amo... — ele falou durante o sono.
Beth aconchegou sua cabeça no braço dele e finalmente se deixou levar por Morfeu.
Fim
Notas finais
Pessoal, me desculpem a demora. Mas finalmente está aí, todo o resto da fic. Foi muito difícil de fazê-la, mas juro, senti muito prazer. Por favor, comentem, ok? Mesmo sabendo que a fic acabou. Bjs
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