Inverno

11 Capítulo 11


Notas iniciais
Gelo e Fogo

Estávamos na estrada, atravessando a multidão de carros com facilidade. Mesmo estando inseguro, de alguma forma eu conseguia me sentir seguro; difícil entender essa lógica. Seu cheiro atravessava minhas narinas, o que por sinal era algo tentador, o mesmo cheiro era espalhado pela cidade e agraciados seriam aqueles que sentissem.

O lugar era realmente distante, pelos meus cálculos estávamos na estrada por mais de uma hora e isso porque fizemos uma pausa para abastecer. Passava-se, provavelmente, das 13 horas quando paramos em frente de uma lanchonete.

— É aqui? — Indaguei quando Liam estacionou.

— Não ou talvez sim, você decide se quer prosseguir, mas estou faminto, você não? — Quando Liam pronunciou a palavra “faminto”, meu estômago de alguma forma o ouviu, e imediatamente respondeu.

— Bom, o problema é que não trouxe grana. — Mesmo envergonhado, respondi. Lembro-me de ter gasto a minha mísera mesada no táxi e em uma camisa nova para mim.

— Isso não é o problema. Vamos, entre.

Recuar pra que? Ele estava pagando.

Fomos atendidos rapidamente assim que chegamos. Liam fora rápido em seu pedido enquanto eu ainda pensava nas ofertas tentadoras contidas no cardápio. Acabei optando por um sanduíche de frango e batata frita.

— E então? — Indagou.

— O que?

— Fala algo ou vamos ficar nesse silêncio?

— Algo.

— Engraçado, muito engraçado você. Nossa, estou até sem ar de tanto rir. — Ironizou.

— Eu apenas estou curioso. — Falei referindo-me ao lugar em que ele queria me levar.

Liam não dissera nada, apenas olhava para trás de mim, e eu que também fiz a mesma coisa, nada encontrei. Rapidamente fomos servidos. Liam nem sequer pensou duas vezes ao abocanhar o seu e o mesmo fiz logo em seguida.

Parecíamos dois idiotas enquanto sorríamos ao observar o outro comendo. Não nego que me sentia envergonhado com aquele gesto, acho que pelo fato de agirmos feito dois namorados apaixonados, jovens e descobrindo o amor — um romance americano, talvez. — E olha que não éramos namorados e nem mesmo americanos. A única coisa certa era o fato de sermos jovens e de provavelmente estarmos apaixonados, já que juntos descobrimos o amor enquanto éramos menores, mesmo tendo noção de tudo com o passar dos anos.

— Infelizmente a temporada de inverno está acabando. — Quebrei o silêncio.

— Infelizmente?

— Sim. Gosto do clima, de observar as pessoas agasalhadas, de observar a neve e principalmente do tempo frio.

— Fiz a escolha certa em te trazer aqui. — Liam falava sorridente enquanto usava o guardanapo em uma das mãos.

— Numa lanchonete. — Minha vez de ironizar.

— Você parece que só costuma observar em minhas atitudes, vamos John, olhe para trás e dessa vez perceba.

Se fosse uma brincadeira, com certeza eu iria ficar irritado. Chega de todo esse suspense. Mas de qualquer forma o obedeci, foram necessários mais alguns segundos para que eu notasse que em frente a lanchonete, havia uma praça de patinação no gelo.

(...)

— Já pensou em comer a neve? — O loiro me perguntou.

— Sim. Mas meus pais não deixam, segundo eles, não é legal e pode fazer mal.

— Os meus também costumam dizer isso, mas é inevitável observá-las caindo do céu e não abrir a boca em algum momento. — Liam acumulou um pouco de neve em sua mão, formando uma bola e arremessou em mim. — Observa. — Abriu a boca e como pássaro que repousa em árvore, a neve repousara em sua língua.

— Ótimo, espero que morra. — Brinquei, devolvendo em seu rosto outra bola de neve.

— Você tem vontade, uma vez só não faz mal.

— Não adianta, não vou mudar de ideia. Mas mudando de assunto, bem que aqui poderia ter uma praça de patinação no gelo, sempre quis ir a uma.

— Também. Mas pelo que soube, logo terá. Só não sei quando, acho que só na próxima temporada de inverno. Agora, voltando ao assunto. Toma essa! — Tacou a bola de neve em mim e correu.

— Dessa vez, você vai comer neve da minha mão! — Gritei, tentando alcança-lo.

(...)


— Sério isso? — Indaguei confuso.



— Vamos! Nunca mais apareci por aqui. — Disse levantando-se.



— Você lembra-se de quando queríamos patinar e onde morávamos não tinha?


— Lembro. E agora quero vê você levando tombos já que essa vai ser a sua primeira vez. — Me segurou pelo braço, retirando-me da cadeira, para que eu pudesse acompanha-lo.

— Bom... Logo quando você desapareceu, inaugurou uma praça de patinação. E eu já patinei. — Estava esperando um olhar de desapontamento, porém, a única coisa que vi fora seu sorriso mais uma vez.

— Melhor assim! Não perderei tempo te explicando e de qualquer forma você continuará levando tombos. — Gargalhou.

— Idiota.

Quase nos esquecíamos do pagamento na lanchonete, e isso só fora lembrado quando a garçonete chamara nossa atenção. Logo, atravessamos a rua e vimos a quantidade de pessoas que estavam naquele lugar. Eram pessoas de todas as idades e todos os tamanhos, famílias que se divertiam até casais de namorados que patinavam com dedos entrelaçados.

— Vamos alugar! —Liam correu em direção a pequena barraca de alugueis de patins.

Eu continuei andando, aquilo pra mim era mico. Não sou tão retardado assim, ou sou?

Patins nos pés. Agora era somente manter o equilíbrio e lembrar-se de todas as primeiras lições que tivera. Não era difícil, porém, equilíbrio depois de tanto tempo era algo que eu tinha que superar. Segurei nos ombros de Liam que já estava equilibrado até finalmente estar na posição correta. Dei o primeiro passo, seguido do segundo, terceiro e assim por diante. Eu já estava patinando com o loiro do lado, que ria feito um babaca.

— Lembro-me de falarem que eu iria tomar alguns tombos. — Provoquei.

— Olha pra frente.

— O que? — Por reflexo, olhei pra frente, mas era tarde demais. Eu já estava no chão, em cima de outra garota que também derrubara outra.

Vergonha! Sim, era só isso que eu sentia. Nunca mais na minha vida eu tento pronunciar alguma palavra enquanto patino. O pior de tudo, fora conseguir se levantar depois de tudo. Pedi desculpas, mas de nada adiantou — as garota resmungaram um bom tempo. E Liam? Bom, ele gargalhava tão alto que seu rosto ficara vermelho.

— Filho da puta. — Falei extremamente irritado.

Ele continuava rindo sem pronunciar algo, quis derrubá-lo ali. Voltei a patinar sem me importar com a cena e esquecer-se do tombo que acabara de tomar, é lógico que mais pessoas estavam rindo de mim. A palavra certa para o momento era: Ignorar.

— Eu sempre acerto nas minhas conclusões. — Provocou mais uma vez.

— Que ótimo. — Retruquei.

— Sério que você está irritado por conta do tombo?

— Não.

— Então olha pra mim e diz.

Eu olhei, mas não resisti. Ele ainda estava querendo rir de mim e o filho da puta conseguiu fazer com que eu também entrasse na gargalhada. Dois idiotas rindo na pista de patinação.

Passamos exatas duas horas patinando, provavelmente já se passava das 16hrs, quando Liam reclamara de fome mais uma vez. Já não bastava o doce que ele comprara enquanto patinávamos.

— Bom, eu cansei e você? — Indagou, respirando fundo.

Realmente estávamos cansados, tanto é que demos conta de que o número de pessoas no local ia diminuindo.

— Temos que ir embora, imagino a bronca que irei levar ao chegar em casa. — Imaginei as inúmeras perguntas feitas por minha mãe.

— Podemos passar novamente na lanchonete?

— Quanta grana você tem? Nossa!

— Não se preocupa, vamos. Desde quando gastar com comida é pecado? — Brincou.

Fomos a mesma lanchonete que dessa vez estava cheia e se não chegássemos àquela hora, com certeza, não teríamos lugar para sentar. Dessa vez não demorei na escolha, pedindo a mesma coisa que pedi horas atrás, Liam fizera o mesmo.

— Pelo que parece, vai chover. — Disse ele, olhando para o céu.

— E ainda temos que voltar. Era só o que faltava.

— Não temos certeza se realmente irá chover, o tempo costuma nos enganar... Assim como as pessoas. — Lembrou-se do fato que ocorrera na escola.

— Liam, lembre-se de que você também a enganou.

— Sei disso, mas a minha não fora nada premeditado. Está bem, não tenho argumentos para isso. Mas... Era o Tobias, poxa, tanta gente pra trair e logo com ele?

E quando ela souber que o ex-namorado beijou um garoto?

— Você está mal com isso?

— Estou, mas não por Anna, na verdade não sei explicar. Como te disse, nunca houve amor... Apenas algumas noites juntos em busca de sexo, ou até mesmo por carência, optei pelo namoro. Até tentei, achando que com o tempo eu iria amá-la, mas nunca consegui e quando você, bom, quando nos reencontramos, foi aí que as coisas se complicaram.

— Talvez fosse melhor mudarmos de assunto.

— Está bem. — Respondeu de forma direta, reconhecendo que aquele não era o momento pra falar sobre aquilo.

E então ficamos em silêncio até sermos servidos para logo mais tarde pudéssemos sair dali prontos para ir embora.

— Temos que ir. — Falei levantando-me, ao olhar para o relógio da lanchonete.

— Peça para que não chova. — Brincou. — Toma o capacete. — Dissera, entregando-me.

— Agora vamos.

Liam fora o primeiro a subir em sua moto, dessa vez eu não tivera medo antes de subir. E então saímos do lugar onde fora consideravelmente um “canto de paz”. O céu, embora nublado, já estava perdendo a sua luz, aderia à escuridão e parecia não se incomodar; e o imenso tapete branco tornou-se negro.

Já estávamos na estrada por cerca de meia hora quando o céu chorou. Algo de ruim tinha que acontecer pra estragar o dia.

— Vamos ter que parar. — Ouvia sua voz rasgada pelo vento.

Não! — pensei — Eu preciso chegar em casa ainda hoje. Caso contrário, estaria morto com tantas indagações.

A natureza estava prestes a mostrar a sua fúria e infeliz seria o homem que tentasse enfrenta-la. Liam parou no primeiro estabelecimento que encontrara no caminho. Na placa, mesmo com o W e o G um pouco apagados, tinha escrito: Golden Wing, estampada em uma parede verde com listras douradas, em cada andar uma janela branca dividia o que provavelmente seriam os quartos. Liam estacionara embaixo do telhado, protegendo assim a moto. Retirou o capacete e me encarou.

— Pelo que parece — olhou para o céu — não vai parar agora.

Suspirei, pois no fundo concordava, mas a ideia de termos que esperar me incomodava.

— Olha só, acabei me molhando todo.

— Só você? — Sorriu. — Vamos entrar.

— Você conhece o lugar?

— Não.

— Acho que não é uma boa ideia, podemos esperar aqui.

— Não temos ideia de quando essa chuva irá parar, John. É perigoso pilotar moto em tempos assim e também desconfortável. Você prefere ficar aqui fora no frio? É melhor passarmos a noite aqui ou então esperar com que a chuva tenha fim.

— Passar a noite aqui? Não é uma boa ideia, Liam. Nossos pais... — Me interrompeu.

— Tudo bem, John, vamos esperar aqui fora. — Fora curto e grosso ao falar.

— Nossa, quero muito entrar, deitar e dormir. Só acho que a chuva irá passar logo.

Não iria parar. O céu deixava isso claro, seria mais um daqueles dias em que a chuva insistia em cair sem descanso. Quão triste ela estava aquele dia?

— Você venceu. — Falei.

Ao entrarmos, logo chamamos a atenção por estarmos molhados. A única coisa que realmente estava intacta em mim, não ao todo, era minha calça, já a camisa fora banhada pela água da chuva. Em nossa frente, a atendente do local nos esperava com um sorriso no rosto, apesar de espantada. Vai que pensou que éramos dois ladrões, estupradores, assassinos ou até mesmo bruxos. Bruxos? Está bem, exagerei.

— Boa noite, em que posso ajuda-los? — Dissera.

Dona de uma voz irritante e usando uma das frases que mais odeio na vida. Aos meus ouvidos, a entonação das palavras eram falsas. E lógico que ninguém ali queria ajudar, o que estava em jogo era o dinheiro ao final do mês.

— Um quarto para dois, por favor. — Liam disse, repousando o braço no balcão.

— Tem preferencia ao escolher o andar em que quer ficar.

— Gosto do número 2, tem algum disponível?

— Temos sim. Por quantos dias vocês pretendem ficar?

— Apenas uma noite.

Que diálogo irritante, custa tanta pergunta pra conseguimos a porra de um quarto?

— Será que eu posso usar o telefone? — Indaguei, atrapalhando-os— É que preciso urgentemente.

A mulher assentiu e me entregara o aparelho. Enquanto Liam se resolvia com ela, liguei para casa torcendo para que Adam atendesse. Meus pensamentos foram tão positivos que fora ele mesmo quem estava do outro lado da linha.

— Alô, Adam?

— John? Onde você se meteu? Eu estava achando que você tinha...

— Adam, escuta! Preciso que você dê um jeito de dizer para minha mãe que estou fazendo algum trabalho, ou sabe-se lá, inventa alguma desculpa. E ah, provavelmente diga que não voltarei para casa hoje. — No fundo, eu estava implorando para chegar em casa.

— Como é? Onde você está?

— Não posso falar muito — nem um minuto tinha se passado e a mulher e Liam me encaravam — apenas diga isso, eu estou bem, é que aqui onde estou, a chuva resolveu cair. Pois é, a chuva. Mas amanhã, bem cedo, chego em casa. Boa noite.

E desliguei.

— Podemos subir agora? — O loiro me perguntou.

— Sim.

Não tinha elevador no local, então o jeito seria subir as escadas, que não fora tão difícil assim, já que ficamos no segundo andar. Liam quem abrira a porta do quarto, era um lugar pequeno, porém aconchegante, a janela branca fechada e as luzes apagadas, as paredes eram em verde musgo, uma pequena TV estava presa a parede, e ao centro uma cama de casal em madeira, e ao lado uma mesa de cabeceira com um abajur em cima, um pouco mais pra frente, uma porta, o que seria o provável banheiro.

Uma cama de casal?

— Estamos no quarto errado. — Falei dando meia volta.

— Por que?

— A cama.

— O que tem a cama?

— Deveriam ser duas camas de solteiros.

— John, você acha que eu te trouxe aqui pra transarmos?

Sua indagação me pegou de surpresa. É lógico que eu não estava pensando naquilo, só que o fato de deitarmos juntos em uma cama, deixava-me inquieto mesmo sem saber explicar o motivo.

— N-não, é que... é que... Ah deixa.

Liam apenas sorriu, mas nada falou ao entrarmos no quarto. A primeira coisa que fiz foi retirar a camisa e jogar em cima de uma cadeira que se encontrava ao lado da parede. Pensei em abrir a janela, mesmo com a chuva, porém, mudei de ideia ao imaginar que tudo ali dentro iria molhar.

— Preciso de um banho. — Reclamei.

— Você não é o único. Quer ir primeiro?

— Está fazendo frio.

— Alguém me disse que gosta do frio. — Lembrou-me, com seu sorriso, o que eu dissera para ele hoje.

— Isso não quer dizer que meu corpo tenha que suportá-lo. Eu gosto do frio, estando agasalhado, ele é perfeito.

— A água é quente, me certifiquei disso. — Sorriu mais uma vez.

— Irei primeiro. — Disse levantando-me.

Fui diretamente abrir a porta e me deparei com um banheiro apertado. Cujo suas paredes eram em cores brancas, o box era transparente e eu certifiquei-me diversas vezes de que a porta estava trancada para que Liam não entrasse ali.

Retirei minhas roupas jogando-as em cima da pia, fui para debaixo d’água. A água quente parecia ter me abraçado e em instantes livrou-me do frio, desejei ficar ali por horas, mas lembrei do loiro que estava no cômodo ao lado, este também me aquecia, de outra forma, mas conseguia indiretamente fazer que dentro de mim uma espécie de chama ardente de fogo acendesse.

Peguei a toalha — que também era branca — e me enxuguei o máximo possível, voltando a vestir a calça. Quando sai do quarto, Liam esperava sentado na cadeira, levantando-se em seguida para tomar o seu banho. Joguei-me na cama e abracei o cobertor, — presente dos deuses — já que este era irresistivelmente aconchegante. Fechei os olhos para que pudesse acreditar no dia que estava tendo. Não diria que era um sonho, pois sabia que era real. Mas estar com Liam em um dia só para mim, mexia comigo. Foram anos para que, no final, pudéssemos descobrir tudo o que estávamos passando agora.

Pensamentos interrompidos ao ouvir a porta ser aberta e dali sair, apenas de cueca, o loiro, que em suas mãos segurava a calça que fora jogada ao lado da cama.

— Você não está com frio? — Indaguei.

— Estou. — Respondeu.

— Então por que apenas a cueca?

— Minha calça está um pouco úmida.

— E-está bem.

Liam continuou de pé observando-me por uns minutos. Senti um certo incomodo a ponto de pergunta-lo o que estava havendo.

— O que foi?

— Você.

— O que tem eu?

— No centro da cama... Eu quero muito deitar. — Falou sorrindo.

Imbecil! — pensei — E eu achando que era outra coisa. Me senti até um idiota quando realmente percebi que deixei pouco espaço para que ele deitasse. E não demorei a afastar-me um pouco e deixa-lo deitar. O único problema era o fato de ter um cobertor para dois. Ele não hesitou em dividir comigo.

O dono do lugar era o silêncio, que predominou por minutos enquanto estávamos deitados fitando o teto, eu me virei para o lado oposto fixando os olhos na parede, tentando pensar em outra coisa na tentativa de evitar os olhos cinzas ao meu lado. Até lembrar-me do que muitas vezes me perguntei.

— Liam. — Pronunciei, virando-me para olhar em seus olhos.

E não me surpreendi ao encontra-lo olhando para mim. Parecia estar naquela mesma posição há muito tempo, observando-me.

— Diga. — Fora praticamente um sussurro.

— Você nunca me contou o motivo de partir.

Ele ficou em silêncio. E me arrependi de ter falado aquilo. Talvez, não seria algo para conversar naquele momento.

— Desculpa, acho que esse não era o momento. — Falei, revirando-me mais uma vez.

Liam me impediu, segurando-me a cintura para que pudesse olha-lo novamente.

— Eu fugi.

— Fugiu?

— É que eu não me sinto bem falando sobre isso. O fato de lembrar, me deixa com raiva.

— Tanta duvida.

— Eu teria se fosse você.

Quando eu estava prestes a me virar, para tentar dormir, sua mão mais uma vez me impediu de prosseguir.

—Tudo começou quando minha mãe conseguiu um emprego. — Pausou, e antes de prosseguir fitou o teto — Ele me carregou no braço, sorrindo e brincando de avião. Entramos no banheiro e em seguida retirei minhas roupas. Vivia-me contando estórias sobre o mar enquanto eu mergulhava na banheira. As espumas eram chamadas de ondas e eu sempre fingia estar me afogando esperando ser resgatado por ele. Era sempre divertido. — Fez outra pausa — Era. Neste dia, resolveu dar-me banho diferente de todas as outras vezes. Ele também entrou na banheira e pediu para com que eu fizesse o mesmo. E desde então as coisas mudaram.

O loiro fizera outra pausa para respirar fundo e prosseguir.

— E então, todas às vezes antes de minha mãe chegar em casa, ele costumava fazer a mesma coisa. Nos primeiros dias eu não me incomodava com aquilo, até começar a perceber coisas estranhas acontecerem. Havia noites em que ele aparecia no quarto e me tocava. Sempre disse que estava me protegendo dos monstros. Ridículo! O fato de sempre acreditar nisso, faz com que hoje eu me sinta um idiota. — E mais uma pausa fora feita. — Em uma das noites, segurou em minha mão guiando-a até seu membro. Lutei para que isto não acontecesse, já que tudo começara a fazer sentido em minha mente. E no final, eu estava sendo abusado pelo meu próprio pai. Pelo maldito homem que arruinou a minha vida. — Seu semblante mudara, surpreendendo-me com suas palavras que expressavam nojo — Eu tentei de todas as formas avisar para o mundo o que acontecia, mas quem acreditaria em mim? Ele mesmo dissera que aquilo seria o nosso segredo e que ninguém poderia saber, dizia que iriam prendê-lo caso descobrissem. Ele era o meu pai! O meu pai, John.

— Liam... — Minha mão correra em busca da sua.

— Todas as vezes em que eu tentava falar com minha mãe, ele aparecia e me impedia de prosseguir. E as coisas tornaram-se piores com o passar do tempo. Ameaçou tirar minha vida assim como a dela. Aquele em que eu mais mantinha o respeito perdera tudo que conquistou. Era meu pai! Um filho da puta pedófilo que abusava do seu próprio filho. Passei a ter nojo dele, assim como também medo do mundo e das pessoas, sempre achava que estas iriam agir como ele. E então te conheci — Liam voltara a me olhar nos olhos e acariciou a minha mão que estava na sua— Eu sempre quis te contar, John, sempre! Mas não dava. Tinha vergonha, mesmo sabendo que precisava de ajuda.

— Mas Liam, eu era seu amigo na época, eu podia te ajudar. — A dor dominou. Meu peito apertava e eu queria, naquele momento, abraça-lo. Como pode um ser humano fazer tal coisa?

— Não dava, John. Eu quis muito, mas não dava. Chegou o dia em que as coisas teriam que ter fim. E contei para minha mãe, que não acreditou em mim. Agradecia por todas as vezes que eu dormia em sua casa, te amava tanto aquela época por isso. As horas que eu passava com você, eram as únicas de paz e eu procurava me divertir o máximo possível. Uma noite, tudo fora descoberto quando minha mãe fora certificar-se de que eu estava certo e encontrou lá, em cima da minha cama, o homem na qual sempre chamei de pai, abusando do que ela sempre cuidou. Fora um momento de desespero. Quando ele, achando-se no direito apertou seu pescoço pedindo-lhe para ficar calada. Passamos a sermos ameaçados todos os dias, sofrendo calado, até que também iniciaram as agressões contra minha mãe. Ele batia nela! — apertou o cobertor, descontando sua raiva — Não resisti, e mesmo com a pouca força, lá estava eu tacando-lhe o que encontrei em minha frente. Uma faca. Acertei em cheio em seu braço o que o fez gritar de dor, quando minha mãe tivera a oportunidade quebrou em sua cabeça o jarro que estava em cima da mesa, fazendo-o o desmaiar imediatamente. Corremos pela casa em busca de dinheiro e minha mãe tinha um lugar para isso, pegou tudo o que nos era necessários e decidiu desaparecer dali. Tinha medo do que as pessoas achariam. Tinha medo de que ele não fosse preso e continuasse a nos perseguir.

— E então vocês decidiram sair do país?

— Exatamente. Fora um absurdo o que ela decidiu, mas fora a forma mais segura possível a tomar. Foram anos para aceitar o que acontecera, anos de dor, sofrimento e solidão. Quando, no final, ela conseguira trabalhar como faxineira na casa de um grande homem, as coisas mudaram. Costumam dizer que ao final da tristeza, esconde-se uma mina de felicidade. Ele apaixonou-se por ela e ali iniciara um romance, o que resultou no nascimento da minha irmã e tudo que temos hoje... Até ele falecer e eu perder tudo mais uma vez. Eric era um bom homem, fora tudo o que o outro não foi. E um maldito acidente o tira de mim. E a única maneira de me ver longe de toda essa dor, fora aderir coisas que me desligassem desse mundo.

E então, Liam chorou. Não iria suportar ouvi-lo com voz chorosa e lágrimas nos olhos, tudo que soube fazer fora se aproximar dele e encostar sua face em meu tórax. Quis mostrar, naquele momento, que eu continuaria sendo o que sempre fui na infância. Aquele que sempre o protegia.

Eu sentia suas lágrimas repousarem em meu corpo. Liam não conseguia mais prosseguir. Não me importei com isso. Queria apenas tê-lo perto de mim, a partir daquele momento nada mais iria acontecer. Como eu pude deixa-lo ir? Como pude deixar com que todas essas coisas acontecessem? Assim como a chuva que demonstrou sua fúria através das gotas, eu fizera o mesmo através de uma única lágrima.

— E aí, decidi que eu precisava mudar. Quando crianças, sempre temos um super-herói favorito. Você era o meu. Espelhei-me em você e resolvi não mais abaixar a cabeça para ninguém, transformando-se nisso que você encontrou nesses últimos meses.

Liam afastou seu rosto do meu tórax e me olhou nos olhos.

— E agora sou eu quem irei cuidar de você.

E nossos lábios foram selados. Beijo que me arrancava a alma para unir-se a sua. O mesmo beijo fazia-me viajar por dimensões dando-me a certeza de que o quebra-cabeça estava concluído.

Pausaram-se os beijos para que ele fizesse o que fiz. Repousou minha cabeça em seu tórax, aprofundando sua mão em meus cabelos.

Durante todo esse tempo insisti para que não estivéssemos ali dentro, apenas nós dois, por medo do que pudesse acontecer. Quão bobo eu fui. Percebi que estar próximo dele sem a presença de outros, era tão satisfatório e aconchegante, era uma oportunidade única.

O beijo de antes acabara desencadeando desejos que lutavam para serem expostos.

Qualquer que fosse a sua reação eu estava disposto. E como uma águia que do céu estava atenta a procura do seu alimento, o beijei nutrindo assim a chama que fora acesa dentro de mim. Não haviam razões para negar o meu desejo que com beijos quentes passara o meu recado para o dono daqueles perfeitos olhos.

Seu corpo movia-se para cima de mim, ainda aos beijos. As mãos que por muito tempo estavam paradas mergulhavam agora no mar de cabelos loiros, enquanto as deles brincava com minha cintura. Eram dois lábios que insistiam para permanecerem juntos, porém o lábio travesso dele resolveu explorar meu pescoço espalhando por ali, leves mordidas e beijos. De uma coisa eu estava certo, quanto mais eu demonstrasse prazer através de fracos urros — que eram impossíveis de evitar — mais feroz seu extinto de predador vinha à tona.

Encontrei mais uma vez aquelas orbes cinzas fixada em meus olhos, mordendo-me o lábio ele deixava claro que eu estava marcado. Um olhar sapeca, um olhar sincero. Era único e meu. Os lábios macios voltaram a atacar a região do meu pescoço, descendo cada vez mais e explorando cada minúscula parte do meu corpo. Até encontrar o que o impedia de prosseguir. Dentre mordidas e beijos em minha barriga, retirou minha calça exibindo aquilo que denunciava a minha vontade de vê-lo abocanhar de vez todo o falo. Não demorou para que isto acontecesse, quando ainda, usando cueca, eu sentia suas mordidas. — Anjo? Por enquanto. Aprendera com alguém o que estava prestes a fazer — Fora então, que uma de suas mãos colocou para fora a considerada arma dos homens. Finalmente abocanhou!

Eu nunca havia respirado tão fundo como àquela vez. Ondas elétricas eram descarregadas em meu corpo, estas eram suportáveis e prazerosas. Cada centímetro era apreciado por sua língua que brincava com meu membro. Voltou a beijar-me o corpo até encontrar mais uma vez seu lugar preferido para repousar seus lábios. Não fora necessário que eu retirasse sua única peça de roupa, já que este fizera isso antes mesmo de subir em cima de mim.

Ficar parado? Não. Era hora de colocar em prática tudo aquilo que aprendeu, mesmo que em vídeos.

Empurrei Liam para o lado da cama e dessa vez era eu quem estava por cima. Comecei atacando sua orelha, mordendo levemente aquela região. O resultado fora esperado quando sua mão pressionou minha cintura e sua respiração tornou-se forte. Minha mão estava tateando todo o seu membro, que por sinal estava rígido. Por que não dar-lhe aquilo o que recebi? Antes mordi seus lábios até encontrar o pedaço pulsante de carne em minha mão e abocanhá-lo. Brinquei com sua glande enquanto suas mãos acariciava-me a cabeça e ao mesmo tempo guiava meus movimentos. Fora assim por minutos até voltar a beijar-lhe os lábios.

Fora de forma brusca e prazerosa quando Liam jogou-me para a outra extremidade da cama, voltando a subir em cima de mim, com beijos mais quentes chegando cada vez mais próximo da porta que iria libertar de vez os meus mais íntimos desejos. E este encontrou, quando de repente, mordeu meu pescoço e tive quase certeza de que estava marcado. E então, ambos os extintos estavam em uma luta feroz de lábios que lutava para recuperar ar. As mãos de Liam encontraram sua calça no chão ao lado da cama, retirou do bolso a sua carteira e dentro dali, o único preservativo. Observei aquilo atento a suas ações.

— Eu ando prevenido. — Sorriu.

Não consegui sorrir ao imaginar no que estava prestes acontecer, mesmo que no meu interior eu desejava absurdamente seu corpo conectado ao meu. Fora ele que introduzira seu membro na camisinha — e era eu quem estava preste a ser introduzido — ajeitando-a por inteiro. — Eu, que tanto lutei para aceitar o que acontecia comigo estava numa situação um tanto constrangedora, se não fosse o fato de que eu realmente preferia estar naquele papel, já que gosto do domínio que Liam tinha sobre mim.

A mão do loiro usou do lubrificante da camisinha para me preparar. Com isso, acomodou minhas pernas para que pudéssemos continuar em uma posição agradável. E, finalmente — felizmente e infelizmente — conseguiu invadir-me.

Muita dor foi o que senti aquele momento, a ponto de fechar os olhos e afastar Liam de mim. Este, porém, prendeu minhas mãos e sussurrara em meu ouvido:

— Eu não irei te machucar. Olhe para mim. — Sussurrou.

E com essas palavras, ao abrir os olhos, encontrei os olhos que emanavam serenidade. Ele olhava-me com ternura. Mesmo com toda aquela dor, eu tentava ao máximo resistir e suportá-lo dentro de mim. Controlei minha respiração enquanto o loiro fazia leves movimentos dentro de mim.

— Dói muito. — Também sussurrei.

— Eu não imagino o quanto, mas sei que vai passar.

Logo, me perguntei se ele já fizera a mesma coisa com alguém e não obtive respostas, já que como ele me dissera, vai passar e a dor que antes sentira, aos poucos, transformava-se em prazer. Voltei a fechar os olhos para que o tão esperado prazer me dominasse por completo.

Seus movimentos tornavam-se intenso aos poucos que logo descarregavam em mim, novamente, ondas de prazer, assim como centenas de arrepios. Estava tudo voltando ao normal. A boca que por minutos estava afastada da minha, voltara a brincar com meus lábios. Minha única reação era retribuí-lo com urros de prazer, principalmente quando suas orelhas repousavam em meus lábios. Quando não satisfeito, me colocou por cima dele — ainda dentro de mim — e continuou com seus movimentos.

Continuávamos nos encarando com ternura, tendo direito a sorriso bobo e sapeca. Vendo-o explorar meu corpo com a mão, principalmente quando o assunto era acariciar meu rosto e mergulhar a mão em meus cabelos.

Eu queria que as estrelas, aquela que presenciara nosso beijo, estivessem ali. Mas estávamos ao som da chuva que caia lá fora que se tornou melodia para o momento. Corpos conectados, dedos entrelaçados, garotos que se julgam apaixonados.

Minha mão encontrou meu membro e ali iniciara uma masturbação. Prazer em dobro! Seus movimentos intensificaram-se mais uma vez, logo, eu saberia o que estava prestes a vir. Assim como o meu. Liam retirou minha mão do meu membro e resolveu continua o trabalho enquanto continuava com seu membro dentro de mim. Ao final, urros de vozes diferentes se misturaram e ecoaram naquele cômodo.

Cai por cima de seu corpo, respirando fundo e sentido sua respiração em meu ouvido. Fora um dia bom com direito a uma noite de prazer. Eu provavelmente, se ainda relutando, iria me arrepender se não fizesse isto. A verdade era: Estava feliz e satisfeito.

Teríamos que dormir para que amanhã, a realidade e a rotina voltem à tona.

Notas finais
Olá, foram novamente 6 dias de espera e se você provavelmente leu até aqui, eu só te digo uma palavra: Obrigado.
Fora muito difícil escrever este capítulo, cansativo e foram dias para que eu pudesse concluir a minha meta. No final, eu tive orgulho e prazer no resultado, saiu exatamente do jeito que eu imaginava. Só procurei diminuir um pouco do que eu iria escrever sobre o Liam, não deixando a cena tão pesada, já que nem todo mundo suporta tais assuntos. Agradeço de coração a cada leitor que me acompanha até aqui e graça a vocês, eu procuro sempre dá o meu melhor a cada capítulo. Beijo pra minha beta/amiga que perde seus minutos corrigindo meus erros e de qualquer forma, desculpem-me os erros em que nós deixamos passarem despercebidos. É isso, muito obrigado a todos vocês e desculpem-me o atraso. Beijão, amo todos vocês. E ah, espero que aprovem tudo que escrevi nesse capítulo.